domingo, 19 de abril de 2015

LIBERDADE

No meu livro Carteira de Identidade, com maravilhosos desenhos da Elvira Vigna, encontro alguns poemas especialmente belos. Uma vez, Antonio Carlos Secchin me disse : - A tua poesia é bela.
Tive o privilégio de fazer uma oficina de poesia com este grande poeta, grande estudioso de João Cabral e Drummond.
Acho que é porque busco beleza em tudo. Basta uma folha deslizando no vento para justificar a minha existência. Farejo a beleza como um cão perdigueiro

LIBERDADE

Como Paul Éluard
escrevo a palavra liberdade:
com as linhas da mão,
com os fios de seda
que a poesia inventa,
com a dança lenta
das estrelas desaparecidas.

A palavra liberdade
com a água limpa
dos gestos limpos.

Com a água dos sonhos.

sábado, 18 de abril de 2015

ESPELHO

Aldo José Brasil de Lima me pediu um texto inédito para o seu blog, o Blog do Aldo.
Coo o texto já foi publicado, já posso colocar no meu próprio blog.

ESPELHO
Busco no espelho, como no conto do Guimarães Rosa, a minha alma.
Quem sou verdadeiramente, retirando a pele e os ossos?
Tenho 64 anos e um corpo que atravessou vendavais e sobreviveu. Um corpo marcado pela vida com todas as suas idas e vindas.
O espelho me mostra a superfície: uma bela senhora de olhos acesos. Mas por dentro é outra coisa. Tantas idades coexistem dentro de mim!
Sou uma adolescente, sentada no chão, de pernas cruzadas, querendo adivinhar o tempo. Felizmente, descobri o dom da poesia e do olhar, o meu dom.
E já não preciso adivinhar o tempo, porque hoje sei que o tempo não passa, somos nós que passamos e vamos vivendo o que nos vai acontecendo, as surpresas. Então posso conversar com a adolescente inquieta e apaziguá-la.
Mas se o espelho pudesse mostrar a minha alma, mostraria a criança que fui, a jovem, a velha, todas juntas, bem amarradas, como um feixe de girassóis.
Hoje, nós, humanos, vivemos muito. Podemos até nos aposentar do trabalho obrigatório, mas não da vida, das paixões, dos sonhos, que é o que nos move. Não podemos aposentar os milagres, eles continuam existindo até o último segundo.
Descobrir os nossos dons é uma tarefa  obrigatória para que nossa usina interna de alegria possa funcionar. Então não importa se temos vinte, trinta, sessenta, oitenta anos, a vida será sempre uma aventura.

Roseana Murray, 16 de abril, Saquarema

sexta-feira, 17 de abril de 2015

A POESIA CURA?

A poesia cura? Não radicalmente, mas pode ajudar muito! Minha sobrinha Julia Kligerman, psicóloga, tinha uma paciente que não lhe dava nenhum acesso, nenhuma via de comunicação. Não sei qual era o seu caso, mas através do meu livro Abecedário (Poético) de Frutas,ed. Rovelle, a paciente começou a falar, pois se apaixonou pelas frutas, pelos poemas e imagens, pelo livro.
Já soube de alguns casos parecidos de psicólogos que usam meus poemas.
A poesia tem o dom de mover conteúdos e sentimentos dentro da gente de uma maneira muito rápida e eficaz.
Soube até de um Professor de Psicologia que na Universidade deu um poema do meu livro Poemas de Céu, ed. Paulinas, para discussão.
Eis o poema:

BURACO NEGRO

Essa coisa esquisita
que às vezes
a gente sente,
como se tivesse
um pedaço faltando,
essa vontade que se tem
de não se sabe o quê,
esses abismos que nascem
repentinamente,
esses buracos
negros do céu
dentro da alma da gente.

A propósito deste poema: num dia longínquo, da década de noventa do século passado, fui autografar livros dentro de um Supermercado em Recife. Era uma experiência piloto.
Muita gente passava pela minha mesa cheia de livros comigo sentadinha atrás, e nem parava, às vezes nem olhava. Mas uma mulher parou , pegou o livro com o poema acima, numa outra edição, com outro título (na nova edição mudei o título), e ao terminar de ler o poema ficou muito irritada comigo. Ela me disse que tinha ido ao supermercado fazer compras e agora eu a tinha desarrumado. Ela me perguntou literalmente: _ Você sabe o que faz com as pessoas?
Comprou o livro, eu autografei e ela foi embora furiosa.

quinta-feira, 16 de abril de 2015

TODOS DIAS

Todos os dias nos levantamos com a tarefa urgente de ficarmos vivos. E não é pouca coisa.
Felizmente não estamos em guerra nem temos que fugir como os refugiados africanos ou da Síria, sem saber se a tarefa de atravessar mares e terras será concluída. O Brasil, claro, tem outras mazelas, a violência desenfreada da polícia e do narco, enfim, nem é preciso enumerar.
Mas todos os dias, como na música do Chico ela faz tudo igual...
e ao cozinhar o feijão ou ir para a fábrica, para a empresa, ou fazer faxina ou plantar, às vezes nos esquecemos de olhar.
Não há ofício mais belo e é grátis! Não precisamos pagar.

RECEITA DE OLHAR

nas primeiras horas da manhã
desamarre o olhar
deixe que se derrame
sobre todas as coisas belas
o mundo é sempre novo
e a terra dança e acorda em acordes
de sol

faça do seu olhar imensa caravela.

in Receitas de Olhar.

quarta-feira, 15 de abril de 2015

VAMOS BRINCAR?

Minha neta de um ano e quatro meses brinca sozinha. Vai construindo fios invisíveis entre as coisas. Senta, olha um livro, fala na sua língua, se emociona com algumas imagens, levanta, vai até um brinquedo que faz música, aperta uma tecla, canta junto, dança...Brinca muito de cabra cega com ela mesma. Gosta de colocar uma fralda de pano tampando a cabeça e o rosto e vai se arrastando sentada , no escuro, em busca de algo que não sabemos.
Meu neto de cinco anos brinca de Samurai, Super Heróis, brinca de espada , pedras de poder, Luna, sua cachorra, é muitas vezes parceira de lutas impressionantes. Gosta de alguns livros especialmente e como ainda não lê sozinho, contamos as histórias para ele mas ele vai acompanhando as palavras, já está quase lendo.
É maravilhoso ver como brincam as crianças. Tarefa das mais importantes para a formação de um ser humano e para a manutenção da alegria, brincar é primordial.
Nós, adultos, devemos brincar mais. Levar a vida mais aventureiramente, é fazer contato com a nossa criança.
Eu gostava de pular roda, brincar de roda, brincar com as bonecas de teatro, ler. Considero a leitura como a melhor brincadeira que existe. Num passe de mágica, atravesso o tempo , estou em outro lugar, sou outra pessoa, vivo outra vida.

terça-feira, 14 de abril de 2015

POÇO DOS DESEJOS

Patricia, minha nora, me conta: meu livro Poço dos desejos, ed. Moderna, está sendo lido e amado na aula de musicalização dos bebês na Atrium.
Eu acho incrível porque: quando escrevi os poemas meu leitor imaginário era grande!  Jamais poderia sonhar com um bebê amando estes poemas!
Então, como é que se pode dizer se um livro é para tal ou tal idade?

DESEJO DE ENCONTRAR UM TESOURO

Quem nunca sonhou com um tesouro
bem enterrado no fundo do jardim,
coberto por uma camada de terra
e perfumados jasmins,
ou mesmo num oco da parede
com um quadro em cima?
Quem nunca sonhou com um mapa
de pirata com caminhos sinuosos,
espiralados e o tesouro com um X
vermelho, um tesouro bem enterrado.
Mas às vezes o tesouro é o sol,
a lua, a chuva, flores, borboletas,
passarinhos, beijos, amor.





segunda-feira, 13 de abril de 2015

LA STORIA

Monica Botkay, minha amiga amada, tem uma biblioteca ótima de livros em francês. Da última vez em que estive na sua casa ela me emprestou sete livros.
Estou terminando de ler o terceiro. Um livro da Elza Morante, italiana, mas traduzido para o francês. La Storia. Como é uma edição de bolso, o livro vem em dois volumes)
Estou muito impactada. Ela começa o livro nos primórdios do fascismo, mas vivemos toda a Segunda Guerra junto com a personagem Ida e sua estranha família. Ida é filha de mãe judia e guarda seu segredo com terror. Ela é o pavor personificado. Seu filho Nino é um guerrilheiro sem ideologia, um vagabundo que vai e vem, aparece e reaparece. Logo no início da chegada dos alemães a Roma Ida é estuprada e apesar de já não ser jovem e ter engravidado de Nino com muita dificuldade (seu marido morreu), ela engravida deste estupro e nasce Useppe, a criança mais diferente e especial do mundo.
E desde que comecei o livro estou vivendo aí, junto com  Ida e Useppe e é impressionante como Elza Morante escreve! Consigo entrar na alma e no corpo da Ida, respiro com ela dentro de mim!
Paro de ler, olho em volta aliviada, não há nada mais horrendo do que a guerra.Não estamos em guerra. Há a violência e a guerra não declarada dos assassinatos. Mas não é uma guerra.  E as crianças jamais deveriam passar por experiências tão terríveis.
Conto tudo isso para dizer que amo a paz acima de tudo. Só na paz os afazeres simples e cotidianos adquirem sentido e consistência.

domingo, 12 de abril de 2015

TRANSFORMAÇÃO

Eu tenho um neto e uma neta. Meu neto gosta de espadas, lutas, samurais. Minha neta ainda é bem pequena, mas eu sonho que um dia , no futuro:

UM, DOIS, TRÊS
Um, dois, três,
era uma vez,
e a menina vira
e desvira,
na frente do espelho,
uma fada de longos
cabelos, tiara e varinha,
vira e desvira
uma princesa
e uma rainha.

