terça-feira, 5 de dezembro de 2017

SELO DISTINÇÃO

Meu livro DUAS CASAS, Lê Ed, ganhou o Selo Distinção da Cátedra Unesco.
É uma felicidade grande demais.
Porque por dois anos não consegui publicar nenhum original. Porque foi o último trabalho de ilustração da minha amiga Elvira Vigna e ela amou o meu texto. Conversamos muitas vezes sobre o livro. Ela queria tanto que ele saísse. Não deu tempo de que ela o visse na rua. Isso é muito triste.
Mas ele está na rua e já começa honrando o seu nome. Cada pintura é um quadro maravilhoso.
Mal deu tempo de que o livro esfriasse as suas tintas, ele acaba de sair e já ganha esse selo tão importante.
Quando a felicidade é muita o coração cria asas!
Agradeço a minha editora Lourdinha esse belo presente.

sexta-feira, 1 de dezembro de 2017

AGRADECIMENTO

" O correr da vida embrulha tudo.
A vida é assim:
Esquenta e esfria, aperta e daí afrouxa,
sossega e depois desinquieta.
O que ela quer da gente é coragem".
Guimarães Rosa
Todo fim de ano, já que somos humanos e precisamos dividir o tempo contínuo, fazemos um balanço, traçamos sonhos, metas, catalogamos desejos.
Faço uma lista das dádivas recebidas em 2017:
Ninguém da família ficou doente. Não precisamos fazer nenhuma cirurgia.
Eu pude caminhar o ano inteiro.
Todas as viagens que fiz a trabalho foram maravilhosas e pude rever amigos reais, fazer amigos, conhecer fisicamente leitores. Além de voltar a Joinville onde me fizeram flor e conhecer e me apaixonar pelos adolescentes do Instituto Zanette, onde Silvane Silva trabalha com horta, jardim e leitura.
Pude fazer encontros mensais com as escolas aqui na minha casa em Saquarema.
Pude passar alguns dias na montanha quase todos os meses com a minha família.
Li os livros mais maravilhosos.
Todos os encontros do Clube de Leitura da Casa Amarela foram magníficos.
Vi amanhecer. Vi entardecer.
Escrevi poemas de madrugada.
Tenho certeza que esse foi um dos anos mais belos da minha vida.
Agradeço a cada pessoa que vive dentro de mim.
Dentro de mim as ruas são largas e o tempo é um fio luminoso amarrado em meu pulso.

quarta-feira, 29 de novembro de 2017

TRÊS ARTIGOS

Ontem li três artigos que me fortaleceram.
Gao Xing Jian, Prêmio Nobel chinês, mas fora da China por motivos óbvios, perseguições, prisão, etc, diz o que estou amadurecendo desde que a esquerda no Brasil, dentro de mim se quebrou em mil pedaços a partir de suas tenebrosas alianças e corrupção e populismo.
Cresci numa casa progressista. Meu pai era simpatizante do PCB. Mas ele, que nunca pode estudar ( se alfabetizou sozinho ), teve a maior decepção da sua vida quando a União Soviética invadiu a então Tchecoslováquia(assistam ao belíssimo filme Kolia). Algo imenso se quebrou dentro dele também.
Nunca fui simpatizante de nenhuma direita, tenho a esquerda no meu DNA, mas não essa que está aí nem o comunismo que matou milhões de pessoas e só existe como um regime nefasto na Coréia do Norte e Miammar.
Um comunismo utópico que não existe nem nunca existiu.
Pois bem, Gao Xin Jian diz o que ansiava ouvir e é tão raro ouvir: estamos aprisionados em ideologias do Século XX, e enquanto se fortalecem os populismos ditos de esquerda e a direita fascista, teríamos que inventar um Renascimento para fazer frente a esse capitalismo destruidor e selvagem. A essa onda horrorosa de moralismo e perseguição aos artistas e a própria arte e literatura. Algo novo.
Que coloque o bem estar do ser humano acima de qualquer projeto de poder. Que seja semeador de alegrias.
E Guy Standing, num outro artigo, o inventor do projeto de renda mínima, nos coloca frente ao absurdo que é o mercado de trabalho onde só o que vale é a produção. E o tempo que nos dedicamos a cuidar dos idosos, das crianças, dos bichos, o tempo que é usado para pensar, ler, escrever, fazer algum esporte, estudar música, esse tempo não é considerado trabalho. Mas é esse tempo que nos humaniza.
Daniel Becker, Pediatra e Pesquisador, completa: as crianças precisam BRINCAR com outras livremente para aprender a viver, para aprender a solucionar conflitos, para aprender a perder e a ganhar sem ter os pais cono mediadores.
E li também vários artigos maravilhosos sobre a importância da arte e literatura nas escolas.
Sem arte e literatura estaremos muito longe de um Renascimento, uma mudança de paradigma.
Apenas reproduziremos os seres humanos terríveis que somos, estaremos alimentando os populismos, alimentando os salvadores da pátria, ajudando a fabricar falsos ídolos.

terça-feira, 28 de novembro de 2017

CORRESPONDÊNCIA

Se fosse possível escrever cartas para o céu o trânsito de carteiros seria imenso.
Pai, mãe, tios, tias, amigos queridos e insubstituíveis, artistas que nunca deveriam partir, escritores que amamos, nesse caminho sem volta.
Quantas coisas que ainda queriamos dizer, tantas frases inacabadas.
Nosso livro do Clube de Leitura da Casa Amarela do mês de dezembro é de um autor uruguaio bem desconhecido no Brasil: Ángel Rama e o livro, Terra sem Mapa, começa assim:
" Queria poder escrever no envelope desta encomenda " À minha mãe, no céu da Galícia"
e que ele chegasse a seu destino."
A última frase quase me sufoca de emoção.
O livro é belíssimo.
As páginas que evocam a Galícia são quadros, são poemas.

sexta-feira, 24 de novembro de 2017

SILÊNCIO

Há muito barulho no mundo.
O silêncio é raro e um bem inestimável, um tesouro.
Sempre busquei o silêncio, desde muito pequena. Por isso amo viver dentro da natureza. Os sons da natureza são música e não machucam o silêncio.
Os sons que o homem fabrica podem ser ásperos e rudes ou até mesmo infernais.
Há nesta confusão de ruídos humanos um desentendimento.
Quando um tema é lançado na rede o que ouvimos são agressões e impropérios, o que de certa maneira replica os ruídos da vida real, as buzinas dos carros e ônibus, as músicas a todo volume ( que não seriam necessariamente o que eu escolheria para ouvir), os gritos.
Acho que dentro da silêncio aprendemos a delicadeza.
Eu me lembro de um verso de uma música do Manduca, filho do poeta Thiago de Mello: " Gentileza é pedra rara, não se acha pelo chão...". Pedra cada vez mais rara.
Junto com todo esse barulho, virtual e real, sementes de ódio voam daqui para lá e isso é absolutamente assustador.
O silêncio é necessário para que a gente ouça a nossa voz mais profunda.O silêncio é unguento.

segunda-feira, 13 de novembro de 2017

TRÊS RIOS

Amanhã estarei em Três Rios, no Sesc, com Flávio Carneiro e Daniel Ribas.
Um carro virá me buscar.
O SESC me paga um hotel, pois é bem longe ir e voltar no mesmo dia.
Espero que tudo certo, pois assim foi combinado.

sexta-feira, 10 de novembro de 2017

HUMANOS

Isso é coisa de judeu.
Isso é coisa de preto.
Só podia ser mulher.
Isso é coisa de veado.
Quantas vezes já ouvimos isso?
Porque um humano, absolutamente mortal, com a vida sempre por um fio, se sente superior a outro?
Tudo é coisa de humanos.
O Brasil é um país racista, classista, homofóbico, um país de castas.
Sentir-se superior a outro, por isso ou aquilo é absolutamente terrível.
Ser o melhor humano possivel, deveria ser a nossa busca.
A isso devemos dedicar a vida.
Desfazer preconceitos é um trabalho diário e deve começar na escola, no ensino básico.
De preferência com literatura para exercitar a empatia.

