quinta-feira, 31 de julho de 2014

AS ORQUÍDEAS

Nosso jardim atrás da casa, na beira do mar, desafia as leis do vento e do sal: está verde e florido, belíssimo. As orquídeas dão uma festa à parte, explodem suas formas em cascatas, não de água, mas de poesia.
O jardim da casa, cuidado pelo nosso amado Samuel, que vem com suas mão verdes duas vezes por semana, é um contraponto ao horror do mundo.
Humildemente agradeço.

quarta-feira, 30 de julho de 2014

CATÁLOGO DE BOLONHA

Cheguei ontem em Saquarema. Nana, minha gata, pulou no meu colo e não saiu mais. Luna sempre fica de mal. Só hoje recebi as correspondências em papel. A F.N.L.I.J me enviou o Catálogo de Bolonha. Fiquei então sabendo,com muito atraso, que meu livro Quem Vê Cara Não Vê Coração, ed. Callis, entrou também no Catálogo. Não fui avisada ou quem sabe fui e não me lembro. O livro é uma delícia e sempre faz a festa . Ditados populares que desconstruí e reconstrui brincando com seus sentidos.O Catálogo , embora eu nunca tenha conseguido nenhuma publicação fora do Brasil, para mim, é um grande prêmio, poucos livros de tantos publicados são selecionados e me sinto privilegiada por ter entrado com dois de poesia, além deste, também o Abecedário (Poético) de Frutas, da Ed. Rovelle.

ROUPA SUJA SE LAVA EM CASA

Nem teria graça
lavar roupa suja
no meio da rua,
no meio dos carros,
com o sinal aberto
ou fechado.
Mas em alguns lugares
ainda se lava roupa suja
nos rios
e é uma bela cena
para pintar aquarelas.
também se pode lavar
roupa suja
com água da chuva
mas é perigoso:
a roupa pode ficar
com gosto de céu.


in Quem vê cara não vê coração, ed. Callis.

segunda-feira, 28 de julho de 2014

ENCONTRO DO CLUBE DE LEITURA NA MONTANHA

Nosso encontro marcado na montanha no último sábado, dia 26 de julho, para discutir os livros Amrik de Ana Miranda e Um bonde chamado Desejo de Tenessee Williams foi envolto em frio, neblina, fogo e emoção. Primeiro chegaram Hélio e Fernando e a lareira já estava montada. Quando chegaram todos, César, Fátima, Chico, Denise, Lenivaldo e Angela  (Evelyn, minha irmã, já estava lá.) o clima era de tanto recolhimento, bem-estar, felicidade que a vontade que tínhamos era de parar o tempo. Evelyn destacou a escrita dançada de Amrik e muitos tiveram dificuldade com sua fragmentação, Fátima achou picotada demais. César navegou em suas águas com facilidade. Felipe começou o livro e não gostou e parou. A dança secreta foi avaliada: será que Amina tirou toda a sua roupa? Lenivaldo destacou a beleza do texto, sua poesia imensa e Hélio e Fernando a perfeita reconstrução histórica. Hélio também nos disse que era a história de qualquer imigrante. A dureza das viagens de navio, a chegada num país estranho, a saudade.Evelyn falou da sensualidade das comidas, dos temperos. Todos falamos da avó e da neta dançando no telhado. Fátima e Denise do espaço que a mulher podia ocupar naquela época, espaço tão restrito e da dança como porta para a liberdade. Todos dissemos o quanto Amina era livre. Lenivaldo e Hélio destacaram a beleza do personagem do tio cego que é o guia de Amina. Falou-se sobre o amor do tio, se seria incestuoso ou não. A maioria achou que não.
E o enigma: com quem ficaria Amina? Com Abraão, para quem Amina dançou a dança proibida, cujo casamento destruiu ou Chafic, o homem idealizado, o que existe e não existe?
Depois da discussão todos concordaram que o livro era belíssimo, acho que até quem não leu, como Angela, mulher de Lenivaldo ou Felipe, que não terminou.
Mas Felipe ressaltou que todos já eram leitores preparados para ler um livro fora da zona de conforto, com uma sintaxe diferente.
Pausa para o café. A lareira crepitava e uma chuvinha tornava a sala envidraçada ainda mais bela.
Então começamos a discutir Um Bonde Chamado Desejo. Felipe nos contou que foi sua primeira prova de teatro, que era seu autor preferido e nos explicou que as indicações supérfluas eram maravilhosas pois apesar de não entrarem em cena, guiavam os sentimentos do diretor. Os dois livros se tocam pois o tema, afinal é o desejo. Já começando pelo título, que na verdade era um bonde concreto que levou Blanche ao encontro da sua última destruição. Desenrolamos o livro como um maravilhoso pergaminho. César nos contou que era o primeiro livro com texto de teatro que lia e que ficou fascinado. Todos comentamos o quanto o final era duro, como era triste, ah, mas antes Felipe quase foi linchado, pois ao estilo Nelson Rodrigues disse que toda mulher gosta de um brutamontes como o Stanley! Discutimos se houve um estupro ou não e relemos o final para afirmar sim, houve, o foi o que acabou de fazer com que Blanche atravessasse o último fio que a separava da loucura. Denise, como psicóloga nos trouxe ótimas confirmações.
E deixamos marcado o próximo encontro para o dia 4 de outubro com o livro Xogum e alguns haicais japoneses ou não. Escolhi um livro daqueles, como disse o Fernando, que se atracam com o leitor, grudam em sua pele, imobilizam o leitor em sua trama.
E o grande prêmio do nosso encontro : um almoço no Babel Restaurante do meu filho André Murray, maravilha das maravilhas.

segunda-feira, 21 de julho de 2014

CAMINHO DA ROÇA

Amanhã saio de madrugadinha. Caminho da roça. Vou ao encontro da minha neta, meu neto, meus filhos e minha irmã e cunhado. Minha família. Recebo em minha casinha dentro da mata em Visconde de Mauá, o nosso Clube de Leitura da Casa Amarela! Faremos nosso encontro com a lareira acesa pois já sei que o frio é imenso!!! Vamos discutir Amrik da Ana Miranda e Um bonde chamado desejo do Tenesse Williams.
Sonho com o cheiro da mata, em Mauá assumo a minha essência de árvore .
Volto dia 30, se conseguir pescar o Wi-fi do restaurante do meu filho, o Babel, escrevo de lá.

sexta-feira, 18 de julho de 2014

MANO A MANO

 Hoje dou a voz a um corresponde do Uruguai em Israel que faz parte de um movimento de paz. É esclarecedor. São os religiosos fanáticos que estão no governo dos dois lados que não querem a paz:


Judíos y árabes, israelíes y palestinos nos negamos a ser enemigos
Hemos sido secuestrados, ambos pueblos somos rehenes de los extremistas de ambos lados

QUIQUE KIERSZENBAUM 17 JUL 2014 - 20:50 CEST5


El martes primero de julio, camino al cementerio de Modi'in, miles de israelíes acompañaban los cuerpos de los tres jóvenes secuestrados y asesinados: Gil-Ad Shaer y Naftalí Frenkel, de 16 años, y Eyal Yifrach, de 19. Después de ver las dolorosas imágenes de sus padres despidiéndolos, decidí tomarme un pequeño descanso en el trabajo.

Era el primer día de vacaciones de mi hijo y lo llevé a comprarse unas botas de fútbol como los de Neymar, Gastón Ramírez, José María Giménez y muchos más. Las noticias en nuestra casa invaden cada rincón y me esperaba una larga noche de trabajo. Él se merecía un rato conmigo y también con sus botas, dado el esfuerzo de un año de clases. Así que calculé el tiempo para poder seguir la cobertura desde la televisión y viajamos al centro de Jerusalén. Para quien no ha visitado nunca esta ciudad, el centro consiste en unas cuantas cuadras en forma de triángulo.

Con las nuevas botas en la mano marchábamos por la peatonal Ben Yehuda cuando comencé a captar a lo lejos mucho más movimiento del común: coches de la Policía, policías a caballo y muchos israelíes ultranacionalistas religiosos. Los instintos prendieron luces rojas, pero era nuestro camino.

Al llegar a la plaza Zion, nos vimos envueltos por grupos de decenas de personas, en su mayoría jóvenes, que cargaban pancartas y cantaban "muerte a los árabes" mientras marchaban camino a la ciudad vieja de Jerusalén. No era una manifestación, eran grupos de personas que coreaban sin cesar, una y otra vez, esas palabras cargadas de odio. Traté de evitarlos y cruzamos la calle pero era imposible; el fluir de la gente no cesaba. Unos entraban en negocios, buscando trabajadores palestinos, otros simplemente no paraban de cantar. Me llené de preocupación y de dolor. En las calles de Jerusalén las masas pedían venganza, querían revancha. Daba miedo.

Si bien en mi bolso cargaba con cámaras, el instinto de padre se sobrepuso al profesional. Le tomé la mano a Guil y por una calle lateral lo saqué del centro de la ciudad. Para un niño que crece con árabes en su escuela todo esto disparó miles de preguntas, algunas de las cuales no me atreví a contestar.

Mientras mi mano sostenía con fuerza la suya para transmitir seguridad, mis pensamientos volaban e intentaban interpretar como sus compañeros de clase y sus familias estarían viviendo estos momentos.

Es que mi hijo Guil va a la escuela Mano a Mano, una escuela en donde judíos y árabes estudian y crecen juntos en la ciudad de Jerusalén. Una escuela en la cual el idioma hebreo y el árabe se enseñan como primeras lenguas y además dan espacio al estudio de las culturas y las narrativas de ambos pueblos. En torno a la escuela los padres han creado una comunidad que vive, a veces, en una burbuja necesaria en una ciudad donde el fanatismo y el odio se apoderan de cada rincón.

Después del brutal asesinato de Mohammed Abu Khdeir, decidimos reunirnos, mientras las bandas de ultranacionalistas buscaban sembrar más odio y más violencia necesitábamos estar juntos. Queríamos tomar decisiones operativas, pero también dar el espacio necesario para manejar los miedos, que eran muchos. Como judío y miembro de la comunidad me es claro que el rol que tenemos en estos momentos es con nuestra presencia aliviar, aunque sea un poco, esos miedos, reforzando ese pacto que hicimos cuando decidimos que nuestro hijos crezcan juntos.

Pero las hordas violentas hacían eco de los vientos de guerra que venían del sur en Gaza, en donde una vez mas esta guerra sin fin daba otro golpe, y se apoderaban de la ciudad.

Por eso decidimos marchar juntos, retomar los espacios públicos, caminando sin banderas ni pancartas y con la convicción de que ahora más que nunca, nosotros los miembros de la comunidad Mano a Mano, judíos y árabes, israelíes y palestinos nos negamos a ser enemigos.

Ayer marchamos una vez más, mientras las noticias sobre los cuatro niños muertos en las playas de Gaza por fuego israelí congelaban el corazón y no dejaba pensar en forma clara, nosotros marchamos, porque no permitiremos que la retórica de guerra, los misiles y los cohetes, las victimas y los heridos nos transformen en enemigos. Solo conviviendo, dialogando aprendiendo uno del otro y aceptándonos podremos llegar a una verdadera paz.