Um, dois, três,
era uma vez
uma sereia com olhos
de mar,
e as roupas da mãe
esvoaçam dentro do espelho,
parecem feitas de ar.

in Brinquedos e Beincadeiras, ed. FTD , dedicado ao Maurício Leite

sexta-feira, 10 de abril de 2015

ATAQUE

Anteontem a TV 5 estava fora do ar. Havia uma tela azul onde se lia algo do tipo " A transmissão deste canal foi interrompida por motivos técnicos."
Entrei em pânico. Liguei para a Sky , o que é uma façanha para super heróis. Depois de horas esperando, uma atendente me disse que deveria ser um problema da minha antena. E agendou um técnico para vir até a nossa casa.
Entrei em pânico pois a Sky é arbitrária, completamente. A CNN em espanhol faz alguns anos foi retirada sem nenhum aviso.Entrei em pânico pois adoro os programas da TV 5 e é a melhor maneira de ter contato com a língua, eu a guardo como meu maior tesouro.
Mas o que realmente aconteceu foi um ataque terrorista cibernético de vastíssimas proporções assumido pelo EI ou ISIS. Eles conseguiram inviabilizar a transmissão da TV 5 para o mundo tudo e ainda colocar palavras de ordem na tela que ficou negra.
Acho que devemos propor que as escolas façam, criem, brincadeiras de paz.
Como disse o personagem grego do livro A Trégua do Primo Levy, quando acaba a guerra e estão voltando para casa:  "Guerra é Sempre!"
Mas temos que desfazer isso como se desfaz um nó cego, devagarinho, com paciência, no nosso dia a dia.

quinta-feira, 9 de abril de 2015

O PEQUENO PRÍNCIPE

O Pequeno Príncipe foi o primeiro livro que li em francês. Fiquei apaixonada. O livro foi alvo de desprezo, por ser o livro predileto das misses. Mas sou sua defensora ardente. É belíssimo.
Faço com a minha caseira Vanda aulas de leitura, já que tendo estudado apenas até o segundo ano primário, ela tem muitas dificuldades para ler e ao mesmo tempo entender um texto.
Por causa das minhas cirurgias e depois emendei com uma viagem de quinze dias, nosso projeto andava abandonado.
Primeiro lemos um livro infantil muito lindo da Angela Maria Quintieri , sobre o seu avô, motorneiro de bonde. A Vanda amou, pois sua mulher era camareira num hotel e logo houve uma identificação.
Ao pensar num segundo livro, pensei no O Pequeno Príncipe. Por ser de leitura fácil, por ser maravilhoso, por atuar no simbólico, despertar a imaginação.
Hoje, logo no primeiro encontro com o Pequeno Príncipe, quando facilmente ele decifra o primeiro desenho, comecei a chorar. Nada no mundo me emociona mais do que a imaginação da criança, a sua capacidade de ver o invisível, de atribuir vida a todas as coisas.
Vanda está amando e a sua capacidade leitora está se expandindo. Ensinei a ela um truque. Quando se deparar com uma palavra grande, que a leia primeiro na mente, para decifrá-la. Ela adorou e já não se atemoriza com palavras grandes e desconhecidas.
Faço ela me contar tudo o que lemos, com as suas palavras. E ganhar novas palavras, as que não conhecia.
Hoje tive uma ideia: numa caixa bem bonita ela guardar a palavra nova, num pedacinho de papel.
Será como a caixa onde o piloto guardou o carneiro imaginário do Pequeno Príncipe.

quarta-feira, 8 de abril de 2015

SONHANDO EM OUTRA LÍNGUA

Uma vez, quando era bem jovem, fui visitar o grande ilustrador Rui de Oliveira em seu ateliê, acho que no bairro do Catete, no Rio de Janeiro.
Ele me contou que morou muitos anos na Hungria como estudante. Um dia um amigo brasileiro lhe perguntou _ Você sonha em húngaro? Porque se a resposta for afirmativa, devo dizer que isso é muito grave.  Se começar a sonhar em húngaro, não voltará mais para o Brasil.
Mas para nosso deleite, ele voltou.
Ontem pela primeira vez sonhei em italiano. Acho que foi porque a minha aula de italiano ontem foi muito engraçada. Minha professora Celmar me pediu: _Vamos fazer um pão em italiano? Quero aprender.
E foi o que fizemos. Ensinei Celmar a fazer um pão em italiano! E depois, claro, o pão assou e ficou lindo.
A nossa aula vai acontecendo. Não suporto seguir um método. Gosto de um caos criativo. Falamos sobre isso e aquilo , conto sobre os livros que estou lendo e ontem lemos uma carta do Simenon para a sua mãe (traduzida para o italiano), para a sua mãe morta. Carta belíssima, emocionante.
Os neuro-cientistas recomendam, para a plasticidade do cérebro, aprender uma nova língua, alguma nova habilidade.  A minha alegria quando falo italiano, quando leio, quando entendo tudo nos programas da RAI, é infantil. Tenho vontade de dar cambalhotas.
Não lembro nada do meu sonho, apenas que estava na Itália e que falava fluentemente. O que já está quase acontecendo. Claro que faço muitos erros, principalmente com verbos, mas como não tenho nenhuma vergonha, vou falando.
É a terceira língua adquirida, território onde falo e leio. Escrever é outra coisa, muito mais complicada . Agora quero melhorar o meu inglês, pois falo mal e não leio. Em agosto começarei um curso on line.
Agora, vejam bem, se com 64 anos consigo aprender uma nova língua, imaginem o desperdício de não ensinar para valer uma língua nas escolas públicas! A criança aprende em minutos!
O Brasil deveria ser bilíngue, pois somos uma ilha de português cercada de espanhol por todos os lados. Isso ajudaria e muito o nosso sentimento precário de latinidade.

terça-feira, 7 de abril de 2015

A MORTE DO MENINO JESUS A

Meu marido Juan Arias escreveu um artigo belíssimo sobre a morte do menino Eduardo. Transcrevo emocionada:

Os pobres no Brasil costumam pôr vários nomes em seus filhos com um desejo inconsciente de um futuro mais próspero para eles.
Uma cruel e simbólica coincidência, como fizeram notar as redes sociais, fez que entre os vários nomes do menino morto na favela do Rio e de seus pais figurassem três nomes emblemáticos do drama do cristianismo: o menino se chamava Jesus, o pai, José e a mãe, Maria. Foi morto com um tiro na cabeça na porta de sua casa na véspera da sexta-feira santa.
Para crentes ou não, a crucificação do inocente Jesus de Nazaré há mais de dois mil anos, a história daquela família pobre e perseguida e o grito de amor universal e de defesa dos mais fracos lançado então continua sendo ainda hoje um apelo no mundo todo contra os crimes e abusos do poder contra os indefesos.
  • Talvez por isso, o inocente e novo crucificado, o pequeno Eduardo Jesus e a coragem de sua mãe, uma empregada doméstica que trabalhava na zona nobre e rica da cidade e que enfrentou a polícia que matou seu filho, está se convertendo em um arquétipo da luta contra a violência perpetrada contra os mais fracos. No Rio, 80% das mortes violentas acontecem nas favelas.
Um dos cartazes de protesto levantados por um grupo de jovens daquela comunidade pobre do Areal tinha duas palavras escritas à mão: "Queremos viver", que era como dizer: Não queremos continuar morrendo. Duas palavras impregnadas de ameaça e esperança juntas.
Dizem que o Jesus cristão ressuscitou. O que é certo é que o pequeno crucificado da favela continua vivo. Com seu sacrifício inocente já está criando um movimento para ressuscitar as favelas. Seu sangue fez os jovens das comunidades pobres do Rio tomarem consciência de que só se morre quando se deixa de lutar contra a tirania. Assim, em outro cartaz escreveram: "A favela não se calará". Não será o primeiro milagre de Eduardo Jesus a quem o sensível papa Francisco poderia proclamar como mártir das favelas?
Eduardo Jesus, dizem em sua comunidade, era um menino doce e alegre, gostava de estudar, sonhava com futuro melhor que o de limpar casas como sua mãe, que todo mês poupava alguns reais de seu salário para poder pagar a ele o sonho de frequentar um curso de inglês.
Era um filho bom que no celular ensanguentado que tinha nas mãos quando o mataram tinha escrito no aplicativo de mensagens do WhatsApp: "Mãe, eu te amo".
Encarando o policial que tinha aberto a cabeça de seu pequeno e que apontou também contra ela a arma com a qual tinha roubado para sempre seu filho, a mãe de Jesus disse: "Pode me matar, porque já acabou com minha vida".
Não existe mãe no mundo que de algum modo não se sinta morrer também ao perder um filho. A lei da vida é que os filhos enterrem os pais. O contrário é só cruel destino.
Entretanto, não é certo que Maria de Jesus tenha morrido com seu pequeno. Ela e todas as mães pobres das comunidades violentas e abandonadas deverá continuar alimentando com sua dor e sua raiva esse grito dos jovens amigos de seu filho: "Queremos viver".
O escritor brasileiro Zuenir Ventura, um dos pioneiros na análise do drama das favelas do Rio, disse-me em uma entrevista há alguns anos que os jovens dessas comunidades procuram viver e divertir-se ao máximo porque "pressentem que morrerão sem chegar à idade adulta".
Sua mãe não morreu com ele. Não pode morrer porque precisa continuar de pé para que também seu filho continue vivo, para que a profecia de Zuenir Ventura se interrompa e para que a partir do sacrifício de seu filho inocente, os jovens das favelas exijam do poder o direito de continuar vivendo. Para que possam divertir-se e desfrutar da vida sem o peso sobre a alma de saber que uma bala perdida os persegue a cada instante.
Se os antigos romanos diziam "Se queres a paz, prepara a guerra", os jovens amigos do pequeno Eduardo Jesus sabem muito bem que é ao contrário: só lutando para exigir a paz e a justiça se fará impossível a guerra. Essa guerra que hoje ainda continua matando, enquanto uma grande autoridade do Rio teve a coragem de dizer: "Isso, nas favelas, sempre foi assim e pior".
As palavras também matam. Às vezes mais que as metralhadoras.
Podem matar mas também salvar, como as escritas pelos jovens em protesto pela morte de Eduardo Jesus: "A favela não se calará".
Por muito tempo essas comunidades tiveram de ficar caladas. Hoje anunciam que levantarão sua voz. E o farão agora também em nome do pequeno Jesus, que fez o milagre de libertá-las do medo.

