terça-feira, 30 de junho de 2015

UNI(r)VERSOS

Ontem fui a Bacaxá, o bairro de Saquarema onde se encontra todo o comércio. Fui ao contador fazer algo muito desagradável, um certificado digital que o governo inventou para tirar mais um pouquinho de dinheiro da gente. Para fazer uma inscrição e ganhar uma carteirinha, 370,00!
Mas seguindo a minha filosofia de vida, em cada momento tem que haver algo bom. Então me sentei na padaria Bela Bel para um pingado e fiquei ali olhando o movimento, vendo toda a gente passar. Vi o maluquinho que era meu amigo, mas ontem estava tão exaltado que passou por mim esbravejando e nem me viu. Durante anos ele passava por nossa casa e eu lhe dava um café com leite e pão com manteiga ou bolo e ficávamos conversando no portão as suas conversas sem nexo. Um dia ele me pediu uma camisa pois a sua realmente já estava bem esfarrapada. Fui até o armário do Juan e apanhei uma camiseta vermelha quase nova. Ele olhou, examinou e me devolveu dizendo: _"Não gosto de vermelho. Não tem azul?" E não levou mesmo a camiseta quase nova! Eu achei incrível.
Eu estava ali, sentada e divagando, fazia um solzinho bom, o pingado era tão bom, era tudo bom naquele momento. Aí chegou alguém perto de mim e me disse: "_ Eu sabia que ia te encontrar!"
Era o poeta Jota de Jesus, o poeta de Saquarema. Ele é um grande trovador e ganha todos os concursos. Nosso amigo Chico Peres, antes de ser vereador, isso é importante, pois não foi com dinheiro público, mas sim do seu bolso, financiou um livro para ele e se chama Uni(r)versos.
As trovas do Jota de Jesus são geniais. Ele é um filósofo em suas trovas. A poesia é a sua vida, o que ele respira e mastiga e é um andarilho, está em todos os lugares, com uma pasta de poemas inéditos e seu livro debaixo do braço.
REVELAÇÃO
Na fotografia
     sou aquele,
que o flash quase esqueceu.
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ACUADO
Não posso falar,
nem ouvir, nem calar...
cantar, sorrir, chorar,
   não posso!
O que fazer?
...sonhar!
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Se nada posso fazer
em relação ao destino,
que eu viva pensando ser
sempre um eterno menino.
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Ele parece mesmo um menino, tão franzino. Nos despedimos, ele seguiu seu caminho e eu ainda fiquei um tempo sentada, pensando.

Hoje vou para Resende ao encontro do meu filho, nora e neto. Amanhã subo para a montanha onde não tenho internet e na minha casinha nem o celular funciona.
Levo livros e a minha paixão pela montanha.
Vou desaparecer até o dia 16. Até a volta e de vez em quando me mandem um pensamento bom.

segunda-feira, 29 de junho de 2015

FRUTOS DIÁFANOS

Recebo de presente o belo livro de poesia de Alfredo Garcia-Bragança.
Seus frutos diáfanos que nosso olhar atravessa e sua sombra, o que dá peso e consistência ao poema . A sombra da memória que todos carregamos, o invólucro dos nossos ossos, os gestos repetidos de algum antepassado, o que se viveu e que se leva nos bolsos feito migalhas de pão para alimentar os pássaros, para alimentar a vida.

O PESO DA MEMÓRIA

Carrego em cima dos ombros
o peso dessa memória
repleta de odores e
sabores do tempo e quando.

Carrego em cima dos ombros
o peso dessa memória:
ectoplasmas de pijama
andam nas ruas-lembranças.

Eu carrego nas retinas
o peso dessa memória:
nas esquinas do que eu fui
dessoterrados desejos.
Eu carrego nas retinas
o peso dessa memória:
olhares varrem quintais
do "paraíso perdido".

Eu carrego pela vida
o peso desa memória,
umbigo solto no mundo,
à espera de ser história.

in Frutos Diáfanos, Alfredo Garcia-Bragança, Obra premiada pelo Instituto de Artes do Pará, Prêmio Max Martins, INP
 

domingo, 28 de junho de 2015

MONIQUE&MONICA

Monique, minha nova amiga francesa, que chegou até a minha casa pelas mãos da minha grande amiga Monica, chegou para ficar, embora tenha partido hoje de volta para o Rio.
Monique faz o trabalho mais belo do mundo. Ela escolheu um país na Africa, Burkina Faso, neste país ela escolheu uma cidadezinha , neste lugar ela escolheu um povoado onde não existe nada, nem água nem luz, pouquíssima comida. Eles basicamente se alimentam de "mil", um cereal que não existe aqui.A pobreza é absoluta. Ela perguntou no povoado o que eles gostariam e ela ela tentaria recursos para fazer. Uma escola, eles responderam. Eles disseram que eram analfabetos e gostariam que seus filhos soubessem ler e escrever.
Ela voltou para a França , buscou associações e finalmente conseguiu recursos na Suíça.
A primeira escola foi construída. Agora ficou pronta a segunda escola.
As aulas são no idioma deles e quando já estão alfabetizados começam a estudar também em francês.
Monique passa três meses por ano neste lugar.
Depois da escola eles disseram que gostariam de ter algumas cabras.
Monique conseguiu recursos para comprar algumas cabras e construir seus cercados.
Ela fez uma campanha para as cabras e teve muito êxito.
Agora as crianças podem beber leite de cabra.
Agora Monique quer construir uma terceira escola para fazer um maternal.
Conhecer alguém assim é o maior presente que eu poderia receber.
Fazer alguma coisa pelo outro, doar algo do que temos para quem tem tão pouco, isso faz com que a vida realmente adquira um sentido.
Ela ficou encantada com a Escola de Magé , Magid Repani, que veio aqui para o Café, Pão e Poesia.  Ela contou a sua experiência para as crianças.
Conversamos muito e nós duas pensamos igual: não podemos mudar o mundo, mas podemos trabalhar no pequeno. Eu dei de presente para as crianças de Magé um dia maravilhoso para a sua memória. Cada criança foi tocada.  Monique conseguiu fazer uma escola num povoado perdido em Burkina Faso. Os adultos lhe disseram: Você salvou nossos filhos da escravidão. Agora eles sabem ler.

sexta-feira, 26 de junho de 2015

VISITAS ESPECIAIS

Quase ao mesmo tempo, um ônibus escolar encostou hoje pela manhã na porta da minha casa e minha amiga Mônica também trazendo sua amiga francesa, a Monique.
Era a E.M.Municipal Prefeito Magid Repani, do Município de Magé, pelas mãos da professora Kátia. Todas as professoras eram maravilhosas, tão amorosas, cuidadosas, fantásticas.
Primeiro descemos todos ao jardim e contei para eles que o jardim magnífico que temos antes era um areal.
Depois, na varanda, no chão forrado com colchas e almofadas, nos bancos, era um jardim de crianças lindas.
Fiz com eles brincadeiras com poemas e finalizamos com o livro Carona no Jipe, depois da leitura eles me contavam para onde gostariam de ir. Muitos queriam ir para Londres, Paris, Barcelona, Rio e outros queriam voltar para Magé.
Aí a surpresa:   Monique, a francesa, trabalha três meses por ano em Burkina Faso na África. Num lugar muito remoto, sem água, sem luz, sem nada, na beira do deserto.
Ela foi para lá ajudar a fazer uma escola. E contou tanta coisa, a gente ia traduzindo. Contou que na época da grande fome as crianças comem apenas três vezes por semana.
Falou do trabalho na escola, como os pais lhe disseram que ela ajudou a tirar as crianças da escravidão. Falou da dignidade deles, de sua criatividade e beleza.
Contou as coisas mas emocionantes e nos mostrou fotos. E pediu para entrelaçar as duas escolas, a de Magé e a de Burkina Faso. Quer que as crianças de um país conheçam a do outro.
As crianças tomaram chocolate quente com bolo e sanduichinhos e biscoitos . Foram até o mar. A metade da turma não conhecia o mar.
Foi um dos encontros mais emocionantes do mundo.
Sorteei alguns livros, Juan autografou e ensinou algumas frases em espanhol para eles. Aprenderam a dizer bonjour!
Cada encontro é tão diferente do outro. E me deixa em estado de graça.

quinta-feira, 25 de junho de 2015

ALEGRIAS

Conversava com meu  amigo Cristiano e minha irmã Evelyn em como está difícil sobreviver emocionalmente a tanta notícia ruim no Brasil e no mundo. Os dois me dizem : há que se agarrar nas pequenas alegrias com todas as forças, e nos amigos, para conseguir enfrentar essa onda de más noticias.
Claro que concordo. Amanhã recebo uma escola para um café da manhã no meu projeto Pão, Café e Texto, já tenho duas escolas para agosto e uma para setembro. Este projeto é uma das maiores alegrias da minha vida.
Dia 1 vou para a montanha virar árvore. Desligo de tudo. Fico 15 dias e estarei com filhos e netos. Muitos amigos prometeram me visitar.
Estar dentro de um pedaço de mata é sim a maior alegria da minha vida.

quarta-feira, 24 de junho de 2015

DIRETORES E COORDENADORES

Pelas mãos do Valdinei e da Secretaria de Educação de Saquarema chegaram hoje de manhã, manhã de sudoeste e chuva, até a minha casa para um café da manhã, trinta e cinco coordenadores e diretores de Escolas Municipais. Tivemos que nos apertar na sala, era impossível ficar na varanda.
A mesa do café estava linda: A Secretaria triuxe canjica, bolo de fubá, bolo de aipim, paçoca. doce de leite... Puro São João.
Conversamos sobre muitos temas, foi muito bom. Desde intolerância religiosa até educação sexual na escola. Conversamos sem medo.
Li um texto da Bia Hetzel, a Fada da Literatura, li um conto do meu livro Exercícios de Amor, Lê ed.. Li um texto maravilhoso sobre educação, resumo de um dos tantos Congressos de Educação. Eram 10 pontos para uma educação de qualidade.
Mostrei como através de um conto se pode falar de prevenção de gravidez precoce e aids.
Algumas diretoras contaram lindas histórias de superação.
Terminamos com todo mundo se abraçando.
E embora até agora nenhuma escola tenha vindo participar do meu Café, Pão e Poesia, hoje uma escola daqui de Saquarema se inscreveu . Tomara que venha mesmo. Estes encontros são alimento para todos.

terça-feira, 23 de junho de 2015

TIC-TAC

Lucia Pellon, uma amiga virtual, foi ao Salão do Livro para me conhecer. Ela me disse que estudou no mesmo colégio que eu, no maternal. Talvez até na mesma sala.
Eu era muito pequena. Teria no máximo 4 anos. As minhas lembranças da escola são pura neblina.
Mas lembro que detestava ir para a escola e como tinha um diálogo constante com meu anjo da guarda, eu pedia que ele fizesse a babá esquecer o caminho. Mas ela nunca esquecia.
Às vezes meu irmão mais velho me levava de bicicleta. Eu repetia o pedido. Mas o meu anjo não ouvia e eu sempre chegava na escola.
Eu vomitava todos os dias na escola. Já tinha uma muda de roupa para trocar.
Não sei o motivo.  
Ainda bem que todos os medos e fragilidades transformei em poesia.
A criança tem um mundo imenso dentro de si, galáxias de sentimentos.
Acabei de reler Miguilim do Guimarães Rosa para o Clube de Leitura da Casa Amarela e acho que foi o livro que melhor conseguiu expressar esse emaranhado dos sentimentos infantis.
Agora estou profundamente mergulhada no Grande Sertão: Veredas . A leitora de vinte anos, quando li o livro,  é muito diferente da leitora de hoje.
Ontem me pediram para citar três livros preferidos. Não há tarefa mais difícil. Mas se eu fosse para os anéis de Saturno e só pudesse levar três livros...
Tic-Tac, a escola que desapareceu no começo da minha infância me diz como o tempo desaparece. Está dentro das mãos em concha, quero guardá-lo, tictac, ele se esvai.

segunda-feira, 22 de junho de 2015

CHAVES PARA A FELICIDADE

Li um artigo tão bom no El País que vou copiá-lo aqui. Sei que nem todos conseguem ler em espanhol, mas com algum esforço dá para entender algumas coisas. Quem sabe a partir deste artigo o meu leitor ou a minha leitora ficam loucos de vontade de aprender espanhol? Aprender uma lingua é algo maravilhoso. Lá vai:

"Cada vez parece más claro que la nueva fiebre del oro no tiene que ver con hacerse millonario ni con encontrar la fuente de la eterna juventud. El tesoro más codiciado de nuestros tiempos es atesorar felicidad, un concepto abstracto, subjetivo y difícil de definir, pero que está en boca de todos. Incluso es materia de estudio en la prestigiosa Universidad de Harvard.
Durante varios años, algunos de los estudiantes de Psicología de esta universidad americana han sido un poco más felices, no solo por estudiar en una de las mejores facultades del mundo, sino porque, de hecho, han aprendido a través de una asignatura. Su profesor, el doctor israelí Tal Ben-Shahar, es experto en Psicología Positiva, una de las corrientes más extendidas y aceptadas en todo el mundo y que él mismo define como “la ciencia de la felicidad”. De hecho, sostiene que la alegría se puede aprender, del mismo modo que uno se instruye para esquiar o a jugar al golf: con técnica y práctica.

