quarta-feira, 2 de setembro de 2015

TAIPÉ

Ontem vi um documentário maravilhoso sobre a cidade de Taipé, em Taiwan.
Um fotógrafo canadense que vive na cidade desde 1999, contava: Taipé parece uma grande cidade. Mas é uma ilusão, pois seu espírito é provinciano. Os bairros guardam a mesma estrutura emocional de quando Taipé era muito pequena. As pessoas se conhecem, se ajudam, as casas são bem simples, às vezes precárias, em pequenos becos. A segurança é total. Qualquer um pode andar pelos becos mal iluminados à noite sem nenhum perigo. O individualismo não existe. As pessoas não estão preocupadas em acumular bens . Elas se preocupam em viver bem. Isso quer dizer ter amigos, ajudar as pessoas, comer bem.
Uma correspondente contava: a cidade tem uma vida intensa até às duas da manhã. O que mais os habitantes gostam de fazer é comer. Quase ninguém cozinha em casa, pois há milhares de ofertas de comida na rua e é uma maneira das pessoas se conhecerem ou de estarem juntas. Peixes e frutos do mar são predominantes. Quando alguém viaja na volta a pergunta que se faz é : - Você comeu bem?
Quase todo mundo é budista. Existem muitos templos e de todos os tamanhos. Mesmo quem não segue todas as regras se sente budista e faz pedidos e oferendas.
Duas jovens irmãs, filhas de um casamento misto, viviam nos Estados Unidos mas escolheram Taipé para morar. Elas dizem que não há lugar melhor para se viver no mundo pelo afeto que corre como um rio caudaloso entre as pessoas. Há um clima de amor na cidade que é uma ilha.
Se não fosse tão longe me mudava para Taipé...

terça-feira, 1 de setembro de 2015

DON QUIJOTE

Começo a reler Don Quijote. Em espanhol, numa edição belíssima que ganhamos. Será tarefa para muito tempo.
Em 1998 , quando Juan me convidou para morar com ele em Madrid, ele me disse:
_Mas se quer viver com um espanhol para o resto da vida tem que ler o Don Quijote.
Era inverno na Espanha e eu não poderia aguentar o frio. Então decidi esperar em Visconde de Mauá. Juan me disse que avisaria quando as primeiras folhas nascessem nas árvores. Além do inverno severo, ele não queria que eu visse as árvores sem folhas!
Fui para Visconde de Mauá passar janeiro e fevereiro com o livro em português debaixo do braço. Naquela época ainda não lia fluentemente em espanhol. Na minha casa não tinha luz. Eu não tinha carro nem celular nem telefone. E estava sozinha. Passei dois meses sozinha lendo até a luz acabar. Dormia muito cedo.
Para ter alguma notícia, tinha que descer o vale até uma pousada e ligava para a minha irmã Evelyn.
No começo de março ela me disse: Juan disse que você já pode ir.
Eu havia acabado de ler o Don Quijote. Já podia me casar com um espanhol!
Embarquei no dia 13 de março de 1998 para a maior aventura da minha vida. Pelas mãos do Juan fiquei amiga de Pilar e Saramago, tomei café da manhã com Vargas Llosa!
O livro é uma verdadeira maravilha. Cervantes está além, muito além da sua época. Até da nossa! A sua ironia é impressionante. Mais de quatrocentos anos se passaram e Don Quijote é a metáfora dos que buscam.

domingo, 30 de agosto de 2015

LINDA NOTÍCIA

Nosso Clube de Leitura já deve ter uns três anos ou mais. Nunca conto o tempo. O tempo vai simplesmente escorrendo.
E ontem recebi a mais linda notícia: Felipe Lacerda que havia se afastado do Clube pois está estudando para o doutorado, me contou que fez um concurso para Professor de Português e passou em primeiro lugar , o primeiro entre quatro mil candidatos e me disse textualmente:

"Passei em primeiro lugar para Professor de Português  no concurso entre quatro mil candidatos! E  a prova não tinha quase gramática, era toda de estilística, media a nossa capacidade de leitura ; por isso tenho certeza absoluta que você, o Clube e todos os livros que lemos têm grande parcela de contribuição nesse desempenho que tive na prova!!! Quero te agradecer com um abraço forte e comemorar com nossos amigos do grupo!!! Então, até breve!"

A alegria do grupo será imensa , mas escrevo hoje esse texto para soprar nas escolas  o desejo de construir um Clube de Leitura para os Professores. É muito simples. Ler um livro por mês ou até mesmo de dois em dois meses, depois discutir o livro com um lanche ou um almoço, transformar o encontro numa grande comemoração. Os resultados serão imensos. O Felipe está nos trazendo uma informação preciosa.

Nosso Clube de Leitura da Casa Amarela já criou entre os seus participantes um elo muito forte de amizade e pertencimento. Fico contando os dias para nosso próximo encontro. Desta vez nossos convidados de honra são Amos Óz e Álvaro Mútis.

sexta-feira, 28 de agosto de 2015

PEQUENOS GRANDES GESTOS

Pequenos grandes gestos nos dão força para não nos desmancharmos num pessimismo que não conduz a nada. O Brasil está vivendo um momento político muito doloroso . Um momento econômico muito doloroso, com tanta gente perdendo o emprego.
Mas como cigarras- formiguinhas muita gente trabalha em silêncio, sem alarde, para o bem . Como diz Bia Bedran em sua música, a gente tem que fazer UM BEM.
Ontem, na escola Joaquina recebi um sopro de vida com aquelas crianças tão entregues ao fazer poético, com aquelas professoras tecendo as suas maravilhas no tear mágico do amor.
Minha amiga Fernanda Candeias, que nunca buscou aparecer, ia simplesmente costurando as suas bonecas terapêuticas para doá-las, com a reportagem que fizeram ao descobri-la, fez tanta gente parar e se emocionar. Alguém, em silêncio, produz bonequinhas mágicas para crianças doentes, de graça.
Fazer um bem ao outro justifica a nossa existência.
O mundo está difícil de engolir junto com o café da manhã, mas existe outro mundo e é neste outro mundo, o das pessoas que constroem um pouco de felicidade para os outros, que eu quero acreditar.

quinta-feira, 27 de agosto de 2015

CÃES, GATOS, LIVROS E MÁQUINA DE COSTURA

Hoje a mais linda viagem aconteceu por acaso na minha vida .
Adelaide, do nosso Clube de Leitura, me contou uma história extraordinária, que o dono da livraria de Araruama, cidade vizinha, lhe contou: as crianças da E.M.Joaquina de Oliveira Rangel, escola rural em Águas de Juturnaíba, foram até a livraria com um saco de moedas para comprar meus livros. Antes foram encomendados pois a livraria não os tinha. As crianças, as mães, professores, fabricaram e venderam sacolés para conseguir o dinheiro. Fiquei tão comovida que contei a história no face e disse que gostaria de ir até lá para conhecer as crianças. A Professora Vanessa me respondeu e combinamos a minha ida para hoje, o dia da Festa Literária na escola.
A Escola pediu e a Secretaria de Educação de Araruama mandou um carro me buscar, muito delicadamente. A Secretária de Educação foi comigo e a sua equipe nos acompanhou.
Pois bem, é longe. Depois de São Vicente, que é uma graça, a estrada é de terra. A região é de fazendas de laranja que foram abandonadas. Aqui e ali um gado, casas de roça, simples. Em muitos lugares nem há luz.
De repente a lagoa de água doce que abastece toda a região dos lagos, lindíssima, a lagoa de Juturnaíba. Às suas margens há uma pequena mata.
Da escola se vê a lagoa. A escola fica no alto. Uma casa antiga, grande, gostosa. Casa de roça. O terreno é ondulado, enorme, com belas árvores.
Cheguei e as crianças estavam sentadas no terreno me esperando. Instalações poéticas por todo o terreno. Já falarei de cada uma.
Fizemos muitas brincadeiras com meus livros, amaram! Foi muito bom , prazeroso, divertido. As crianças maravilhosas , cada sorriso mais bonito que o outro. Então apresentaram um coral. Era assim: Um aluno ou uma aluna liam um poema do livro Poço dos Desejos e o coral cantava alguma música que se entrelaçava com o poema. Uma aluna fez um solo.
Fui conhecer cada instalação debaixo de uma árvore.
Meus livros Colo de Avó e Rios da Alegria estavam pendurados numa castanheira. Havia uma linda casa de papelão que era a casa da avó e um barco de papelão para atravessar o rio.
Em cada árvore um varal de poemas.
O Manual da Delicadeza pendurado num flamboyant e sua instalação era um alfabeto em madeira ou papelão, não sei, mas cada letra gerava uma palavra sobre algum valor essencial: honestidade, solidariedade, etc...Os Classificados Poéticos também no flamboyant.
Poemas e Comidinhas debaixo de um coqueiro. Sobre uma mesinha uma geladeira e um forno de mentirinha. E pendurado na árvore umas fotos dos alunos na cozinha fazendo a salada de frutas. Também num coqueiro o livro Casas.
Uma Gata no Coração pendurada num Pau-Brasil.
E numa Acácia, trabalhos de releituras das crianças..
Um carrinho de pipoca, que foi encontrado abandonado na estrada, foi reformado e transbordava de livros!
O refeitório é uma delícia. No caminho para o refeitório encontrei três cachorros dormindo e perguntei se eram da escola. Não são da escola. São dos alunos! Acompanham seus donos e ficam ali dormindo até a hora de ir embora.
A escola também tem uma gatinha que deu cria, a Joaquina. Todos cuidam dela.
Tem uma horta um pouco distante.
E o mais surpreendente: a escola tem uma MÁQUINA DE COSTURA!!!
A Diretora Elsimar ama costurar, então faz para as crianças, ali na escola mesmo, as roupas das festas!
Vi um vestido trabalhado com tramas naturais, fibras, sementes da região.
A escola tem horário integral. Não vi nenhum portão no terreno. Acho que entram cavalos. E as crianças não fogem. Ninguém precisa tomar conta delas!
Para o almoço fizeram uma Salada Arco-Íris do livro Poemas e Comidinhas! Quanto carinho das cozinheiras, merendeiras e das professoras Vanessa, Joana, Taylane, Simone, Claudia, Thais, Cássio, Eliana... O Professor que nos conduziu também é apaixonado pela roça e a gente na ida e na volta ia se maravilhando com as casinhas simples e lindas.Seu nome é Ubiratan. E a Miriam, Secretária de Educação, tão simples e verdadeira na sua paixão pelas escolas. Voltei, mas dentro de mim a viagem ainda não acabou.

quarta-feira, 26 de agosto de 2015

O CORPO

Começo um trabalho novo. Escrevo como se desenrola um novelo. Quando começo vou desenrolando. Não para publicar, mas para ter novos poemas me habitando: O corpo cântaro atravessado pelos ventos que sopram desde a lua mais distante, oscila com o tempo que já foi usado. O corpo todo escrito com o alfabeto gasto das histórias vividas se lembra que também é terra quando sente a terra nos pés, que também é escrita impressa na pele do outro, que também é céu e lua quando se aninha nas dobras da noite para respirar.