segunda-feira, 6 de abril de 2015

E LA NAVE VA

Gosto das segundas feiras. Tenho a sensação de que estou num barco, amarrada num porto e que o nó da corda se desfaz, la nave va...
A casa é uma fábrica e adoro o movimento, parece que para começar a semana todas as coisas, objetos e sentimentos vão se rearrumando .
Hoje o Samuel corta a grama do jardim. O jardim é o milagre da casa. Quando compramos a casa era um areal, areia da praia. Havia uma única planta, uma alamanda amarela que existe até hoje. O jardim é quase um pequeno bosque, sete coqueiros, flamboaiã, limoeiro  , canela, cravo, graviola, e flores e flores, sortidas , coloridas. Muitas orquídeas amarradas nas árvores. O jardim é guerreiro, somos seus aliados mas ele tem que lutar contra o sal e o vento e a secura, Saquarema é semi-árida. Mas agora no outono ele está em seu apogeu. Há uma palmeira que se chama leque, tão majestosa, gosto de me sentar na sua sombra para ouvir seus pensamentos.
E o cheiro da grama cortada é inebriante.
Aqui da minha mesa escuto a explosão das ondas do mar nas minhas costas e Juan , trabalhando em sua mesa me diz, como naquele programa da Rádio Relógio da minha infância "Você Sabia?", ele na verdade me pergunta:
_ Você sabia que o Congresso gasta por mês Um Milhão Trezentos e Sessenta Mil Reais em cafezinho, água, refrigerantes, biscoitinhos?
Fiquei muito mais culta com essa informação. A minha cultura sobre a corrupção no Brasil aumentou muito, porque é impossível gastar tanto em cafezinho... Alguém está ganhando alguns trocados aí!


domingo, 5 de abril de 2015

CIDADANIA

Sempre que posso vejo o programa Thalassa na TV 5. Ontem foi sobre o Estuário do Rio Loire e sua navegação, seus estaleiros, suas cidades, sendo a de Nantes a mais importante.
O que me impressionou: Nantes, uma cidade industrial, pensa o tempo todo na melhor maneira de criar bem estar para a sua população. Nantes tem arte na rua interagindo com a população na frente dos estaleiros.
Este pensamento tão simples: Criar bem estar para a população deveria nortear cada passo do poder público. Deveria ser o Mantra dos políticos. Cada político deveria acordar pensando: -O que posso fazer para tornar a vida do cidadão mais leve, mais rica em experiências maravilhosas, mais feliz?
Nós, o tempo todo nos esquecemos que os políticos e os servidores públicos são nossos servidores mesmo, pois é o imposto que cada um de nós paga, e pagamos os impostos mais altos do mundo!  que fornecem os seus salários. Eles nos devem e muito!
Ter uma cidade pensada para o bem estar, limpa florida, agradável, com ciclovias e transportes dignos, ter direito de andar para lá e para cá sem ser atingido por uma bala perdida, ter uma educação de qualidade, sair do fundamental falando fluentemente uma língua estrangeira , não são atos de caridade, nem utopia. É nosso direito. Oportunidades iguais para todos não é favor.É direito.
Aqui em Saquarema não limparam a praia depois da ressaca. Está imunda. Isso é um crime. Pagamos impostos aqui em Saquarema, IPTU. Temos direito a uma praia limpa para deleite do nosso olhar. Os ônibus são um serviço indecente. Os políticos devem pensar, ah, os ônibus são para a ralé que não tem carro... e como os velhinhos sofrem nos ônibus que cobram um absurdo por um serviço indigno, da pior qualidade.
A nossa cidadania é violentada a cada minuto do dia.
Aproveito a Páscoa para pedir Paz e Cidadania.

EXERCÍCIO

"Conte Algo que Não Sei" é a minha coluna favorita do jornal O Globo. Hoje Daniela D.Sopeski, instrutora de meditação tem a palavra. E suas dicas são as mais simples, porém, dificílimas para nós ocidentais. Ela propõe não apenas a meditação em qualquer lugar, com o foco na respiração, mas também a concentração absoluta no momento presente, no que estamos fazendo aqui e agora. Essa entrega aos afazeres de uma maneira amorosa e atenta, faz com que nossa percepção aumente, nosso olhar sobre todas as coisas seja mais compassivo. E nos traz uma sensação de paz e bem estar , que é o que todos almejamos. Uma sensação de plenitude.
Não é um exercício fácil. E é isso mesmo, um exercício. Requer concentração.
Hoje decidi fazer uma salada de berinjela. Ao cortar as berinjelas, presto total atenção na cor da sua casca, passo a mão em sua textura maravilhosa e quando eu a fatio, meus olhos saboreiam a sua cor, as sementinhas minúsculas.
Aproveito para dar a receita: cozinho a berinjela, escorro, acrescento cebola e tomate bem picadinhos, um dente de alho bem esmigalhado, salsa, sal e azeite de oliva. É muito bom.
Mergulhar plenamente em cada instante da vida, que jamais se repetirá, cada instante é único, é o mais belo exercício .

sexta-feira, 3 de abril de 2015

Rimas Fáceis

Ao chegar em casa, em Saquarema, a correspondência estava toda em cima da mesa. Havia um livro. "Rimas Fáceis" de Edna Bueno.
Conheci Edna lá pelos meados dos anos 80, mas não a reconheço como Edna , já que seu apelido carinhoso era Tutuca.
Fizemos uma oficina de poesia juntas, na OLAC que não sei se existe ainda. Seus poemas eram belos e ela exalava doçura
Seu livro Rimas Fáceis, ed. Gaivota, de 2012, é um tesouro. Imperdível. Como pode caber tanta beleza num livro~tão pequeno? Porque Edna escreve seus breves contos como poeta e eles são uma explosão cósmica, arrebatam o leitor. Cada palavra uma estrela. Os títulos dos contos breves são magníficos, pares de palavras que anunciam o inusitado.
Recomendo o livro com fervor.Terminei de ler o livro com vontade de beijá-lo.

quinta-feira, 26 de março de 2015

A VIAGEM

A minha viagem rumo à montanha começou no dia 17 quando o Dr. Schettino, que operou a minha coluna disse que sim, eu poderia viajar. Perguntei se podia dançar e ele disse : _Valsa!
Dia 18 eu e Monica fomos para Resende. Era uma quarta-feira. Eu e meu neto enlouquecemos de felicidade! A Atrium, Escola de Música, já estava a mil por hora quando chegamos. A família toda almoçou no Babel Bistrô, do meu filho Chef e passei a tarde com a Gabriela, a outra neta. Gabriela tem um ano e quatro meses e fala uma lingua bem complicada, mas lá no meio a gente entende uma frase inteira.
Passei 24 horas em Mauá com a Monica. Chegar na minha casinha depois de cinco meses de ausência foi uma emoção avassaladora . Era fim de tarde. Quando acabamos de arrumar tudo nos sentamos na varanda e já era noite e chovia. Abrimos um vinho. A vida era simples. A mata, escura e respirando em nosso corpo.
Dia 21 a Atrium, em Resende, recebeu umas 120 pessoas para o lançamento do livro da minha nora Patricia de Arias, "Uma Ideia no Bolso", ed. Rovelle, e um café da manhã. Monica foi a fotógrafa oficial. Houve uma contação de história, as crianças emudecidas de tanta atenção. O espaço lindíssimo que é o da aula de teatro e musicalização, abarrotado. Eu era a pessoa que mostrava o livro e passava as páginas para a Contadora de Histórias.
Então voltei para a montanha. Monica foi rever amigos em outro lugar. E as primeiras 24 horas, quando então voltei para Resende, nem notaram que houve uma interrupção.
No domingo recebi minha amiga Leila. Nosso projeto era dedicar bastante tempo para a meditação.
E foi o que fizemos. Meditamos juntas várias vezes ao dia. Fogão de lenha aceso, frio e neblina, tudo o que eu desejei ardentemente durante os cinco meses em que não pude vir.
Na minha casinha nem o celular recebe sinal. Para telefonar tenho que andar até o Babel Restaurante.
Ontem viemos para Maringá-Rio passar o dia com a minha irmã Evelyn em seu belíssimo, estonteante Ateliê de cerâmica , o Ateliê Kligerman-Mérigo.
Eu e Leila dormimos na Pousadinha Cruzeiro do Sul, atrás do ateliê, pois aqui não há lugar para dormir. A Pousada é de uma simplicidade que emociona. Parece um quadro naif, os jardins tão bem cuidados, os cheiros de frutas no pé, de grama cortada, de terra densa , bem preta, me deixam em êxtase.
Ontem almoçamos no Restaurante Trem de Minas, comidinha caseira, deliciosa, bem de roça. Hoje voltaremos ao restaurante e uma amiga querida virá ao nosso encontro.
Depois do almoço subo para a casinha e os laços com o mundo se cortarão outra vez. Desaparecerei um pouquinho outra vez.

segunda-feira, 16 de março de 2015

MALAS NA VARANDA

Acordei para viajar. A felicidade pessoal é como uma orquídea , há que saber cuidar. Com palavras, gestos e principalmente há que alimentá-la com o olhar. A felicidade é o vento bom que nos inunda quando sabemos viver as pequenas coisas com intensidade, pois tudo passa como um sopro. A felicidade não depende de grandes aparatos, grandes arquiteturas e engenharias. E é possível separar a felicidade pessoal da dor do mundo, a que carregamos com esforço.
Acordei para viajar e o céu estava maravilhoso. Escrevo quando puder.Não se esqueçam de mim!

domingo, 15 de março de 2015

MANUAL DA DELICADEZA

A ed. FTD fez uma edição nova do meu livro Manual da Delicadeza. São as mesmas ilustrações da Elvira Vigna, mas o formato é diferente. Antes era um livro comprido e agora é um livro pequeno. O tamanho do livro mudou a minha percepção das ilustrações. O livro diminuiu e elas cresceram muito. E os poemas cresceram junto.

A nossa sociedade hoje está crispada, tensa, violenta. Nada delicada. O século XXI é duro, com guerras por intolerância religiosa. Jovens desertam de suas vidas, de seus países, para ingressar em movimentos terroristas que matam da maneira mais cruel, destroem, nos levam para as ruelas inundadas de sangue da antiguidade.

Há uma falta generalizada de delicadeza. E ela é o exercício mais necessário para que possamos exercer a nossa precária humanidade que se inaugura quando me reconheço no outro mesmo que ele seja diferente.
A intolerância e a brutalidade tornam a vida áspera.
Uma parte do país foi para as ruas defender o Governo e felizmente tudo aconteceu em paz. Hoje outra parte sairá para protestar e esperemos que tudo ocorra em paz. Todos, cada um de nós, tem o direito de pensar de uma maneira ou de outra. Sem bombas ou destruição.