Aceptar la vida tal y como es te liberará del miedo al fracaso y de unas expectativas perfeccionistas
Tal Ben-Shahar, profesor de Harvard
Con su superventas Being Happy y sus clases magistrales, los principios extraídos de los estudios de Tal Ben Shahar han dado la vuelta al mundo bajo el lema de “no tienes que ser perfecto para llevar una vida más rica y más feliz”. El secreto parece estar en aceptar la vida tal y como es, lo cual, según sus palabras, “te liberará del miedo al fracaso y de unas expectativas perfeccionistas”.
Aunque por su clase de Psicología del Liderazgo (Psychology on Leadership) han pasado más de 1.400 alumnos, aún así cabría hacerse la siguiente pregunta: ¿Alguna vez se tiene suficiente felicidad? "Es precisamente la expectativa de ser perfectamente felices lo que nos hace serlo menos”, explica.
Estos son sus seis consejos principales para sentirse afortunado y contento:
1. Perdone sus fracasos. Es más: ¡celébrelos! “Al igual que es inútil quejarse del efecto de la gravedad sobre la Tierra, es imposible tratar de vivir sin emociones negativas, ya que forman parte de la vida, y son tan naturales como la alegría, la felicidad y el bienestar. Aceptando las emociones negativas, conseguiremos abrirnos a disfrutar de la positividad y la alegría”, añade el experto. Se trata de darnos el derecho a ser humanos y de perdonarnos la debilidad. Ya en el año 1992, Mauger y sus colaboradores estudiaron los efectos del perdón, encontrando que los bajos niveles de este hacia uno mismo se relacionaban con la presencia de trastornos como la depresión, la ansiedad y la baja autoestima.
2. No dé lo bueno por hecho: agradézcalo. Cosas grandes y pequeñas. "Esa manía que tenemos de pensar que las cosas vienen dadas y siempre estarán ahí tiene poco de realista".
3. Haga deporte. Para que funcione no es necesario machacarse en el gimnasio o correr 10 kilómetros diarios. Basta con practicar un ejercicio suave como caminar a paso rápido durante 30 minutos al día para que el cerebro secrete endorfinas, esas sustancias que nos hacen sentir drogados de felicidad, porque en realidad son unos opiáceos naturales que produce nuestro propio cerebro, que mitigan el dolor y causan placer, según detalla el entrenador de easyrunning y experto corredor Luis Javier González.
4. Simplifique, en el ocio y el trabajo. “Identifiquemos qué es lo verdaderamente importante, y concentrémonos en ello”, propone Tal Ben-Shahar. Ya se sabe que “quien mucho abarca, poco aprieta”, y por ello lo mejor es centrarse en algo y no intentarlo todo a la vez. Y no se refiere solo al trabajo, sino también al área personal y al tiempo de ocio: “Mejor apagar el teléfono y desconectar del trabajo esas dos o tres horas que se pasa con la familia”.
5. Aprenda a meditar. Este sencillo hábito combate el estrés. Miriam Subirana, doctora por la Universidad de Barcelona, escritora y profesora de meditación y mindfulness, asegura que “a largo plazo, la práctica continuada de ejercicios de meditación contribuye a afrontar mejor los baches de la vida, superar las crisis con mayor fortaleza interior y ser más nosotros mismos bajo cualquier circunstancia”. El profesor de Harvard añade que es también un momento idóneo para manejar nuestros pensamientos hacia el lado positivo, aunque no hay consenso en que el optimismo llegue a garantizar el éxito, sí le aportará un grato momento de paz.
6. Practique una nueva habilidad: la resiliencia. La felicidad depende de nuestro estado mental, no de la cuenta corriente. Concretamente, “nuestro nivel de dicha lo determinará aquello en lo que nos fijemos y en las atribuciones del éxito o el fracaso”. Esto se conoce como locus de control o 'lugar en el que situamos la responsabilidad de los hechos', un término descubierto y definido por el psicólogo Julian Rotter a mediados del siglo XX y muy investigado en torno al carácter de las personas: los pacientes depresivos atribuyen los fracasos a sí mismos, y el éxito, a situaciones externas a su persona; mientras que la gente positiva tiende a colgarse las medallas, y los problemas, “casi mejor que se los quede otro”. Sin embargo, así perdemos la percepción del fracaso como 'oportunidad', que tiene mucho que ver con la resiliencia, un concepto que se ha hecho muy popular con la crisis, y que viene prestado originariamente de la Física y de la Ingeniería, con el que se describe la capacidad de un material para recobrar su forma original después de someterse a una presión deformadora. "En las personas, la resiliencia trata de expresar la capacidad de un individuo para enfrentarse a circunstancias adversas, condiciones de vida difíciles, o situaciones potencialmente traumáticas, y recuperarse saliendo fortalecido y con más recursos”, afirma el médico psiquiatra Roberto Pereira, director de la Escuela Vasco-Navarra de Terapia Familiar"

domingo, 21 de junho de 2015

SALÃO DO LIVRO

Ontem tive uma grata surpresa no Salão do Livro. Era um sábado, dia em que as escolas estão ausentes do Salão, achei que não ia ter nenhum público. Mas, depois de um encontro muito feliz com a Carolina, minha editora da Rovelle, fui para o espaço de Encontro com os Leitores. Lá estava a Miriam, de coordenadora, foi ela quem me levou para a Rovelle, e eu a adoro. Comecei com umas poucas pessoas e de repente um sol inteiro entrou pela sala . Era uma escola de Duque de Caxias, onde tenho muitos leitores. Eram pré adolescentes e adolescentes e foi uma alegria só! Fizemos mil brincadeiras, eles eram maravilhosamente participativos.
Depois chegaram Bia Hetzel e Silvia Negreiros, minhas editoras amadas da Manati. Almoçamos juntas. Na saída do almoço encontrei o Rui de Oliveira, fomos grandes amigos no passado e não nos víamos desde muito tempo!
Ás 14 horas fui para o espaço dos autógrafos e a surpresa: muitos amigos foram me ver.
Monica Botkay, Cristiano e Ana, Lourdes de Oliveira e Stella Maris, a grande escritora! E como se não bastasse chegou a ilustradora do Colo de Avó, a Elizabeth Teixeira!
Foi uma festa. Nosso tempo se esgotou e fomos para o stand da Manati. Conheci várias amigas virtuais, uma professora de uma escola de Vassouras, que prometeu levar os alunos ano que vem até a minha casinha da montanha quando eu estiver lá, a Kátia que veio de Realengo só para me conhecer! a Elizabeth Caldas que é minha grande leitora...
Na hora de ir embora mais uma surpresa maravilhosa, uma pessoa que mora no meu coração, a CriCri, veio com os filhos para que eu os conhecesse!!! Moramos juntas nos anos setenta.
Enfim, voltei com a minha arca de tesouros transbordando. Obrigada todo mundo!

sexta-feira, 19 de junho de 2015

SESSENTA MILHÕES

Na Segunda Guerra Mundial morreram sessenta milhões de pessoas.
Ontem a ONU divulgou um número aterrorizante: cinquenta e nove milhões e quinhentas mil pessoas estão "deslocadas".  Trinta milhões são crianças.
Deslocadas quer dizer que estão refugiadas , estão em trânsito, vagando por aí, estão em situação provisória. Saíram de seus países, de suas cidades, de seus bairros, de suas casas.
São pessoas, não são um número. Estão fugindo das guerras, de perseguições étnicas, religiosas, fugindo de conflitos.
São pessoas como nós, como eu e você , precisaram deixar tudo para trás, fugir. São pessoas que viviam uma vida, brincavam, cozinhavam visitavam seus parentes, tinham sonhos, projetos. Tiveram que fugir.
Então a Segunda Guerra não ensinou nada.

quinta-feira, 18 de junho de 2015

NÓS

Todos os dias acordamos para a vida. Não sabemos o que a vida colocará em nossa porta. Cada dia temos que impregnar as mãos em nosso poço interno de alegria e esperança para cumprir o dia.
O Brasil vive um momento duro, difícil, desesperança e desespero estão muitas vezes na mesa de cada um. Mas a vida é movimento, a Terra dança no céu, nada é para sempre. Dias melhores virão.
É uma questão de sobrevivência nos lembrarmos de que eu sou eu e o outro. Se não me esqueço disso, a delicadeza e a honestidade irão pautar a minha vida.
A arte nos salva e nos dá lições de humanidade. A poesia amplia nossas dimensões.

NÓS

Quando repentinamente
olhamos para trás
e nossos pés flutuam
sobre as pegadas
dos que nos antecederam
e nos sentimos a corda
de uma grossa cadeia,
aprendemos que tudo
que é o outro
somos nós.

in Cinco Sentidos e Outros, ed. Lê

quarta-feira, 17 de junho de 2015

FEIRA LITERÁRIA DE RESENDE

Voltei da Feira de Resende fortalecida , apesar dos bilhões que foram cortados da Educação.
A Feira era uma festa num espaço ótimo para as crianças, tinha um ar de quermesse e era uma Feira Literária com povo dentro. Todas as classes sociais misturadas e todos comprando livros!

Dança, teatro, contação de histórias, computadores interativos com histórias, shows de música e cada segmento de Resende estava representado em suas barraquinhas. Lá fora um ar de festa junina, gente da Cruz Vermelha pintando as crianças, salsichão, pipoca, cachorro quente, crianças correndo...
Assisti a um show com a obra do Vinicius , música e poesia, lindo de morrer, um show de hiphop espetacular, tive um encontro com um público atento num auditório feito sob medida, e a Feira fechou com chave de ouro: a Deusa Elisa Lucinda, que derramou poesia e beleza pelo Universo inteiro.
Tomara que as cidades continuem fazendo as suas Feiras Literárias apesar da crise. É um sopro de esperança num país machucado.

sexta-feira, 12 de junho de 2015

PARA O DIA DOS NAMORADOS III

Namorado ou namorada é tudo de bom. Mas não precisamos ficar restritos a uma ideia preconcebida. Podemos namorar uma estrela, a lua, uma árvore, um cachorro, uma gata, uma rena, um boi, um cavalo... Namorar é derramar sobre o outro, humano ou não, um olhar amoroso.
Hoje termino de contar o meu conto da Maria, do livro Exercícios de Amor. Mas antes divido com vocês a primeira namorada do poeta Manuel Bandeira:

PORQUINHO-DA-ÍNDIA

Quando eu tinha seis anos
Ganhei um porquinho-da-índia.
Que dor no coração me dava
Porque o bichinho só queria estar debaixo do fogão!
Levava ele pra sala
Pra os lugares mais bonitos mais limpinhos
Ele não gostava:
Queri era estar debaixo do fogão..
Não fazia caso nenhum das minhas ternurinhas...

_ O meu porquinho-da-índia foi a minha primeira namorada.


