domingo, 1 de fevereiro de 2015

ESPERA

Este tempo de espera num casarão centenário com uma grande amiga, sua filha, três cachorros, a cozinheira  Dora, uma imensa e florida acácia amarela e uns meninos lindos que estão aqui passando férias, foi maravilhoso. Recebi tantas visitas, tomei banho de chuveirão no quintal, comi comidas fantásticas, celebramos a vida cada dia.
Conheci pessoas novas, todos os dias recebi fotos dos meus netos e hoje chega a minha irmã. Amanhã cedo é a minha cirurgia . Ficarei com alguns parafusos na coluna, além de humana, serei algo como uma loja de ferragens, e esta palavra composta "loja de ferragens" me leva até a Rua Barão do Bom Retiro. Eu era criança, tinha uns sete anos e seu Waldemar, amigo do meu pai, tinha uma loja dessas. Mas além de ferragens vendia louças, copos, panelas, relógios. Todos os dias eu ia visitar a loja, na esquina da nossa casa. Namorava as canecas , namorava tantas coisas lindas.
Então é assim,sou uma loja de ferragens que range em suas dobradiças ( serão agora três próteses e parafusos) mas lá dentro tenho gavetas e mais gavetas cheias de poesia.
Um domingo maravilhoso para todos. Volto a escrever quando puder.

sábado, 31 de janeiro de 2015

CHUVA

Choveu de madrugada. Acordei com a chuva. Já estamos sentindo na pele diariamente o que o desmatamento da Amazônia faz. A situação é terrível. E a chuva que caiu de madrugada, caiu dentro do meu sono e me acordou de leve, foi uma bênção dentro da seca que estamos vivendo.
Os governos desmatadores são assassinos. Os que derrubam árvores para plantar são assassinos. Os que possuem poder para impedir o desmatamento e fecham os olhos e cruzam os braços e olham para o outro lado, são assassinos. Nenhum interesse político ou econômico poderia estar acima da floresta. Porque simplesmente é a nossa sobrevivência que está em jogo.
Os neandertais desapareceram e não sabemos a causa. Mas nós, humanos ora sublimes, ora destruidores, para não desaparecermos, temos que preservar o que nos dá a vida. 

domingo, 25 de janeiro de 2015

VIAGEM

A privacidade como a conhecíamos acabou. Os humanos gostam de contar suas vidas em praça pública, porque cada vida é uma sucessão impressionante de histórias, umas mais simples e outras com enredos bem complicados. Nós, humanos vivemos para contar histórias.
Então eu conto: já estou com a mala pronta. Amanhã bem cedo vou para o casarão da minha amiga Monica e meu futuro será tecido para o bem , nesta casa tão antiga e maravilhosa, entre pessoas esplêndidas que ajudarão a cuidar de mim depois da cirurgia da coluna. Hoje é um dia especial. Ficarei 20 dias longe da minha casa e quando voltar serei outra. Os meus sonhos são tão simples: poder cozinhar outra vez, andar, ir para a montanha ao encontro da minha casinha, ao encontro dos filhos e netos. Poder caminhar. Tudo isso me espera , aos poucos, quando eu voltar. É um sonho possível.

sábado, 24 de janeiro de 2015

DENTRO DA CESTA

Adoro cestas e cestos de palha, trançados por mãos humanas num trabalho belíssimo.
Dentro das cestas há sempre uma surpresa. Na minha casa guardo as frutas em cestas. Fica lindo. Guardo as redes numa cesta. Guardo a lenha pequena numa cesta e também os jornais antigos que o vizinho vem buscar para seus cachorros. E no ateliê de cerâmica da minha irmã Evelyn em Visconde de Mauá , ela tem uma cesta cheia de livros, todos meus, para as crianças. E ela me conta que ontem uma criança que ainda não lia, ficou fascinada com os livros e sua mãe teve que sentar no chão para ler meus poemas para ela.
Fiquei muito muito feliz.

A gente se agarra numa corda tecida de pequenas coisas belas para aguentar o mundo e o nosso país. Aqui em nossas terras, por motivos políticos a situação não é nada boa. É um erro fatal politizar as nossas mazelas. As coisas precisam ser ditas, porque nós, cidadãos de terceira classe, não somos tão inocentes assim.
Políticos de qualquer partido deveriam dizer a verdade. Sim, faltará água e deveríamos fazer um esforço coletivo, toda a nação, para economizar. Sim, já existem apagões, falta luz e faltará muito mais. Sim, o problema de locomoção das pessoas nas cidades é gravíssimo. Sim, já há desemprego.  Sim, a violência chegou a níveis inimagináveis. Sim, há uma sensação de que o país está à deriva. Não se trata de uma luta partidária. Trata-se de gente. Gente de carne, osso, sangue e sonhos.  E todos sofreremos mas como sempre os menos favorecidos sofrerão muito mais. Cada pessoa que perde o emprego é uma história muito triste, pois a perda do emprego além de afetar a dignidade , afeta a família.
Não quero terminar este post de uma maneira triste ou pessimista, mas acho que deveria haver um movimento para o resgate das palavras. Um governo não pode funcionar proibindo a verdade, proibindo palavras.
Somos feitos de água e energia. Somos feitos de palavras e histórias. O que fazer agora?
Salve o vento e salve o sol. Investir em energias alternativas, solar e eólica para o futuro. Para que nossos filhos e netos possam viver num mundo menos hostil.. Dizer a verdade e buscar soluções com a participação de todos. A verdade é sempre o melhor caminho.

sexta-feira, 23 de janeiro de 2015

COLO DE AVÓ

Recebo ontem pelo correio meu novo livro Colo de Avó, da editora Manati. As ilustrações são as mais maravilhosas do mundo! da Elizabeth Teixeira. Cada avó mais linda do que a outra e os netos e as netas, nem se fala.
Um livro que cabe como uma luva nas duas pontas da vida: crianças e terceira idade.
Eu só pude escrevê-lo depois de ser avó, apesar do poeta sentir coisas que nunca vivenciou, este sentimento de amor agudo, de amor fabricado pela máquina do tempo, só sendo avó. O filho do meu filho.
A filha do meu filho. O filho da minha filha. A filha da minha filha.
O poema que vou transcrever foi inspirado nos  Cem Anos de Solidão, que li na minha juventude. Algumas cenas vivem até hoje fortemente dentro de mim. Uma delas é a de uma avó sentada num banquinho em frente da penteadeira e as netas fazendo dela gato e sapato, pintando a avó todinha. Não me lembro do nome dos personagens. Mas lá vai o poema:  

SALÃO DE BELEZA

A penteadeira da avó
é um mundo:
pote de cremes variados,
pentes, escovas, perfumes
e vidros coloridos, grampos,
porta-retratos, fitas de cetim,
batom, sombra, pó de arroz.

A neta senta a avó
num banquinho
e começa a trabalhar:
com suas pequenas mãos
trança os cabelos da avó
para que ela se transforme
numa bela rainha
e espalhe pão e amor
pelo mundo.


quinta-feira, 22 de janeiro de 2015

ELISA

Outra vez um lindo bebê na nossa casa. Elisa, filha da Louise Botkay, neta da Monica Botkay, dando continuidade a uma ciranda de mulheres maravilhosas. Elisa encheu minha casa de sinos, arrulhos, barulhinhos únicos e incríveis. Louise é uma mamãe especial. Entrou no mar com Elisa de apenas dois meses e meio. E ela amou!!! Quando troca a fralda, Louise antes acaricia a menina, canta, e ela adora trocar a fralda. Elisa tomou banho de chuveirão. Banho de bacia com água fria. Ela adora tudo! Só chora para mamar e quando tem sono. Louise caminha quase voando de alegria e Elisa voa junto.
Eu e Monica, a vovó, passávamos os dias namorando a Elisa. Não conseguíamos fazer mais nada. E eu acho que os bebês que têm passado por aqui, vão deixando um pouquinho do pó do Universo que ainda trazem na pele, um prenúncio de que a minha cirurgia da coluna finalmente marcada para o dia 2 de fevereiro será um sucesso.
Dia 2 de fevereiro é dia de Iemanjá. Peço desculpas aos evangélicos e aos cristãos, não quero machucar a sensibilidade de ninguém, mas adoro a figura de uma deusa que vive no mar. Todos os mitos antigos me fascinam. E Iemanjá se confunde com as sereias no meu imaginário. Ela brilha, é estonteante, bela como ninguém. Uma vez fui a uma festa de Iemanjá em Salvador, fiquei hospedada na casa da minha amiga Regina e é muito impressionante ver centenas de pessoas de todas as classes sociais e acho que de muitos credos diferentes, chegarem com flores e roupa branca.  Numa fila interminável, vão entregando as flores para os barqueiros.  Juan fez uma reportagem para o El País. É uma festa única, impactante.
E eu, que convivo com todas as religiões, peço à Iemanjá que cicatrize minhas dores com água do mar.

