terça-feira, 3 de março de 2015

POÇO DOS DESEJOS

Para escrever os poemas do meu livro Poço dos Desejos, ed. Moderna, fiz uma lista de desejos. Perguntava para as pessoas: _Qual o seu maior desejo?
Mas pensando bem, tão importante quanto saber o que desejamos é saber o que não desejamos.
Tenho uma lista do que não desejo. Difícil administrar isso, pois às vezes é necessário dizer não.
Dizer não às vezes é muito importante.
Que cada um um de nós saiba claramente o que deseja. E saiba dizer sim e não na hora necessária.
Mas há um desejo que nunca passa :

DESEJO DE ABRAÇO
Desejo de abraço
nunca passa.
Abraço é o nó mais delicado
que há.
Um braço aqui e outro lá
e o coração se derrete,
o corpo afunda na mais
gigantesca felicidade.

in Poço dos Desejos, ed. Moderna

  
 

segunda-feira, 2 de março de 2015

RECUPERAÇÃO

Hoje faz um mês que fiz uma grande cirurgia na coluna, quando apenas três meses e meio antes havia feito uma grande cirurgia no quadril.
Com apenas um mês já faço quase tudo e não tenho dor. Já assumi a cozinha da casa. Eu sou a cozinheira.
Eu já não tinha a memória de um tempo sem dor.
Agora tenho vontade de dançar.
Nunca imaginei que isso pudesse acontecer. Para o milagre, dois grandes cirurgiões, claro,e uma grande amiga, Monica Botkay, que entrou novamente na minha vida para me conduzir a este final feliz. Mas foi preciso que eu chegasse ao mais fundo do poço.
Voltei para casa muito fragilizada e agora faço meditação novamente com a supervisão de uma terapeuta de meditação healling. Como moro longe, a supervisão é feita por whatsup, usando a tecnologia como suporte.
Aconselho meditação como um remédio muito eficaz. É impressionante como está sendo fundamental na minha reconstrução..
Quando uma pessoa tem dor contínua por vinte anos, diariamente, a dor pauta a sua vida.
Há que aprender a não buscar a dor.
Faço planos, mergulho de cabeça nos meus projetos.
Em breve poderei ir para a montanha. A minha casinha dentro da mata me espera. Onde escrevi o Diário da Montanha.
Numa das meditações que fiz ontem, uma imagem lindíssima: ao fazer contato com o coronário (o lugar onde fica a moleira do bebê) um baobá irrompia de dentro de mim rumo ao céu. Suas raízes eram a minha coluna. Nunca tive dúvidas de que sou humana-árvore. Tem gente que é. Mas com esta linda imagem que meu inconsciente me enviou, fica provado. Só não sabia que eu era um baobá.

domingo, 1 de março de 2015

NA COZINHA

Ratos e baratas, para mim, são monstros. Odeio e dou chilique. Mas, convenhamos , a cozinha deveria ser o último lugar onde estes "monstros" deveriam viver.
Pois bem, li uma matéria ontem de William Helal Filho, que me deixou estarrecida. Uma matéria bem pequena mas que demonstra muito concretamente a falência moral de um país.
Restaurantes e Botequins na Gávea e Leblon, os bairros mais caros do Rio de Janeiro, com ratos e baratas na cozinha, TONELADAS de alimentos estragados, restaurante japonês com quilos de salmão fora do gelo, carne apodrecendo numa hamburgueria famosa... e nós , simples e crédulos mortais, acreditando nos donos destes restaurantes. Pois o princípio de tudo é a confiança. Se vou comer num lugar caro, num bairro nobre, para festejar com amigos, para festejar um aniversário, digamos, eu confio que a cozinha estará limpa, que os cozinheiros tenham muito orgulho do seu trabalho, etc, etc, a matéria prima de primeiríssima qualidade!
Quando o dono do restaurante, em plena consciência, convive com ratos, baratas e alimentos podres, a sua moral também apodreceu. Ele traiu um pacto entre o que cobra e o que oferece. Está enganando, roubando.
Os nomes dos estabelecimentos estão no O Globo de ontem.
Que cada um de nós se proteja e não se deixe contaminar por toda esta onda de lama que assola o país. Que cada um permaneça limpo e ofereça o melhor que tem dentro , o melhor do seu talento, dos seus esforços. É o que nos confere dignidade.
Se cada um de nós fizer o que sabe fazer da maneira mais bela possível, sem enganar, trair, roubar, ainda podemos salvar o país.

sexta-feira, 27 de fevereiro de 2015

MEMÓRIAS

Recebo por correio um livro da minha irnmã Evelyn que mora em Visconde de Mauá. Ela comprou num sebo e chorou muito. Ela me diz: se prepare para ter um encontro com o nosso pai.
O livro se chama Eu, Filha de Sobreviventes do Holocausto de Bernice Eisenstein.
Eu respondo: nossos pais vieram antes da guerra. Nós não somos filhas de sobreviventes do Holocausto.
Ele me diz : leia, mas se prepare.
Comecei a ler.  O pai da autora É o nosso pai. A sua casa da infância É a nossa casa.
Meus pais vieram antes da guerra, mas toda a minha infância convivi com sombras.
Muito pequena mesmo, com seis anos, eu já sabia o que era um Kapo, um neurótico de guerra. Na minha casa se falava ídiche quando era pra gente não entender. Eu nunca quis aprender. Mas sei algumas palavras pejorativas, palavrões, nomes de comida. Minha babá negra, a Eunice, xingava em ídiche.
Como o pai da autora , meu pai era um jogador. Meu avô materno também. E nosso vizinho, Waldemar, neurótico de guerra, tinha em casa como um Salão de Jogos. As pessoas (só judeus) iam lá para jogar.
Meu pai, como o pai da autora, tinha acessos de raiva, mas era engraçadíssimo, ria, contava piadas, comia muito. Ele dizia: Passei fome na Polônia. A fome que a gente passa nunca passa.
Meu pai era lindíssimo. Um homem alto, de olhos azuis, sempre bem arrumado. Como o pai da autora. E como ela eu sempre disse para mim mesma: Ah, porque não herdei os belos olhos do meu pai? Meu pai era um homem muito sensual. 
Algumas posturas do pai da autora são do meu pai. Domingo de manhã, deitado na cama, ouvindo música clássica. Já no segundo acorde ele dizia o autor e eu com uns oito anos nem podia acreditar.
Como a família da autora toda a minha família na minha infância morava perto, mas perto mesmo, quase ao lado. Bem novinha eu ia só de uma casa para outra para comer as delícias. Biscoitos de nata na casa da minha vovó Faiga e pudim de duas cores na casa da tia Cecília.
Meu pai nunca queria falar do passado. Não sei nada do seu passado na Polônia, nem quem são os seu antepassados. Ouvi falar, de leve...Não sei quem ficou na Polônia .
Meu pai saiu da Polônia com 14 anos . Ele não falava polonês. Só ídiche. Mas cantava uma música meio indecente que eu adorava: da Tatiana. É que a Tatiana estava doente e foi ao médico , mas a sua doença era um bebê na barriga! E pedia: pai, canta a musica da Tatiana!!!
O irmão do meu pai morava em Niterói.Tio Waldemar. E sua mulher era tão doce, minha tia Dora. Eles conversavam muito em ídiche.  Passei minha infância indo de barca ver meus tios. Os irmão se amavam e era bom, eu sentia a felicidade do meu pai. Contavam piadas, riam.
O pai do meu pai foi assassinado na sua frente. A Polônia, mesmo antes da guerra não gostava nada dos judeus.
Meu pai me deu uma caixa invisível cheia de tesouros: a honestidade como valor absoluto, a compaixão, saber que a minha humanidade é um exercício diário. O amor pela arte. Meu pai era um homem bom. Incorruptível. Nunca desejou bens materiais. Nunca se curvou diante de ninguém. Queria amor. O amor dos filhos.
Faz tanto tempo que ele se foi. Mas ontem nos encontramos . Lejbus Kligerman, meu pai, a morte não existe.
 

quinta-feira, 26 de fevereiro de 2015

ATOS E PALAVRAS

Às vezes fico tão desesperada com o mundo que não quero ouvir nada nem ler jornal nem saber de nada, como se assim apagasse as tragédias. Mas é impossível. Estamos no mundo. No café da manhã o jornal O Globo já está na mesa. Mas há uma coluna no jornal que amo : Conte algo que não sei. É sempre gente fantástica falando com alguma proposta ou algum olhar bem diferente.
Hoje fala Gab Gomes, empreendedor urbano. Ele diz : "A utopia serve para a gente caminhar".
Ele diz que temos que nos apropriar da nossa rua. O espaço público é nosso. E pequenas ações são revoluções.

O mundo hoje, as grandes cidades, super habitadas não podem ficar apenas nas mãos dos governantes.
Se você puder fazer algo pela sua rua faça. Não fique apenas reclamando.
Ele fala do Múrmura, um projeto que trabalha este conceito. Múrmura é uma palavra linda. Parece um rio murmurando. Ele diz que o mundo precisa cada vez mais de pessoas que façam. As ideias já existem.
Concordo com ele. Não podemos cruzar os braços. Trabalhemos no pequeno.

quarta-feira, 25 de fevereiro de 2015

FRUTA NO PONTO

Ontem a minha editora da FTD disse que neste semestre sairá uma nova edição, com novas ilustrações, do meu livro Fruta no Ponto.
Este livro tem uma belíssima história. Saiu em 1986. Antes de sair, eu estava em Belo Horizonte e Bartolomeu Campos me disse: "vi as ilustrações do seu livro. O livro está ficando maravilhoso."
Só vi o livro pronto. Muito mais do que maravilhoso. Era algo novo. As ilustrações de Sara Ávila, abstratas, ocupam na página o mesmo éspaço que o poema. Se o poema tinha três estrofes, na página ao lado a ilustração também tinha três estrofes.
Uma noite, no meu apartamento do Rio Comprido, era uma festa, não lembro porque amigos e família estavam lá. Tocou o telefone. Era alguém da F.N.L.J. Não sei se Laura Sandroni ou Eliane Yunes. Meu livro havia recebido o Prêmio de "O Melhor de Poesia". Era o primeiro ano em que davam este prêmio.
Comecei a tremer e em minutos estava com 40 graus de febre. Fui para a cama e me encheram de cobertores.
Este livro foi para a Feira de Frankfurt em 1994. O Brasil era o país homenageado. Um poster com o livro ali na Alemanha. Muita emoção.
Em 2016 Fruta no Ponto faz 20 anos.

terça-feira, 24 de fevereiro de 2015

FLORES RARAS

 Encontro a descrição do livro Flores Raras que amei. Faz tempo que li. Está abaixo. Ontem vi o filme do livro por Bruno Barreto e fiquei emocionadíssima. As atrizes estão mais do que perfeitas e convincentes.Vale a pena ver.
Uma cena, para quem é poeta, vale por mil aulas de poesia. Elizabeth Bishop, em sua primeira aula de poesia na frente da turma, nos Estados Unidos, depois de ganhar o Pulitzer , diz aos alunos mais ou menos isso:
Não acho que se possa ensinar a fazer poesia. Posso ensinar a olhar.