MOINHO

São as águas
da delicadeza
que movem o mundo.

Uma palavra amorosa,
um gesto,
uma carícia,
fazem a Terra
mais azul
e mais leve,
trazem à pele
a memória mais antiga:

Também somos um grão
de estrela e de infinito.

sábado, 14 de março de 2015

UM CAMINHO NO OUTONO

Levo comigo um pequeno livro do Kafka , uma espécie de diário, onde anotava seus pensamentos,indagações, discussões sobre o pecado, o bem e o mal. Muitas vezes são páginas lindíssimas, fazem o coração disparar. Às vezes uma pequena frase e me desprendo de mim e voo. "Cuadernos en Octavo", não sei se existe em português. 
No dia 6 de novembro de 1917 ele escreve:" Como um caminho no outono: acabam de limpá-lo e já está outra vez coberto de folhas secas". Logo em seguida escreve: " Uma jaula foi em busca de um pássaro."
Estas duas frases me inquietam. Porque a vida é este caminho coberto de folhas secas que uma e outra e outra vez temos que limpar, nas tarefas miúdas do cotidiano e só quando a vida corre perigo, vemos a beleza deste gesto que se repete desde o começo do mundo. Além disso, um caminho coberto de folhas secas no outono enche meus olhos de dourado e a sensação dos pés que fazem música pisando nas folhas que estalam,  fazem  meu corpo se fundir com a terra.
E "uma jaula foi em busca de um pássaro", além de uma pintura me fala sobre o nosso desejo de conforto,m de aprisionamento, de um vestir-se de clichês, frases feitas, porque a verdadeira liberdade dói. Porque o céu é demasiadamente imenso e quando livres temos a perfeita dimensão da nossa insignificância. 

sexta-feira, 13 de março de 2015

HONRA

Acho que recebo de Saquarema muito mais do que mereço, sem estar fazendo demagogia ou dizendo isso para que vocês respondam aquilo. Mas ontem fui incluída pela Secretaria de Educação e Cultura entre as 14 pessoas homenageadas porque fizeram e fazem parte da história de Saquarema.
Eu simplesmente existo aqui, quietinha no meu canto. Tento fazer algo pela leitura nas escolas, porque tendo participado de tantos projetos de leitura acabei aprendendo alguma coisa sobre a formação do leitor.E é o mínimo que posso fazer.
É uma honra muito grande você ficar sabendo que faz alguma diferença na sua cidade. E ao dizer isso para o Nelsinho, pintor e figura maravilhosa ontem à noite, que tanta gente merecia mais do que eu estar ali, ele me disse a frase mais linda: _ mas você está aqui, entre a gente, escolheu estar aqui.  
Entre os que já não vivem na Terra, meu grande amigo Latuf, que foi embora me deixando órfã de uma das mais belas amizades que já vivi, estava entre os escolhidos. Ele era mais velho do que eu, mas ele dizia, eu era a sua idiche mami. Com bolo e café com leite para a merenda.
Minha amiga Fátima Alves, por exemplo, constrói uma história tão bela aqui no Município, com o seu Educandário do Bem. Silenciosamente ela transforma a vida de muitas crianças e jovens. Ela oferece Oficinas de Capoeira, Rodas de Leitura, Dança, Percussão e ainda outras, que são fruto de parcerias. Funciona no contra turno escolar, apenas para quem está matriculado em Escolas Públicas. São mais de cem crianças, todos os dias! E com lanche e numa casa linda que transborda amor.
Fátima não faz alarde do seu trabalho E precisa muito de colaboração. Tem gente que se oferece para cortar o cabelo das crianças, para pintar a casa, consertar, remendar. Tem gente que contribui com pequenos valores mensais que ajudam a pagar as contas de água e luz.
É emocionante alguém fazer um trabalho tão imenso e que dá tanto trabalho, apenas para fazer um bem!
Quem quiser colaborar com a sua gotinha de chuva que ao se somar com outras gotinhas e receber um raio de sol, farão o mais belo arco-íris, deixo aqui o telefone e o endereço do Educandário do Bem.
Tele: 22 26532501
Endereço: Rua Cananéia número 02 (final da Rua Pereira), Bairro da Raia, Bacaxá, Saquarema.
E agradeço aos que me escolheram para estar entre as pessoas que fazem a História de Saquarema, tamanha honra.

quinta-feira, 12 de março de 2015

LANÇAMENTO

Estou quase de malas prontas. Farei uma viagem cheia de surpresas. Primeiro vou para a casa da Monica no Rio, onde uma braçada de afetos me espera. Pipoca, sua linda viralatinha, já mandou dizer que está com saudades. Urso e Polar também. Além da minha amiga tem a sua netinha, filha da Louise, que adotei em meu coração, tem a Letícia, o Bruno, A Dôra que faz comidas maravilhosas... é muita gente amada. Depois de alguns médicos e a algumas visitas, sigo para Resende levando a minha amiga junto.
E lá em Resende, filhos, noras e meu neto Luis e minha neta Gabriela.
Gabriela, com um ano e quatro meses falou a sua primeira frase: "neném quer papar", sendo filha de dois cozinheiros...
Meu neto Luis, como mora dentro de uma escola de música e artes, faz todos os cursos para a sua idade. E agora também faz aulas de hiphop e está amando.
Viver longe dos netos é um suplício. Cada vez que nos encontramos eles já mudaram demais.
Sábado dia 21 minha nora Patrícia de Arias lança seu terceiro livro , Uma Ideia no Bolso, com ilustrações de Elizabeth Teixeira , ed. Rovelle. O livro é uma graça. O lançamento será no casarão da Atrium  Escola de Música, no Centro Histórico de Resende, Será um Café da Manhã com contação de histórias. Estarei lá, super orgulhosa da minha nora, excelente poeta. Sou sua tradutora e se alguém quiser conhecer a Patrícia, estar um pouco comigo, que venha!
E depois... Mauá, minha casinha na Mantiqueira. Mergulhar na mata.

quarta-feira, 11 de março de 2015

GRITO DE GUERRA

O Brasil anda em pé de guerra. O momento é muito delicado. Escuto gritos de guerra e gostaria de me posicionar. Porque um político disse que era preciso dar porrada nos burgueses. Um ex Presidente diz que é preciso botar o exército dos Sem Terra nas ruas.
Tenho amigos de todas as idades e de todas as cores. De todas as camadas sociais. Da Classe A a Classe Z. E de todos os matizes políticos . Pois entendo que qualquer ser humano, desde que respeite o seu semelhante tem direito de pensar do jeito que quiser. Tenho 64 anos, brasileira, profissão poeta, branca, burguesa, de elite. Já que tenho casa própria, seguro de saúde e posso comer e viajar. Não sou consumista por filosofia de vida. Prefiro usar o que ganho para ajudar quem posso. Na nossa casa empregamos um casal. Ele é diarista, jardineiro e vem duas vezes por semana. Samuel, um ser humano maravilhoso. Ela é a nossa caseira,Vanda. Trabalha meio expediente, mas ganha mais que o salário mínimo. Além dos encargos, todos os meses deposito seu FGTS. Nossos empregados comem na mesa com a gente e trabalhamos num esquema de cooperação.  Sofremos, eu e meu marido, de empatia crônica. Todos que nos conhecem sabem disso.
Mas como sou branca, burguesa e de elite, e discordo completamente do Governo em ação e do seu tom belicoso e estridente, mereço levar porrada. 
Sou pacifista. Prego o entendimento. A delicadeza em todas as esferas. Claro que eu seria hipócrita se dissesse que falamos a verdade o tempo todo. Mas há limites para a mentira e para o engano.
Não gosto deste clima de guerra e de ver  quem não pensa como eu como um inimigo a ser exterminado. Tenho horror, por motivos genéticos, da palavra extermínio.

terça-feira, 10 de março de 2015

O AMOR É VERMELHO

Ganhei de presente o livro O Amor é Vermelho, da poeta Suzana Vargas com fotografias belíssimas de Antonio Lacerda, ed. Garamond.
Para a poeta o amor é vermelho, é sangue, pele, corpo. Às vezes é áspero,  e o outro inalcançável. Às vezes é pedra, sombra, numa poesia de arquitetura perfeita, numa trama espessa.

COMO SEMPRE
Na minha estrada há sempre um trem partindo:
trilhos, acenos, lenços,
lembranças me esmagando, muitos sóis.

Há sempre um ocaso ameaçando
as fotos novas que prego
em meus murais.

Tu és mais um adeus
neste caminho
que acomete diamantes,ouro
tardes tardes e mais sol
enquanto eu passeio muda
                                pelas sombras.

segunda-feira, 9 de março de 2015

MORTE EM VENEZA

No último encontro do Clube de Leitura da Casa Amarela discutimos dois livros que se entrelaçam e são opostos. Marca D'Água de Joseph Brodsky é um mergulho do olhar na beleza, não uma busca pela beleza, pois simplesmente ela está em tudo e o poeta e suas entranhas navegam sem tensão.
Se Marca D'Água se passa no inverno, Morte em Veneza de Thomas Mann se passa no verão, num calor que tudo apodrece, até mesmo o mundo interno tão bem construído do personagem escritor.
Falamos das premonições, Cristiano lembrou que se em Marca D'Água o poeta é o narrador e personagem, em Morte em Veneza temos o narrador separado do personagem.
A busca pela beleza em sua escrita, em sua vida, é cheia de tensão, o escritor nunca relaxa, ele não é um poeta que mergulha  que se deixa perder, mas um caçador. Disciplinado, atento e tenso. Sua vida até então é uma arquitetura muito bem construída que começa a ruir já na escolha do seu destino, quando o destino se impõe. E rui definitivamente quando encontra Tadzio, o menino de beleza deslumbrante.
Fernando pergunta: " a sua paixão por Tadzio é homossexual ou apenas a busca da beleza perfeita"?
Todos achamos que é uma mistura das duas coisas. Maria Clara fala do mito de Narciso. E diz que o amor homossexual é narcísico, o que gerou muita discussão.
Cristiano trouxe dados concretos da vida de Thomas Mann.
E falamos do contraste entre a "velhice" do escritor e a extrema juventude de Tadzio, apenas um menino. E como tudo se soma para desembocar na morte.
Falamos muito. É um livro muito rico. Magnificamente estruturado.
Discutir dois livros tão belos dá fome. Um almoço maravilhoso preparado pela Vanda, nossa caseira, vinho e pão feito em casa (por mim). E no final uma homenagem aos que fizeram ou fariam aniversário. Na verdade, Suzana e Leila, mas muitos também quiseram a homenagem e foi divertido. Cantamos parabéns, e já somos uma família.
Próximo encontro: dia 16 de maio às 11hs
Livros: As Cidades Invisíveis, Italo Calvino, alguma crônica do Rubem Braga e um poema da Elizabeth Bishop.