terça-feira, 25 de agosto de 2015

A BAILARINA

Hoje nos meus pães entraram os últimos fios da noite, era escuro quando comecei a amassá-los . Esperava a Escola Municipalizada Elcira de Oliveira Coutinho e queria os pães ainda quentes para o nosso Café, Pão e Texto. Fiz também um belíssimo bolo de fubá. Às nove em ponto o ônibus encostou aqui na porta e as crianças se espalharam pela varanda, nos bancos, no chão. E vieram cheios de novidades , estavam loucos para me contar. Há um grupo de leitores na Escola que se chama GALE. São alunos contadores de histórias, sempre no contra-turno. Eles contam histórias, mostram o livro, as ilustrações, em outras turmas, até nas turmas dos maiores. E o melhor: vão de casa em casa. Tocam a campainha e perguntam para quem abre a porta: _ Você quer ouvir uma história? A professora vai junto. Achei a ideia genial, maravilhosa!!! Perguntei para a professora e para eles, de que maneira esse envolvimento com a leitura modificou a vida deles. Todos me disseram que melhoraram o rendimento nas outras matérias e que melhoraram também como seres humanos. São mais solidários e mais generosos. A Professora Elisângela disse que eles foram modificados pela leitura contínua. A escola tem um blog que funciona como a redação de um jornal:Blog da Escola Elcira. Tem equipe de relações públicas, redatores, equipe de fotografia. http://emelcira.blogspot.com e estão no facebook . Também fizeram um aplicativo para baixar no celular. Detalhe: É uma escola rural. Totalmente antenada sob a coordenação do Professor Edgard. Fizemos , como sempre, brincadeiras com meus poemas. Juan falou bastante sobre a importância de se adquirir vocabulário. Como a escola tem uma rádio, dei a ideia de colocarem no ar um poema todos os dias. Invenção da E.M.Gustavo Campos quando trabalhei lá em 2002. E já que a escola tem um trabalho incrível com informática, dei a ideia de aprenderem espanhol com algum curso on line que é tão barato. A aluna Sabryne Taina fez a contação do meu livro Maria Fumaça Cheia de Graça , vestida com a camiseta do Gale, o grupo de leitura e a bolsa de pano bordada onde carregam os livros. E depois a bailarina Gabriela dançou enquanto Manuela dizia lindamente o poema A Bailarina. Trouxeram a música! Foi lindo, emocionante. Depois chocolate quente, pães, bolo, biscoito de chocolate. E um passeio no jardim com o Samuel para a gincana das árvores. Dois meninos ganharam o livro Uma Carta para Deus, do Juan . Depois sessão de fotos. E hoje não deu para ir saudar o mar, pois o mar está furioso demais, há uma verdadeira ressaca. E fomos todos felizes para sempre!!!

segunda-feira, 24 de agosto de 2015

EM CASA

Em casa, com o mar rugindo e cantando nas minhas costas, já que a minha mesa está de frente para as montanhas, ponho em dia a correspondência, depois de duas semanas na montanha sem internet. As orquídeas aqui do jardim enlouqueceram, abriram todas as suas flores para a minha chegada. E uma linda notícia me esperava: Juan, meu marido, pela quinta vez é finalista do Prêmio Comunique-se de jornalismo. Sempre ficou entre os três primeiros, mas desta vez é diferente, pois vou acompanhá-lo dia 22 de setembro. Há uma longa cerimônia e nos últimos anos era impossível aguentar todas as horas sentada. Tudo era impossível antes da cirurgia da coluna. Agora estou novamente na estrada e agradeço voltar a ser uma pessoa que pode. Nos últimos tempos cheguei a tomar 6 analgésicos fortes por dia! Cheguei e já entrei no redemoinho da poesia. Amanhã recebo 20 alunos da E.M Elcira de Saquarema para um café da manhã. Eu mesma farei pães recheados para o café. Devo dizer que o sucesso do meu Projeto de Poesia CAFÉ, PÃO E TEXTO, me surpreendeu completamente. Não esperava tanta procura. Mas é que as crianças são maravilhosas! E cada encontro sai mais bonito do que o outro. E quinta-feira dia 24 vou passar a manhã numa escola rural em Águas de Juturnaíba, perto de Araruama. As crianças venderam sacolé para comprar alguns dos meus livros. Fiquei tão emocionada que preciso conhecê-las. Acho que jogaram pó do Universo em mim! Estou flutuando com o amor das crianças.

segunda-feira, 10 de agosto de 2015

VIAGEM

Saio agora para uma viagem de 12 dias. Rio - Resende -Visconde de Mauá. Não terei internet mas quando chegar em algum lugar onde possa escrever envio notícias. Não se esqueçam de mim!

domingo, 9 de agosto de 2015

DIA DOS PAIS

Se eu tivesse que dar um presente para o meu pai, se ele fosse vivo hoje, daria um livro. É maravilhoso eu ter a certeza absoluta de que para ele um livro ou um disco de música clássica seriam os melhores presentes. Meu pai era auto didata, se alfabetizou sozinho, já que veio da Polônia com 14 anos sem falar nenhuma palavra de português. Ele me apresentou aos escritores russos. Meu pai foi um comunista simpatizante , mas quando a Russia invadiu a Checoslováquia ele rompeu com seus ideais de juventude. Ele prezava a liberdade acima de tudo e Stálin já havia sido um osso duro de roer. Então ele me deu de presente este amor total ao que é livre, ao que é justo. Por isso abomino regimes autoritários. O que ele me deixou quando foi embora em 1985 é mais sólido do que uma montanha. Herdei valores. Eu o carrego cada dia em todos os pequenos gestos que faço e ele que era tão grande, se acomodou perfeitamente entre meus ossos. Lejbus Kligerman, era seu nome.

sábado, 8 de agosto de 2015

PORQUE HOJE É SÁBADO

Porque hoje é sábado o Igor, neto da Vanda tem aula de espanhol com o Juan e começou hoje a ler seu primeiro livro em espanhol: Tres Viejitas Ingeniosas, que é o meu livro Três Velhinhas Tão Velhinhas publicado no México pela ed. Alfaguara. Ele está muito preocupado, pois diz que sua mãe não vai conseguir ler junto com ele! Juan só fala com ele em espanhol e a aula é dinâmica, eles vão ao jardim, agora ele está lanchando e adora pão com mel, então o Juan diz: pan con miel, repete! e ele vai repetindo cada coisa . É incrível. Porque hoje é sábado tem feirinha na esquina , bem pequenininha mas linda, comovente. Comprei abóbora e agrião, pois descobri que as duas coisas juntas dão uma mistura fantástica. Se faz a abóbora e quando já está quase pronta se acrescenta o agrião picadinho. Ele cozinha em três minutos. Comprei coentro, pois sou fanática pelo seu cheiro e o gosto é o mesmo do cheiro! Brócolis, couve-flor, duas flores fantásticas, também amo a cor do brócolis. A comida tem que ser bem colorida. Hoje teremos arroz integral, feijão mulatinho, abóbora com agrião, beterraba e salmão grelhado. E salada com tomatinhos cereja.Adoro cozinhar, cozinho com alegria. Porque hoje é sábado terminarei de ler-reler o Grande Sertão Veredas , discutindo por whatsup com o Cristiano Mota, imenso privilégio, estudioso que ele é de Guimarães. Aliás, aconselho o Clube de Leitores Miguilim que a Suzana Vargas montou na Estação das Letras para quem mora no Rio de Janeiro. Porque hoje é sábado aconselho a leitura do poema Dia da Criação do Vinicius e desejo a todos um dia esplêndido.

sexta-feira, 7 de agosto de 2015

DIA DE COLO DE AVÓ

As pessoas que vivem na Casa Amarela e a E.M.Almeida Garret, receberam o presente mais magnífico do mundo! Julia Cardenas, atriz e contadora de histórias chegou junto com a Dora, sua filha e Priscila, dos mil instrumentos. Um pouquinho antes do ônibus da escola encostar em nosso nosso portão. o dia magnífico fazia o cenário mais esplêndido possível para a festa. O almoço já estava em andamento, fogão de lenha cantando, o feijão perfumando a varanda. A mesa grande já cheia de pratos , copos, talheres e no chão colchas coloridas. As crianças chegaram pelas mãos das professoras Christiane e Carla, super amorosas. Primeiro o momento pipi, depois de uma longa viagem. Julia já tinha suas magias arrumadinhas no chão. Priscila com seu caixote de instrumentos aos pés. As professoras elogiaram as cores da casa, amarelo ocre e azul turquesa . Falei, falamos, das cores frias e quentes, das cores que acalmam, das que excitam, de como as cores interagem com a gente e pudem mudar o nosso ânimo, de como as cores possuem uma frequência, uma vibração. Perguntei a cor do amor. Alguns disseram azul, outros vermelho. E de repente a magia começou. Julia nos apresentou seu passarinho, a Isadora que possui vários nomes porque é de origem espanhola. Juan também disse seu nome , imenso. E Julia fez brotar de dentro dos poemas do livro Colo de Avó, a magia mais absoluta. As imagens do livro se tornaram os objetos mais lindos. Nós todos, a sua plateia, não sabíamos se chorávamos ou se ríamos. As canções , entremeadas com os poemas, deixava nossa respiração por um fio. Priscila tem os instrumentos mais inusitados e loucos, que ela fabrica. Num determinado momento houve um cortejo no jardim, todos acompanhando a Julia, que carregava nas mãos um arco-íris... Julia nos contou a história dos seus avós e bisavós, fez um álbum de fotografias muito muito antigas, seus bisavós que saíram da Espanha e foram até o Uruguai de veleiro no ano de 1932... com as crianças a bordo! As crianças também contaram histórias de suas avós. E o passarinho Isadora participando ativamente de cada momento. Acho que nunca me emocionei tanto. Com cada poema do livro Julia fazia um feitiço mais impressionante. Meu livro cresceu, ficou imenso, se esparramou pelo Universo... Então, antes do almoço brincamos de Unidunitê, com um poema do livro Caixinha de Música e fizemos um jogral com o poema Caldeirão da bruxa, do livro Poemas e Comidinhas. O almoço estava maravilhoso, preparado pela Vanda. Cada um com seu prato no colo, todo mundo sentado no chão, ou nos bancos. As Professoras trouxeram doces de leite, de coco, de chocolate. E depois do almoço tivemos uma gincana no jardim. Eu tinha três livros para sortear. Os três primeiros que acertassem o nome de três árvores ganhava um livro. Foram conduzidos pelo Samuel. Acertaram a árvore de acerola, de canela, a goiabeira. Depois, todos já de volta, falaram seus poemas. E finalmente foram cumprimentar o mar. E foram embora com sorrisos de sol. Foi um dia maravilhoso. Agradeço.

quarta-feira, 5 de agosto de 2015

MOMENTO

Parece que o Brasil está derretendo. Mas todas as crises caminham para um desenlace. Tudo é movimento. A Terra dança no céu, pessoas nascem, pessoas morrem. Esperemos que o país reencontre seu caminho. Que dinheiro público no futuro seja sagrado, já que é de todos. Que os investimentos sejam feitos no que realmente importa: Educação, Saúde, Segurança. Que no futuro as pessoas tenham além disso água potável, rede de esgoto. Quando nosso dinheiro for respeitado e o bem estar das pessoas passe a ocupar o lugar que merece, então o país voltará a se reconhecer. Quando comecei a viajar pelo Brasil em 1990 eu me apaixonei perdidamente pelas pessoas de dentro do Brasil. O Brasil é muito mais do que Brasília e suas imensas decisões equivocadas, obras faraônicas abandonadas, desvios mirabolantes de dinheiro público. O momento é duro para todos. Mas em determinadas horas precisamos exercitar nosso desprezo pelos que roubam, mentem, enganam. O Brasil não merece este outro Brasil paralelo que não me representa. O que eu gostaria de ver enquanto estou viva: a devolução da nossa dignidade que está sendo roubada.

terça-feira, 4 de agosto de 2015

ABECEDÁRIO (POÉTICO) DE FRUTAS

As crianças e jovens me perguntam em nossos encontros qual o livro que prefiro de todos os que publiquei. Um dos livros que mais amo é o ABECEDÁRIO (POÉTICO) de FRUTAS, da ed. Rovelle. Fiz uma lista de frutas de A a Z e busquei suas texturas, sensações que provocam no paladar e no tato, a memória que podem nos trazer, enfim fiz poemas sensoriais. E busquei deixar bem vivo nos poemas a sua árvore. As aquarelas da Claudia Simões são maravilhosas, são quadros e ela recebeu o Prêmio da FNLIJ como ilustradora revelação. Quando fiz o poema para o abacate, trouxe de volta o abacateiro da casa onde moramos em 1973, onde nasceu meu filho Gustavo. Era uma chácara na Tijuca, no Rio de Janeiro. Rua Henrique Fleiuss 409. Uma ladeira imensa de casinhas lindas e a nossa casa ficava lá no final da rua, quase ao lado da mata. Cobras e preguiças eram comuns por ali. Nosso quarto tinha uma varanda, suas portas se abriam e um abacateiro invadia a varanda. Como a casa ficava numa ladeira íngreme, nosso quarto estava num segundo andar em relação ao quintal lá de baixo. Eu amava este abacateiro apaixonadamente, como se ama uma pessoa. Quando escrevi o poema trouxe este abacateiro amado de volta. E assim o livro foi sendo construído em suas texturas, sabores, cores deslumbrantes. Para cada fruta muitas sensações. Recomendo o livro para todas as escolas que levem seus alunos para a cozinha. Ler os poemas, buscar Naturezas Mortas nos pintores famosos, fabricar receitas, fazer juntos uma salada de fruta, as possibilidades para saborear o livro são muitas. E ainda no poema abacate ouvir com as crianças a música Abacateiro do Gilberto Gil... ABACATE Antes da fruta vem a sombra e o abacateiro abraça o dia com seus braços longos. Lá no alto, redondos, verdes, de carme macia como o vento, os abacates parecem pérolas gigantes.