" Na década de oitenta, ao ler esta dedicatória em livro de Elizabeth Bishop para Lota de Macedo Soares, a escritora Carmen L. Oliveira ficou intrigada - ´...Lota?´, indagou-se. Em 1966, na pós-graduação nos Estados Unidos, conheceu a obra de Bishop, famosa poeta americana, e ficou surpresa ao saber que, naquela época, as duas moravam no Brasil. Mas quem era Lota? No início dos anos noventa Carmen descobriu que Maria Carlota Costallat de Macedo Soares foi uma esteta brasileira, que concebeu e construiu o Parque do Flamengo, enorme contribuição para a cidade do Rio de Janeiro. A publicação nos Estados Unidos do livro One art, que reúne a correspondência de Bishop, revelou a ligação amorosa das duas, que durou de 1951 a 1967. Nas biografias lançadas sobre a poeta, a esteta brasileira aparece como her lover, sempre em segundo plano. Simultaneamente, Carmen descobria em Lota um dos mais fascinantes, insólitos e raros personagens brasileiros deste século, que caiu em total anonimato. Neste livro, a autora conta a relação das duas e a criação do Parque do Flamengo. E ao contrário das biografias norte-americanas, que priorizam Bishop, o livro focaliza Lota e as figuras que junto com ela construíram a história recente do Rio de Janeiro e do Brasil. Segundo a autora, a relação das duas pode ser dividida em duas fases. Nos primeiros dez anos foram felizes e assumiram sua homossexualidade com surpreendente naturalidade para a época. A partir de 1961, a obsessão de Lota pela conclusão do Parque do Flamengo e a crescente instabilidade emocional de Bishop contribuíram para que enfrentassem uma forte crise até 1967. Muito além de um caso amoroso, o livro revela trechos inéditos da história do país: as discussões de Lota com o governador Carlos Lacerda, a briga com o arquiteto Sérgio Bernardes, a rivalidade com Burle Marx, a presença de Manuel Bandeira, Clarice Lispector, Portinari, Carlos Scliar, Rachel de Queiroz e Carlos Drummond de Andrade. Mas sua principal contribuição é o resgate de Lota, consciência de vanguarda que combateu a fúria imobiliária e a intervenção nos monumentos naturais do Rio de Janeiro. Lota conseguiu pela primeira vez no país que um projeto urbanístico fosse tombado."

segunda-feira, 23 de fevereiro de 2015

PARA COPIAR

Algumas atitudes mudam a vida da própria pessoa e mudam a vida de muita gente. Recebi um depoimento maravilhoso de Lucia Pellon. Por favor, copiem.
Conto histórias desde que me entendo por gente. Primeiro, para minha irmã mais nova, depois, como professora de Jardim de Infância, logo que saí formada do Instituto de Educação, e também para os três filhos, e agora para os netos. Assim que me aposentei, há vinte anos, trabalho como voluntária em casas que trabalham com crianças de comunidades de baixa renda. Monto bibliotecas com o acervo doado ( muitos livros bons,impressionante ) e trabalho com oficina de leitura. Conto histórias, sempre de livros, e depois proponho um aproveitamento do texto, através de técnicas de arte- educação, nos moldes da saudosa Escolinha de Arte do Brasil, de Augusto Rodrigues. Há, em paralelo, o empréstimo de livros, quando a criança escolhe livremente qual deles deseja levar para casa. Ao retornar o livro, a criança faz um breve relato, para as colegas, sobre o que leu, se gostou ou não, como uma propaganda do livro.
Continuo frequentando cursos de contação de histórias, porque o professor tem que se atualizar constantemente. Sou discípula do Mestre Francisco Gregório e do ator, autor e palhaço Março Andrade.

domingo, 22 de fevereiro de 2015

PROJETOS

Abrigo em minha casa vários Projetos que me dão felicidade , alegria, vitalidade.
Atualmente tenho três funcionando. O Clube de Leitura da Casa Amarela, onde os leitores compram o livro indicado para ler em casa e nos encontramos de dois em dois meses para discutir o que lemos.Não é uma discussão acadêmica, eu não tenho nenhuma base para isso. É uma discussão amorosa. Depois ofereço um almoço ,pão feito por mim, vinho. Desta vez além do livro Morte em Veneza, também se poderá ver o filme depois do almoço. Discutiremos também o livro Marca D'água de Joseph Brodsky. Interessantíssimo discutir os dois livros juntos pois Joseph Brodsky comenta Morteem Veneza, o livro e o filme.
O Segundo Projeto é o Café, Pão e Texto. Recebo escolas para um café ou almoço literário, um encontro comigo. É fantástico, emocionante. Espero que em abril já receba a primeira escola do ano com a Eczúvia Magenta. Podemos remarcar Eczuvia?
O terceiro é um encontro mensal com os professores trazidos pela Secretaria de Educação.
Faço meus projetos como a minha pequena doação. Já consegui fazer leitores. E amigos!!!
O Coral do Maestro Moises Santos já veio por duas vezes cantar aqui em casa e espero que logo venha pela terceira vez.É muito emocionante.
Já fiz vários lançamentos de livros aqui. Acho que a Casa Amarela já tem vida própria.

sábado, 21 de fevereiro de 2015

DANÇA

Sou apaixonada por histórias de esforço e superação, talvez porque a minha própria história pessoal caminhe por esta estrada.
Já falei aqui do Leo, o bailarino de Saquarema que estuda balé no Teatro Municipal, terminou a Faetec e passou para uma Uuniversidade Pública onde cursará dança. Os esforços deste lindíssimo menino para conseguir dar conta de todos estes compromissos morando em Saquarema, são inimagináveis. Com a ajuda de várias pessoas, amigos e admiradores, Leo conseguiu doações para pagar as passagens, lanches, etc. Maria Clara, do nosso Clube de Leitura, que foi sua professora, abriu sua casa no Rio para ele.
Pois bem, Leo ganhou uma bolsa completa para um curso de um mês em Miami em julho.As possibilidades que se abrem para o Leo, de uma carreira internacional são imensas. Se o Balé de Miami gostar do seu desempenho, ele ganhará uma bolsa completa de um ano, com passagem, hospedagem, alimentação.
A sua viagem em julho não dá direito a nada disso. Apenas o curso. Leo é negro e sua família não tem a menor condição de ajudá-lo. Acontece que o Leo voa. Que o seu sorriso é o mais lindo do mundo. Acontece que o Leo é um exemplo magnífico para jovens estudantes. Então, é impossível ficar indiferente ao esforço do Leo. Já estou mexendo o caldeirão de bruxa boa para conseguir a passagem do Leo. O meu conselho para o Leo foi : Não aceite dinheiro de políticos. Hoje em dia é um dinheiro perigoso. Portanto, sopro poesia no meu caldeirão e quem quiser ajudar, fale comigo.

sexta-feira, 20 de fevereiro de 2015

O MAR

Notícias do mar que só vejo de longe, daqui da varanda : está calmo, assim parece. Azulazulazul , o que pede como complemento gaivotas brancas .Ainda não posso descer até o mar, o que será possível assim que tiver alta no dia 17 de março. Tenho vários encontros marcados para depois da alta. Comigo mesma, com a montanha e o mar.
Espero para março meu livro Duas Casas que sairá pela ed.Lê com ilustrações maravilhosas da Elvira Vigna. Neste livro falo das minhas duas metades, de um lado meu sangue é verde e do outro misturado com sal. 
Já tenho vontade de trabalhar. Em breve recomeçarei meu Projeto Café, Pão e Texto.Se consigo tocar uma criança com meus poemas já ganhei todos os prêmios.
Sinto a vida mais espessa dentro de mim. Meus pós operatório está terminando.

quinta-feira, 19 de fevereiro de 2015

VISITAS

Ontem minha amiga Monica me disse: já somos uma tribo.
Amo a palavra tribo. Mas depende do que une a tribo.
Saramago uma vez disse numa conferência, eu estava na plateia:
"Existe no mundo a tribo da sensibilidade".
E os amigos são a tribo mais maravilhosa do mundo. Um grande exercício de amizade é ficar atento. Se meu amigo(a) oeiras precisa de algo e eu posso ajudar, tento ajudar. Para mim é quase um ofício. Sou exímia tecelã de redes.
Hoje recebo Letícia, filha da Monica e seu namorado Bruno. Eles foram grandes Anjos da Guarda na minha recuperação lá no Rio. Poder retribuir um pouco é um luxo.
Ao mesmo tempo meu filho Guga recebe a Nina , a outra filha da Monica em Resende para encaminhá-la a um belo lugar de cachoeiras.
Esse é o sentido da tribo e suas conexões.
Eu espero o dia de voltar a Mauá para a minha tribo de árvores.

quarta-feira, 18 de fevereiro de 2015

CALMARIA

Saquarema acordou bem mais vazia e silenciosa. Que venha a calmaria mas com vento. Não tenho ferramentas para compreender a loucura que cobre a cidade, as cidades. Isso é tarefa para antropólogos. O furacão CarnavalBrasil pede que você entre em seu núcleo.Que você participe. Estar fora é estranho.
Mas a vida é assim, cheia de abre e fecha parênteses.
Entretanto a loucura que toma conta do país pode ensinar muitas coisas ao mundo. Todos pulando e dançando juntos, pele com pele, o meu suor é o teu suor, e se trocássemos as guerras pelos blocos de carnaval? Palestinos e israelenses sambando juntos, gritando juntos, russos e ucranianos, etnias africanas ? Cada um cantando em sua língua. Ninguém precisando matar ninguém.
Engraçado, no carnaval há um ímpeto nos homens em se vestir de mulheres. No entanto, não vejo as mulheres querendo, desejando se vestir de homens.  Ao contrário, cada mulher traz à tona tudo que pode da sua sensualidade feminina.
Talvez os países árabes devessem importar o carnaval brasileiro para que as mulheres pudessem dançar junto com os homens.(Tenho até medo de escrever isso. Será que estou ofendendo?)
Então, talvez  a loucura- carnaval ajude a quebrar preconceitos. Sabe aquele homofóbico doente? Está lá no bloco, vestido de mulher, pulseiras, colares, batom. Sabe aquela senhora racista? Nem que estude mil anos conseguirá sambar como a negra maravilhosa ao seu lado.
Mas o carnaval já é uma miragem que se afasta. Novamente, fantasias no armário, as pessoas retomarão suas vidas, seus preconceitos. Bom seria que algo maravilhoso sobrasse. O desejo de ser verdadeiro. Pequenas loucurazinhas em doses homeopáticas, tipo uivar para a lua. 
  

