quarta-feira, 22 de outubro de 2014

TEMPO ESCURO

Não gosto de falar de política. Mas o tempo está escuro . Um ex presidente não pode chamar a oposição de nazista. Numa democracia não se extermina a oposição, ela é um contrapeso. Numa democracia as pessoas discutem ideias. Tampouco jornalistas devem ser ameaçados com nome e tudo. Não importa quem ganhe, o Brasil é grande demais e não cabe numa fórmula ou numa receita. O Brasil é vivo, se move, cria, expõe suas maravilhas e suas mazelas.E se expande e é colorido e espero que saiba conservar as suas liberdades : de pensar e de poder dizer o que pensa. Não importa quem ganhe , o que deveria acontecer seria um projeto conjunto para um mundo novo. Extrema qualidade no ensino para que os que possuem menos possam chegar até onde sua mente quiser chegar. É tão triste esta divisão entre pobres e ricos!  Educação maravilhosa , criativa e plena para todos, com arte, muita arte, quem cria produz felicidade e bem estar para si e para outros. Esta seria a revolução. Como disse Malala, ao invés de armas, LIVROS. Ao invés de sangue, ódio, novas ideias para que possamos enfrentar juntos o horror climático que está chegando de repente.  Para que possamos juntos proteger nossas florestas, reflorestar ao invés de destruir, explorar novas formas de energia, de construir a paz e o entendimento entre todos.
Que o tempo se encha de luz e poesia. Não odeio ninguém. Tenho amigos de todos os matizes políticos e jamais os atacaria por não concordar com as suas ideias. Por que não podemos todos juntos construir um Brasil magnífico para todos?

terça-feira, 21 de outubro de 2014

EM CASA

Já em casa, depois da cirurgia de artroplastia total, cheia de restrições físicas, deixo que o mar desmanche a atmosfera de ódio que flutua pelo ar, nas vésperas das eleições, do clima tão difícil do nós contra eles. O Brasil está dividido , metade vota de um jeito, metade de outro. Uma margem muito pequena de votos dará a vitória a um dos dois candidatos. O Brasil está dividido eleitoralmente, mas o Brasil é um só. E possui o povo mais lindo do mundo.
Quando vinha domingo na ambulância que me trouxe para casa, a enfermeira que me acompanhava, chamada Lara, me contava a sua luta diária para salvar vida. A sua paixão pelo outro , sem se interessar em saber se quem está precisando de ajuda vota neste ou aquele me deixou sem fôlego. Não foi possível para ela cursar medicina mas ama o que faz, é técnica em enfermagem, ela ama, me diz em sua linguagem , "a vida na pista". Não tem hora para comer ou ir ao banheiro. Mas tem um sorriso imenso no rosto. Sua paixão é a mitologia grega. Não perguntei em quem vota. Não me interessa. Cada um que vote de acordo com as suas ideias, crenças e convicções. Lara, técnica em enfermagem, mulher linda, amorosa, brasileira, me representa. Eu a convidei para almoçar com o motorista, mas o trabalho não permite. Aceitou ir ao banheiro e aceitou uma fruta. Eu agradeci tanto as suas histórias que apesar de terríveis eram tão humanas. Ela me agradeceu a fruta. Numa pequena viagem nossos corações se tocaram. O Brasil está dividido mas é um só. Abaixo o ódio e viva o amor!
Recomendo com muita força o filme que vi ontem, Bistrot Romantique, filme belga falado em flamengo. Que maravilha . 

domingo, 12 de outubro de 2014

DIA DA CRIANÇA

Para o Dia das Crianças tenho um único desejo, imenso: que as crianças no mundo inteiro possam ter infância.

PROCURA-SE ALGUM LUGAR DO PLANETA
onde a vida seja sempre uma festa
onde o homem não mate nem bicho nem homem
e deixe em paz
as árvores na floresta.

Procura-se algum lugar no planeta
onde a vida seja sempre uma dança
e mesmo as pessoas mais graves
tenham no rosto um olhar de criança.

in Classificados Poéticos, ed. Moderna

Escrevi este livro 1983 e foi publicado em 84 pela ed. Miguilim com ilustrações da Paula Saldanha.
Este poema não poderia ser mais atual. Feliz Dia das Crianças para nós adultos que levamos a nossa criança dentro da alma e temos que alimentá-la diariamente com poesia, beleza, imaginação e sonhos.

sábado, 11 de outubro de 2014

UTOPIA

A minha utopia: Uma reforma política radical. Vereadores trabalhariam de graça , já que podem exercer suas próprias atividades além do trabalho de vereador. Seria uma honra trabalhar como voluntário em prol de sua cidade. Não teriam nem carro nem motorista e apenas um secretário. Que economia!!!
Deputados estaduais e federais ganhariam o mesmo que um professor universitário. Não há nenhum motivo para ganhar mais do que isso. Se não morassem em Brasília receberiam ajuda para aluguel ou um apartamento funcional.Não ganhariam nem carro nem motorista.O mesmo para Senadores e Juízes, Desembargadores, etc.A economia seria brutal, mas o melhor é que veríamos gente com vontade mesmo de fazer um Brasil espetacular, pois não estariam no cargo por benefícios impressionantes e imunidade parlamentar.
Ministros poderiam ganhar dobrado mas teriam que ser excelências em suas áreas. Haveria um Conselho de Historiadores, Urbanistas, Paisagistas, Educadores, e gente que fosse o supra sumo em tecnologia para ajudar na governança com opiniões criativas para a mudança que precisamos ter nas megalópoles. O Conselho trabalharia gratuitamente em prol do seu país. E por aí vai...
Quem faria esta reforma? 

sexta-feira, 10 de outubro de 2014

MALALA E KAILASH

Liberdade e paz são duas palavras que se amam, que se tocam e se interpenetram. Os talibãs que suprimem as liberdades com violência e guerra, com suas terríveis imposições, proíbem as meninas de estudar no Paquistão, no Afeganistão, por onde passam. Para eles a única verdade está num único livro e as mulheres desde crianças não podiam estudar . Mas na sua aldeia, lá no Paquistão , a voz de uma menina se levantou para protestar. Ela tinha onze anos e quase pagou com a vida a sua luta pelo direito das meninas de ter acesso ao estudo. Levou um tiro na cabeça mas sobreviveu .
Kailash na Índia, sem armas, luta pelos direitos das crianças. Crianças em países pobres são exploradas, não possuem infância e por trabalhar não podem estudar.
Malala Yousatzay e Kailash Satyarthi dividem o Prêmio Nobel da Paz deste ano. A luta deles, sem armas, pela Educação, pela Liberdade, pela Paz, e pelos Direitos das Crianças é um chamado. É poesia, é música.

quinta-feira, 9 de outubro de 2014

AMIZADE

Um dos mais lindos mistérios da vida é a amizade verdadeira, a que não pede nada, apenas aceita e acolhe.
A amizade verdadeira não quer transformar ou converter o amigo, quer apenas ficar junto e ouvir e dividir com o amigo o que tem e quer somar. A amizade verdadeira independe de diferenças culturais, religiosas, sexuais.
E o que gera este sentimento tão maravilhoso? O que faz com que uma pessoa fale diretamente com a alma da gente? Não sabemos. É este o mistério.
Mesmo as "pessoas não humanas" têm suas preferências. E suas amizades verdadeiras que podem ser de outras espécies.
Em horas difíceis o amigo está junto. E basta a sua presença para que tudo fique melhor.
Os amigos são anjos disfarçados. E podem ficar muito tempo distantes, pois quando voltam, o tempo transcorrido não existiu. É tudo hoje.

quarta-feira, 8 de outubro de 2014

UM AMOR TARDIO

Devo dizer que não sou apaixonada pelos contos do Borges, mas completamente apaixonada pela sua poesia, maravilhosa, musical, bela bela bela.
Ontem li um artigo do Vargas Llosa no El País falando do amor de Borges pela Maria Kodama e as viagens alucinadas que os dois fizeram, em balão, barco, trens, andaram por desertos, mares e ar. Vargas Llosa fala dos desamores de Borges, amores nunca correspondidos e do amor correspondido pela sua linda aluna Maria Kodama. Eu desconfiava de que os unia um amor verdadeiro, pela literatura sim , mas também de um pelo outro.
Quando Borges morreu, Maria Kodama foi "desconstruída" na linguagem em voga nestes tempos de guerra  eleitoral. Foram cruéis com ela. Foi chamada de oportunista, interesseira e etc. Mas Juan, meu marido, os encontrou juntos  na Riva Degli Schiavoni, em Veneza e ele falava poemas em voz alta, ali, à noite, sem plateia. Borges cego, com oitenta e tantos anos e ela jovem e bela. Se isto não é amor, qual o nome deste maravilhoso sentimento? E a intimidade que os unia?
Há um poema que adoro e que é a prova deste amor tardio de Borges pela Maria Kodama, que ouvi na plateia do CCBB, levada pelas mãos da Suzana Vargas, se não estou enganada. Ela ficou responsável por sua obra, além de herdeira.
Eis o poema:
LA LUNA
              A Maria Kodama

Hay tanta soledad en ese oro.
La luna de las noches no es la luna
Que vio el primer Adán. Los Largos siglos
De la vigília humana la han colmado
De antiguo llanto. Mírala. Es tu espejo.

terça-feira, 7 de outubro de 2014

TEIA

Desde 1993 quando fiz uma cirurgia de hérnia de disco na coluna que na opinião do médico deu certo, mas pelos estragos que as sequelas fizeram na minha vida, digo que deu errado, aprendi a conviver com a dor. Ela envelheceu comigo mas não perdeu o seu fôlego. Minha vida foi e é pautada por limites, isso posso, aquilo não posso fazer. Agora a situação piorou muito e farei uma cirurgia dia 14, uma artroplastia, colocarei uma prótese no quadril direito. Torçam por mim.
As dores não me impedem de encontrar um grão de alegria onde estiver e buscar todos dias alegria dentro de mim. Acredito que poderei votar no segundo turno, mesmo que de cadeira de rodas. O voto é um dever para quem quer mudar alguma coisa em nosso país. Votar nulo ou branco é cruzar os braços, ficar de costas. Os clichês que vieram do século XX estão velhos. A "esquerda" faz acordos com a "direita" e vice-versa. O que deve existir é outra maneira de governar . Um país que funcione buscando o bem estar de todos, nos serviços que são essenciais. A campanha foi horrenda, esperemos que agora seja uma campanha de programas. Uma exibição de programas. Cada um melhor que o outro e que o eleitor possa escolher o melhor programa.
Tivemos tantas e milhares de guerras desde sempre. A nossa guerra interna deveria ser uma busca do melhor de nós. Acolher o outro e não destrui-lo.

domingo, 5 de outubro de 2014

SENHORITA BRILL

Ontem, em nossa reunião do Clube de Leitura Amarela, apenas uma pessoa, o César, leu o livro Xogum até o final. Eu já sabia, por isso escolhi um conto maravilhoso da escritora Khaterine Mansfield, e começamos com uma Roda de Leitura. Eu fui a leitora-guia e dei o melhor de mim, pois o conto Senhorita Brill é uma obra-prima , uma joia. A Senhorita Brill todos os domingos vai ao Parque ouvir uma orquestra tocar. Desta vez ela vai com sua estola de pele, imagino que de raposa, e ela dá vida ao bichinho morto e todos disseram que há uma transferência clara, a pele é ela, que vive sozinha num quarto que é como um armário , mas aos domingos no parque vive as vidas dos outros pelos pedaços de conversas que ouve, e ela se sente atriz participando, como disse Maria Clara, do teatro do mundo. Até que... será que eu conto o final?
Não vou contar. Deixo vocês, meus leitores buscarem o conto para saber do esplêndido e inesperado final.