segunda-feira, 3 de agosto de 2015

DISCUSSÃO

Li em algum lugar que a felicidade é discutida desde os primórdios da filosofia. Há quem que não goste da palavra felicidade e prefira a palavra alegria. E não se pode confundir prazer com felicidade. Então o que será a felicidade? No Butão se mede a felicidade. É possível medir a felicidade como se mede a febre? É possível ser feliz neste mundo de tantas desigualdades, de tantas crueldades? E o que produz a felicidade? É um hormônio? É um estado de espírito? É um cavalo alado? É um vento? Um acorde? Um perfume? É o amor?

sábado, 1 de agosto de 2015

ONG SAÚDE CRIANÇA

Ontem recebemos 20 adolescentes da Associação Saúde Criança para um café da manhã dentro do Projeto Café, Pão e Texto. Chegaram atrasados, pois vieram de longe. Então começamos por onde termino: o café da manhã. Eram lindos e coloridos. Mas muito tímidos. Havia um constrangimento. Nem queriam chegar perto da mesa. Enfim comeram e começamos. Falei para eles do Projeto . Gostaram muito do nome. Dois vieram com camisetas pintadas com meus poemas. Contaram que já me conheciam através da Flávia Lins. Comecei com o livro Quem vê Cara não Vê Coração, pedindo a eles que me dessem ditados populares. Estavam silenciosos mas de repente um falou um ditado e outro e todos! Então lemos alguns poemas e foi aí que se soltaram. Fizemos brincadeiras com os poemas. Eles riram muito. Com o livro Poço dos Desejos cada um me disse um desejo. Poucos disseram não ter nenhum desejo. Mas alguns me falaram desejos belíssimos. Um menino desejava felicidade. Uma menina queria conhecer o mundo. Outra queria morar em Londres e Paris. E um outro queria voar para ser livre. Falei pra eles que para isso há que trabalhar e ajudar os desejos. Depois me fizeram perguntas interessantes e provocadoras. Queriam saber tudo. Duas meninas leram seus próprios poemas. No final todos gritaram bem alto seus nomes numa brincadeira que faço com o poema Receitas de se Olhar no Espelho. Sorteamos livros. E eles foram a praia fazer fotos. Voltaram com os pés sujos de areia e os rostos iluminados. Tinham pela frente uma longa viagem de volta para casa.

quinta-feira, 30 de julho de 2015

APRENDENDO UMA LÍNGUA

Juan, meu marido, começou uma atividade maravilhosa: todos os sábados dá uma aula de espanhol para o Igor, neto da minha caseira Vanda, que tem 7 anos. Com apenas três aulas,Igor já sabe os números, os meses, as cores. Já canta uma música linda e faz pequenas frases . Ele se esforça bastante para falar com um belo acento. Quando termina alguma atividade ele dá pulos de alegria. Juan lhe perguntou qual era o dia da semana mais feliz para ele e sem pestanejar respondeu que era o sábado. Juan perguntou o motivo e ele disse que era porque tinha aula de espanhol! Eu perguntei se ele já havia contado no colégio a novidade e ele disse que sim, mas que ninguém acreditou. Nem a professora. Parece que aprender uma língua é algo do outro mundo. As crianças amam aprender uma língua. E por que as escolas não ensinam? Com a facilidade com que aprendem! Fica registrado o meu protesto veemente. Uma nova língua é um tesouro. Mas para isso é preciso investimento. Existem os genocídios visíveis. Mas existem os genocídios invisíveis. Quando num país se rouba como no Brasil, quantos talentos são assassinados? Quantas pessoas são assassinadas por falta de atendimento médico, por falta de hospitais, por falta de remédios? Quando os recursos são roubados e não se investe em saneamento a morte está sendo semeada. Quando o meio ambiente é degradado, rios poluídos e mares e baías, com a morte de tantas vidas, isso é assassinato. Quando os recursos são roubados e não se investe na infância, na cultura, na educação, aumentando e alimentando a roda gigante da violência, quantos assassinatos. No Brasil , com toda a drenagem dos recursos públicos que seriam investidos e não são, assistimos estupefatos a um genocídio invisível.A destruição sistemática de milhares de vidas ceifadas por falta de investimento.

quarta-feira, 29 de julho de 2015

O FILHO ETERNO

Alguns livros chegam com alguns anos de atraso, mas ainda bem que chegam! É o caso do livro O Filho Eterno do Cristóvão Tezza. Foi muito recomendado mas eu não o havia lido. Não havia lido nenhum livro dele. Como vou viajar com o Cristóvão num projeto do Governo de São Paulo, comprei o livro. E fiquei impactada, emocionadíssima, engasgada. Cristóvão se desnuda de uma maneira impressionante e fala dos sentimentos obscuros, aqueles sentimentos e pensamentos terríveis que escondemos debaixo de sete colchões. A partir do nascimento do seu filho Felipe, com Síndrome de Down, ele traça a estrada inteira da sua vida, das suas vivências, dos seus fracassos, medos, fragilidades, ambições, vaidades. Agora só me resta comprar seus outros livros. Alguns livros que amo me chegaram de uma maneira inesperada. Na Feira de Brasília, parei numa livraria e a mulher olhou para mim e me disse: "Não vá embora, tenho um livro para você. E voltou com o livro As Brasas do Sandor Marai que amo de paixão perdida e já li três vezes e depois comprei vários outros livros seus. Mas para mim As Brasas é único. Como ela podia saber? Monica Botkay, minha amiga tão antiga, quando eu tinha 23 anos me emprestou La Vie Devant Soi, do Émile Ajar, pseudônimo do Romain Gary. Enlouqueci. É um dos livros da minha vida. É perfeito. Nunca mais nos separamos.Tive que devolver o livro naquela época. Mas na única vez em que fui a Paris, no meu primeiro dia fui procurá-lo num sebo na beira do Sena e foi o primeiro livro que vi. Walder, meu amigo onde estava hospedada, ao sair do trabalho também foi procurá-lo para mim sem saber que eu já o havia encontrado. E me trouxe uma outra edição. E uma vez , ouvindo o Bartolomeu Campos Queiróz falando em algum evento, de repente ele disse: "todo mundo tinha que ler La Vie Devant Soi". Pronto. Fui fulminada por um raio. Ao sair falei com ele, mas Bartolomeu, esse é um dos livros da minha vida! Ele fez um carinho no meu sapato e sorriu. Agora, por causa do meu amigo Cristiano Mota Mendes estou viajando com Riobaldo e Diadorim, relendo o Grande Sertão: Veredas. Nos falamos por whatsup várias vezes ao dia para discutir o livro, o trecho onde estou. Recebi ontem por correio A Lebre de Vaatanen de Arto Vaasilina, autor finlandês. É uma tradução portuguesa. O livro é delicioso e li em francês na casa da Monica Botkay. Depois já li mais dois livros dele. Ele fala de coisas sérias e densas com um humor maravilhoso. A gente sapateia de rir. Havia indicado o livro para o Clube de Leitura, mas quase ninguém conseguiu comprar, então desistimos.Agora já estou relendo, intercalando. Quando parece que vou explodir de emoção com o Guimarães Rosa passo para ele. Essas são as minhas veredas. Os livros.

terça-feira, 28 de julho de 2015

O DIA

O dia está escuro, carregado, suas nuvens pesadas de água. Sempre gostei de dias assim cinzentos. Como se houvesse dentro do corpo um ninho onde um pássaro tece seu canto que é feito de uma certa melancolia. E nos dias assim, com novelos de bruma, eu vejo o pássaro. Cada dia tem a sua tessitura, não sabemos ainda que alfabeto nos trará. Hoje recebo amigos que moram em Israel. São pacifistas, pró um Estado Palestino, mas a voz da paz não se faz ouvir. Se houver paz os Senhores das Armas não terão trabalho. Eles são os ajudantes da morte e ninguém sabe como podem dormir, comer, caminhar, com tantos assassinatos , com tanto sangue nas solas dos sapatos. Mas eu acredito na paz. E não estou sozinha. A poesia é o que tenho para oferecer. E pão, que eu mesma faço.E o meu amor imenso por tudo o que é vida. Sexta-feira recebo um grupo de 20 adolescentes. São jovens ávidos por livros. Flavia Lins trabalha leitura com eles, numa ONG que cuida da saúde de seus irmãos doentes. Então mostrarei a eles o jardim luxuriante atrás da casa, onde antes só havia areia. O milagre da vida. Basta uma semente e um pouco de água. E cuidado. Mostrarei meus livros, vamos ler juntos os meus poemas. O esboço da manhã do nosso encontro já dança no ar, como roupas coloridas num varal.

segunda-feira, 27 de julho de 2015

DORES OBSCURAS

Martha Medeiros escreveu um belo artigo ontem, na Revista de Domingo do Jornal O Globo, sobre sentimentos inomináveis, dores obscuras, para os quais não existem palavras. Todos nós, humanos, somos capazes de fazer uma lista destes sentimentos. Quando criança e até muito tarde eu tinha um sentimento horrível de não pertencimento. De repente a dor do outro entra dentro de mim de uma tal maneira que não posso suportar. Às vezes a emoção de alguma vivência é tão grande que o corpo quase não aguenta, o corpo fica pequeno para aguentar tal emoção. Ela descreve as suas vivências, diferentes das minhas e das tuas para falar do trabalho de um americano que está no youtube e se chama John Koenig, que fez uma série c hamada "Dicionário das dores obscuras". A ideia é maravilhosa. E ela termina dizendo : "A poesia é o verdadeiro dicionário das dores obscuras".

domingo, 26 de julho de 2015

DONA CONCEIÇÃO

Dona Conceição tem 96 anos. Mora sozinha em São João Del Rey. Hoje, domingo, dia 26 de julho de 2015, Dona Conceição está deixando sua cidade para trás, suas raízes, seus parentes, amigos, vizinhos, está mudando de vida. Tem sonhos, novos planos.
Ela é a mãe da Vanda, nossa caseira e decidiu comprar uma casinha aqui em Saquarema. Comprou uma casinha na Barreira, um bairro ainda rural, inacabada e já vem vindo, entusiasmadíssima , de malas e cuias, para terminar a casa e se instalar. A mudança veio antes. Ela planeja o que vai fazer, as cores dos cômodos, a cor da casa. Vai continuar morando sozinha, mas quer ficar perto da filha e dos netos e bisnetos nos próximos anos.
Então acho que a Dona Conceição nos dá uma grande aula. Uma aula de vida. Podemos sonhar e mudar tudo até o último minuto!
Enquanto escrevo ela está na estrada. De São João Del Rey até Saquarema são oito horas de viagem!
Ela é bem bonita, mestiça, toda elegante, como se diz na roça, sacudida! Ainda cozinha muito bem e espero que me faça uma broa de milho assada na folha da bananeira na inauguração da casa.