terça-feira, 17 de fevereiro de 2015

MEMÓRIAS

Carregamos um saco de memória nas costas. Li uma reportagem muito interessante. Mas Jung já falava disso no inconsciente coletivo: o que meus pais passaram os medos que trouxeram da Europa, entraram mo meu DNA . Sou uma herdeira de experiências que não vivi. Então, às vezes o saco de memórias vai nas costas e outras vezes é alguma coisa que vive dentro de mim, que veio de longe.
O saco de memórias do nosso jardineiro Samuel tem cheiro de fazenda. Ele sempre trabalhou na terra, arando, dirigindo trator, levando o leite  para a cooperativa no interior de Minas. Adoro conversar com ele. Entendo a sua nostalgia.Ele é da terra profunda como eu.  Hoje ele veio trabalhar, pois é diarista.E não gosta de carnaval. Pedi para cortar a grama de dois pedacinhos de jardim. E o cheiro da grama cortada abre o meu saco de memórias. E me faz feliz. Sou transportada para o campo. A temperatura está maravilhosa e este cheiro inebriante de verde me dá vontade de dançar feito uma árvore..A minha paixão pela terra vem de longe. Não sei praticamente nada da minha família, mas alguma voz distante diz que minha avó materna  morava no campo, na Polônia. E claro que se examinarem atentamente meu DNA, sou árvore também.

segunda-feira, 16 de fevereiro de 2015

ANTIDEPRESIVO

No começo de 2014 comecei a tomar um antidepressivo . As dores que tinha não eram suportáveis e eu me afundava num pântano. Todos as manhãs quando acordava urrando de dor pensava como iria suportar o dia. O Cymbalta é um auxiliar na dor crônica. E consegui sair do pântano e respirar. Mas eu já tinha programado parar o Cymbalta depois da cirurgia. Só que parei de uma vez só, contrariando todos os cânones da medicina. Tive muitos efeitos estranhos. Hoje finalmente acordei bem. Digo, por dentro.
A partir desta experiência a consciência de mim ficou abalada. Eu era eu mas também uma outra. Eu não choro nunca. Fiz um bloco de pedra para aguentar tanta dor. Pois bem, chorei todos os dias um pouco.Gostei de chorar.
Sou uma pessoa de paz. Não gosto de brigar. Mas tive acessos de irritação , perdi a paciência, queria quebrar a casa. Eu tinha acessos de mar revolto por dentro.
Conto tudo isso para dizer que a gente toma os remédios quando precisa tomar. Ainda bem que eles existem. Dor crônica é uma doença terrível. Como se nosso corpo fosse uma jaula com um leão querendo arrebentar tudo.  Mas não é fácil deixar nenhuma droga. Café, cigarro, álcool e etc. Conto tudo isso apenas para dividir uma experiência.
Quem sou eu? Onde termina o meu ser ? Até que ponto me conheço?  Quando a dor no corte da cirurgia passar e toda a área em volta estiver liberada. serei uma pessoa sem dor. Espero que a ausência da dor me faça uma pessoa melhor. Mais uma vez uma outra pessoa. Nunca pensei que um dia seria possível viver este sonho.

sábado, 14 de fevereiro de 2015

MANHÃ

Aproveito as primeiras horas da manhã quando a temperatura está bem leve e amena. Tomei um banho gelado no jardim às 6hs. Há uma primavera que faz uma cortina cor de maravilha. Mergulho em suas flores.  Um galo cantou muito ao longe. Ainda não posso ir ao mar, mas deixo que o intervalo entre as ondas, este silêncio cheio de expectativas, me envolva. Cada vez mais aguço os sentidos Neste exato momento um beija flor faz piruetas diante dos meus olhos.
Logo fará tanto calor que será impossível estar aqui na varanda.  Será impossível estar em qualquer lugar. Para quem não gosta de calor, é claro. Juan, meu marido, adora. Para ele quanto mais quente melhor. A nossa incompatibilidade meteorológica é abissal.  Ele diz: "mas eu nasci na Andaluzia com 45 graus!". Isso não é motivo, eu retruco, pois nasci no Rio de Janeiro, com 40 graus e tenho sempre nostalgia do inverno, de chuva fina, de brumas que tudo encobrem...  Aqui estou sempre cercada de ventiladores e Juan fugindo do vento. Ele diz: "Coitado de mim, logo chegará o inverno!"
Juan volta da Feirinha cheio de presentes. Conseguiu ovos caipira de um velhinho bem velhinho que cria suas galinhas no quintal . Na barraca da tapioca, ele me conta, o dono da barraca serve vestido de mulher, pois hoje é carnaval. A sua mulher toda séria, ao seu lado, não o reconhece. Ele volta todo animado, os temperos transbordando dos braços.
E assim, a vida é um espetáculo. Somos a sua matéria prima.


sexta-feira, 13 de fevereiro de 2015

MARCA D'ÁGUA

Começo a reler Marca D'água de Joseph Brodsky para o encontro do Clube de Leitura da Casa Amarela. Estou possuída pela sua beleza em estado absoluto. Cada parágrafo mexe com todos os meus sentidos.
Marca D'água é Veneza em preto e branco. É a noite líquida, transformada em água.Marca D'água é o poeta que nos leva pelas ruelas dos seus pensamentos. Alguns poetas são generosos e nos lembram quem somos e onde fica a nossa terra natal.

Ainda há silêncio em Saquarema nestes últimos momentos que antecedem o carnaval. Sou completamente apaixonada pelo silêncio e suas nuances. Sei o quanto vou sofrer. A invasão. Gente que chega de todos os lados.

Andei hoje 15 minutos na rua. Na volta fiz um pão. Quando faço pão evoco para mim mesma a história de uma belíssima amizade. Aprendi a fazer pão com a Dona Maria do Vale do Pavão, em Visconde de Mauá. Uma camponesa calejada pela vida tão dura que lhe coube e que dizia as coisas mais lindas e filosóficas e poéticas , ali, naquela cozinha de uma casa de roça, o fogão de lenha sempre aceso, de onde ela retirava fornadas e fornadas de pão. Quando Seu Elói , o marido, estava presente, enquanto enrolava o cigarro de fumo de rolo, contava casos que nunca tinham nem começo nem fim.
Ela me ensinou a fazer pão e a caçar felicidade. Nas mínimas coisas. Sou muito grata. 

domingo, 8 de fevereiro de 2015

A VOLTA

Voltei para a vida aos pouquinhos depois da cirurgia na coluna. O Dr.Schiattino retirou um cisto do tamanho de uma bola de gude que estava pressionando os nervos. Colocou uma prótese de titânio no lugar de disco com quatro parafusos e acordei na U.T.I intermediária, uma das piores experiências que já tive. Com oxigênio, sonda , remédios fortes na veia e a pressão muito baixa. Achei , pela primeira vez , que ia morrer e não era bom. Passei por outras experiências limites, mas era como um sono, como dormir devagarinho. Desta vez não. Não sei explicar. Dentro de mim era vazio, era horrível. Mas no fim do dia fui para o quarto, tiraram as tralhas e foi tudo melhorando. Meu quadro de pressão baixa mudou e eu já ia aos pouquinhos me encontrando.
A dor era só no corte.
Tive alta e vim para a casa da Monica, este casarão de cem anos que me abraça. Pouco a pouco vou melhorando. Ontem já caminhei. Mas ontem foi o dia mais lindo e louco da minha vida!
Amigos, irmão e cunhada, chegaram, todos foram chegando. E meu filho, mulher e neto e minha neta-cachorra Luna que eu não conhecia. Os três cachorros não gostaram muito. Foi uma adaptação difícil, mas agora está tudo em paz. E de noite dormimos todos no mesmo quarto! Primeiro meu neto amou a cama de hospital e quer uma igual. E na cama dormiu a família  inteira com a Luna, minha irmã no chão e eu na cama de hospital . Nunca estive mais feliz!!!! Queria dormir assim para o resto da vida!!! Todos os que amo dividindo a noite e os sonhos. Meu neto amou o acampamento. E eu que sou uma vovó tão apaixonada entrei na brincadeira.]
Hoje, eles se vão. Mas logo o médico me dará alta para voltar para casa e depois aos dois meses alta para viajar. E as dores malucas desapareceram. E eu já sei quem sou novamente. Roseana poeta, que apesar de 20 anos de dor contínua, conseguiu levar a vida com humor, força e alegria. Claro que a poesia e os livros foram sempre o meu suporte.
Agradeço a todos que rezaram por mim, que pediram aos deuses , ao Universo, que me ajudaram com seus pensamentos maravilhosos de cura.
Poderei andar novamente, ir à praia, caminhar um pouco na montanha, andar de triciclo em Saquarema (meu sonho total de consumo).
Agradeço aos anjos que ainda estão cuidando de mim: Monica com seus três cachorros, Letícia com seu grande amor, Dora com suas comidas maravilhosas e minha irmã Evelyn que largou tudo para ficar comigo.  
Agradeço ao Juan, meu grande amor. Conviver diariamente com alguém com dor crônica não é fácil.
E la nave va. Com alegria.

domingo, 1 de fevereiro de 2015

ESPERA

Este tempo de espera num casarão centenário com uma grande amiga, sua filha, três cachorros, a cozinheira  Dora, uma imensa e florida acácia amarela e uns meninos lindos que estão aqui passando férias, foi maravilhoso. Recebi tantas visitas, tomei banho de chuveirão no quintal, comi comidas fantásticas, celebramos a vida cada dia.
Conheci pessoas novas, todos os dias recebi fotos dos meus netos e hoje chega a minha irmã. Amanhã cedo é a minha cirurgia . Ficarei com alguns parafusos na coluna, além de humana, serei algo como uma loja de ferragens, e esta palavra composta "loja de ferragens" me leva até a Rua Barão do Bom Retiro. Eu era criança, tinha uns sete anos e seu Waldemar, amigo do meu pai, tinha uma loja dessas. Mas além de ferragens vendia louças, copos, panelas, relógios. Todos os dias eu ia visitar a loja, na esquina da nossa casa. Namorava as canecas , namorava tantas coisas lindas.
Então é assim,sou uma loja de ferragens que range em suas dobradiças ( serão agora três próteses e parafusos) mas lá dentro tenho gavetas e mais gavetas cheias de poesia.
Um domingo maravilhoso para todos. Volto a escrever quando puder.