quarta-feira, 8 de novembro de 2017

CARTA PERIGOSA

Anda circulando pelas Igrejas Evangélicas uma carta conclamando os professores cristãos que tenham Mestrado para que se inscrevam num programa do MEC para avaliar livros didáticos e para denunciar a ideologia de gênero.
Professor não pode ser censor.
Professor tem que incentivar o livre pensamento, as discussões, honrar os grandes pensadores, dividir com seus alunos as inquietações do nosso tempo.
Ninguém é obrigado a aceitar nada . Mas tudo pode ser discutido.
Faço um chamado aos Professores Evangélicos para uma leitura crítica e apaixonada da vida de Jesus.
Jesus aceitava e acolhia os diferentes. Era aberto´ao novo. Só não tolerava maus tratos e injustiça e perseguições.
Professor não é censor.
Esse não é um caminho digno para um professor.
Professor não persegue. Não é polícia.
Não deixe que qualquer religião o impeça de transitar por todos os temas com seus alunos.
Nada deixa de existir porque silenciamos.
O mundo do Século XXI não é o mesmo dos séculos anteriores e todos os grandes homens e pensadores nunca tiveram medo do que é novo e diferente. Jesus não teve medo. Morreu por pensar diferente. Tocava as mulheres quando um judeu não poderia tocá-las. Um dos grandes tabus do seu tempo.
Professor, não se deixe aliciar. A liberdade de pensamento é o maior bem que temos.

terça-feira, 7 de novembro de 2017

CAMPOS

Amanhã estarei em Campos, no SESC, para um encontro literário com Flávio Carneiro e mediação de Daniel Ribas.
Esse formato de encontro é maravilhoso par quem está no palco e para quem está na plateia.
Campo foi onde minha mãe passou a infância.
Lembro da casa da minha avó Fayga, uma das primeiras imagens que tenho é a da minha avó limpando a carne dando pedaços para um gato.
Lembro da casa da minha Tia Cecília, seu quintal cheio de frutas. Eu me sentava debaixo de uma árvore de carambolas com um guardanapo amarrado no pescoço para comer aquelas frutas estranhas e maravilhosas.
Campos era bela e pacata, já maior eu adorava ir ao centro de ônibus com a minha prima Laís.
O petróleo destrói tudo, qualquer cidade onde se faz a sua extração.
Tomara que não construam nenhum porto aqui em Saquarema.

sexta-feira, 20 de outubro de 2017

FEIJÃO COM ARROZ

Mesmo com todas as nuvens sombrias que cobrem o país, acho que não iria embora se pudesse.
Há algo no Brasil que amo e acho insubstituível: a espontaneidade e comunicação entre as pessoas.
Apesar de todo o clima negativo, isso ainda perdura.
As pessoas falam umas com as outras. As pessoas se tocam, se abraçam.
Não saberia viver sem isso.
Eu sou da primeira geração da minha família que nasceu no Brasil. Mas me sinto brasileira até a medula. O que é ser brasileira é algo bem difícil de explicar. O que nos une além da língua?
Não sei .
Comer tudo misturado no mesmo prato?

quinta-feira, 19 de outubro de 2017

QUINDIM

Dar de presente para uma criança que não poderia ter, a assinatura de um Clube de Leitura, é o melhor investimento que se pode fazer.
Escolhi o Quindim por considerá-lo execpcional na escolha dos títulos, no carinho com que a criança é tratada.
Escolhi uma criança e aposto no seu futuro de grande leitor. Quero que ele tenha as mesmas oportunidades que meu neto, que também tem uma assinatura do Quindim.
Em nossa família até os gatos são leitores.
E o nosso leitor adotado promete!

quarta-feira, 18 de outubro de 2017

ÁFRICA

Na década de 80 li o livro Ségou, de Maryse Condé.
Uma aula magistral sobre como o Islamismo entrou na África. Matando, destruindo, aniquilando as religiões ancestrais.
Ou a conversão ou a morte.
Como fez o Cristianismo .
A África tem cicatrizes profundas por essa separação brutal de suas raízes.
É impressionante o horror que o fundamentalismo é capaz de semear. Deveríamos lutar com todas as forças contra o fundamentalismo que nesse momento assola o Brasil.
Nenhuma religião é dona de nenhum Deus.
Nenhuma religião tem o direito de sentir-se superior a qualquer outra. Nenhuma religião pode ditar as leis que regem um país.
O sagrado, o divino, é assunto particular e íntimo de cada um.
Se somos todos mortais e nenhum Deus pode nos salvar da nossa terrivel condição humana.
Faz muito tempo assistimos a destruição lenta de um Continente inteiro, que tem que lidar com a doença, a miséria, a fome, o terrorismo.
Faz tempo assistimos os naufrágios, o mar está cheio de gente que, arriscando a vida, tenta chegar a um destino melhor.
Mas parece que a África não interessa mais.
Tudo já foi roubado.
Então não causa espanto que a mídia não dê importância aos mortos africanos.
A África, berço da humanidade . Abandonada pelos donos do mundo.
Sempre me senti africana e quando estive em Abidjan eu me esquecia que era branca.
Pude constatar a delicadeza, a sutileza, o requinte da sua gente.
Há que chorar pela África . Já que somos impotentes.

terça-feira, 17 de outubro de 2017

VÍDEOS

Muitas escolas, quando estão fazendo algum projeto com meus livros, me pedem para gravar um vídeo. Mas hoje recebi um pedido diferente. A Professora Joceli Costa, de Aracruz, queria que eu falasse sobre tecnologia e arte para uma Mostra Cultural da sua escola.
Não sou teórica e nem especialista em nada. Sou poeta e vou escrevendo a vida, o que vejo, o que me toca, o que vai acontecendo, o que penso.
Então só posso falar do que sei.
Sei que a minha relação com o leitor mudou depois do advento da internet e das redes sociais.
Escrevo meus poemas no celular, já que escrevo muito e o celular está sempre por perto. Se coloco um poema na rede social, em segundos tenho a resposta. Antes eu poderia nunca saber. A rede social, o site, funcionam como um espaço físico onde as pessoas me encontram. Onde os leitores chegam bem perto de mim. Uma espécie de casa em outra dimensão.
As escolas marcam um encontro comigo através do MSN para o projeto Café, Pão e Texto.
Com o whatsup tenho a família e os amigos distantes na palma da mão. Estamos juntos em tempo real.
Qualquer informação que se precise também está a um clique.
Publico livros digitais com acesso gratuito no meu site.
Posso acessar qualquer museu do mundo a qualquer instante.
Compro meus livros sem sair de casa, já que aqui em Saquarema não existe livraria.
As opiniões circulam através das redes como ondas que penetram várias camadas sociais.
A arte circula como nunca antes e as polêmicas em relação ao que é arte e não é arte também.
Enfim, o conceito de espaço- tempo mudou radicalmente com a tecnologia.
Deixo o assunto na mão de vocês, meu leitores.
Lembro que Machado de Assis e Diderot já conversavam com seus leitores em seus livros, trazendo o leitor para a cena.
Imagina se tivessem facebook.


segunda-feira, 16 de outubro de 2017

SEGUNDA-FEIRA

Ao contrário de quase todo mundo, eu adoro as segundas-feiras. Parece que o tempo é uma manivela e que ao girá-la, tanta coisa se põe em movimento.
A minha vida é feita de acontecimentos desenhados no ar. Nunca sei se ocorrerão de verdade.
Uma viagem aqui e outra ali. Uma palestra, um lançamento, um livro novo. Mas há um momento em que são meras possibilidades. Acontecerão mesmo? Dirão os anjos que sim? Ou feito bolha de sabão com um arco-íris dentro terão sido apenas a imagem do que poderia ter sido?
Aos domingos tenho uma flor invisível atrás da orelha que se chama melancolia. Leio bem cedo o jornal inteiro e acho que o mundo vai acabar.
Mas aí chega a segunda- feira e acho que não, que não vai acabar, que muito pelo contrário, o amor faz milagres e que cada um nos seus afazeres dando de si o melhor possível, todos sobreviveremos e nos salvaremos do pior, nos salvaremos dos que só acreditam em armas e grades e dinheiro. Na segunda-feira acordo cheia de promessas outra vez.