  

 

domingo, 8 de março de 2015

ENCONTRO



Ontem aconteceu o nosso encontro do Clube de Leitura da Casa Amarela. Recebemos uma convidada muito especial: Suzana Vargas, poeta, criadora do espaço Estação das Letras no Rio de Janeiro.E Cristiano Mota Mendes, músico, ator, diretor de teatro, leitor extraordinário, que de vez em quando aparece.
O grupo é bastante heterogêneo, o que torna a leitura de um livro extremamente rica, são tantos olhares diferentes .
Começamos com Marca D’Água de Joseph Brodsky, que nos leva com seus olhos de poeta por uma Veneza no inverno, que eu achava em preto e branco, mas Maria Clara me chamou a atenção para os dourados delicadíssimos na luz do inverno. Maria Clara também nos diz que pelo fato de ter voltado a Veneza 17 vezes, a intimidade do poeta com os labirintos venezianos o torna quase um ser aquático.
Adelaide, Janaína, César e Maria Clara comentaram sobre a dificuldade de entrar no livro e eu diria que há que atravessar o primeiro nevoeiro, pois não é um romance, não é um livro de poemas. É uma divagação, um quase sonho. Hélio diz que é uma prosa poética e romântica.
Juan falou sobre dois momentos do livro que também aconteceram com ele em viagens a Veneza. Juan é, como Brodsky, um amante de Veneza, de tal maneira, que Felipe Gonzalez, quando estava no poder, lhe ofereceu o cargo de Cônsul Honorário O passeio de gôndola por uma Veneza desconhecida onde o gondoleiro pediu que se deitasse no fundo do barco e o encontro com a viúva de Ezra Pound.
No livro Brodsky faz um passeio impressionante de gôndola à noite.
Leila nos diz que fez um passeio de gôndola bem turístico, mas completamente emocionante. Ela encontrou a paz, e também um novo olhar sobre a cidade.
Ninguém conhece a origem das gôndolas, diz Juan, e Chico conta das gôndolas em Las Vegas, para mim, algo completamente estranho. Como uma baleia num aquário. Juan completa: ao conhecer uma fábrica de gôndolas em Veneza, lhe contam que os maiores compradores são americanos.
Angela e Helio leram trechos belíssimos.
Todos falamos sobre a beleza que o olho encontra naturalmente em cada lugar que pousa. Assim também a escrita de Brodsky, maravilhosa.
Falamos dos espelhos e da água.
Da água calma e lacustre e então passamos para o mar, para Veneza no verão, para Morte em Veneza.
Continuo amanhã a nossa viagem.

quinta-feira, 5 de março de 2015

CINEMA

Já que em Saquarema não temos cinema, vou vendo os filmes que caem nas minhas mãos. Muitas vezes pesco filmes maravilhosos na TV fechada. Ontem vi London River, a história de uma mulher que vive numa ilha britânica e de um guarda  florestal africano que trabalha na França. Seus destinos se cruzam na busca pelos filhos desaparecidos. O filme é belíssimo, perfeito e muito muito muito triste. 
Uma amiga me manda uma mensagem: "por favor, veja A Cem Passos de Um Sonho" . Vai amar".
Comento com a minha irmã e ela disse que viu e tem o filme e me envia por correio.
Adorei o filme, é uma graça. Amor e gastronomia. Culinária francesa e indiana. Atores maravilhos, muito humor e final feliz. Pronto, uma receita maravilhosa. Vi duas vezes.
Os sabores são uma das melhores chaves para abrir o castelo da memória.

quarta-feira, 4 de março de 2015

SOLUÇÃO

Vocês sabem aquelas bicicletas cobertas , fechadas, lá dos países do Oriente, conduzidas por alguém que pedala?
Pois bem, vi uma reportagem mostrando a mesma condução, mas ao invés de alguém pedalando aquele peso tão grande, a "bicicleta" era elétrica.Cabem três pessoas. E ela salvaria o mundo, as grandes cidades. Sonho: poderia funcionar com energia solar. Já se poderia estar fabricando este veículo aos milhões.
E os carros seriam coisa do passado. Caros, pesadíssimos, poluentes.Atravancadores.
Imagino além: estas "bicicletas" coloridas, bem coloridas, as ruas pareceriam um eterno arco-iris.
E quem adivinha porque isso não é possível?
Porque o mundo anda na contramão do mundo. E não há quem consiga financiar este projeto que colocaria um ponto final nas indústrias de carros, na dependência que temos do petróleo, etc.

Escrevo na varanda.  Escrevo voltada para o jardim. O dia está absolutamente azul.  Os coqueiros dançam. No flamboaiã não há mais flores mas a árvore está cheia, gorda de folhas de um verde macio. E o mar canta nas minhas costas.

terça-feira, 3 de março de 2015

POÇO DOS DESEJOS

Para escrever os poemas do meu livro Poço dos Desejos, ed. Moderna, fiz uma lista de desejos. Perguntava para as pessoas: _Qual o seu maior desejo?
Mas pensando bem, tão importante quanto saber o que desejamos é saber o que não desejamos.
Tenho uma lista do que não desejo. Difícil administrar isso, pois às vezes é necessário dizer não.
Dizer não às vezes é muito importante.
Que cada um um de nós saiba claramente o que deseja. E saiba dizer sim e não na hora necessária.
Mas há um desejo que nunca passa :

DESEJO DE ABRAÇO
Desejo de abraço
nunca passa.
Abraço é o nó mais delicado
que há.
Um braço aqui e outro lá
e o coração se derrete,
o corpo afunda na mais
gigantesca felicidade.

in Poço dos Desejos, ed. Moderna

  
 

segunda-feira, 2 de março de 2015

RECUPERAÇÃO

Hoje faz um mês que fiz uma grande cirurgia na coluna, quando apenas três meses e meio antes havia feito uma grande cirurgia no quadril.
Com apenas um mês já faço quase tudo e não tenho dor. Já assumi a cozinha da casa. Eu sou a cozinheira.
Eu já não tinha a memória de um tempo sem dor.
Agora tenho vontade de dançar.
Nunca imaginei que isso pudesse acontecer. Para o milagre, dois grandes cirurgiões, claro,e uma grande amiga, Monica Botkay, que entrou novamente na minha vida para me conduzir a este final feliz. Mas foi preciso que eu chegasse ao mais fundo do poço.
Voltei para casa muito fragilizada e agora faço meditação novamente com a supervisão de uma terapeuta de meditação healling. Como moro longe, a supervisão é feita por whatsup, usando a tecnologia como suporte.
Aconselho meditação como um remédio muito eficaz. É impressionante como está sendo fundamental na minha reconstrução..
Quando uma pessoa tem dor contínua por vinte anos, diariamente, a dor pauta a sua vida.
Há que aprender a não buscar a dor.
Faço planos, mergulho de cabeça nos meus projetos.
Em breve poderei ir para a montanha. A minha casinha dentro da mata me espera. Onde escrevi o Diário da Montanha.
Numa das meditações que fiz ontem, uma imagem lindíssima: ao fazer contato com o coronário (o lugar onde fica a moleira do bebê) um baobá irrompia de dentro de mim rumo ao céu. Suas raízes eram a minha coluna. Nunca tive dúvidas de que sou humana-árvore. Tem gente que é. Mas com esta linda imagem que meu inconsciente me enviou, fica provado. Só não sabia que eu era um baobá.

domingo, 1 de março de 2015

NA COZINHA

Ratos e baratas, para mim, são monstros. Odeio e dou chilique. Mas, convenhamos , a cozinha deveria ser o último lugar onde estes "monstros" deveriam viver.
Pois bem, li uma matéria ontem de William Helal Filho, que me deixou estarrecida. Uma matéria bem pequena mas que demonstra muito concretamente a falência moral de um país.
Restaurantes e Botequins na Gávea e Leblon, os bairros mais caros do Rio de Janeiro, com ratos e baratas na cozinha, TONELADAS de alimentos estragados, restaurante japonês com quilos de salmão fora do gelo, carne apodrecendo numa hamburgueria famosa... e nós , simples e crédulos mortais, acreditando nos donos destes restaurantes. Pois o princípio de tudo é a confiança. Se vou comer num lugar caro, num bairro nobre, para festejar com amigos, para festejar um aniversário, digamos, eu confio que a cozinha estará limpa, que os cozinheiros tenham muito orgulho do seu trabalho, etc, etc, a matéria prima de primeiríssima qualidade!
Quando o dono do restaurante, em plena consciência, convive com ratos, baratas e alimentos podres, a sua moral também apodreceu. Ele traiu um pacto entre o que cobra e o que oferece. Está enganando, roubando.
Os nomes dos estabelecimentos estão no O Globo de ontem.
Que cada um de nós se proteja e não se deixe contaminar por toda esta onda de lama que assola o país. Que cada um permaneça limpo e ofereça o melhor que tem dentro , o melhor do seu talento, dos seus esforços. É o que nos confere dignidade.
Se cada um de nós fizer o que sabe fazer da maneira mais bela possível, sem enganar, trair, roubar, ainda podemos salvar o país.