sábado, 31 de janeiro de 2015

CHUVA

Choveu de madrugada. Acordei com a chuva. Já estamos sentindo na pele diariamente o que o desmatamento da Amazônia faz. A situação é terrível. E a chuva que caiu de madrugada, caiu dentro do meu sono e me acordou de leve, foi uma bênção dentro da seca que estamos vivendo.
Os governos desmatadores são assassinos. Os que derrubam árvores para plantar são assassinos. Os que possuem poder para impedir o desmatamento e fecham os olhos e cruzam os braços e olham para o outro lado, são assassinos. Nenhum interesse político ou econômico poderia estar acima da floresta. Porque simplesmente é a nossa sobrevivência que está em jogo.
Os neandertais desapareceram e não sabemos a causa. Mas nós, humanos ora sublimes, ora destruidores, para não desaparecermos, temos que preservar o que nos dá a vida. 

domingo, 25 de janeiro de 2015

VIAGEM

A privacidade como a conhecíamos acabou. Os humanos gostam de contar suas vidas em praça pública, porque cada vida é uma sucessão impressionante de histórias, umas mais simples e outras com enredos bem complicados. Nós, humanos vivemos para contar histórias.
Então eu conto: já estou com a mala pronta. Amanhã bem cedo vou para o casarão da minha amiga Monica e meu futuro será tecido para o bem , nesta casa tão antiga e maravilhosa, entre pessoas esplêndidas que ajudarão a cuidar de mim depois da cirurgia da coluna. Hoje é um dia especial. Ficarei 20 dias longe da minha casa e quando voltar serei outra. Os meus sonhos são tão simples: poder cozinhar outra vez, andar, ir para a montanha ao encontro da minha casinha, ao encontro dos filhos e netos. Poder caminhar. Tudo isso me espera , aos poucos, quando eu voltar. É um sonho possível.

sábado, 24 de janeiro de 2015

DENTRO DA CESTA

Adoro cestas e cestos de palha, trançados por mãos humanas num trabalho belíssimo.
Dentro das cestas há sempre uma surpresa. Na minha casa guardo as frutas em cestas. Fica lindo. Guardo as redes numa cesta. Guardo a lenha pequena numa cesta e também os jornais antigos que o vizinho vem buscar para seus cachorros. E no ateliê de cerâmica da minha irmã Evelyn em Visconde de Mauá , ela tem uma cesta cheia de livros, todos meus, para as crianças. E ela me conta que ontem uma criança que ainda não lia, ficou fascinada com os livros e sua mãe teve que sentar no chão para ler meus poemas para ela.
Fiquei muito muito feliz.

A gente se agarra numa corda tecida de pequenas coisas belas para aguentar o mundo e o nosso país. Aqui em nossas terras, por motivos políticos a situação não é nada boa. É um erro fatal politizar as nossas mazelas. As coisas precisam ser ditas, porque nós, cidadãos de terceira classe, não somos tão inocentes assim.
Políticos de qualquer partido deveriam dizer a verdade. Sim, faltará água e deveríamos fazer um esforço coletivo, toda a nação, para economizar. Sim, já existem apagões, falta luz e faltará muito mais. Sim, o problema de locomoção das pessoas nas cidades é gravíssimo. Sim, já há desemprego.  Sim, a violência chegou a níveis inimagináveis. Sim, há uma sensação de que o país está à deriva. Não se trata de uma luta partidária. Trata-se de gente. Gente de carne, osso, sangue e sonhos.  E todos sofreremos mas como sempre os menos favorecidos sofrerão muito mais. Cada pessoa que perde o emprego é uma história muito triste, pois a perda do emprego além de afetar a dignidade , afeta a família.
Não quero terminar este post de uma maneira triste ou pessimista, mas acho que deveria haver um movimento para o resgate das palavras. Um governo não pode funcionar proibindo a verdade, proibindo palavras.
Somos feitos de água e energia. Somos feitos de palavras e histórias. O que fazer agora?
Salve o vento e salve o sol. Investir em energias alternativas, solar e eólica para o futuro. Para que nossos filhos e netos possam viver num mundo menos hostil.. Dizer a verdade e buscar soluções com a participação de todos. A verdade é sempre o melhor caminho.

sexta-feira, 23 de janeiro de 2015

COLO DE AVÓ

Recebo ontem pelo correio meu novo livro Colo de Avó, da editora Manati. As ilustrações são as mais maravilhosas do mundo! da Elizabeth Teixeira. Cada avó mais linda do que a outra e os netos e as netas, nem se fala.
Um livro que cabe como uma luva nas duas pontas da vida: crianças e terceira idade.
Eu só pude escrevê-lo depois de ser avó, apesar do poeta sentir coisas que nunca vivenciou, este sentimento de amor agudo, de amor fabricado pela máquina do tempo, só sendo avó. O filho do meu filho.
A filha do meu filho. O filho da minha filha. A filha da minha filha.
O poema que vou transcrever foi inspirado nos  Cem Anos de Solidão, que li na minha juventude. Algumas cenas vivem até hoje fortemente dentro de mim. Uma delas é a de uma avó sentada num banquinho em frente da penteadeira e as netas fazendo dela gato e sapato, pintando a avó todinha. Não me lembro do nome dos personagens. Mas lá vai o poema:  

SALÃO DE BELEZA

A penteadeira da avó
é um mundo:
pote de cremes variados,
pentes, escovas, perfumes
e vidros coloridos, grampos,
porta-retratos, fitas de cetim,
batom, sombra, pó de arroz.

A neta senta a avó
num banquinho
e começa a trabalhar:
com suas pequenas mãos
trança os cabelos da avó
para que ela se transforme
numa bela rainha
e espalhe pão e amor
pelo mundo.


quinta-feira, 22 de janeiro de 2015

ELISA

Outra vez um lindo bebê na nossa casa. Elisa, filha da Louise Botkay, neta da Monica Botkay, dando continuidade a uma ciranda de mulheres maravilhosas. Elisa encheu minha casa de sinos, arrulhos, barulhinhos únicos e incríveis. Louise é uma mamãe especial. Entrou no mar com Elisa de apenas dois meses e meio. E ela amou!!! Quando troca a fralda, Louise antes acaricia a menina, canta, e ela adora trocar a fralda. Elisa tomou banho de chuveirão. Banho de bacia com água fria. Ela adora tudo! Só chora para mamar e quando tem sono. Louise caminha quase voando de alegria e Elisa voa junto.
Eu e Monica, a vovó, passávamos os dias namorando a Elisa. Não conseguíamos fazer mais nada. E eu acho que os bebês que têm passado por aqui, vão deixando um pouquinho do pó do Universo que ainda trazem na pele, um prenúncio de que a minha cirurgia da coluna finalmente marcada para o dia 2 de fevereiro será um sucesso.
Dia 2 de fevereiro é dia de Iemanjá. Peço desculpas aos evangélicos e aos cristãos, não quero machucar a sensibilidade de ninguém, mas adoro a figura de uma deusa que vive no mar. Todos os mitos antigos me fascinam. E Iemanjá se confunde com as sereias no meu imaginário. Ela brilha, é estonteante, bela como ninguém. Uma vez fui a uma festa de Iemanjá em Salvador, fiquei hospedada na casa da minha amiga Regina e é muito impressionante ver centenas de pessoas de todas as classes sociais e acho que de muitos credos diferentes, chegarem com flores e roupa branca.  Numa fila interminável, vão entregando as flores para os barqueiros.  Juan fez uma reportagem para o El País. É uma festa única, impactante.
E eu, que convivo com todas as religiões, peço à Iemanjá que cicatrize minhas dores com água do mar.

sexta-feira, 16 de janeiro de 2015

O MAR

O mar já corre pelas minhas veias. Com certeza meu sangue é salgado e escuto o canto do mar o tempo todo e em sonhos passeio pelas calçadas da Atlântida. Mas faz parte do meu exercício de paciência ver o mar e não poder  nem mesmo descer para por os pés na água.
Então é assim, olho o mar daqui do estúdio onde escrevo e imagino meu corpo flutuando na água. 
Em pensamento já me vejo caminhando pela praia, na areia branca, catando conchas. Depois da cirurgia, depois dos seis meses de recuperação.
AS CONCHAS
As conchas ouvem música.
O mar rolando seus violinos,
às vezes violas de gamba,
ou mesmo flautas e sinos.
As conchas ouvem,
e depois,
quando e, nossos ouvidos,
cantam baixinho.

in O Mar e Os Sonhos, ed Abacatte.

quinta-feira, 15 de janeiro de 2015

URSO, POLAR E PIPOCA

Cheguei em casa depois de passar uma semana no casarão centenário da minha amiga Monica Botkay.
Urso, Polar e Pipoca, as pessoas não humanas da casa, sabiam que eu não estou bem, estou frágil. Mesmo quando corriam pela casa, tomavam muito cuidado comigo. Nunca me atropelavam, nunca me pisavam.  A casa possui um elevador, tipo plataforma para descer do segundo andar ao térreo. Urso e Polar amavam andar comigo de elevador, mal eu abria a porta entravam felicíssimos, não sei que graça encontravam na brincadeira. Compenetrados como senhores de gravata, lá iam eles comigo, sérios. Pipoca, a cadelinha mais fofa do mundo, tinha medo. Sabia que eu iria usar o elevador, pois desaparecia e os três só andam juntos.
Para falar a verdade Pipoca cuidou muito de mim. Ficava deitadinha aos meus pés , bem perto, de vez em quando me olhava com aqueles olhos maravilhosos que poucos humanos têm.
Fico aqui neste paraíso que é Saquarema por 10 dias. Depois volto para o casarão, dando sequencia aos exames para a cirurgia da coluna. Urso e Polar serão meus colegas de elevador. 