segunda-feira, 9 de outubro de 2017

PASSEIO DE DOMINGO

Nosso programa de domingo é simples e magnífico.
Caminhamos, eu e Juan Arias, pela orla até a Padaria da Ponte. O mar está calmo. Parece um lago. A temperatura foi fabricada no paraíso. O vento é uma caricia e o azul nos envolve. São dois quilômetros de caminhada e nos cruzamos com um homem e dois cachorros. Apenas.
Na padaria já nos conhecem. Já sabem como gosto do meu pingado: no copo e muito quente. Ao chegar está tudo vazio, mas pouco a pouco as pessoas vão chegando. Familias. Encontramos sempre uma jovem mãe e seus dois filhos, uma menina de uns 8 anos e um bebê de um ano e algo, que come seu pão de queijo concentradíssimo.
Saquarema não tem cinemas, livrarias, exposições, mas nos dá lições de humanidade todos os dias. Caminhando todos se dão bom dia. Ainda existe delicadeza entre as pessoas.
Então eu mergulho profundamente na natureza onde estou inserida, mar, lagoa, montanha e penso. Gosto de pensar. E leio. Varios livros ao mesmo tempo. E escrevo poemas.
Penso, por exemplo, que há um fenômeno hoje no Brasil que deve ser estudado. 60% dos que declaram seu voto ao Bolsonaro são jovens.
Como ocorre essa identificação? Também na França a Marine Le Pen teve muito apoio dos jovens. Um fenômeno mundial?
O que faz um jovem que deveria encarnar a vanguarda apoiar a retaguarda ? Será que acha que a retaguarda é vanguarda?
E por que os artistas foram pegos como bodes expiatórios?
De quem é a responsabilidade por esses jovens apoiarem politicos que representam o que há de pior no ser humano?
Se os jovens apoiam o lixo humano devo me horrorizar.
Li muitos livros sobre Mussolini para saber do que estou falando. Lembro de um romance especialmente, não me lembro o nome do autor: Historia de Pobres Amantes. O fascismo veio chegando devagarinho, como um vento maligno. Havia essa identificação dos jovens com a brutalidade, a força.
Não vejo outro antidoto a não ser a Educação. E por favor, aulas de Historia através da litetatura.

sábado, 7 de outubro de 2017

Duas Casas

Vem aí meu livro Duas Casas, com as maravilhosas pinturas da Elvira Vigna.
Tenho certeza de que é o seu mais belo trabalho da nossa longa parceria de tantos livros.
Elvira não viu o livro pronto e me emociona pensar no quanto ficaria feliz.
Falamos muitas vezes sobre o livro .
Faz muito tempo que não consigo publicar nenhum livro novo.
Mas o Duas Casas é tão lindo que vale o tempo da espera.
A Lê Editora, a Lourdinha Mendes, sempre fez meus livros com um carinho ímpar. Que nosso livro lhe traga muitas alegrias. O livro entra na gráfica e logo estará nas mãos dos leitores.
Estou muito emocionada. Elvira está viva, bem na minha frente. Estamos tomando um café e filosofando sobre a vida, que era o que mais gostávamos de fazer.
Ela, que foi a primeira pessoa a me dizer em 1999:
- Rose, você não sabe o valor que tem a tua poesia.
Estamos juntas outra vez.

terça-feira, 26 de setembro de 2017

CONSTRUINDO MUNDOS

Que cada um fabrique para si uma realidade paralela para poder viver, pois o real é duro demais.
Chego em casa depois de uma longa viagem e os últimos e tenebrosos acontecimentos me invadem. O exército na Rocinha, o Partido Nazista no Parlamento alemão.
Esses dois fatos distantes geograficamente se tocam no que possuem de violência, no que carregam em seu rastro. Na sua memória nefasta.
Mas enquanto faço o café, a música do mar envolve a casa e me abraça.
Penso na beleza dos encontros, na beleza dos afetos, no amor que nos justifica.
E que construir pequenos mundos, criar qualquer coisa que seja, nos salva.

Flores perfumadas de sol
e vento
semeadas pela mesa,
pela casa, pelos quatro
cantos do tempo.
In Jardins

segunda-feira, 18 de setembro de 2017

SAQUAREMA

Viver numa cidade tão pequena como Saquarema, para mim é um luxo imenso.
As pessoas se dizem bom dia. No Marisco, onde tomo meu pingado depois do Pilates me conhecem e também na papelaria. No correio a Marta, que me atende, fala de livros. Já levei três livros meus para a sua filha.
Na farmácia do Moisés há sempre um ambiente festivo, nem parece farmácia.
A cidade, com tanta água, mar e lagoa, com tanto azul, me acolhe e abraça.
Nem sei como devolver esse amor.
Dia 20 estarei outra vez na E.M.Bonsucesso, junto com a Manoela Peres, a Prefeita que está dando todo o apoio ao Projeto de uma escola inovadora, junto com o Secretário de Educação e as Professoras que estão tocando esse barco: Fatima Alves e Roseléa Olímpio.
Para que um projeto ousado como esse, que implica mudanças de hábito radicais dê certo, o apoio do Diretor ou Diretora da escola é imprescindível, e do Governo e da Secretaria de Educação também. Todos sabemos como é difícil fazer mudanças externas e internas.
Alguma coisa também se move na área cultural. Mudanças geram mudanças.
Uma Orquestra Jovem de Niterói virá tocar numa escola. Isso é inédito.
A minha função na vida que me coube é sensibilizar. Fazer com que o humano em nós seja da melhor qualidade.
Lembro sempre que Nelson Mandela, na prisão, conseguiu sensibilzar até os guardas mais frios e desumanos com uma horta!
O amor e a arte, a poesia, a literatura, são instrumentos muito potentes .
Devemos usá-los ao invés de armas, bombas, ódio e preconceito.
Todos precisamos ser acolhidos.
Quando no livro O Amor possivel de Juan Arias com Saramago, Juan perguntou ao Saramago porque escrevia, foi Pilar quem respondeu Escreve para ser amado.
Todos precisamos de amor.

sexta-feira, 15 de setembro de 2017

PENSAMENTO LIVRE

PENSAMENTO LIVRE
Ontem soube, através da Professora Roseléa Olímpio, que a E.M.Bonsucesso, a Escola inovadora de Saquarema, está fazendo o maior sucesso. Outras escolas já querem renovar.
O que mais destaco no projeto é a Plenária, um espaço, uma sala linda, para discutir e pensar. Não vale nota.
Mais do que nunca é preciso pensar.
Abracem essa bandeira.
O pensamento livre derruba preconceitos.
O pensamento livre não admite a intolerância.
O pensamento livre não julga precipitadamente.
O pensamento livre não é um bloco de gelo, uma parede, um muro, um cadeado, uma prisão.
O pensamento livre aceita e acolhe o diferente.

quinta-feira, 7 de setembro de 2017

RESISTÊNCIA

Meu pai não sabia em que dia nasceu, nem o mês, lá na Polônia.
Então ao chegar ao Brasil, antes da Segunda Guerra, escolheu uma data, porque amava esse país: 7 de setembro.
Meu pai faria muitos anos hoje, não sei quantos, não sou boa em matemática.
Então hoje, uma data onde se comemora o Brasil e o aniversário do Sr. Lejbus Kligerman, que foi pobre na infância, que viu seu pai ser assassinado, que passou fome e frio, que se naturalizou brasileiro, que amava o sol, não há nada a comemorar. Apenas os valores que meu pai me deixou de herança. Inquebrantáveis.
O Brasil está destruido e algo novo terá que nascer, terá que vir.
São milhões de jovens à deriva, milhões de crianças que recebem migalhas.
São tantas mortes que é quase como se estivéssemos em guerra.
Mas sobreviveremos.
E faço um chamado a todos que como eu trabalham no pequeno, cozinhando arroz com poesia, não vamos desistir.
Roubaram meus sonhos, minhas utopias, minhas esperanças. Mas sobraram alguns sonhos, algumas utopias, algumas esperanças.
Faço um chamado aos poetas, pintores, músicos, ficcionistas, faço um chamado aos contadores de histórias, esses seres maravilhosos, sempre equilibrando as palavras com o seu sopro, como malabares, gente do teatro, cientistas, gente do circo,professores, educadores, filósofos,não vamos desistir.