sábado, 25 de julho de 2015

UM PASSEIO

Hoje fomos caminhando até a Feirinha perto da Vila pelas margens do aeroporto para comprar tapioca. O aeroporto daqui de Saquarema não tem pista, é só gramado. Ali, na beira do aeroporto as casinhas ainda são do tempo em que a cidade era um vilarejo de pescadores. São casinhas de pescadores, miudinhas, singelas.
O brasileiro se vira. Cada um como pode. Passo na porta de uma casa e um cartaz diz: "Explicadora formada".
Numa outra casa: "Vende-se sacolés"
E em cinco casas vejo um barzinho na calçada com mesas e cadeiras toscas. Uma improvisação. Num desses estabelecimentos, a janela estava aberta  e havia um balcão com algumas garrafas e imagens de Nossa Senhora.
Dá uma ternura. Uma vontade de chorar como na música do Chico. É gente simples e que faz o que pode para sobreviver.
Na barraca da tapioca se pode comer tapioca feita na hora e também pastéis, caldo de cana, bolinhos de aipim.
Há uma outra barraca que faz churrasquinho com farofa.
Amo as feiras. Viro criança num segundo e me vejo lá longe, na minha infância, com a Eunice, minha mãe negra, comendo quebra-queixo, que me levava direto para Pasárgada sem eu saber que Pasárgada existia.

sexta-feira, 24 de julho de 2015

SUPERAÇÃO

Em agosto o médico que operou a minha coluna me dará alta. Seis meses depois da cirurgia. Ainda não pude voltar para o Pilates, só em agosto.
Mas já consegui um ritmo. Estou caminhando 40 minutos todos os dias. Eu e Juan andamos pelas ruas de dentro. São belas, calmas.
É uma conquista tão impressionante que às vezes nem acredito. Antes da cirurgia não podia ir nem até a esquina.
Sou disciplinada. A caminhada é sagrada. E me dá uma dose de bem estar tão grande que fico eufórica.
Faço meditação. É tão difícil meditar. Mas a meditação é o que me dá a fortuna de estar centrada. A meditação me dá de presente o presente! Viver intensamente o que se faz no momento em que se faz. É magnífico. Fazer meditação todos os dias, caminhar, aprender uma língua nova. Tudo isso requer um esforço. Mas o resultado dentro da gente surpreende.
Ontem alguém me perguntou: qual é o seu lazer? Bom, não posso dizer que a leitura seja um lazer. Ler para mim é respirar. Então acho que tudo o que faço é lazer, porque viver para mim é lazer. Já quase morri algumas vezes, então estar viva é impressionante.
Mesmo quando estou fazendo uma tarefa aborrecida, tento colocar algo bom, algum prêmio.
Enquanto escrevo penso: descobriram um planeta gêmeo da Terra, tão longe. tão longe, mas o pensamento o alcança, em toda a sua maravilha.

PARA VER O MUNDO

Para ver o mundo
há que afiar os olhos
com a luz do sol
e da lua
e nos lume dos olhos
do outro.

Então as cores acordam
como flores raras
e pequenas felicidades
(ou sofrimentos)
esvoaçam pela superfície do dia

in Cinco Sentidos e Outros (Lê editora).

quinta-feira, 23 de julho de 2015

SIGNIFICADO

Ontem escrevi uma carta para uma sobrinha espanhola. Ela me perguntava em sua carta o que tenho feito e eu respondia:
Alimento meu Clube de Leitura com belos pensamentos constantes, (amo cada um dos participantes) e com livros.  Nos encontramos de dois em dois meses e no último encontro, Gil, que antes não era leitora, nem sabia como expressar a vastidão do mundo que se abriu para ela.
Recebo escolas públicas aqui em casa para um café da manhã ou almoço comigo.O encontro e feito de várias vivências maravilhosas.
Recebo professores para lhes dar uma pitada da minha loucura.
E me envolvi agora com a construção de uma escola em Burkina Faso, África, numa aldeia paupérrima e perdida que jamais visitarei, pois não tenho condições físicas para isso.
A escola que será construída arrebatou meu coração, pois os habitantes da aldeia não pedem nada e falta tudo. Mas eles querem uma escola para os pequenininhos, uma escola de ALVENARIA e não de palha e barro como suas casas. Eles querem que a escola dure para sempre.
Monique Malfatto entrou na minha casa pelas mãos da Monica Botkay no dia em que recebia uma escola de Duque de Caxias. Ela vive três meses na África com eles e o resto do tempo entre França e Itália para conseguir doações. Esta será a terceira escola de uma aldeia de 600 habitantes. A primeira era muito pequena. A segunda já era maior e cabia bastante gente. E agora a terceira que ajudaremos a construir será para o maternal.
Quando a escola fica pronta o Estado assume , mandando os professores. É a primeira geração que saberá ler e escrever. As escolas são bilíngues. Aprendem na sua língua e em francês.
Quando acabei de escrever a carta, eu me perguntei: o que significa tudo isso? Acho tão pouco tudo o que faço, às vezes.
Mas tudo isso "me significa", me dá sentido, me mantém viva e pulsante.
Aplico na minha vida diária o conceito africano de UBUNTU. Eu sou eu mas também sou você.
Estou fazendo uma campanha no facebook para quem quiser me ajudar. Você pode entrar em contato comigo.
Minha irmã Evelyn Kligerman e meu cunhado Luis farão juntos uma placa de cerâmica para embutir na parede da escola. E já sei o que quero escrever:

Une école pour toujours               Uma escola para sempre
Comme un puits                           Como um poço
Les amis brésiliens sont ici.          Os amigos brasileiros estão aqui.

quarta-feira, 22 de julho de 2015

O VENTO

Ontem veio o vento. De repente entrou cantando num redemoinho, varreu a varanda, encheu a varanda de folhas, virou o mar do lado do avesso, trouxe a chuva.
Em nosso encontro de sábado , do Clube de Leitura, Ronaldo cantou um poema do Manuel Bandeira que amo de verdade. Aliás amo tudo o que ele escreveu. É um dos poetas da minha vida:

CANÇÃO DO VENTO E DA MINHA VIDA

O vento varria as folhas,
O vento varria os frutos,
O vento varria as flores...
   E a minha vida ficava
   Cada vez mais cheia
   De frutos, de flores, de folhas.

O vento varria as luzes
O vento varria as músicas,
O vento varria os aromas...
   E a minha ida ficava
   Cada vez mais cheia
   De aromas, de estrelas, de cânticos.

O vento varria os sonhos
E varria as amizades...
O vento varria as mulheres.
   E a minha vida ficava
   Cada vez mais cheia
   De afetos e de mulheres.

O vento varria os meses
E varria os teus sorrisos...
O vento varria tudo!
   E a minha vida ficava
   Cada vez mais cheia
   De tudo.

Manuel Bandeira

segunda-feira, 20 de julho de 2015

MIGUILIM

Receber Miguilim em nossa casa foi uma experiência única e maravilhosa.
Este encontro do Clube de Leitura da Casa Amarela foi especial pois festejávamos também o aniversário do Juan.
Amigos mais do que amigos chegaram cedo do Rio e a varanda já estava arrumada para o almoço com as mesinhas que alugo cobertas com as lindas toalhas de chitão florido. A varanda fica parecendo um imenso jardim.
Um pão acabava de sair do forno quando chegaram Messias , Kátia e Monique. Fizemos um botequinzinho com café e pão quente com queijo. E logo chegaram Cristiano, Ana e Ronaldo com seu violão para as muitas surpresas. O botequim foi crescendo. Chegaram Norma Estrela e Dirceu. Chegaram César e Fátima.
E finalmente chegaram  Hélio e Fernando, Chico, Gil.
Entramos, nos sentamos.  Quis começar pelo fim, marcando a nova data e indicando os livros:
Dia 10 de outubro. Judas, do Amoz Oz e A Última escala do Velho Cargueiro do Alvaro Mutis. E li a linda carta da professora Zete.
Cristiano que estuda Guimarães Rosa desde a sua juventude, também fez a proposta de começar pelo fim. Mas eu não resisti e quis falar só um pouquinho do começo, quando Miguilim traz para a sua mãe o grande presente: alguém lhe disse, na sua viagem com Tio Terez, que o Mutum é bonito. E como ele queria levar esta frase de presente para a sua mãe! Assim ela não ficaria mais triste suspirando pelos cantos! E ela nem ligou, aprisionada que estava naquele lugar, naquele triângulo amoroso que Miguilim e seu irmão Dito intuíam.
Mas Cristiano puxou o fio para o fim, para o médico que traz os óculos e  finalmente Miguilim pode ver tudo e finalmente pode ir embora, a promessa que fez lá atrás quando Dito havia lhe ensinado que pagar uma promessa antes do pedido ser realizado é muito bom. Os óculos são o seu ritual de passagem. Messias falou um pouco dos rituais de passagem em algumas culturas.
Chico e César falaram que o livro contava a infância deles.
Messias contou que seu tio tinha uma fazenda onde passava a infância que era perto realmente do Mutum. E que ele havia vivido aquelas maravilhas.
Gil falou que o livro também era a sua infância no interior do Maranhão.
Ronaldo cantou uma música que ele fez para um espetáculo que faz a síntese do livro e fala lindamente do Miguilim não é alegre e não é triste. Nos apaixonamos pela música e
cantamos o refrão.  
Maria Clara leu um poema que fez, lindíssimo, sobre o Miguilim.
Falamos um pouco sobre tudo, a sensibilidade das crianças, o amor entre os irmãos, a morte do Dito, o ritual que a preta velha Mãiitina faz com Miguilim, a sensualidade da mãe, a tragédia da família. Seria Miguilim filho do Tio Terez?
Falamos um pouco de cada personagem.
Todos falaram que ninguém no mundo jamais descreveu a natureza como Guimarães Rosa . Cores, cheiros, animais, sensações.
Todos nós vivemos no Mutum enquanto líamos o livro. E eu confesso que jamais sairei de lá. Assim como passei a minha infância no Sítio do Pica Pau Amarelo, agora vivo para sempre no Mutum, dentro das suas matas. Nas suas veredas.
Juan , que passou a sua infância numa aldeia pobre no interior da Galícia , disse que dentro do livro estava em casa, pois foi aquilo que viveu. E lembrou que antigamente as crianças viviam no mundo real. Tocavam as coisas, viam a vida acontecer e morrer e que hoje vivem no mundo virtual. Ainda não temos distanciamento para saber o que é isso. E também disse que ele descreve um mundo que logo acabará, pois 80% da população já saiu do campo para as cidades
Devo dizer que nunca li e reli nenhum livro mais belo na minha vida. E que se alguém não leu corra para ler pois ninguém pode viver sem Miguilim.
Ana e Ronaldo prepararam uma surpresa para o Juan: cantaram Se Todos fossem iguais a Você, do Vinicius. Ana tem uma voz maravilhosa.
Todos leram poemas do Vinicius e fechamos o encontro cantando Uma Tarde em Itapuã. Coral do grupo!
Vanda preparou a melhor feijoada do mundo. Havia empadão de legumes para quem não come carne.
Cantamos parabéns com violão e tudo. E celebrar a vida e a literatura alimenta a nossa chama de vida.

sexta-feira, 17 de julho de 2015

CARTA

Ontem recebi uma carta de uma professora, por correio, verdadeiramente impactante.
A carta é muito longa e transcreverei alguns trechos. A professora se chama Eliane.