Depois falamos do Xogum, discutimos o livro numa discussão inédita: Só um o leu inteiro, outros leram 50% , outros um pedacinho e resenhas... Mas a discussão foi ótima, falamos da vida e da morte, dos samurais e dos Senhores e da poesia e dos jardins e do amor entre o Anjin-san e da Mariko. Chico prometeu terminar o livro e Maria Clara também.No final Maria Clara, que deu uma aula sobre esta forma de poesia e Hélio trouxeram haicais belíssimos do Bashô e outros mestres japoneses. Chico e Maria Clara leram haicais de sua autoria. 
Aline, Vanda e Samuel, nossos caseiros e sua filha, participaram de toda a Roda de Leitura e das discussões. Temos duas pessoas novas, Celmar, minha professora de italiano e Sonia que me trouxe uma mandala lindíssima de presente.

Fazia muito frio e sudoeste e tivemos que votar pra saber se comíamos fora ou dentro. A votação foi meio truncada e finalmente comemos fora. Mas a sobremesa foi dentro: uma torta-bolo de aniversário para Aline, Vanda e Chico que fizeram anos recentemente. Angela trouxe vários presentes para todos. Ela sorteou um livro e o Chico ganhou numa concurso meio truncado também. Chico o doou para a outra Angela levar para a biblioteca da E.M Ozíres e eu pedi emprestado pois é sobre os colegas de classe da Anne Frank e fiquei muito interessada.
Sonia trouxe uma mousse maravilhosa de abacaxi e Hélio e Fernando trouxeram de presente de Burano dois lindos panos bordados e um queijo parmeggiano para Juan. Foi dia de presentes, César trouxe para o almoço vinho tinto e branco.
O próximo encontro será no dia 6 de dezembro às 10hs na minha casa e o livro será A PONTE INVISÍVEL de Julie Orringer .

sexta-feira, 3 de outubro de 2014

O MAR

O mar, às 5h da manhã, negro e violento . A Igreja toda iluminada de rosa em cima do seu morrinho. O sudoeste hoje é a voz do mar. Estou viva e a vida é um presente todas as manhãs.

quinta-feira, 2 de outubro de 2014

BOBO DA CORTE

Na Idade Média a função dos Bobos da Corte era divertir a plateia, mas também era o único que podia falar as verdades para o Rei. Hoje, os Marqueteiros são Bobos da Corte às avessas, pois da verdade não se sente nem o cheiro. Ensinam os candidatos a mentir, a ser o que não são, criam "personas" tão bem feitas que talvez os próprias candidatos acreditem na criação dos marqueteiros. Considero a figuras destes titereiros absolutamente macabras. A um candidato ordena que sorria, o outro que esbraveje, a um terceiro que implante cabelos, a um quarto que ponha botox, a um quinto que diga absolutamente o oposto do que pensa, a um sexto que se transforme num religioso com fervor quando na verdade é ateu...
Se cada um dissesse apenas o que pensa e quais são os seus planos para um Brasil mais justo e melhor, se cada um dissesse e prometesse apenas o que sabe que vai poder cumprir, se cada um se comprometesse a cumprir metas em relação aos transportes, saúde e educação...
Mas o que vemos é guerra, ataques furiosos, mentiras, mentiras, mentiras.
Que todos nós pensemos no bem de todos para votar. E no bem do planeta.Eu sou eu e o outro. Eu sou eu e o diferente. Eu sou eu e toda a vida que me cerca. Para cada árvore derrubada alguma nascente pode secar. Que eu nunca me esqueça que eu sou eu mas sou também tudo o que é vivo na Terra.

quarta-feira, 1 de outubro de 2014

CLUBES DE LEITURA EM SAQUAREMA

Ontem fui participante de uma cerimônia linda: o segundo aniversário do CLEO, Clube de Leitura da E.M.Ozires. Aconteceu na Confederação de vôlei, em seu auditório. Até a Prefeita Franciane estava presente. O Clube já transborda para outras escolas e o  conseguiu aulas de música, artesanato e teatro. Todos estes professores trabalham na escola voluntariamente. Que outras escolas consigam voluntários, já que é claro como água que o governo não pode dar tudo.A Professora Angela, que é do nosso Clube de Leitura da Casa Amarela, está fazendo um trabalho tão lindo e conseguindo coisas inéditas, escolas se visitando! que é o que deveria acontecer mesmo. E as crianças do Clube são também agentes de leitura com a sua linda Bolsa Cleo, uma bolsa onde carregam livros e leem para outras crianças. Criaram o Corredor de Livros para aqueles que não entram na Sala de Leitura. Os livros ficam nos corredores, do lado de fora. Comemorar 2 anos de um Clube de Leitura com uma cerimônia cheia de rituais, uma peça de teatro baseada na própria história do Clube e com a presença de autoridades é um feito. Grande Professora Angela, e Diretora e outros professores cúmplices . É a confirmação de que uma pessoa cheia de sonhos pode mudar, com a ajuda de outras, uma comunidade inteira.

terça-feira, 30 de setembro de 2014

CONFEDERAÇÃO DO VÔLEI

Hoje vou assistir a uma comemoração da Sala de Leitura da E.M Ozires na Confederação do Volei aqui em Saquarema.
É um lugar belíssimo, grandes atletas, os maiores do vôlei treinam ali.
Mas a Confederação não dialoga com a cidade, embora o terreno tenha sido doado. Não são buscados entre os melhores alunos, como prêmio, futuros atletas para um time mirim. A cidade não é convidada para eventos no local, salvo quando alguma coisa é feita pelos vereadores.
Pensem bem, nada na nossa sociedade dialoga com nada. Os políticos só se acusam, não dialogam entre si por um país melhor. Até dentro do próprio partido. Nossa Presidenta prega um diálogo com o Estado Islâmico mas quer destruir os adversários e não dialogar. Os colégios não dialogam com outros colégios, a sociedade não dialoga com a cidade, num silêncio estarrecedor, embora tenhamos que conviver com tanto barulho. Os ônibus não dialogam com seus usuários, são surdos a qualquer crítica ou protesto.
Para aguentar eu tento viver uma vida paralela de poesia e beleza. Acendo o fogão de lenha para que perfume a casa e cozinhe lentamente o feijão. O mar me oferece a sua música. E a gente vai vivendo.

segunda-feira, 29 de setembro de 2014

LIVRO NOVO

Acho que hoje termino um novo livro, parceria com Cláudia Simões para a ed. Rovelle. Faltam apenas dois poemas mas me sentarei na frente do mar e os poemas serão escritos pelo mar, certamente. Já estão escritos dentro de mim!
O que gostaria de fazer para festejar? Estar com meus netos, filhos, irmã, amigos num almoço maravilhoso!
O livro sairá, disse a Rovelle , no início de 2015.

domingo, 28 de setembro de 2014

NA CROÁCIA

Ontem vi um documentário sobre a Croácia na TV5, francesa. Era maravilhoso, duas horas de deslumbramento.
Um senhor, numa ilha pequena nos conta: um milionário chegou ali e lhe ofereceu três milhões de euros pela propriedade e ele recusou.
Seu avô trabalhava num barco a remo vendendo frutas e legumes. Ele continuou com o pequeno supermercado flutuante e agora seu filho leva os produtos numa pequena barca a motor. O jovem é muito feliz. Os barcos dos turistas são seus clientes e ele tem consciência de que continua uma tradição da família. Ele ama o que faz, ama o mar e a beleza única das ilhas.
Seu pai diz: O que eu faria com três milhões de euros? Compraria um apartamento? Viveria numa cidade?
Recusei.

sábado, 27 de setembro de 2014

ENCONTROS

O que ganho com os encontros do Clube de Leitura da Casa Amarela, além de amigos, amor e quem sabe novos leitores apaixonados? Ganho um presente inesperado: em Saquarema os Clubes de Leitura se multiplicam nas escolas onde antes não existiam. A E.M Ozires fará uma festa para comemorar o aniversário do seu Clube e é responsável pela formação de muitos e muitos jovens leitores.
O que ganho com os encontros que faço aqui na minha na minha casa com escolas públicas ? Ganho a felicidade de dar felicidade por algumas horas ,mas ganho também a associação entre leitura e horas felizes e nas escolas este casamento precisa existir.

Pela primeira vez em 3 anos no meu Clube de Leitura muitos não conseguiram acabar o livro Xogum, pois tem 1000 páginas e uma letra bem pequena. Sou apaixonada por este livro e o li pela terceira vez. Para escolher um livro vasculho a memória, leio livros indicados, indico livros consagrados e até best-sellers quando são bons. Nosso encontro será no dia 4, algumas pessoas não poderão vir, mas teremos outras novas.