sexta-feira, 27 de fevereiro de 2015

MEMÓRIAS

Recebo por correio um livro da minha irnmã Evelyn que mora em Visconde de Mauá. Ela comprou num sebo e chorou muito. Ela me diz: se prepare para ter um encontro com o nosso pai.
O livro se chama Eu, Filha de Sobreviventes do Holocausto de Bernice Eisenstein.
Eu respondo: nossos pais vieram antes da guerra. Nós não somos filhas de sobreviventes do Holocausto.
Ele me diz : leia, mas se prepare.
Comecei a ler.  O pai da autora É o nosso pai. A sua casa da infância É a nossa casa.
Meus pais vieram antes da guerra, mas toda a minha infância convivi com sombras.
Muito pequena mesmo, com seis anos, eu já sabia o que era um Kapo, um neurótico de guerra. Na minha casa se falava ídiche quando era pra gente não entender. Eu nunca quis aprender. Mas sei algumas palavras pejorativas, palavrões, nomes de comida. Minha babá negra, a Eunice, xingava em ídiche.
Como o pai da autora , meu pai era um jogador. Meu avô materno também. E nosso vizinho, Waldemar, neurótico de guerra, tinha em casa como um Salão de Jogos. As pessoas (só judeus) iam lá para jogar.
Meu pai, como o pai da autora, tinha acessos de raiva, mas era engraçadíssimo, ria, contava piadas, comia muito. Ele dizia: Passei fome na Polônia. A fome que a gente passa nunca passa.
Meu pai era lindíssimo. Um homem alto, de olhos azuis, sempre bem arrumado. Como o pai da autora. E como ela eu sempre disse para mim mesma: Ah, porque não herdei os belos olhos do meu pai? Meu pai era um homem muito sensual. 
Algumas posturas do pai da autora são do meu pai. Domingo de manhã, deitado na cama, ouvindo música clássica. Já no segundo acorde ele dizia o autor e eu com uns oito anos nem podia acreditar.
Como a família da autora toda a minha família na minha infância morava perto, mas perto mesmo, quase ao lado. Bem novinha eu ia só de uma casa para outra para comer as delícias. Biscoitos de nata na casa da minha vovó Faiga e pudim de duas cores na casa da tia Cecília.
Meu pai nunca queria falar do passado. Não sei nada do seu passado na Polônia, nem quem são os seu antepassados. Ouvi falar, de leve...Não sei quem ficou na Polônia .
Meu pai saiu da Polônia com 14 anos . Ele não falava polonês. Só ídiche. Mas cantava uma música meio indecente que eu adorava: da Tatiana. É que a Tatiana estava doente e foi ao médico , mas a sua doença era um bebê na barriga! E pedia: pai, canta a musica da Tatiana!!!
O irmão do meu pai morava em Niterói.Tio Waldemar. E sua mulher era tão doce, minha tia Dora. Eles conversavam muito em ídiche.  Passei minha infância indo de barca ver meus tios. Os irmão se amavam e era bom, eu sentia a felicidade do meu pai. Contavam piadas, riam.
O pai do meu pai foi assassinado na sua frente. A Polônia, mesmo antes da guerra não gostava nada dos judeus.
Meu pai me deu uma caixa invisível cheia de tesouros: a honestidade como valor absoluto, a compaixão, saber que a minha humanidade é um exercício diário. O amor pela arte. Meu pai era um homem bom. Incorruptível. Nunca desejou bens materiais. Nunca se curvou diante de ninguém. Queria amor. O amor dos filhos.
Faz tanto tempo que ele se foi. Mas ontem nos encontramos . Lejbus Kligerman, meu pai, a morte não existe.
 

quinta-feira, 26 de fevereiro de 2015

ATOS E PALAVRAS

Às vezes fico tão desesperada com o mundo que não quero ouvir nada nem ler jornal nem saber de nada, como se assim apagasse as tragédias. Mas é impossível. Estamos no mundo. No café da manhã o jornal O Globo já está na mesa. Mas há uma coluna no jornal que amo : Conte algo que não sei. É sempre gente fantástica falando com alguma proposta ou algum olhar bem diferente.
Hoje fala Gab Gomes, empreendedor urbano. Ele diz : "A utopia serve para a gente caminhar".
Ele diz que temos que nos apropriar da nossa rua. O espaço público é nosso. E pequenas ações são revoluções.

O mundo hoje, as grandes cidades, super habitadas não podem ficar apenas nas mãos dos governantes.
Se você puder fazer algo pela sua rua faça. Não fique apenas reclamando.
Ele fala do Múrmura, um projeto que trabalha este conceito. Múrmura é uma palavra linda. Parece um rio murmurando. Ele diz que o mundo precisa cada vez mais de pessoas que façam. As ideias já existem.
Concordo com ele. Não podemos cruzar os braços. Trabalhemos no pequeno.

quarta-feira, 25 de fevereiro de 2015

FRUTA NO PONTO

Ontem a minha editora da FTD disse que neste semestre sairá uma nova edição, com novas ilustrações, do meu livro Fruta no Ponto.
Este livro tem uma belíssima história. Saiu em 1986. Antes de sair, eu estava em Belo Horizonte e Bartolomeu Campos me disse: "vi as ilustrações do seu livro. O livro está ficando maravilhoso."
Só vi o livro pronto. Muito mais do que maravilhoso. Era algo novo. As ilustrações de Sara Ávila, abstratas, ocupam na página o mesmo éspaço que o poema. Se o poema tinha três estrofes, na página ao lado a ilustração também tinha três estrofes.
Uma noite, no meu apartamento do Rio Comprido, era uma festa, não lembro porque amigos e família estavam lá. Tocou o telefone. Era alguém da F.N.L.J. Não sei se Laura Sandroni ou Eliane Yunes. Meu livro havia recebido o Prêmio de "O Melhor de Poesia". Era o primeiro ano em que davam este prêmio.
Comecei a tremer e em minutos estava com 40 graus de febre. Fui para a cama e me encheram de cobertores.
Este livro foi para a Feira de Frankfurt em 1994. O Brasil era o país homenageado. Um poster com o livro ali na Alemanha. Muita emoção.
Em 2016 Fruta no Ponto faz 20 anos.

terça-feira, 24 de fevereiro de 2015

FLORES RARAS

 Encontro a descrição do livro Flores Raras que amei. Faz tempo que li. Está abaixo. Ontem vi o filme do livro por Bruno Barreto e fiquei emocionadíssima. As atrizes estão mais do que perfeitas e convincentes.Vale a pena ver.
Uma cena, para quem é poeta, vale por mil aulas de poesia. Elizabeth Bishop, em sua primeira aula de poesia na frente da turma, nos Estados Unidos, depois de ganhar o Pulitzer , diz aos alunos mais ou menos isso:
Não acho que se possa ensinar a fazer poesia. Posso ensinar a olhar.

" Na década de oitenta, ao ler esta dedicatória em livro de Elizabeth Bishop para Lota de Macedo Soares, a escritora Carmen L. Oliveira ficou intrigada - ´...Lota?´, indagou-se. Em 1966, na pós-graduação nos Estados Unidos, conheceu a obra de Bishop, famosa poeta americana, e ficou surpresa ao saber que, naquela época, as duas moravam no Brasil. Mas quem era Lota? No início dos anos noventa Carmen descobriu que Maria Carlota Costallat de Macedo Soares foi uma esteta brasileira, que concebeu e construiu o Parque do Flamengo, enorme contribuição para a cidade do Rio de Janeiro. A publicação nos Estados Unidos do livro One art, que reúne a correspondência de Bishop, revelou a ligação amorosa das duas, que durou de 1951 a 1967. Nas biografias lançadas sobre a poeta, a esteta brasileira aparece como her lover, sempre em segundo plano. Simultaneamente, Carmen descobria em Lota um dos mais fascinantes, insólitos e raros personagens brasileiros deste século, que caiu em total anonimato. Neste livro, a autora conta a relação das duas e a criação do Parque do Flamengo. E ao contrário das biografias norte-americanas, que priorizam Bishop, o livro focaliza Lota e as figuras que junto com ela construíram a história recente do Rio de Janeiro e do Brasil. Segundo a autora, a relação das duas pode ser dividida em duas fases. Nos primeiros dez anos foram felizes e assumiram sua homossexualidade com surpreendente naturalidade para a época. A partir de 1961, a obsessão de Lota pela conclusão do Parque do Flamengo e a crescente instabilidade emocional de Bishop contribuíram para que enfrentassem uma forte crise até 1967. Muito além de um caso amoroso, o livro revela trechos inéditos da história do país: as discussões de Lota com o governador Carlos Lacerda, a briga com o arquiteto Sérgio Bernardes, a rivalidade com Burle Marx, a presença de Manuel Bandeira, Clarice Lispector, Portinari, Carlos Scliar, Rachel de Queiroz e Carlos Drummond de Andrade. Mas sua principal contribuição é o resgate de Lota, consciência de vanguarda que combateu a fúria imobiliária e a intervenção nos monumentos naturais do Rio de Janeiro. Lota conseguiu pela primeira vez no país que um projeto urbanístico fosse tombado."

segunda-feira, 23 de fevereiro de 2015

PARA COPIAR

Algumas atitudes mudam a vida da própria pessoa e mudam a vida de muita gente. Recebi um depoimento maravilhoso de Lucia Pellon. Por favor, copiem.
Conto histórias desde que me entendo por gente. Primeiro, para minha irmã mais nova, depois, como professora de Jardim de Infância, logo que saí formada do Instituto de Educação, e também para os três filhos, e agora para os netos. Assim que me aposentei, há vinte anos, trabalho como voluntária em casas que trabalham com crianças de comunidades de baixa renda. Monto bibliotecas com o acervo doado ( muitos livros bons,impressionante ) e trabalho com oficina de leitura. Conto histórias, sempre de livros, e depois proponho um aproveitamento do texto, através de técnicas de arte- educação, nos moldes da saudosa Escolinha de Arte do Brasil, de Augusto Rodrigues. Há, em paralelo, o empréstimo de livros, quando a criança escolhe livremente qual deles deseja levar para casa. Ao retornar o livro, a criança faz um breve relato, para as colegas, sobre o que leu, se gostou ou não, como uma propaganda do livro.
Continuo frequentando cursos de contação de histórias, porque o professor tem que se atualizar constantemente. Sou discípula do Mestre Francisco Gregório e do ator, autor e palhaço Março Andrade.