terça-feira, 13 de janeiro de 2015

UMA LEBRE

Monica Botkay, minha amiga fotógrafa, onde estou hospedada, tem uma ótima biblioteca e estou lendo um livro maravilhoso de um autor finlandês , Arto Paasilina. Jamais conheceria este autor se não estivesse hospedada aqui e Monica não me apresentasse o livro.
A história é singela, tocante e cheia de humor. Um jornalista, completamente de mal com a vida, desiludido com seu trabalho, com um casamento horrível, numa estrada atropela uma lebre. Ele para o carro e vai atrás da lebre. Pula a cerca que separa a estrada da floresta e a encontra com a patinha quebrada. Ele rasga um pedaço da sua camisa e faz uma tala. E não volta para o carro, onde seu amigo fotógrafo está esperando.Ele começa a se envolver afetivamente com a lebre e com ela foge de sua vida anterior. E por onde ele vai passando, a lebre só desperta afeto, curiosidade e alegria. Ainda não acabei , não sei o final.
Não é um livro para crianças.Mas com esta linda história, sim, se poderia escrever um livro para crianças.
É um convite para se olhar a vida de um modo diferente. Olhar a vida de verdade, se envolver e aceitar as suas surpresas.

segunda-feira, 12 de janeiro de 2015

CASA ANTIGA

Estou numa casa muito antiga no Rio de Janeiro, em Laranjeiras. Uma casa onde as crianças podem se perder num vão, em lugares secretíssimos. Eu mesma me perdi várias vezes. Um casarão com móveis que foram da avó, da bisavó. Minha amiga tem três cachorros maravilhosos. De repente se ouve um tropel na escadaria de madeira e são eles, quase numa cavalgada.
A fêmea se chama Pipoca. Amorosa,doce, seus olhos nos acariciam. Polar e Urso, brancos, sérios e compenetrados como ursos. Mas hoje os três vieram ao quarto onde estou hospedada , um de cada vez, para me dar bom dia.
Vim ao Rio para uma consulta com o cirurgião que vai operar a minha coluna. Ele, segundo me disseram, é o melhor do Rio e me disse que depois de seis meses de recuperação, ficarei bem. Minhas dores, depois da cirurgia no quadril, se tornaram tão violentas e impeditivas, que tornaram a minha vida bem difícil. Vem aí um tempo duro . Mas ainda bem que minha amiga Monica Botkay , sua maravilhosa filha, os três cachorros e a Dora, cozinheira de mão cheia com seu sorriso nordestino, aceitaram me receber, pois precisarei passar 10 dias no Rio depois da alta no hospital. Agradeço tanto este gesto tão raro. Mas os amigos são os anjos que chegam nas horas difíceis. 

terça-feira, 6 de janeiro de 2015

FOTOGRAFIAS

Tenho uma foto do meu pai e minha mãe, jovens, lindíssimos, naquele instante todos os sonhos, os planos, a estrada da vida, ainda seriam construídos. E a foto deles quando eu nem era nascida me traz um instante preciso. No entanto não sei que dia era aquele, se chovia ou fazia sol. Mas a fotografia eterniza aquele maravilhoso instante em preto e branco e eles me olham, jovens para sempre.
Hoje se fotografa demais, se fotografa tudo, cada instante, numa sequencia louca. São bilhões, trilhões de fotografias pelo mundo afora. Eu não fotografo , não sou fotógrafa, deixo que façam isso por mim. Minhas fotos são palavras.

O QUE FALTA NUM RETRATO

Um retrato aprisiona com luz e sombra
um fragmento do instante,
o que os olhos querem guardar:
um encontro,
uma gota de um momento.
Janela aberta para o passado,
ponte sobre o tempo que escorre.
Mas faltam o cheiro e o gosto.

in Cinco Sentidos e Outros, ed. Lê.

Amanhã vou para o Rio, fico alguns dias com a minha amiga Monica Botkay, fotógrafa de verdade, desde os anos 70 , a quem dedico o poema acima.

segunda-feira, 5 de janeiro de 2015

UM BEBÊ NA CASA

Chegou um bebê da Itália em nossa casa, o Leonardo. É neto do nosso médico José Augusto Messias e da vovó Kátia. Com seis meses Leonardo é um bebê perfeito, não consegui achar nenhum defeito. Sua mãe Fabiana parece uma bailarina russa, parece que ao andar, de repente sairá dançando, também parece uma fada no meio de um bosque, dançando ao luar. Mas é italiana de Perleto, uma aldeia no Piemonte de 250 habitantes. É no Piemonte que se fabrica o famoso vinho Dolcetta D'Alba. Na cidade de Alba.
Fabiana é casada com o Gustavo. Uma ninfa com um homem enorme e barbudo, mas delicado como ela.
Leonardo, o bebê, não chora, não faz manha, só ri e brinca. Enche a casa de alegria, uma alegria da cor da casa, amarela como girassóis .
Claro que a casa ficou toda agitada e da cozinha foram saindo, pães e comidas maravilhosas e os vinhos enchiam as taças como cachoeiras de felicidade. E a promessa que fiz a mim mesma de perder peso por causa da coluna, mais uma vez se esvaiu. Sou muito volúvel eu acho.
E hoje a vida de todos os dias recomeça ? Todos os dias o milagre da vida, é o que nos diz Leonardo, em sua lingua, meio eslava meio semítica , dadábrrrr,guuuuu,rcgjk.
Feliz 2005 para todos.

sexta-feira, 2 de janeiro de 2015

MUDANÇAS

Infelizmente nada muda num passe de mágica, apenas o tempo, um sudoeste repentino pode trazer um temporal, apenas os acontecimentos de uma vida, um encontro, um acidente. Mas as mudanças estruturais são geralmente um longo e muitas vezes um doloroso processo. Li uma vez um livro interessante, não me lembro o nome nem do livro nem do autor.Mas discorria sobre as dificuldades que o cérebro nos impõe para mudar qualquer hábito. Para mudar um hábito temos que ter uma recompensa muito clara. Eu mudo isso para ganhar aquilo. O cérebro registra os hábitos e nos leva a repeti-los já no automático. Por isso a força de vontade tem que ser imensa para enganar o nosso próprio cérebro. E fazemos tantas promessas a nós mesmos no dia 31 de dezembro, e chega o dia 1, chega o dia 2... e nossas promessas se evaporam.
Acho que a principal promessa de cada um de nós deveria, quem sabe, ser a de fazer o que amamos aqui e agora e sermos absolutamente fiéis a nós mesmos.

terça-feira, 30 de dezembro de 2014

NÓS

Todos os especialistas em todas as áreas dizem que 2015 será um ano difícil. Então, para que tudo fique mais fácil, desamarre os nós, aqueles que nos prendem a tantas coisas inúteis:

RECEITA DE DESAMARRAR OS NÓS
desamarre os nós do sapato
depois desamarre os pés
desamarre os laços inúteis
os nós do que não serve mais
desamarre o barco do cais
os nós das janelas
e então deixe que o vento...

domingo, 28 de dezembro de 2014

ESTRANHOS NO NINHO

Se me pedissem para trabalhar como arqueóloga ou astrônoma, embora sofra de paixão perdida por estes dois temas, não poderia, simplesmente porque não sei nada sobre o assunto.
Não sou educadora, mas embora também nunca tenha sido boa aluna em matemática, há uma equação muito simples, essa eu entendo:
+ educação de qualidade+leitura+artes+esportes= um salto sobre o fosso social que separa brasileiros uns dos outros.
Então, seguindo o fio deste pensamento, sabendo que no Brasil não há nenhum planejamento em relação à uma educação realmente transformadora, fiquei estupefata com a escolha de um Ministro despreparado . Nunca ouvi falar que o Sr. Cid Gomes tenha exposto suas ideias inovadoras sobre educação. Mas ele disse que , (se não me engano) Professor não deveria pedir aumento de salário mas sim trabalhar por amor. Por que o EXMO futuro Ministro não tenta ocupar alguma pasta onde domine o assunto e não troque o seu salário pelo mesmo valor do salário de um professor? E que até o fim do seu mandato trabalhe por amor sem pedir aumento?
Como cidadã brasileira, carioca, saquaremense, fica minha singela sugestão, em nome dos meus milhares de leitores professores, que, tenho a intuição, concordam comigo. Mas quem não concordar pode deixar aqui o seu protesto.   

sábado, 27 de dezembro de 2014

MEU ANIVERSÁRIO

Abro o computador e recebo dois presentes. O belo livro de poesia do Hammu. E um texto do Talmud, que Angela copiou para mim: 

"O Talmud (livro sagrado dos judeus) nos diz que na data do aniversário judaico o mazal, sorte, da pessoa é dominante. É certamente mais que uma ocasião para receber presentes; é uma chance de festejar, agradecer e refletir sobre o que está realizando atualmente em sua vida. Este é o dia em que você nasceu, em que a sua vida começou e é também o dia em que sua vida pode mudar."
Hoje é meu aniversário. Minha mãe me contava como nasci, prematura de sete meses. Ela foi tomada por uma compulsão por limpeza e estava abaixada passando palha de aço no chão quando sua bolsa arrebentou.
O Talmud me diz para agradecer. Todos os dias agradeço tudo: estar viva, ter o Juan, os filhos, os netos, minha irmã, enfim, ter esta família de artistas maravilhosos. E a Vanda e o Samuel, nossos caseiros que cuidam da gente e da casa com tanto amor e nos deram uma segunda família.
Agradeço o dom da poesia, agradeço ser leitora, agradeço os amigos magníficos que tenho. Agradeço o jardim. Cada flor, cada árvore , agradeço a casinha na montanha, que está lá, me esperando dentro da mata, até quando eu ficar livre da recuperação e puder ir ao seu encontro.
O Talmud me diz para refletir sobre o que estou fazendo atualmente. Estou me recuperando de uma cirurgia e caminho por dentro de mim, por algumas ruas claras, outras escuras, em busca da cura possível, poder andar, já que por enquanto só posso voar.
A minha felicidade é fabricar felicidade para todos os que chegam perto de mim. 
E desejo que a nossa casa, a Casa Amarela, continue fabricando encontros maravilhosos.
Hoje Juan está de Chef e fará um arroz caldoso, um prato espanhol, absolutamente divino. Uma bela mesa com dois amigos , Hélio e Fernando, minha irmã e nossos caseiros Vanda e Samuel (eu disse para a Vanda que hoje é dia de Madame, a Dona Maria Vassourinha fica em casa) , pão feito em casa pela minha irmã Evelyn e vinho para celebrar o dia em que nasci para fazer poesia com tudo o que aparece na minha frente.  
 

terça-feira, 23 de dezembro de 2014

PAPA FRANCISCO

O Papa Francisco é um iluminado realmente. Falou aos Bispos toda a verdade que não era dita desde tempos imemoriais . Os Bispos parecem múmias. Nenhum contato com a vida. Basta olhar os seus rostos tristes e petrificados.
Então o Papa veio e fez um grande pedido. Interpretei o seu pedido assim: sejamos coerentes com o que dizemos e a nossa vida .
Apesar de ser judia sei muito bem o que Jesus pregava. E Jesus era judeu. Pregava a alegria, a aceitação dos diferentes, de quem a sociedade rejeitava. Pregava a paz, quando nos diz para dar a outra face em contraponto ao olho por olho dente por dente. Dar a outra face ao inimigo é buscar o diálogo.
Então que cada vida acrescente algo ao planeta. E vamos seguir pensando na palavra sinceridade e na palavra paz. 