segunda-feira, 4 de setembro de 2017

PÁSSAROS DO ABSURDO

Em 1990 ganhei um concurso nacional de poesia, da Associação Gaúcha de Escritores com meu original Pássaros do Absurdo.
Enviei o original no último minuto e devo isso ao meu amigo que partiu tão cedo, Carlos Louzada.
Nos sentamos num bar em Copacabana. Ele já estava bem doente. Ele tirou um pedaço de papel no bolso e me deu o papel. Disse: _ Por favor, manda teus poemas.
Fui receber o Prêmio em Garibaldi, R.S. Era tudo um sonho de contos de fadas.
Fui recebida pelo poeta Luiz Miranda. Fiquei num hotel maravilhoso. A cidade era belíssima. O Prêmio tinha dinheiro e publicação. Lya Luft escreveu sobre a minha poesia. Pink Weiner me deu a capa do livro de presente.
Mas um dia, um caminhão parou no portão do meu prédio no Rio Comprido e despejou 2000 livros na minha porta. Não havia distribuição.
Fui doando o livro, vendendo onde ia, tentando que ele circulasse.
Tenho ainda alguns exemplares.
Mas alguns poemas se salvaram . Estão no livro Poesia Essencial, que ao entrar no Programa Portal do Saber, foi parar em todas as Bibliotecas do Estado de São Paulo, foram 500.000 livros.
Cada livro tem uma trajetória e uma história.
O Poesia Essencial perdeu a sua casa, a Ed. Manati e será meu próximo E Book gratuito, para preservá-lo.
Cada livro é um barco, uma jangada , uma garrafa no mar. O que a gente deseja é que encontre um porto.

quinta-feira, 31 de agosto de 2017

PROJETO RENOVAR

Prometi contar o meu encontro com a turma da quinta série da E.Municipalizada Bonsucesso, em Saquarema, entre Bacaxá e Araruama.
É a primeira experiência de fazer educação de outro jeito que acontece aqui no município e o Projeto se chama Renovar. Ele é conduzido por Fatima Alves e Roseléa Olímpio ,com o apoio da Prefeita Manuela.
Roselea veio me buscar às 13 horas. Pegamos a estrada que vai para Araruama. Saímos do asfalto à esquerda e logo ali já era a escola em pleno funcionamento.
O Projeto começou este mês e os milagres já são visíveis.
Cada porta de cada sala é pintada de uma cor e as crianças trocam de sala para cada matéria. ( De primeira a quinta).
A sala de matemática se chama Clube dos Desafios. E todos os dias a professora coloca um desafio na porta, pode ser uma conta, um problema... a porta só abre quando o desafio for resolvido, é a senha.
A sala de Português se chama Estúdio da Comunicação .
História e Geografia, Sala de Embarque.
Ciências, Planeta Terra.
Foram os professores qie pintaram as portas super coloridas e pintaram as salas por dentro com desenhos instigantes e incriveis.
A imaginação é o personagem principal.
Entrei no Estúdio da Comunicação em plena aula. Uma delícia. Estavam aprendendo frases positivas e negativas.
As crianças trabalham em grupo.
E lá fui eu para a Plenária , a sala do pensamento, onde um tema é discutido sem valer nota.
Eu lancei o tema Cidades.
Bonsucesso é um bairro na estrada. Eles vivem entre duas cidades.
Comecei lendo um poema ( ah, a Plenária é lindíssima!!!) e depois perguntei se Bonsucesso tinha ruas. Tinha. E foram me dando alguns nomes:
Rua da Antiga Estrada de Ferro, Rua dos Eucaliptos, Rua da Usina.
Falamos da beleza desses nomes. Falamos dos trens e das usinas e da escravidão com sua mão de obra grátis para as usinas.
Perguntei se Bonsucesso tinha algum lugar que fosse uma referência como Saquarema tem a Igreja e um aluno respondeu:.
-Tem sim . A escola!
Elegemos um Prefeito para dizer que mudanças faria. Ele faria uma praça para que as crianças pudessem brincar. Asfaltaria as ruas. Colocaria manilhas para que as ruas não se alagassem com a chuva e colocaria ônibus escolares para as crianças, já que muitas caminham 4 km de casa até a escola.
Ele entende as necessidades do bairro. E é um menino de 10 anos.
Falamos das megalópolis. Das profissões que estão desaparecendo.
Lemos poemas.
Doei livros. E vou doar um tapete para a Sala de Leitura.
E finalmente foram convidados para um Café, Pão e Texto.
Moram tão perto de Saquarema e muitos não conhecem o mar.
Todos estão felizes e muito entusiasmados com as mudanças na escola. Estão muito orgulhosos com a beleza das salas.
A alegria deles é imensa.
Raphael Coutinho, o Diretor, está radiante e todos os professores estão também.
Eu estou no Mundo da Lua!
Vou inventar uma rua
Onde se cante e dance
Se pinte e borde
Se faça e aconteça
Se plantem corações
Uma rua onde todos vivam
No mundo da lua

quarta-feira, 30 de agosto de 2017

CIDADES

A E.Municipalizada Bonsucesso está na rota das escolas inovadoras no Brasil. O novo caminho começou em agosto e hoje irei conhecer a escola e me encontrar com os alunos na Plenária, um espaço dedicado ao pensamento.
Propus discutirmos o tema CIDADES. Os alunos vivem entre duas cidades e vamos ver o que vai sair deste nosso encontro.
Já começo a me arrumar.
Dentro de pouco tempo virão me buscar.
Estou emocionada e ansiosa. Com um pouquinho de medo também. Tudo isso junto faz um coquetel de adrenalina boa.

terça-feira, 29 de agosto de 2017

ESCOLA INOVADORA

As escolas em Saquarema são lindíssimas mas muito conservadoras. E uma ótima notícia é que uma escola está fazendo uma revolução, pelas mãos da Fatima Alves e Roseléa Olímpio.
A E..Municipalizada Bonsucesso.
As salas de aula foram transformadas em Espaços de Aprendizagem.
As crianças mudam de sala para cada matéria.
As salas possuem nomes maravilhosos.
As crianças aprendem brincando, com desafios.
Arte é coisa séria.
E há uma Plenária para discussão de temas.
Algo com que sempre sonhei: um fórum permanente de pensamento.
Amanhã tenho um encontro com os alunos na Plenária.
Propus discutirmos o tema Cidades.
Os alunos vivem entre duas cidades. No meio do caminho.
Estou curiosa demais.
Depois conto tudo para vocês.
Que essa escola germine e leve outras ao seu encalço.
É uma nova maneira de fazer educação.
Saquarema merece entrar para o mapa das escolas que fazem diferente.

sexta-feira, 25 de agosto de 2017

SURPRESA

Conheci uma pessoa. Uma chilena.
Ela veio e ao longo de algumas horas de conversa fomos nos reconhecendo.
O que pensamos, o que tecemos, a maneira como nos movemos na vida, tudo nos era familiar.
Isso não acontece todos os dias.
É uma dádiva.
Sempre agradeço as dádivas diárias que recebo. São muitas.
H´mil anos atrás, na pré história da minha vida, hospedei uma chilena que fugia do regime assassino de Pinochet.
Ela era pintora e me apresentou Neruda e Violeta Parra. Desde então, de longe, amo o Chile.Ontem, com Carla Jimenez o Chile entrou aqui em casa.
Ainda estou comovida.

quarta-feira, 23 de agosto de 2017

CONVITE ESPECIAL

Recebo um convite que me emociona. Copio a carta que recebi.