Amo Saquarema, é uma cidade lindíssima, mar,lagoa,montanha. Gosto de me sentar no Marisco, um bar-restaurante quando saio do Pilates âs 9h da manhã para tomar um café sentada olhando a lagoa e as pessoas. A esta hora a cidade está bem calma, quase parada.É um quadro e estou dentro dele. Fazer parte da cidade é maravilhoso. Muita gente me conhece aqui e ali. É bom, me sinto querida. Me perguntam: _ Você é a escritora?

sexta-feira, 26 de setembro de 2014

CORRESPONDÊNCIA

Meu neto de cinco anos recebeu a sua primeira carta . Enviei meu livro Carona no Jipe que ele não tinha, com um bilhete. O carteiro tocou a campainha e mandou chamá-lo. Meu filho me contou que ele foi ao portão receber a carta e ficou louco de alegria.A sua segunda carta foi um pano lindamente pointado e bordado que ganhei de uma escola para ele pendurar em seu quarto. E a sua terceira carta ainda está a caminho : é o livro Fazer um Bem,ed. Nova Fronteira da Bia Bedran com autógrafo da Bia e lindas ilustrações da Sandra Ronca. Eu me apaixonei pelo livro. A Bia fala em seu poema"fazer um bem" e não fazer O BEM. Se a gente fizer "um bem" bem pequenininho ajuda o mundo a mudar. Deveríamos colar esta frase na porta da geladeira. Não tenho o livro aqui comigo, mas ela fala algo assim como fazer um bem a alguém, fazer um bem ao rio, ao céu...  Se cada ser humano fizesse um bem todos os dias os dias estariam mais limpos. Agradeço a Bia por um livro tão lindo, e o seu poema é também uma canção. O livro vem com uma partitura. Meu neto receberá a sua terceira carta e ficará maravilhado. Eu amo o maravilhamento das crianças.
Ontem recebi uma turma de jovens pela primeira vez e me apaixonei por cada um: são pessoas lindas que carregam um bem no coração. Ganhei ontem de volta a jovem que fui, isso estava escrito no olhar deles, quem eu fui. Ontem tive a prova concreta de que uma professora pode ser o mel que faz a liga entre todos. Adelaide e seus meninos e meninas são o mais vivo exemplo do que pode fazer um professor apenas com amor e palavras. Só havia carinho e bem estar entre eles. Eles cuidam dela e a chamam pelo nome.   

quinta-feira, 25 de setembro de 2014

COM OS ADOLESCENTES

Para fechar o mês de setembro recebi a última escola dentro do Projeto Café, Pão e Texto. A E.E.Oliveira Viana de Bacaxá, Saquarema. Eram alunos do último ano do Ensino Médio, tinham entre 17 e 19 anos.
A Professora Adelaide, amorosa ao extremo, é amada e respeitada. Foi um encontro emocionante.
Falamos sobre todos os temas possíveis. Eles contaram o que queriam, os sonhos, desejos, aptidões. Eu contei bastante da minha vida. Tudo entrelaçado com meus poemas. Perguntei se tinham abertura para conversar e pensar na sala de aula e me disseram que sim, com a Professora Adelaide, a quem chamam pelo nome.
São carinhosos uns com os outros, uma delícia! O pior da escola , eles contaram, é que alguns professores simplesmente não vão, não aparecem. E quem quer passar no Enem, tem que dar um jeito por fora da escola. Todos disseram que querem trabalhar no que amam, mesmo que isso não dê muito dinheiro. Um depoimento lindo foi o de um jovem que quer ser bombeiro, ele quer dar esta felicidade aos pais , ele disse que quer que os pais, tão pobres, tenham orgulho dele.Muitos escrevem, adoram escrever e é uma turma leitora. Vitor, um menino que quer ser jornalista, disse que um leitor é aquele que é modificado pelo texto. Uma menina linda (não lembro do nome) que quer fazer psicologia, disse que quando lê mergulha tão intensamente no texto que os personagens passam a fazer parte da sua vida para sempre. Ela escreve crônicas do cotidiano.
Eram jovens atentos e antenados com o mundo. Perguntei o que mais desejam os jovens e muitos disseram: liberdade. Um outro disse que um jovem quer experimentar coisas novas, um jovem quer viver e experimentar tudo.
Quando a conversa terminou e enquanto tomávamos o café da manhã alguns quiseram manusear meus livros. A professora Adelaide me segredou que muitos já se diziam inspirados para escrever a partir do encontro.
No portão fui abraçada e beijada por todos, cada um, meninas e meninos e me agradeceram a manhã tão boa.    E eu agradeço mais ainda .

quarta-feira, 24 de setembro de 2014

PELE DE ASNO

Nosso Café da Manhã Literário com os Professores e Diretores de Saquarema e a presença da Secretária de Educação Ana Paula e a Vice Secretária de Educação Beth, foi caloroso, cheio de discussões, verdades e segredos. O vento na varanda era tão forte e frio que tivemos que nos apertar na sala. Comecei contando o conto Pele de Asno do Perrault para discutirmos sexualidade na escola, como abordar tema tão vasto, íntimo e delicado, urgentíssimo, já que em Saquarema temos meninas de 13 anos engravidando? Propus a literatura sempre como o estopim para a discussão.
Todos de olhos fechados, eu contei o conto maravilhoso que fala da passagem da menina para mulher, de como a menina tem que simbolicamente matar a mãe, o desejo incestuoso do pai, a presença de uma terceira pessoa para ajudar, a fada madrinha, todos os sacrifícios pelos quais a menina tem que passar, a busca da identidade (o que existe debaixo da pele) e o final feliz. Algumas professoras sugeriram colocar na sala uma caixa de segredos onde os alunos possam depositar seus segredos e depois a professora lê e se for o caso, encaminha para a Secretaria de Educação ou para o Conselho Tutelar. É uma ótima ideia.
Depois discutimos um artigo maravilhoso sobre educação que era o resumo de um Simpósio Internacional realizado pelo jornal O Globo. Todas as professoras  saíram daqui com o título de Maestras dos Saberes .
Discutiu-se cada item junto com Ana Paula, a Secretária de Educação, que participou como se fosse professora e esteve todo o tempo aberta para ouvir críticas, pedidos, dar sugestões.
Falou-se muito sobre Bullying e li o livro Fazer um Bem da Bia Bedran que é belíssimo. Fazer um bem para ocupar o lugar do mal. Fabricar afeto na turma. Quem ama não maltrata, não humilha.
Por último li meu conto Margarida, do livro Exercícios de Amor, da Lê Ed., a história de uma avó que conta para a neta um segredo do seu passado (um aborto). Gostaram tanto do conto que espontaneamente bateram palmas!
Depois fomos para a mesa do café e insisti muito no quanto a comida gera amor entre os que estão participando. E abraços.
Este espaço para que os professores se encontrem, possam conversar com a Secretária de Educação, possam discutir questões difíceis da  escola com literatura, é importantíssimo.
E para mim são momentos da mais absoluta felicidade.

terça-feira, 23 de setembro de 2014

PATY E DESDOBRAMENTOS

Em Paty do Alferes, onde passei o final de semana, foi tudo muito bonito. Logo ao chegar no hotel fui recebida pelo sub gerente que me disse: _"Ah, você é a autora homenageada da Feira! eu adoro poesia, eu sou poeta". À noite tivemos um coquetel numa lindíssima sala de festas.
Vários espetáculos na Flicepe, a Feira Literária. Fiquei muito impactada com o conjunto de Perna de Pau, "Gigantes pela Própria Natureza". Muita emoção. Muita emoção com Pedro Laje e Julieta falando meus poemas e as crianças participando e recitando meus poemas também. Os bem pequenininhos falando o poema Transformação e fizeram uma instalação num poste, transformaram o poste numa árvore com materiais recicláveis. Monica Botkay, minha amiga que foi com seus cachorros, deu uma ideia muito boa para a próxima Feira: que as crianças das escolas públicas recebam um vale livro para comprar um livro para a sua Sala de Leitura.  Pode ser um valor pequeno para cada uma, mas aí elas se juntam, juntam os vales e compram um livro.
A Flicepe acontecia na Estação de Trem. E chegou a Bia Bedran e lançou o seu livro maravilhoso "Fazer um Bem ".
E hoje, aqui em Saquarema, houve um encontro com os professores. Li o livro da Bia Bedran e foi maravilhoso, mas conto amanhã...

sexta-feira, 19 de setembro de 2014

PALAVRAS ESPECIAIS

Algumas palavras só existem numa língua e não em outra. Todos sabemos que a SAUDADE é nossa. Numa palavra apenas dizemos todo o nosso coração.
E como falar numa só palavra em português "levantar cedo de manhã para ouvir os pássaros?", faço isso todos os dias mas preciso de uma frase inteira para contar. Mas em sueco existe uma única palavra: GOKOTTA.  Os raios de sol por entre as folhas das árvores produzem uma rara sensação maravilhosa de calma e beleza. Mas outra vez tenho que falar isso em muitas palavras. Já o japonês pode usar apenas uma:
KOMOREBI.
Leio esta maravilha num artigo do El País hoje cedo de manhã enquanto escuto os pássaros e o pequeno texto é um presente tão lindo que parto para a minha viagem com o motorista Miranda cheia de palavras soando como sinos. Vou ao encontro de uma linda homenagem e uma cidadezinha que não conheço, Paty do Alferes. Confesso que não sei o que quer dizer Paty, talvez seja um lugar onde o Alferes parava para descansar, será que é isso? Não encontrei no dicionário, mas vou perguntar.
Nos meus encontros de leitura com a meninada sempre digo o que disse o filósofo Savater: Rico é quem possui mais palavras para se expressar. 

quinta-feira, 18 de setembro de 2014

MEDITAÇÃO

Fazer meditação não é uma tarefa fácil. Requer muita disciplina, pois nós ocidentais somos realmente ansiosos. Aprendi a meditar com a terapeuta que me salvou, me ajudou a lidar com a dor crônica e os limites. Ela me dava exercícios de felicidade. Desde que operei a coluna em 1993, numa cirurgia para mim completamente mal sucedida, encontrei sempre dor e limites. A meditação me acalma, me aponta caminhos, me deixa lúcida e atenta. Minha terapeuta me ensinou: dentro de nós temos lugares difíceis e às vezes entramos nestes lugares. A meditação ajuda a não entrar nestes lugares para onde a dor quer te levar.
Meditação, contemplação, literatura, sonhos e projetos, assim, com estes tijolos de luz construo cada dia a minha vida.

quarta-feira, 17 de setembro de 2014

UM EMBAIXADOR ESPECIAL

Hoje, no jornal O Globo, conheci um Embaixador muito especial , na coluna "Conte algo que não sei" que adoro.
Reda Mansur é poeta e diplomata, é druso e o primeiro diplomata não judeu. É o embaixador mais jovem da história de Israel, agora Embaixador no Brasil . Tem quatro livros de poesia publicados em hebraico e confirma o que penso: Israel é multiétnico e multicultural e o povo não odeia os palestinos, o povo quer paz.
Ele tem uma missão no Brasil. "Fazer com que mais gente conheça a outra cara de Israel". "Sinto que no Brasil as pessoas não sabem que a sociedade israelense não é contra o povo palestino, que é sobretudo vítima de grupos radicais e líderes extremistas de fora cuja política declarada é a destruição do Estado de Israel".
Eu digo: Deveria haver um clamor para que mães dos dois lados negociassem a paz.

terça-feira, 16 de setembro de 2014

BUROCRACIA

A burocracia no Brasil alimenta as nossas dúvidas existenciais: será que eu sou eu mesma? Se sou porque preciso ir até o cartório , pagar para que reconheçam a minha firma por autenticidade, se estarei no evento para onde devo ir levando junto o papel? Estarei lá em pessoa, com o papel na mão e o cartório precisa reafirmar a veracidade da minha existência. Caso contrário eles pensariam que eu não sou eu.
Espelho, espelho meu, diga a verdade, quem sou eu?