segunda-feira, 22 de dezembro de 2014

PRESENTE DE NATAL

Minha neta veio. Agora está com um ano e um mês. A última vez que a vi tinha una 8 meses. Então entrou uma pessoinha na minha casa que não era aquele bebê que eu havia visto. Desde sexta-feira até domingo fiz uma imersão total na Gabriela. Ela é fantástica e conversamos tanto e brincamos tanto que acho que não se esquecerá de mim. Paixão por neto não se pode explicar. Sinceramente deve haver uma fábrica de um amor intenso e luminoso dentro da gente à espera. Só germinando. Lembro que quando fui para a Espanha ao encontro do meu neto Luis, então com quinze dias, desconhecia o tamanho desta avalanche. Mas já, ao olhá-lo no berço, senti as águas do amor se avolumando dentro de mim, até tomar conta de tudo, da minha pele, meus órgãos, cada mínimo pedaço do meu ser. Hoje meu neto tem cinco anos e somos muito amigos.
_ Vamos lutar, vovó? Como explicar que sou pacifista? Se ele é um Super Herói?
Eu digo, Luis, mas e a minha coluna, vai doer! Ele responde: _ Puxa, vovó, você nunca vai ficar boa?
Trocamos cartas, ele me manda desenhos lindos eu mando adesivos e livros.
A Gabriela ainda fala numa língua que só os bebês entendem. O dicionário é o nosso coração, então a gente adivinha. Ela fala muito e seu idioma é belíssimo.
Então o meu maior presente de Natal são meus dois netos.    

sexta-feira, 19 de dezembro de 2014

IDADE

Li um artigo muito bom. Uma pesquisa feita com gente acima de 60 anos dizia o seguinte: a idade que você tem não é a que você sente. E se você tem 65 mas se sente com 20 ou 30, melhor para você, pois está comprovado que você viverá.mais alguns anos, já que tem sonhos, projetos, cuida da saúde, faz exercícios , quando pode viaja, se interessa por muitas coisas.
Todo mundo que não morre jovem, vai envelhecer. Mas enquanto sonha e se interessa por alguma coisa ao invés de ficar sentado se lamuriando e vendo novela , a chance de viver mais e com qualidade de vida, é maior.
Então a atividade física e mental é importantíssima. Leitores estão mais protegidos de doenças degenerativas do cérebro.
Acho maravilhoso não se intimidar com a idade que está escrita na carteira de identidade. Meu marido Juan tem 82 anos, caminha duas horas todos os dias, faz bicicleta ergométrica, lê e escreve para seu jornal continuamente, faz planos, sonha e portanto, não tem mais do que 30. E isso consta dos seus exames anuais.
Eu vou fazer 64, mas sou criança , adolescente, o que precisar. As crianças ficam muito bem comigo, pois viro criança. Os jovens também, pois embora desconheça os jargões do momento, posso entender perfeitamente seus anseios.  Não tenho idade. Tenho todas as idades.

Começo a ler um livro de Juan Marsé , escritor espanhol que não conhecia. Prêmio Cervantes entre outros e que logo no comecinho, já vi que é maravilhoso. Se chama  Caligrafia de Los Sueños.
E assim imagino que tenha que ser a vida: Uma caligrafia dos nossos sonhos, que passam por mil e uma noites, pontes invisíveis, amores, encruzilhadas, lindos caminhos de flores selvagens...

  

quarta-feira, 17 de dezembro de 2014

LIMITE

Qual o limite entre o ser humano e algo que não se pode nomear? Ontem aconteceu algo inominável com seres que não são humanos, não são bichos, não sei o que são. Tomam a forma do horror em estado puro.
No Paquistão imagino a dor se espalhando feito um incêndio.
Por que nosso planeta abriga seres que não conseguimos reconhecer?  
Como é que se pode matar em nome de algum Deus, alguma religião? Não conheço o Corão mas certamente deve haver um erro de leitura, ou os muçulmanos que sabem ler deveriam corrigir o mal entendido. Maomé manda matar? Jeová manta matar tantos inocentes numa guerra insana?
Voltamos no tempo e estamos vivendo entre as atrocidades que se cometiam em nome da religião, por toda a antiguidade?
Que Deus seria esse que manda matar crianças?

Não posso entrar no coração
das mães, dos pais, dos tios,
avôs e avós
das 132 crianças
que desapareceram para sempre.
Não posso enxugar as lágrimas
que molharão seus rostos
para sempre para sempre.
Não posso pisar em suas
casas distantes onde um silêncio
espesso ocupará um lugar na mesa
na cama na sala nas conversas
no quintal
para sempre para sempre.
E não existe nenhuma explicação
possível para a ausência
que durará para sempre
noites e dias e noites
até a eternidade.
 



terça-feira, 16 de dezembro de 2014

NA FEIRA

Quando era criança minha maior paixão era a Feira Livre. Uma vez por semana ia com a Eunice, minha babá. Ela tinha os seus "fregueses" como ela dizia, invertendo os papéis. Era tudo tão lindo e colorido! Eunice era brigona e se alguma senhora branca encostava o carrinho nela, pronto, já estava armada a confusão. Em cada barraca de um velho conhecido seu ela parava, apalpava a mercadoria, pedia desconto e me apresentava como a sua filha. Eu ganhava frutas e Eunice comprava para mim um quebra-queixo, maravilhoso doce que nunca mais vi. Todos apregoavam a mercadoria aos gritos, era uma linda confusão, eu amava. E ainda tinha a barraca das flores!
Hoje , o que vemos no Brasil é uma horrenda e macabra Feira Livre. Nenhuma semelhança com as feiras da minha infância.
Cada possível ou provável candidato a Ministro quer o cargo onde haja uma verba maior. Para que? Pelo que vemos na Petrobras dá para desconfiar. Para boa coisa não é.Não há nenhuma timidez. Falam abertamente. E os partidos exigem, batem o pé. O governo virou um embrulho envenenado. Nada das frutas e flores da minha infância. Dentro do embrulho há um pântano. Os possíveis ou prováveis ministros nunca são escolhidos pela sua capacidade. Na maioria das vezes não sabem nada do assunto.
Será que chegará o dia em que se governará verdadeiramente para o bem estar do cidadão? Que cada Ministro será escolhido por sua capacidade e conhecimento do assunto da Pasta que assumirá?
E tudo é feito às claras, de dia, como nas maravilhosas Feiras da minha infância. Mas infelizmente é uma Feira de Horrores.

segunda-feira, 15 de dezembro de 2014

Dia 15

Hoje, dia 15, pela primeira vez,  meu corpo começou a responder aos exercícios para soltar o ciático. É o primeiro dia em que estou bem, podendo sentar, caminhar e ficar em pé sem o nervo gritar (e às vezes eu também)
Comemoro com a meditação no jardim. Eu não descia ao jardim pois os degraus são altos.
De olhos fechados eu estava realmente no meio de uma orquestra de passarinhos. Uma orquestra para flautas e violoncelo (o mar). Tirei os sapatos antes da meditação e a grama era um tapete maravilhoso, molhado e vivo, sob os meus pés. A minha terapeuta me pediu para colocar violeta na coluna e imaginar cada vértebra se abrindo, abrindo espaço. Ela está me ensinando a fazer as pazes com o meu corpo que desde 1993 é o território da dor. Eu não fixo no corpo as memórias boas , por exemplo, molhar os pés na água do mar. Tenho que fazer um esforço para me lembrar da sensação.O corpo só guarda os momentos de dor. E fixando os momentos bons, eu posso alargá-los, impregnar o corpo com estes momentos. Parece que o corpo tem uma memória toda própria, estou tentando mexer nessa memória com a meditação.
Conto tudo isso porque sei que com meus relatos posso ajudar quem tem dor contínua .
Uma das cenas mais maravilhosas do nosso encontro do Clube de Leitura da Casa Amarela, que não foi na casa amarela, mas sim numa chácara lindíssima, foi a chuva caindo na hora de ir embora. Era uma chuva tão linda, tão impregnada de poesia, no meio da natureza exuberante, o cheiro de terra molhada enchia cada espaço de alegria. E como aqui em casa também choveu no sábado, o jardim está pulsando, exalando amor;.