Querida Roseana:
            Somos a SALA DE LEITURA POLO da Escola Municipal  07.16.053 Professora Dyla Sylvia de Sá, bem pertinho da Cidade de Deus. Somos uma escola pública e juntos - alunos, professores, direção, funcionários, comunidade escolar - lutamos por uma Educação de Qualidade para nossas crianças. Então, para viabilizarmos este sonho e acreditando no potencial da palavra realizamos desde 2013 uma FEIRA LITERÁRIA - a FLED, cujo principal objetivo é marcar a importância da leitura. Também desejamos que nossos alunos se aproximem de todos aqueles que trabalham em prol da arte literária: escritores, pensadores, contadores de histórias, poetas, músicos, todos os que têm na palavra a sua fonte de ideias e ações.
            Assim é com grande prazer que convidamos você, querida Roseana, para ser a homenageada de nossa FLED, no ano de 2017.
            A FLED acontecerá na dia 10 de Outubro, começando às 8h30 e terminando às 12h30.
            Toda a comunidade escolar gostaria de abraçar você para que recebesse o nosso afeto, mas não temos verbas para esta ação. Gostaríamos que vocês viesse a nossa escola nesta data para receber a nossa homenagem. No entanto, entenderemos se você não puder estar conosco... Mas ficaríamos muito felizes se você pudesse vir! De qualquer forma sua obra e a pessoa que você é nos representa e ilumina o nosso Projeto Político Pedagógico: "O mundo que a gente quer, depende do que a gente faz".
            Muito obrigada de qualquer forma.
            Abraços da equipe de Sala de Leitura e de toda comunidade escolar.
Veja quem foram os homenageados dos anos anteriores e nossos convidados ilustres:
FLED 2013 - AUTOR HOMENAGEADO: Bartolomeu Campos de Queirós.
Com convidados ilustres: Rosa Amanda Strausz, Thais Linhares e o rapper MV Bil.
FLED 2014 -  AUTORA HOMENAGEADA: Marina Colasanti.
Com convidados ilustres: Cristino Wapichana, Sônia Rosa e Thais Linhares e Contação de Histórias com Silvia Castro.
FLED 2015 - AUTOR HOMENAGEADO: Lygia Bojunga.
Com convidados ilustres: Flávia Lins, Renata Codagan, Thais Linhares, Silvia Castro.
FLED 2016 - AUTOR HOMENAGEADO: Manoel de Barros.
Com convidados ilustres: Marília Pirillo, Lucas Viriato, Lúcia Morais, Lis de Paula, Patrícia Nogueira, Severino Honorato e Contação de Histórias com Silvia Castro e Arte Andarilha.
FLED 2017 - AUTORA HOMEGEADA: Roseana Murray
Com convidados ilustres: Andrea Viviana Taubman, Charlene Gabriel (Dança e Literatura), Cristina Villaça, Flávio Dana, Paulinha Ritawua Nukini, Renata Codagan, Thais Linhares e Silvia Castro.

terça-feira, 22 de agosto de 2017

CAFÉ DA MANHÃ

Hoje, depois de toda a chuva e sudoeste de ontem, pude fazer o encontro do Café, Pão e Texto na varanda. Embora frio, não chovia.
A E.M. Amália da Costa Mello veio pelas mãos da Neuzileia Oliveira Santana, de Sampaio Correia e era uma turminha do segundo ano, tão lindos e amorosos, pareciam gatinhos, borboletas, passarinhos.
Fizemos muitas brincadeiras com os livros Caixinha de Música, Quem Vê Cara não Vê Coração, Receitas de Olhar, Poemas e Comidinhas.
Uma das brincadeiras, depois da leitura de um poema, era que bichinho cada um queria ser. Tigre, águia, sereia... e uma menina disse: princesa!
Acordei muito cedo para fazer pão e bolo.
Aline De Oliveira Oliveira, um dos meus anjos da guarda, veio me ajudar. A varanda parecia um bosque, cheia de folhas e galhos pelo vendaval de ontem. Havia que varrer e limpar para receber a escola.
A alegria das crianças tem todas as cores e sinos.
Ganhei tantos beijos e abraços que meu coração está abarrotado.

domingo, 20 de agosto de 2017

SUDOESTE

De repente, o dia que estava azul e fresco, recebeu uma lufada de falta de ar. O vento parou e um mormaço insuportável cobriu tudo.
Então eu sabia que o tempo ia virar.
Eu nem preciso olhar nenhum site de meteorologia.
Sei pelo vento, pelo cheiro do mar.
E algumas horas depois entrou o sudoeste rasgando feito navalha.
O vento sacode e parece que vai esquartejar a casa.
As madeiras rangem, estalam, os vidros vibram.
A casa fala a língua do vento.
Olho pela janela e o mar já está muito revolto.
Gosto da natureza assim.
Algo no meu corpo responde a esse chamamento. Como a casa, meu corpo também vibra e estala.

segunda-feira, 7 de agosto de 2017

VISITA NA CASA

Hoje recebo a visita mais especial do mundo:
Minha neta Gabi. Não me canso de acompanhar seus jogos, teatros, brincadeiras. É matéria em estado de luz para a minha poesia. Ela tem 3 anos e meio e não se cansa de me surpreender.
Sorte do poeta que escreve para criança e tem uma neta ao alcance da mão.

domingo, 6 de agosto de 2017

DESPERDÌCIO

Hoje, não sei porque, viro e reviro a palavra desperdício. O que se perde por descaso, descuido, o que o Brasil desperdiça, começando por seus jovens, milhares de talentos desperdiçados, ano após ano, com uma Educação que não voa, que não faz pensar, que parece que prefere deixar tudo assim mesmo. O Brasil desperdiça sol e vento. Quantos países gostariam de ter a quantidade de sol e vento que temos para gerar energia!
E o lixo? Já há países com lixo zero. E aqui desperdiçamos essa grande fonte de riqueza. Do lixo absolutamente tudo se recicla, se aproveita.
Desperdiçamos a capacidade das crianças de aprender outra lingua. Espanhol, por exemplo, já que somos uma ilha de português cercada de espanhol por todos os lados! Uma língua que se aprende é um tesouro extraordinário.
Todas as escolas deveriam ter uma máquina mágica farejadora de dons. E dar a cada aluno a chance de exercer esses dons.
Desperdiçamos o tempo que uma criança passa na escola, quando não recebe fartas doses de literatura e arte.
Sem desperdiçar tudo isso que imenso seria o Brasil.

quarta-feira, 2 de agosto de 2017

PRECONCEITO E LITERATURA

Quando era uma criança de classe média na década de 50 (meus pais tinham um armarinho no Grajaú, um belo e pacato bairro da zona norte do R.J), ninguém do meu convívio era separado. Havia apenas um caso escandaloso na família, sussurrado. Uma bela mulher que teve um filho de um amante.
Casamento tradicional era a regra. As pessoas se suportavam ou amavam ou odiavam mas ninguém se separava. Era estigma.
Isso na classe média. Na classe pobre, onde eu também vivia pelas mãos da Eunice, minha mãe negra, ser separada, mãe solteira e etc era muito comum. A própria Eunice era separada e criava seu filho Aderbal sozinha. Ele se hospedava durante a semana na casa de uma familia na favela das redondezas e íamos sempre visitá-lo na casa da D.Edméia, com suas duas filhas lindas da minha idade e eu nunca ouvi falar de nenhum marido. Passei horas maravilhosas naquela casa em cima do morro onde o afeto era a regra. Uma casa muito melhor do que a minha casa triste.
Faço um corte e passo para um encontro na minha casa em Saquarema com professores e a Secretaria de Educação , não me lembro o ano.
Uma professora levava uma camiseta com o desenho de um casal e um filho e a frase:
Família tradicional: Eu apoio.
Mas não se trata de apoiar ou não.
A família mudou.
Mudou radicalmente.
Hoje existem muitas constelações familiares diferentes.
Duas mulheres, dois homens, uma mulher e um homem, uma mulher sozinha, um homem sozinho e um filho.
O que importa mesmo é o amor.
É isso que conta.
E não será expulsando livros de literatura que falam do assunto que se manterá a familia tradicional.
Quero colocar bem clara a minha posição:
Todo preconceito é uma tentativa desesperada de manter uma realidade que não se sustenta.
As religiões não deveriam legislar sobre a família mas apenas fortalecer o amor entre seres humanos.
Devemos nos indignar contra qualquer tipo de censura e preconceito.
Somos todos frágeis e mortais e insignificantes frente ao universo.
Que nenhum livro seja banido por tocar em temas desagradáveis para alguns. Que a qualidade do livro seja sempre o mais importante. E que se saiba que a criança está sempre apta a discutir qualquer tema com delicadeza.