domingo, 22 de fevereiro de 2015

PROJETOS

Abrigo em minha casa vários Projetos que me dão felicidade , alegria, vitalidade.
Atualmente tenho três funcionando. O Clube de Leitura da Casa Amarela, onde os leitores compram o livro indicado para ler em casa e nos encontramos de dois em dois meses para discutir o que lemos.Não é uma discussão acadêmica, eu não tenho nenhuma base para isso. É uma discussão amorosa. Depois ofereço um almoço ,pão feito por mim, vinho. Desta vez além do livro Morte em Veneza, também se poderá ver o filme depois do almoço. Discutiremos também o livro Marca D'água de Joseph Brodsky. Interessantíssimo discutir os dois livros juntos pois Joseph Brodsky comenta Morteem Veneza, o livro e o filme.
O Segundo Projeto é o Café, Pão e Texto. Recebo escolas para um café ou almoço literário, um encontro comigo. É fantástico, emocionante. Espero que em abril já receba a primeira escola do ano com a Eczúvia Magenta. Podemos remarcar Eczuvia?
O terceiro é um encontro mensal com os professores trazidos pela Secretaria de Educação.
Faço meus projetos como a minha pequena doação. Já consegui fazer leitores. E amigos!!!
O Coral do Maestro Moises Santos já veio por duas vezes cantar aqui em casa e espero que logo venha pela terceira vez.É muito emocionante.
Já fiz vários lançamentos de livros aqui. Acho que a Casa Amarela já tem vida própria.

sábado, 21 de fevereiro de 2015

DANÇA

Sou apaixonada por histórias de esforço e superação, talvez porque a minha própria história pessoal caminhe por esta estrada.
Já falei aqui do Leo, o bailarino de Saquarema que estuda balé no Teatro Municipal, terminou a Faetec e passou para uma Uuniversidade Pública onde cursará dança. Os esforços deste lindíssimo menino para conseguir dar conta de todos estes compromissos morando em Saquarema, são inimagináveis. Com a ajuda de várias pessoas, amigos e admiradores, Leo conseguiu doações para pagar as passagens, lanches, etc. Maria Clara, do nosso Clube de Leitura, que foi sua professora, abriu sua casa no Rio para ele.
Pois bem, Leo ganhou uma bolsa completa para um curso de um mês em Miami em julho.As possibilidades que se abrem para o Leo, de uma carreira internacional são imensas. Se o Balé de Miami gostar do seu desempenho, ele ganhará uma bolsa completa de um ano, com passagem, hospedagem, alimentação.
A sua viagem em julho não dá direito a nada disso. Apenas o curso. Leo é negro e sua família não tem a menor condição de ajudá-lo. Acontece que o Leo voa. Que o seu sorriso é o mais lindo do mundo. Acontece que o Leo é um exemplo magnífico para jovens estudantes. Então, é impossível ficar indiferente ao esforço do Leo. Já estou mexendo o caldeirão de bruxa boa para conseguir a passagem do Leo. O meu conselho para o Leo foi : Não aceite dinheiro de políticos. Hoje em dia é um dinheiro perigoso. Portanto, sopro poesia no meu caldeirão e quem quiser ajudar, fale comigo.

sexta-feira, 20 de fevereiro de 2015

O MAR

Notícias do mar que só vejo de longe, daqui da varanda : está calmo, assim parece. Azulazulazul , o que pede como complemento gaivotas brancas .Ainda não posso descer até o mar, o que será possível assim que tiver alta no dia 17 de março. Tenho vários encontros marcados para depois da alta. Comigo mesma, com a montanha e o mar.
Espero para março meu livro Duas Casas que sairá pela ed.Lê com ilustrações maravilhosas da Elvira Vigna. Neste livro falo das minhas duas metades, de um lado meu sangue é verde e do outro misturado com sal. 
Já tenho vontade de trabalhar. Em breve recomeçarei meu Projeto Café, Pão e Texto.Se consigo tocar uma criança com meus poemas já ganhei todos os prêmios.
Sinto a vida mais espessa dentro de mim. Meus pós operatório está terminando.

quinta-feira, 19 de fevereiro de 2015

VISITAS

Ontem minha amiga Monica me disse: já somos uma tribo.
Amo a palavra tribo. Mas depende do que une a tribo.
Saramago uma vez disse numa conferência, eu estava na plateia:
"Existe no mundo a tribo da sensibilidade".
E os amigos são a tribo mais maravilhosa do mundo. Um grande exercício de amizade é ficar atento. Se meu amigo(a) oeiras precisa de algo e eu posso ajudar, tento ajudar. Para mim é quase um ofício. Sou exímia tecelã de redes.
Hoje recebo Letícia, filha da Monica e seu namorado Bruno. Eles foram grandes Anjos da Guarda na minha recuperação lá no Rio. Poder retribuir um pouco é um luxo.
Ao mesmo tempo meu filho Guga recebe a Nina , a outra filha da Monica em Resende para encaminhá-la a um belo lugar de cachoeiras.
Esse é o sentido da tribo e suas conexões.
Eu espero o dia de voltar a Mauá para a minha tribo de árvores.

quarta-feira, 18 de fevereiro de 2015

CALMARIA

Saquarema acordou bem mais vazia e silenciosa. Que venha a calmaria mas com vento. Não tenho ferramentas para compreender a loucura que cobre a cidade, as cidades. Isso é tarefa para antropólogos. O furacão CarnavalBrasil pede que você entre em seu núcleo.Que você participe. Estar fora é estranho.
Mas a vida é assim, cheia de abre e fecha parênteses.
Entretanto a loucura que toma conta do país pode ensinar muitas coisas ao mundo. Todos pulando e dançando juntos, pele com pele, o meu suor é o teu suor, e se trocássemos as guerras pelos blocos de carnaval? Palestinos e israelenses sambando juntos, gritando juntos, russos e ucranianos, etnias africanas ? Cada um cantando em sua língua. Ninguém precisando matar ninguém.
Engraçado, no carnaval há um ímpeto nos homens em se vestir de mulheres. No entanto, não vejo as mulheres querendo, desejando se vestir de homens.  Ao contrário, cada mulher traz à tona tudo que pode da sua sensualidade feminina.
Talvez os países árabes devessem importar o carnaval brasileiro para que as mulheres pudessem dançar junto com os homens.(Tenho até medo de escrever isso. Será que estou ofendendo?)
Então, talvez  a loucura- carnaval ajude a quebrar preconceitos. Sabe aquele homofóbico doente? Está lá no bloco, vestido de mulher, pulseiras, colares, batom. Sabe aquela senhora racista? Nem que estude mil anos conseguirá sambar como a negra maravilhosa ao seu lado.
Mas o carnaval já é uma miragem que se afasta. Novamente, fantasias no armário, as pessoas retomarão suas vidas, seus preconceitos. Bom seria que algo maravilhoso sobrasse. O desejo de ser verdadeiro. Pequenas loucurazinhas em doses homeopáticas, tipo uivar para a lua. 
  

terça-feira, 17 de fevereiro de 2015

MEMÓRIAS

Carregamos um saco de memória nas costas. Li uma reportagem muito interessante. Mas Jung já falava disso no inconsciente coletivo: o que meus pais passaram os medos que trouxeram da Europa, entraram mo meu DNA . Sou uma herdeira de experiências que não vivi. Então, às vezes o saco de memórias vai nas costas e outras vezes é alguma coisa que vive dentro de mim, que veio de longe.
O saco de memórias do nosso jardineiro Samuel tem cheiro de fazenda. Ele sempre trabalhou na terra, arando, dirigindo trator, levando o leite  para a cooperativa no interior de Minas. Adoro conversar com ele. Entendo a sua nostalgia.Ele é da terra profunda como eu.  Hoje ele veio trabalhar, pois é diarista.E não gosta de carnaval. Pedi para cortar a grama de dois pedacinhos de jardim. E o cheiro da grama cortada abre o meu saco de memórias. E me faz feliz. Sou transportada para o campo. A temperatura está maravilhosa e este cheiro inebriante de verde me dá vontade de dançar feito uma árvore..A minha paixão pela terra vem de longe. Não sei praticamente nada da minha família, mas alguma voz distante diz que minha avó materna  morava no campo, na Polônia. E claro que se examinarem atentamente meu DNA, sou árvore também.

segunda-feira, 16 de fevereiro de 2015

ANTIDEPRESIVO

No começo de 2014 comecei a tomar um antidepressivo . As dores que tinha não eram suportáveis e eu me afundava num pântano. Todos as manhãs quando acordava urrando de dor pensava como iria suportar o dia. O Cymbalta é um auxiliar na dor crônica. E consegui sair do pântano e respirar. Mas eu já tinha programado parar o Cymbalta depois da cirurgia. Só que parei de uma vez só, contrariando todos os cânones da medicina. Tive muitos efeitos estranhos. Hoje finalmente acordei bem. Digo, por dentro.
A partir desta experiência a consciência de mim ficou abalada. Eu era eu mas também uma outra. Eu não choro nunca. Fiz um bloco de pedra para aguentar tanta dor. Pois bem, chorei todos os dias um pouco.Gostei de chorar.
Sou uma pessoa de paz. Não gosto de brigar. Mas tive acessos de irritação , perdi a paciência, queria quebrar a casa. Eu tinha acessos de mar revolto por dentro.
Conto tudo isso para dizer que a gente toma os remédios quando precisa tomar. Ainda bem que eles existem. Dor crônica é uma doença terrível. Como se nosso corpo fosse uma jaula com um leão querendo arrebentar tudo.  Mas não é fácil deixar nenhuma droga. Café, cigarro, álcool e etc. Conto tudo isso apenas para dividir uma experiência.
Quem sou eu? Onde termina o meu ser ? Até que ponto me conheço?  Quando a dor no corte da cirurgia passar e toda a área em volta estiver liberada. serei uma pessoa sem dor. Espero que a ausência da dor me faça uma pessoa melhor. Mais uma vez uma outra pessoa. Nunca pensei que um dia seria possível viver este sonho.

sábado, 14 de fevereiro de 2015

MANHÃ

Aproveito as primeiras horas da manhã quando a temperatura está bem leve e amena. Tomei um banho gelado no jardim às 6hs. Há uma primavera que faz uma cortina cor de maravilha. Mergulho em suas flores.  Um galo cantou muito ao longe. Ainda não posso ir ao mar, mas deixo que o intervalo entre as ondas, este silêncio cheio de expectativas, me envolva. Cada vez mais aguço os sentidos Neste exato momento um beija flor faz piruetas diante dos meus olhos.
Logo fará tanto calor que será impossível estar aqui na varanda.  Será impossível estar em qualquer lugar. Para quem não gosta de calor, é claro. Juan, meu marido, adora. Para ele quanto mais quente melhor. A nossa incompatibilidade meteorológica é abissal.  Ele diz: "mas eu nasci na Andaluzia com 45 graus!". Isso não é motivo, eu retruco, pois nasci no Rio de Janeiro, com 40 graus e tenho sempre nostalgia do inverno, de chuva fina, de brumas que tudo encobrem...  Aqui estou sempre cercada de ventiladores e Juan fugindo do vento. Ele diz: "Coitado de mim, logo chegará o inverno!"
Juan volta da Feirinha cheio de presentes. Conseguiu ovos caipira de um velhinho bem velhinho que cria suas galinhas no quintal . Na barraca da tapioca, ele me conta, o dono da barraca serve vestido de mulher, pois hoje é carnaval. A sua mulher toda séria, ao seu lado, não o reconhece. Ele volta todo animado, os temperos transbordando dos braços.
E assim, a vida é um espetáculo. Somos a sua matéria prima.


sexta-feira, 13 de fevereiro de 2015

MARCA D'ÁGUA

Começo a reler Marca D'água de Joseph Brodsky para o encontro do Clube de Leitura da Casa Amarela. Estou possuída pela sua beleza em estado absoluto. Cada parágrafo mexe com todos os meus sentidos.
Marca D'água é Veneza em preto e branco. É a noite líquida, transformada em água.Marca D'água é o poeta que nos leva pelas ruelas dos seus pensamentos. Alguns poetas são generosos e nos lembram quem somos e onde fica a nossa terra natal.