segunda-feira, 15 de setembro de 2014

OS CHEIROS

Hoje de manhã no Pilates comentei que um momento maravilhoso do meu dia é o do café da manhã. Uma senhora me diz: o meu também. Ela diz, agora no inverno o cheiro do café se espalha de uma maneira diferente por toda a casa e me dá uma emoção...
Cheiros maravilhosos nos emocionam. Amo o cheiro da terra molhada quando a chuva começa a cair. Amo o cheiro do mar. Das flores. Das pessoas que amo. Do fogão de lenha cozinhando o feijão. Amo o cheiro do pão quando sai do forno.Amo o cheiro dos livros.
Faça a sua lista...

sábado, 13 de setembro de 2014

SENTIMENTO DO MUNDO

Ontem escrevi um pouco sobre a minha infância. Recebi maravilhada depoimentos de pessoas que a partir do meu texto revisitaram também a sua infância.
Não sei qual escritor disse que a única pátria que temos é a nossa infância.
Recebo uma proposta de falar durante 7 dias de coisas positivas. Não é preciso que eu aceite o desafio, pois meu olhar, minha pele, tudo em mim respira o que há de belo no mundo mas também o horror. Fome, guerras e crueldades nos obrigam a valorizar a nossa sorte de não estar sofrendo guerras, fome e crueldades. Escolhi viver dentro da natureza, é uma escolha, já que com a Internet posso trabalhar em qualquer lugar. Moro quase dentro do mar e meu sangue já deve ser meio salgado e não sei como não nascem algas em meus cabelos.
Ter o sentimento do mundo, como disse o poeta. Eu digo "ver" o outro em toda a sua beleza. Nelson Mandela disse que mesmo os maus carregam dentro alguma bondade. Ele modificou os guardas da sua prisão com o milagre de uma horta.

sexta-feira, 12 de setembro de 2014

LOJA DE FERRAGENS

Hoje caminho pela minha infância, no Grajaú, Rio de Janeiro, década de 50. Ao lado da loja do meu pai, havia uma loja de ferragens que também vendia lindos presentes, louças, umas bobagens que eu amava, relógios encantadores.Era a Loja do Waldemar, sobrevivente de Campo de Concentração. Sua família morava em cima da nossa casa. Às vezes ele gritava muito com seus filhos e meu pai falava: -"Coitado, é neurótico de guerra". Eu não sabia o que era neurótico e tinha uma vaga ideia da guerra, mas a sua loja... eu adorava, podia passar horas lá dentro.
A loja do meu pai é quase o meu lugar favorito para visitar. Tinha um telefone preto pendurado na parede e lembro do número: 582137. Vendia tecidos, botões, linhas, brinquedos, roupa de cama e mesa, meias de mulheres e de homens, vestidos, camisas de homens, roupas de baixo. Seu nome era "Armarinho Grajaú" e eu tinha licença para ir lá a qualquer hora. Era bom.  

quinta-feira, 11 de setembro de 2014

CRIANÇAS E FLORES

Preparei todo o maravilhoso café da manhã, um pão que fiz hoje mesmo, recheado com muzzarella, bolo de cenoura com cobertura de chocolate, pão doce e sonhos (que comprei na Padaria da Ponte) café com leite, sucos, manteiga e pasta de queijo com alho e páprica (para os adultos). Hoje era dia de visita, dia de felicidade crocante: as crianças do Educandário do Bem que vieram conduzidas pelas mãos da Fátima Alves e das Professoras Vanda e Jana. Entre todos éramos mais do que 30 pessoas. Assim vai se consolidadando meu Projeto Café, Pão e Texto.
Quando o ônibus amarelo encostou no portão e as crianças desceram, junto com elas desceu uma nuvem de alegria . Foram correndo para o jardim, cenário perfeito cheio de orquídeas floridas. Godofredo, o Jabuti passeando para lá e para cá. Fizemos muitas brincadeiras com Jorge Vale , professor de teatro e de contação de histórias me ajudando. Fizemos gincanas , concursos engraçados e o tema eram os poemas,  os prêmios eram livros, meus e alguns que  Bia Hetzel e Silvia Negreiros me deixaram. Foi maravilhoso.
Depois o lanche , depois o mar azul azul azul, depois a despedida, o ônibus e sempre um gosto de quero mais.

quarta-feira, 10 de setembro de 2014

SAMBINHAS DE ELEIÇÃO

Espero que as eleições passem logo. O dia inteiro carros de som passam pela minha porta com os  sambinhas ridículos dos candidatos. E a figura do marqueteiro
é quase macabra impedindo os candidatos de simplesmente SER e mostrar seu programa de governo. Há que sorrir se esta é a ordem do marqueteiro . Há que afagar criancinhas, comer carne de bode se estiver no nordeste e mesmo se o candidato é ateu, há que rezar com os evangélicos porque dão votos.
O Brasil é imenso e complexo.Não seria muito melhor para o país se todos falassem sem atacar o outro, falassem claro, de que maneira se faria isto ou aquilo? Afinal, estamos no século XXI e a nossa política é a mesma desde quando?

terça-feira, 9 de setembro de 2014

PATY DO ALFERES

Hoje às 5h da manhã já havia um começo de luz. Está amanhecendo mais cedo. Sentei no jardim com a xícara de café e o perfume misturado do jardim e do mar era maravilhoso. Respirar as maravilhas do mundo quando há tanto horror no mundo é um raro privilégio.

Soube: o primeiro dia do Babel Bistrô dos meus filhos em Resende foi muito bom. Felicidade de filho é a maior felicidade que existe.

Dia 19 vou para Paty do Alferes. Sou a autora homenageada da Feira Literária junto com Dorival Caymmi,  Me sentarei à sombra das suas maravilhosas músicas e elas me levarão até a minha infância e juventude. Agradeço ser homenageada junto com uma das pessoas mais lindas que já nasceram no Brasil.

E assim, la nave va, me levando em seu bojo.

segunda-feira, 8 de setembro de 2014

EDUCANDÁRIO DO BEM

Há uma casa em Bacaxá (bairro de Saquarema) que parece uma casa de avó. Tem cheiro de bolo e de amor. Mas não é uma casa de avó. É um Ponto de Cultura tocado pela Fátima Alves como se fosse um instrumento, com delicadeza. Seu nome é Educandário do Bem. No contra turno das escolas ela oferece para alunos de escolas públicas aulas de teatro, de pintura, de dança, de reforço escolar. A casa tem cheiro de bolo porque tem uma cozinha que funciona e o bolo sai do forno quentinho para o lanche das crianças.Já assisti a uma peça montada por eles com meus poemas. São atores espetaculares. Eles escolheram os poemas de vários livros e fizeram com o Jorge Vale, o diretor todo o roteiro.
Quinta-feira dia 11 recebo o Educandário do Bem na minha casa para um Café da Manhã Literário e estou radiante. Meu Projeto Café, Pão e Texto está cada dia mais bonito. Ele dá um sentido para a Casa Amarela onde moro. As crianças são como estrelas que vão desenhando uma constelação feita de histórias e futuro.

domingo, 7 de setembro de 2014

MEMÓRIAS

Ontem recebemos um jornalista e escritor espanhol. Juan, meu marido, contava algumas coisas da sua vida. Juan entrevistou grandes personagens, esteve no El País desde o seu nascimento, é um carregador das memórias do século XX. O escritor pedia: "Juan, por favor, escreva as suas memórias", ele sempre diz que não, não escreverá.  Sou uma ouvinte privilegiada. Ele é um grande contador de histórias. Leve e ágil como um elfo, e ao mesmo tempo um elefante pela quantidade de livros e memórias que carrega, Juan passou muita fome em sua infância. Durante a guerra era muito pequeno, mas depois da guerra civil quase não havia nada para se comprar. Ele conta que sonhava com pão, fornadas de pão. Juan acorda sempre alegre, para ele qualquer dia é uma festa. Juan viajou o mundo inteiro muitas vezes, acompanhou três Papas ao redor do planeta como correspondente da Itália e do Vaticano . Mas quando chegou em Saquarema pela primeira vez em 2001 , suspirou e me disse: _ Pronto, cheguei no meu lugar.. E aqui estamos em nossa fábrica de escrita.

sábado, 6 de setembro de 2014

VENTO

Hoje o vento que vem da montanha quase levanta a casa, quase lhe dá asas e eu iria junto, com todos os livros , a casa voando sobre o mar.
As madeiras rangem e cantam, as árvores dançam e os vidros quase se estilhaçam. Amo o vento. Tenho vontade de dançar dentro do vento como as árvores.

sexta-feira, 5 de setembro de 2014

INTOLERÂNCIA

Ontem vi e ouvi uma boa discussão sobre intolerância na GloboNews com uma psicóloga e um antropólogo e alguns casos bem concretos: Um menino não pode entrar na escola pública onde estuda por levar uma guia de candomblé debaixo da blusa. Escolas públicas são laicas e qualquer um pode usar em seu corpo qualquer símbolo religioso. O candomblé é u,ma religião africana trazida pelos escravos, a umbanda é uma religião afro brasileira trazida pelos escravos e misturada com os santos católicos para poder sobreviver aqui. Merece o respeito de qualquer outra religião . A intolerância de qualquer espécie deveria ser crime, não sei se é. Mas o que se vê frequentemente são estas religiões serem perseguidas na escola e fora dela.
Na França se proibiu o uso do véu islâmico mas no Brasil nenhum símbolo religioso é proibido. Cada um reverencia o Divino como quiser e o outro tem que respeitar.
O outro caso era de um menino que foi de saia para o colégio. Se um colégio usa uniforme, claro que há que respeitar as regras, o menino pode usar trajes que a sociedade brasileira aceita como femininos fora da escola, lembrando que na Escócia homens usam saias e as roupas são convenções sociais. As mulheres usam calça comprida hoje naturalmente mas em épocas passadas isso era impensável. Mas a escola tem as suas leis e há sim que respeitá-las e não considero o caso como intolerância. Mas a questão foi levantada: e se ele fosse com a saia do uniforme das meninas? Então sim, acho que ele poderia entrar sabendo que seu ato despertaria reações variadas que seriam a meu ver intolerância se ele se sente menina.
O último caso discutido é terrível e junto com a torcedora que xingou um jogador de macaco mostra como o Brasil é racista. Uma moça negra postou uma foto beijando seu namorado branco e foi atacada na rede, xingada, menosprezada. Não sei o que dizer, já que desconheço as leis para crime na Internet. O que sei é que temos que lutar contra qualquer forma de intolerância e de pensamento único. Ninguém é dono da verdade, a verdade única não existe, a sociedade é atravessada por várias correntes de crenças e pensamentos e nisso reside a sua beleza. Aceitar o outro, abraçá-lo, amar o diferente porque ele acrescenta novas visões e pontos de vista ao meu pensamento é urgente e necessário. Os humanos são coloridos. As religiões no mundo são tantas e representam nosso medo perante a morte e a vida e é obrigatório respeitar a religião do outro, os ideais do outro, a sexualidade do outro, as cores diferentes da nossa cor.   