quinta-feira, 27 de julho de 2017

POEIRA DOURADA

Fui para a montanha e voltei para o mar. Passei 18 dias dentro do bosque.
Escrevi poemas, fiquei com os netos e a família, recebi amigos, fiz o encontro do Clube de Leitura da Casa Amarela.
Quando olho para trás, o que vivi não me transforma numa estátua de sal, mas deixa em mim a poeira dourada dos sonhos.

quarta-feira, 5 de julho de 2017

ENCOMENDA

Quando morei no Rio Comprido havia um correio dentro da Faculdade Estácio de Sá.
A moça que me atendia sabia que eu era poeta.
Então um dia ela me disse:
-Faz por favor um poema pro aniversário do meu namorado.
Alguém me pede um poema pro inverno.
Minha irmã Evelyn Kligerman me diz :
- Faz um poema pro arco-íris que você viu.
Sim, eu tenho em casa uma fábrica de poesia.
É engraçado como as pessoas fazem encomendas.
Mas a fábrica não tem uma linha específica de produção.
Funciona não se sabe como, às vezes movida a sensações, beleza, outras vezes por espanto ou dor.
Verdade que o arco-íris que vimos ontem juntas, eu e Angela Carneiro , nos fez sapatear de alegria. Parecia um portal imenso, pois era um arco perfeito, mas a poesia daquele momento não era traduzivel.
Eu apenas fiz um pedido. Mas pedidos a gente não pode contar.
E quanto ao poema de inverno... quem sabe.

terça-feira, 4 de julho de 2017

Enquanto o Sono não Vem

Depois que o livro Enquanto o Sono não Vem, do José Mauro Brant foi recolhido, leia-se censurado, penso que temos que resistir pelo belo, pelo insigante, pelo que atiça e acende o pensamento.
Pois vivemos tempos sombrios.
Madame Rosa, no livro de Émile Ajar, La Vie Dévan Soi, guarda um retrato do Hitler debaixo da cama, ela, sobrevivente de Aushwitz. Quando as coisas vào muito mal, ela retira o retrato e pensa que irá sobreviver.
Iremos sobreviver. Mas nós, que escrevemos para as crianças e jovens, temos que apostar na capacidade, no potencial de cada um.
Quantos talentos perdidos no Brasil, por falta de um exercício de pensamento, de oportunidades.
As crianças podem ver na TV que um bebê é vítima de um tiro perdido na barriga da mãe, ouvem falar de milhões roubados ( poque ouvem tudo!) e não podem ouvir uma história que fala de incesto?
Não vamos colocar amarras em nossas criações.
A nossa resistência é pela arte.

sexta-feira, 30 de junho de 2017

SAQUAREMA

Esse ano completo 15 anos
de Saquarema.
Viemos morar aqui por puro acaso.
Minha mãe tinha uma casinha aqui desde 1970.
Um dia, trouxe Juan para conhecer a cidade.
E ele, que conhece o mundo todo, pois viajou com Paulo VI e João Paulo II como correspondente, ao descer do ônibus, olhou para todos os lados, suspirou e disse:
- Achei o meu lugar.
Então um dia viemos. Com as gatas, o computador, uma mala de roupa. Da noite pro dia, - Vamos? E viemos e construímos uma casa .
E todos os dias me assombro com a beleza e a qualidade do silêncio.
Nos dias em que tenho pilates caminho no mar.
E depois do pilates venho tomar meu pingado no Marisco na beira da lagoa.
Saquarema é uma aldeia. Um povoado. Pena que tenha carros.
Nos outros dias caminho por dentro. Adoro a Saquarema de dentro.
Abro a minha casa e meu coração para as escolas, os leitores, os amigos.
E assim a poesia acontece.

quarta-feira, 28 de junho de 2017

UM JORNAL INCRÌVEL

Ontem recebi de Domingo Gonzalez um exemplar de um jornal feito por crianças de 10 anos.
É o informativo do Instituto Rogerio Steiberg, que trabalha com crianças superdotadas mas sem recursos.
O jornal é incrivel.
Conversei com a jornalista que faz o jornal com as crianças sobre temas da atualidade do Brasil e do mundo.
Ela fez parte da minha infância, se chama Rosa Cass, tem 91 anos e me diz: " Hoje a minha mente é tão aberta que dá até medo"
Quando eu era criança ficava extasiada com o seu conhecimento.
Ela me conta que ensina seus pequenos redatores a discutir sem brigar, a fundamentar as suas opiniões, a respeitar sem desqualificar as opiniões dos outros.
Ganhei um poema na revista.
E fiquei louca de vontade de conhecer essas crianças.

terça-feira, 27 de junho de 2017

DE ITALVA, R.J

Uma escola veio de longe: Escola Municipal Glycério Salles, da cidade de Italva. Quase cinco horas de viagem até aqui, para o nosso Café, Pão e Texto.
Mas como descrever a magia que se derramou sobre todos nós desde o minuto em que o ônibus encostou em nossa porta?
Uma Professora, ao me abraçar na chegada, me diz: - Estamos realizando um desejo antigo.
E recebi presentes da roça: doce de figo,
geléias, queijos, kibe (Italva é a cidade do kibe!), uma almofada com meus poemas, avental de cozinha, com meus poemas e um cofre de mármore também com meus poemas! Ganhei também uma orquídea.
Fizemos brincadeiras com os poemas. Rimos e dividimos a felicidade deste encontro.
Alguns alunos disseram alguns poemas de cor.
As crianças correram pelo jardim.
E arrumamos as mesas pro almoço como se fosse um restaurante! Todos ajudaram, alunos e professores.
Vanda Oliveira , Aline De Oliveira Oliveira e Samuel, meus anjos, foram incansáveis.
Samuel acendeu o fogão às 7h da manhã e às 12.30 comemos a feijoada mais perfeita do planeta Terra. Éramos 37 pessoas!
Servimos canjica de sobremesa.
Depois fomos até o mar. Muitos não conheciam o mar!
E então, sessão de autógrafos. E beijos.
Devo dizer que os alunos eram maravilhosos. Fruto da dedicação de professores maravilhosos.
E como hoje contei a história da Sherazade para eles, a minha sensação agora é a de estar voando num tapete voador.
Agradeço a presença da Secretária de Educação de Italva Vera Lane Rodrigues e das professoras absolutamente maravilhosas e amorosas:
Elane, , Marley, Virginia, Eliane, Vivian, Elisângela,Leila, Si Lopes e Jussara.
E esse lindo dia ficará guardado para sempre em nossos corações.
Juan Arias falou espanhol com as crianças e elas amaram!!!
Vamos fazer uma campanha pelo ensino de espanhol nas escolas municipais?
Criança adora aprender línguas.

segunda-feira, 19 de junho de 2017

NO JAPÃO

Ontem vi um programa sobre a sexualidade e afetividade no Japão.
Fiquei muito impressionada.
Noivas que se casam sem noivo. Para sentir a experiência. Mas o que faz sentido em dupla, transforma-se numa pantomima triste e surreal.
Namorados de aluguel. Mas não para fazer sexo e sim para andar de mãos dadas, tomar sorvete juntos, enfim, o que faria um namorado na década de 50.
Amantes que são bonecas perfeitas de silicone.
Casas de encontro que não são bordéis, mas o cliente paga apenas para estar perto de uma mulher, vestida como heroína de mangá, paga para deitar por alguns minutos a cabeça em seu colo.
Japoneses não tocam ou beijam. Mas o que foi focalizado é gravíssimo.
Na era virtual não conseguem mais comunicar-se realmente, cara a cara com outro humano. Sabem mover-se apenas no mundo virtual, apenas dentro dos mangás.
Diz o programa que a natalidade está diminuindo assustadoramente.
Um francês faz festas para favorecer encontros entre franceses e japoneses, já que os franceses ainda possuem a capacidade de se relacionar. E realmente já conseguiu juntar alguns pares.
Não sei a extensão do problema realmente. Mas se o que vi for verdadeiro é apavorante.
Será esse o futuro da humanidade na era virtual?
O Brasil é um país muito complicado e estamos vivendo um tempo triste e difícil. Entretanto, ainda sabemos abraçar, beijar, fazer amor. Ainda sabemos nos tocar.