Hace tiempo que se habla de una tercera intifada. Soy de los que cree que en ambos lados se ha aprendido sobre el alto precio que se paga en vidas cuando sólo las armas hablan. Sin ningún canal de diálogo, los hechos de los últimos días abren un nuevo capítulo violento que pone en peligro la frágil estabilidad de la zona.

Sin un acuerdo de paz que busque una solución justa para ambos pueblos, que les permita vivir en paz y en seguridad y que termine con la ocupación israelí en Cisjordania, la violencia volverá, siempre. Un cartel que circula en las redes sociales anuncia: "Hemos sido secuestrados, ambos pueblos somos rehenes de los extremistas de ambos lados, Israel-Palestina 2014".

Quique Kierszenbaum es fotógrafo, videógrafo y periodista uruguayo. Corresponsal de Televisión Nacional de Uruguay en Medio Oriente. Twitter @Quique_K

quinta-feira, 17 de julho de 2014

CRIANÇAS PALESTINAS

Ontem vi e ouvi crianças palestinas da Faixa de Gaza pedindo paz.
Governantes não são humanos. Matam e matam, de uma forma ou de outra, quando roubam ou desviam dinheiro ou superfaturam obras que caem, estão matando. Onde fica dentro deles o olhar para o outro, a compaixão? Onde fica o UBUNTU? Eu existo porque você existe.

quarta-feira, 16 de julho de 2014

ESPERANDO VISITA

Esta casa aberta para os ventos e o mar adora receber visitas. Este final de semana recebo uma amiga querida de Joinville, irá para o encontro do Clube de Leitura na montanha. Recebo um casal de amigos-irmãos e a casa estará lotada, cheia de vozes e histórias contadas, não ao pé do fogo, mas dentro da música do mar, que nunca se apaga.

Uma questão que nunca me sai da cabeça: como as crianças interpretam o mundo?  O que é fantasia e o que é real se misturam e para eles o mundo ainda é mágico. Falam sozinhas, interpretam personagens , gostam de se fantasiar. Sou muito privilegiada : escrevo poesia para crianças

Tomar café ainda no escuro, às 5h e ver o dia acordando neste lugar tão belo, é uma das melhores coisas da vida.

terça-feira, 15 de julho de 2014

CANAL FUTURA

Acabo de voltar da gravação do programa que vai ao ar no Canal Futura no ano que vem. É uma série de seis programas e a Roda de Leitura aconteceu na biblioteca da E.M.Gustavo Campos aqui em Saquarema. Foi um encontro maravilhoso com a meninada,pura emoção. Fizemos a Roda com meu livro Poço dos Desejos da ed. Moderna e tudo terminou com um abraço coletivo. A professora Paula faz um belo trabalho com eles , pois leram magnificamente os meus poemas.  Estou em estado de pura felicidade.

segunda-feira, 14 de julho de 2014

FINAL DA COPA-FIM DA FESTA

A Alemanha nos deixa uma linda lição: o trabalho contínuo ao longo do tempo feito com alegria. Quando levava meu filho Guga para as aulas de violão com a Celia Vaz na sua infância, na parede da sala da Celinha havia um cartaz com uma frase do Stravinsky que dizia mais ou menos assim: O talento é o exercício de um dom. A Alemanha investiu pesado na formação dos seus atletas e é isso que há que fazer com todos os esportes. Teremos as olimpíadas e vamos ver quantas medalhas de ouro o Brasil vai conseguir. Atletas no Brasil sofrem por falta de apoio. Esporte, arte e leitura salvam vidas. Meninos deixariam de entrar no tráfico por ter a vida vazia, só isso já bastaria para que o governo, como fazem na Alemanha, investisse de verdade nas escolas, numa educação que fosse bem além da sala de aula.
Eu tento formar leitores principalmente conversando com os professores. Um professor leitor irá pensar a sua aula com mais criatividade e alegria. Mas o trabalho com leitura tem que ser diário e contínuo. Acumulativo. As festas são a explosão de alegria do que foi feito ao longo do tempo.
Amanhã vou gravar para a TV Futura uma roda de leitura na E.M Gustavo Campos aqui em Saquarema. Confesso que estou um pouco assustada, pois não conheço as crianças e vamos fazer uma roda com poesia e seja o que Deus quiser. Tomara que eles façam bonito.Será tudo sem nenhum ensaio prévio, nem mesmo tive um encontro antes com eles. Haja frio na barriga!  

domingo, 13 de julho de 2014

O QUE FICA?

Depois do desastre da nossa Seleção devemos nos perguntar: O que fica desta Copa além dos estádios? E muitos nem foram terminados. Os transportes melhoraram?  O trabalhador continuará perdendo horas num ônibus cheio, num trânsito caótico, para chegar ao trabalho. Os hospitais melhoraram? Construiram novos hospitais? A educação melhorou? Os professores finalmente irão ganhar um salário digno?
Se a Seleção brasileira tivesse chegado até a final e hoje fosse a Campeã,pelo menos haveria uma felicidade coletiva correndo pelas veias do país e demoraríamos mais para nos perguntar: O que fica?
Tanto dinheiro foi gasto e tanto há para se fazer, que gastar menos bilhões para investi-los em bens de verdade teria sido muito mais razoável. Fica cada vez mais difícil sonhar com um Brasil com menos injustiça, com mais equilíbrio entre as classes sociais. 

sábado, 12 de julho de 2014

CHUVA E LUNA

Choveu a noite inteira, até dentro do meu sono. Luna, minha gata persa que já tem 14 anos, tem um apartamento fora da casa, pois não suportou a companhia da Nana, nossa gatinha branca e preta. Ela dorme fechada, pois tenho medo de gatos de fora. Ela tem a sua caminha que ama, escondida ao lado da máquina de lavar, sua comida, sua areia, é um apartamento completo no jardim.Hoje, quando abri a porta às 6 horas, chovia e ela olhou para mim, muito mau humorada e fez um discurso imenso, na verdade me deu uma bronca e tanto, como se eu fosse a responsável pelo tempo. Argumentei, mas claro, gatos não aceitam argumentos humanos. Está bem Luna, vou encomendar o sol!

sexta-feira, 11 de julho de 2014

BISTRÔ FRANCÊS

Meu filho André vai abrir um bistrô francês em Resende e tem alguns amigos franceses que dão um apoio para escolha de músicas, cartazes, etc. Fiquei tão entusiasmada que fiz um poema em francês para o bistrô . Meu francês escrito está esquecido e enferrujado, mas não sei como, as palavras chegavam. Não tenho com quem falar e ainda bem que tenho o canal francês que vejo por uma hora todos os dias religiosamente. Perder uma lingua que a gente adquiriu com estudo e esforço é muito triste e não gostaria que isso acontecesse outra vez, pois já falei hebraico fluentemente e não sei mais nem uma palavra ou apenas umas duas, eu te amo, eu sei falar. Estudei 5 anos de hebraico quando criança.
E por falar em hebraico que horror toda esta guerra. Mas por que não fazem logo um Estado Palestino, com meia Jerusalém para cada lado? Que estúpidos são os políticos que nunca quiseram a paz, dos dois lados.
Só a paz constrói e os escombros que no noticiário enchem nossos olhos são a paisagem mais estéril e aterradora.
Como judia tenho vergonha de todas estas mortes.
 

quinta-feira, 10 de julho de 2014

DUAS CASAS

Conheci Elvira Vigna na década de 70. Ela tinha alguns livros maravilhosos publicados e eu tinha um original no bolso.Ela gostou, ilustrou sem me pedir nada em troca, uma ilustração lindíssima em preto e branco e consegui publicar o Fardo de Carinho em 1980. Nesta época eu ainda morava em Visconde de Mauá.
Depois fizemos muitos livros juntas. E outros livros nos separaram. Agora voltamos a trabalhar juntas outra vez. E depois do e-book que está no meu site, veio o Carteira de Identidade e Cinco Sentidos e Outros. Agora ela faz um texto novo que sairá pela Lê Editora no ano que vem, o Duas Casas e estou radiante.
Trabalho quietinha e sem cessar. Às vezes me sinto uma aranha tecelã. Tenho sempre algo em gestação.
Sempre me perguntam: o que te inspira? Tudo. Escrevo a vida. Escrever a própria vida me ajuda a viver. 

quarta-feira, 9 de julho de 2014

CANAL FUTURA

Hoje de manhã me telefonaram da E.M Gustavo Campos daqui de Saquarema com uma linda notícia: A Escola foi muito bem avaliada no IDEB e o Canal Futura foi até lá para saber os motivos. Dentre eles, as Rodas de Leutura que eu impalntei na Escola em 2002 junto com a Secretaria de Educação. O Canal Futura quer então gravar uma Roda de Leitura e quer que eu seja o Leitor-Guia. Estou orgulhosa e radiante.
Propus meu novo livro Poço dos Desejos e se a minha ideia for aceita ficarei mais feliz ainda. A gente planta uma semente e tantos anos depois a árvore cresceu e dá frutos. Plantamos uma paineira tão pequenininha lá em Visconde de Mauá, na descida para o gramado, em 1979, eu acho. Hoje é uma árvore gigante e enche nossos olhos de flores cor-de-rosa e o gramado fica lindo, todo salpicado. Toda semente contém vida. 

segunda-feira, 7 de julho de 2014

ANJO DA GUARDA

Juan arias escreveu um livro sobre os anjos. São figuras antiquíssimas. Amo os anjos pela sua beleza, por serem alados, pela sua poesia. Acho que cada humano é o anjo de alguém. E tantas vezes, em meio a dificuldades imensas , um anjo apareceu para me ajudar. Também adoro a ideia de ter um anjo da guarda, cada humano com seu anjo.
Outro dia meu neto Luis disse que sonhou com seu anjo da guarda e que ele afastava os pesadelos.
Quando eu era criança , não gostava de comer,e tecia , na frente do prato, a fantasia de que meu anjo da guarda viria comer por mim!  
Tenho muitos limites físicos, são tremendos e me impedem de fazer as coisas mais simples. Desde 1993, quando operei a coluna e a cirurgia não deu certo, a minha vida é um aprendizado constante de lidar com os limites e a dor. Para mim os anjos são muito necessários, é uma questão de sobrevivência. Eles me ensinam que apesar de todos os limites eu posso voar .

domingo, 6 de julho de 2014

O VENTO

Em Saquarema o vento tem voz: os sinos tocam na varanda, os coqueiros e as palmeiras cantam com um som bem grave e o mar faz a base com seu vai e vem e explode ou não explode. Não tenho vontade de falar. Eu me sento na varanda e me entrego ao vento. Deixo que desarrume meus pensamentos,que me traga os cheiros do sal e da terra, dos amigos distantes.

sexta-feira, 4 de julho de 2014

ESCOLHAS

Nossa vida é um percurso sinuoso feito de escolhas e acasos, esquinas e às vezes ruas que parecem sem saída até que conseguimos abrir suas portas com um poema ou uma palavra mágica.