MARIA (final)
 
   Ele conta: está separado. Passou por um período difícil, de depressão. Parecia que sua vida não passava de uma sucessão de desastres. Ele só poderia contar pessoalmente.
Mas, lá no fundo de tudo, havia um país ensolarado, uma jovem a quem dedicara tantos sonhos. Tudo isso dançava em sua memória quando ele queria afundar.
No fundo, ele sabia que podia reconstruir a vida.Então arriscara escrever sem saber se a carta chegaria ao destino. Era o endereço que tinha, numa caderneta velha, que sobrevivera intacta a todas as encruzilhadas.
   Quando seus pais morreram, Maria que morava sozinha depois de sua separação,voltou para a casa da infância. Às vezes esbarrava com ela mesma em algum cômodo da casa; a casa parecia uma arca de memórias. Mas era bom, sentia a presença dos pais, o seu amor. E agora estava aqui para receber a carta, como antigamente, o cheiro de céu no envelope.
   Maria queria ir para a rua e dançar na chuva. Era outra vez a menina do barco. Buscou o livro na estante: Vinte Poemas de Amor e Uma Canção Desesperada. Nenhum poeta escreveu versos de amor tão magníficos como Neruda.
   Maria escreve: "Julian, venha, temos muitos anos para passar a limpo. A minha vida também foi uma sucessão de desastres. Ou uma espera. Mas os poemas do Neruda que você me ensinou a amar, sempre me acompanharam."
   E nem por um segundo o metrônomo deixou de partir o tempo, até que a sua carta, como aquele pequeno barco, atravessasse o mar e chegasse até as mãos de Julian, e até que sua resposta chegasse num dia de sol: "Sim, vou".
   E nem por um segundo o metrônomo deixou de partir o tempo até o dia em que, com a mão tremendo, Maria abriu a porta da casa para Julian, que era o mesmo e não era o mesmo. Fazia sol. E o sol brilhava nos olhos de Julian. Na rua, o jasmineiro desprendia um cheiro de amor que se esparramava pela casa como um presságio.
   Um beijo que tinha gosto de cordilheira, de pássaros selvagens abrindo caminho novamente em seu corpo, de um barco azul e branco, mudou novamente sua vida e a rotação da Terra.
 
in Exercícios de Amor, Lê Editora, Altamente Recomendável para Jovens




                                             
   

quinta-feira, 11 de junho de 2015

CONTINUAÇÃO DO CONTO MARIA

   Então Julian a beija, e é a inauguração de seu corpo, um beijo imenso e salgado, seu primeiro beijo.
   Na volta, sentados juntos no barco, ele promete que vai escrever, que vai voltar, que agora ela é a sua namorada. Ele pede aos pais um pedaço de papel e uma caneta e anota seu endereço; ele diz, "eu prometo", num tempo em que as cartas, com suas palavras escritas em papel, era a ponte que unia pessoas distantes.
   Quando o barco atraca e range, Maria desce e apresenta Julian e a família a seus pais. Então todos resolvem almoçar juntos, passar juntos o resto da tarde. Os pais de Julian são alegres, simpáticos, e o menino, o irmão, faz palhaçadas para ser notado. Maria nunca havia imaginado que um momento tão perfeito pudesse existir.
   Da estante de livros seus pais a olham numa moldura de conchas, jovens, belos e enigmáticos. Ela fala para eles em voz alta: depois de tantos anos, Julian escreveu outra vez.
   A volta para casa naquele dia distante foi uma mistura de sensações. Julian era um sonho? O beijo ainda latejava em sua boca.
   Um mês depois recebeu uma carta. Ele prometia não a esquecer. Havia um poema do Pablo Neruda do livro Vinte Poemas de Amor e Uma Canção Desesperada. Maria entrou num curso de espanhol. E decidiu estudar literatura. De certa maneira, Julian forjou seu caminho.
   Mas, com o passar do tempo, as cartas foram se espaçando e Julian não voltou. Vieram outros beijos, outros encontros, um casamento que se desmanchou. Vieram alegrias e tristezas e nunca mais nenhuma carta. Nunca mais souberam um do outro.
   A chuva apertava. A carta, que ainda não foi aberta, lateja no colo, como um gato ou um filho. Ela abre a carta com cuidado, como um tesouro. A caligrafia, ela lembra, é a mesma, letras miúdas como pequenas mariposas. E ela pode ouvir sua voz, como se a carta fosse gravada

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                                          CONTINUA AMANHÃ

quarta-feira, 10 de junho de 2015

DIA DOS NAMORADOS

O Dia dos Namorados se aproxima. E quero lembrar que amor não é só de um homem por uma mulher ou de uma mulher por um homem. O amor assume as formas mais variadas e como disse o poeta, qualquer maneira de amar vale a pena.
E como disse Ítalo Calvino na epígrafe que usei em meu livro Exercícios de Amor, que retirei do livro O Dia de Um Escrutinador, Cia das Letras , " O humano chega aonde chega o amor, não tem fronteiras a não ser as que lhe damos."
Se o amor não tem fronteiras, toda forma de amor é lícita, só o desamor é ilícito. E quem ama não machuca, o amor precisa ser generoso para ser amor.
No meu livro de contos, cada um tem o nome de um personagem, homem ou mulher. E abordo com delicadeza muitas maneiras de amar.
O conto que escolhi para transcrever aqui como presente do Dia dos Namorados, e que irei dividir em três pedaços, é bem simples, singelo e fala de recomeço, de esperança, de chuva e de sol.  Fala de um amor que ficou latente, semente adormecida, o amor de um homem por uma mulher...

MARIA

   A chuva era uma cantilena que trazia ecos de um pátio da infância. Vozes perdidas enchiam a memória de cantigas de roda, mas nem por um segundo o metrônomo deixou de partir o tempo durante dias e meses e anos, até desembocar neste preciso instante onde Maria, com uma carta no colo, olha pela janela da sala os cacos de chuva, ao abrigo.
   Quando acordou nessa manhã de abril, ao descer para apanhar o jornal e a correspondência, não havia nenhum aviso no céu, além da chuva, do que estava para acontecer.
   Maria olha pela janela com a carta nas mãos e o que vê é um barco ancorado no cais, e ela, uma jovem menina, pronta para o passeio, enquanto seus pais lhe fazem mil recomendações. Eles a esperariam, na volta, no mesmo lugar.
   A carta traz um selo do Chile. E um nome: Julian. A doçura do nome esquecido em algum desvão da memória, oscila junto com o barco. Era um saveiro azul e branco e os turistas já se acomodavam prontos para a partida. Enquanto o barco se afastava naquela estrada de água clara, seus pais acenavam do cais e a família à sua frente falava espanhol. Um casal, um menino de uns oito anos e um rapaz de dezoito ou vinte.
   Sua rua é calma, as árvores suntuosas derramam verde na calçada.  O prédio é antigo, de três andares, construído na década de 50. Herança dos pais que morreram ano passado num acidente de avião. O bairro guarda certa inocência e a proximidade do mar, às vezes, traz um ar salgado e bom. Mas hoje traz saudades.
   O rapaz sorri para ela do banco em frente e, num átimo, senta-se ao seu lado. Eles conversam, cada qual em sua língua e, cada vez que ele fala, Maria estremece como se um vento desconhecido passasse por sua pele.
   O barco para numa pequena ilha e Julian a ajuda a descer. Sua mãe é doce e quente. Eles mergulham juntos no mar. Caminham até o final da praia abraçados.

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                                  CONTINUA AMANHÃ

terça-feira, 9 de junho de 2015

LIVROS PARA COLORIR

A Editora Manati, faz a seguinte chamada para o lançamento que farei do Colo de Avó, no dia 20 às 14 horas, no Salão do Livro Infantil e Juvenil, no Rio de Janeiro:

"Pessoal, olha que oportunidade in-crí-vel: UM LIVRO QUE JÁ VEM COLORIDO e não se propõe a salvar ninguém dos calmantes tarja-preta, com poemas de Roseana Murray , e a chance de ganhar um rabisco de quem mais importa (a autora predileta de milhões de brasileirinhos"

Não sou especialista em nada, mas gostaria de dar o meu palpite sobre este fenômeno editorial de colorir livros.
Façamos uma analogia: livros para colorir seriam eucaliptos. Livros de literatura, com letras, frases, histórias, poemas, estruturas de pensamento, seriam árvores frondosas da Mata Atlântica.
Acontece que metade das vendas de livros hoje são de livros para colorir para adultos.
Então no futuro teremos um deserto de eucaliptos.
Eu proponho:para cada livro de colorir que você comprar, compre dois de literatura. Só assim continuaremos seres pensantes.
Fabricar catedrais de pensamentos é um dos itens que nos faz humanos. Colorir é muito gostoso, assim como do eucalipto se faz papel, se acende uma bela fogueira, mas não se cria diversidade com eucaliptos,colorir é uma atividade lúdica que não inquieta. Mas acontece que temos que pensar senão o cérebro congela. Temos que entrar em outros, mundos, viver outras vidas para exercitar a empatia e a imaginação.
Acho o fenômeno muito preocupante. Espero que seja simplesmente uma onda passageira e que se esgote.
Aproveito para indicar o livro Uma Praça em Antuérpia, de Luize Valente, ed. Record. É seu livro de estreia e é muito bom. Não é para colorir.

domingo, 7 de junho de 2015

CAMINHADA

Retomo as caminhadas embora ainda não esteja bem, a virose grudou em mim!
Caminhar por dentro de Saquarema é uma dádiva imensa. A luz, os pássaros, a vegetação , as flores, as casinhas, entro num cenário idílico que deixa nas margens todos os horrores do mundo.
Penso: deveríamos oferecer às crianças, todos os dias, doses fartas de beleza, poesia, bem estar. Talvez assim o cérebro que é plástico, fosse se expandindo na direção do amor, como o girassol que busca o sol. É terrível vivermos imersos numa cultura tão violenta.
É como se houvesse uma rua com escombros, sangue, destruição, outra com sol e árvores maravilhosas.
Oferecer doses fartas de arte todos os dias nas escolas é escolher a rua maravilhosa.
O ser humano é feliz quando está criando. A sua auto estima cresce e ele consegue viver em outras dimensões.
Que todos os dias possamos exercer nossos melhores dons, descobrir a alegria simples de estarmos vivos.

sábado, 6 de junho de 2015

AMIZADE

Já li tantos ensaios sobre a amizade e no entanto, como é difícil explicar essa misteriosa forma de amor. Amigos para mim são sagrados, são bússola, âncora, arco-íris. São a rede no fundo do abismo, a aurora boreal dentro da noite escura. O primeiro mandamento para uma bela amizade, é a aceitação do outro. Do jeito que ele é. Nos momentos duros da vida os amigos verdadeiros ficam, os que não são verdadeiros fogem.  A qualidade do silêncio entre amigos é musical, é veludo. Um amigo sabe de mim apenas pelo tom da minha voz . Pela postura do meu corpo. Se um amigo me pedir a lua, vou tecer uma escada de vento para alcançá-la. Os amigos verdadeiros sabem as horas em que precisam estar presentes, eles possuem o dom da telepatia e da adivinhação . E como não poderia deixar de ser, escrevi muitos poemas sobre a amizade.

CORAÇÃO

Meu rosto se reconhece
na chuva e no vento,
as mãos se reconhecem
nas pedras, em seu silêncio denso,
os pés se reconhecem no barro,
nas folhas esmagadas e seu cheiro
de terra antiga,
meu coração se reconhece
na cantiga
de outro coração.

in Carteira de Identidade, Lê ed.

sexta-feira, 5 de junho de 2015

A VOLTA

Voltei de Veneza exausta, mas mais do que isso, com febre e dor de cabeça. Acho que peguei a virose da minha enteada Maya e sua filha Kira. Passei dois dias de cama e estou revivendo aos poucos.
Tenho uma viagem na terça-feira para Resende - Mauá e espero me recuperar bem até lá. Na verdade atravessar um oceano não é atravessar um lago e todas as vezes em que fui a Europa voltei muito cansada.
Agradeço aos leitores que viajaram comigo. Escrever sobre Veneza é uma temeridade, afinal tantos escritores maravilhosos escreveram sobre a cidade , compuseram obras musicais , como Wagner que ficava temporadas em Veneza buscando inspiração.
No último dia pela manhã fomos novamente até a Fondamenta Nuove, onde os turistas quase desaparecem. É um dos meus lugares prediletos .
Viver em Veneza deve ser muito difícil, três venezianos nos disseram :" Para conseguir morar em Veneza tem que ser veneziano, ter nascido aqui." O primeiro era o dono de um prédio apart-hotel em Dorsoduro, fomos ver o apartamento de curiosidade e conversamos com ele sobre isso. O segundo era o cabeleireiro onde cortamos o cabelo ano passado e voltamos para um novo corte. Ele nos disse que é tudo tão difícil, que realmente... só tendo nascido aqui. E finalmente o terceiro foi o dono do restaurante em Rialto onde nos levou nosso amigo Paolo, o garçom da Taverna Maurizzio, junto com sua noiva russa Eugeniya. Ele nos disse que se pode até amar Veneza mas morar é muito difícil, tem que ter nascido em Veneza. Pronto, três depoimentos idênticos de gente local. Paolo, nosso amigo, detesta Veneza, ele é de Puglia e mora em Mestre, terra firme, ligada a Veneza por uma ponte. Trabalha em Veneza mas sonha em sair dali. Quanto voltávamos para o hotel depois do banquete que nos foi servido, o casal nos acompanhou até lá, já era mais de meia noite , havia uma lua maravilhosa, e Veneza parecia outra, vazia. Só no Campo Santa Marguerita havia uma multidão compacta de estudantes, não dava para passar, Ficam ali conversando, bebendo muito, e nossos amigos nos dizem que só há uma discoteca em Veneza, porque é proibido o som alto. E Paolo suspira e diz: "Só gosto de Veneza à noite" .
Chegar em Saquarema é tão bom, o jardim, o mar e as gatas nos abraçam. Nossos caseiros que tomaram conta da casa na nossa ausência com tanto amor, nos abraçam. E me sinto acolhida.