quarta-feira, 3 de setembro de 2014

MÚSICA E COMIDA

Em Resende duas casas mágicas e dentro delas um neto e uma neta.
Uma respira música, teatro e brevemente dança. A Atrium Escola de Música e Arte é o sonho realizado do meu filho músico. A família mora na escola.
A outra na segunda-feira próxima inaugura o Babel Bistrô de comidinhas francesas, do meu filho André Murray e Daniela Keiko.A casa respira perfumes e sabores.A família mora no bistrô.
Estar em Resende na casa dos meus filhos é respirar arte. Amanhã vou para Saquarema . Tenho saudades de casa, do Juan, das minhas filhas-gatas. Saudades do mar. 

quinta-feira, 28 de agosto de 2014

DENTRO DA ATRIUM

Desde terça-feira estou vivendo dentro de uma casa centenária, dentro da Atrium Escola de Música em Resende. A casa é belíssima e emociona. Estou com meu neto Luis e meu neto-cachorro Toffe e ouvi duas aulas de musicalização espetaculares. Numa delas as crianças ouviam a ária do Papageno na Flauta Mágica do Mozart. A escola transborda música por todas as salas. Agora pela manhã veio um casal já mais velho, os dois lindos. O homem fará aula de canto e a senhora de violoncelo.
Pela tarde mudo de canal e vou para a casa que está inaugurando um bistrô francês, o Babel Bistrô e fico com minha netinha Gabriela de 9 meses. Quero que ela guarde uma memória da vovó Roseana. Ela é uma delícia total.
Amanhã vou para a minha casinha na montanha. Tenho um encontro marcado comigo.

segunda-feira, 25 de agosto de 2014

COM OS NETOS

Amanhã vou fazer meu circuito Resende-Mauá, que é o Circuito do Amor, pois vou ao encontro dos meus netos, dos meus filhos e noras-filhas, e da minha irmã Evelyn Kligerman. Levo livros e um espelho que comprei na loja Laço Vermelho da minha amiga Sandra, uma loja também feita com muito amor, sonho de muitos anos. O espelho era meu desejo antigo, a minha casinha da montanha não tinha espelho, eu me olhava no vidro da janela, mas não gostava de nenhum. Tinha que ser estreito para caber num espaço bem pequeno, tinha que combinar com a casa. O que comprei tem a moldura toda de fuxico que amo e minhas colchas são de retalhos da Paula, uma artesã local. Já mandei estas colchas até para a Espanha, alegram qualquer lugar. Então vai ficar o máximo. A casinha tem um conceito, tem que ser de roça. Suas portas e janelas são feitas à mão e as portas são de 1997, são super únicas! Amo a minha casinha com chão de cimento vermelho, de paixão perdida, a casa é quase uma entidade, ela fala comigo. Estou muito feliz com a viagem. Cláudia Simões vai me ver levando as novas ilustrações para o nosso livro para que eu siga trabalhando lá os meus poemas. Volto para Saquarema dia 9 e escreverei quando a internet quiser.

sábado, 23 de agosto de 2014

ENCONTRO COM AS PROFESSORAS

O café da manhã com as professoras na nossa casa foi esplêndido. Eram trinta (poucos homens professores) e a Secretária de Educação Ana Paula e o Vice Secretário Valdinei.Meu amigo Chico Peres , poeta e vereador, veio e participou de tudo como qualquer professor. Conversamos sobre vários educadores no Brasil que fazem um trabalho diferente nas salas de aula, contei o filme que vi, magnífico, Educação.Doc e as experiências das melhores escolas do Brasil em lugares pobres e difíceis e como isso foi conseguido . Uma professora contou que durante 10 anos trabalhou com 40 alunos em círculo , mudando a geografia da sala, mas agora não dá mais tempo de arrumar e desarrumar a sala. Juan falou de como é importante que as crianças e jovens trabalhem em grupos para desenvolver o afeto e a socialização e contou suas próprias experiências quando trabalhava como psicólogo num orfanato em Roma. Li o texto do livro "Fica Comigo" da Patricia de Arias e ouvi as várias belíssimas leituras que o livro despertou.Vanda, nossa caseira, fez um belo depoimento contando como sua auto estima mudou quando foi valorizada.
Depois fizemos exercícios de olhar e de tato com meu livro Cinco Sentidos e foi muito, muito emocionante. Valdinei me entregou o Projeto da Sala de Leitura da E.M. Menaldo Carlos de Magalhães. O Projeto é belíssimo e fiquei radiante pois envolve toda a escola e todos os que trabalham na escola , e repercute nas salas de aula de todos os professores, ou seja, é muito mais do que eu sonhava quando fiz o primeiro trabalho de leitura aqui em Saquarema em 2002. Todas as escolas, Valdinei me contou, estão com belos projetos de leitura. Ana Paula, a Secretária, me contou que haverá uma jornada pedagógica com a Elisa Lucinda e sinto que a Secretaria de Educação já deu um salto muito grande.
Conversamos com a Secretária sobre arte nas escolas, corais, aulas de teatro, dança, cinema, etc, e fica o problema do tempo. Quando seria isso? Por isso considero tão importante escolas em tempo integral para que estas aulas possam acontecer no contratempo das aulas normais. Conversamos sobre desarrumar a geografia das salas e ela ficou e o Valdinei também com uma semente deste desejo. Sinto que no futuro talvez aconteça este salto.
Ela me contou que todas as escolas receberam o Projeto maravilhoso do Governo Federal Mais Educação e falei para os professores que não há desculpas para não ler, já que as Salas de Leitura recebem os livros mais belos do Governo. Sugeri ao Valdinei que as escolas se visitem e ele já está pensando nisso. A partir do Clube de Leitura da E.M Ozires , Projeto da Angela muito bem sucedido, outras escolas estão com Clubes de Leitura. Acho que em breve Saquarema transbordará uma educação de muita qualidade e coragem de fazer diferente. Fiquei radiante e já vamos marcar nosso próximo encontro para setembro. 

sexta-feira, 22 de agosto de 2014

MADRUGADINHA

Madrugadinha:
Vênus machuca
meu coração
de solidão azul.

in Poemas de Céu, Paulua

Hoje com certeza exagerei. Acordei muito cedo, âs 2.30h. Ainda fiquei na cama, dentro do escuro, pensando. Mas então me levantei mesmo, fiz a mesa, tomei café. Madrugadinha o mar é Imperador. Envolve a casa inteira, explode nas portas e janelas, as madeiras estalam cantam. É uma sensação magnífica.
Alguns livros vivem dentro da gente. Seus personagens se movimentam como pessoas e nos acompanham para sempre. Sou apaixonada por um conto do Joyce, Os Mortos e o filme também é lindo, se chama Os Vivos e os Mortos. Já lemos no Clube. Amo um livro furiosamente, já li muitas e muitas vezes. La vie devant soi, do Émil Ajar. Comprei em português para indicar ao Clube de Leitura, mas a tradução era tão horrorosa que não pude nem ler nem indicar. Uma vez, Bartolomeu Campos fez uma palestra em algum lugar e eu estava na plateia. Ele falou do livro e meu coração voou de felicidade. Então no intervalo fui falar com ele da minha paixão pelo livro. Ele também se emocionou por dividirmos a Madame Rosa e o Momo e então, ele tão tímido fez carinho no meu sapato! Fou a Monica Botkay que me emprestou livro  quando nós duas éramos quase adolescentes! É um dos livros mais belos que já li em toda a minha longa vida. Comprei em Paris em 1994 num sebo na beira do rio. Foi o primeiro livro que vi. Agora não encontro. Perco tudo ou dou tudo e meus livros desaparecem! Agora releio em português Jacques,  o Fatalista de Diderot , um livro inacreditavelmente contemporâneo. Este livro me acompanha desde que eu tinha 20 anos. A tradução não é ruim, acho que o Clube poderia ler. O livro tem um humor imperdível. Diderot era um gênio.
E assim, escrevendo , dentro de pouco a luz pintará o dia na mais linda aquarela. Moro no paraíso , a escolha de viver em Saquarema, assim tão por acaso, foi o maior acerto das nossas vidas, minha e do Juan.
 

quinta-feira, 21 de agosto de 2014

ENCONTRO COM PROFESSORES

Amanhã tenho um encontro com professores na minha casa, um café da manhã. Eu dou o café e o leite e a Secretaria da Educação dá os pães, bolos, sucos. Eu dou a palavra desobediência, a Secretaria dá a palavra obediência.
Vi um filme em episódios, EDUCAÇÃO.DOC mostrando as melhores escolas públicas do Brasil em lugares muito pobres. Como conseguiram? A receita não é difícil, mas somos apegados aos métodos antigos. Em primeiro lugar vem a história do aluno, e ele tem que ajudar a decidir que tipo de escola ele quer. Depois há que trazer a família, a comunidade para participar da escola. Há que ter aulas de arte: música, dança, teatro. É mais fácil produzir conhecimento numa aula de teatro e dança do que numa aula chata. Há que ter muita leitura, muita poesia.  Aulas de afeto, de auto estima. Os professores precisam ser maravilhosos, amar o que fazem. Ouvi Viviane Mosé de quem sou fã, ela costura os episódios. Há que ensinar a pensar. Somos seres pensantes.Ouvi Tião Rocha, que desconstrói tudo para construir uma escola aberta, debaixo das árvores, em qualquer lugar.
Temos que avaliar conhecimento sim, o Ideb é uma grande conquista, mas temos que avaliar os níveis de bem estar e felicidade. As paredes das salas de aula deveriam ter fotos de família. O afeto tem que percorrer todos os espaços para que todos se abracem.
Uma vez por semana , uma professora conta, ela leva música clássica para os alunos. Uma mamãe diz, numa comunidade: minha filha me fala de Tarsila do Amaral! O livro de literatura não pode ser obrigatório, mas deve ser devorado com prazer extremo, cabe ao professor descobrir onde está a chave para conseguir isso.
Quando criança eu não gostava da escola. Já no maternal vomitava todos os dias. Já tinha uma muda de roupa para trocar. Fiz até a terceira série na escola pública Francisco Manoel no Grajaú. A escola dava medo. Depois fui para uma escola judaica fazer a quarta série, Hertzlia e , pasmem, sofri bullying da própria professora. Ela me ridicularizava, os alunos riam. Fui humilhada ao extremo. Tinha medo.
A escola , onde o aluno passa tanto tempo , não pode dar medo. A escola tem que ajudar a transformar as crianças em adultos afetuosos, compreensivos, compassivos, abertos para o novo, prontos para um grande salto.
Amanhã, em nosso encontro, além do café com leite, vamos falar sobre os sentidos, com meu livro Cinco Sentidos. E que a escola seja um espaço para a criação tanto para os alunos quanto para os professores.