domingo, 14 de dezembro de 2014

A PONTE INVISÍVEL

Ontem o Clube da Casa Amarela foi recebido na Chácara do Hélio e Fernando.
Primeiro Felipe espalhou meus livros sobre o tapete, eram muitos, setenta e sete. Faziam um outro tapete, colorido, vibrante e ali estava o percurso da minha vida. Felipe presentou cada um com a sua dissertação de Mestrado e me pediu meia hora para falar. Fiquei entre orgulhosa e constrangida, afinal a plateia era toda de amigos.
E então entramos na leitura do livro A Ponte Invisível de Julie Orringer.
O livro se passa na Hungria, no momento antes da Guerra e durante a Segunda Guerra. 
Maria Clara começou dizendo que a autora aprendeu a escrever numa Escola de Escritores e que o livro foi escrito para ser um best-seller. Ela disse que o livro não conseguiu arrebatá-la e que ela achava os personagens muito bonzinhos e que ficava muito em primeiro plano uma ética judaica e a única que saia deste esquema era a filha da Klara, a bailarina.
Eu discordei, outros personagens também saiam da norma. O irmão meio clown, o amigo homossexual, o primo dândi .
Mas pouco a pouco fomos passeando pelo livro, pelas personagens mais tocantes. A reconstrução perfeita de Budapeste, a vida em Paris. E comentamos como o destino de uma pessoa pode caber numa carta!
Pois foi o acaso que colocou Andras em contato com a mãe de Klara, o que o levou a transportar uma carta secreta, que colocou no correio em Paris, mas por coincidência ele veio a conhecer  a destinatária , Klara, bailarina, húngara, dez anos mais velha e um amor indestrutível nasce entre os dois.
Klara tem um segredo e todos comentamos que mulher forte teve que ser para sobreviver a tudo o que passou. Com quinze anos foi estuprada, seu namorado e partner assassinado e ela matou um policial, portanto teve que fugir.
Klara teve a criança que afinal era filha do seu estuprador e não do seu namorado.
Hector comentou a beleza e a fidelidade com que a autora criou as aulas de arquitetura, pois ele é arquiteto.
Todos destacamos a força de tantos personagens. Muitos choraram com tudo o que os personagens passam na Segunda Guerra.
Fernando disse que aprendeu muito, que não sabia que os judeus na Hungria trabalharam e depois lutaram junto com os húngaros, a favor de Hitler.
Na Hungria os judeus foram deportados tardiamente , já quase no fim da guerra e puderam desfrutar de uma sobrevivência maior.
Hélio destacou que a época em que vivemos, nosso mundo, foi moldado a partir das consequências da Segunda Guerra .
Enfim, todos estivemos de acordo que o livro é riquíssimo em detalhes,a autora reconstrói magnificamente tanto Budapeste, quanto Paris, os campos de trabalho, a frente de batalha. Parece que tudo se desenrola feito um filme diante de nossos olhos. Adelaide falou do jornal que circulava no campo de trabalho e como isso foi fundamental para a sobrevivência psíquica de todos, mesmo colocando a vida de Andras e Mendel em risco. Sonia disse que parou de ler o livro por uma semana quando Mendel morre, tamanha a sua dor.
César falou do título, A Ponte Invisível seria o desejo de sobrevivência, bastaria atravessá-la e se sairia vivo do outro lado.
Andras sobrevive e ao chegar a Budapeste todas as pontes da cidade estão destruídas
O reencontro com Klara e os filhos é lindíssimo.
Fechamos com o belo poema da poeta polonesa Prêmio Nobel , Wislawa Szymborska, que Maria Clara leu. Hélio leu um belo poema do Fernando.
Antes do almoço os donos da casa serviram champagne para comemorar a vida.
E o almoço na varanda foi absolutamente esplêndido , uma Festa de Babette e as sobremesas um delírio. Angela, que vem do Rio, além do livro que trouxe para sortear, trouxe uns doces maravilhosos que distribuiu entre todos. Hélio e Fernando nos presentearam com uma toalha de mão bordada e um sabonete. E já é tradição no Clube que uma vez por ano, em dezembro, o encontro acontece na Chácara e em julho em Mauá
O próximo encontro será dia 7 de março e os livros serão: .Morte em Veneza, Thomas Mann e Marca D'Água de Joseph Bronsky. Aconselhei , se alguém quiser ler por fora, 1000 dias em Veneza, de Marlena de Biasi, uma leitura leve e divertida sobre Veneza.

sexta-feira, 12 de dezembro de 2014

UMA IDEIA NO BOLSO

Estava no Rio e recebi a visita da minha editora da Rovelle, a Carolina.
Ela me trouxe de presente o livro da minha nora Patricia de Arias, Uma ideia no Bolso, com ilustraçõies lindas da Elisabeth Teixeira. Acaba de sair.
Eu traduzi o livro e realmente o texto é delicioso. Um jogo de um menino com a sua mãe. Ele guarda uma ideia no bolso, diz. Mas cada vez que a mãe pergunta qual é a ideia, ele diz que antes tem que fazer não sei o que. As coisas que o menino faz são absolutamente maravilhosas. Elas traduzem o dia a dia da criança, suas brincadeiras, sua imaginação. E a mamãe tão curiosa, continua a perguntar, até que ... Não vou contar o final.
Conheci Patricia em 1999, em Granada, na Espanha. Ela me mostrou seus poemas. Como eu poderia imaginar que ela se casaria com meu filho? Que eu seria sua tradutora?
É uma delícia a poesia da Patricia. Este é o seu terceiro livro. E espero que seu livro, cheio de ideias no bolso, encontre o caminho das escolas.

Amanhã é o  encontro do nosso  Clube de Leitura Amarela. Depois conto tudo!

segunda-feira, 8 de dezembro de 2014

FORÇA DE VONTADE

Escrevo na varanda, com um vento maravilhoso que vai derrubando tudo, a caneta, o bloquinho de anotações, a garrafinha de água. Ouço a música das palmeiras e coqueiros e quando viro a cabeça para a esquerda o flamboyant enche meus olhos de um vermelho alaranjado brilhando de sol. O céu está como gosto, cheio de nuvens, portanto o sol vai e vem, bricando de fazer sombra, brincando de mudar a luz.
Leio no El Pais que um psicólogo , Roy Baumeester, não sei a sua nacionalidade, diz em seu estudo acadêmico, que a força de vontade é feito um músculo , devemos exercitá-la. E acordar cedo, é a melhor coisa do mundo para a saúde e também para exercitar a força de vontade.
Conheço bem o que ele está falando, pois acordo todos os dias, espontaneamente,  às cinco horas da manhã, às vezes antes.
Ele diz que se deve fazer exercícios físicos bem cedo e a meditação também, para quem medita.
Bom, estou em casa, desde a cirurgia, desde o dia 14 de outubro. A recuperação da cirurgia foi excelente, mas infelizmente quando comecei a andar, o nervo ciático foi pinçado e estou aqui sem quase poder andar, menos ainda fazer qualquer exercício. Faço alongamento. Mas sinto muita falta do pilates. Havia feito planos para passar o Natal com filhos e netos em Resende ou Mauá , mas todos acham melhor eu não ir.
Enquanto isso faço tudo o que posso, exercendo a força de vontade. Concordo que sim, é algo que tem que ser exercitado. Se você pensa em fazer alguma coisa, vai lá e faça. Ainda mais para quem não tem impedimento físico.
As coisas que eu farei quando melhorar: dançar sozinha na sala, descer até o mar, pedalar na bicicleta ergométrica e comprar um triciclo, para mim o supra sumo do sonho de consumo.
Comecei um tratamento com uma osteopata maravilhosa no Rio de Janeiro. Vou soltar o ciático. Ah, se existisse uma ferramentinha para soltá-lo! Um simples nervo é a minha prisão! Transformo a minha prisão na melhor coisa do mundo para ficar feliz.
Minha antiga terapeuta Heloísa me ensinou a fazer sempre contato com as coisas boas e as realizações.
Então, a minha prisão é o meu corpo e busco a chave para a saída.
Vivo dentro da natureza e peço ajuda às árvores e flores. Minha gata Luna me ama. ( A nossa gata Luna parece que só ama o Juan) Meus amigos me amam, não me faltam livros para ler, nem beleza para ver . Também peço ajuda ao mar.  Sei que com meu olhar posso ir até a África.
Mas para fazer isso tenho que ter a força de vontade treinadissima e muita meditação!
Concordo então com o psicólogo e conto tudo isso para animar vocês.
Alguém quer fazer aula de tango? vá lá e se matricule.
Quer doar algumas horas de sua vida para alguma instituição que precise de ajuda ou mesmo para uma escola perto de você? Quer doar algum dom que você tenha? Procure a instituição hoje mesmo e ajude.
Quer plantar uma árvore ? mudar a cor do cabelo? Aprender uma nova língua ? Apadrinhar uma criança?
A maior felicidade é doar felicidade. A maior felicidade é a gente conseguir fazer o que quer fazer, o que sonha, o que ama.

domingo, 7 de dezembro de 2014

SONHANDO COM VENEZA

Decidi finalmente o livro do nosso próximo encontro do Clube de Leitura da Casa Amarela. Aliás, os livros. Andam reclamando muito do tamanho dos livros que escolho. Normalmente não me preocupo com o tamanho do livro, pois os leitores têm dois meses para ler o livro.
Mas agora escolhi dois livros maravilhosos e finos. Porque estou com saudades de Veneza. Um é Morte em Veneza do Thomas Mann e o outro é Marca D'água de Joseph Brodsky, ambos sobre Veneza em épocas diversas.
Ando precisando de uns cinco leitores novos. Joguei a isca no encontro dos professores aqui em casa, mas o silêncio que se seguiu ao meu convite foi sepulcral.
Mas quem sabe alguém de vocês que está me lendo mora aqui perto e se interessa?
E trago um poema bem bonito de um poeta desconhecido por mim, cubano, mas que chegou às minhas mãos e olhos hoje:
Paralelos

A esta hora
todas las palomas del mundo
se posan en la plaza d San Marcos.
La niebla barre las ciudades de Occidente
y un pájaro cruza los bosques en llamas del otoño.
A esta hora
como el mar
embistiendo los flancos destrozados de la isla
mi corazón golpea.

Orlando Julián Coré Fernández

sexta-feira, 5 de dezembro de 2014

PRESENTE

Os dias são tão variados... Fico aqui, quietinha no meu canto e de repente acontece alguma coisa que muda a cor do dia.
Recebi a dissertação de Mestrado do Felipe Lacerda sobre a minha obra. Agora ele já é Mestre pela UniGranRio, falando de mim! É a segunda dissertação de mestrado sobre a minha obra.
Ele fala coisas tão belas sobre a minha poesia, tomando como partida o livro Pera, Uva ou Maçã . Diz ele que aí neste livro estão contidos todos os meus livros, pois abordo todas as temáticas que serão constantes nos meus 100 livros.
Acontece que eu escrevo um livro só, desde o primeiro. Sou Penélope tecendo poesia incessantemente. Eu não me preocupo com nada, vou escrevendo como vivo, como respiro. A poesia sai de mim naturalmente, é uma extensão de mim.Ele diz que sou uma das pioneiras, junto com Henriqueta Lisboa, Cecilia, Vinicius, José Paulo Paes e Sergio Caparelli, a fazer poesia de uma maneira diferente, não moralizadora para as crianças.. Diz que sou a única poeta que recebeu o Prêmio Odylo Costa Filho da F.N.L.I.J por quatro vezes. Diz que eu não faço concessões ao meu leitor, as minhas imagens são inesperadas e fazem o leitor pensar, pequeno ou grande. Diz que estou em terceiro lugar nas inserções de poemas em livros didáticos. E meus leitores são muitos pois quase todas as bibliotecas possuem alguns livros meus. Diz que ano que vem eu faço 35 anos de poesia e eu digo que gostaria de fazer mais 35.
E ele fala um pouco da minha poesia formando leitores.
Fico aqui quietinha na minha casa fiando e recebo um espelho assim tão generoso. Que bom.
A outra surpresa, soube agora , é que minha neta Gabriela, que acaba de fazer um ano vai fazer sua primeira apresentação em público na festa da Atrium Escola de Música, junto com os bebês da sua aula de musicalização. Ela vai dançar!!!
Aí sim, eu queria sair de casa, ir a Resende ver esta maravilha. E meu neto Luis se apresentará numa peça de teatro!!! Somos todos saltimbancos nesta família ripinica.