sexta-feira, 16 de janeiro de 2015

O MAR

O mar já corre pelas minhas veias. Com certeza meu sangue é salgado e escuto o canto do mar o tempo todo e em sonhos passeio pelas calçadas da Atlântida. Mas faz parte do meu exercício de paciência ver o mar e não poder  nem mesmo descer para por os pés na água.
Então é assim, olho o mar daqui do estúdio onde escrevo e imagino meu corpo flutuando na água. 
Em pensamento já me vejo caminhando pela praia, na areia branca, catando conchas. Depois da cirurgia, depois dos seis meses de recuperação.
AS CONCHAS
As conchas ouvem música.
O mar rolando seus violinos,
às vezes violas de gamba,
ou mesmo flautas e sinos.
As conchas ouvem,
e depois,
quando e, nossos ouvidos,
cantam baixinho.

in O Mar e Os Sonhos, ed Abacatte.

quinta-feira, 15 de janeiro de 2015

URSO, POLAR E PIPOCA

Cheguei em casa depois de passar uma semana no casarão centenário da minha amiga Monica Botkay.
Urso, Polar e Pipoca, as pessoas não humanas da casa, sabiam que eu não estou bem, estou frágil. Mesmo quando corriam pela casa, tomavam muito cuidado comigo. Nunca me atropelavam, nunca me pisavam.  A casa possui um elevador, tipo plataforma para descer do segundo andar ao térreo. Urso e Polar amavam andar comigo de elevador, mal eu abria a porta entravam felicíssimos, não sei que graça encontravam na brincadeira. Compenetrados como senhores de gravata, lá iam eles comigo, sérios. Pipoca, a cadelinha mais fofa do mundo, tinha medo. Sabia que eu iria usar o elevador, pois desaparecia e os três só andam juntos.
Para falar a verdade Pipoca cuidou muito de mim. Ficava deitadinha aos meus pés , bem perto, de vez em quando me olhava com aqueles olhos maravilhosos que poucos humanos têm.
Fico aqui neste paraíso que é Saquarema por 10 dias. Depois volto para o casarão, dando sequencia aos exames para a cirurgia da coluna. Urso e Polar serão meus colegas de elevador. 

terça-feira, 13 de janeiro de 2015

UMA LEBRE

Monica Botkay, minha amiga fotógrafa, onde estou hospedada, tem uma ótima biblioteca e estou lendo um livro maravilhoso de um autor finlandês , Arto Paasilina. Jamais conheceria este autor se não estivesse hospedada aqui e Monica não me apresentasse o livro.
A história é singela, tocante e cheia de humor. Um jornalista, completamente de mal com a vida, desiludido com seu trabalho, com um casamento horrível, numa estrada atropela uma lebre. Ele para o carro e vai atrás da lebre. Pula a cerca que separa a estrada da floresta e a encontra com a patinha quebrada. Ele rasga um pedaço da sua camisa e faz uma tala. E não volta para o carro, onde seu amigo fotógrafo está esperando.Ele começa a se envolver afetivamente com a lebre e com ela foge de sua vida anterior. E por onde ele vai passando, a lebre só desperta afeto, curiosidade e alegria. Ainda não acabei , não sei o final.
Não é um livro para crianças.Mas com esta linda história, sim, se poderia escrever um livro para crianças.
É um convite para se olhar a vida de um modo diferente. Olhar a vida de verdade, se envolver e aceitar as suas surpresas.

segunda-feira, 12 de janeiro de 2015

CASA ANTIGA

Estou numa casa muito antiga no Rio de Janeiro, em Laranjeiras. Uma casa onde as crianças podem se perder num vão, em lugares secretíssimos. Eu mesma me perdi várias vezes. Um casarão com móveis que foram da avó, da bisavó. Minha amiga tem três cachorros maravilhosos. De repente se ouve um tropel na escadaria de madeira e são eles, quase numa cavalgada.
A fêmea se chama Pipoca. Amorosa,doce, seus olhos nos acariciam. Polar e Urso, brancos, sérios e compenetrados como ursos. Mas hoje os três vieram ao quarto onde estou hospedada , um de cada vez, para me dar bom dia.
Vim ao Rio para uma consulta com o cirurgião que vai operar a minha coluna. Ele, segundo me disseram, é o melhor do Rio e me disse que depois de seis meses de recuperação, ficarei bem. Minhas dores, depois da cirurgia no quadril, se tornaram tão violentas e impeditivas, que tornaram a minha vida bem difícil. Vem aí um tempo duro . Mas ainda bem que minha amiga Monica Botkay , sua maravilhosa filha, os três cachorros e a Dora, cozinheira de mão cheia com seu sorriso nordestino, aceitaram me receber, pois precisarei passar 10 dias no Rio depois da alta no hospital. Agradeço tanto este gesto tão raro. Mas os amigos são os anjos que chegam nas horas difíceis. 

terça-feira, 6 de janeiro de 2015

FOTOGRAFIAS

Tenho uma foto do meu pai e minha mãe, jovens, lindíssimos, naquele instante todos os sonhos, os planos, a estrada da vida, ainda seriam construídos. E a foto deles quando eu nem era nascida me traz um instante preciso. No entanto não sei que dia era aquele, se chovia ou fazia sol. Mas a fotografia eterniza aquele maravilhoso instante em preto e branco e eles me olham, jovens para sempre.
Hoje se fotografa demais, se fotografa tudo, cada instante, numa sequencia louca. São bilhões, trilhões de fotografias pelo mundo afora. Eu não fotografo , não sou fotógrafa, deixo que façam isso por mim. Minhas fotos são palavras.

O QUE FALTA NUM RETRATO

Um retrato aprisiona com luz e sombra
um fragmento do instante,
o que os olhos querem guardar:
um encontro,
uma gota de um momento.
Janela aberta para o passado,
ponte sobre o tempo que escorre.
Mas faltam o cheiro e o gosto.

in Cinco Sentidos e Outros, ed. Lê.

Amanhã vou para o Rio, fico alguns dias com a minha amiga Monica Botkay, fotógrafa de verdade, desde os anos 70 , a quem dedico o poema acima.

segunda-feira, 5 de janeiro de 2015

UM BEBÊ NA CASA

Chegou um bebê da Itália em nossa casa, o Leonardo. É neto do nosso médico José Augusto Messias e da vovó Kátia. Com seis meses Leonardo é um bebê perfeito, não consegui achar nenhum defeito. Sua mãe Fabiana parece uma bailarina russa, parece que ao andar, de repente sairá dançando, também parece uma fada no meio de um bosque, dançando ao luar. Mas é italiana de Perleto, uma aldeia no Piemonte de 250 habitantes. É no Piemonte que se fabrica o famoso vinho Dolcetta D'Alba. Na cidade de Alba.
Fabiana é casada com o Gustavo. Uma ninfa com um homem enorme e barbudo, mas delicado como ela.
Leonardo, o bebê, não chora, não faz manha, só ri e brinca. Enche a casa de alegria, uma alegria da cor da casa, amarela como girassóis .
Claro que a casa ficou toda agitada e da cozinha foram saindo, pães e comidas maravilhosas e os vinhos enchiam as taças como cachoeiras de felicidade. E a promessa que fiz a mim mesma de perder peso por causa da coluna, mais uma vez se esvaiu. Sou muito volúvel eu acho.
E hoje a vida de todos os dias recomeça ? Todos os dias o milagre da vida, é o que nos diz Leonardo, em sua lingua, meio eslava meio semítica , dadábrrrr,guuuuu,rcgjk.
Feliz 2005 para todos.

sexta-feira, 2 de janeiro de 2015

MUDANÇAS

Infelizmente nada muda num passe de mágica, apenas o tempo, um sudoeste repentino pode trazer um temporal, apenas os acontecimentos de uma vida, um encontro, um acidente. Mas as mudanças estruturais são geralmente um longo e muitas vezes um doloroso processo. Li uma vez um livro interessante, não me lembro o nome nem do livro nem do autor.Mas discorria sobre as dificuldades que o cérebro nos impõe para mudar qualquer hábito. Para mudar um hábito temos que ter uma recompensa muito clara. Eu mudo isso para ganhar aquilo. O cérebro registra os hábitos e nos leva a repeti-los já no automático. Por isso a força de vontade tem que ser imensa para enganar o nosso próprio cérebro. E fazemos tantas promessas a nós mesmos no dia 31 de dezembro, e chega o dia 1, chega o dia 2... e nossas promessas se evaporam.
Acho que a principal promessa de cada um de nós deveria, quem sabe, ser a de fazer o que amamos aqui e agora e sermos absolutamente fiéis a nós mesmos.