Curitiba, 09 de julho de 2015

Cara Roseana,

   É com grande expectativa que lhe escrevo novamente, porém desta vez com uma expectativa bem maior
    Sou professora do quarto ano da Rede Municipal de Curitiba. Nossa escola se localiza num bairro de periferia e nossos alunos vivenciam várias situações: violência, drogas, assaltos e com baixo nível de escolaridade das famílias. Atualmente .a comunidade vem recebendo muitas famílias de Alagoas e algumas agora vindas do Haiti.
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   No início do ano letivo , tivemos um encontro pedagógico no Núcleo de Educação do bairro que pertence a nossa Escola CEI Professor Antonio Pietruza. Lá a professora do curso apresentou sugestões de textos de sua autoria a serem trabalhados com os alunos. Salientei naquele momento, que eu já havia programado em trabalhar neste ano novamente alguns textos seus, pois obtive resultados surpreendentes e que na época também lhe escrevi juntamente com meus alunos. Foi uma troca de experiências!
   Como não foi diferente, desenvolvi um projeto englobando Língua Portuguesa e Matemática.
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   No decorrer do projeto vimos como os alunos foram ficando encantados com a leitura dos seus textos. Um belo dia, uns alunos cogitaram a ideia de lhe escrever e muitos riram pois disseram que autores-escritores não tem tempo... Foi aí que comentei que há uns anos atrás uma turma minha também pensava assim, e você provou ser diferente! Não deixou seus leitores "na mão". Lembro hoje como tudo aconteceu...
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   Nesta última semana , me emocionei muito na reunião de pais, com um relato da mãe do João Andrei. Ele é um aluno com muita dificuldade em Língua Portuguesa, tem todo um histórico, faz atendimentos e sala de recurso. Contei à mãe que percebi avanços neste último mês na aprendizagem: já está lendo lentamente e formando pequenos textos, o que não acontecia . A mãe, imediatamente, relatou-me a mudança de comportamento de seu filho, disse-me que vem lendo mais e está pedindo muito a ela que compre um livro da Roseana Murray porque a professora Eliane leva textos legais desta autora. Meus olhos encheram-se de lágrimas de emoção, saber que através de seus textos consegui despertar o interesse de um aluno de quarto ano à leitura e escrita. Isto é gratificante, e você Roseana, é parte desta conquista deste aluno! Bem, se fossemos eu e a professora Rosiméri relatar as nossas experiências ficaríamos um tempão falando...
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Bom, a carta continua . Ela me conta o quanto gostaria de trazer seus alunos para o meu projeto Café, Pão e Poesia, mas é tão longe...E seus alunos me escreveram e me enviaram cópias de seus próprios poemas e também desenhos. Hoje vou ao correio levar a resposta e estou enviando um livro.
Transcrevo trechos desta bela carta para mostrar a força da poesia.
A poesia é terapêutica . A poesia abre estradas dentro do corpo e da alma. A poesia fez com que um aluno ml alfabetizado, com muitos problemas, retomasse a leitura e a escrita.
Obrigada Eliane, por me fortalecer.

quinta-feira, 16 de julho de 2015

CHEGADA

Cheguei ontem de Visconde de Mauá. Seis horas e meia de viagem, mas acontece que não são essas horas apenas. É a passagem de uma dimensão para outra. Fico muito cansada. Como se tivesse feito uma viagem interplanetária.
Na minha casinha dentro da mata nem o telefone recebe sinal. Sem internet , sem televisão, sem notícias.
Na última manhã, antes de ir embora, enquanto arrumava tudo, um esquilinho gritava na varanda. Estava no limoeiro a um palmo da minha mão. Acho que me dizia adeus.
Aqui estou, na minha mesa, o mar maravilhosamente azul atrás de mim, está tão calmo que nem fala. Rumino as notícias, rumino o mundo.
Mas sábado temos o encontro do nosso Clube de Leitura com a presença de muitos amigos. Nosso Clube já é uma família, fortes laços nos amarram, as cordas sonoras da literatura.
Discutiremos Miguilim do Guimarães Rosa, de uma beleza estonteante.
E sairemos fortalecidos para aguentar o peso do mundo.

quinta-feira, 9 de julho de 2015

NA MONTANHA

Hoje estou conectada pois vim até o ateliê de cerâmica da minha irmã Evelyn Kligerman e meu cunhado Luis Mérigo. Cada vez que venho a Mauá ela passa um dia comigo na minha casinha e eu desço para passar o dia com ela aqui no Vale do Maringá.
Impossível descrever a minha felicidade todos os dias. Nem tentarei. Como a Bia Hetzel sabe, pois publicou meu livro Diário da Montanha e agora contei para o Cristiano Mota Mendes, e agora conto para todos , eu também sou árvore além de gente (aliás sou muito melhor como árvore do que como gente) e é na montanha. dentro da mata, que posso ser o que sou de verdade, sem medo de mim.
Cada dia é único em sua imensa felicidade. Acendo o fogo bem cedinho e os jacus já estão fazendo a sua primeira reunião, os guaxos gritam suas belas palavras e quando dou sorte vejo esquilos subindo e descendo o primeiro tronco que minha vista alcança.
Meu grande sonho era ver uma onça.
E como a onça do Rosa eu vou andando e falando, bom, bonito, bom, bonito...

terça-feira, 30 de junho de 2015

UNI(r)VERSOS

Ontem fui a Bacaxá, o bairro de Saquarema onde se encontra todo o comércio. Fui ao contador fazer algo muito desagradável, um certificado digital que o governo inventou para tirar mais um pouquinho de dinheiro da gente. Para fazer uma inscrição e ganhar uma carteirinha, 370,00!
Mas seguindo a minha filosofia de vida, em cada momento tem que haver algo bom. Então me sentei na padaria Bela Bel para um pingado e fiquei ali olhando o movimento, vendo toda a gente passar. Vi o maluquinho que era meu amigo, mas ontem estava tão exaltado que passou por mim esbravejando e nem me viu. Durante anos ele passava por nossa casa e eu lhe dava um café com leite e pão com manteiga ou bolo e ficávamos conversando no portão as suas conversas sem nexo. Um dia ele me pediu uma camisa pois a sua realmente já estava bem esfarrapada. Fui até o armário do Juan e apanhei uma camiseta vermelha quase nova. Ele olhou, examinou e me devolveu dizendo: _"Não gosto de vermelho. Não tem azul?" E não levou mesmo a camiseta quase nova! Eu achei incrível.
Eu estava ali, sentada e divagando, fazia um solzinho bom, o pingado era tão bom, era tudo bom naquele momento. Aí chegou alguém perto de mim e me disse: "_ Eu sabia que ia te encontrar!"
Era o poeta Jota de Jesus, o poeta de Saquarema. Ele é um grande trovador e ganha todos os concursos. Nosso amigo Chico Peres, antes de ser vereador, isso é importante, pois não foi com dinheiro público, mas sim do seu bolso, financiou um livro para ele e se chama Uni(r)versos.
As trovas do Jota de Jesus são geniais. Ele é um filósofo em suas trovas. A poesia é a sua vida, o que ele respira e mastiga e é um andarilho, está em todos os lugares, com uma pasta de poemas inéditos e seu livro debaixo do braço.
REVELAÇÃO
Na fotografia
     sou aquele,
que o flash quase esqueceu.
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ACUADO
Não posso falar,
nem ouvir, nem calar...
cantar, sorrir, chorar,
   não posso!
O que fazer?
...sonhar!
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Se nada posso fazer
em relação ao destino,
que eu viva pensando ser
sempre um eterno menino.
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Ele parece mesmo um menino, tão franzino. Nos despedimos, ele seguiu seu caminho e eu ainda fiquei um tempo sentada, pensando.

Hoje vou para Resende ao encontro do meu filho, nora e neto. Amanhã subo para a montanha onde não tenho internet e na minha casinha nem o celular funciona.
Levo livros e a minha paixão pela montanha.
Vou desaparecer até o dia 16. Até a volta e de vez em quando me mandem um pensamento bom.

segunda-feira, 29 de junho de 2015

FRUTOS DIÁFANOS

Recebo de presente o belo livro de poesia de Alfredo Garcia-Bragança.
Seus frutos diáfanos que nosso olhar atravessa e sua sombra, o que dá peso e consistência ao poema . A sombra da memória que todos carregamos, o invólucro dos nossos ossos, os gestos repetidos de algum antepassado, o que se viveu e que se leva nos bolsos feito migalhas de pão para alimentar os pássaros, para alimentar a vida.

O PESO DA MEMÓRIA

Carrego em cima dos ombros
o peso dessa memória
repleta de odores e
sabores do tempo e quando.

Carrego em cima dos ombros
o peso dessa memória:
ectoplasmas de pijama
andam nas ruas-lembranças.

Eu carrego nas retinas
o peso dessa memória:
nas esquinas do que eu fui
dessoterrados desejos.
Eu carrego nas retinas
o peso dessa memória:
olhares varrem quintais
do "paraíso perdido".

Eu carrego pela vida
o peso desa memória,
umbigo solto no mundo,
à espera de ser história.

in Frutos Diáfanos, Alfredo Garcia-Bragança, Obra premiada pelo Instituto de Artes do Pará, Prêmio Max Martins, INP
 

domingo, 28 de junho de 2015

MONIQUE&MONICA

Monique, minha nova amiga francesa, que chegou até a minha casa pelas mãos da minha grande amiga Monica, chegou para ficar, embora tenha partido hoje de volta para o Rio.
Monique faz o trabalho mais belo do mundo. Ela escolheu um país na Africa, Burkina Faso, neste país ela escolheu uma cidadezinha , neste lugar ela escolheu um povoado onde não existe nada, nem água nem luz, pouquíssima comida. Eles basicamente se alimentam de "mil", um cereal que não existe aqui.A pobreza é absoluta. Ela perguntou no povoado o que eles gostariam e ela ela tentaria recursos para fazer. Uma escola, eles responderam. Eles disseram que eram analfabetos e gostariam que seus filhos soubessem ler e escrever.
Ela voltou para a França , buscou associações e finalmente conseguiu recursos na Suíça.
A primeira escola foi construída. Agora ficou pronta a segunda escola.
As aulas são no idioma deles e quando já estão alfabetizados começam a estudar também em francês.
Monique passa três meses por ano neste lugar.
Depois da escola eles disseram que gostariam de ter algumas cabras.
Monique conseguiu recursos para comprar algumas cabras e construir seus cercados.
Ela fez uma campanha para as cabras e teve muito êxito.
Agora as crianças podem beber leite de cabra.
Agora Monique quer construir uma terceira escola para fazer um maternal.
Conhecer alguém assim é o maior presente que eu poderia receber.
Fazer alguma coisa pelo outro, doar algo do que temos para quem tem tão pouco, isso faz com que a vida realmente adquira um sentido.
Ela ficou encantada com a Escola de Magé , Magid Repani, que veio aqui para o Café, Pão e Poesia.  Ela contou a sua experiência para as crianças.
Conversamos muito e nós duas pensamos igual: não podemos mudar o mundo, mas podemos trabalhar no pequeno. Eu dei de presente para as crianças de Magé um dia maravilhoso para a sua memória. Cada criança foi tocada.  Monique conseguiu fazer uma escola num povoado perdido em Burkina Faso. Os adultos lhe disseram: Você salvou nossos filhos da escravidão. Agora eles sabem ler.

sexta-feira, 26 de junho de 2015

VISITAS ESPECIAIS

Quase ao mesmo tempo, um ônibus escolar encostou hoje pela manhã na porta da minha casa e minha amiga Mônica também trazendo sua amiga francesa, a Monique.
Era a E.M.Municipal Prefeito Magid Repani, do Município de Magé, pelas mãos da professora Kátia. Todas as professoras eram maravilhosas, tão amorosas, cuidadosas, fantásticas.
Primeiro descemos todos ao jardim e contei para eles que o jardim magnífico que temos antes era um areal.
Depois, na varanda, no chão forrado com colchas e almofadas, nos bancos, era um jardim de crianças lindas.
Fiz com eles brincadeiras com poemas e finalizamos com o livro Carona no Jipe, depois da leitura eles me contavam para onde gostariam de ir. Muitos queriam ir para Londres, Paris, Barcelona, Rio e outros queriam voltar para Magé.
Aí a surpresa:   Monique, a francesa, trabalha três meses por ano em Burkina Faso na África. Num lugar muito remoto, sem água, sem luz, sem nada, na beira do deserto.
Ela foi para lá ajudar a fazer uma escola. E contou tanta coisa, a gente ia traduzindo. Contou que na época da grande fome as crianças comem apenas três vezes por semana.
Falou do trabalho na escola, como os pais lhe disseram que ela ajudou a tirar as crianças da escravidão. Falou da dignidade deles, de sua criatividade e beleza.
Contou as coisas mas emocionantes e nos mostrou fotos. E pediu para entrelaçar as duas escolas, a de Magé e a de Burkina Faso. Quer que as crianças de um país conheçam a do outro.
As crianças tomaram chocolate quente com bolo e sanduichinhos e biscoitos . Foram até o mar. A metade da turma não conhecia o mar.
Foi um dos encontros mais emocionantes do mundo.
Sorteei alguns livros, Juan autografou e ensinou algumas frases em espanhol para eles. Aprenderam a dizer bonjour!
Cada encontro é tão diferente do outro. E me deixa em estado de graça.