sexta-feira, 29 de maio de 2015

ÚLTIMOS DIAS

Numa das noites em que Maya, a filha do Juan, ainda estava aqui, andamos até o ancoradouro perto do hotel e lá do outro lado víamos o Museu Gugenheim . Então ela me contou que antes da Peggy Gugenheim, o palácio havia sido da Marquesa Luisa Casati, um ícone para o mundo da moda. Ela viveu no começo do século passado e foi uma mulher milionária e excêntrica que dava em sua casa as festas mais loucas da Europa e passeava por Veneza com uma cobra enrolada no pescoço e com seu tigre de estimação. Tingia os cabelos de vermelho e pingava beladona nos olhos para que ficassem imensos, arregalados. Foi amante de D"Annunzio, usava vestidos de seda colados no corpo , vestidos de Fortuny, sem nada embaixo. Também era capaz de ficar nua em qualquer lugar para chamar a atenção. Era alta e magérrima. Maya me contava tudo baixinho e me dizia: Imagine o palácio iluminado por tochas, ela passeando pelos jardins com seu tigre de estimação...Maya também me disse que foi a mulher mais pintada e fotografada do mundo e fez da sua vida e do seu corpo uma obra de arte louca, como se tivesse saído da mente de um Dalí. Morreu em 1957 na miséria total pois gastou toda a sua imensa fortuna em suas festas.
Ontem, depois que Maya e as crianças foram embora, andamos até o Campo San Polo, passando pela Igreja San Apollinaire do século XI, que estava infelizmente fechada. Há que ir por Rialto e uma parte da Ponte está em obra, sendo restaurada. No tapume da obra há um trecho das Cidades Invisíveis do Calvinoi, o trecho em que fala do arco e da pedra. Que ideia maravilhosa colocar trechos de livros em tapumes de obra. Qualquer superfície é boa para receber um poema. A restauração da ponte , a aquisição de dois palácios por Prada, desmente o vaticínio de que Veneza está acabada. É um museu vivo que vai se desdobrando diante dos nossos olhos como um leque de sonho e água  . Sempre igual e diferente.
O que é horrível por aqui é a multidão que os cruzeiros despejam por suas ruas. Os cruzeiros, tão nefastos, deveriam estar proibidos e os turistas que chegassem saberiam muito bem que estão em Veneza, a cidade miragem de tantos rostos, que a cada dia desmente seu fim.
Vivemos os últimos dias. Segunda embarcamos de volta. Por que viemos sempre a Veneza?  Porque Juan é europeu e de vez em quando precisa estar na Europa e escolheu Veneza como a sua cidade.
Agora tocam os sinos que amo, uma orquestra de muitas igrejas. Um pássaro canta entusiasmado pois o dia está lindíssimo. Embrulho tudo junto, o canto do pássaro, os sinos, as vozes dos cantores das gôndolas e levo comigo.
Escreverei quando chegar em Saquarema. Até lá.

quinta-feira, 28 de maio de 2015

DORSODURO

Caminhar por Dorsoduro é uma verdadeira maravilha. Desembocamos no Campo Santa Margueritta, uma praça tão bonita, com uma feira de peixes frescos e luxuosamente arrumados , como jóias. Porque para um italiano tudo quem que ser belo. Há uma livraria na praça, há venezianos!!! há vida verdadeira, gente passeando com seus cachorros, velhinhos arrumadíssimos para o passeio matinal. Observei os venezianos comprando: apenas o que vão fazer para o almoço ou para o jantar, Bem pouco.
As casas são lindas de gritar e eu gostaria de alugar um apartamento aqui ao invés de estar num hotel.
Andando chegamos ao Campo San Pantalon com sua Igreja neo românica, fundada no século XII e reconstruída no XVII. Entrei na Igreja. Com a luz de fora ainda nos olhos levei um tempo para enxergar. O teto era uma verdadeira maravilha,  nenhum adjetivo alcança o que quero dizer e me sinto pobre de palavras. Os maiores artistas pintaram esta Igreja.
Na esquina da Igreja há um baixo relevo tão bonito de São Pantalon com uma palma na mão e acima um baixo relevo de um cálice. Como não sou católica não entendo os símbolos, mas a data me comove: 1698.
As esquinas são espaços de pura beleza, um recorte de janelas, balcões, telhados.
Passamos por uma alfaiataria. Ainda existe!!!
Passamos pela Universidade Ca'Foscare. No canal há um barco de comida barata "Hard Rock" com uma fila gigantesca de estudantes.
Encontramos um africano com uma roupa incrível, cheio de colares e um instrumento de cordas que parecia um alaúde. Perguntei de onde era e disse do Senegal. Falei que conhecia Dakar e ele ficou muito feliz. Se chama Alioune e seu instrumento se chama Kaamale Ongoni. Pedi para cantar e tocar alguma coisa. Ele perguntou meu nome. Então começou a cantar uma canção em que a cada frase repetia meu nome.  Depois me explicou que os versos eram seus . E dizia: "A vida é como um espelho, só vemos o que somos" . Fiquei muito emocionada.
Para almoçar voltamos para a praça, o Campo Santa Margueritta. Comemos numa trattoria na calçada com um menu do dia maravilhoso e baratíssimo. Doze euros e meio por pessoa com direito a dois pratos.
Na volta paramos numa sorveteria e Juan quis um sorvete de chocolate super amargo da Venezuela, quis provar e ele disse que não me dava nem uma provinha e comprou um inteiro para mim. Não gosto de sorvete mas este era uma outra coisa.
Na volta passamos por um barco feirinha de frutas e legumes. Na verdade dois barcos. Dentro de um deles se limpava tudo para arrumar no outro. Era um quadro.
Fizemos planos para o fim da tarde, mas Maya, a filha do Juan, pegou a virose da Kira. Febre e dor de cabeça.
Então ficamos no quarto lendo. Estou atracada com um romance policial de um autor israelense que não conhecia, Igal Shamir. A trama é incrível e embora seja aquele tipo de livro que não merece ser chamado de literatura, não desgruda das nossas mãos. Se chama O Violino de Hitler e mistura músicos da século XVII, nazismo, Veneza, uma salada.
Hoje Maya, Kira e Astor vão embora. Daqui a pouco.  Astor, de três anos, gostaria de levar uma gôndola no avião de volta para Barcelona. Vai saltando de uma ponte para outra gritando "Gôndola Gôndola"...

quarta-feira, 27 de maio de 2015

GOTIKA

Ontem Kira, a neta do Juan e minha neta do coração, acordou com febre e dor de cabeça. Mesmo assim fomos ao Palazzo Loredan no Campo S.Stefano para ver a exposição Gotika.
O Palácio foi comprado por Loredan em 1536 sofrendo várias reestruturações ao longo dos anos. É tão magnífico, são tantas pinturas maravilhosas que fico muda. Não sei o que dizer. Perco a voz.
A exposição de muitos artistas contemporâneos, toda em vidro de Murano misturado com outros materiais, é absurdamente boa. O choque da arte contemporânea com o Palácio já por si nos deixa em transe. Os artistas idealizam e os artesãos de Murano realizam. São obras inspiradas em animais mitológicos, armaduras medievais, há um desfile de monstros que se tornam belos pela perfeição da obra que exige uma maestria impressionante para a sua execução,
Numa sala há uma sereia de uma artista inglesa Kate Mccgwire que me deixou em estado de choque. Ocupa a metade de uma sala e é uma mistura de sereia com cisne, toda de vidro e penas. Dá uma impressão tão estranha, parece viva.
Numa sala absolutamente escura, um breu da noite mais fechada, pedaços de corpos de vidro branco brilham de uma maneira estonteante.
Ainda bem que fomos ver esta exposição, pois Kira piorava a cada momento e apesar de termos saído com sol, caiu um temporal impressionante com raios e trovões. Tivemos que voltar para o hotel.
Passamos o dia no quarto nos revezando com Maya. Ela saiu um pouco sozinha, depois fomos almoçar sozinhos e ela ficou no quarto e à noite acompanhei Maya a um restaurante para jantar pois ela não havia almoçado. A situação da Kira não era boa e eu estava assustada. Por duas vezes tomou paracetamol mas vomitava tudo. Finalmente conseguiu suportar o remédio e sua febre foi baixando.
Na volta do jantar os Campos por onde temos que passar para voltar ao hotel estavam tão lindos que dava vontade de gritar. Caminhamos por uma ruela até o canal e passamos por um hotelzinho minúsculo que nunca havia visto, se chama Novecento e era uma miragem.
Astor, de três anos, está enlouquecido com as gôndolas e quer levar todas para casa.
Hoje Kira amanheceu melhor e vamos tentar passar o dia fora. Ir para a Veneza de dentro, fugir das multidões.

terça-feira, 26 de maio de 2015

MAYA

Estivemos esperando Maya, a filha do Juan que vinha de Barcelona, a manhã inteira. Chegaria às 10:15 aqui no cais Giglio. Esperamos esperamos esperamos. Ainda bem que a vista do Canal é magnífica. No celular nenhuma mensagem. Quando nos cansamos de estar em pé voltamos para o Hotel nervosos. Ao meio dia ela chegou com Kira e Astor,os dois netos. Seu avião teve um problema técnico e atrasou uma hora. Além disso ela perdeu o vaporetto que para aqui na esquina e teve que esperar algum tempo pelo próximo.
Enfim saímos. Astor tem apenas três anos e andar com ele é complicado. Kira tem nove e já é uma linda mocinha.
Fomos para a Accademia caminhar no Zattere. Sobe escada, desce escada, uma ponte, outra ponte, outra ponte... Felizmente Astor se apaixonou de paixão perdida pelas gôndolas.
Almoçamos ao ar livre, debruçados na água. E falávamos da dificuldade de viver em Veneza e como já quase não há venezianos vivendo aqui. Tudo é complicadíssimo. Para fazer uma compra, levar crianças para a escola, ir a um hospital. Nada é fácil nesta cidade museu. E nem se fala do inverno. Dos ventos. Quase todos os  Palácios estão fechados. Felizmente muitos viraram hotéis e Museus.
Esta cidade deveria fechar o porto para os Cruzeiros e dar incentivos aos moradores para que não fossem embora. Veneza é tão bela que a sua irrealidade salta aos olhos.
No fim da tarde fomos para São Marcos e as crianças enlouqueceram com os pombos.É proibido alimentá-los, mas imigrantes paquistaneses, indianos, colocam milho na mão das crianças em troca de alguma moeda.
Africanos vendem bolsas falsas e a polícia tem algum acordo com eles, pois quando vem chegando perto, eles se afastam. Kira teve medo de que os levassem presos, ficou muito nervosa. A minha teoria é de que as próprias grifes fabricam as bolsas falsas.
Para hoje anunciavam muita chuva o dia inteiro, mas felizmente erraram. O dia está lindo! Vamos agora ver uma exposição num Palácio belíssimo, onde fica o Instituto Italiano de Desenho. E assim começará o dia, a sua arquitetura tendo que moldar-se ao desenho de uma criança de três anos.

segunda-feira, 25 de maio de 2015

GIUDECCA

A Praça São Marcos havia se transformado num oceano de gente ontem pela manhã . O dia estava lindo finalmente. Para chegar até a barca que nos levaria para a Giudecca era preciso se transformar num felino e se esgueirar por entre as frestas dos corpos.