O MALUQUINHO DO JARDINS

Toda aldeia tem o seu maluquinho. Edésio é o maluquinho do Jardins ( Será que é politicamente incorreto falar maluquinho?)
O seu delírio é a política. Sempre querendo ser candidato a Senador pelo bairro. Sempre fazendo campanha, muito exaltado.
Todos o conhecem, ele anda sem parar e tem as portas de muitas casas abertas e do comércio também.
Juan sempre conversa com ele quando se encontram.
Hoje fomos ao correio e o maluquinho estava lá.
Juan perguntou:
- Como vai a sua candidatura a senador?
Ele respondeu muito sério:
- Larguei a política. A política virou uma palhaçada!
Dentro da sua loucura, do seu surto e delírio, ele percebe a nossa realidade, que não é a dele. Acho isso muito impressionante.
Ele tem toda razão.
A política brasileira atingiu um nível de horror tamanho que consegue se fazer perceber até por quem não vive em nosso mundo.

quarta-feira, 14 de junho de 2017

CONVERSA DE AVÓ E NETO

Hoje, no meio da caminhada, meu neto de 7 anos me ligou. Ele nunca me telefona.
Ele me disse que tinha duas notícias maravilhosas para me dar.
A primeira: estava fazendo um exercício para a escola com meu poema Quintal, do livro Casas.
Mas a segunda, ele me disse, era muito mas muito mais maravilhosa: Ele ia falar meu poema Casa de Amigo na frente da turma!!!
E eu disse: A maravilha é que você tem quintal e tem amigos!!!
Ele respondeu: Tá bem. Tchau!
E falando em quintal, a maravilha é que meus vizinhos trouxeram galinhas e dois galos para o seu quintal.
E todos os dias, na minha vigília bem cedinho de manhã, um galo canta e já entorna o amarelo do seu canto no meu dia e traz ( embutido nas suas notas musicais) o poema do João Cabral.

terça-feira, 13 de junho de 2017

DIA DE SANTO ANTONIO

Hoje é dia de Santo Antonio de Pádua.
O que sei do Santo:
Italiano, provavelmente gostava de comer bem e beber vinho, qual italiano não gosta?
Já fazia voto de castidade, instituição a meu ver nefasta, decidida num Concílio, no Século III em Granada,
para nào dispersar os bens da Igreja. Apesar do voto de castidade é um Santo Casamenteiro .
E mais não sei.
Hoje é feriado em Saquarema e começamos o dia com uma longa e bela caminhada até a Padaria da Ponte para tomar aí o café da manhã e depois nos sentamos num carramanchão na frente da lagoa.
Havia revoada de pássaros e gaivotas.
E uma garça tão branca e solitária caminhava sobre as águas.
Quero dar essa garça de presente ao meu amigo amado, meu irmão Hélio Nicoletti que faz anos hoje.
Hélio, o voo da garça é teu e dos meus leitores. Façamos deste voo a nossa estadia na Terra.

quinta-feira, 1 de junho de 2017

CONSUL HONORARIO

Juan Arias me conta: morou 40 anos na Itália, em Roma, mas escolheu Veneza como a sua cidade do coração. Pergunto: Quantas vezes já veio aqui? Umas 100 vezes? Ele me diz: Em 40 anos, umas 200 talvez.
Veio convidado como jornalista para grandes eventos e sua paixão pela cidade é tamanha que Felipe Gonzalez lhe ofereceu o posto de Cônsul Honorário. Não pode aceitar, pois não havia remuneração e ele precisava trabalhar para viver.
Mas a sua felicidade quando está aqui é monumental. Eu disse, estou com pena de voltar. Sentirei falta dos barulhos, dos canais, da língua, dos gondoleiros que passam levando um cantor na barca, dos cheiros de café e pizza,
de tudo.
Ele diz: Imagina eu.

quarta-feira, 31 de maio de 2017

AS NOIVAS

Saímos bem cedo para ver a Praça S. Marco vazia.
No caminho é outra Veneza, uma Veneza anterior , a que as multidões apagam.
Nos cruzamos com varredores de rua e amei as suas vassouras de bruxa!
Ao chegar na praça vazia encontramos a primeira noiva e seu séquito: o noivo, o fotógrafo, a ajudante.
Logo depois outra noiva e depois outra. Três e duas eram chinesas!
Se Marco Polo saiu de Veneza para ir à China, tantos séculos depois  os chineses descobriram Veneza definitivamente.
Fomos andando para o Campo dei Frari para nos despedirmos de Eugenya,  mulher do Paolo, nossos amigos aqui.
Ela trabalha no Café Dersut e é tão maravilhosa e bela e delicada. Foi muito emocionante a nossa despedida. Combinamos: ano que vem eles irão a Saquarema.
Um músico tocava violoncelo logo ali, magnificamente: A suíte para violoncelo, de Bach.
E nos sentamos no Campo S.Polo para descansar um pouco. Já havíamos caminhado uma hora e meia.
Um casal colombiano conversava em espanhol ao nosso lado e logo começamos a conversar com eles.
Na Colômbia tudo muito parecido com o Brasil: corrupção, esquemas, acordos e os salários dos políticos são altíssimos.
Chegando a Rialto pela Ferrovia, encontramos uma tenda que vendia cartazes, calendários, camisetas, tudo sobre o Referendo do dia 12 contra os Cruzeiros e pudemos nos informar: É uma iniciativa particular de um grupo de cidadãos de Veneza. Ou seja, mesmo que ganhem já perderam, pois há um pacto entre os políticos e a Máfia dos Cruzeiros e ninguém conseguirá acabar com isso.
Chegamos em nosso restaurante em Fondamente Nuove, a Trattoria Storica.
O dono já nos conhece e nos fala um pouco de todos os problemas, da brutalidade desse capitalismo selvagem que passa por cima de tudo. Ele diz: "Deveríamos voltar no tempo, voltar ao campo, sei lá. Fazer as coisas bem feitas, como antes"
Antes não existia a sociedade de consumo dessa maneira que conhecemos.
Também sonho com um outro mundo.
Em todo esse percurso nos cruzamos com muitas livrarias lindas e com várias lojas maravilhosas de papéis, postais, caixinhas de papelão, penas para escrever, miniaturas...                      

segunda-feira, 29 de maio de 2017

ONDE COMER EM VENEZA

Sou uma caçadora- farejadora de silêncios. Desde a infância.
E aqui em Veneza vou buscando esses espaços vazios, onde quase dá para sentir os séculos andando para trás. Sentada num banco, no Campo dei Gesuiti, para onde voltamos sempre, as vozes em sussurros, o vento leve sobre a pele, quando fecho os olhos, hoje poderia ser qualquer dia de 1600, 1700.
Miinhas roupas seriam outras, outra vida a minha vida, mas os sentimentos, o que me faz humana e me deixa atravessar o tempo, isso não muda : sempre iguais.
Num restaurante em Fondamente Nuove, encontro na entrada um poema que traduz isso.
E onde comer em Veneza?
É caro e se come mal nos restaurantes turísticos.
Há que buscar um lugar onde comam os italianos.
Encontramos. A Trattoria Storica.
É longe de onde estamos hospedados, mas como adoramos a Fondamenta Nuove, não nos importamos de caminhar até aí. Dá uma hora e algo de caminhada. No mínimo duas horas de ida e volta.
Hoje, depois de entrar numa Igreja para ver outra vez uma exposição de instrumentos antigos da época do Vivaldi, começamos a nossa ida.
O restaurante estava cheio. Queríamos comer do lado de fora e ficamos esperando por uma mesa.
O dono, amabilíssimo nos levou para dentro, até que esvaziasse um lugar.
Mas como demorava, veio com duas taças de espumante.
E nos contou que tem um irmão no Brasil, mora na Bahia.
Por 13 euros se come um esplêndido menu del giorno.
Comi spaghetti ao alho e óleo e uma salada imensa, mas tenho vocação para cabra. Posso comer um balde de salada.
A Trattoria está sempre cheia de gente local, o que é uma grande garantia.
Devo dizer que a minha paixão pelo povo italiano só aumenta.
Nunca, em nenhum país fora do Brasil, encontrei tanta amabilidade e delicadeza.