quinta-feira, 25 de junho de 2015

ALEGRIAS

Conversava com meu  amigo Cristiano e minha irmã Evelyn em como está difícil sobreviver emocionalmente a tanta notícia ruim no Brasil e no mundo. Os dois me dizem : há que se agarrar nas pequenas alegrias com todas as forças, e nos amigos, para conseguir enfrentar essa onda de más noticias.
Claro que concordo. Amanhã recebo uma escola para um café da manhã no meu projeto Pão, Café e Texto, já tenho duas escolas para agosto e uma para setembro. Este projeto é uma das maiores alegrias da minha vida.
Dia 1 vou para a montanha virar árvore. Desligo de tudo. Fico 15 dias e estarei com filhos e netos. Muitos amigos prometeram me visitar.
Estar dentro de um pedaço de mata é sim a maior alegria da minha vida.

quarta-feira, 24 de junho de 2015

DIRETORES E COORDENADORES

Pelas mãos do Valdinei e da Secretaria de Educação de Saquarema chegaram hoje de manhã, manhã de sudoeste e chuva, até a minha casa para um café da manhã, trinta e cinco coordenadores e diretores de Escolas Municipais. Tivemos que nos apertar na sala, era impossível ficar na varanda.
A mesa do café estava linda: A Secretaria triuxe canjica, bolo de fubá, bolo de aipim, paçoca. doce de leite... Puro São João.
Conversamos sobre muitos temas, foi muito bom. Desde intolerância religiosa até educação sexual na escola. Conversamos sem medo.
Li um texto da Bia Hetzel, a Fada da Literatura, li um conto do meu livro Exercícios de Amor, Lê ed.. Li um texto maravilhoso sobre educação, resumo de um dos tantos Congressos de Educação. Eram 10 pontos para uma educação de qualidade.
Mostrei como através de um conto se pode falar de prevenção de gravidez precoce e aids.
Algumas diretoras contaram lindas histórias de superação.
Terminamos com todo mundo se abraçando.
E embora até agora nenhuma escola tenha vindo participar do meu Café, Pão e Poesia, hoje uma escola daqui de Saquarema se inscreveu . Tomara que venha mesmo. Estes encontros são alimento para todos.

terça-feira, 23 de junho de 2015

TIC-TAC

Lucia Pellon, uma amiga virtual, foi ao Salão do Livro para me conhecer. Ela me disse que estudou no mesmo colégio que eu, no maternal. Talvez até na mesma sala.
Eu era muito pequena. Teria no máximo 4 anos. As minhas lembranças da escola são pura neblina.
Mas lembro que detestava ir para a escola e como tinha um diálogo constante com meu anjo da guarda, eu pedia que ele fizesse a babá esquecer o caminho. Mas ela nunca esquecia.
Às vezes meu irmão mais velho me levava de bicicleta. Eu repetia o pedido. Mas o meu anjo não ouvia e eu sempre chegava na escola.
Eu vomitava todos os dias na escola. Já tinha uma muda de roupa para trocar.
Não sei o motivo.  
Ainda bem que todos os medos e fragilidades transformei em poesia.
A criança tem um mundo imenso dentro de si, galáxias de sentimentos.
Acabei de reler Miguilim do Guimarães Rosa para o Clube de Leitura da Casa Amarela e acho que foi o livro que melhor conseguiu expressar esse emaranhado dos sentimentos infantis.
Agora estou profundamente mergulhada no Grande Sertão: Veredas . A leitora de vinte anos, quando li o livro,  é muito diferente da leitora de hoje.
Ontem me pediram para citar três livros preferidos. Não há tarefa mais difícil. Mas se eu fosse para os anéis de Saturno e só pudesse levar três livros...
Tic-Tac, a escola que desapareceu no começo da minha infância me diz como o tempo desaparece. Está dentro das mãos em concha, quero guardá-lo, tictac, ele se esvai.

segunda-feira, 22 de junho de 2015

CHAVES PARA A FELICIDADE

Li um artigo tão bom no El País que vou copiá-lo aqui. Sei que nem todos conseguem ler em espanhol, mas com algum esforço dá para entender algumas coisas. Quem sabe a partir deste artigo o meu leitor ou a minha leitora ficam loucos de vontade de aprender espanhol? Aprender uma lingua é algo maravilhoso. Lá vai:

"Cada vez parece más claro que la nueva fiebre del oro no tiene que ver con hacerse millonario ni con encontrar la fuente de la eterna juventud. El tesoro más codiciado de nuestros tiempos es atesorar felicidad, un concepto abstracto, subjetivo y difícil de definir, pero que está en boca de todos. Incluso es materia de estudio en la prestigiosa Universidad de Harvard.
Durante varios años, algunos de los estudiantes de Psicología de esta universidad americana han sido un poco más felices, no solo por estudiar en una de las mejores facultades del mundo, sino porque, de hecho, han aprendido a través de una asignatura. Su profesor, el doctor israelí Tal Ben-Shahar, es experto en Psicología Positiva, una de las corrientes más extendidas y aceptadas en todo el mundo y que él mismo define como “la ciencia de la felicidad”. De hecho, sostiene que la alegría se puede aprender, del mismo modo que uno se instruye para esquiar o a jugar al golf: con técnica y práctica.

Aceptar la vida tal y como es te liberará del miedo al fracaso y de unas expectativas perfeccionistas
Tal Ben-Shahar, profesor de Harvard
Con su superventas Being Happy y sus clases magistrales, los principios extraídos de los estudios de Tal Ben Shahar han dado la vuelta al mundo bajo el lema de “no tienes que ser perfecto para llevar una vida más rica y más feliz”. El secreto parece estar en aceptar la vida tal y como es, lo cual, según sus palabras, “te liberará del miedo al fracaso y de unas expectativas perfeccionistas”.
Aunque por su clase de Psicología del Liderazgo (Psychology on Leadership) han pasado más de 1.400 alumnos, aún así cabría hacerse la siguiente pregunta: ¿Alguna vez se tiene suficiente felicidad? "Es precisamente la expectativa de ser perfectamente felices lo que nos hace serlo menos”, explica.
Estos son sus seis consejos principales para sentirse afortunado y contento:
1. Perdone sus fracasos. Es más: ¡celébrelos! “Al igual que es inútil quejarse del efecto de la gravedad sobre la Tierra, es imposible tratar de vivir sin emociones negativas, ya que forman parte de la vida, y son tan naturales como la alegría, la felicidad y el bienestar. Aceptando las emociones negativas, conseguiremos abrirnos a disfrutar de la positividad y la alegría”, añade el experto. Se trata de darnos el derecho a ser humanos y de perdonarnos la debilidad. Ya en el año 1992, Mauger y sus colaboradores estudiaron los efectos del perdón, encontrando que los bajos niveles de este hacia uno mismo se relacionaban con la presencia de trastornos como la depresión, la ansiedad y la baja autoestima.
2. No dé lo bueno por hecho: agradézcalo. Cosas grandes y pequeñas. "Esa manía que tenemos de pensar que las cosas vienen dadas y siempre estarán ahí tiene poco de realista".
3. Haga deporte. Para que funcione no es necesario machacarse en el gimnasio o correr 10 kilómetros diarios. Basta con practicar un ejercicio suave como caminar a paso rápido durante 30 minutos al día para que el cerebro secrete endorfinas, esas sustancias que nos hacen sentir drogados de felicidad, porque en realidad son unos opiáceos naturales que produce nuestro propio cerebro, que mitigan el dolor y causan placer, según detalla el entrenador de easyrunning y experto corredor Luis Javier González.
4. Simplifique, en el ocio y el trabajo. “Identifiquemos qué es lo verdaderamente importante, y concentrémonos en ello”, propone Tal Ben-Shahar. Ya se sabe que “quien mucho abarca, poco aprieta”, y por ello lo mejor es centrarse en algo y no intentarlo todo a la vez. Y no se refiere solo al trabajo, sino también al área personal y al tiempo de ocio: “Mejor apagar el teléfono y desconectar del trabajo esas dos o tres horas que se pasa con la familia”.
5. Aprenda a meditar. Este sencillo hábito combate el estrés. Miriam Subirana, doctora por la Universidad de Barcelona, escritora y profesora de meditación y mindfulness, asegura que “a largo plazo, la práctica continuada de ejercicios de meditación contribuye a afrontar mejor los baches de la vida, superar las crisis con mayor fortaleza interior y ser más nosotros mismos bajo cualquier circunstancia”. El profesor de Harvard añade que es también un momento idóneo para manejar nuestros pensamientos hacia el lado positivo, aunque no hay consenso en que el optimismo llegue a garantizar el éxito, sí le aportará un grato momento de paz.
6. Practique una nueva habilidad: la resiliencia. La felicidad depende de nuestro estado mental, no de la cuenta corriente. Concretamente, “nuestro nivel de dicha lo determinará aquello en lo que nos fijemos y en las atribuciones del éxito o el fracaso”. Esto se conoce como locus de control o 'lugar en el que situamos la responsabilidad de los hechos', un término descubierto y definido por el psicólogo Julian Rotter a mediados del siglo XX y muy investigado en torno al carácter de las personas: los pacientes depresivos atribuyen los fracasos a sí mismos, y el éxito, a situaciones externas a su persona; mientras que la gente positiva tiende a colgarse las medallas, y los problemas, “casi mejor que se los quede otro”. Sin embargo, así perdemos la percepción del fracaso como 'oportunidad', que tiene mucho que ver con la resiliencia, un concepto que se ha hecho muy popular con la crisis, y que viene prestado originariamente de la Física y de la Ingeniería, con el que se describe la capacidad de un material para recobrar su forma original después de someterse a una presión deformadora. "En las personas, la resiliencia trata de expresar la capacidad de un individuo para enfrentarse a circunstancias adversas, condiciones de vida difíciles, o situaciones potencialmente traumáticas, y recuperarse saliendo fortalecido y con más recursos”, afirma el médico psiquiatra Roberto Pereira, director de la Escuela Vasco-Navarra de Terapia Familiar"

domingo, 21 de junho de 2015

SALÃO DO LIVRO

Ontem tive uma grata surpresa no Salão do Livro. Era um sábado, dia em que as escolas estão ausentes do Salão, achei que não ia ter nenhum público. Mas, depois de um encontro muito feliz com a Carolina, minha editora da Rovelle, fui para o espaço de Encontro com os Leitores. Lá estava a Miriam, de coordenadora, foi ela quem me levou para a Rovelle, e eu a adoro. Comecei com umas poucas pessoas e de repente um sol inteiro entrou pela sala . Era uma escola de Duque de Caxias, onde tenho muitos leitores. Eram pré adolescentes e adolescentes e foi uma alegria só! Fizemos mil brincadeiras, eles eram maravilhosamente participativos.
Depois chegaram Bia Hetzel e Silvia Negreiros, minhas editoras amadas da Manati. Almoçamos juntas. Na saída do almoço encontrei o Rui de Oliveira, fomos grandes amigos no passado e não nos víamos desde muito tempo!
Ás 14 horas fui para o espaço dos autógrafos e a surpresa: muitos amigos foram me ver.
Monica Botkay, Cristiano e Ana, Lourdes de Oliveira e Stella Maris, a grande escritora! E como se não bastasse chegou a ilustradora do Colo de Avó, a Elizabeth Teixeira!
Foi uma festa. Nosso tempo se esgotou e fomos para o stand da Manati. Conheci várias amigas virtuais, uma professora de uma escola de Vassouras, que prometeu levar os alunos ano que vem até a minha casinha da montanha quando eu estiver lá, a Kátia que veio de Realengo só para me conhecer! a Elizabeth Caldas que é minha grande leitora...
Na hora de ir embora mais uma surpresa maravilhosa, uma pessoa que mora no meu coração, a CriCri, veio com os filhos para que eu os conhecesse!!! Moramos juntas nos anos setenta.
Enfim, voltei com a minha arca de tesouros transbordando. Obrigada todo mundo!

sexta-feira, 19 de junho de 2015

SESSENTA MILHÕES

Na Segunda Guerra Mundial morreram sessenta milhões de pessoas.
Ontem a ONU divulgou um número aterrorizante: cinquenta e nove milhões e quinhentas mil pessoas estão "deslocadas".  Trinta milhões são crianças.
Deslocadas quer dizer que estão refugiadas , estão em trânsito, vagando por aí, estão em situação provisória. Saíram de seus países, de suas cidades, de seus bairros, de suas casas.
São pessoas, não são um número. Estão fugindo das guerras, de perseguições étnicas, religiosas, fugindo de conflitos.
São pessoas como nós, como eu e você , precisaram deixar tudo para trás, fugir. São pessoas que viviam uma vida, brincavam, cozinhavam visitavam seus parentes, tinham sonhos, projetos. Tiveram que fugir.
Então a Segunda Guerra não ensinou nada.

quinta-feira, 18 de junho de 2015

NÓS

Todos os dias acordamos para a vida. Não sabemos o que a vida colocará em nossa porta. Cada dia temos que impregnar as mãos em nosso poço interno de alegria e esperança para cumprir o dia.
O Brasil vive um momento duro, difícil, desesperança e desespero estão muitas vezes na mesa de cada um. Mas a vida é movimento, a Terra dança no céu, nada é para sempre. Dias melhores virão.
É uma questão de sobrevivência nos lembrarmos de que eu sou eu e o outro. Se não me esqueço disso, a delicadeza e a honestidade irão pautar a minha vida.
A arte nos salva e nos dá lições de humanidade. A poesia amplia nossas dimensões.