Logo ao desembarcamos passamos pelo Pavilhão da Síria, na Mostra Paralela da Bienal. O título da exposição, belíssimo: "Origens da Civilização". Eram quadros imensos, de uma bela pintura abstrata, como se para falar do começo não se pudesse utilizar uma arte figurativa. Não guardei o nome dos artistas, apenas de um, pois nas paredes Liu Shuishi, que não tem um nome árabe, escreveu coisas lindas, por exemplo: "A história distante só pode estar presente pelas palavras".
Saímos emocionados ao pensar nestes artistas produzindo obras tão belas e neste país tão dilacerado pela guerra, pela morte , pela destruição.
Era um alívio estar na Giudecca, esta ilha tão linda, com tão pouca gente. Ontem, domingo, acho que o número de pessoas em Veneza dobrou.
Do calçadão, logo ao chegar , descemos na segunda estação, se vê o Palácio Ducal em frente , a Torre da Praça, uma vista estonteante .
Caminhamos ao longo do calçadão até o final, onde ficava uns dos maiores moinhos da Europa, uma construção belíssima, o Molino Stucky, construído nos final do oitocentos pelo empresário Giovanni Stucky. O moinho chegou a empregar 1.500 pessoas, trabalhando em turnos por 24 horas.
Em 1955 o moinho fechou depois de uma lenta decadência. Ficou abandonado por muitos anos até que em 2007 o moinho se transforma num grande e muito luxuoso hotel, o Hotel Molino Stucky Hilton. Entramos para visitá-lo. Lá dentro é outro mundo, nada lembra que aquele espaço outrora foi um moinho. Mas o melhor de tudo é que respeitaram a sua fachada. Ao lado ainda há um pedaço do moinho totalmente abandonado.
Caminhar pelo calçadão com a vista deslumbrante do outro lado, pois se vê todo o Zattere, o calçadão da Accademia, é o verdadeiro luxo.
Escolhemos um restaurante na beira da água. Era lindo, mas o atendimento péssimo. Ostaria ae Botti. Não aconselho, o serviço beira a grosseria.
Na volta, para fugir da multidão da Praça São Marcos  já pelas escadarias podíamos medir a sua espessura, fomos por dentro, pelas ruelas e que sorte! caímos dentro de uma livraria. Juan comprou um livro do escritor croata Predrag Matvejevic , "L'Altra Venezia". Ele vai contando a história dos detalhes, comecei a ler e é lindíssimo. Ele apreende Veneza de uma maneira muito parecida com a nossa. Escreve: Cada vez que se volta a cidade é igual e diferente ao mesmo tempo, de dia ou de noite, com sol ou sob a chuva". (minha tradução). Comprei dois livros e o dono da livraria era um livreiro de verdade, espécie em extinção.
Agora, enquanto escrevo, a filha do Juan, Maya, com seus dois filhos, Kira e Astor, já deve estar no barco a caminho do hotel.
Hoje não chove, mas está meio nublado, faz um pouco de frio.   E não faço a menor ideia de como construiremos o nosso dia .    

domingo, 24 de maio de 2015

MODIGLIANI

Ontem ao ultrapassar a porta do hotel fomos recebidos por muita chuva, muito frio, um dia horroroso, escuro, nada promissor.
Decidimos andar por dentro da Academia, seus pequenos canais maravlhosos.
Entramos na Igreja de San Trovaso, fundada no século VIII e reconstruída nos séculos XI e XVI. Dentro as obras de Tintoretto, Giambono, Maestro di San Trovaso, etc, não estavam iluminadas e a Igreja estava muito escura, a emoção era saber que numa igreja sem nenhum fausto os maiores pintores da época aí deixaram seus tesouros.
Ao lado do Sotoportego Calle Balastro encontramos uma feirinha que era uma joia, na beira do canal. A maneira como arrumam os legumes e as verduras é a mesma com que um pintor arruma as suas tintas. E então tenho que falar das vitrines, verdadeiras obras de arte. Nada é deixado ao acaso, são verdadeiras instalações. E tenho que falar das embalagens, parece que na Itália a beleza é o ar que se respira e o que é feio fica bem escondido.
Passamos por uma casa onde trabalhou Modigliani e podemos ler:

" Da Venezia ho ricevuto gli insegnamenti più preziosi nella vita;
Da Venezia sembra di uscirmene adesso come accresciuto dopo un lavoro" Modigliani, 1905
De Veneza recebi o ensinamento mais precioso da minha vida; De Veneza parece que ao ir embora agora, estou maior depois de um trabalho.

Quando Modigliani diz "adesso" , agora, o tempo é abolido e estou na sua porta, estou em 1905 .

Chovia tanto que o grande desejo era estar dentro de algum lugar seco e quente. Mas passeamos pelo zattere, o calçadão da Academia de onde se pode ver a Giudecca lá do outro lado.
Quando os sinos bateram as doze horas entramos no primeiro café que encontramos, numa ruazinha de dentro para a minha taça de vinho.
Paolo, nosso amigo garçom, nos recomendou muito um restaurante napolitano que fica no Campo S.Angelo e se chama Acqua Pazza . Adorei o nome, água louca e calculamnos o tempo para chegar lá às 13.30h.
Realmente é um restaurante impressionante. E dedico este almoço ao meu filho André, Chef do Babel em Visconde de Mauá. Pedimos de entrada flores de abobrinha .Mas antes como cortesia da casa trouxeram uma entrada belíssima, uma bruschetta, um bolinho de macarrão com queijo e alguma verdura empanada. As flores de abobrinha com queijo derretido dentro são o bilhete de entrada para o paraíso. Eu pedi um gnocchi que não era de batata, mas sim de trigo sarraceno e Juan um risoto de espuma de limão. Cada gnocchi parecia uma moeda grande com molho de tomate (o molho de tomate na Itália explica o nascimento do mundo) com manjericão.
E de sobremesa pedimos um tiramisù , parecia uma espuma de chocolate amargo e café.
No final da tarde fomos para a Praça São Marcos. Já não chovia. Neste percurso do hotel até lá, há a maior concentração de grifes famosas do mundo, certamente. Suas vitrines são belíssimas e os preços estonteantes . Será que alguém paga mais de mil euros por um vestido? Todas as lojas são maravilhosas.
Cada vez que se entra na Praça se perde o fôlego de tanta beleza. Nos sentamos no Café Lavena, aberto desde 1750. Os Cafés da Praça são absolutamente decadentes, mas para mim há muita beleza nesta decadência.
Eu me sentei de frente para a Igreja e o leão alado e dourado enchia meus olhos.   Os anjos falavam comigo. A Igreja fulgurava, ardia em todos os tons de dourado. Acho que não existe nenhuma praça mais bonita no mundo.
A pequena formação de músicos tocava umas três ou quatro músicas e parava para que os músicos do café ao lado pudessem tocar. A praça estava quase vazia, pois os milhares de turistas que são despejados diariamente em Veneza pelos Cruzeiros a essa hora já estavam longe, em seus navios.
Há em Veneza a máfia dos cruzeiros. Um acordo de cavalheiros corruptos entre os políticos , os donos dos navios, o comércio local.
Veneza possui apenas cinquenta mil habitantes. São os turistas que alimentam a ilha . Mas não sei o que compram ou deixam aqui estes grupos imensos. Pouca coisa, eu diria. Mas eles são o deleite dos gondoleiros.
Hoje vamos tomar um barco e caminhar na Giudecca para ver a vista de Veneza lá do outro lado. É como ver o Rio de Janeiro de Niterói.
Da minha janela, enquanto escrevo, ouço os sinos que agora batem as horas para que caiam no precipício do tempo em todos os tons de grave e agudo. Ouço as gaivotas e as vozes das pessoas que cruzam a ponte do pequeno canal onde está debruçado o pequeno balcão do nosso quarto.

sábado, 23 de maio de 2015

GUARDA - CHUVAS

Ontem pela manhã a Praça São Marcos era um imenso arco-íris de guarda-chuvas coloridos. As gôndolas passeavam cheias de guarda-chuvas. Chovia e fazia frio. Decidimos caminhar por dentro até o Rialto para olhar a vista lá de cima.
Chegamos ao Campo Sanzolo onde há a Parochia de S.Stefano. Um Palácio se impõe com seus detalhes rosados, talvez de mármore carrara.
Passamos por uma livraria antiquário, Libreria Linea D'Acqua e na sua vitrine uma coleção de 36 volumes com a data de 1781: Compendio della storia generale dei viaggi. Imagino um colecionador de livros antigos e raros entrando na livraria com o coração aos saltos. E naquela época sim, viajar era a maior aventura do mundo!
Ao chegar no Sotoportego Di Amai uma coisa inominável fere as linhas do Campo e do nosso campo visual: A Casa di Risparmo de Venezia, um quadrado horroroso, fruto de alguma permissão fraudulenta de algum Prefeito corrupto que deixou um Palácio ser demolido para que se construísse tal horror em seu lugar. Mas fico sabendo que o Primeiro Ministro Renzi enviou um Projeto de Lei para o Parlamento tornando o crime de corrupção eterno: não pode prescrever. Não sei se já está valendo mas a ideia é maravilhosa e deveria ser copiada no Brasil.
No Campo S.Luca , num Palácio, há um baixo relevo com uma virgem maravilhosa, de pedra, sua túnica é toda pregueada e no lugar do coração ela carrega a imagem do menino Jesus.
Chegamos na Calle del Teatro o de la Commedia.
Aos pés da Ponte do Rialto, antes de subir para ver a vista, nos sentamos num bar, no sotopertego, abrigados da chuva para um cálice de vinho. Juan pede um chocolate quente. Explodem os sinos do meio dia.
A vista de cima da ponte é um dos cartões postais mais belos e conhecidos de Veneza.
Como diz Juan, Veneza não é uma cidade, é uma sensação. Veneza é um lugar irreal e surreal. Uma dimensão.
Encontramos um restaurante muito antigo: Ristorante Al Colombo, aberto desde 1780!
Na volta vemos uma exposição surreal de Joseph Klibansky , no Campo Stefano. São quadros fotografias de uma Veneza coloridíssima e verdadeiramente alucinante.  Passamos pelo estúdio do artista Gianni Aicó. Em Veneza a cada esquina encontramos uma galeria de arte ou o estúdio de algum pintor ou escultor.
E vimos a exposição do Azerbaigian, um país para nós brasileiros muito remoto. A instalação de Huseyn Hagverdi é absolutamente impactante, um soco no coração. São seres humanos muito estilizados, lembrando esculturas africanas, enredados em estacas, cercas, enfim fronteiras fechadas. Tudo em madeira escura e sentimos todo o sofrimento daquelas "pessoas". Algo tão atual quando sabemos das milhares de pessoas de carne e osso que tentam escapar de seus países pela guerra, fome, falta de horizonte. Esta bela exposição faz parte das mostras paralelas da Bienal que invadiu toda a cidade.
Depois almoçamos na Tavernetta S.Maurizio, nosso amigo Paolo nos recebe com tanta alegria!
Comemos um risoto de frutos do mar e é impressionante a delicadeza dos mariscos, um prato perfeito. Comemos por 45 euros com meio litro de vinho, cesta de pão,queijos variados de sobremesa.
Comer uma vez por dia é mais do que suficiente e o café da manhã aqui no hotel é tão bom que vale a pena acordar com fome. Todos os dias como a mesma coisa: muzzarella de búfala , tomate, café e pão.
Agora chove, faz frio. O dia está feio, cinza, mas nada é capaz de tirar nosso fôlego e a beleza da cidade. Lá vamos nós para a rua.

sexta-feira, 22 de maio de 2015

FONDAMENTA NUOVE

Ontem, antes de sairmos do hotel, atenderam ao nosso pedido e trocamos de quarto, ou melhor de vista: agora nosso balcão dá para um pequeno canal por onde passam as gôndolas e do quarto ouvimos seus cantores. É maravilhoso.
Do  nosso Campo del Giglio, depois de farejar o ar, decidimos ir para a Fondamenta Nuove, o bairro amado por Joseph Brodsky, o poeta russo. É um lindo passeio. No caminho para São Marcos entramos na Galeria Contini , há uma exposição de Igor Mitoraj, escultor polonês que faz uma releitura das esculturas da antiguidade. Trabalha com mármore branco. Não gostei. Apenas uma me tocou, parecia um caracol gigante,
Para ir a a Fondamenta Nuove há que seguir em direção a Rialto e isso quer dizer multidão. Mas de repente, como num milagre, depois de subir e descer escadas e passar por muitas pontezinhas, antes de chegar a Rialto, viramos à direita e já a rua é vazia, suas lojas são simples e é como se saíssemos de um filme e entrássemos em outro.
Desembocamos no Campielo Bruno Crovato. Há um bar no Campo e todos os que estão sentados são venezianos.
Depois chegamos ao Campo S.Maria Nova.  Não é um Campo mas sim uma praça maravilhosa, senhoras e senhores sentados nos bancos , de um lado da rua há um antiquário e do outro uma loja esplêndida de carnaval. Logo ali ao lado há um Campo bem pequeno com seu poço e vejo a data: é de 1.800.
Numa ruazinha que sai da praça vimos uma exposição de fotografias num estúdio de arquitetura. A Mostra faz parte dos eventos paralelos da Bienal que privilegiam a arquitetura, pensam as cidades.
A exposição tem o belo nome de Città Africane in Movimento e são muitos fotógrafos. É belíssima a exposição.
Estamos na Veneza de dentro. Amamos este bairro tão simples, nenhuma suntuosidade, mas o silêncio dos canais.
No Campiello del Pestrin há um restaurante tipicamente veneziano onde vão comer os trabalhadores locais, os gondoleiros : Trattoria Cea.
Quando chegamos estava abarrotado e o movimento era magnifico , uma dança de pratos e jarras de vinho, cestas com pães para lá e para cá. As mesas são coletivas e nos sentamos finalmente, depois de alguma espera, ao lado de três trabalhadores.
O Menu do Dia, composto por três pratos por 16 euros, era magnífico. Comi uma pasta a la rabiatta, um prato de cogumelos frescos, uma lula em sua tinta com polenta branca, a polenta veneziana. O pão bem camponês, bem tosco, como adoro. Meio litro de vinho da casa.
A senhora que servia era super paciente ,nos explicou cada prato e conhecia todos e beijava todo mundo.  Perguntei e ela me respondeu: todos os dias há um menu diferente. Mas a Fondamenta Nuove fica longe, impossível comer lá todos os dias, infelizmente.
Ao sairmos havia uma loja fechada, parecia uma exposição permanente, e a sua vitrine era de enlouquecer. Ali havia sido , isso eu entendi, uma antiga tipografia, que neste ano completava 500 anos. Era a tipografia de Aldous Manutius e a data: 1515.
Como sei que a Fondamenta Nuove foi destruída e refeita, não sei se nestes quinhentos anos sempre esteve no mesmo lugar..
Na vitrine podemos ler e a autoria é de Di Francesco di Ser Bernardone:
" Chi lavora con le mani è un operaio. (Quem trabalha com as mãos é um operário)

" Chi lavora con le mani e il cervello è un artigiano" (Quem trabalha com as mãos e o cérebro é um artesão)

" Chi lavora con le mani, il cervello e il cuore è un artista" (Quem trabalha com as mãos, o cérebro e o coração é um artista)

A arte da tipografia , com todas aquelas peças e engrenagens maravilhosas está em franca decadência.
Somos espectadores de um novo mundo.