ESCOLHA

Como escolher o caminho
e onde passar o rio,
e o salto que nos fará
mais humanos,
mais bailarinos?

Há uma voz que diz:
Confie.

in Cinco Sentidos e Outros, ed. Lê

quinta-feira, 3 de julho de 2014

DE QUE SERVE?

De que serve o passado? Não posso ficar presa em sua teia , isso é perigosíssimo, pois me impediria de viver o presente. Mas o passado é lastro, substância, raiz, para que eu possa viver o presente e então construir um passado contínuo, já que o presente, um segundo depois já é passado.Mas desconfio que o verdadeiro passado, a verdadeira pátria seja a infância. Tenho que carregar a menina que fui com cuidado, pois nela meus sonhos já estavam embutidos, ela é um cristal e um talismã. Tenho que carregar a casa, e às vezes alguns sons são o fio que me conduz até ela, um latido de cachorros ao longe, vozes de crianças, cantigas de rodas, pois havia um orfanato em frente. E escuto as vozes e saber que isso existiu, eu estive aí por tantos anos, me forra por dentro.
Tudo o que vivi, tudo o que vivo, uso em meus poemas. Minha memória, minha vida, é a matéria prima que utilizo. Tudo o que li, tudo o que sonhei, imaginei, me ajuda a construir um poema.

quarta-feira, 2 de julho de 2014

POÇO DOS DESEJOS

Recebi meu novo livro POÇO dos DESEJOS, ed. Moderna. Somos seres desejantes. Mas possuir desejos que incluam a felicidade do outro produz mais felicidade do que desejos egoístas. É um fato comprovado pela neurociência. Li sobre a seguinte experiência: um número de pessoas recebeu uma quantidade X de dinheiro para gastar apenas consigo. Outro número de pessoas ganhou a mesma quantidade de dinheiro para gastar realizando desejos de outros, por exemplo, uma viagem a um sobrinho, um curso de línguas para um amigo, etc. A felicidade do primeiro grupo foi muito menos duradoura do que a do segundo grupo. Isso pode ser medido pelas áreas envolvidas no cérebro.
Foi maravilhoso fazer o livro. Busquei meus próprios desejos, perguntei para muita gente sobre seus desejos. Gosto das ilustrações do Samuel Casal.Já experimentei os poemas com uma turma do Café, Pão e Poesia (meu encontro com leitores de escolas públicas aqui em casa) e foi divertidíssimo, foi ótimo.
Meu amigo Maurício Leite está profundamente envolvido com o livro, pois foi quem me deu a ideia com sua exposição de brinquedos onde havia um poço dos desejos. Eu amo o Maurício, quase nunca nos vemos, mas não é necessário, há um fio azul que liga nossos corações e faz uma estrada por onde a amizade caminha.

Vai um poema do livro:
DESEJO DE SER OUTRA PESSOA
Este é um desejo bem esquisito
mas existe.
Às vezes, exausta de mim,
queria ser outra pessoa
com outro rosto, outro corpo,
mas principalmente
outros talentos.
Se não sei dançar, a outra saberia,
se não sei nadar e não toco nenhum
instrumento,
a outra saberia.
Sendo medrosa, a outra seria
corajosa,
se não sei andar de bicicleta,
a outra andaria.
Se não sei costurar nem bordar
e a minha roupa anda sempre desarrumada,
a outra seria elegante.
E de trás pra frente, de frente
pra trás,
tudo seria diferente.     

terça-feira, 1 de julho de 2014

CHEGADA

Chegar em casa é uma maravilha. A casa nos acolhe, os objetos , onde depositamos tanto amor. Nana e Luna, as gatas, me receberam emocionadas. Ainda estou gripada, muitos dias de gripe, ainda estou cansada.
Esta casa é um moinho, de ideias, de amigos, de poesia. Agora tocam a campainha, uns jornalistas espanhóis chegam para entrevistar o Juan.
A temperatura é paradisíaca, o mar está lindo. Enfim, cheguei.

sexta-feira, 27 de junho de 2014

PESSOAS NÃO HUMANAS

Quando vou acender o fogo aqui na montanha, uso jornal antigo. Tenho a mania de separar as notícias interessantes para ler. Ontem li uma matéria sobre as orcas e os golfinhos que trabalham em regime de escravidão em Parques Aquáticos da cadeia Sea World. Golfinhos e baleias são inteligentíssimos e é insuportável para qualquer pessoa de bom senso e sensibilidade participar desta crueldade. Ficam confinados num espaço exíguo fazendo sempre e sempre os mesmos movimentos para nossa diversão. Assim como os zoológicos e os aquários gigantes, deveriam ser proibidos , mas movimentam muito dinheiro, dinheiro de verdade e se não forem proibidos por lei nunca irão fechar.
Ao contrário dos japoneses, tão refinados em tantas coisas, tão delicados na sua poesia, mas que caçam e matam sem nenhum pudor estes animais, os indianos criaram um termo lindo : golfinhos e baleias são PESSOAS NÃO HUMANAS e não podem matá-los. Nossas gatas também são pessoas não humanas, entendo tudo o que falam e todas as suas expressões e quem tem cachorro sabe muito bem que eles falam claramente, há apenas que apurar o ouvido para entender as nuances. Minha gata Nana tem um miado diferente para cada coisa que deseja e a Luna, a nossa gata persa , já senhora, não mia, ela fala mesmo, felinês.
Baleias cantam, golfinhos dançam, todas as vidas não humanas se expressam (só não consigo entender os insetos, mesmo assim, quando encaro uma aranha grande e aqui há muitas, sinto que ela tem inteligência, ela me olha e arquiteta a sua fuga, tenho pavor de aranhas!)
A matéria era de fevereiro e me deixou um pouco abalada, pois não estava pensando na dor física e psicológica dos golfinhos e baleias enquanto acendia o fogo. E agora nadam na minha mente.

quinta-feira, 26 de junho de 2014

APELO POÉTICO

A E.M HERMANN MULLER, na zona rural de Joinville é a escola mais emocionante que já conheci, mostrando no pequeno como se pode transformar seres humanos e toda uma comunidade com poesia.Quando fui convidada a ir pela primeira vez até a escola, num evento maravilhoso chamado "Café, Flor e Poesia" fiquei tão impactada, parecia que todos os meus sonhos de educação estavam se concretizando ali, bem na minha frente. O mesmo sentiu Leonardo Boff quando foi visitar a escola, que aliás recebe visitas de todos os lugares e já ganhou muitos prêmios.
Silvane Silva, a Diretora, recebeu uma escola sem vida e ao longo de uns 10 anos transformou a escola, transformou seres humanos, transformou a comunidade inteira. Com poesia.
Agora recebo a notícia aterradora para quem ama educação e poesia de que Silvane será destituída do cargo.Irá para um ônibus itinerante de livros. O ônibus não precisa da Silvane, mas a Escola sim. É referência para o Brasil.   E, infelizmente, o motivo deve ser político, não vejo outro motivo.
Que os Deuses da Poesia me ajudem e quem possa ajudar , por favor, ajude.

quarta-feira, 25 de junho de 2014

ARIRANHA

Outro dia vi uma ariranha cruzar a estradinha da minha casa.Parecia um gato imenso, era linda. Hoje bem cedo, tomava café dentro de casa, as primeiras luzes começavam a acender a manhã, vi como um gato preto grande. Quando fui lá fora, havia um abacate meio comido no chão da varanda, mas o abacateiro fica longe. Perguntei ao Milton, nosso caseiro, sobre este mistério e ele disse que era coisa de ariranha. Achei que elas comiam peixe no rio, não sabia que comiam frutas.
A minha casinha só recebe o sol lá pelas 9:30h. Vim para a varanda do Babel Restaurante olhar as coisas na internet e receber o sol que aqui chega primeiro. Meu pai me contava que em sua aldeia na Polônia  o frio era terrível, a maior felicidade era um raio de sol. Vivemos num país de clima tão esplêndido e muitas vezes nem nos damos conta. Que tristeza passar frio de verdade.
Temos uma única palavra para a cor verde. E falamos suas nuances com um verde composto: verde-claro- escuro-alface-musgo verde-perto-verde-longe.  Gostaria de derramar no texto todos estes verdes que enchem meus olhos.

terça-feira, 24 de junho de 2014

FRIO

Amo o frio, mas tenho a mania, aqui em Visconde de Mauá, de acender o fogão, ficar sentada em frente ao fogo e dar um pulinho lá fora para ver a vista. Peguei então uma gripe bem forte. Preciso ficar boa, pois hoje volto para a minha casinha e lá é mais frio ainda. Estou no  Ateliê de Cerâmica da minha irmã. Soube que ontem fez 9 graus lá pra cima. Tenho dois livros imensos para ler, de uma romancista espanhola contemporânea chamada Almudena Grandes. É uma boa romancista. Literatura e fogo, não para queimar os livros!!! mas para dar um aconchego... isso é o paraíso.
Estou tão fora das atrocidades do mundo aqui na montanha... Passei dois dias com meu neto Luis em Resende e ele perguntou no café da manhã: _ Mamãe, onde eu estava antes de entrar na tua barriga? Eu o levei para brincar na pracinha em frente da Igreja do Rosário de 1825, construída pelos escravos. Eu e meu neto fomos visitar a Igreja, simples e emocionante, saber do esforço que foi despendido para levantá-la, por mãos sofridas, por corações massacrados.  Sou judia, mas Igrejas simples tocam minha alma. Um velhinho varria e logo começamos a conversar. Seu nome é Seu João e logo ficou amigo do Luis e nos mostrou as coisas dentro da Igreja que ainda eram originais.

quinta-feira, 19 de junho de 2014

INÉDITOS DE NERUDA

O jornal EL PAÍS conta que foi encontrada uma caixa com inéditos de Neruda:


“Reposa tu pura cadera y el arco de flechas mojadas
extiende en la noche los pétalos que forman tu forma"...
Ni en su madurez Pablo Neruda se olvidó del amor como refugio poético.
..."que suban tus piernas de arcilla el silencio y su clara escalera
peldaño a peldaño volando conmigo en el sueño
yo siento que asciendes entonces al árbol sombrío que canta en la sombra
Oscura es la noche del mundo sin ti amada mía,
y apenas diviso el origen, apenas comprendo el idioma,
con dificultades descifro las hojas de los eucaliptos”.
Son ocho del botín de más de mil versos de la veintena de poemas inéditos de Neruda (1904- 1973) recién descubiertos. Van 21. Y podrían ser más. Y no solo poemas, sino también algo de prosa, discursos o conferencias escritas entre 1956 y finales de los años sesenta. El hallazgo literario más importante del Nobel chileno con una gran presencia del tema amoroso y erótico. A su lado, versos sobre la naturaleza o Chile que aguardaban ser encontrados en el archivo de la Fundación Pablo Neruda, en Santiago de Chile.
Escritos muchos en el modesto y amarillento papel roneo, son poemas cortos algunos, y otros tan largos que ocupan hasta siete y nueve páginas.
Originales inéditos de Neruda, en su Fundación en Santiago de Chile.
Poemas dispersos a lo largo de más de una década que aún no se sabe por qué no entraron en los libros de la época. El anuncio lo ha hecho la editorial Seix Barral, en Barcelona, que los publicará a finales de 2014 en Latinoamérica y principios de 2015 en España bajo el título de Poemas inéditos. Pablo Neruda.
En los poemas se ve el poderío imaginativo, la desbordante plenitud expresiva y el mismo don, el apasionamiento erótico o amatorio
Versos que alumbran más zonas del universo nerudiano y lo expanden. “No son poemas cualesquiera”, afirma Pere Gimferrer, poeta y experto de Seix Barral, que ha quedado impresionado tras su lectura. Un asombro que le ha hecho decir que muestran un Neruda con “el poderío imaginativo, la desbordante plenitud expresiva y el mismo don, el apasionamiento erótico o amatorio que para la invectiva, la sátira o el mínimo detalle cotidiano convertido en poema. Es decir, por igual el Neruda de Odas elementales y el Neruda de La Barcalora, el de Memorial de Isla Negra e incluso el de Estravagario”.
Nunca dejó de lado el amor y sus laberintos ya andados, pero siempre desconocidos; como estos poemas escritos tres y cuatro décadas después de que se hiciera popular, en 1924, con Veinte poemas de amor y una canción desesperada.
El amor como compañía, refugio e inspiración tras los tiempos del exilio, del reencuentro con Chile y de su veta política. Son los años en los que ya separado de su segunda esposa conoce a Matilde Urrutia, la pasión de su vida.
El botín de inéditos estaba a una temperatura controlada en varias cajas de conservación especiales llenas de carpetas con páginas manuscritas y mecanografiadas de toda su obra. La Fundación, recuerda su director Fernando Sáez, las recibió hacia el año 1987 tras la muerte de Matilde Urrutia. Durante varios años, el material fue ordenado, clasificado, fotocopiado, escaneado y desde hace tres años revisado exhaustivamente, página a página, para cotejar qué había sido publicado y qué no.
Eso ha hecho Darío Oses, encargado de la Biblioteca de la Fundación, desde julio de 2011. Leer y expurgar hojas y hojas y hojas escritas con la letra grande y clara de Neruda, o mecanografiadas, pero corregidas con su puño y letra, hasta ir dando forma y brillo, sin buscarlo, al nuevo tesoro nerudiano. Lo que prueba, según Oses, es que “Neruda sigue siendo un poeta inagotable que siempre permite nuevas lecturas, como los clásicos”.
Fragmento inédito de neruda
"Reposa tu pura cadera y el arco de flechas mojadas
extiende en la noche los pétalos que forman tu forma
que suban tus piernas de arcilla el silencio y su clara escalera/peldaño a peldaño volando conmigo en el sueño
yo siento que asciendes entonces al árbol sombrío que canta en la sombra
Oscura es la noche del mundo sin ti amada mía,
y apenas diviso el origen, apenas comprendo el idioma,
con dificultades descifro las hojas de los eucaliptos".
El trabajo de investigación y auditoría ahora se ha repartido entre la Fundación y Seix Barral para fijar el número total de poemas y textos que el Nobel escribió y que merecen la pena publicarse. “Es un gran descubrimiento no solo por su condición de inéditos, sino también por la extrema calidad de varios poemas”, asegura Elena Ramírez, directora editorial de Seix Barral. La edición, agrega, irá acompañada de anotaciones y todas las explicaciones necesarias.
Son sus terceros inéditos que aparecen. Previamente están El río invisible (1980), que incluye poesía y prosa de juventud, y Cuadernos de Temuco (1996), poemas de adolescencia, ambos publicados por Seix Barral.
El nuevo libro coincidirá con el 110º aniversario del nacimiento de Neruda, este 12 de julio, y los 90 años de la publicación de Veinte poemas de amor y una canción desesperada.
“Con dificultades descifro las hojas de los eucaliptos”, escribió Pablo Neruda en uno de los versos que ahora ha visto la luz. Y con asombro y dificultad todos los que han leído estos 21 poemas se preguntan qué habrá sucedido para que esos mil versos se quedaran en la orilla del camino"


quarta-feira, 18 de junho de 2014

BABEL E ATRIUM

Para escrever o blog , olhar o facebook, responder minhas mensagens, fazer minha aula de italiano, tenho que vir até a varanda do Babel, um restaurante mágico e improvável, pois quando meu filho fez o restaurante na varanda da que era a minha casa de tijolinho, eu pensava: quem virá até aqui, pois já é difícil chegar a Visconde de Mauá, mas no alto do Vale do Pavão, onde a estrada é muito ruim... meu coração de mãe ficou muito assustado com um empreendimento tão louco. Mas o Babel , por sua magia, pela arte do André e da Daniela Keiko, é um grande sucesso, com pessoas que às vezes chegam de muito longe só para comer aqui com a vista estonteante do  nosso parque, da nossa mata. Agora o Babel vai abrir suas portas também em Resende, na linda casa do André, numa versão Bistrô Francês, só para almoço. Novamente meu coração de mãe bate as asas assustado, mas Resende é mais fácil do que Mauá e com suas mãos mágicas André vai encher a casa.
E meu filho músico já está com sua Escola de Música Atrium na casa nova, a casa mais bonita de Resende. Um casarão de 1910 totalmente preservado, na frente da Igreja do Rosário de 1826. A Atrium está abençoada e será uma grande aquisição para Resende, uma cidade bem pouco cultural. Também ao lado da Igreja fica a Biblioteca Municipal de Resende. Ou seja, música e livros e um Bistrô Francês.  Vibro com meus filhos artistas , torço tanto por eles!
Este sábado vou dormir com meu neto em Resende que ontem quando fui embora chorava em silêncio, os olhos vermelhos, as lágrimas escorrendo... que avó aguenta isso?   

sábado, 14 de junho de 2014

PENSAMENTOS

Aqui na montanha parece que o tempo interno e externo fluem juntos no mesmo rio. Aqui fica claro que de nada adianta querer controlar os acontecimentos que não dependem de nós. Eles acontecem, irão interferir em nossas vidas, mas temos que relaxar o corpo e navegar junto com eles.

Penso: o século XX foi terrível com duas grandes guerras. No século XXI pequenas guerras aqui e ali ,mas muitas muitas mortes e tragédias pessoais, muita fome, abandono de países inteiros. Parece que o homem precisa matar. E o advento do homem-máquina. As máquinas são agora parte de nosso corpo, uma extensão.Essa novidade deslocou os sentimentos. Parece que agora vivem na periferia do ser. Há que resgatar os sentimentos. Trazê-los novamente para o centro de nossas vidas. Não existe nada mais curativo que o amor.  

sexta-feira, 13 de junho de 2014

NA MONTANHA

Estou aqui, na varanda do Babel Restaurante do meu filho André, onde tem wi-fi.
Chegar na minha casinha em Visconde de Mauá é uma emoção tão intensa que não consigo descrever.
Tudo me acolhe. A mata me abraça e vou me dissolvendo. Faz frio e o fogo deixa a casa aquecida e perfumada. Aqui, onde não há ruas ou carros , nenhum barulho , apenas a música sem partitura da natureza, apenas existo, apenas isso. O prazer de simplesmente existir.

terça-feira, 10 de junho de 2014

MADRUGADINHA

Gosto de acordar cedo , mas hoje exagerei um pouco. Levantei às 3 horas. Não gosto de ficar na cama tentando dormir, então me levanto, faço um café dentro do silêncio espesso da casa, só a música do mar.
Hoje vou para a montanha. Lá na mata o silêncio é outro e também a escuridão.
Metade de mim é mar, metade é montanha. Vou envelhecendo devagarinho, cheia de águias e águas. E também conchas e árvores. Dá para notar na pele as camadas do que já foi vivido, as travessias. O corpo é pesado, tem raízes profundas, mas a alma é inquieta e voa, pássaro, borboleta, gaivota...

segunda-feira, 9 de junho de 2014

CAFÉ PARIS

Ontem estive com a Patricia de Arias no Salão de Leitura de Niterói, um bate-papo no Café Paris. As obras do Niemeyer são lindíssimas por fora e para mim, nada acolhedoras por dentro. O Café Paris era um espaço imenso, com uma vista espetacular, mas era frio. Não lembrava em nada um Café parisiense, hélas! O público era pequeno, pois outros eventos aconteciam no mesmo horário, mas , ao contrário da frieza do café, era um público quente. Falamos sobre a poesia dos encontros e do acaso. Patricia fez a leitura do seu novo livro Fica Comigo, da ed. Rovelle, que fala de adoção. Uma mulher deu seu testemunho como criança adotada.. Contei, não fiz a leitura, o meu conto Bertha, o encontro de uma avó com a sua neta. Lemos poemas do nosso livro Fio de Lua & Raio de Sol. Li alguns poemas do Abecedário (Poético) de Frutas. Nossa editora Carolina estava presente. Uma professora aqui de Saquarema, que amo de paixão, a Rosiléia, que faz um esplêndido trabalho de leitura, estava presente e meus amigos taxistas Arnaldo e Gisele. Meu neto fazia palhaçadas na frente do palco e subiu várias vezes para se esconder debaixo da cadeira da mãe. Criamos um clima bem informal. Depois, tudo acabado , fomos almoçar no Jambeiro. O Bruno, filho da Rosiléia, que nos ensinou o caminho, nos disse que era caro e o serviço não era bom. Mas como eu tinha uma ótima lembrança daquele lugar, fomos assim mesmo. Deveríamos ter ouvido o Bruno!  O lugar é lindo, mas a comida é caríssima e o serviço parece um filme dos Trapalhões: nada dá certo. Veio tudo errado depois de uma hora e meia de espera! Desaconselho solenemente!
E amanhã faço a minha rota Resende-Mauá. Como seria maravilhoso se houvesse um trem e se pudesse ir no vagão restaurante tomando um café e lendo. Nada de trem-bala. Um trem bem simples com um apito daqueles de mexer com o coração, um apito que falasse de encontros e saudade.
 

domingo, 8 de junho de 2014

POR ONDE ANDAMOS

Ontem havia uma pergunta maravilhosa no facebook. Dizia mais ou menos assim: Se você é leitor-a, onde estava em seu último livro?