NÓS

Quando repentinamente
olhamos para trás
e nossos pés flutuam
sobre as pegadas
dos que nos antecederam
e nos sentimos a corda
de uma grossa cadeia,
aprendemos que tudo
que é o outro
somos nós.

in Cinco Sentidos e Outros, ed. Lê

quarta-feira, 17 de junho de 2015

FEIRA LITERÁRIA DE RESENDE

Voltei da Feira de Resende fortalecida , apesar dos bilhões que foram cortados da Educação.
A Feira era uma festa num espaço ótimo para as crianças, tinha um ar de quermesse e era uma Feira Literária com povo dentro. Todas as classes sociais misturadas e todos comprando livros!

Dança, teatro, contação de histórias, computadores interativos com histórias, shows de música e cada segmento de Resende estava representado em suas barraquinhas. Lá fora um ar de festa junina, gente da Cruz Vermelha pintando as crianças, salsichão, pipoca, cachorro quente, crianças correndo...
Assisti a um show com a obra do Vinicius , música e poesia, lindo de morrer, um show de hiphop espetacular, tive um encontro com um público atento num auditório feito sob medida, e a Feira fechou com chave de ouro: a Deusa Elisa Lucinda, que derramou poesia e beleza pelo Universo inteiro.
Tomara que as cidades continuem fazendo as suas Feiras Literárias apesar da crise. É um sopro de esperança num país machucado.

sexta-feira, 12 de junho de 2015

PARA O DIA DOS NAMORADOS III

Namorado ou namorada é tudo de bom. Mas não precisamos ficar restritos a uma ideia preconcebida. Podemos namorar uma estrela, a lua, uma árvore, um cachorro, uma gata, uma rena, um boi, um cavalo... Namorar é derramar sobre o outro, humano ou não, um olhar amoroso.
Hoje termino de contar o meu conto da Maria, do livro Exercícios de Amor. Mas antes divido com vocês a primeira namorada do poeta Manuel Bandeira:

PORQUINHO-DA-ÍNDIA

Quando eu tinha seis anos
Ganhei um porquinho-da-índia.
Que dor no coração me dava
Porque o bichinho só queria estar debaixo do fogão!
Levava ele pra sala
Pra os lugares mais bonitos mais limpinhos
Ele não gostava:
Queri era estar debaixo do fogão..
Não fazia caso nenhum das minhas ternurinhas...

_ O meu porquinho-da-índia foi a minha primeira namorada.


MARIA (final)
 
   Ele conta: está separado. Passou por um período difícil, de depressão. Parecia que sua vida não passava de uma sucessão de desastres. Ele só poderia contar pessoalmente.
Mas, lá no fundo de tudo, havia um país ensolarado, uma jovem a quem dedicara tantos sonhos. Tudo isso dançava em sua memória quando ele queria afundar.
No fundo, ele sabia que podia reconstruir a vida.Então arriscara escrever sem saber se a carta chegaria ao destino. Era o endereço que tinha, numa caderneta velha, que sobrevivera intacta a todas as encruzilhadas.
   Quando seus pais morreram, Maria que morava sozinha depois de sua separação,voltou para a casa da infância. Às vezes esbarrava com ela mesma em algum cômodo da casa; a casa parecia uma arca de memórias. Mas era bom, sentia a presença dos pais, o seu amor. E agora estava aqui para receber a carta, como antigamente, o cheiro de céu no envelope.
   Maria queria ir para a rua e dançar na chuva. Era outra vez a menina do barco. Buscou o livro na estante: Vinte Poemas de Amor e Uma Canção Desesperada. Nenhum poeta escreveu versos de amor tão magníficos como Neruda.
   Maria escreve: "Julian, venha, temos muitos anos para passar a limpo. A minha vida também foi uma sucessão de desastres. Ou uma espera. Mas os poemas do Neruda que você me ensinou a amar, sempre me acompanharam."
   E nem por um segundo o metrônomo deixou de partir o tempo, até que a sua carta, como aquele pequeno barco, atravessasse o mar e chegasse até as mãos de Julian, e até que sua resposta chegasse num dia de sol: "Sim, vou".
   E nem por um segundo o metrônomo deixou de partir o tempo até o dia em que, com a mão tremendo, Maria abriu a porta da casa para Julian, que era o mesmo e não era o mesmo. Fazia sol. E o sol brilhava nos olhos de Julian. Na rua, o jasmineiro desprendia um cheiro de amor que se esparramava pela casa como um presságio.
   Um beijo que tinha gosto de cordilheira, de pássaros selvagens abrindo caminho novamente em seu corpo, de um barco azul e branco, mudou novamente sua vida e a rotação da Terra.
 
in Exercícios de Amor, Lê Editora, Altamente Recomendável para Jovens




                                             
   

quinta-feira, 11 de junho de 2015

CONTINUAÇÃO DO CONTO MARIA

   Então Julian a beija, e é a inauguração de seu corpo, um beijo imenso e salgado, seu primeiro beijo.
   Na volta, sentados juntos no barco, ele promete que vai escrever, que vai voltar, que agora ela é a sua namorada. Ele pede aos pais um pedaço de papel e uma caneta e anota seu endereço; ele diz, "eu prometo", num tempo em que as cartas, com suas palavras escritas em papel, era a ponte que unia pessoas distantes.
   Quando o barco atraca e range, Maria desce e apresenta Julian e a família a seus pais. Então todos resolvem almoçar juntos, passar juntos o resto da tarde. Os pais de Julian são alegres, simpáticos, e o menino, o irmão, faz palhaçadas para ser notado. Maria nunca havia imaginado que um momento tão perfeito pudesse existir.
   Da estante de livros seus pais a olham numa moldura de conchas, jovens, belos e enigmáticos. Ela fala para eles em voz alta: depois de tantos anos, Julian escreveu outra vez.
   A volta para casa naquele dia distante foi uma mistura de sensações. Julian era um sonho? O beijo ainda latejava em sua boca.
   Um mês depois recebeu uma carta. Ele prometia não a esquecer. Havia um poema do Pablo Neruda do livro Vinte Poemas de Amor e Uma Canção Desesperada. Maria entrou num curso de espanhol. E decidiu estudar literatura. De certa maneira, Julian forjou seu caminho.
   Mas, com o passar do tempo, as cartas foram se espaçando e Julian não voltou. Vieram outros beijos, outros encontros, um casamento que se desmanchou. Vieram alegrias e tristezas e nunca mais nenhuma carta. Nunca mais souberam um do outro.
   A chuva apertava. A carta, que ainda não foi aberta, lateja no colo, como um gato ou um filho. Ela abre a carta com cuidado, como um tesouro. A caligrafia, ela lembra, é a mesma, letras miúdas como pequenas mariposas. E ela pode ouvir sua voz, como se a carta fosse gravada

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                                          CONTINUA AMANHÃ

quarta-feira, 10 de junho de 2015

DIA DOS NAMORADOS

O Dia dos Namorados se aproxima. E quero lembrar que amor não é só de um homem por uma mulher ou de uma mulher por um homem. O amor assume as formas mais variadas e como disse o poeta, qualquer maneira de amar vale a pena.
E como disse Ítalo Calvino na epígrafe que usei em meu livro Exercícios de Amor, que retirei do livro O Dia de Um Escrutinador, Cia das Letras , " O humano chega aonde chega o amor, não tem fronteiras a não ser as que lhe damos."
Se o amor não tem fronteiras, toda forma de amor é lícita, só o desamor é ilícito. E quem ama não machuca, o amor precisa ser generoso para ser amor.
No meu livro de contos, cada um tem o nome de um personagem, homem ou mulher. E abordo com delicadeza muitas maneiras de amar.
O conto que escolhi para transcrever aqui como presente do Dia dos Namorados, e que irei dividir em três pedaços, é bem simples, singelo e fala de recomeço, de esperança, de chuva e de sol.  Fala de um amor que ficou latente, semente adormecida, o amor de um homem por uma mulher...

MARIA

   A chuva era uma cantilena que trazia ecos de um pátio da infância. Vozes perdidas enchiam a memória de cantigas de roda, mas nem por um segundo o metrônomo deixou de partir o tempo durante dias e meses e anos, até desembocar neste preciso instante onde Maria, com uma carta no colo, olha pela janela da sala os cacos de chuva, ao abrigo.
   Quando acordou nessa manhã de abril, ao descer para apanhar o jornal e a correspondência, não havia nenhum aviso no céu, além da chuva, do que estava para acontecer.
   Maria olha pela janela com a carta nas mãos e o que vê é um barco ancorado no cais, e ela, uma jovem menina, pronta para o passeio, enquanto seus pais lhe fazem mil recomendações. Eles a esperariam, na volta, no mesmo lugar.
   A carta traz um selo do Chile. E um nome: Julian. A doçura do nome esquecido em algum desvão da memória, oscila junto com o barco. Era um saveiro azul e branco e os turistas já se acomodavam prontos para a partida. Enquanto o barco se afastava naquela estrada de água clara, seus pais acenavam do cais e a família à sua frente falava espanhol. Um casal, um menino de uns oito anos e um rapaz de dezoito ou vinte.
   Sua rua é calma, as árvores suntuosas derramam verde na calçada.  O prédio é antigo, de três andares, construído na década de 50. Herança dos pais que morreram ano passado num acidente de avião. O bairro guarda certa inocência e a proximidade do mar, às vezes, traz um ar salgado e bom. Mas hoje traz saudades.
   O rapaz sorri para ela do banco em frente e, num átimo, senta-se ao seu lado. Eles conversam, cada qual em sua língua e, cada vez que ele fala, Maria estremece como se um vento desconhecido passasse por sua pele.
   O barco para numa pequena ilha e Julian a ajuda a descer. Sua mãe é doce e quente. Eles mergulham juntos no mar. Caminham até o final da praia abraçados.