E hoje no café da manhã , nos jornais que vejo no balcão em frente , me dizem que a cidade de Palmira, na Siria, caiu nas mãos do grupo islâmico Isis que já deve ter destruído tudo na região que foi o começo do mundo e da civilização .
No N.Y Times, na primeira página está estampada a violência do Rio de Janeiro.
Mas estou em Veneza e por aqui se caminha pelas ruas sem medo nenhum. Não se ouve falar em roubos ou facadas.
Aqui mergulho o corpo e a alma na beleza mais absoluta.

    

quinta-feira, 21 de maio de 2015

CAMINHADA

Ontem decidimos ir até os Jardins do Arsenal onde está a Bienal. Esperarei a minha enteada Maya para ver a grande exposição, ela chegará dia 25.
Na frente da Igreja São Marcos uma cena que nunca vi no Brasil e para mim comovente: uma turma enorme de adolescentes sentados no chão com seus cadernos abertos no colo e a Professora na frente dando uma aula sobre a Igreja. Eles anotavam e prestavam toda a atenção, em silêncio.
Chegamos ao Campo San Zaccaria com azulejos de mármore carrara, belíssimos. Começaram a tocar os sinos que pontuam as horas. Há quem não goste dos sinos, eu amo, é como se a sua música fosse um tapete mágico e me levasse flutuando pelo rio do tempo. Neste campo há uma bica de água potável com uma cara de leão. Os leões estão espalhados por toda a cidade.
No Pórtico de San Zaccaria no Idade Média havia uma porta fechando o bairro. Há uma placa de pedra que fornece os horários da abertura, as letras bem apagadas, a data quase ilegível, 15...
Ao sair do Pórtico se vê uma torre inclinada.
Na esquina da Ponte Del Diavolo com a Fondamentina de Liosmarin há um baixo relevo bem intrigante: um homem de túnica, parece um romano, com um instrumento na mão, difícil saber se é um instrumento de trabalho ou musical. Dois operários trabalhavam numa reforma de uma casa em frente. Pedi a um deles para me ajudar a entender. Ele olhou, olhou e disse que era impossível saber. Então tomei a liberdade poética de decidir : uma harpa, era um tocador de harpa.
Logo ali há um Palácio maravilhoso que virou hotel: Palazzo Friuli. No mesmo lugar há a loja de fantasias mais linda que já vi, tão onírica que causa um arrebatamento.
Na Ponte Dei Greci outro Palácio estonteante: Hotel Liassidi.
Chegamos ao Campiello de La Fraterna, desembocamos no Sotoportego Dei Preti, chegamos ao Campiello de La Grana e entremos numa viela sem nenhuma pessoa, os turistas vão desaparecendo .
No Campo de Le Gorne há uma placa de pedra de 1787 lindíssima in memoriam do Conte Piero Foscani, com um leão alado. Por aqui já é a Veneza dos Venezianos. Aqui se ouve o silêncio entre os passos e entre as poucas vozes.
Na Fondamenta del Pintor cruzamos com um Senhor que devia ter mais de cem anos, todo vestido de negro, na mão direita uma bengala, na esquerda uma sacola de livros. A sua cor era de cera e tenho certeza de que era um fantasma, saiu para passear.
Chegamos ao Arsenal com seus quatro leões, dois imensos, um menor e um filhote. São monumentos navais.
Veneza terá outras Bienais, não apenas a de arte, mas de música, de dança e de carnaval. A de Música tem o título mais lindo do mundo: O Som da Memória.
Os títulos das exposições são maravilhosos e os cartazes estão espalhados por toda a cidade. Eu os saboreio , para mim são música.
Deixo então os jardins da Bienal para quando Maya chegar e nos sentamos no Campo Bandera e peço uma taça de vinho para receber os sinos do meio dia. Há que tomar muito cuidado, pois no mesmo Campo, na esquina, encontramos a Calle de La Morte.
Almoçamos na Tavernetta San Maurizio, perto do Campo San Maurizio (San Marco 2619) e nosso amigo Paolo nos recebeu com muita surpresa e alegria. Essa é a taverna que escolhemos para comer sempre, pois além de linda, animadíssima, tem um vinho da casa maravilhoso, a comida é excelente e ficamos amigos do garçom. Comemos uma vez por dia e ontem de entrada pedimos um Piatto Vegetariano, com legumes grelhados, eu comi uma pasta com molho de tomate e ricota e Juan uma pasta com vongole, de sobremesa queijos variados. O pão da casa é muito bom, o azeite nem se fala e o preço é justo: 64 euros. Comentei ontem que não se deve pensar em converter os euros para real, mas sim pensar num salário de 2.500 euros que é um bom salário por aqui. Onde se pode comer assim no Brasil com meio litro de um bom vinho, entrada, prato principal e sobremesa por 32,00 por pessoa?  Eu como num restaurante a quilo em Saquarema, sem nenhuma bebida, nem entrada, nem sobremesa por 20,00.
Claro que  aqui ainda se pode comer por um preço muito menor, há muitos restaurantes com menus turísticos por 15 euros .
Pela tarde fomos até a Academia, do alto da sua ponte se desdobra a vista mais linda do mundo, emocionante. Depois andamos até o calçadão , havia chovido, a luz estava linda e era dia ainda às 20hs.
As nove horas comemos um pedaço de pizza numa portinha na frente da nossa taverna, a melhor pizza que já comi na vida, há um movimento tão intenso, nem dá tempo da pizza esfriar, vão saindo do forno constantemente e se come em pé ou sentado na escadinha do poço do Campo a dez passos.
Hoje, que bom, faz um friozinho, entre 18 e 19 graus, choverá às 11 horas uma chuva fraca e novamente às cinco. Às 20 horas choverá forte.
Ainda não sei por onde andaremos.
 

quarta-feira, 20 de maio de 2015

CHEGADA

Saímos de casa às oito horas da manhã do dia 18. Nosso voo para Veneza sairia às 14:35. Mas nunca se sabe como será o caminho de Saquarema até o aeroporto. Chegamos em duas horas e nos sentamos num bar novo no Terminal 1. Todos que viajam sabem que o Terminal 1 do Galeão parece uma tumba: feio, escuro, deprimente.
Mas o tempo passou e a espera faz parte da viagem. O avião saiu pontualmente. Depois do jantar, lá pelas tantas, eu estava vendo um filme, perguntaram se havia algum médico a bordo. Chamaram muitas vezes. Pouco tempo depois o Comandante anunciou que teríamos que fazer um desvio e pousar em Recife pois havia uma pessoa passando mal.
Voamos mais de uma hora para pousar em Recife. A história foi assim: um senhor foi encontrado desmaiado no banheiro. Quando a equipe médica entrou no avião ele já estava acordado. Ficamos duas horas em solo com ele tomando soro. Parecia bem. E resolveu continuar a viagem. O Comandante exigiu um atestado da equipe de que ele poderia permanecer a bordo. Bom, levamos duas horas em Recife dentro do avião. Fiquei sabendo que a jovem senhora sentada perto de mim estava indo para a Sicília a trabalho. Um senhor ia para Beirute.
Perdemos a nossa conexão, é claro, mas como nos deram falsas esperanças de que a conexão esperaria um pouco, corremos feito loucos para conseguir , quem sabe, tomar o avião. A aeromoça ainda nos disse: o aeroporto de Roma é pequenininho! É imenso e depois de passar pela polícia, há que sair do aeroporto e entrar no nacional, passar outra vez pela polícia até chegar ao terminal. Ainda nos disseram: Corram que ainda estão embarcando! Se o médico que operou a minha coluna em fevereiro soubesse a maratona que corri... Claro que o voo já havia partido. Volta tudo para trás e na porta B3 há a Oficina de Trânsito. Então, aí sim, trocam nosso cartão de embarque para o próximo voo. Juan tinha a certeza absoluta de que perderiam as nossas malas.
Eu estava tão exausta que não vi nem senti o voo para Veneza. Mas nossas malas chegaram perfeitamente e depois de um banho no hotel e de um pouco de descanso saímos para caminhar.
Estamos no mesmo hotel que no ano passado, com a mesma vista para o Campo del Giglio.
A sensação é a de que não saímos daqui, que o tempo não passou. A sensação é de continuidade.
Veneza não é uma cidade , é uma miragem. Há lojas antiquíssimas e esplêndidas, verdadeiras jóias. Lojas de encadernação, papelarias, máscaras, lojas de queijos e especiarias, galerias de arte, quando as ruas já são uma imensa galeria de arte. Há que olhar para cima, pois vimos lá no alto, um relevo de o final de 1.500! Era uma cena religiosa e abaixo um sapato. Não entendi mesmo.
Entramos numa galeria com um nome em inglês: Holly Snapp Gallery, na Calle delle Botteghe, com a linda exposição de mulheres do pintor inglês Geoffrey Humphries. Amei! Agora vamos buscar as mil exposições que estão acontecendo em Veneza por conta da Bienal.
Às 19.30, famintos, entramos na Osteria Doge Morosini. O restaurante onde trabalha nosso amigo Paolo estava fechado, devem fechar às terças.Recomendo: Fica numa ruazinha lateral ao Campo Santo Stefano que é maravilhoso. Comemos esplendidamente, entrada, prato principal , sobremesa por 66 euros. Quanto estamos fora não pensamos em converter o dinheiro, pois os salários das pessoas "normais" são mais ou menos iguais aos salários do Brasil. Não se come assim no Brasil por 33 reais cada pessoa. Impossível. A sobremesa vale o comentário: Juan pediu um pedaço de gorgonzola. Veio numa travessa lindamente arrumada, numa cama de rúcula os pedaços de gorgonzola com mel. Uma verdadeira iguaria.
Agora vamos para a rua como sempre sem nenhum plano definido. É assim que amo viajar. Fugindo das multidões, flanando, olhando.
Ontem terminamos nosso passeio na Praça São Marcos que para nossa felicidade estava quase vazia num belo entardecer. Chegamos no hotel às 21 horas e começava  a escurecer. Dormimos dez horas seguidas.

domingo, 17 de maio de 2015

AS CIDADES INVISIVEIS

Ontem foi nosso encontro do Clube de Leitura da Casa Amarela .O dia estava nublado e um pouquinho frio. Às 10 horas. as pessoas começaram a chegar.
Nosso grande amigo e nosso médico Messias e Kátia, sua mulher, Cristiano, Ana e Edith vieram do Rio.
A Zete chegou de Cabo Frio para onde havia ido visitar uns amigos.
E chegaram Hélio, Fernando, Chico, César, Fátima, Maria Clara. Hector e Flora chegaram atrasados trazendo mais um casal: Norma Estrela e não me lembro o nome do seu marido. Por último Gil, gripadíssima.
Começo quase pelo final. A Zete trouxe para a nossa roda o seu sotaque baiano e uma fala belíssima: Começou dizendo que sua cidade, Ribeira do Amparo, era invisível e Saquarema para ela também era invisível. E agora as duas eram visíveis, pois ao falar da sua cidade ela passava a existir. E Saquarema agora existia para ela.
Para falar sobre as Cidades Invisíveis do Italo Calvino, puxamos muitos fios coloridos. Falamos da sua matriz, a cidade natal de Marco Polo, Veneza, da beleza , da poesia, da delicadeza da escrita, das alucinações, as cidades são todas alucinadas.
Falamos dos avessos, da cidade dos mortos, das sombras, das ruínas, da decadência das cidades. Do jogo dos espelhos, da beleza do encontro entre Kublai Khan e Marco Polo, do viajante e do grande Imperador que não se move. Do narrador e do que escuta . E tudo o que é imaginado , fulgura e existe. Falamos da influência de Borges, de Scherazade e por fim falamos sobre o olhar e sobre o tempo. Nas Cidades Invisíveis passado e futuro coexistem, Oriente e Ocidente. Tempo e Espaço.
Falamos sobre as megalópolis hoje, a inviabilidades das cidades imensas. A inviabilidade do planeta!
E terminamos com o último parágrafo do livro:

" E Polo:
_ O inferno dos vivos não é algo que será: se existe, é aquele que está aqui, o inferno no qual vivemos todos os dias, que formamos estando juntos. Existem duas maneiras de não sofrer. A primeira é fácil para a maioria das pessoas: aceitar o inferno e tornar-se parte deste até o ponto de deixar de percebê-lo. A segunda é arriscada e exige atenção e aprendizagem contínuas: tentar saber reconhecer quem e o que no no meio do inferno, não é inferno e preservá-lo e abrir espaço."