Estive em muitos tempos e lugares desde o dia 15 de maio quando fisicamente fui para Veneza. Vejamos:
Comecei no avião com Traduzindo Hannah de Ronaldo Wrobel - é um livro muito bom sobre as "polacas". Estive na Praça Onze do Rio de Janeiro, no governo Vargas, quando ele flertava com o nazismo. Ali foi o primeiro núcleo de imigrantes judeus.
No aeroporto em Madrid comprei vários livros: Las Hijas de Zalman, de Anouk Markovits, estive na Polônia e na França, acompanhando uma família de judeus extremamente religiosos , fanáticos e a luta de uma das filhas para se libertar.  É uma história terrível e verídica. Los Bienes de Este Mundo de Irene Nemirovsky , de quem havia lido a Suíte Francesa. Ela era uma grande promessa para a literatura francesa quando a França se rendeu aos alemães no Governo de Vichy. A Suíte Francesa narra a fuga dos habitantes de Paris quando os alemães iam chegando. Ela escreve escondida, nas piores circunstâncias. Acabou morrendo em 1940 em Auschwitz. Suas filhas encontraram os manuscritos. O livro que li agora foi publicado em capítulos numa revista sob pseudônimo e começa no interior da França antes da Primeira Guerra e vai justamente até a entrada dos alemães na Segunda Guerra. É um grande, imenso romance e uma belíssima história de amor. Portanto, estive várias vezes na França em tempos diferentes.
Com El Héroe Discreto do Mario Vargas LLosa, estive no interior do Peru e nunca ri tanto.
Agora estou num Kibutz, no começo ou antes da criação do Estado de Israel, não consegui perceber, pelas mãos do Amós Oz no livro Entre Amigos. O livro é muito bom, mas Amós Oz não é bonzinho. É um livro triste sem nenhuma tragédia, apenas a dificuldade dos encontros humanos.  

E lá vou eu agora, no meu tempo físico para o Salão de Leitura de Niterói.

sábado, 7 de junho de 2014

DATAS

Acho todas as datas, disso ou daquilo bastante problemáticas. Está chegando o Dia dos Namorados e quem acabou uma relação, quem não tem namorado ou namorada fica triste demais, é injusto. Mas a gente pode ter vários tipos de namorado-a. Podemos namorar uma árvore, um livro, um momento.
De qualquer maneira para quem tem namorado ou namorada deixo um haicai que deve ser sussurrado :

                    Um beijo dourado
                    varre o corpo com luz,
                    ilumina o céu.

sexta-feira, 6 de junho de 2014

VOZES DE SAQUAREMA

Os senhores e senhoras chegaram magnificamente vestidos. De preto. A mesa já estava posta na varanda e a temperatura agradável. Eram 19.30h. A sala também estava arrumada para a Roda de Leitura.
Todos trouxeram quitutes. Eu fiz os pães, quatro. O Maestro Moisés ligava o som com o tecladista enquanto todos entraram para a leitura. Apresentei Samuel e Vanda, meus anjos da guarda, incansáveis nos meus encontros. Eles também entraram na Roda para ouvir o conto. Fui aplaudida no final da leitura. Disse  para eles que o conto foi totalmente inventado, nenhum gancho com algo que tenha acontecido na minha vida. Apenas a velha senhora, que se chama Bertha, foi inspirada na linda figura da minha mãe, doce e sensível, sempre arrumada e muito vaidosa, pois era modista.Eles haviam pedido um texto sobre memória e destino e no final da leitura todos concordamos que o destino nunca para o seu moinho e pode chegar e fazer uma reviravolta com a gente até o final da nossa vida. Li alguns poemas do meu livro Cinco Sentidos.
Então fomos para a varanda. E aí eu entrei num filme. Foi um dos acontecimentos mais esplêndidos que já vivi. O Coral Vozes de Saquarema, é um Coral da Diversidade. Gente com mais de setenta anos, uma menina bem jovem, uma travesti lindíssima, é vida borbulhando, explodindo, transformando o ar, enchendo o ar de partículas douradas. Puro sonho. O Maestro Moisés é um ILUMINADO! Vem de Cabo Frio duas vezes por semana para os ensaios, que , ele me conta, são muito mais do que ensaios, são vivências. Como perderam o espaço que tinham, agora cada vez é na casa de alguém e sempre com vinho, quitutes, festa! É a versão musical do meu Clube de Leitura da Casa Amarela. O Coral não fica quieto, todos dançam enquanto cantam,  muitos fazem lindos solos.
O Maestro me disse que a nossa casa, já era mais do que uma casa, era a CASA AMARELA , onde se faz arte.
Minha casa está aberta para os ensaios do Coral Vozes de Saquarema . E este encontro na versão adulta do Café, Pão e Texto (ao invés de café, vinho) foi para mim um momento de tanta magia, que jamais esquecerei. Minha casa ficará para sempre vibrando com a alegria dos meninos e meninas que dão uma lição ao tempo: Estamos vivos, fazemos artes, estamos aqui!    

quinta-feira, 5 de junho de 2014

ATRIUM

A Atrium, Escola de Música do meu filho Guga, se prepara para mudar de casa, pois onde está já não cabem mais alunos, instrumentos e professores. Guga conseguiu um casarão do começo do século XX no Centro Histórico de Resende e estamos todos cheios de partituras loucas no coração.
A festa de inauguração da escola será no dia 28 e claro, estarei lá . O sonho do Guga desde adolescente era ter uma Escola de Música, algo feérico e diferente. E conseguiu. Minha nora trabalha com ele e meu neto também. Com quatro anos já trabalha na aula de musicalização, ajuda a professora. Se ele não entrar na sala, ninguém quer fazer nada.

Hoje preparo a casa para receber 20 participantes do Coral Vozes de Saquarema, para o meu Projeto, Café, Pão e Poesia. Faremos uma Roda de Leitura com meu conto "Bertha" do novo livro Exercícios de Amor. Bertha era o nome da minha mãe e este conto é realmente lindo, fala sobre memória e destino, como eles pediram. Ontem, quando fui na papelaria Angel tirar as cópias, o dono, que nunca fala comigo, leu o título e me disse:
_ Bertha. Era a sua mãe. Conheci muito a sua mãe.
Uma onda de saudade me carregou para muito longe, para uma Saquarema que não existe mais, mas dentro de mim existe, agente vai envelhecendo e ficando com saudades.

quarta-feira, 4 de junho de 2014

FELICIDADE CONQUISTADA

Em sua última coluna para o seu jornal El País, Juan Arias trouxe um tema interessante. Ele diz que a felicidade é algo que temos que conquistar. E eu digo que também a alegria. Felicidade e alegria não dependem de bens materiais. Muitos ricos, muitos milionários, são extremamente infelizes. A felicidade cabe até mesmo dentro do sofrimento. Ela brota em algum recôndito lugar dentro da gente, é uma fonte invisível e quase inaudível. Nossa vocação é o sofrimento. Nascemos chorando e não rindo. Temos uma tendência horrorosa para a auto piedade . A felicidade não quer dizer alienação. Posso saber de todos os horrores do mundo, ficar aniquilada e no entanto, dentro de mim a felicidade existe e brilha porque estou viva e posso fazer alguma coisa por alguém, posso salvar até mesmo uma vida. A vida que tenho para viver é esta, o meu palco, meu camarim. É quase uma escolha. Escolho e conquisto a felicidade a cada dia e este caminho passa pelo auto conhecimento , pela expansão do olhar, pela compaixão, pelo exercício da generosidade e do desprendimento. Pelo exercício diário da poesia que existe em todas as coisas e habita o ar.

terça-feira, 3 de junho de 2014

TRINTA PROFESSORAS

Hoje, às 8.45 recebi 30 professoras e 1 professor para um encontro de leitura aqui em casa pelas mãos do Valdinei da Secretaria de Educação de Saquarema. Eu não queria fazer uma Roda de Leitura, queria algo diferente. Então, por milagre, ao abrir o facebook antes do encontro, dei de cara com um texto do escritor Jura Arruda sobre uma visita que fez à E.M Hermann Muller. Era o que eu precisava.
Foi um encontro de trocas de experiências com leitura, algumas histórias tão emocionantes, que muita gente chorou.
A Professora Angela, da E.M Ozires criou um Clube de Leitura com os alunos, o Cleo, um sucesso absoluto já em seu terceiro ano.Outra escola cujo nome, infelizmente agora não lembro, inspirada no Cleo também criou seu próprio Clube e as escolas se visitam!!!
Combinei com a Secretaria que este seria o nosso grupo até o final do ano, sempre o mesmo . O nosso espaço será um espaço de construção com leitura: de ousadia, liberdade , desobediência , criação.
A Secretaria trouxe pão, manteiga, bolos, sucos. Eu dei o café com leite.
Na hora da despedida, abraços , beijos e um gosto imenso de "que bom!"  "quero mais!" 

segunda-feira, 2 de junho de 2014

UM GALO

Acordei muito cedo, às 4h. Um galo invisível já preparava a garganta e dentro de pouco começaria a cantar. Fiz o café, um silêncio bom e espesso me acolhia e uma chuva fina lá fora. Fiz arroz e feijão. Li um pouco. Pensei nos muitos afazeres de uma segunda-feira que traz de volta o moinho da minha vida. As viagens são um intervalo entre as notas musicais do nosso cotidiano.
Amanhã recebo as 40 professoras. Quinta-feira o Coral do Maestro Moisés. Domingo falo em Niterói. E depois vou para a minha casinha da montanha para estar com os filhos e os netos. Respiro a primeira luz.O galo canta. A manhã se faz.

domingo, 1 de junho de 2014

O QUE TROUXE DE VENEZA

O som dos sinos, de hora em hora,
partindo o tempo
como as gôndolas partem a água,
e as gaivotas o céu .
Os gritos dos gondoleiros.
Os passos pelas ruas, ruelas, praças,
masculino-feminino-masculino-feminino,
os cheiros que sobem pelas
 paredes descascadas,
os cheiros acumulados pelo tempo,
a babel de linguas, as palavras
estrangeiras
se engancham em nosso corpo,
a língua mais cantada que falada.
As pontes onde tantos se debruçam
para abraçar o sol e as sombras. 


quarta-feira, 28 de maio de 2014

MERCADO DE PEIXES

Indo por Rialto se chega ao Mercado de Peixes. Tentamos ir por dentro, pelas ruelas e às vezes entramos num beco sem saída. Os "Sottoportegos", passagens cobertas, escuras, me levam para a Idade Média, devia ser apavorante passar por estes lugares.
Restaurantes lindos, lojas maravilhosas, em Veneza a beleza é rainha.  O Mercado de Peixes deve ser muito antigo, pois há uma inscrição na pedra, na entrada, dizendo o nome dos peixes que podiam ser vendidos e o tamanho.
Os peixes são arrumados como joias delicadas, todos os mariscos, peixes grandes também, uma espécie de lagosta negra, lulas pequenas, polvos , o mar inteiro aí representado . Uma placa dizia: "atum belíssimo". Um trio tocava, violão, violino e acordeão. Enquanto tocavam um peixeiro dava um gole num cálice de vinho tinto que estava apoiado num banquinho atrás do balcão. Jogamos uma moeda no chapéu dos músicos num intervalo e perguntei de onde eram. Napolitanos.
Do lado de fora do mercado , o outro mercado, de frutas e verduras enchem os olhos de cores.
Fomos para o Campo S. Polo caminhando labirinticamente. É uma praça maravilhosa, imensa, com uma Igreja que começou a ser construída no século IX. Nos sentamos num banco. O banco ao lado do nosso estava vazio até que chegou um velhinho que quase não conseguia andar. Sua neta era seu anjo da guarda. Como cuidava do avô, com que desvelo. Outros velhos iam chegando e paravam um pouco para conversar com eles. A certa altura o avô deve ter se queixado de frio ou do vento, pois o banco estava na sombra. A neta ajudou o avô a se levantar e puxou o banco para o sol. Os bancos não estão fixados no chão.
Quando fomos embora eles ainda continuaram sentados conversando.
Trocamos o almoço pelo jantar na Taberna S.Maurizio.  O restaurante estava lotado e nos sentamos ao lado (quer dizer, colados) de um casal que falava uma língua estranha, que não identifiquei. Dividimos de entrada uma salada grega , o queijo feta é uma maravilha, e pedimos um risoto de frutos do mar, que é para dois. O casal quase bateu palmas e perguntei se queriam provar. Começamos a conversar e eram holandeses. Lindos e apaixonados. Depois de meia jarra de vinho da casa eu já falava inglês fluentemente!
Aqui o serviço de meteorologia também erra, como no Brasil.. Anunciavam chuva para às 8h e o tempo está lindo.    