terça-feira, 30 de dezembro de 2014

NÓS

Todos os especialistas em todas as áreas dizem que 2015 será um ano difícil. Então, para que tudo fique mais fácil, desamarre os nós, aqueles que nos prendem a tantas coisas inúteis:

RECEITA DE DESAMARRAR OS NÓS
desamarre os nós do sapato
depois desamarre os pés
desamarre os laços inúteis
os nós do que não serve mais
desamarre o barco do cais
os nós das janelas
e então deixe que o vento...

domingo, 28 de dezembro de 2014

ESTRANHOS NO NINHO

Se me pedissem para trabalhar como arqueóloga ou astrônoma, embora sofra de paixão perdida por estes dois temas, não poderia, simplesmente porque não sei nada sobre o assunto.
Não sou educadora, mas embora também nunca tenha sido boa aluna em matemática, há uma equação muito simples, essa eu entendo:
+ educação de qualidade+leitura+artes+esportes= um salto sobre o fosso social que separa brasileiros uns dos outros.
Então, seguindo o fio deste pensamento, sabendo que no Brasil não há nenhum planejamento em relação à uma educação realmente transformadora, fiquei estupefata com a escolha de um Ministro despreparado . Nunca ouvi falar que o Sr. Cid Gomes tenha exposto suas ideias inovadoras sobre educação. Mas ele disse que , (se não me engano) Professor não deveria pedir aumento de salário mas sim trabalhar por amor. Por que o EXMO futuro Ministro não tenta ocupar alguma pasta onde domine o assunto e não troque o seu salário pelo mesmo valor do salário de um professor? E que até o fim do seu mandato trabalhe por amor sem pedir aumento?
Como cidadã brasileira, carioca, saquaremense, fica minha singela sugestão, em nome dos meus milhares de leitores professores, que, tenho a intuição, concordam comigo. Mas quem não concordar pode deixar aqui o seu protesto.   

sábado, 27 de dezembro de 2014

MEU ANIVERSÁRIO

Abro o computador e recebo dois presentes. O belo livro de poesia do Hammu. E um texto do Talmud, que Angela copiou para mim: 

"O Talmud (livro sagrado dos judeus) nos diz que na data do aniversário judaico o mazal, sorte, da pessoa é dominante. É certamente mais que uma ocasião para receber presentes; é uma chance de festejar, agradecer e refletir sobre o que está realizando atualmente em sua vida. Este é o dia em que você nasceu, em que a sua vida começou e é também o dia em que sua vida pode mudar."
Hoje é meu aniversário. Minha mãe me contava como nasci, prematura de sete meses. Ela foi tomada por uma compulsão por limpeza e estava abaixada passando palha de aço no chão quando sua bolsa arrebentou.
O Talmud me diz para agradecer. Todos os dias agradeço tudo: estar viva, ter o Juan, os filhos, os netos, minha irmã, enfim, ter esta família de artistas maravilhosos. E a Vanda e o Samuel, nossos caseiros que cuidam da gente e da casa com tanto amor e nos deram uma segunda família.
Agradeço o dom da poesia, agradeço ser leitora, agradeço os amigos magníficos que tenho. Agradeço o jardim. Cada flor, cada árvore , agradeço a casinha na montanha, que está lá, me esperando dentro da mata, até quando eu ficar livre da recuperação e puder ir ao seu encontro.
O Talmud me diz para refletir sobre o que estou fazendo atualmente. Estou me recuperando de uma cirurgia e caminho por dentro de mim, por algumas ruas claras, outras escuras, em busca da cura possível, poder andar, já que por enquanto só posso voar.
A minha felicidade é fabricar felicidade para todos os que chegam perto de mim. 
E desejo que a nossa casa, a Casa Amarela, continue fabricando encontros maravilhosos.
Hoje Juan está de Chef e fará um arroz caldoso, um prato espanhol, absolutamente divino. Uma bela mesa com dois amigos , Hélio e Fernando, minha irmã e nossos caseiros Vanda e Samuel (eu disse para a Vanda que hoje é dia de Madame, a Dona Maria Vassourinha fica em casa) , pão feito em casa pela minha irmã Evelyn e vinho para celebrar o dia em que nasci para fazer poesia com tudo o que aparece na minha frente.  
 

terça-feira, 23 de dezembro de 2014

PAPA FRANCISCO

O Papa Francisco é um iluminado realmente. Falou aos Bispos toda a verdade que não era dita desde tempos imemoriais . Os Bispos parecem múmias. Nenhum contato com a vida. Basta olhar os seus rostos tristes e petrificados.
Então o Papa veio e fez um grande pedido. Interpretei o seu pedido assim: sejamos coerentes com o que dizemos e a nossa vida .
Apesar de ser judia sei muito bem o que Jesus pregava. E Jesus era judeu. Pregava a alegria, a aceitação dos diferentes, de quem a sociedade rejeitava. Pregava a paz, quando nos diz para dar a outra face em contraponto ao olho por olho dente por dente. Dar a outra face ao inimigo é buscar o diálogo.
Então que cada vida acrescente algo ao planeta. E vamos seguir pensando na palavra sinceridade e na palavra paz. 

segunda-feira, 22 de dezembro de 2014

PRESENTE DE NATAL

Minha neta veio. Agora está com um ano e um mês. A última vez que a vi tinha una 8 meses. Então entrou uma pessoinha na minha casa que não era aquele bebê que eu havia visto. Desde sexta-feira até domingo fiz uma imersão total na Gabriela. Ela é fantástica e conversamos tanto e brincamos tanto que acho que não se esquecerá de mim. Paixão por neto não se pode explicar. Sinceramente deve haver uma fábrica de um amor intenso e luminoso dentro da gente à espera. Só germinando. Lembro que quando fui para a Espanha ao encontro do meu neto Luis, então com quinze dias, desconhecia o tamanho desta avalanche. Mas já, ao olhá-lo no berço, senti as águas do amor se avolumando dentro de mim, até tomar conta de tudo, da minha pele, meus órgãos, cada mínimo pedaço do meu ser. Hoje meu neto tem cinco anos e somos muito amigos.
_ Vamos lutar, vovó? Como explicar que sou pacifista? Se ele é um Super Herói?
Eu digo, Luis, mas e a minha coluna, vai doer! Ele responde: _ Puxa, vovó, você nunca vai ficar boa?
Trocamos cartas, ele me manda desenhos lindos eu mando adesivos e livros.
A Gabriela ainda fala numa língua que só os bebês entendem. O dicionário é o nosso coração, então a gente adivinha. Ela fala muito e seu idioma é belíssimo.
Então o meu maior presente de Natal são meus dois netos.    

sexta-feira, 19 de dezembro de 2014

IDADE

Li um artigo muito bom. Uma pesquisa feita com gente acima de 60 anos dizia o seguinte: a idade que você tem não é a que você sente. E se você tem 65 mas se sente com 20 ou 30, melhor para você, pois está comprovado que você viverá.mais alguns anos, já que tem sonhos, projetos, cuida da saúde, faz exercícios , quando pode viaja, se interessa por muitas coisas.
Todo mundo que não morre jovem, vai envelhecer. Mas enquanto sonha e se interessa por alguma coisa ao invés de ficar sentado se lamuriando e vendo novela , a chance de viver mais e com qualidade de vida, é maior.
Então a atividade física e mental é importantíssima. Leitores estão mais protegidos de doenças degenerativas do cérebro.
Acho maravilhoso não se intimidar com a idade que está escrita na carteira de identidade. Meu marido Juan tem 82 anos, caminha duas horas todos os dias, faz bicicleta ergométrica, lê e escreve para seu jornal continuamente, faz planos, sonha e portanto, não tem mais do que 30. E isso consta dos seus exames anuais.
Eu vou fazer 64, mas sou criança , adolescente, o que precisar. As crianças ficam muito bem comigo, pois viro criança. Os jovens também, pois embora desconheça os jargões do momento, posso entender perfeitamente seus anseios.  Não tenho idade. Tenho todas as idades.

Começo a ler um livro de Juan Marsé , escritor espanhol que não conhecia. Prêmio Cervantes entre outros e que logo no comecinho, já vi que é maravilhoso. Se chama  Caligrafia de Los Sueños.
E assim imagino que tenha que ser a vida: Uma caligrafia dos nossos sonhos, que passam por mil e uma noites, pontes invisíveis, amores, encruzilhadas, lindos caminhos de flores selvagens...