Como diz meu neto todas as noites: _ Mamãe, me conta as coisas bonitas.
As coisas bonitas são o que acontece de bom na sua vida.
Que nosso olhar busque sempre as clareiras que existem dentro do inferno.

Juan escreveu um texto belíssimo que leu em espanhol, fazendo um elo entre as cidades invisíveis de Calvino e a Veneza de Marco Polo.

Edith leu alto uma crônica do Rubem Braga: Recado ao Senhor 903.
Zete leu o poema Perda da Elizabeth Bishop.
Maria Clara trouxe uma reportagem de Marcelo Moutinho sobre a origem das crônicas do Rio de Janeiro. Trouxe também a letra de duas músicas . " O nome da Cidade" de Caetano Veloso, maravilhoso poema que Maria Clara cantou maravilhosamente e  "Lamento Sertanejo" de Dominguinhos e Gilberto Gil que cantamos todos juntos.
Ana também cantou uma música linda sobre Porto Alegre, a sua cidade. Ana é bibliotecária e cantora. Tem uma voz muito bonita.

Depois fomos para a varanda e o almoço estava esplêndido: escondidinho de aipim com carne seca, escondidinho de aipim com abobrinha e gorgonzola, arroz, feijão, couve, salada. Fiz dois pães lindos que foram devidamente devorados com azeite. César trouxe espumante para todos e oferecemos um ótimo vinho argentino, em homenagem ao Hector.
Uma torta com o nome do César marcou seu aniversário. E estávamos todos em estado de graça: literatura, amigos, pão, azeite e vinho, comida maravilhosa, a música do mar...
Esta é uma lindíssima clareira, com o chão varrido em círculos, onde dançam as fadas.

Próxima data: dia 18 de julho aqui em Saquarema
Os livros: A lebre de Vatanen de Arto Pasiilina, Campo Geral de Guimarães Rosa e um poema de amor do Vinicius de Morais.

sexta-feira, 15 de maio de 2015

N.SENHORA DE NAZARÉ

Ontem fui com minha hóspede, a Professora Zete visitar a Igrejinha Nossa Senhora de Nazaré em cima do outeiro. É a vista mais esplêndida do mundo e sempre me emociono.
A Igrejinha, tão simples e singela, estava aberta. Nenhuma fausto, nenhuma riqueza. Ela data de 1630 e não sei o que guarda de original.  Quis ver a Nossa Senhora de Nazaré sentada, pois Celmar, minha professora de italiano me disse: é a única Nossa Senhora sentada! Está mesmo sentada.
Apesar de não ser católica, gosto do silêncio das Igrejinhas simples e das capelas.
Depois à tarde eu a levei para ver a parte mais rural de Saquarema, o bairro Jardim, onde moram nossos caseiros. Sou apaixonada pelo bairro. A lagoa ali é tão linda, entardecia e a água falava baixinho.
Tomamos um café com broa de milho na casa dos caseiros.
E faço os últimos preparativos para o encontro do nosso Clube de Leitura amanhã.  

quarta-feira, 13 de maio de 2015

CIRANDA CIRANDINHA

Quando criança amava brincar de roda. Amava de paixão mesmo. Enquanto rodava acho que construía uma mandala dentro de mim e o mundo era bom e seguro.
No meu livro Brinquedos e Brincadeiras faço poemas com as brincadeiras da minha infância. Acho que os poemas ficaram belos.
Faz tanto tempo não ouço vozes de crianças cantando as cantigas de rua. Brincávamos na pracinha.

 CIRANDA

Ciranda, cirandinha,
vamos todos cirandar,
enquanto ainda dá tempo,
a primeira estrela anuncia:
A noite já vai chegar.
Vamos dar a meia volta
de mãos bem apertadas
e corações entrelaçados,
volta e meia vamos dar.

O anel que tu me deste
era vidro e se quebrou,
o tempo parece de vidro,
há que carregar com cuidado,
o amor que tu me tinhas
era pouco e se acabou,
mas amor nunca se acaba,
meia-volta, volta e meia,
outro amor há de chegar.

in Brinquedos e Brincadeiras

terça-feira, 12 de maio de 2015

DESABAFO

Hoje caminhei até a Ponte do Girau aqui em Saquarema. A lagoa é belíssima, mas suas margens estão cheias de lixo. Educação ambiental deveria ser , junto com a leitura, prioridade nas escolas. É muito trite ver o que seres humanos fazem com o seu entorno, com o lugar onde vivem. A Ponte do Girau tem sua balaustrada toda quebrada, com vãos interrompidos, podendo causar um sério acidente. Vejo a cidade se degradar e é uma pena.
A cultura é um feixe de conhecimentos. Tratar bem a sua rua, o seu bairro, é cultura. Sinto o lixo e a degradação como uma ferida em meu corpo.

Vi uma foto no jornal. A Presidente linda, magra, com um belo vestido azul, reinando num país fictício, na festa mais cara do mundo! Todos estavam lá, todos os podres poderes, inclusive os que enchem a boca de pedra para falar contra as elites. Era uma festa de elite, claro. Não vi nenhum pobre na foto.

Vi uma reportagem terrível sobre a situação das Universidades Públicas no Rio de Janeiro. Lixo, ratos, baratas, entulho, o descalabro é tanto que muitos cursos foram suspensos na UFRJ e na UERJ. A violência entra dentro do Campus.

Vi uma foto no jornal de um homem com uma faca na mão, nos arredores do MAM, um dos lugares mais lindos do mundo, onde vive, mora, dorme, acorda, um bando. Assaltam as pessoas  , esfaqueiam as pessoas. O Secretário Beltrame disse que é melhor pensar bem antes de chamar a polícia, pois não adianta nada.

Este é o país verdadeiro, onde reina a mulher do vestido azul.

Faz muito tempo não acredito mais em direita ou esquerda. Acredito em bom senso, bondade e honestidade. Bem estar para todos. Oportunidades iguais para todos.

Desculpem o desabafo, mas a Pátria Educadora está à deriva.

segunda-feira, 11 de maio de 2015

SEMANA

Hoje começa uma semana maravilhosa, recheada de coisas incríveis.
Amanhã , pela segunda vez, recebo alguém que só conheço virtualmente, que virá para o encontro do nosso Clube de Leitura da Casa Amarela no sábado e se hospedará aqui. A Professora Zete do Sertão da Bahia.
A primeira vez recebi Mariana, uma jovem bailarina, minha leitora desde criança. Ficamos amigas para sempre. Nos amamos e uma vez por ano nos encontramos numa amizade sólida como o sol. Ou em Saquarema ou na montanha.
Sábado é o encontro do Clube, uma das grandes felicidades que a vida me dá. Já somos uma família.
Vamos discutir As Cidades Invisíveis do Italo Calvino, um dos livros mais belos que já li em toda a minha longa existência de leitora. Releio e tem que ser muito aos poucos para não ficar sufocada com tanta beleza. Vamos ler em voz alta uma crônica do Rubem Braga, elas são todas maravilhosas, tão humanas, tocantes. Vou sortear alguém para ler em voz alta. E cada um trará um poema da Elizabeth Bishop.
Sempre temos um aniversariante no Clube e a sobremesa é uma torta com velas e parabéns. Desta vez é o nosso amigo César.
E segunda-feira, dia 18, embarcamos para Veneza. Estou indo pela quinta vez. Juan já foi umas cem vezes. É a sua cidade do coração.
Não saímos de Veneza para nada. Percorremos incansavelmente seus labirintos, extasiados.
Para mim, a matriz das Cidades Invisíveis é Veneza.

domingo, 10 de maio de 2015

DISTÂNCIA

Minha mãe está tão longe, em alguma estrela fazendo seus vestidos com luz, pois era modista . Meus filhos moram longe e um almoço em família seria impensável...Mas recebo mensagens pelo celular, recebo fotos da minha mãe, não nas estrelas, mas em Teresópolis, com minha irmã e minha sobrinha.
O Dia das Mães possuiu uma carga emotiva imensa e quer ou não quem não tem mais a sua mãe vivendo neste planeta, quem tem os filhos longe, quem não tem filhos, sente uma pontinha de tristeza.
Mas sei que minha mãe viveu 89 anos e embora o Drummond já tenha dito que mãe não deve morrer nunca, ela até que viveu bastante e segurou seu bisneto Luis no colo na sua última festa de aniversário. Eu lhe perguntei: _Mãe, você está feliz? e ela respondeu com o Luis no colo: _É o ápice!
Meus filhos tocam panelas e instrumentos, cada um fazendo o que ama e não há felicidade maior.
Então, apesar da distância entre nós, já que a mente tudo alcança, estou com eles agora .Com meus filhos. Com a minha mãe.

sábado, 9 de maio de 2015

ARTE POÉTICA

Talvez esteja cometendo uma heresia literária, mas como não ligo para nenhum dogma, afirmo que sou completamente apaixonada pela poesia do Borges, mas não amo os seus contos. Que poeta magnífico e como a sua poesia fala com as minhas emoções. Ganhei uma vez uma linda antologia em espanhol mas agora ganhei da Catalina Pagès o poema abaixo em português, um dos meus preferidos. Não sei de quem é a tradução .

ARTE POÉTICA

Olhar o rio de tempo e água
e lembrar que o tempo é um outro rio,
saber que nos perdemos como o rio
e que os rostos passam como a água.

Sentir que a vigília é outro sonho
que sonha e que a morte
que teme a nossa carne é esta morte
de cada noite, que se chama sonho.

Ver em um dia ou um ano um símbolo
dos dias do homem e de seus anos,
e converter o ultraje dos anos
em uma música, um rumor e um
símbolo,
ver na morte o sonho, no pôr-do-sol
um triste ouro, tal é a poesia
que é imortal e pobre. A poesia
volta como a aurora e o pôr-do-sol.

Às vezes numa tarde uma cara
observa-nos do fundo de um espelho;
a arte deve ser como esse espelho
que nos revela nossa própria cara.

Contam que Ulisses, farto de
prodígios
chorou de amor ao divisar sua Ítaca
de verde eternidade, e não prodígios.

Também é como o rio interminável
que passa e fica e é cristal de um
mesmo
Heráclito inconstante, que é o mesmo
e é outro, como o rio interminável.

Jorge Luis Borges

sexta-feira, 8 de maio de 2015

CICATRIZ

Hoje em todo o mundo ocidental é comemorado o fim da II Guerra Mundial. Não sou muito boa em números mas acho que foram 60 milhões de mortos. A minha geração, nasci em 1950 ainda ouviu os ecos da guerra. Em tempos históricos ela está logo ali, na esquina. E deixou uma cicatriz indelével na alma do mundo.
O homem, único animal que mata seu semelhante por prazer, pura crueldade, preconceito, exploração, conseguiu chegar, nos anos terríveis da guerra, a profundidades impressionantes no abismo do horror.
O mundo ainda está longe da paz. Muitos bilhões de seres humanos vivem acossados pela miséria, doenças ou pela guerra . Mas um conflito como o da II Guerra , hoje, seria inimaginável. Então algum caminho andamos.
Acredito muito firmemente na melhora do homem pela educação, pela arte.
Trabalhemos como abelhas para isso, de flor em flor.
Só a paz constrói. Só a paz produz bem estar, felicidade e beleza.
A guerra, apesar dos senhores das armas votarem sempre pela guerra, só deixa em seu rastro sangue e escombros.
Ontem, meu amigo Berbere Hammu Toppia, me disse que na língua berbere as pessoas quando chegam e se despedem dizem "azul". Os judeus dizem shalom, paz.
Então, paz e azul para todos neste dia .

quinta-feira, 7 de maio de 2015

AZUL

Alguns poemas ficam morando dentro da gente desde a primeira leitura. Foi o que aconteceu com o poema do Carlos Pena Filho. Agora ganhei uma antologia bem simples mas com poemas maravilhosos usada pela Catalina Pagès em seus Círculos de Leitura e para minha grande alegria reencontro o azul:

SONETO DO DESMANTELO AZUL

Então, pintei de azul os meus sapatos
por não poder de azul pintar as ruas,
depois, vesti meus gestos insensatos
e colori as minhas mãos e as tuas.