terça-feira, 27 de maio de 2014

MENDIGAS

Ao lado das Igrejas onde há mais fluxo de gente, as mendigas sentam-se no chão, com suas saias imensas, com o corpo torcido, com o torso quase encostado no chão, um copinho ao lado para as moedas e uma voz enjoada pedindo esmola.
Ontem depois de muitas escadas e pontes e vistas estonteantes pela Veneza de dentro, nos sentamos na praça S.Margarita , linda de morrer, com seus restaurantes e barraquinhas de frutas. Ao meu lado havia um senhor lendo um jornal e fumando cachimbo, mas no banco ainda cabia uma pessoa. Então veio a mendiga, andando firmemente, sem problema nenhum, sentou-se para fumar um cigarro e tirou um celular moderníssimo, do bolso? da saia? não vi, e ficou olhando as mensagens. Depois saiu dali toda faceira e voltou provavelmente para o seu "trabalho". Não sei sua nacionalidade.
Na praça que fica perto da Universidade Fosca, há um desfile de italianas, italianos, jovens e velhos, tão bem vestidos todos que poderiam estar numa passarela. Ontem de manhã o tempo estava nublado e algumas mulheres levavam guarda-chuvas, mas não qualquer um. Se a bolsa era verde o guarda-chuva era verde. Se o sapato era azul , o guarda-chuva era azul. Um senhor vinha andando com um paletó marrom com um friso verde na manga (no punho) e um lenço verde no bolso, como se usava antigamente. Os italianos e italianas, de qualquer idade, saem vestidos como para um encontro amoroso com a rua.
Finalmente consegui conversar com um africano sem ter que comprar uma bolsa. Perguntei a ele de onde era, de Dakar, respondeu , então eu disse, você se sente triste em Veneza, longe do Senegal? E ele me respondeu: -Muito triste, é muito duro viver aqui. Perguntei se todos os africanos tinham um único distribuidor de bolsas e ele não quis responder. Contei a ele que conheço Dakar e ele me disse: _Então Madame, leve uma bolsa! Mas as bolsas, para o meu gosto são horrorosas! Saí andando com seu olhar triste dentro de mim.
Voltamos ao nosso restaurante preferido, a taberna bem simples S.Maurizio, onde os garçons Lorenzo , albanês e Paolo, italiano, ficaram nossos amigos e fazem a maior festa quando chegamos. A comida é simples e simplesmente maravilhosa e o vinho da casa também, se eu ficasse aqui mais 15 dias poderia entrar num quadro do Botero e ninguém ia reparar a diferença.
Eles trabalham duro. Paolo prometeu ao Juan uma ricota fresca feita por seu cunhado. Nós os convidamos para passar férias em Saquarema. A seleção musical é ótima, jazz principalmente, mas Lorenzo disse que detesta.
E lá vamos nós outra vez para a rua.
    

segunda-feira, 26 de maio de 2014

VELHOS E VELHAS

Gosto de ver as velhas e os velhos nas praças. Elas, arrumadíssimas, com o bom gosto italiano e eles também. Gosto de vê-los subindo e descendo as intermináveis escadas, às vezes com a ajuda de uma bengala, mas sem desistir. Seu exemplo me deu tanta força que caminho horas sem me deixar vencer pela coluna que dói. Velhas bem velhas trabalham nas lojas na Veneza de dentro. Sentam nos restaurantes sozinhas e sozinhos. Às vezes andam em grupos de amigos e amigas conversando.
Falar a palavra velho ficou proibido.Mas eu acho a palavra linda. Uma pessoa velha é a que já viveu muito e acumulou experiência, sabedoria e se for leitora, está cheia de livros por dentro. Os velhos e velhas de Veneza não moram numa cidade fácil. Há que domar distâncias e escadarias. Imagino que os prédios antigos não tenham elevadores. Os supermercados não entregam as compras em casa. Aqui os velhos precisam ser auto suficientes para sobreviver.
Tenho 63 anos e se tiver sorte quero ficar bem velha como uma bela árvore velha. Quero que meus filhos, netos e amigos encontrem sombra e histórias ao meu lado. Não tento disfarçar a minha idade, é um privilégio viver. Sou testemunha de um tempo que já não existe e isso não se compra. Tenho lucidez para tentar entender o tempo complicadíssimo em que vivo e que ainda é o meu tempo.
Ontem caminhávamos por dentro de Rialto e paramos olhando para um lado e outro para decidir se íamos para a esquerda ou direita. Uma velha parou e nos perguntou se estávamos perdidos. Respondemos que adorávamos estar perdidos. Ela riu e falou: isso é maravilhoso, é assim que se deve viajar.
Ainda não sabemos por onde vamos nos perder hoje. Abro as janelas e vejo que choveu um pouco à noite e refrescou. Um absurdo o calor que fez até agora e em maio!
Ontem, dentro de Rialto encontramos um restaurante maravilhoso, o Vecio Fritolin da Irina. A Irina estava lá e nos atendeu de um jeito bem carinhoso e enquanto comíamos chegaram uns japoneses de uma revista para fazer uma reportagem. O Chef, que havia trabalhado no Japão, apareceu e explicava os pratos que eram fotografados. Tudo quase em silêncio , com muita delicadeza. A comida era tão boa que antes de ir embora dei um beijo em Irina.

domingo, 25 de maio de 2014

GIUDECCA E A SENHORA FRANCA

Não se sabe muito bem a origem do nome Giudecca, que está logo ali, do outro lado e tem a vista mais linda do mundo , porque se vê o Palácio Ducal. Foi um bairro de má fama, um bairro operário, de mulheres de "má vida" e havia uma prisão. Hoje é um bairro lindo, pacato, com um ou dois turistas. Sair de São Marcos num sábado com milhares de pessoas despejadas pelos cruzeiros era como abrir a porta de um paraíso. Na Giudecca havia o maior moinho da Europa antes da Segunda Guerra. Depois foi abandonado e agora é um hotel.
Andamos por dentro e era tão bonito, simples, os jardins meio abandonados mas cheios de rosas, porque é primavera.
Almoçamos no calçadão num restaurante de comida verdadeiramente veneziana e recomendo com fervor: Trattoria Al Cacciatori, Giudecca 320. Na mesa ao nosso lado uma senhora comia sozinha. Começou perguntando se nosso prato era bom. E então começou a falar e não parou mais. Contou toda a história do bairro, pois é uma apaixonada pela Giudecca e leva quem quiser para conhecer tudo e de graça. Nos contou que é divorciada, sua filha mora em Londres e para não se sentir sozinha faz em casa uma pensão com café da manhã. Está super feliz com este arranjo, conhece gente do mundo inteiro. A única condição que impõe aos seus hóspedes é que amem os gatos, pois tem dois. E nos diz: O mundo se divide em quem ama e não ama os gatos. A Senhora Franca nos conta que é jornalista e escreve sobre os barcos. Não entendi esta parte muito bem. Mas perguntamos porque Veneza recebe estes cruzeiros monumentais e despeja milhares de turistas numa cidade que é toda ela uma relíquia delicada ? Ela nos diz que é uma máfia composta de políticos e donos de restaurantes e quem se opõe corre o risco de ser assassinado. Ela nos diz que sua família é oriunda da Sicília e que a máfia de antigamente é brinquedo de criança. Agora todo o governo , todo o poder é uma máfia.
Quem quiser ficar hospedado na Giudecca onde praticamente não há turistas, seu endereço para contato é B&B Giudecca Bella e seu telefone é 0039 3331147390. Mas o vaporetto para S.Marcos é caro: 14 euros por pessoa ida e volta. De qualquer maneira não vale a pena vir a Veneza no fim de semana.
Hoje, domingo , é a votação para o Parlamento Europeu e a abstinência será muito grande. A União Europeia corre muito risco no futuro. O ódio aos imigrantes cresce. O ódio aos judeus cresce. A União Europeia é sobretudo uma garantia para a paz. Há um movimento para acabar com as fronteiras livres. É assustador. Por isso no Brasil temos que lutar por uma educação de muita qualidade, mas sem jogar ninguém contra ninguém. A civilização se constrói com paz.
   

sábado, 24 de maio de 2014

OS AFRICANOS E AS BOLSAS

Os africanos são lindíssimos. Altos, quase azuis de tão negros, sempre com suas bolsas falsas, nos lugares estratégicos. De repente pegam as bolsas e saem rápido para outro lugar. Às vezes estão em frente mesmo da loja Louis Vuitton, penso que pode ser que estas marcas caríssimas de bolsas também fabriquem as bolsas falsas e assim vendem as verdadeiras e as outras. Se bem que as verdadeiras não custam menos de 3.000 euros. Não sei o preço das falsas, não posso perguntar, pois então os vendedores não me deixariam ir embora sem uma delas. Na verdade tenho tanta pena dos africanos longe de suas casas , de sua família, que compraria todas para ver um sorriso em seus rostos. Onde moram?De que país vieram?
Ontem, além de ver São Marcos às 6h da manhã sem ninguém, fomos à noite e não há nada mais belo, mais alucinante, mais feérico. Os grupos já partiram. Na praça estão apenas os que dormem em Veneza, numa praça tão imensa não são tantos. O Palazzo Ducale iluminado, a Igreja iluminada, as orquestras tocando, andando alguns passos, as gôndolas dormindo coberta,s com os fantasmas de Veneza bem acomodados dentro delas, dá vontade de gritar e gritar e gritar de maravilhamento. Ou dançar até gastar os pés. Finalmente fazia um pouco de frio, pois pela primeira vez à tarde choveu um pouco.Desde que chegamos faz um calor imenso.
Hoje vamos para a Giudecca. 