domingo, 28 de maio de 2017

DOMINGO

E aí vc sai do meio da multidão e cai dentro de uma clareira de silêncio, um Campo com seu poço, seus bancos vermelhos e algumas árvores par dar sombra:
Campo S. Polo. Sentada num café, cercada pela musicalidade de muitas línguas, vejo à minha direita um palácio magnífico, tão oriental, quase todo fechado.  Há três entradas e numa
delas há uma placa de aluga-se. Nos outros edifícios, menos imponentes, sim há janelas abertas.
E fomos andando por dentro desse bairro, cheio de curvas e surpresas, por caminhos que nunca tinhamos andado. Sempre existe algum lugar por onde nunca fomos. E  numa ruela escura encontramos uma loja Pierre Cardin, com uma vitrine que era um assombro de bela e ousada. Mas quem é que vai aí comprar?
E passamos pela Rua das Donzelas...
No Campo S.Agostin havia um grupo de moradores com luvas e macacões de plástico e baldes, vassouras, panos, esponjas e muita disposição para limpar as pichações.
O bairro é muito pichado, aí pelos lados da Ferrovia.
Hoje é domingo e portanto há muitos italianos de outros lugares fazendo turismo na cidade.
Faz calor. Parece verão.
Os gerânios colocam uma pitada de vermelho no ar.

sábado, 27 de maio de 2017

PELOS LADOS DO PALÁCIO GRASSI

Andamos pelos lados do Palácio Grassi. É um bairro lindo de gritar com suas muitas galerias de arte contemporânea, antiquários. Um passeio imperdível.
Vimos uma exposição estranha, acho que já esteve no R.J, do artista Evan Penny: Ask your Body. São pedaços do corpo como se estivessem vivos.
Como estão dentro de uma Igreja, a de S. Samuelle, o efeito é altamente perturbador.
Debaixo de uma pintura de um Cristo deitado e morto, ( antiquíssima), pedaços de corpo como se fossem de verdade. A gente sente no estômago.
A mostra faz parte da Bienal e o que acho incrivel é a Bienal estar absolutamente entrelaçada na cidade e artistas contemporâneos interagem com a arquitetura e até com essa igreja!
Dá uma ideia maravilhosa de camadas.
Almoçamos numa Trattoria na P. S.Margarita, onde há uma vida de bairro, uma praça que pulsa.

TANTOS DÍAS

Passar tanto tempo na mesma cidade para mergulhar nas veias da cidade.
Veneza não é uma cidade qualquer.
Aqui a água é soberana e sem outro meio de transporte a não ser os barcos, o ritmo da cidade é mesmo lento e aquático.
Os carregadores passam e gritam : Atenção!!! para não sermos atropelados nos afastamos para o lado.
Aqui o nome das ruas é pura poesia e não nomes de pessoas que não conhecemos. São sugestivos e cheios de possibilidades.
Há uma Ponte dos Suspiros, os suspiros dos que iam para a prisão e viam Veneza pela última vez. Se não soubessemos da história, poderíamos pensar em suspiros de amor não correspondido.
Podemos com uma única palavra imaginar seus corações desesperados.
Há uma Rua do Diabo, para nos lembrar que o mal está sempre à espreita e a Rua dos Grandes Provérbios.
Há um cheiro de tomate e café que flutua como nuvem e Palácios maravilhosos, muitos estão fechados, habitados por sombras e fantasmas. Outros são hotéis luxuosíssimos lembrando o fausto de outras eras.
Há uma paciência inacreditável dos venezianos para com os que chegam de fora. Cada vez que se pede uma informação, eles param e amavelmente explicam.
Há os ruídos que sobem pelas paredes até a janela do quarto, param por alguns segundos no parapeito e saltam para dentro: Vozes enroladas em um grande novelo ininteligível e murmúrios, sussurros, arrulhos. Não buzinas ou chiar de pneus. E nos damos conta de que os carros foram a invenção mais terrível. Deveríamos nos mover sempre em barcos, balões, bondes, dirigíveis, bicicletas, onde o silêncio é o motor.
Em Veneza se recupera a caminhada como meio de locomoção e este simples caminhar nos conecta aos habitantes de outros tempos.
Há praças maravilhosas com mercadinhos ao ar livre de peixes e frutas, legumes, verduras onde senhoras e senhores sentam para conversar em bancos vermelhos. Os mercadinhos são arrumados com esmero como se as frutas, peixes, verduras, legumes, fossem jóias para comer.
Há quase um cachorro para cada habitante.
Não há gatos pelas ruas.
Como é primavera há uma explosão de flores e o céu reinventa o azul.
Estar aqui nessa cidade onírica, totalmente irreal, , como se suspensa na vigília, sem outra pretensão além de caminhar
 e olhar , por tantos dias e noites, apenas deixando que as horas se construam, confiando no acaso, é uma bela aventura.

sexta-feira, 26 de maio de 2017

CASTELLO, VENEZA

Saimos pelas ruas do Castello, atrás de S.Marco.
A ideia era clara: olhar, apenas isso. Os palácios, as praças, entrar em algumas Igrejas.
E lá pelo pelas 13h ir para Fondamenta Nove comer na Tratoria Storica .
 Antes de entrar em Castello, primeiro  visitamos a livraria Acqua Alta, recomendada por Delmino Gritti. Já a conhecíamos, mas não pelo nome. Linda, de livros antigos.
O bairro Castello é maravilhoso. Vi duas exposições que fazem parte da Bienal. Uma de Andorra, uma instalação de peças de cerâmica chamada murmúrios, da artista Eve Ariza, e outra da Polônia.
Pareciam conchas, são bowls, recipientes quase tão antigos quanto o homem.
Assim como não gosto que um poema venha com bula, detesto as explicações penduradas na obra. Por que cada um não pode ser livre para sentir o que quiser?
A instalação me fez ouvir um som inexistente e me provocou uma sensação muito agradável.
Já o artista polonês Ryszard Winiarski, com seu vídeo, não me disse nada.
Paramos num café para descansar e na frente, do outro lado do canal, numa casa, havia um baixo relevo estranho, um homem com um instrumento musical. Que instrumento seria? De que época? Será que o dono da casa era músico?
Decidimos ir para Fondamente Nove sem voltar para trás. E nos perdemos de uma maneira espetacular. Íamos nos enredando cada vez mais mais e não nos encontrávamos no mapa e cada pessoa ensinava de um jeito.
De repente entramos no bairro, depois de rodar por mais de uma hora. Mas entramos de um jeito diferente, por outro lugar e era impossível encontrar o nosso pequeno restaurante onde se come maravilhosamente por um preço incrível.
Então quando eu já estava disposta a desistir, pronto, demos de cara com a trattoria.
Onde se come dois pratos fantásticos aqui em Veneza por 13 euros, comida de verdade, para italianos e não para turistas? Um achado.
E hoje era nosso dia! Nos perdemos na volta também.

quinta-feira, 25 de maio de 2017

BURANO

Entrar em Burano é como tropeçar e cair dentro de uma aquarela.
A pequena ilha vive dos bordados que vende, dos restaurantes maravilhosos.
 Antes as bordadeiras produziam aí, agora não sei de onde chegam.
Mas a ilha inteira parece um bordado. É irreal.
As casas, coladas umas nas outras, de todas as cores, vibrantes, quentes, nos convidam a nunca mais ir embora.
Ainda mais quando sabemos que um país destroçado nos espera.
As casas exibem suas roupas lavadas ao sol. É lindo o contraste das roupas brancas com as cores vibrantes das casas. E possuem cortinas lindas nas portas, como na Andaluzia. Assim, no verão, podem deixar a porta aberta, só com a cortina.
Tomamos a barca de manhã cedo em Fondamente Nove, o que já dá uma grande caminhada.
A barca parecia a Torre de Babel. Tanta gente, tantas línguas. É tão bonito ouvir tantas linguas diferentes ao mesmo tempo.
As jovens chinesas são maravilhosas. Não me canso de olhá-las. Como se vestem e se movem.
Acho que dentro de pouco a moda virá da China. Elas possuem um charme parisiense/italiano/oriental.
E na volta descemos em Fondamenta para outra caminhada. Paro em S.Marco para um café, encostada no balcão. Acho que é o melhor pingado de Veneza. Não sobrevivo sem um pingado.