  

quarta-feira, 17 de dezembro de 2014

LIMITE

Qual o limite entre o ser humano e algo que não se pode nomear? Ontem aconteceu algo inominável com seres que não são humanos, não são bichos, não sei o que são. Tomam a forma do horror em estado puro.
No Paquistão imagino a dor se espalhando feito um incêndio.
Por que nosso planeta abriga seres que não conseguimos reconhecer?  
Como é que se pode matar em nome de algum Deus, alguma religião? Não conheço o Corão mas certamente deve haver um erro de leitura, ou os muçulmanos que sabem ler deveriam corrigir o mal entendido. Maomé manda matar? Jeová manta matar tantos inocentes numa guerra insana?
Voltamos no tempo e estamos vivendo entre as atrocidades que se cometiam em nome da religião, por toda a antiguidade?
Que Deus seria esse que manda matar crianças?

Não posso entrar no coração
das mães, dos pais, dos tios,
avôs e avós
das 132 crianças
que desapareceram para sempre.
Não posso enxugar as lágrimas
que molharão seus rostos
para sempre para sempre.
Não posso pisar em suas
casas distantes onde um silêncio
espesso ocupará um lugar na mesa
na cama na sala nas conversas
no quintal
para sempre para sempre.
E não existe nenhuma explicação
possível para a ausência
que durará para sempre
noites e dias e noites
até a eternidade.
 



terça-feira, 16 de dezembro de 2014

NA FEIRA

Quando era criança minha maior paixão era a Feira Livre. Uma vez por semana ia com a Eunice, minha babá. Ela tinha os seus "fregueses" como ela dizia, invertendo os papéis. Era tudo tão lindo e colorido! Eunice era brigona e se alguma senhora branca encostava o carrinho nela, pronto, já estava armada a confusão. Em cada barraca de um velho conhecido seu ela parava, apalpava a mercadoria, pedia desconto e me apresentava como a sua filha. Eu ganhava frutas e Eunice comprava para mim um quebra-queixo, maravilhoso doce que nunca mais vi. Todos apregoavam a mercadoria aos gritos, era uma linda confusão, eu amava. E ainda tinha a barraca das flores!
Hoje , o que vemos no Brasil é uma horrenda e macabra Feira Livre. Nenhuma semelhança com as feiras da minha infância.
Cada possível ou provável candidato a Ministro quer o cargo onde haja uma verba maior. Para que? Pelo que vemos na Petrobras dá para desconfiar. Para boa coisa não é.Não há nenhuma timidez. Falam abertamente. E os partidos exigem, batem o pé. O governo virou um embrulho envenenado. Nada das frutas e flores da minha infância. Dentro do embrulho há um pântano. Os possíveis ou prováveis ministros nunca são escolhidos pela sua capacidade. Na maioria das vezes não sabem nada do assunto.
Será que chegará o dia em que se governará verdadeiramente para o bem estar do cidadão? Que cada Ministro será escolhido por sua capacidade e conhecimento do assunto da Pasta que assumirá?
E tudo é feito às claras, de dia, como nas maravilhosas Feiras da minha infância. Mas infelizmente é uma Feira de Horrores.

segunda-feira, 15 de dezembro de 2014

Dia 15

Hoje, dia 15, pela primeira vez,  meu corpo começou a responder aos exercícios para soltar o ciático. É o primeiro dia em que estou bem, podendo sentar, caminhar e ficar em pé sem o nervo gritar (e às vezes eu também)
Comemoro com a meditação no jardim. Eu não descia ao jardim pois os degraus são altos.
De olhos fechados eu estava realmente no meio de uma orquestra de passarinhos. Uma orquestra para flautas e violoncelo (o mar). Tirei os sapatos antes da meditação e a grama era um tapete maravilhoso, molhado e vivo, sob os meus pés. A minha terapeuta me pediu para colocar violeta na coluna e imaginar cada vértebra se abrindo, abrindo espaço. Ela está me ensinando a fazer as pazes com o meu corpo que desde 1993 é o território da dor. Eu não fixo no corpo as memórias boas , por exemplo, molhar os pés na água do mar. Tenho que fazer um esforço para me lembrar da sensação.O corpo só guarda os momentos de dor. E fixando os momentos bons, eu posso alargá-los, impregnar o corpo com estes momentos. Parece que o corpo tem uma memória toda própria, estou tentando mexer nessa memória com a meditação.
Conto tudo isso porque sei que com meus relatos posso ajudar quem tem dor contínua .
Uma das cenas mais maravilhosas do nosso encontro do Clube de Leitura da Casa Amarela, que não foi na casa amarela, mas sim numa chácara lindíssima, foi a chuva caindo na hora de ir embora. Era uma chuva tão linda, tão impregnada de poesia, no meio da natureza exuberante, o cheiro de terra molhada enchia cada espaço de alegria. E como aqui em casa também choveu no sábado, o jardim está pulsando, exalando amor;.

domingo, 14 de dezembro de 2014

A PONTE INVISÍVEL

Ontem o Clube da Casa Amarela foi recebido na Chácara do Hélio e Fernando.
Primeiro Felipe espalhou meus livros sobre o tapete, eram muitos, setenta e sete. Faziam um outro tapete, colorido, vibrante e ali estava o percurso da minha vida. Felipe presentou cada um com a sua dissertação de Mestrado e me pediu meia hora para falar. Fiquei entre orgulhosa e constrangida, afinal a plateia era toda de amigos.
E então entramos na leitura do livro A Ponte Invisível de Julie Orringer.
O livro se passa na Hungria, no momento antes da Guerra e durante a Segunda Guerra. 
Maria Clara começou dizendo que a autora aprendeu a escrever numa Escola de Escritores e que o livro foi escrito para ser um best-seller. Ela disse que o livro não conseguiu arrebatá-la e que ela achava os personagens muito bonzinhos e que ficava muito em primeiro plano uma ética judaica e a única que saia deste esquema era a filha da Klara, a bailarina.
Eu discordei, outros personagens também saiam da norma. O irmão meio clown, o amigo homossexual, o primo dândi .
Mas pouco a pouco fomos passeando pelo livro, pelas personagens mais tocantes. A reconstrução perfeita de Budapeste, a vida em Paris. E comentamos como o destino de uma pessoa pode caber numa carta!
Pois foi o acaso que colocou Andras em contato com a mãe de Klara, o que o levou a transportar uma carta secreta, que colocou no correio em Paris, mas por coincidência ele veio a conhecer  a destinatária , Klara, bailarina, húngara, dez anos mais velha e um amor indestrutível nasce entre os dois.
Klara tem um segredo e todos comentamos que mulher forte teve que ser para sobreviver a tudo o que passou. Com quinze anos foi estuprada, seu namorado e partner assassinado e ela matou um policial, portanto teve que fugir.
Klara teve a criança que afinal era filha do seu estuprador e não do seu namorado.
Hector comentou a beleza e a fidelidade com que a autora criou as aulas de arquitetura, pois ele é arquiteto.
Todos destacamos a força de tantos personagens. Muitos choraram com tudo o que os personagens passam na Segunda Guerra.
Fernando disse que aprendeu muito, que não sabia que os judeus na Hungria trabalharam e depois lutaram junto com os húngaros, a favor de Hitler.
Na Hungria os judeus foram deportados tardiamente , já quase no fim da guerra e puderam desfrutar de uma sobrevivência maior.
Hélio destacou que a época em que vivemos, nosso mundo, foi moldado a partir das consequências da Segunda Guerra .
Enfim, todos estivemos de acordo que o livro é riquíssimo em detalhes,a autora reconstrói magnificamente tanto Budapeste, quanto Paris, os campos de trabalho, a frente de batalha. Parece que tudo se desenrola feito um filme diante de nossos olhos. Adelaide falou do jornal que circulava no campo de trabalho e como isso foi fundamental para a sobrevivência psíquica de todos, mesmo colocando a vida de Andras e Mendel em risco. Sonia disse que parou de ler o livro por uma semana quando Mendel morre, tamanha a sua dor.
César falou do título, A Ponte Invisível seria o desejo de sobrevivência, bastaria atravessá-la e se sairia vivo do outro lado.
Andras sobrevive e ao chegar a Budapeste todas as pontes da cidade estão destruídas
O reencontro com Klara e os filhos é lindíssimo.
Fechamos com o belo poema da poeta polonesa Prêmio Nobel , Wislawa Szymborska, que Maria Clara leu. Hélio leu um belo poema do Fernando.
Antes do almoço os donos da casa serviram champagne para comemorar a vida.
E o almoço na varanda foi absolutamente esplêndido , uma Festa de Babette e as sobremesas um delírio. Angela, que vem do Rio, além do livro que trouxe para sortear, trouxe uns doces maravilhosos que distribuiu entre todos. Hélio e Fernando nos presentearam com uma toalha de mão bordada e um sabonete. E já é tradição no Clube que uma vez por ano, em dezembro, o encontro acontece na Chácara e em julho em Mauá
O próximo encontro será dia 7 de março e os livros serão: .Morte em Veneza, Thomas Mann e Marca D'Água de Joseph Bronsky. Aconselhei , se alguém quiser ler por fora, 1000 dias em Veneza, de Marlena de Biasi, uma leitura leve e divertida sobre Veneza.