quarta-feira, 20 de agosto de 2014

UM DIA INESQUECÍVEL

Esperávamos 32 crianças, mas chegaram 18 entre crianças e adolescentes e um motorista acidentado, pois o painel acima dele caiu na estrada sobre a sua cabeça e foram todos parar num Posto de Saúde. Mas chegaram sãos e salvos num ônibus amarelo pelas mãos da Aurora. Eram lindos e afetuosos, já foram me abraçando e beijando. Fomos para o jardim e estendemos uma colcha grande de retalhos que junto com as flores enchiam o coração da gente de arco-íris. Bia Hetzel e Silvia Negreiros chegaram um pouquinho antes com o Senhor Arnaldo, meu taxista, amigo de longa data. Desde às 5.30h da manhã Vanda preparava o almoço. Acendeu o fogão, feijão preto cozinhando e enchendo a casa com seu perfume.Samuel , nosso jardineiro, ajudou a levar as crianças para o jardim.
Juan, meu marido, participava de tudo maravilhado.
Apresentei alguns livros, brincamos muito de poesia, e os professores e Robson com seu violão , ele veio convidado pela escola, ajudavam a fazer a festa.O Caldeirão da bruxa foi lido por uma aluna que já havia feito isso na escola vestida de bruxa, mas Silvia emprestou seu xale. Fizemos juntos algumas bruxarias. Fizemos uma orquestra noturna com meu livro Caixinha de Música. As crianças viraram macaquinhos na floresta com meu poema "Cada Macaco No Seu Galho" que a Bia leu do meu livro "Quem vê cara não vê coração".
Depois o momento da Bia e Silvia distribuírem os belíssimos livros da Manati. Cada um escolheu um livro e depois quiseram trocar todos. Foi um troca-troca.
A varanda parecia um restaurante todo colorido com mesinhas azuis e mesinhas brancas e toalhas floridas.
A comida maravilhosa da Vanda foi servida no fogão de lenha.
Era lindo ver todo mundo sentado ocupando a varanda inteira. Todos queriam morar aqui, na casa amarela , pois haviam lido o e-book que está no site "A bruxa da Casa Amarela".
As mães mandaram sobremesas variadas.
E finalmente o momento de ir até o mar. Que festa!!! Cataram conchas e muitos quiseram levar até areia!
E depois os autógrafos! Quiseram autógrafos de todo mundo, até do Samuel e da Vanda!
Na despedida dentro do ônibus abraços e muitos beijos. A E.M Professora Leopoldina de Barros , de Nova Iguaçú me presenteou com uma colcha maravilhosa que as crianças fizeram e desenharam, um livro com um pouco da história de Nova Iguaçu e uma geleia de cajá, a fruta colhida de uma árvore da própria escola. Acho que todos levaram para casa Saquarema e a Casa Amarela no coração.

terça-feira, 19 de agosto de 2014

AULAS DE IALIANO

Ontem foi meu primeiro dia de aulas de italiano em casa com a Professora Selmar que viveu 22 anos na Itália e agora mora em Saquarema. Ele me perguntou:
_ Por que quer aprender italiano?
Bela pergunta. Falar italiano não servirá para nada prático, mas, maravilha das maravilhas, encherá meu coração de alegria! Acho muito importante que cada pessoa faça algo que ame por puro prazer. Plantar, pintar, fazer aulas de canto, cerâmica, cozinha e muitos etcéteras. Eu faria aulas de dança se minha coluna me deixasse dançar. É também uma das minhas paixões.Mas voltando ao italiano, já falo alguma coisa, muito mal, mas já consigo ler meu primeiro livro. Havia começado um muito difícil e desistido, mas agora leio um livro lindo e fácil de um sociólogo chamado Alberoni sobre a amizade. Selmar me diz que ele é muito conhecido na Itália. Adquirir uma língua é difícil, mas lá no final da estrada um mundo nos é presenteado. E para prevenir doenças cerebrais acho muito melhor do que fazer palavras cruzadas! Ler e aprender uma língua espero que me proteja da única doença que me dá pavor, nem vou falar o nome , mas os médicos chamam de "alemão". Quero ficar lúcida até o final dos tempos, do meu tempo.

Espero as crianças de Nova Iguaçu. Sem a ajuda da Vanda, minha caseira, amiga e parceira em tudo, nada disso poderia estar acontecendo. E do Samuel, nosso jardineiro que nos dá um suporte imenso.
O fogão já está aceso e a comida no fogo. Dentro de pouco arrumaremos as mesinhas que aluguei. Mandei fazer toalhas de chitão florido, ficaram lindas.E que as cores e a alegria das crianças e das minhas amigas Bia e Silvia encham a casa de alegria!

segunda-feira, 18 de agosto de 2014

PROJETO CAFÉ, PÃO E TEXTO

Amanhã recebo uma escola de Nova Iguaçu pelas mãos da Professora Aurora Lopes Lopes . Seremos 40 pessoas almoçando na minha varanda. Rezo para não chover. Para tudo dar certo. Minhas editoras da Manati Produções Editoriais virão com livros para as crianças, assim como já veio a
Carolina Braga Malacco da Editora Rovelle cheia de livros. Fico nervosa como se fosse fazer uma grande estreia de um grande espetáculo. Quero que as crianças amem. Vou apresentar alguns livros meus para eles, vamos fazer uma linda manhã de poesia! E que eles guardem o tempo do nosso encontro numa caixinha de felicidades.

sexta-feira, 15 de agosto de 2014

SÉCULO XIX ; SÉCULO XXI

Maria Neuza Guadalupe me enviou um vídeo onde grandes pensadores sobre a educação no Brasil falam e propõem novas maneiras de fazer a escola, já que a taxa de evasão é imensa, a escola não interessa mais aos alunos quando passam para as classes mais adiantadas, quando vão crescendo e descobrindo o mundo. Já não me lembro mais quem disse, mas muitos já disseram o mesmo: se alguém do século dezenove entrasse numa sala de aula hoje, no século vinte e um, estaria em casa: alunos uniformizados, uma carteira atrás da outra, quadro negro, giz, lista de chamada, silêncio e muitas vezes gritos do professor. Só que a cabeça dos alunos, ela diz, está no século vinte e um e não no dezenove. Hoje a casa de cada um é também o mundo inteiro, com toda a tecnologia. Professores hoje precisam trabalhar com todas as dimensões do ser humano, eles dizem no vídeo, e eu sempre disse. Há que tocar o melhor que cada um leva dentro de si como um tesouro, para que possa expandir suas potencialidades.
Estou fazendo encontros mensais na minha casa com professores da Rede Municipal de Saquarema, em parceria com a Secretaria de Educação e às vezes me pego pensando: Para que? Se a escola não mudar, os professores irão mudar? É tanto tempo nas escolas totalmente desperdiçado!Mas sim, o professor pode mudar e espero que nossos encontros façam diferença.
Convido cada professor a fazer a sua própria revolução em silêncio, a desobedecer e criar. O ser humano brilha quando cria. Crie com seus alunos. Seja mais parceiro que professor. Compartilhe todos os seus conhecimentos, o que a vida tem lhe ensinado. Não se esqueça que já foi criança, que já foi adolescente.
Enquanto a escola não muda, faça a sua pequena mudança. Ela fará diferença para alguém.

quinta-feira, 14 de agosto de 2014

A MAIS LINDA LIÇÃO

Eduardo Campos nos deixa a mais linda lição: ele ensinou a conviver com as diferenças. Ele era cristão, Marina evangélica. As crenças políticas dos dois eram distintas. No entanto, superou as diferenças criando uma aliança inesperada e quando todos apostavam que não seria possível a convivência entre ele e ela, o que se via era uma grande cumplicidade e um projeto costurado em paz, para o Brasil. Num Brasil onde a política assume as piores feições, onde se quer exterminar quem não pensa igual, o legado de Eduardo Campos pode ser o farol para uma grande mudança, Assumir uma cultura de paz implica em aceitar quem pensa diferente, quem tem outra religião, quem come carne, quem é vegetariano, quem é assim ou assado e etc, etc.
Poucas vezes me senti mais triste do que com a perda de Eduardo Campos, pela sua família, por seus amigos, pelos seus sonhos, pelo Brasil.

terça-feira, 12 de agosto de 2014

IMAGENS

Ultimamente as imagens que inundam nossos olhos são de crianças em situações extremas.
A intolerância em alguns lugares do mundo agora é a lei. Quem não sou eu, não pensa como eu penso, não professa a minha fé, não é da minha etnia, deve desaparecer, deve ser exterminado. A intolerância é o vírus do mal  e devemos , nós mesmos, lutar contra ele com todas as nossas forças e nossa racionalidade e nossa bondade.
O outro não sou eu!!! E tem todo o direito de fazer tudo diferente de mim. E pensar diferente, ter outras convicções políticas, sexuais, gostar de outras cores, ter outra cor de pele. As crianças são vítimas apenas porque são filhas de pais diferentes dos agressores. E quando vejo pezinhos que fogem, deixando suas casas, suas vidas, meu coração quebra. 

segunda-feira, 11 de agosto de 2014

VIVER AGORA

Meu neto um dia me perguntou:
_ Vovó, amanhã é hoje?
É uma pergunta muito difícil. Porque amanhã , quando chegar, será hoje.
Viver aqui e agora em sua totalidade é tarefa muito árdua, é o princípio da felicidade e do bem estar. Já que vivendo qualquer momento em sua plenitude, ficamos em paz. E se o momento for insuportável, de muito sofrimento, temos o lago profundo da nossa memória. Sempre é possível mergulhar.Mas o futuro, quando chegar, será hoje.
Não podemos parar o tempo. Mas podemos estar totalmente dentro do tempo e não em sua superfície. 

domingo, 10 de agosto de 2014

COISAS QUE ANDAM JUNTAS

Algumas coisas andam juntas: café com leite, goiabada com queijo, morango com creme e dizem os espanhóis, uvas com beijos. Mas infelizmente, religião e guerra.
A África foi convertida ao islamismo à força, com muito sangue derramado e suas religiões ancestrais, antiquíssimas, foram destruídas . Os extremistas sempre existiram no Islã e não admitem outras crenças. O cristianismo matou milhares de pessoas com sua fé cega. As fogueiras , as torturas, intolerância total com as outras crenças. Hoje, o Islã crucifica cristãos no Iraque. Na Irlanda católicos e protestantes se matavam incessantemente. Em Israel os extremistas judeus não querem converter ninguém, o judaísmo não converte, mas gostaria que os palestinos desaparecessem da face da Terra. No Brasil os evangélicos perseguem os umbandistas e o povo do candomblé. Influenciam as escolas e gostariam que o Brasil inteiro fosse evangélico. Chegará o dia, neste século XXI , em que as pessoas poderão ser livres em sua fé?   Por que, sendo a minha fé diferente da fé do meu vizinho ele se sente tão incomodado? Como é bela a diversidade. Como é triste um bosque inteiro só de eucaliptos. Nele a vida não viceja. O solo se torna um deserto.
Aceitar o outro com suas diferenças teria que ser tema diário nas escolas. 