sexta-feira, 23 de maio de 2014

LABIRINTO

Veneza é um labirinto, um novelo de ruas, canais e ruelas que vão se abrindo, se estreitando, ruazinhas sem saídas, becos, um novelo feito de tempo e história, seus fios sobem pelas paredes, pelas escadas e vão nos "desguiando", pois basta um nada para que já não se saiba mais onde se está, já não se encontre o que se queria encontrar. Esta é a maior beleza daqui, sempre há algo novo para ver, mesmo que se viva aqui para sempre.
Ontem saímos para Fondamenta Nuove outra vez e sem querer nos perdemos totalmente e fomos passando por lugares lindíssimos que não conhecíamos. Paramos no Campoi S.Apostoli , perto da Ferrovia para descansar um pouco.Antes passamos por uma padaria tão fantástica que não resistimos e compramos um pão preto. A padaria se chama Colussi e funciona na mesma família desde 1840.
Na praça convivem todos os tipos de comércio, a Osteria Dal Riccio Peoco ao lado de uma loja de artigos fúnebres, morte e vida se entrelaçando. Não é preciso dizer que em cada praça há uma Igreja lindíssima.
Na Calle Dei Proverbi demos de cara com um Hotel saído das 1001 noites: Hotel Giorgione, entramos para ver e seu fausto é inimaginável. Data do final do século XVIII e sempre com a mesma família.
Já em Fondamenta Nuove, no Campiello Stella, damos com uma banca de peixe. Os peixes são arrumados como jóias, intercalados com frutas e flores e cestos cheios de concha e estralas do mar, como decoração.
Conseguimos encontrar o Restaurante Bocca D'Oro e era meio dia em ponto. Uma profusão de sinos. O restaurante é muito simples Na pracinha Campiello Widmann , antigamente se chamava Biri. Mas para nós tem um encanto especial. Por aí quase não passam turistas. Faço uma brincadeira comigo mesmo, que meu neto faz, se chama vejo-vejo. O que vejo? Casas desgastadas e um prédio lindíssimo, todo restaurado, de cinco andares. Vejo uma turma de estudantes pequenos com suas professoras, vejo um pedreiro com telhas nos ombros, uma criança de patinete e sua mãe vai puxando o patinete com uma cordinha, que ideia ótima!
Sentados, esperávamos o dono do restaurante,ele chega, abre os braços e nos acolhe com alegria depois de ter se esquecido de nossa reserva no sábado passado. Ele nos aconselha "un vino strepitoso!" O adjetivo estrepitoso me deixou encantada.
Aí sentados, tentamos adivinhar o enredo das coisas. Chega um casal com três garrafas de vinho , uma aberta, o casal senta com as garrafas sobre a mesa e pensamos: Que estranho, vão tomar todo este vinho?
Serão produtores de vinho? Ela fala com o proprietário e tento entender. Sim, é isso, ela fala da sua paixão pela terra e tenta vender o vinho, o proprietário prova, chama a sua mulher que prova e o Juan fala com eles dizendo que temos um filho Chef e então colocam novas taças na nossa mesa e provamos também , sua vinícola é da Toscana e logo ela se interessa em vender o vinho para o meu filho e diz que vende para o Brasil , visita o Brasil uma vez por ano. Anoto para ela o site do restaurante do meu filho. Ficamos todos amigos.
Voltando passamos pelo Campo N.S.Dei Miracoli e agradeço o milagre de estar conseguindo andar tanto .É tudo muito autêntico, a léguas de distância dos pontos turísticos. É uma Veneza real, com seus velhinhos, estudantes, gente que vive aqui e não é fácil viver aqui, imagino Veneza no inverno...
Hoje fomos bem cedinho a S.Marcos. Seis horas da manhã e ninguém, ninguém, apenas os varredores com suas vassouras grandes de bruxa, as gôndolas ainda cobertas e uma modelo no meio da praça , toda de negro, com uma fotógrafa. Elas falavam russo.   

quinta-feira, 22 de maio de 2014

FÁBRICA DE GÔNDOLAS

Ontem saímos ao Deus Dará por dentro da Accademia. Ao passar pela Porte S.Trovaso, como por um passe de mágica ou milagre, os turistas desaparecem.  Juan entra numa linda loja de doces e compra uma preciosa caixinha de balas. Espero na porta e ele sai maravilhado, com cara de menino travesso.
De repente, ao começarmos a atravessar uma ponte, a surpresa: do outro lado funciona a fábrica de gôndola. Em 1980 Juan fez uma grande reportagem aí para seu jornal e me conta: para construir uma gôndola são necessárias 8 espécies de madeira, as madeiras com mais ou menos 14 metros e a menor 8 cm. Dependendo do lugar da gôndola variam a espessura e a dureza da madeira. Elas são trabalhadas com fogo. Nesta fábrica também se reformam as gôndolas velhas.No momento em que chegamos puxavam uma gôndola da água para dentro do galpão, seis homens faziam força.
Chegamos no calçadão Zattere Al ponte Longo, maravilhoso, de onde se avista na outra margem a Giudecca. Seus palácios são soberbos e flores e flores e flores: é primavera e uma primavera calorenta e seca. Trouxemos casacos em vão. Dormimos com a janela aberta! Ontem deve ter feito uns 30 graus.
Chegamos ao Campazzo S.Sebastian. Ninguém. Sem lojas. Numa casa há uma placa. Leio:
LIVIO PODACATHARO , nobre de Chipre, Bispo humanista , viveu e morreu nesta casa em 1556.
No Campo de L'Anzolo Rafael há um restaurante mínimo. Paramos para um vinho. A mulher que nos atende é muito antipática, mas eu pergunto se anzolo é anjo e ela me diz que sim, em veneziano. Realmente, no Campo ao lado , em seu poço, há um alto relevo com um anjo belíssimo. Numa ruela, em um muro, uma pichação: "turistas fora do nosso quarteirão".
Incrível, numa casa ouvem rádio e está tocando uma música do Jorge Ben. Este bairro se chama Dorsoduro e há algumas placas que dizem " Dentro Venezia". Mas não adianta, os turistas ficam mesmo em S.Marcos, Rialto, Accademia. Para nossa sorte.
Chegamos ao Campo S.Margaritta, lindíssimo, com suas barracas de legumes, verduras e frutas e a Igreja com uma exposição dos artefatos do Leonardo Da Vinci que vimos da última vez que viemos aqui. Seus restaurantes são lindos. Na volta vi um cabeleireiro e num impulso decidi cortar bem curto o cabelo. Perguntei o preço e era viável, não era mais caro que no Brasil. Está tão curto que nem me reconheço, mas é ótimo, não dá trabalho nenhum.
Almoçamos na nossa taberna preferida, a S.Maurizio, os restaurantes fecham às 15hs e só reabrem às 18hs. Os garçons já são nossos amigos e ontem conversamos muito com um deles. É albanês. Mora em Mestre. Trabalha 12 horas. Saiu muito jovem de uma Albânia destruída pelo comunismo. Quando volta, de férias, para estar com a família, já se sente estrangeiro. E na Itália também se sente estrangeiro. Ele diz, mas se aprende a viver assim, sempre deslocado. Como uma pasta maravilhosa (já marquei uma nutricionista para a minha volta, pois pareço a personagem do livro Comer, Rezar e Amar, só fica faltando o quesito rezar, mas conjugo o verbo comer com uma verdadeira sem cerimônia). Juan pede um tiramisú para minha desgraça, pois não resisto de jeito nenhum e se ele não for rápido, como o tiramisú inteiro.
Hoje voltaremos a Fondamenta Nove, mas passearemos do outro lado. Vamos em busca do nosso almoço frustrado do outro dia. Amanhã conto tudo.

quarta-feira, 21 de maio de 2014

BURANO

Imaginem um quadro primitivo, com suas casinhas coloridas, pequenas, cheias de flores, um canal no meio, pontes pequeninas, de sonho, assim é Burano. Pegamos um traghetto em S.Marcos, e do alto da escadaria, antes da Ponte dos Suspiros , se via uma avalanche de gente chegando, nunca vi nada igual, centenas ou milhares de pessoas, uma massa que se movia sob a batuta de um maestro imaginário, sempre em frente, sempre em frente. Não sei como Veneza pode suportar tanta gente, é um crime. São grupos imensos que vão passando, passando, sem ver nada.
Em Fondamenta Nove trocamos de barco e descemos em Murano. Como da última vez passamos um dia inteiro em Murano, desta vez demos apenas uma volta. Entramos em algumas lojas que são como galerias de arte, com coleções de um único artista, bem autorais. Numa delas, tudo era em preto e branco, espetacular. Havia um elefante tão maravilhoso, de vidro fosco, nem parecia vidro, parecia isso sim, vivo. Eu queria o elefante com todo o meu coração, mas talvez custasse menos um elefante de verdade: 8.000 euros! Quem pode comprar? Juan me diz, ora, os políticos brasileiros, os da máfia russa e etc, etc. Não seres mortais comuns, como nós e meus leitores.
Fomos então para Burano, nosso destino. Burano é uma ilha tão pequena que cabe na palma da mão. Suas casinhas nos convidam: fiquem aqui!!! Numa porta estava escrito: "Albergue.Aqui sobra amor e paciência. Os netos não pagam e são mimados de graça". Tocamos a campainha entusiasmados, pois em Burano não há hotéis e descobrimos um albergue. Uma senhora veio atender e perguntamos: _Aqui é um Albergue? E
 ela respondeu, não, não, isso é uma brincadeira! Mas soubemos que alugam casas, entramos numa lojinha que vendia casinhas de Burano de madeira e Juan queria uma para pendurar no nosso estúdio. O próprio artista atendia e ele alugava o segundo andar da casa. Desnecessário dizer que já fazíamos planos de passar uma temporada aí, nossos planos são muito econômicos , pois depois de algumas horas já mudamos de ideia.
Almoçamos num restaurante maravilhoso, Riva Rosa, o próprio dono nos atendia e conversamos muito. Ele nos diz que em Burano nada acontece , não há violência nem problemas, então eles inventam problemas, já que o homem, para ser humano, tem que estar insatisfeito. Dividimos de entrada uma pasta com lula em sua tinta e uma "fritada veneziana" que são vários frutos do mar empanados, inclusive ostra! Biscoitos típicos com café. Uma garrafa inteira de um vinho fantástico e no caminho para o barco compramos frutas frescas para a noite. Na Europa não se pode tocar nas frutas, isso é horrível, pois temos uma ligação sensual com as frutas, nós brasileiros. Precisamos tocar, apalpar, cheirar, antes de comer. Compramos pêssegos, cerejas e morangos. Foi nosso jantar no quarto do hotel, depois que chegamos, exaustos, já não dava mais vontade de sair.
Burano, a cidade das rendas, acho que já não fabrica rendas. As que vemos , já não são fabricadas pelas senhoras que vimos em suas casas trabalhando com a porta aberta , há apenas dois anos atrás. Talvez venham da China, ou são fabricadas em algum lugar por mulheres do terceiro mundo, exploradas. As lojas agora vendem de tudo e não só rendas. Até as máscaras de carnaval. Vimos muitas muitas casas à venda.
A nossa lucidez vê o sonho e o que está atrás do sonho, debaixo da cama, o que não nos impede de viver o sonho. Burano é linda de morrer e já queríamos comprar uma casa e nos mudarmos para lá! 