Para extinguir em nós o azul ausente
e aprisionar no azul as coisas gratas,
enfim, nós derramamos simplesmente
azul sobre os vestidos e as gravatas.

E afogados em nós, nem nos lembramos
que no excesso que havia em nosso espaço
pudesse haver de azul também cansaço.

E perdidos de azul nos contemplamos
e vimos que entre nós nascia um sul
vertiginosamente azul. Azul.

     Carlos Pena Filho

quarta-feira, 6 de maio de 2015

CAMINHADA II


Ontem fui ao Rio de Janeiro para a revisão de três meses da cirurgia na coluna. A viagem foi cheia de obstáculos. Chovia torrencialmente quando saímos mas depois a chuva abrandou. Mas na Alameda, numa favela chamada Caixa d' água, passamos no meio de um tiroteio. Fiquei com muito medo. Na Ponte Rio Niterói havia um acidente de um ônibus da 1001 com uma moto. Mais tarde soubemos que o motoqueiro morreu e ficamos arrasados. Para quem vive numa aldeia no interior, o oceano de ônibus e carros assusta.
Mas almoçamos com três amigas amadas: Bia, Silvia e Mônica e a nossa alegria era feito espuma de onda.
Depois o médico me deu uma quase alta: só não posso ainda ficar na rede (adoro ler na rede) e pegar peso. Não tenho nenhum limite para caminhadas. Posso subir e descer na montanha quanto quiser e conseguir. Vou poder visitar meu grande amigo Salvador Almeida, que mora em Visconde de Mauá numa terra muito acima da nossa e para chegar até a sua casa há que subir muita montanha.
E hoje fui a pé até a vila com o Juan.
Logo ao abrir o portão fomos recebidos por uma revoada de gaivotas. Nunca vi tantas juntas voando pertinho da gente! Centenas. O mar devia estar com muito peixe.
Paramos no Posto de Saúde: Feio, decadente , uma pena, pois é onde vacinam os bebês, as crianças. Deveria ser lindo. Tomamos a vacina contra a gripe e fomos tomar outro café da manhã , no Marisco, de frente para a lagoa.
Mar, montanha e lagoa fazem de Saquarema um lugar único no mundo. E com um pingado e um pão francês na chapa com queijo de Minas, vira um paraíso imbatível.
A felicidade é quase grátis. Poder andar e olhar!!! Os garis varriam, varriam muito, pois dia 8 de maio é o aniversário da cidade. A verdade é que a cidade anda bem abandonada ultimamente mas hoje havia uma caravana de garis, todos num varre-que-varre delicioso.
Fui ao correio. Meu amigo gordinho estava lá atendendo. Voltou das férias e como aqui tudo se sabe , ele já sabia que fui operada e etc.
E assim vamos tecendo a vida. E caminhando. Fui andarilha no passado e espero retomar este maravilhoso ofício.

segunda-feira, 4 de maio de 2015

CAMINHADA

Tenho andado uma hora todos os dias. É uma conquista imensa. Antes de operar a coluna já não podia andar nem dez minutos.
Gosto de andar pelas ruas de trás do nosso bairro. São ruas lindíssimas, calmas, com casas ajardinadas, fazem lindos jardins até nas calçadas. Não há trânsito nenhum cedinho de manhã, uma ou outra bicicleta ou moto.
Eu me vejo caminhando pelas ruas magníficas da minha infância no bairro do Grajaú, no Rio de Janeiro e uma emoção imensa me invade.
Ouço um galo, passam patos selvagens em sua estrada no ar, da lagoa para o oceano, não sei.
A luz e a calma da bela manhã de outono me invadem . Para que escrever um poema? Tudo isso é poesia!

sábado, 2 de maio de 2015

REVOLUÇÃO

Penso que a única revolução, a que realmente pode mudar um país, é a educação.
E esta revolução começa com o respeito pelos professores.
Por que os políticos possuem tantos, imensos privilégios e um professor ganha tão pouco que ao receber o seu salário sua dignidade fica ferida?
O que aconteceu no Paraná jamais teria acontecido, se lá , no princípio de tudo, o professor fosse respeitado.
Não há nada que justifique a violência contra os professores.
Não há nada que justifique o professor ser tratado com desprezo.
O professor é a chave do cofre do tesouro. A chave para abrir as mentes.
Nenhuma tecnologia pode substituir o olhar, o sorriso, o incentivo que o professor dá aos seus alunos. Ou, ao contrário, um professor despreparado pode destruir a auto estima de um aluno.
Devo muito a uma professora de português, Rosa Herman, ela lia minhas redações em voz alta, me incentivava a ler e escrever.
Todos nós, devemos muito a muitos professores amados.
O país que não coloca os professores no mais alto patamar está fadado ao fracasso.
Que cortem os privilégios dos palácios e dos políticos. Carros com motorista, mansões, jatinhos, e tratem a educação com o respeito que merece. O seu pilar é o professor.
Aqui não é questão de ideologia, deste partido ou daquele. É uma questão de vida ou morte para um país.
Milhões de pessoas podem sair da pobreza com uma escola de qualidade.
Podem expandir suas mentes, encontrar seu caminho.
E os professores são a peça principal desta bela engrenagem.

 

sexta-feira, 1 de maio de 2015

ECOS VERDES

Ainda estarrecida com o artigo que li ontem no El País sobre a contaminação dos alimentos que comemos em níveis absolutamente alarmantes, faço um contraponto com uma linda notícia:

Acaba de sair o livro ECOS VERDES da ed. Rovelle, Eu traduzi o livro chileno e é um dos melhores que já li sobre ecologia para crianças. O texto é simples, maravilhoso e ensina a criança, ponto por ponto, a ter um Pensamento Verde. Ensina a reutilizar, reaproveitar, não consumir mais do que necessita, a dividir, a respeitar toda e qualquer vida, pois ela faz parte de uma cadeia absolutamente necessária para a nossa sobrevivência. Educa o pensamento, os gestos, o olhar. Aplaudo o livro de pé e aplausos para as autoras Mônica Martin e María de los Ángeles Pavez.
Todos sabemos que as crianças são a nossa última esperança. Que elas reeduquem os adultos.

" A TERRA É NOSSO LAR

A Terra é um lugar extraordinário, cheio de vida, e nos fornece tudo o que precisamos para existir. Todos os dias desfrutamos do que o planeta nos dá, desde um simples copo de água até as maravilhas da natureza.
Compartilhamos este lar com milhões de animais, insetos e plantas. Juntos, habitamos um ecossistema, isso quer dizer que vivemos num equilíbrio em que cada espécie desempenha seu papel e tanto contribui para o meio ambiente como obtém dele o que necessita."

in Eco Verdes, Mônica Martin e María de los Ángeles Pavez, ed. Rovelle

quarta-feira, 29 de abril de 2015

EM PENEDO

Acabo de chegar de Penedo, pois a Secretaria de Educação de Itatiaia fez o evento com as escolas da região no Clube Finlandês. Era uma homenagem ao meu trabalho. O Projeto Itatiart trabalha o ano inteiro com vários artistas, estudando suas vidas e obras.
Saí do encontro impactada. Foram muitas escolas, muitos alunos, até a escola da Maromba de Visconde de Mauá estava lá.
Houve uma dramatização do meu livro O Circo tão linda tão linda, que dava vontade de rir e chorar ao mesmo tempo.
Houve uma leitura sobre a minha vida feita por um menino de uns 8 ou 10 anos, tão maravilhosa, ele lia tão bem, tão fluentemente e devo dizer que infelizmente esta não é a norma, que nem sei o que dizer.
O Rafael Fioratto faz bonecos para teatro, ele é professor de teatro . Houve uma apresentação lindíssima de um casal de bonecos. A menina é apaixonada pelo menino que não lhe dá a menor bola. Pois bem eu me apaixonei também por um dos bonecos do Rafael. Achei a cara do meu neto Luis. Tanto fiz e aconteci que acabei ganhando o boneco. Agora ele vai morar aqui na Atrium Escola de Música. Receberá os alunos de braços abertos.
Levei minha nora Patricia de Arias comigo, lemos juntas um poema do nosso livro Fio de Lua&Raio de Sol.
Fiz uma brincadeira poética com eles: o poema Orquestra Noturna do livro Caixinha de Música.
E foi tudo maravilhoso, levada que fui pelas mãos da Virgínia Ferraz.
Amanhã estarei no mar.

terça-feira, 28 de abril de 2015

COISAS DE NETO

  Estou em Resende. Passei dias esplêndidos na montanha. O encontro com meu neto Luis tem a força de uma explosão cósmica, já que nos vemos tão pouco.
Luis foi para a minha casinha. Levamos a caixa de tinta guache para a mesa da varanda e folhas de papel ofício. Luis pintava com os dedos misturando as cores. Eu era a ajudante, a trocadora de água.
Quando ele achou que a pintura já estava pronta, ele me disse:
_ Vovó, ficou lindo. Você pode colocar numa moldura. É arte sem sentido. Nós temos um quadro de arte sem sentido na nossa casa e é igualzinho!

No dia da minha chegada em Visconde de Mauá, fui direto para o ateliê da minha irmã Evelyn Kligerman . À noite jantamos com filho , nora e minha neta Gabriela no Warabi, restaurante japonês ao lado do ateliê. Minha tia Alice, a guardiã da memória da família materna, está passando dias com a Evelyn. Tia Alice não é japonesa mas é completamente zen.  Uma lição de vida. Eu estava tão feliz que me sentia forrada de luz. A comida era incrível e a Gabriela, tão pequenininha já adora comida japonesa.

Amanhã serei homenageada em Itatiaia, com um grande encontro com alunos da Rede Municipal.
E a escola da Barra da Tijuca que iria ao meu encontro em Saquarema no dia 13 cancelou a sua ida por enquanto. Já tinha o cardápio do almoço arrumadinho na minha cabeça! Mas faremos em agosto.

Hoje vamos almoçar aqui pertinho no Rei do Milho. Adoro este nome. É tão da roça! A comida é bem de roça mesmo e o milho ocupa um espaço privilegiado.

Depois de tantos dias sem notícias do mundo, não há nenhuma digna de alegria. Então, para sobreviver, cultivemos nossas pequenas- imensas alegrias pessoais: amor, amizade, sonhos.


terça-feira, 21 de abril de 2015

PASSEIO

Hoje caminhei uma hora com o Juan por dentro do bairro, as ruas são lindíssimas. Jardins e passarinhos. Andamos um pouco pela lagoa. Desde antes da primeira cirurgia na coluna em 1993 que não deu certo, não caminho assim, como uma verdadeira caminhante. Acho que vou ter uma overdose de endorfina.
Havia uma igrejinha antiga dentro do bairro, uma igrejinha colonial e um coreto numa pracinha. Era um conjunto belíssimo. Na década de 70 cheguei a ir numa quermesse nesta pracinha.
Pois bem, destruíram tudo. A igrejinha singela, saída de um quadro naïf, virou um monstrengo horroroso, transformaram uma obra prima num amontoado de feiura . Destruíram o coreto antiquíssimo e fizeram outro em seu lugar, mas não encontro palavras para descrever tal aberração. A cidade não cuida do seu patrimônio histórico. Além disso todo o conjunto está cheio de lixo.
Agora começaram a fazer a orla da praia. Um calçadão. Dá medo. Já estão construindo uns banheiros horrorosos, tiram a magnífica vista da praia, vários banheiros, como se uma multidão precisasse ir ao banheiro ao mesmo tempo! Já existem alguns prontos na Praia de Itaúna.. Olhando parece um amontoado de pedras, como se fosse um banheiro pré  histórico, só que naquela época não existiam banheiros. Quem desenhou deve ser obcecado pelos Flinstones . A população não foi consultada.
Eu grito sozinha de horror. Onde posso gritar? Ficamos nas mãos de políticos que não perguntam nada para os moradores, aos poucos a cidade vai se transformando sem que possamos interferir.

Amanhã mergulharei na montanha. Ficarei ausente por uns dias.