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                                  CONTINUA AMANHÃ

terça-feira, 9 de junho de 2015

LIVROS PARA COLORIR

A Editora Manati, faz a seguinte chamada para o lançamento que farei do Colo de Avó, no dia 20 às 14 horas, no Salão do Livro Infantil e Juvenil, no Rio de Janeiro:

"Pessoal, olha que oportunidade in-crí-vel: UM LIVRO QUE JÁ VEM COLORIDO e não se propõe a salvar ninguém dos calmantes tarja-preta, com poemas de Roseana Murray , e a chance de ganhar um rabisco de quem mais importa (a autora predileta de milhões de brasileirinhos"

Não sou especialista em nada, mas gostaria de dar o meu palpite sobre este fenômeno editorial de colorir livros.
Façamos uma analogia: livros para colorir seriam eucaliptos. Livros de literatura, com letras, frases, histórias, poemas, estruturas de pensamento, seriam árvores frondosas da Mata Atlântica.
Acontece que metade das vendas de livros hoje são de livros para colorir para adultos.
Então no futuro teremos um deserto de eucaliptos.
Eu proponho:para cada livro de colorir que você comprar, compre dois de literatura. Só assim continuaremos seres pensantes.
Fabricar catedrais de pensamentos é um dos itens que nos faz humanos. Colorir é muito gostoso, assim como do eucalipto se faz papel, se acende uma bela fogueira, mas não se cria diversidade com eucaliptos,colorir é uma atividade lúdica que não inquieta. Mas acontece que temos que pensar senão o cérebro congela. Temos que entrar em outros, mundos, viver outras vidas para exercitar a empatia e a imaginação.
Acho o fenômeno muito preocupante. Espero que seja simplesmente uma onda passageira e que se esgote.
Aproveito para indicar o livro Uma Praça em Antuérpia, de Luize Valente, ed. Record. É seu livro de estreia e é muito bom. Não é para colorir.

domingo, 7 de junho de 2015

CAMINHADA

Retomo as caminhadas embora ainda não esteja bem, a virose grudou em mim!
Caminhar por dentro de Saquarema é uma dádiva imensa. A luz, os pássaros, a vegetação , as flores, as casinhas, entro num cenário idílico que deixa nas margens todos os horrores do mundo.
Penso: deveríamos oferecer às crianças, todos os dias, doses fartas de beleza, poesia, bem estar. Talvez assim o cérebro que é plástico, fosse se expandindo na direção do amor, como o girassol que busca o sol. É terrível vivermos imersos numa cultura tão violenta.
É como se houvesse uma rua com escombros, sangue, destruição, outra com sol e árvores maravilhosas.
Oferecer doses fartas de arte todos os dias nas escolas é escolher a rua maravilhosa.
O ser humano é feliz quando está criando. A sua auto estima cresce e ele consegue viver em outras dimensões.
Que todos os dias possamos exercer nossos melhores dons, descobrir a alegria simples de estarmos vivos.

sábado, 6 de junho de 2015

AMIZADE

Já li tantos ensaios sobre a amizade e no entanto, como é difícil explicar essa misteriosa forma de amor. Amigos para mim são sagrados, são bússola, âncora, arco-íris. São a rede no fundo do abismo, a aurora boreal dentro da noite escura. O primeiro mandamento para uma bela amizade, é a aceitação do outro. Do jeito que ele é. Nos momentos duros da vida os amigos verdadeiros ficam, os que não são verdadeiros fogem.  A qualidade do silêncio entre amigos é musical, é veludo. Um amigo sabe de mim apenas pelo tom da minha voz . Pela postura do meu corpo. Se um amigo me pedir a lua, vou tecer uma escada de vento para alcançá-la. Os amigos verdadeiros sabem as horas em que precisam estar presentes, eles possuem o dom da telepatia e da adivinhação . E como não poderia deixar de ser, escrevi muitos poemas sobre a amizade.

CORAÇÃO

Meu rosto se reconhece
na chuva e no vento,
as mãos se reconhecem
nas pedras, em seu silêncio denso,
os pés se reconhecem no barro,
nas folhas esmagadas e seu cheiro
de terra antiga,
meu coração se reconhece
na cantiga
de outro coração.

in Carteira de Identidade, Lê ed.

sexta-feira, 5 de junho de 2015

A VOLTA

Voltei de Veneza exausta, mas mais do que isso, com febre e dor de cabeça. Acho que peguei a virose da minha enteada Maya e sua filha Kira. Passei dois dias de cama e estou revivendo aos poucos.
Tenho uma viagem na terça-feira para Resende - Mauá e espero me recuperar bem até lá. Na verdade atravessar um oceano não é atravessar um lago e todas as vezes em que fui a Europa voltei muito cansada.
Agradeço aos leitores que viajaram comigo. Escrever sobre Veneza é uma temeridade, afinal tantos escritores maravilhosos escreveram sobre a cidade , compuseram obras musicais , como Wagner que ficava temporadas em Veneza buscando inspiração.
No último dia pela manhã fomos novamente até a Fondamenta Nuove, onde os turistas quase desaparecem. É um dos meus lugares prediletos .
Viver em Veneza deve ser muito difícil, três venezianos nos disseram :" Para conseguir morar em Veneza tem que ser veneziano, ter nascido aqui." O primeiro era o dono de um prédio apart-hotel em Dorsoduro, fomos ver o apartamento de curiosidade e conversamos com ele sobre isso. O segundo era o cabeleireiro onde cortamos o cabelo ano passado e voltamos para um novo corte. Ele nos disse que é tudo tão difícil, que realmente... só tendo nascido aqui. E finalmente o terceiro foi o dono do restaurante em Rialto onde nos levou nosso amigo Paolo, o garçom da Taverna Maurizzio, junto com sua noiva russa Eugeniya. Ele nos disse que se pode até amar Veneza mas morar é muito difícil, tem que ter nascido em Veneza. Pronto, três depoimentos idênticos de gente local. Paolo, nosso amigo, detesta Veneza, ele é de Puglia e mora em Mestre, terra firme, ligada a Veneza por uma ponte. Trabalha em Veneza mas sonha em sair dali. Quanto voltávamos para o hotel depois do banquete que nos foi servido, o casal nos acompanhou até lá, já era mais de meia noite , havia uma lua maravilhosa, e Veneza parecia outra, vazia. Só no Campo Santa Marguerita havia uma multidão compacta de estudantes, não dava para passar, Ficam ali conversando, bebendo muito, e nossos amigos nos dizem que só há uma discoteca em Veneza, porque é proibido o som alto. E Paolo suspira e diz: "Só gosto de Veneza à noite" .
Chegar em Saquarema é tão bom, o jardim, o mar e as gatas nos abraçam. Nossos caseiros que tomaram conta da casa na nossa ausência com tanto amor, nos abraçam. E me sinto acolhida.

sexta-feira, 29 de maio de 2015

ÚLTIMOS DIAS

Numa das noites em que Maya, a filha do Juan, ainda estava aqui, andamos até o ancoradouro perto do hotel e lá do outro lado víamos o Museu Gugenheim . Então ela me contou que antes da Peggy Gugenheim, o palácio havia sido da Marquesa Luisa Casati, um ícone para o mundo da moda. Ela viveu no começo do século passado e foi uma mulher milionária e excêntrica que dava em sua casa as festas mais loucas da Europa e passeava por Veneza com uma cobra enrolada no pescoço e com seu tigre de estimação. Tingia os cabelos de vermelho e pingava beladona nos olhos para que ficassem imensos, arregalados. Foi amante de D"Annunzio, usava vestidos de seda colados no corpo , vestidos de Fortuny, sem nada embaixo. Também era capaz de ficar nua em qualquer lugar para chamar a atenção. Era alta e magérrima. Maya me contava tudo baixinho e me dizia: Imagine o palácio iluminado por tochas, ela passeando pelos jardins com seu tigre de estimação...Maya também me disse que foi a mulher mais pintada e fotografada do mundo e fez da sua vida e do seu corpo uma obra de arte louca, como se tivesse saído da mente de um Dalí. Morreu em 1957 na miséria total pois gastou toda a sua imensa fortuna em suas festas.
Ontem, depois que Maya e as crianças foram embora, andamos até o Campo San Polo, passando pela Igreja San Apollinaire do século XI, que estava infelizmente fechada. Há que ir por Rialto e uma parte da Ponte está em obra, sendo restaurada. No tapume da obra há um trecho das Cidades Invisíveis do Calvinoi, o trecho em que fala do arco e da pedra. Que ideia maravilhosa colocar trechos de livros em tapumes de obra. Qualquer superfície é boa para receber um poema. A restauração da ponte , a aquisição de dois palácios por Prada, desmente o vaticínio de que Veneza está acabada. É um museu vivo que vai se desdobrando diante dos nossos olhos como um leque de sonho e água  . Sempre igual e diferente.
O que é horrível por aqui é a multidão que os cruzeiros despejam por suas ruas. Os cruzeiros, tão nefastos, deveriam estar proibidos e os turistas que chegassem saberiam muito bem que estão em Veneza, a cidade miragem de tantos rostos, que a cada dia desmente seu fim.
Vivemos os últimos dias. Segunda embarcamos de volta. Por que viemos sempre a Veneza?  Porque Juan é europeu e de vez em quando precisa estar na Europa e escolheu Veneza como a sua cidade.
Agora tocam os sinos que amo, uma orquestra de muitas igrejas. Um pássaro canta entusiasmado pois o dia está lindíssimo. Embrulho tudo junto, o canto do pássaro, os sinos, as vozes dos cantores das gôndolas e levo comigo.
Escreverei quando chegar em Saquarema. Até lá.

quinta-feira, 28 de maio de 2015

DORSODURO

Caminhar por Dorsoduro é uma verdadeira maravilha. Desembocamos no Campo Santa Margueritta, uma praça tão bonita, com uma feira de peixes frescos e luxuosamente arrumados , como jóias. Porque para um italiano tudo quem que ser belo. Há uma livraria na praça, há venezianos!!! há vida verdadeira, gente passeando com seus cachorros, velhinhos arrumadíssimos para o passeio matinal. Observei os venezianos comprando: apenas o que vão fazer para o almoço ou para o jantar, Bem pouco.
As casas são lindas de gritar e eu gostaria de alugar um apartamento aqui ao invés de estar num hotel.
Andando chegamos ao Campo San Pantalon com sua Igreja neo românica, fundada no século XII e reconstruída no XVII. Entrei na Igreja. Com a luz de fora ainda nos olhos levei um tempo para enxergar. O teto era uma verdadeira maravilha,  nenhum adjetivo alcança o que quero dizer e me sinto pobre de palavras. Os maiores artistas pintaram esta Igreja.
Na esquina da Igreja há um baixo relevo tão bonito de São Pantalon com uma palma na mão e acima um baixo relevo de um cálice. Como não sou católica não entendo os símbolos, mas a data me comove: 1698.
As esquinas são espaços de pura beleza, um recorte de janelas, balcões, telhados.
Passamos por uma alfaiataria. Ainda existe!!!
Passamos pela Universidade Ca'Foscare. No canal há um barco de comida barata "Hard Rock" com uma fila gigantesca de estudantes.
Encontramos um africano com uma roupa incrível, cheio de colares e um instrumento de cordas que parecia um alaúde. Perguntei de onde era e disse do Senegal. Falei que conhecia Dakar e ele ficou muito feliz. Se chama Alioune e seu instrumento se chama Kaamale Ongoni. Pedi para cantar e tocar alguma coisa. Ele perguntou meu nome. Então começou a cantar uma canção em que a cada frase repetia meu nome.  Depois me explicou que os versos eram seus . E dizia: "A vida é como um espelho, só vemos o que somos" . Fiquei muito emocionada.
Para almoçar voltamos para a praça, o Campo Santa Margueritta. Comemos numa trattoria na calçada com um menu do dia maravilhoso e baratíssimo. Doze euros e meio por pessoa com direito a dois pratos.
Na volta paramos numa sorveteria e Juan quis um sorvete de chocolate super amargo da Venezuela, quis provar e ele disse que não me dava nem uma provinha e comprou um inteiro para mim. Não gosto de sorvete mas este era uma outra coisa.
Na volta passamos por um barco feirinha de frutas e legumes. Na verdade dois barcos. Dentro de um deles se limpava tudo para arrumar no outro. Era um quadro.
Fizemos planos para o fim da tarde, mas Maya, a filha do Juan, pegou a virose da Kira. Febre e dor de cabeça.
Então ficamos no quarto lendo. Estou atracada com um romance policial de um autor israelense que não conhecia, Igal Shamir. A trama é incrível e embora seja aquele tipo de livro que não merece ser chamado de literatura, não desgruda das nossas mãos. Se chama O Violino de Hitler e mistura músicos da século XVII, nazismo, Veneza, uma salada.
Hoje Maya, Kira e Astor vão embora. Daqui a pouco.  Astor, de três anos, gostaria de levar uma gôndola no avião de volta para Barcelona. Vai saltando de uma ponte para outra gritando "Gôndola Gôndola"...