terça-feira, 20 de maio de 2014

ACCADEMIA

Ontem fomos para a Accademia, uma das vistas mais bonitas do Canal é de cima de sua ponte de degraus de madeira. Começamos pelo Campo S.Vio onde há uma igrejinha mínima bizantina, estava fechada, mas há um lindo Jesus em cima da porta, um Jesus bizantino. E então começam as ruas de galerias de arte, as lojas de murano. Aqui é a Fondamenta Ospedaleto.
Chegamos no Museu Guggenheim. Na primeira sala o coração já dispara: um móbile imenso e maravilhoso do Calder, Picasso, uma escultura do Giacometi. Na segunda sala Miró, Max Ernst, e vamos seguindo, Magritte , Ives Tanguy. Uma sala inteira só para Jackson Pollock. Esculturas do Calder, Georges Braque. E então Chagall, que é minha grande paixão, seu quadro La Pluie. E depois De Chirico, Kandisky, Paul Klee!
Umas trinta crianças de boné amarelo, da idade do meu neto, com as professoras e cordas dos dois lados (elas dentro) entram para ver as obras. Com quatro ou cinco anos já vão aos museus. Meu neto Luis adora ver pinturas e sobretudo esculturas. Para, examina, comenta.
Foi tão emocionante ver todas estas maravilhas ao mesmo tempo! O século XX inteiro estava ali.
Depois entramos na Igreja.N.S.de La Salute, acho que é esse o nome, e lá estavam os grandes Tiziani e etc, que são pinturas maravilhosas mas não me emocionam.
Em Rio Terá S.Vio, as janelas dos pequenos prédios explodiam de cores, gerânios, vermelhos, brancos, rosa e as roupas bem lavadinhas cantando ao vento. No Brasil escondemos os varais como se fosse feio expor nossas roupas.
Uma velha toda de negra olha imóvel pela janela, parece uma estátua.
E terminamos numa trattoria bem pequenininha, toda de madeira, com uma comida esplêndida, perto do nosso hotel e ainda por cima com um bom preço. Comemos um risoto com frutos do mar que aqui são mínimos , com um sabor tão delicado, uma perfeição . Sempre vinho da casa, são ótimos.À noite voltamos, os garçons nos reconheceram e eu já consigo pedir as coisas em italiano e também perguntar. Faço as aulas no meu curso on line todos os dias e fico prestando atenção nas conversas dos italianos e já entendo tudo ou quase! Amo esta Babel de línguas. Por que falamos línguas tão diferentes ? Fui num sebo comprar alguma coisa em italiano para ler mas não achei nada que me interessasse. Mas hoje li um pouco do jornal , o mundo continua horroroso, mas Veneza continua belíssima, tudo em seu lugar.   

segunda-feira, 19 de maio de 2014

LUVAS

O caminho para a nossa infância pode passar por um som, um cheiro, um rosto levemente familiar na multidão ou por uma loja de luvas. Explico: Quando era criança minha mãe, modista, fazia vestidos de festa, maravilhosos como os da Pele de Asno. Bordados com pedrarias, eu a acompanhava à casa da bordadeira, Dona Lili. Depois de prontos ela escolhia para cada vestido um par de luvas macias , delicadas ao toque como seda. Ontem, ao nos dirigirmos para Fondamenta Nove, tínhamos que passar por Rialto, pelo meio da multidão. Uma loja colada na outra, colada na outra... Num dos Campos, na frente de uma Igreja, um coral de homens e mulheres vestidos de negro, com um Maestro entusiasmado, cantava canções italianas. Paramos para ouvir. Do Rialto , segue-se sempre em frente. Mas antes de sairmos dali, uma loja só de luvas, inteira, com centenas delas cobrindo a vitrine, me fez parar, e trouxe aqueles dias de volta, dos vestidos de festa que minha mãe preparava para suas freguesas. Vestidos de princesa ou rainha, eu pensava.
De repente, em dois minutos, ao chegar no território de Fondamenta Nova, a multidão desapareceu num piscar de olhos e só havia silêncio, as pontes, um casal aqui e ali e chegamos no Campo Santa Maria Nova, uma praça linda cheia de bancos vermelhos e com venezianos de verdade! com suas crianças, velhinhas, cachorros. Alguns restaurantes bem típicos, pessoas conversando sem pressa, lojas sem nenhuma pretensão, lojas de fantasias para o carnaval.
Chegamos no Campiello Widmann, nossa meta era encontrar um restaurante onde comemos uma comida totalmente inesquecível, em nossa última estadia em Veneza dois anos atrás. Pois demos de cara com o restaurante Ostaria Boccadori. O dono era o mesmo, claro, aqui poucas coisas mudam e queríamos comer tarde , mas ele disse que fechava às 14h e teríamos que chegar às 13.30h. Então fomos caminhar por este bairro simples e lindo, suas pontes , uma gôndola deu um susto num barco e o gondoleiro gritou OI... que é o grito deles. Nunca andei de gôndola  e esta é a quarta vez que venho aqui, elas são insuportavelmente caras.
Encontramos um ateliê lindíssimo de pinturas em espelho. E além de vender os espelhos de todos os tamanhos , dá vontade de levar algum para casa, você pode fazer o seu desenho e imprimir ali na hora. O ateliê se chama Fallani Venezia e o artista estava presente.
Passamos por um convento de Jesuítas que virou Fundação Cultural.O que adoro: os prédios que se debruçam na água com um varal de roupas coloridas.
Voltamos ao restaurante na hora marcada. Não havia lugar, apesar da nossa reserva, ele havia se esquecido da gente! Ficamos de voltar outro dia, ele fez uma cara triste e voltamos para procurar um restaurante onde também havíamos comido antes, o Al Conte Pescaor, um restaurante antiquíssimo, perto de São Marcos. Bem simples. Não fui nada criativa e escolhi outra vez um spaghetti al pomodoro. E já que estou todo o tempo exercitando  o pecado da gula, comi uma trufa afogada no café.
Hoje vamos ao Gugenheim.

domingo, 18 de maio de 2014

OS PASSOS

Antes de sair do nosso Campo Santa Maria Del Giglio entramos em sua Igreja, lindíssima. Cada ponte é um quadro vivo e há que parar em cada uma, os prédios dançam na água e lá,onde o olhar já não pode passar, eles desaparecem numa curva. No caminho para o Campo S,Maurizio entramos numa Galeria de Arte para ver uma exposição de fotos feitas pelo bailarino Michail Barishnikov. Não se sabe se são fotos ou pinturas, todas de danças pelo mundo.Muito bonitas. Na Contin Galleria, sua dona nos conta que ele tem uma Fundação e todo o dinheiro é para ajudar jovens artistas de qualquer área, não só da dança.
Ao chegar a S.Maurizio, há uma exposição grátis, dentro de sua Igreja,.de Instrumentos musicais ao longo do tempo. Instrumentos de corda. Ao som de Vivaldi, alaúdes, violas d'amore, da gamba, violinos, cellos, alaúdes e outros instrumentos que eu não conhecia, exóticos, guardados em vitrines, exibem suas datas: 1600, o cello mais antigo e assim até chegar ao século XX.
Até chegar ao Campo S.Stefano, vamos namorando suas lojas de pão. Os pães são arrumados de tal maneira que queremos comer todos. Ao passar por uma linda trattoria uma moça que limpava seus vidros nos escuta falar e toda feliz diz que é brasileira de São Luis e vive em Veneza há doze anos. Fazemos uma reserva para a noite, a trattoria é muito charmosa e perto do nosso hotel.
Vamos andando, parando em cada ponte para suspirar, absorver a água, as casas  e há uma linda placa numa casa que diz que Francesco Querim foi sepultado no Polo, sob a neve. Não há data mas pelo brasão Juan me diz que foi na Idade Média. Uma rua se chama Piscina S.Samuele. Fico curiosa: por que piscina? Pergunto a um garçom que arruma as mesas na calçada e ele nos diz que no passado ali havia um reservatório de água.
Na calle del Postrin crianças venezianas brincam na porta de suas casas, cachorros alegres vão chegando, querem brincar também.
Em Veneza se pode ouvir os passos. No silêncio das ruas de dentro eles pontuam a manhã. Passos e sinos.
Nas ruas de dentro as pessoas falam baixo. E as roupas penduradas nas janelas das casas cor de terra nos falam das vidas que se desdobram dentro delas.
E me apaixono pelos nomes das ruas: Ramo Narisi, Calle Pesaro,Rio Terrá de La Mandola, Barbarigo, Rio Terrá Dei assassini... Pergunto a Juan porque será que se chama aterro dos assassinos esta ruela e ele me diz que talvez ali, naquele beco, ladrões antigamente assassinavam pessoas, mas agora , ainda bem, a rua é de livrarias. Uma ruela: Campiello novo o dei morti.
Depois de duas horas de caminhada paramos para um vinho e soam os sinos das 12 horas. A Igreja de San Stefano , onde estamos, é de 1643.Ali  o bar era turístico demais e não comemos nada, mas ao voltar a caminhar, comemos um pedaço de pizza de uma pizzaria que é apenas uma portinha e tem a melhor pizza de Veneza. Nos sentamos na beira de um poço. Fazia muito sol e tudo era bom.
À noite voltamos para a Trattoria Dei. Fiore e Araci nos recebeu com seu lindo sorriso.
Pedimos de entrada o que não havia no cardápio: flores de abobrinha  e polenta grelhada. A polenta de Veneza é branca. Meia jarra de vinho do Vêneto, umas torradas maravilhosas com azeite e uns pães recheados de azeitona. Comi uma pasta bem simples, com molho de tomate fresco e manjericão, a massa feita na casa, ou melhor, no céu.
E voltamos por uma Veneza que se apagava, a água escura, os barcos e as gôndolas dormindo.
Ainda não fui a São Marcos , nem a Accademia, nem a Rialto. Esperamos passar o final de semana quando haverá menos gente.
Hoje vamos para Fondamenta Nuove.

sábado, 17 de maio de 2014

SANTA MARIA DEL GIGLIO

Levamos 24 horas para chegar até a Praça Santa Maria del Giglio, aqui em Veneza, onde nos hospedamos. Era fim de tarde e a praça estava quase vazia. Nosso quarto dá para a praça que recebe seu nome da Igreja. Deitei no chão e fechei os olhos para ouvir os sons. Logo começaram os sinos e fiquei cheia de sinos.
Fomos jantar num restaurante lindo na praça, o Il Giglio. Pedimos vinho da casa , salada Caprese e sopa de abóbora. Havia uma mesa cheia de russos barulhentos, e alegres. Felizmente foram embora e poucos casais pontuavam a sala tão simples e linda. Acordo, abro a janela e a praça está aí, diante dos meus olhos, desde tanto tanto tempo. Juan saiu cedo para caminhar sozinho. Depois tomaremos café e vamos para a rua sem nenhum plano, nenhum mapa. Vamos andar o que meu corpo permitir, quando não aguentar mais, tomamos um vaporetto. É nosso primeiro dia.