Ainda há silêncio em Saquarema nestes últimos momentos que antecedem o carnaval. Sou completamente apaixonada pelo silêncio e suas nuances. Sei o quanto vou sofrer. A invasão. Gente que chega de todos os lados.

Andei hoje 15 minutos na rua. Na volta fiz um pão. Quando faço pão evoco para mim mesma a história de uma belíssima amizade. Aprendi a fazer pão com a Dona Maria do Vale do Pavão, em Visconde de Mauá. Uma camponesa calejada pela vida tão dura que lhe coube e que dizia as coisas mais lindas e filosóficas e poéticas , ali, naquela cozinha de uma casa de roça, o fogão de lenha sempre aceso, de onde ela retirava fornadas e fornadas de pão. Quando Seu Elói , o marido, estava presente, enquanto enrolava o cigarro de fumo de rolo, contava casos que nunca tinham nem começo nem fim.
Ela me ensinou a fazer pão e a caçar felicidade. Nas mínimas coisas. Sou muito grata. 

domingo, 8 de fevereiro de 2015

A VOLTA

Voltei para a vida aos pouquinhos depois da cirurgia na coluna. O Dr.Schiattino retirou um cisto do tamanho de uma bola de gude que estava pressionando os nervos. Colocou uma prótese de titânio no lugar de disco com quatro parafusos e acordei na U.T.I intermediária, uma das piores experiências que já tive. Com oxigênio, sonda , remédios fortes na veia e a pressão muito baixa. Achei , pela primeira vez , que ia morrer e não era bom. Passei por outras experiências limites, mas era como um sono, como dormir devagarinho. Desta vez não. Não sei explicar. Dentro de mim era vazio, era horrível. Mas no fim do dia fui para o quarto, tiraram as tralhas e foi tudo melhorando. Meu quadro de pressão baixa mudou e eu já ia aos pouquinhos me encontrando.
A dor era só no corte.
Tive alta e vim para a casa da Monica, este casarão de cem anos que me abraça. Pouco a pouco vou melhorando. Ontem já caminhei. Mas ontem foi o dia mais lindo e louco da minha vida!
Amigos, irmão e cunhada, chegaram, todos foram chegando. E meu filho, mulher e neto e minha neta-cachorra Luna que eu não conhecia. Os três cachorros não gostaram muito. Foi uma adaptação difícil, mas agora está tudo em paz. E de noite dormimos todos no mesmo quarto! Primeiro meu neto amou a cama de hospital e quer uma igual. E na cama dormiu a família  inteira com a Luna, minha irmã no chão e eu na cama de hospital . Nunca estive mais feliz!!!! Queria dormir assim para o resto da vida!!! Todos os que amo dividindo a noite e os sonhos. Meu neto amou o acampamento. E eu que sou uma vovó tão apaixonada entrei na brincadeira.]
Hoje, eles se vão. Mas logo o médico me dará alta para voltar para casa e depois aos dois meses alta para viajar. E as dores malucas desapareceram. E eu já sei quem sou novamente. Roseana poeta, que apesar de 20 anos de dor contínua, conseguiu levar a vida com humor, força e alegria. Claro que a poesia e os livros foram sempre o meu suporte.
Agradeço a todos que rezaram por mim, que pediram aos deuses , ao Universo, que me ajudaram com seus pensamentos maravilhosos de cura.
Poderei andar novamente, ir à praia, caminhar um pouco na montanha, andar de triciclo em Saquarema (meu sonho total de consumo).
Agradeço aos anjos que ainda estão cuidando de mim: Monica com seus três cachorros, Letícia com seu grande amor, Dora com suas comidas maravilhosas e minha irmã Evelyn que largou tudo para ficar comigo.  
Agradeço ao Juan, meu grande amor. Conviver diariamente com alguém com dor crônica não é fácil.
E la nave va. Com alegria.

domingo, 1 de fevereiro de 2015

ESPERA

Este tempo de espera num casarão centenário com uma grande amiga, sua filha, três cachorros, a cozinheira  Dora, uma imensa e florida acácia amarela e uns meninos lindos que estão aqui passando férias, foi maravilhoso. Recebi tantas visitas, tomei banho de chuveirão no quintal, comi comidas fantásticas, celebramos a vida cada dia.
Conheci pessoas novas, todos os dias recebi fotos dos meus netos e hoje chega a minha irmã. Amanhã cedo é a minha cirurgia . Ficarei com alguns parafusos na coluna, além de humana, serei algo como uma loja de ferragens, e esta palavra composta "loja de ferragens" me leva até a Rua Barão do Bom Retiro. Eu era criança, tinha uns sete anos e seu Waldemar, amigo do meu pai, tinha uma loja dessas. Mas além de ferragens vendia louças, copos, panelas, relógios. Todos os dias eu ia visitar a loja, na esquina da nossa casa. Namorava as canecas , namorava tantas coisas lindas.
Então é assim,sou uma loja de ferragens que range em suas dobradiças ( serão agora três próteses e parafusos) mas lá dentro tenho gavetas e mais gavetas cheias de poesia.
Um domingo maravilhoso para todos. Volto a escrever quando puder.

sábado, 31 de janeiro de 2015

CHUVA

Choveu de madrugada. Acordei com a chuva. Já estamos sentindo na pele diariamente o que o desmatamento da Amazônia faz. A situação é terrível. E a chuva que caiu de madrugada, caiu dentro do meu sono e me acordou de leve, foi uma bênção dentro da seca que estamos vivendo.
Os governos desmatadores são assassinos. Os que derrubam árvores para plantar são assassinos. Os que possuem poder para impedir o desmatamento e fecham os olhos e cruzam os braços e olham para o outro lado, são assassinos. Nenhum interesse político ou econômico poderia estar acima da floresta. Porque simplesmente é a nossa sobrevivência que está em jogo.
Os neandertais desapareceram e não sabemos a causa. Mas nós, humanos ora sublimes, ora destruidores, para não desaparecermos, temos que preservar o que nos dá a vida. 

domingo, 25 de janeiro de 2015

VIAGEM

A privacidade como a conhecíamos acabou. Os humanos gostam de contar suas vidas em praça pública, porque cada vida é uma sucessão impressionante de histórias, umas mais simples e outras com enredos bem complicados. Nós, humanos vivemos para contar histórias.
Então eu conto: já estou com a mala pronta. Amanhã bem cedo vou para o casarão da minha amiga Monica e meu futuro será tecido para o bem , nesta casa tão antiga e maravilhosa, entre pessoas esplêndidas que ajudarão a cuidar de mim depois da cirurgia da coluna. Hoje é um dia especial. Ficarei 20 dias longe da minha casa e quando voltar serei outra. Os meus sonhos são tão simples: poder cozinhar outra vez, andar, ir para a montanha ao encontro da minha casinha, ao encontro dos filhos e netos. Poder caminhar. Tudo isso me espera , aos poucos, quando eu voltar. É um sonho possível.

sábado, 24 de janeiro de 2015

DENTRO DA CESTA

Adoro cestas e cestos de palha, trançados por mãos humanas num trabalho belíssimo.
Dentro das cestas há sempre uma surpresa. Na minha casa guardo as frutas em cestas. Fica lindo. Guardo as redes numa cesta. Guardo a lenha pequena numa cesta e também os jornais antigos que o vizinho vem buscar para seus cachorros. E no ateliê de cerâmica da minha irmã Evelyn em Visconde de Mauá , ela tem uma cesta cheia de livros, todos meus, para as crianças. E ela me conta que ontem uma criança que ainda não lia, ficou fascinada com os livros e sua mãe teve que sentar no chão para ler meus poemas para ela.
Fiquei muito muito feliz.

A gente se agarra numa corda tecida de pequenas coisas belas para aguentar o mundo e o nosso país. Aqui em nossas terras, por motivos políticos a situação não é nada boa. É um erro fatal politizar as nossas mazelas. As coisas precisam ser ditas, porque nós, cidadãos de terceira classe, não somos tão inocentes assim.
Políticos de qualquer partido deveriam dizer a verdade. Sim, faltará água e deveríamos fazer um esforço coletivo, toda a nação, para economizar. Sim, já existem apagões, falta luz e faltará muito mais. Sim, o problema de locomoção das pessoas nas cidades é gravíssimo. Sim, já há desemprego.  Sim, a violência chegou a níveis inimagináveis. Sim, há uma sensação de que o país está à deriva. Não se trata de uma luta partidária. Trata-se de gente. Gente de carne, osso, sangue e sonhos.  E todos sofreremos mas como sempre os menos favorecidos sofrerão muito mais. Cada pessoa que perde o emprego é uma história muito triste, pois a perda do emprego além de afetar a dignidade , afeta a família.
Não quero terminar este post de uma maneira triste ou pessimista, mas acho que deveria haver um movimento para o resgate das palavras. Um governo não pode funcionar proibindo a verdade, proibindo palavras.
Somos feitos de água e energia. Somos feitos de palavras e histórias. O que fazer agora?
Salve o vento e salve o sol. Investir em energias alternativas, solar e eólica para o futuro. Para que nossos filhos e netos possam viver num mundo menos hostil.. Dizer a verdade e buscar soluções com a participação de todos. A verdade é sempre o melhor caminho.