sexta-feira, 12 de dezembro de 2014

UMA IDEIA NO BOLSO

Estava no Rio e recebi a visita da minha editora da Rovelle, a Carolina.
Ela me trouxe de presente o livro da minha nora Patricia de Arias, Uma ideia no Bolso, com ilustraçõies lindas da Elisabeth Teixeira. Acaba de sair.
Eu traduzi o livro e realmente o texto é delicioso. Um jogo de um menino com a sua mãe. Ele guarda uma ideia no bolso, diz. Mas cada vez que a mãe pergunta qual é a ideia, ele diz que antes tem que fazer não sei o que. As coisas que o menino faz são absolutamente maravilhosas. Elas traduzem o dia a dia da criança, suas brincadeiras, sua imaginação. E a mamãe tão curiosa, continua a perguntar, até que ... Não vou contar o final.
Conheci Patricia em 1999, em Granada, na Espanha. Ela me mostrou seus poemas. Como eu poderia imaginar que ela se casaria com meu filho? Que eu seria sua tradutora?
É uma delícia a poesia da Patricia. Este é o seu terceiro livro. E espero que seu livro, cheio de ideias no bolso, encontre o caminho das escolas.

Amanhã é o  encontro do nosso  Clube de Leitura Amarela. Depois conto tudo!

segunda-feira, 8 de dezembro de 2014

FORÇA DE VONTADE

Escrevo na varanda, com um vento maravilhoso que vai derrubando tudo, a caneta, o bloquinho de anotações, a garrafinha de água. Ouço a música das palmeiras e coqueiros e quando viro a cabeça para a esquerda o flamboyant enche meus olhos de um vermelho alaranjado brilhando de sol. O céu está como gosto, cheio de nuvens, portanto o sol vai e vem, bricando de fazer sombra, brincando de mudar a luz.
Leio no El Pais que um psicólogo , Roy Baumeester, não sei a sua nacionalidade, diz em seu estudo acadêmico, que a força de vontade é feito um músculo , devemos exercitá-la. E acordar cedo, é a melhor coisa do mundo para a saúde e também para exercitar a força de vontade.
Conheço bem o que ele está falando, pois acordo todos os dias, espontaneamente,  às cinco horas da manhã, às vezes antes.
Ele diz que se deve fazer exercícios físicos bem cedo e a meditação também, para quem medita.
Bom, estou em casa, desde a cirurgia, desde o dia 14 de outubro. A recuperação da cirurgia foi excelente, mas infelizmente quando comecei a andar, o nervo ciático foi pinçado e estou aqui sem quase poder andar, menos ainda fazer qualquer exercício. Faço alongamento. Mas sinto muita falta do pilates. Havia feito planos para passar o Natal com filhos e netos em Resende ou Mauá , mas todos acham melhor eu não ir.
Enquanto isso faço tudo o que posso, exercendo a força de vontade. Concordo que sim, é algo que tem que ser exercitado. Se você pensa em fazer alguma coisa, vai lá e faça. Ainda mais para quem não tem impedimento físico.
As coisas que eu farei quando melhorar: dançar sozinha na sala, descer até o mar, pedalar na bicicleta ergométrica e comprar um triciclo, para mim o supra sumo do sonho de consumo.
Comecei um tratamento com uma osteopata maravilhosa no Rio de Janeiro. Vou soltar o ciático. Ah, se existisse uma ferramentinha para soltá-lo! Um simples nervo é a minha prisão! Transformo a minha prisão na melhor coisa do mundo para ficar feliz.
Minha antiga terapeuta Heloísa me ensinou a fazer sempre contato com as coisas boas e as realizações.
Então, a minha prisão é o meu corpo e busco a chave para a saída.
Vivo dentro da natureza e peço ajuda às árvores e flores. Minha gata Luna me ama. ( A nossa gata Luna parece que só ama o Juan) Meus amigos me amam, não me faltam livros para ler, nem beleza para ver . Também peço ajuda ao mar.  Sei que com meu olhar posso ir até a África.
Mas para fazer isso tenho que ter a força de vontade treinadissima e muita meditação!
Concordo então com o psicólogo e conto tudo isso para animar vocês.
Alguém quer fazer aula de tango? vá lá e se matricule.
Quer doar algumas horas de sua vida para alguma instituição que precise de ajuda ou mesmo para uma escola perto de você? Quer doar algum dom que você tenha? Procure a instituição hoje mesmo e ajude.
Quer plantar uma árvore ? mudar a cor do cabelo? Aprender uma nova língua ? Apadrinhar uma criança?
A maior felicidade é doar felicidade. A maior felicidade é a gente conseguir fazer o que quer fazer, o que sonha, o que ama.

domingo, 7 de dezembro de 2014

SONHANDO COM VENEZA

Decidi finalmente o livro do nosso próximo encontro do Clube de Leitura da Casa Amarela. Aliás, os livros. Andam reclamando muito do tamanho dos livros que escolho. Normalmente não me preocupo com o tamanho do livro, pois os leitores têm dois meses para ler o livro.
Mas agora escolhi dois livros maravilhosos e finos. Porque estou com saudades de Veneza. Um é Morte em Veneza do Thomas Mann e o outro é Marca D'água de Joseph Brodsky, ambos sobre Veneza em épocas diversas.
Ando precisando de uns cinco leitores novos. Joguei a isca no encontro dos professores aqui em casa, mas o silêncio que se seguiu ao meu convite foi sepulcral.
Mas quem sabe alguém de vocês que está me lendo mora aqui perto e se interessa?
E trago um poema bem bonito de um poeta desconhecido por mim, cubano, mas que chegou às minhas mãos e olhos hoje:
Paralelos

A esta hora
todas las palomas del mundo
se posan en la plaza d San Marcos.
La niebla barre las ciudades de Occidente
y un pájaro cruza los bosques en llamas del otoño.
A esta hora
como el mar
embistiendo los flancos destrozados de la isla
mi corazón golpea.

Orlando Julián Coré Fernández

sexta-feira, 5 de dezembro de 2014

PRESENTE

Os dias são tão variados... Fico aqui, quietinha no meu canto e de repente acontece alguma coisa que muda a cor do dia.
Recebi a dissertação de Mestrado do Felipe Lacerda sobre a minha obra. Agora ele já é Mestre pela UniGranRio, falando de mim! É a segunda dissertação de mestrado sobre a minha obra.
Ele fala coisas tão belas sobre a minha poesia, tomando como partida o livro Pera, Uva ou Maçã . Diz ele que aí neste livro estão contidos todos os meus livros, pois abordo todas as temáticas que serão constantes nos meus 100 livros.
Acontece que eu escrevo um livro só, desde o primeiro. Sou Penélope tecendo poesia incessantemente. Eu não me preocupo com nada, vou escrevendo como vivo, como respiro. A poesia sai de mim naturalmente, é uma extensão de mim.Ele diz que sou uma das pioneiras, junto com Henriqueta Lisboa, Cecilia, Vinicius, José Paulo Paes e Sergio Caparelli, a fazer poesia de uma maneira diferente, não moralizadora para as crianças.. Diz que sou a única poeta que recebeu o Prêmio Odylo Costa Filho da F.N.L.I.J por quatro vezes. Diz que eu não faço concessões ao meu leitor, as minhas imagens são inesperadas e fazem o leitor pensar, pequeno ou grande. Diz que estou em terceiro lugar nas inserções de poemas em livros didáticos. E meus leitores são muitos pois quase todas as bibliotecas possuem alguns livros meus. Diz que ano que vem eu faço 35 anos de poesia e eu digo que gostaria de fazer mais 35.
E ele fala um pouco da minha poesia formando leitores.
Fico aqui quietinha na minha casa fiando e recebo um espelho assim tão generoso. Que bom.
A outra surpresa, soube agora , é que minha neta Gabriela, que acaba de fazer um ano vai fazer sua primeira apresentação em público na festa da Atrium Escola de Música, junto com os bebês da sua aula de musicalização. Ela vai dançar!!!
Aí sim, eu queria sair de casa, ir a Resende ver esta maravilha. E meu neto Luis se apresentará numa peça de teatro!!! Somos todos saltimbancos nesta família ripinica.