quinta-feira, 4 de dezembro de 2014

PROFESSORES NA VARANDA

Ontem tivemos o encontro com 30 professores da Rede Municipal de Saquarema aqui na nossa varanda.Não era dia do nosso jardineiro Samuel vir trabalhar aqui, então as professoras ajudaram a afastar a mesa, a buscar as cadeiras, a arrumar a roda bem perto do fogão de lenha. Fizemos uma roda bem apertada, todo mundo bem juntinho mesmo. A Secretaria de Educação e o Vice Secretário, Ana Paula e Valdinei vieram, ao encontro. Valdinei fotografava o tempo todo e Ana Paula participou de tudo o que propus.
Comecei pedindo que todas, e um professor, único homem, fechassem os olhos para ouvir todos os barulhos, do mar, das palmeiras, dos passarinhos, só sentindo a sua respiração. Foi bom, todas disseram.
Depois eu havia pedido que trouxessem um poema para dedicar a alguém, presente ou ausente, vivo ou habitante das estrelas. Cada uma se levantava e lia um poema. Alguns poemas eram lindíssimos, Drummond, Quintana, Clarice (não posso confirmar se os textos eram mesmo dela). Alguns poemas eram dos seus alunos e o professor leu um poema de sua autoria. Chico Peres teve dois poemas lidos e foi um dos que mereceram uma dedicatória. As homenagens eram lindas e cheias de emoção.Muita gente chorou, muita gente dedicou para quem estava presente e aí eram abraços e beijos, pura emoção.
Uma professora veio com uma camiseta dizendo:"Eu apoio a família tradicional e um desenho de pai , mãe e filhos". E atrás mensagens de Jesus.
Protestei com veemência . Eu apoio a nova família que é formada de outras maneiras e da tradicional também. E Jesus apoiava todo o underground da sua época.  Sou publicamente contra o preconceito e a intolerância.
Para terminar li meu poema Ciranda do livro Brinquedos e Brincadeiras,(ed.ftd) e cantamos a música da nossa infância Ciranda Cirandinha. Foi LINDÌSSIMO!!!!
A mesa estava farta, pães, sucos , bolos, requeijão, tudo trazido pela Secretaria. Para estes encontros dos professores dou apenas o Café com Leite.
Sobrou muita coisa e não quiseram levar de volta , então a Vanda , nossa caseira, levou para distribuir no seu bairro que se chama poeticamente de "Jardins".
Juan assistiu a tudo do meu lado e depois me disse: se fosse na Europa as professoras iriam rir de você. Não aceitariam nenhuma das propostas que você fez. É por isso que amo o Brasil.



terça-feira, 2 de dezembro de 2014

DE UM MUNDO PARA OUTRO

Ontem soube de uma pesquisa feita nos Estados Unidos comparando os jovens na década de 80 e os jovens de hoje, da geração Y. O resultado: os jovens de hoje têm menos amigos "reais", mas não se sentem sozinhos por causa dos amigos virtuais. Diz a pesquisa que na década de 80 os jovens tinham muitos amigos e se encontravam mais. Mas hoje não saem das redes sociais e estão sempre acompanhados.
Eu acho que hoje todos temos  estes dois mundos , estas duas dimensões e é maravilhoso. Saber transitar de um mundo para outro é importante. Hoje todos nós dividimos tudo com nossos "amigos", gente que conhecemos  "de verdade" e gente que conhecemos apenas através das suas histórias. Dividimos fotos,textos, experiências, passeios, dramas, tristezas, conquistas. O tempo todo estamos contando alguma coisa, falando também das nossas convicções. Este ímpeto de contar, tão humano, encontra um porto.Na história da humanidade nunca tanta gente falou tanto ao mesmo tempo. Mas de vez em quando há que deslizar deste mundo mágico para o real e abraçar de verdade, ouvir a voz, tocar, afagar.
Às vezes alguma pessoa que não conheço me conquista com a sua história e sinto muita vontade de conhecer esta pessoa. Às vezes algum amigo que estava perdido, chega novamente através de um contato virtual.
Não precisamos, como no poema Ou Isto Ou Aquilo da Cecília, escolher.Temos os dois mundos. Mas o mundo real está aqui. Ouço o mar. O vento com cheiro de algas. Vejo o flamboyant florido, uma cascata de flores vermelhas.Minha gata Luna já está ali, no meio do jardim. Na entrada da casa flores azuis. Os passarinhos e sua orquestra e os bem-te-vis contando as novidades.Daqui, de onde escrevo, vejo os telhadis das outras casas . Não sei porque sou tão apaixonada por telhados. 

segunda-feira, 1 de dezembro de 2014

CONFLITOS

Parece que o mundo inteiro está em conflito. Os números da violência no Brasil equivalem a uma guerra.
Talvez o Natal seja uma boa hora para repensarmos tantas coisas, já que Jesus trouxe uma mensagem de amor e perdão.
Já que não podemos mudar o mundo, que pelo menos em nosso entorno haja paz e harmonia.
No natal , não sei porque, as pessoas trocam presentes. Mas Jesus era extremamente pobre. Então acho que devemos escolher presentes simples e significativos. Comprar, livros, artesanato, ou mesmo fabricar com as mãos alguma coisa. E soprar amor nos presentes.
Não entendo as lojas apinhadas , pessoas como formigas ou baratas tontas obedecendo à ordem compremcompremcomprem. Temos o ano inteiro para lembrar-nos de alguém amado e escolher com calma que livro dar, que vinho , que lenço bordado à mão, que poema, que música, que toalha bem linda para cobrir o pão. E ir guardando os presentes, num lugar escondido (dentro do armário) até a data certa.

Se Jesus voltasse hoje imaginem a sua tristeza ao ver e sentir o ódio em Jerusalém.
Uma escola bilíngue onde estudam 600 crianças palestinas e israelenses, numa experiência bem sucedida de convivência entre os dois povos, foi atacada e destruída . Não posso acxreditar, neste mês de dezembro de 2014 que o ódio prevalecerá, quando todos os povos deveriam viver em paz.
Sonhar ainda é permitido. A escola bilingue era um sonho. Tomara que ela seja reconstruída para que as crianças cresçam juntas, brinquem juntas.
Somos todos humanos e mortais. Jesus aceitava os diferentes, os excluídos, mulheres, prostitutas, adúlteras, leprosos, samaritanos. Aceitar o outro, o diferente, o que não pensa como eu, aquele de outra religião, o que não sou eu, é a mensagem mais bela de Jesus, o Nazareno.
Pensar nisso é vital, pois os conflitos do mundo decorrem da não aceitação do diferente. Como alguém mata só porque o outro professa outra religião?
Acho que se Jesus chegasse hoje em Jerusalém, faria uma Ceia para que todos conversassem e quem sabe exista uma saída.
Quem sabe exista uma saída para o mundo, uma ponte para atravessar a violência, as guerras, o ódio, as desigualdades, a fome, as doenças, e lá do outro lado a gente encontre um mundo mais justo como queria e sonhava Jesus.
O Natal se aproxima.

domingo, 30 de novembro de 2014

DEZEMBRO

Amo todos os dezembros desde que nasci. Nasci num dia 27, prematura, em 1950. Certamente fazia calor em Botafogo e os flamboyants estavam por ali, incendiando o meu nascimento.e as buganvílias, tecendo guirlandas brancas, amarelas, cor de maravilha. Em dezembro os sabiás escrevem no céu lindas pautas musicais.
Quando ei nasci, este mundo que existe hoje não existia. Carrego dentro de mim a memória do meu tempo tão diferente. O corpo é pequeno para carregar tanta memória. 
Dia 27 de dezembro faço 64 anos. Pretendo passar meu aniversário com filhos e netos na minha casinha da montanha. 
Envelhecer é uma arte. O corpo se gasta, range, dói, reclama, trapaceia, mas a mente nunca para de de se expandir, a compreensão de tudo aumenta, a compaixão, a leitura do outro aumenta, o amor é como uma cachoeira incessante por tudo o que vive e também pelos nossos mortos.
O corpo a gente carrega fazendo o melhor possível. Mesmo que às vezes pareça um trem estragado. Mas a mente voa, quer saber mais, a mente a gente afia no vento, nos livros, no passado e no presente.
Estou tão feliz com a minha caminhada, o meu progresso. Sou uma pessoa bem melhor frente ao meu julgamento que é bem feroz. Já não tenho raiva de ninguém, o perdão já quase não é necessário, pois não me sinto fendida.
Farei 64 desejando fazer 65,66,67, 90! Quero ver os netos grandes. Quero aprender muitas outras línguas. Quero ler ainda muitos muitos livros e escrever, quem sabe, muitos outros poemas.

sábado, 29 de novembro de 2014

NOMES

Os nomes das cidades daqui da Região dos Lagos no Rio de Janeiro são maravilhosos, começando por Saquarema: Araruama, São Pedro da Aldeia, Arraial do Cabo, Barra de São João Rio das Ostras, Armação de Búzios.
Cidades com estes nomes tão sugestivos só podem ser belas. Conheço pouco por aqui já que não temos carro. Mas sei que aqui perto, na Serra do Mato Grosso há muita água, cachoeiras.
A Editora Moderna me pediu para ir a uma escola particular em Araruama, pois adotaram vários livros meus. Não vou a escolas particulares sem cobrar, e como geralmente não pagam, eu não vou. Mas como Araruama é aqui do lado, sugeri que eles, os alunos, um grupo pequeno, viesse gravar um vídeo comigo. Foi um encontro muito bonito, pois eram meus leitores realmente apaixonados! Uma menina leu meu livro Um Cachorro para Maya 10 vezes!!!, ela disse. Não consegue se separar do livro.
Um menino do segundo ano, a coisa mais linda do mundo, de cabelinhos crespos, acordou às cinco da manhã de ansiedade para vir aqui. Seu livro era Carona no jipe e ele também se apaixonou pelo livro perdidamente. A turma era bem colorida: uma filha de chineses, uma de olhos azuis com a melhor amiga mestiça , as duas lindas de morrer, um neto de índios sul americanos e um filho de índio brasileiro com uma loura. Falamos então sobre as diferenças, as misturas. Acho que a escola deveria ter um espelho em cada sala para trabalhar as diferenças. Falei para eles que raça não existe, somos HUMANOS COLORIDOS.
Raça é de cachorro, boxer, pastor alemão, São Bernardo, etc...
Falamos de tecnologia na escola, e foi bom. Eles eram do segundo ano, do quarto ano. Mas entenderam tudo o que discutimos.
Depois , claro, quiseram ir ao jardim buscar os jabutis e acharam os cinco! Fizemos fotos.
As crianças me beijaram, abraçaram e iluminaram a minha tarde. Fazia frio na varanda como se estivéssemos na montanha.  Eles amaram ouvir a música do mar.