sexta-feira, 8 de agosto de 2014

REFLEXÕES DE UM PAI JUDEU

Recebi um artigo de Gustavo Ioschpe, que não conheço e nem sei onde foi publicado. Por ser o espelho fiel de tudo o que penso em relação a Israel e Palestina, transcrevo:
"
Eu vou todos os anos para Israel. É um país incrível. Tem a 25ª mais alta renda per capita do mundo, com 36.000 dólares ao ano, à frente da média da União Europeia e mais de três vezes superior à brasileira (11.000 dólares ao ano). Já ganhou doze prêmios Nobel - tem mais prêmios Nobel por habitante do que a Alemanha, Estados Unidos e França. Israel tem excelentes museus, uma das melhores orquestras filarmônicas do mundo, grandes cineastas (Amos Gitai, Dror Moreh, Ari Folman), escritores magistrais (Amos Oz, David Grossman, S.Y. Agnon, A.B. Yehoshua...), músicos fantásticos. Apesar do seu tamanho minúsculo, é o terceiro país com mais empresas listadas na Nasdaq, a bolsa de empresas de tecnologia, atrás apenas dos EUA e da China. O primeiro serviço de instant messaging, ICQ, é de uma empresa israelense. O Waze também. A Teva, maior empresa do mundo de medicamentos genéricos, é de lá. O país tem grandes restaurantes, um Parlamento vibrante, vida noturna intensa. Tel Aviv poderia ser colocada em qualquer país europeu e o turista não saberia a diferença.
Que tudo isso tenh e completoa sido gerado por um país de 20 mil quilômetros quadrados (um pouco menor que Sergipe) fundado em 1948 já seria surpreendente; tendo acontecido sob constantes ataques em guerras e atentados terroristas e acolhendo milhões de imigrantes ao longo de décadas, é algo que aqueles com pendores religiosos poderiam chamar de milagre. Cercado por todas essas opulentas vitórias e conquistas, é perdoável que os visitantes estrangeiros e os próprios israelenses não consigam fazer o esforço sobre-humano de notar que, mantido o atual caminho, o país ruma para o suicídio.
Conflito -- A atual campanha de Gaza apenas reforça alguns pontos nos quais acredito há muitos anos. Primeiro: Israel não pode vencer o conflito com os palestinos militarmente sem que se torne um pária entre as nações. Porque a única maneira militar de acabar com o terrorismo dos radicais do Hamas seria dizimar todo o povo palestino.  Algo inconcebível. Enquanto houver palestinos vivos, eles vão querer ter um Estado – uma aspiração que o povo judeu, apátrida por dois milênios, certamente entende bem, e cuja legitimidade é inquestionável.
Eu acompanho esse conflito com lupa há pelo menos vinte anos. Já nem me recordo mais a quantidade de vezes que os comentaristas militares israelenses e seus apoiadores disseram que uma certa ação militar ou o assassinato de um líder do Hamas (Yehia Ayash, Ahmed Yassin, Abdel Aziz al-Rantissi, Salah Shahade, Ahmed Jaabari) daria o “golpe definitivo”.  Mas o enredo é sempre o mesmo: centenas ou milhares de palestinos inocentes são assassinados, casas são destruídas, mísseis explodidos, soldados e civis israelenses morrem e, assim que as operações acabam, a preparação para o próximo conflito começa. Com um saldo sempre negativo para Israel. A operação Chumbo Fundido, de 2008-09, matou entre 1.166 e 1.417 palestinos e treze israelenses.
A operação atual, no momento em que escrevo essas linhas, já custou a vida de 1.492 palestinos e 66 israelenses, além de um soldado sequestrado. A imagem internacional do país se deteriorou sensivelmente de lá pra cá. Chama a atenção que os defensores dessa operação não percebam a sua inutilidade: Israel está usando todo o aparato bélico de que o século XXI dispõe para...enterrar túneis (?!). Túneis que podem ser feitos com pás e um pouco de cimento e que certamente começarão a ser cavados novamente assim que o conflito terminar. É óbvio que Israel precisa se defender dos foguetes e não permitir túneis adentrando seu território, como é óbvio não ser possível eliminá-los militarmente.
Guerrilha -- Muito tem se escrito, nos últimos dias, sobre a indecência do comportamento do Hamas, que estaria vitimando seus concidadãos de propósito para danificar a imagem de Israel. Do outro lado, há aqueles que acusam Israel de “genocídio” e imaginam que o objetivo da ação é matar o maior número possível de palestinos. Não pretendo me ater a teorias e gostaria de ficar no terreno do que considero obviedades. A primeira é que, se os palestinos não podem ter Exército e não conseguem obter concessões pela via da negociação, sua arma será o terrorismo, por não terem outra. A segunda é que terroristas são o que de pior a humanidade produz, e os militantes do Hamas, e sua ideologia, são asquerosos, racistas, desumanos, torpes. A terceira, derivada das duas acima, é que um Exército nacional não pode lutar contra e vencer uma milícia terrorista sem que adote suas táticas, coisa que um Exército nacional não pode fazer. É por isso que os americanos não ganharam no Vietnã nem os franceses na Argélia, e é por isso que o exército israelense não ganhará em Gaza, se por “vitória” entendermos uma ação militar que gere uma paz duradoura.
Não entendo essas pessoas que ficam apontando as atrocidades do Hamas. Ninguém, em sã consciência, acha que essa é uma organização digna e honrada. O que essas pessoas esperam? Que ao denunciar as vilezas do Hamas seus militantes comecem a guerrear de acordo com as Convenções de Genebra?! Não vai acontecer. Que a população de Gaza se insurja contra o Hamas e entenda as razões israelenses para matar centenas de mulheres e crianças, e aceitem o bloqueio marítimo, terrestre e aéreo que Israel impõe a Gaza de maneira resignada? Não vai acontecer. Que a comunidade internacional aceite a morte de centenas de inocentes porque os militantes do Hamas estão jogando foguetes contra cidades israelenses? Não vai acontecer.
O segundo fato, portanto, que essa operação deixa claro é que o problema israelo-palestino precisa ser resolvido na mesa de negociação. Essa, aliás, é a única forma de derrotar o Hamas: mostrar aos palestinos que o terrorismo não leva a nada e que o caminho dos moderados traz resultados. Aqui os defensores de Israel repetem mais uma frase sem sentido, que vem dos partidos da direita israelense: a de que não há parceiro para a paz, de que os palestinos não reconhecem a existência de Israel, de que todos os árabes – ou todo o mundo, dependendo do nível de paranoia do interlocutor – quer jogar os judeus ao mar. Assim sendo, não há nada a fazer, além daquilo que os militares israelenses chamam de “aparar a grama”: ações militares periódicas que causam bastante morte e destruição e retardam em alguns anos o fortalecimento das milícias palestinas. (Esse linguajar desumano, inaceitável, já é um indício de uma brutalização da sociedade israelense e de grande parte da comunidade judaica, que comento a seguir).
Pra ser sincero, acho essa visão equivocada. Ela emana do pecado original do sionismo: a ideia, difundida nos primórdios do movimento, de que a criação do Estado judeu na Palestina histórica era dar “um povo sem terra para uma terra sem povo”. Ocorre que a segunda metade da frase é falsa: havia milhares de palestinos morando, há séculos, nas terras sagradas do judaísmo. Eu entendo perfeitamente que um povo perseguido por milênios e tendo recentemente saído do Holocausto não tenha podido demonstrar empatia para com o sofrimento dos palestinos naquela época - mas não hoje. Também entendo que os palestinos não tenham aceitado a presença judaica em terras que percebiam como suas. Como bem disse David Ben-Gurion, primeiro premiê israelense: “Se eu fosse um líder árabe, eu jamais assinaria um acordo de paz com Israel. É normal, nós tomamos o país deles. É verdade que Deus prometeu-o a nós, mas o que eles têm a ver com isso? Nosso Deus não é o deles. O único que eles veem é: nós viemos aqui e roubamos o seu país. Por que eles deveriam aceitar isso?”
História -- Os palestinos e os vizinhos árabes cometeram um erro histórico ao não aceitar o plano de partilha da ONU em 1947 e declarar guerra a Israel em 1948. Pagaram por esse erro com uma derrota fragorosa, exílio e morte, naquilo que chamam de “Naqba” (“Catástrofe”), e continuam pagando até hoje. Em 1947 eles lutavam por 100% da terra. Agora lutam por apenas 22%, a área correspondente à Cisjordânia e Faixa de Gaza.  A ideia de que não há parceiro do outro lado deriva da ideia de que os palestinos rejeitaram ofertas “generosas” de Israel, que previam a devolução de até 95% dos territórios ocupados. Mas mesmo para os palestinos moderados, qualquer coisa que não seja a totalidade dos 22% que lhes restaram é um insulto. Não haverá paz enquanto todos os territórios não forem devolvidos.
Há várias propostas na mesa que chegam muito perto do fim do conflito, como o que foi negociado em Taba em 2001, a Iniciativa de Genebra de 2003, a proposta da Liga Árabe de 2002. Creio que um governo israelense com respaldo popular para chegar a um acordo conseguiria concluí-lo em poucos meses de negociação. A questão que parece mais espinhosa é provavelmente o direito de retorno dos refugiados palestinos, mas ao contrário do que os radicais israelenses espalham, 90% dentre eles não querem voltar para o Estado judeu, e sim para um eventual Estado palestino. Se você tem dúvida sobre a confiabilidade da informação, vale dizer que ela foi auferida por um pesquisador palestino que, ao divulgá-la, teve seu escritório depredado por seus conterrâneos radicais (esse dado, assim como todos os outros mencionados ao longo deste artigo, estão disponíveis em twitter.com/gioschpe).
Cenário -- Creio que a maior oposição a um acordo justo e duradouro venha do atual governo israelense, que acredita na manutenção do status quo, talvez desejando que em algum momento os palestinos desistam de suas aspirações ou que alguma mudança radical aconteça no Oriente Médio (muitos ainda imaginam que algum dia será possível fazer um Estado palestino na Jordânia...). Creio que quem analisa os dados friamente, e não através do prisma do pensamento mágico, haverá de concluir que a passagem do tempo é altamente contrária ao interesse israelense. Por quatro motivos: demográfico, geopolítico, sociológico e de relações internacionais.
Demográfico: em Israel, hoje, aproximadamente 75% da população é judia e 21% é árabe. Dentro da população judia, os ortodoxos representam 10% do total. Mas, devido ao diferencial de fertilidade – 7 filhos por mulher ortodoxa versus 2,3 para as judias não-ortodoxas – hoje os religiosos são 20% da população judia com menos de 20 anos. Em 2050, a projeção demográfica é de que os religiosos representem 30% da população judia. Os árabes israelenses também têm fertilidade mais alta do que os judeus não-religiosos: 3,5 filhos por mulher, versus 3,0 para a população judia como um todo. Ou seja, a proporção de árabes e ortodoxos aumenta e a de judeus não-religiosos diminui. Se já é difícil chegar a um consenso hoje, imagine quando talvez a maioria da população for composta de judeus ortodoxos e árabes. Além disso, há a população palestina nos territórios ocupados. Se a incluirmos, hoje temos aproximadamente 12 milhões de pessoas vivendo entre o rio Jordão e o Mediterrâneo. 52% desses são judeus e 45% árabes. Segundo o demógrafo Sergio Della Pergola, da Universidade Hebraica de Jerusalém, essa proporção se inverte em poucos anos; em 2030 os palestinos representarão 56% da população. Imagine se a Autoridade Palestina se dissolver e Israel voltar a ter controle legal sobre toda essa população...