quinta-feira, 4 de dezembro de 2014

PROFESSORES NA VARANDA

Ontem tivemos o encontro com 30 professores da Rede Municipal de Saquarema aqui na nossa varanda.Não era dia do nosso jardineiro Samuel vir trabalhar aqui, então as professoras ajudaram a afastar a mesa, a buscar as cadeiras, a arrumar a roda bem perto do fogão de lenha. Fizemos uma roda bem apertada, todo mundo bem juntinho mesmo. A Secretaria de Educação e o Vice Secretário, Ana Paula e Valdinei vieram, ao encontro. Valdinei fotografava o tempo todo e Ana Paula participou de tudo o que propus.
Comecei pedindo que todas, e um professor, único homem, fechassem os olhos para ouvir todos os barulhos, do mar, das palmeiras, dos passarinhos, só sentindo a sua respiração. Foi bom, todas disseram.
Depois eu havia pedido que trouxessem um poema para dedicar a alguém, presente ou ausente, vivo ou habitante das estrelas. Cada uma se levantava e lia um poema. Alguns poemas eram lindíssimos, Drummond, Quintana, Clarice (não posso confirmar se os textos eram mesmo dela). Alguns poemas eram dos seus alunos e o professor leu um poema de sua autoria. Chico Peres teve dois poemas lidos e foi um dos que mereceram uma dedicatória. As homenagens eram lindas e cheias de emoção.Muita gente chorou, muita gente dedicou para quem estava presente e aí eram abraços e beijos, pura emoção.
Uma professora veio com uma camiseta dizendo:"Eu apoio a família tradicional e um desenho de pai , mãe e filhos". E atrás mensagens de Jesus.
Protestei com veemência . Eu apoio a nova família que é formada de outras maneiras e da tradicional também. E Jesus apoiava todo o underground da sua época.  Sou publicamente contra o preconceito e a intolerância.
Para terminar li meu poema Ciranda do livro Brinquedos e Brincadeiras,(ed.ftd) e cantamos a música da nossa infância Ciranda Cirandinha. Foi LINDÌSSIMO!!!!
A mesa estava farta, pães, sucos , bolos, requeijão, tudo trazido pela Secretaria. Para estes encontros dos professores dou apenas o Café com Leite.
Sobrou muita coisa e não quiseram levar de volta , então a Vanda , nossa caseira, levou para distribuir no seu bairro que se chama poeticamente de "Jardins".
Juan assistiu a tudo do meu lado e depois me disse: se fosse na Europa as professoras iriam rir de você. Não aceitariam nenhuma das propostas que você fez. É por isso que amo o Brasil.



terça-feira, 2 de dezembro de 2014

DE UM MUNDO PARA OUTRO

Ontem soube de uma pesquisa feita nos Estados Unidos comparando os jovens na década de 80 e os jovens de hoje, da geração Y. O resultado: os jovens de hoje têm menos amigos "reais", mas não se sentem sozinhos por causa dos amigos virtuais. Diz a pesquisa que na década de 80 os jovens tinham muitos amigos e se encontravam mais. Mas hoje não saem das redes sociais e estão sempre acompanhados.
Eu acho que hoje todos temos  estes dois mundos , estas duas dimensões e é maravilhoso. Saber transitar de um mundo para outro é importante. Hoje todos nós dividimos tudo com nossos "amigos", gente que conhecemos  "de verdade" e gente que conhecemos apenas através das suas histórias. Dividimos fotos,textos, experiências, passeios, dramas, tristezas, conquistas. O tempo todo estamos contando alguma coisa, falando também das nossas convicções. Este ímpeto de contar, tão humano, encontra um porto.Na história da humanidade nunca tanta gente falou tanto ao mesmo tempo. Mas de vez em quando há que deslizar deste mundo mágico para o real e abraçar de verdade, ouvir a voz, tocar, afagar.
Às vezes alguma pessoa que não conheço me conquista com a sua história e sinto muita vontade de conhecer esta pessoa. Às vezes algum amigo que estava perdido, chega novamente através de um contato virtual.
Não precisamos, como no poema Ou Isto Ou Aquilo da Cecília, escolher.Temos os dois mundos. Mas o mundo real está aqui. Ouço o mar. O vento com cheiro de algas. Vejo o flamboyant florido, uma cascata de flores vermelhas.Minha gata Luna já está ali, no meio do jardim. Na entrada da casa flores azuis. Os passarinhos e sua orquestra e os bem-te-vis contando as novidades.Daqui, de onde escrevo, vejo os telhadis das outras casas . Não sei porque sou tão apaixonada por telhados. 

segunda-feira, 1 de dezembro de 2014

CONFLITOS

Parece que o mundo inteiro está em conflito. Os números da violência no Brasil equivalem a uma guerra.
Talvez o Natal seja uma boa hora para repensarmos tantas coisas, já que Jesus trouxe uma mensagem de amor e perdão.
Já que não podemos mudar o mundo, que pelo menos em nosso entorno haja paz e harmonia.
No natal , não sei porque, as pessoas trocam presentes. Mas Jesus era extremamente pobre. Então acho que devemos escolher presentes simples e significativos. Comprar, livros, artesanato, ou mesmo fabricar com as mãos alguma coisa. E soprar amor nos presentes.
Não entendo as lojas apinhadas , pessoas como formigas ou baratas tontas obedecendo à ordem compremcompremcomprem. Temos o ano inteiro para lembrar-nos de alguém amado e escolher com calma que livro dar, que vinho , que lenço bordado à mão, que poema, que música, que toalha bem linda para cobrir o pão. E ir guardando os presentes, num lugar escondido (dentro do armário) até a data certa.

Se Jesus voltasse hoje imaginem a sua tristeza ao ver e sentir o ódio em Jerusalém.
Uma escola bilíngue onde estudam 600 crianças palestinas e israelenses, numa experiência bem sucedida de convivência entre os dois povos, foi atacada e destruída . Não posso acxreditar, neste mês de dezembro de 2014 que o ódio prevalecerá, quando todos os povos deveriam viver em paz.
Sonhar ainda é permitido. A escola bilingue era um sonho. Tomara que ela seja reconstruída para que as crianças cresçam juntas, brinquem juntas.
Somos todos humanos e mortais. Jesus aceitava os diferentes, os excluídos, mulheres, prostitutas, adúlteras, leprosos, samaritanos. Aceitar o outro, o diferente, o que não pensa como eu, aquele de outra religião, o que não sou eu, é a mensagem mais bela de Jesus, o Nazareno.
Pensar nisso é vital, pois os conflitos do mundo decorrem da não aceitação do diferente. Como alguém mata só porque o outro professa outra religião?
Acho que se Jesus chegasse hoje em Jerusalém, faria uma Ceia para que todos conversassem e quem sabe exista uma saída.
Quem sabe exista uma saída para o mundo, uma ponte para atravessar a violência, as guerras, o ódio, as desigualdades, a fome, as doenças, e lá do outro lado a gente encontre um mundo mais justo como queria e sonhava Jesus.
O Natal se aproxima.

domingo, 30 de novembro de 2014

DEZEMBRO

Amo todos os dezembros desde que nasci. Nasci num dia 27, prematura, em 1950. Certamente fazia calor em Botafogo e os flamboyants estavam por ali, incendiando o meu nascimento.e as buganvílias, tecendo guirlandas brancas, amarelas, cor de maravilha. Em dezembro os sabiás escrevem no céu lindas pautas musicais.
Quando ei nasci, este mundo que existe hoje não existia. Carrego dentro de mim a memória do meu tempo tão diferente. O corpo é pequeno para carregar tanta memória. 
Dia 27 de dezembro faço 64 anos. Pretendo passar meu aniversário com filhos e netos na minha casinha da montanha. 
Envelhecer é uma arte. O corpo se gasta, range, dói, reclama, trapaceia, mas a mente nunca para de de se expandir, a compreensão de tudo aumenta, a compaixão, a leitura do outro aumenta, o amor é como uma cachoeira incessante por tudo o que vive e também pelos nossos mortos.
O corpo a gente carrega fazendo o melhor possível. Mesmo que às vezes pareça um trem estragado. Mas a mente voa, quer saber mais, a mente a gente afia no vento, nos livros, no passado e no presente.
Estou tão feliz com a minha caminhada, o meu progresso. Sou uma pessoa bem melhor frente ao meu julgamento que é bem feroz. Já não tenho raiva de ninguém, o perdão já quase não é necessário, pois não me sinto fendida.
Farei 64 desejando fazer 65,66,67, 90! Quero ver os netos grandes. Quero aprender muitas outras línguas. Quero ler ainda muitos muitos livros e escrever, quem sabe, muitos outros poemas.

sábado, 29 de novembro de 2014

NOMES

Os nomes das cidades daqui da Região dos Lagos no Rio de Janeiro são maravilhosos, começando por Saquarema: Araruama, São Pedro da Aldeia, Arraial do Cabo, Barra de São João Rio das Ostras, Armação de Búzios.
Cidades com estes nomes tão sugestivos só podem ser belas. Conheço pouco por aqui já que não temos carro. Mas sei que aqui perto, na Serra do Mato Grosso há muita água, cachoeiras.
A Editora Moderna me pediu para ir a uma escola particular em Araruama, pois adotaram vários livros meus. Não vou a escolas particulares sem cobrar, e como geralmente não pagam, eu não vou. Mas como Araruama é aqui do lado, sugeri que eles, os alunos, um grupo pequeno, viesse gravar um vídeo comigo. Foi um encontro muito bonito, pois eram meus leitores realmente apaixonados! Uma menina leu meu livro Um Cachorro para Maya 10 vezes!!!, ela disse. Não consegue se separar do livro.
Um menino do segundo ano, a coisa mais linda do mundo, de cabelinhos crespos, acordou às cinco da manhã de ansiedade para vir aqui. Seu livro era Carona no jipe e ele também se apaixonou pelo livro perdidamente. A turma era bem colorida: uma filha de chineses, uma de olhos azuis com a melhor amiga mestiça , as duas lindas de morrer, um neto de índios sul americanos e um filho de índio brasileiro com uma loura. Falamos então sobre as diferenças, as misturas. Acho que a escola deveria ter um espelho em cada sala para trabalhar as diferenças. Falei para eles que raça não existe, somos HUMANOS COLORIDOS.
Raça é de cachorro, boxer, pastor alemão, São Bernardo, etc...
Falamos de tecnologia na escola, e foi bom. Eles eram do segundo ano, do quarto ano. Mas entenderam tudo o que discutimos.
Depois , claro, quiseram ir ao jardim buscar os jabutis e acharam os cinco! Fizemos fotos.
As crianças me beijaram, abraçaram e iluminaram a minha tarde. Fazia frio na varanda como se estivéssemos na montanha.  Eles amaram ouvir a música do mar.

sexta-feira, 28 de novembro de 2014

BRINQUEDOS E BRINCADEIRAS

Quando os meninos e meninas da Escola Rural do Palmital aqui de Saquarema vieram aqui em casa (abro um parênteses para dizer que escolas deveriam ter nomes poéticos e não de pessoas pois nenhum aluno sabia quem era o senhor que nomeia a escola ) perguntei se eles brincavam do que eu brincava quando era criança.Algumas brincadeiras eles conheciam e outras não. O meu novo livro Brinquedos e Brincadeiras traz as brincadeiras que eu amava. Eu amava pular corda. Ai que inveja de mim pulando corda quando criança! Ganhava qualquer concurso.
PULAR CORDA
Se pudesse o menino pularia
     corda
com a linha do horizonte,
se deitaria sobre a curvatura
     da Terra
para sempre e sempre
     saudar o sol,
encheria os bolsos
de terra e girassóis.
Mas chove uma chuva
     fina

e o menino vai até a cozinha
     fritar ideias

Eu morava , bem pequena, num prédio com flores azuis. Aquelas flores que grudam na roupa, são lindas e nosso jardim está cheio delas. Eu amava as minhas bonecas e amava que me fizessem roupas novas para as bonecas. Amava as cestas de costura. Tocar nas linhas, nos botões, enfiar o dedo num dedal de pura prata, passar a mão no ovo de madeira para cerzir meias!!!!!! Na verdade não gosto nem um pouco desta nossa sociedade de consumo e desperdício! A gente usava as roupas até acabar e todas as coisas. Até as meias eram cerzidas.
CESTA DE COSTURA
Dentro da cesta
     de costura
da mãe e da tia,
     agulhas e
fios de linha
     colorida,
botões, rendinhas,
     dedal.
A boneca pede
e a menina obedece:
     Quero
um vestido novo,
     com manga
     e bainha.
A mãe ajuda,
corta o pano,
     costura.

E lá vai a menina
feito fada madrinha
da boneca de roupa nova.

E as cirandas? Não há nada mais maravilhoso e antigo do que brincar de ciranda. Todas as danças de todos os povos , desde o começo do mundo, têm alguma ciranda.
CIRANDA
Ciranda, cirandinha,
vamos todos cirandar,
enquanto ainda dá tempo,
a primeira estrela anuncia:
A noite já vai chegar.
Vamos dar a meia volta
de mãos bem apertadas
e corações entrelaçados,
volta e meia vamos dar.

O anel que tu me deste
era vidro e se quebrou,
o tempo parece de vidro,
há que carregar com cuidado,
o amor que tu me tinhas
era pouco e se acabou,
mas amor nunca se acaba,
meia-volta, volta e meia,
outro amor há de chegar.

Quem quiser comprar meu livro Brinquedos e Brincadeiras pode pedir diretamente à FTD ou em alguma livraria virtual. As ilustrações da Cris Eich são uma delícia. Faço este momento comercial porque muita gente me pergunta onde pode comprar o livro.
Pretendo fazer um lançamento aqui em Saquarema em março.

    

quinta-feira, 27 de novembro de 2014

HISTÓRIAS

Vivemos para contar histórias, vivemos para viver histórias e nossa vida é uma história que vamos construindo, junto com o destino, o acaso e nossas escolhas. Lá no final, ao olhar para trás temos que ter uma bela história da nossa vida para relembrar e deixar como herança para filhos e netos e eles também, por sua vez...Era uma vez.
Ontem, na coluna Conte Algo Que Não Sei, do jornal O Globo, fala o contador de histórias Mohamed M.Hammú.
Ele nasceu no Marrocos em 1966 e é narrador profissional.Já antes disso ele se dedicava a recuperar as histórias da tradição berbere. Ele diz: "Nas noites de lua cheia, as mulheres deixavam tudo ordenado em casa para ter tempo de narrar contos passados por outras mulheres no mesmo lugar de sempre, os pátios das casas".
Faço uma pausa e entrelaço a história do livro Amrik de Ana Miranda, quando a avó ensina para a neta as danças rituais em cima do telhado, provavelmente em noites de lua cheia. A memória sendo passada como algo muito precioso.
Há um rito para começar. Ele diz: "Quando se inicia o rito, todos se calam sentados sobre preciosos tapetes com almofadas e começam histórias sobre o deserto e seus enigmas, o surrealismo que há nos seres. Escutar e ler histórias berberes é um presente: poucas foram escritas, mas sobrevivem na memória das narradoras.".
Ele conta as histórias que lhe foram narradas pelas mulheres berberes.Ele diz que contar e ouvir histórias era coisa de mulheres. Mas ele amava e ouviu e guardou e agora narra as histórias que estão dentro do seu baú da memória. Ele diz que as histórias são mensagens que duram milênios.
Ele nos diz que para os berberes não há fronteiras. Eles são nômades.
Ouvi poucas histórias dos meus pais. Mas a minha babá Eunice me contava histórias do folclore. E minha avó Faiga me contava histórias da Bíblia. Caminhei muito pelo deserto junto com aquele povo que andava para lá e para cá. Por isso pude escrever os poemas do livro Desertos que fiz para os desenhos do Roger Mello. Não conheço o deserto, mas conheço o deserto. Caminhei muito por ali nas histórias da minha avó, ela lia as histórias da Bíblia para mim. Conheço a Bagdá das Mil e Uma Noites. Amo os camelos e povos nômades do deserto. Amo as caravanas.
Qualquer pessoa conta histórias. Desnecessário fazer cursos, os cursos podem dar alguma técnica, mas há que encontrar o seu próprio caminho.  Por onde começar a puxar o fio. Como prender os ouvintes?
Que nossa vida seja a mais bela história do nosso repertório.

quarta-feira, 26 de novembro de 2014

UM BAILARINO

Vou contar uma história linda, de amor e superação:
Um dia, Maria Clara, uma professora de Saquarema e membro honorário do nosso Clube de Leitura, pois foi a primeira leitora do Clube, veio até a minha casa me falar do Leonardo Brito de Mendonça. Ele é negro, de família humilde , a pessoa mais guerreira do mundo. Ele começou a dançar no Projeto Primeiro Passo em 2009, na Colônia dos Pescadores, dança de salão e balé  clássico. Pois bem, Leonardo passou para a Escola Estadual de Dança Maria Olenewa, do Teatro Municipal, no Rio de Janeiro. Só que ele mora em Saquarema e estuda na Etec de Saquarema, onde está terminando o Segundo Grau. Então, ele pegava  o ônibus universitário às 4hs da manhã para estar no Municipal cedo. Voltava em ônibus de carreira para ir para a escola à noite. Tinha que estudar além disso. Maria Clara veio um dia na minha casa para passar o chapéu. Ela estava fazendo uma vaquinha para ajudar o Leonardo, pois ele tinha que comer e pagar o ônibus da volta. Me comprometi com uma quantia X por mês como ajuda de custo.
E agora vem o melhor: Leonardo ganhou uma bolsa integral para um curso de férias no Miami City Ballet School . Foi o único que ganhou a bolsa integral. Fez a prova na frente do Diretor da Escola.
Leonardo entrou no Municipal pulando vários níveis para fazer balé clássico. Agora faltam quatro anos , mas ele já ganhou prêmios em festivais de dança.
Ou seja , além de Leonardo ter o sorriso mais lindo do mundo, ele é um talento raro.
Ele ganhou a bolsa do curso, mas precisa de uma passagem e dinheiro para comer e se locomover. Bailarinos brasileiros que estudam lá ofereceram alojamento para ele.
É uma honra para Saquarema e espero que a Prefeitura possa ajudá-lo, pelo menos com a passagem. Ou a Câmara dos Vereadores.Ou a Secretaria de Educação.
Ele pode ser o bailarino que nasceu em Saquarema e foi dançar pelo mundo.
Ele ontem veio aqui em casa me contar, conversar comigo. É uma pessoa tão linda, tão cheia de sonhos, no seu olhar só tem dança. 