Geopolítico: hoje Israel consegue manter o status quo porque os Estados Unidos oferecem apoio diplomático – vetando sanções no Conselho de Segurança da ONU, por exemplo – e militar. Com o fim da Guerra Fria, caiu a razão estratégica para o apoio americano. Com a descoberta do gás de xisto americano e a reduzida dependência deste país do petróleo do Oriente Médio, a razão econômica também se enfraqueceu. Resta a motivação da política interna, com a pressão da comunidade judaica e, em menor escala, evangélica em favor de Israel. Mas, como mostram críticos como Peter Beinart, o apoio da juventude judaica americana a Israel é menor do que a da geração de seus pais. Mas mesmo que, apesar de todos esses fatores, o apoio americano continue firme e forte (o que me parece improvável), é difícil que ele seja suficiente em um mundo que caminha para a bipolaridade, com a China ocupando o posto de maior economia mundial. A China não tem, nem nunca teve, uma comunidade judaica expressiva. Não é, nem nunca foi, uma democracia. Com 69 carros por 1.000 habitantes (vs. 786 nos EUA) e poucas reservas de petróleo, é difícil de se imaginar que a China irá se alinhar com Israel e não os países árabes. No próprio Oriente Médio, a Primavera Árabe foi mais um sinal de alerta. Quando as populações árabes depuseram seus ditadores militares, em alguns casos escolheram movimentos radicais islâmicos em seus lugares. Quando o Egito foi governado pela Irmandade Muçulmana, houve grande cumplicidade entre o presidente Mursi e o Hamas, incluindo o tráfico de armas. Se a situação de hoje é difícil, o que acontecerá se o Egito voltar a ser governado pela Irmandade, o Líbano pelo Hezbollah, a Síria e o Iraque pelo Isis?
Sociológico: a ocupação militar de outro povo corrói uma nação democrática. É difícil se imaginar que um jovem israelense passe três anos (o período do serviço militar obrigatório para os judeus israelenses; mulheres servem dois anos) suprimindo a liberdade alheia e depois transforme-se em um democrata exemplar. O filósofo israelense Yeshayahu Leibowitz escreveu essas palavras proféticas em um ensaio de 1968, enquanto a população israelense ainda estava embevecida com as conquistas territoriais do ano anterior: “Um Estado dominando uma população hostil de [à época] 1,5 a 2 milhões de estrangeiros necessariamente se tornará um Estado policialesco, com todas as consequências que isso traz para a educação, liberdade de expressão e instituições democráticas. A degeneração característica de todo regime colonial também prevalecerá no Estado de Israel.” Assim está sendo. Atualmente, manifestantes contrários à campanha de Gaza têm sido espancados por militantes de direita e até presos pela polícia. Os apoiadores da ação militar vão às ruas cantando, abertamente, “Morte aos árabes!” e “Morte aos esquerdistas!”. Não é preciso um PhD em Ciência Política para saber que esse ódio e sectarismo são sinais de uma profunda falência democrática, normalmente vista apenas em períodos pré-convulsão civil.
Comunidade internacional -- Por último, e talvez mais importante, Israel está virando um pária aos olhos da comunidade internacional. É o único país que domina outra população, e é a única democracia ocidental que desrespeita leis internacionais, impõe bloqueios a outro povo, causando enormes dificuldades e sofrimento desde 1967. Muitos judeus veem nesses ataques da opinião internacional o espectro do antissemitismo e até do nazismo, como se criticar o governo israelense fosse sempre uma versão sublimada de ódio antissemita. Discordo, mas não vou entrar nessa discussão. Atenho-me ao fato: a percepção de Israel na comunidade internacional está em queda livre desde a segunda intifada. Já há vários países, ONGs, universidades e igrejas que boicotam o país e incentivam seus membros a não comprar produtos ou ações de companhias israelenses.
Para um país minúsculo em estado de conflagração com quase todos os seus vizinhos, é impossível para Israel manter o seu nível de desenvolvimento caso as sanções da comunidade internacional evoluam para um boicote do estilo imposto à África do Sul da época do apartheid. Pode ser que os esforços propagandísticos do governo israelense surtam efeito, mas eu duvido fortemente que – por mais que o Hamas seja odiado – a comunidade internacional tolere a morte e as privações que as ações israelenses vêm impondo aos civis palestinos.
Israel -- Quero concluir com uma experiência muito pessoal. Nessas férias de julho, minha mulher, israelense, foi com nossos filhos visitar sua família, perto de Tel Aviv. Eu não pude ir, por motivos de trabalho. Eles chegaram lá no segundo dia da operação em Gaza e ficaram por duas semanas. Como os que me leem devem saber, considero-me um racionalista, humanista e pacifista. Desde a adolescência. Pois quando minha mulher me contou que teve de ir, junto com os nossos filhos, para um abrigo antiaéreo para se proteger dos foguetes do Hamas, durante algumas horas eu pensei com o fígado, e tive vontade de que o exército israelense despejasse sobre Gaza todo tipo de armamentos, nas quantidades que fossem necessárias, para que os foguetes parassem de cair e eu pudesse ter os meus de volta e em segurança.
Comecei a sair desse estupor ao ver o indescritível sofrimento de pais e familiares que tiveram seus filhos destroçados pelos mísseis que eu desejara que caíssem sobre eles. Antes de ser um judeu sionista sou um ser humano, e por ser humano e pai consigo sentir a dor que acomete um pai que precisa viver como realidade aquilo que, como um mero temor, já me causara tamanha angústia. Se eu tive esse acesso de bile mesmo morando a milhares de quilômetros de distância e tendo familiares no conflito por duas semanas, posso imaginar como se sentem os israelenses que passam por isso, constantemente, há anos. E, ainda mais, o que passa pela cabeça dos habitantes de Gaza, cujo sofrimento é infinitamente maior. Consolidou-se em mim a crença de que esses dois povos, sozinhos, não conseguirão superar seus ódios e medos e chegar a um acordo de paz justo e duradouro.
Caminhos -- Hoje, acredito que Israel tem apenas três alternativas. A primeira é seguir o caminho atual, e confiar em sua supremacia militar e na aliança com o poder hegemônico. Esse é um caminho que, no curto prazo, vai levar apenas a mais conflito, mais mortes, mais isolamento externo e rupturas internas. No longo prazo, tende a levar a um segundo Holocausto. Quem conhece História sabe que o atual atraso econômico e militar do mundo árabe é uma aberração. Enquanto as potências ocidentais de hoje chafurdavam nas trevas da Idade Média, povos árabes representavam a vanguarda do conhecimento e da riqueza. Voltemos mais alguns milênios no tempo e veremos os judeus como escravos do faraó egípcio. Em algum momento esse pêndulo há de fazer o movimento inverso; se a vida dos israelenses depende apenas da supremacia tecnológica, o fim desta trará a extinção daquela.
Os outros dois caminhos envolvem um acordo de paz sendo imposto pela comunidade internacional. Minha única dúvida é se essa imposição virá dos amigos de Israel ou de seus inimigos. Se vier dos inimigos significará que o país foi subjugado pela pressão/boicote internacional. Para chegar a esse ponto, significará que Israel perdeu todo seu apoio internacional. O conflito interno será tremendo, e os termos de um acordo com os palestinos e demais países árabes serão francamente desfavoráveis aos israelenses, talvez exigindo reparações financeiras exorbitantes, perda de território, incorporação de refugiados. Talvez nesse cenário o país sobreviva, mas duvido que como uma democracia plena, com pujança econômica.
O terceiro cenário é aquele em que um acordo de paz é estimulado pelos amigos de Israel, notadamente os Estados Unidos e a comunidade judaica internacional. Esse seria um acordo em uma posição de força, que permitiria um entendimento justo e o fim das hostilidades, e liberaria Israel para continuar seu caminho de desenvolvimento econômico e social. Entendo que muitos judeus e sionistas não-judeus acham que o melhor que podem fazer por Israel é dar apoio incondicional a qualquer ação de qualquer governo. Respeito essa opinião, apesar de saber que aqueles que a professam provavelmente não respeitam a minha. Mas gostaria de, respeitosamente, discordar. Pessoas tomam péssimas decisões sobre suas vidas, e países, mesmo democráticos, também escolhem líderes errados e políticas ineptas. Algumas pessoas acham que os verdadeiros amigos apoiam qualquer sandice e são só elogios. Já eu acredito que os verdadeiros amigos são aqueles que criticam quando acreditam que a crítica é necessária, que falam as verdades duras. Hoje eu acredito que aqueles que apoiam uma política cujo resultado é a inércia diplomática e o crescimento exponencial de cadáveres de inocentes são os que, inadvertidamente, enterram a paz e levam Israel e os palestinos a um beco sem saída.
Para terminar, preciso confessar que não tenho certezas. Talvez já tenhamos atravessado o Rubicão. Talvez os ódios já sejam insuperáveis. O que significa dizer que talvez, mesmo depois de concluído um acordo de paz justo, os foguetes continuem a cair em Israel. Talvez esse conflito seja sobre mais do que terra, como quer a direita israelense. Pode ser. Mas prefiro tentar o caminho do entendimento e da justiça, que tem alguma chance de fracasso, do que persistir no caminho atual, cuja chance de sucesso é zero. E prefiro que os foguetes venham agora, quando Israel e o povo judeu têm uma capacidade de reação que nunca tiveram em toda a sua milenar história, do que em um momento em que já não nos restará mais nenhum cartucho, nem nenhum aliado."
 

quinta-feira, 7 de agosto de 2014

ÂNCORAS

Nossos filhos, netos, irmãos, irmãs, companheiros, sobrinhos, amigos, leitores, são nossas âncoras de luz,  nos prendem à Terra e ao mesmo tempo nos fazem voar. Tecem ao nosso redor uma mandala contínua de amor. Para eles vivo , caminho, respiro, sonho os meus e os seus sonhos. Meus filhos e netos, minha irmã, sobrinhas, moram longe, tantos amigos moram longe, mas nem preciso atravessar a rua. Estão sempre comigo, nos bolsos, na bolsa, nas unhas, nos cabelos. Sinto o meu amor por todos como uma água que jorra caudalosa e limpa, sai direto da minha alma (que não sei onde fica dentro de mim).
Hoje é quinta-feira, um bom dia para fazer declarações de amor. Todos os dias.