terça-feira, 25 de novembro de 2014

O BAÚ DE AFETOS

Eu não me lembrava, mas logo antes da minha cirurgia uma E.M Rural de Saquarema, a João Machado da Cunha, veio me pedir para participar do Projeto Café, Pão e Texto. Eu expliquei para a professora que era impossível, eu não sabia como iria estar me sentindo. Ela sugeriu então trazer poucas crianças , apenas para uma entrevista, sem o café da manhã. Então concordei e anotei na agenda. Mas eu nunca olho a agenda! E havia mesmo me esquecido completamente.
Então ontem, ao me aproximar do portão para ver o mar, um ônibus escolar passou pela minha porta, era pequeno, amarelinho, e dei adeus para as crianças com as mãos. Acontece que o ônibus parou logo adiante , as crianças desceram e vieram para o portão com duas professoras.
Eu perguntei: _Gente, marquei alguma coisa com vocês?
E elas_ Sim, marcou uma entrevista.
Falei: Esqueci!!! Mas improvisaremos um café da manhã. Vou pedir ao Sr.Motorista para comprar pão na padaria.
E elas: _ Não, você combinou sem café da manhã. Trouxemos um lanche para fazer um piquenique na praia.
Eles entraram e eu pedi para irem todos ao jardim e quem encontrasse um jabuti primeiro ganhava um livro.
Dois , um menino e uma menina acharam um jabuti ao mesmo tempo!
Depois fizemos uma rodinha com bancos e cadeiras no canto do fogão de lenha e comecei perguntando se a escola tinha horta . Não tem, eles me explicaram que a escola é bem pequena mesmo e não há espaço para uma horta, nem Sala de Leitura.
Então perguntei se eles sabiam que uma horta pode mudar pessoas. Eles me olharam com cara de espanto. Perguntei se eles conheciam Nelson Mandela, se já tinham ouvido falar do apartheid na África do Sul. Não, não conheciam Nelson Mandela, nunca ouviram falar da África do Sul. Então contei a história do Nelson Mandela, do Apartheid, de como o Mandela começou querendo fazer uma revolução violenta e como entendeu que seria muito melhor mudar as coisas de uma maneira pacífica. Acho que havia apenas uma aluna branca. Todos eram negros ou mestiços. Todos lindíssimos. Então contei como o Nelson Mandela conseguiu autorização para fazer uma horta na prisão, pois foi preso e ficou preso por muitos anos. E como a horta foi mudando o comportamento dos guardas terríveis com os presos. Como a horta, lindíssima, conseguiu abrandar seus corações. Depois falei da importância do perdão. Se negros e brancos não tivessem se perdoado mutuamente, haveria, depois do apartheid , um banho de sangue. Falamos do Dia da Consciência Negra e de como o Mandela é uma das figuras mais importantes que já existiram.
Fui entremeando tudo com brincadeiras poéticas com a leitura dos poemas. Perguntei se alguém sabia um ditado popular, quem respondesse primeiro ganhava um livro. Um menino disse: Quem vê cara não vê coração e ganhou um livro e eu li este poema. Perguntei se alguém já sentiu dor no coração com alguma coisa, se já sentiu o coração disparar com alguma coisa e finalmente se alguém já havia conseguido abrir algum coração fechado. Muitos disseram que sim, mas não quiseram me contar. Era segredo.
Fizemos uma Orquestra Noturna com vozes de sapos e corujas e percussão no corpo, com meu poema do livro Caixinha de Música. Fizemos uma cena teatral com meu poema Receita de se Olhar no Espelho, do livro Receitas de Olhar, e no final todos gritaram seus nomes bem alto.
Então eu ia respondendo as perguntas deles e intercalando brincadeiras com poemas . Falamos de bullying  e eles são tão amigos e tão amorosos que não há hostilidade entre eles. Mas um menino lindo me disse que o amigo o chamou de macaco. Então falamos sobre estes xingamentos racistas e eu disse que achava que eram uma bobagem pois a verdadeira ofensa seria chamar um macaco de homem, pois os macacos são muito melhores do que a gente. Também chamam a mulher de cachorra e não há nada mais magnifico do que uma cachorra, as fêmeas são amorosas ao extremo, mães maravilhosas, as melhores amigas. Sempre preferi ter cachorras do que cachorros. Também chamam algumas mulheres de galinha, mas não deveria ser uma ofensa, pois as galinhas são lindas, roubamos seus ovos para comer e elas nem fazem uma revolução! e falei um pouco das coisas que dizemos por hábito.
Perguntei se eles estavam com muita fome e vontade de ir embora e eles disseram que não, nunca, de jeito nenhum, então ainda ficaram e fechamos com o jogral do Caldeirão da Bruxa, do meu livro Poemas e Comidinhas. Perguntei se eles queriam a sopa da bruxa ou biscoitos e distribuímos biscoitos, fizemos fotos e minhas amigas baianas Regina e Verbena participaram de tudo. Antes , quando ainda eram distribuídos os biscoitos, o Motorista, que participou de tudo, sentado na Roda, pediu para falar. Disse que se chamava Silvio Santos mas o seu baú não continha nada material, era um baú cheio de amor! Pedi abraços , nos abraçamos muito, todos e foi a manhã mais maravilhosa do mundo e lá foram eles com as Professoras Bruna Macedo e Rogéria Marins rumo ao piquenique na praia com toalha e tudo!!! 

segunda-feira, 24 de novembro de 2014

VOZES DE SAQUAREMA

No último sábado a Casa Amarela, onde vivemos eu e Juan, as gatas Luna e Nana e os cinco jabutis, se desprendeu do chão e quase foi parar no céu.
O Coral Vozes de Saquarema veio cantar na nossa varanda para celebrar a vida.
É um Coral formado por pessoas de mais de 60 anos. Com duas exceções: uma menina jovem com um lindo cabelo afro e uma transexual,, a Nicole, que infelizmente  não pode vir.
Quando cantam se transformam, se transmutam, cantam recolhendo pó de estrelas, os corpos não param quietos, dançam, quase voam. O figurino é belíssimo, uma saia estampada até o chão, cada uma diferente da outra, uma flor azul no cabelo, blusa preta. Cantaram Villa-Lobos , Tom Jobim, Vinicius, o melhor do melhor, os homens elegantes, um senhor com um lindo chapéu. Fizeram uma meia-lua no canto do fogão de lenha, e com suas vozes transformaram a noite em sonho. A interação do Maestro Moisés com suas meninas e meninos de mais de 60 anos, é a coisa mais linda de se ver. Maestro Moisés é completamente iluminado. Ele transmuta pessoas. Cada um com sua imensa história de vida, tantos caminhos percorridos, e o maestro transformou cada um em cantor, cantora, dançarinos.
E uma senhora linda do Coral dançou na varanda a dança do véu azul. Foi muito emocionante. A prova de que a vida nunca nunca acaba , até o último segundo podemos cantar, dançar, expressar nossa alegria.
Alguns amigos , grandes amigos estavam na plateia. E nos intervalos , a mesa mais linda, cheia de iguarias. Cada pessoa do Coral trouxe alguma coisa. Eu dei os vinhos e Fernando, nosso amigo, trouxe  espumantes da melhor qualidade. E comíamos, tomávamos vinho, explodíamos de alegria, e o Coral voltava a cantar. O Maestro trouxe também convidados de outro Coral, acho que éramos umas 40 pessoas.
Apresentei meu novo livro Brinquedos e Brincadeiras, li 3 poemas.
No final passei o chapéu, pois o Coral precisa de algum recurso para figurinos novos, eles se preparam agora para o Natal.
Ainda bem, o Coral Vozes de Saquarema virou uma ONG ou Associação, não sei direito e isso nos dá a segurança de que não vai acabar.
Se eu fosse Prefeita não deixaria o Maestro Moisés sair de Saquarema. Ele ganharia um salário bem bacana para fazer um Coral em cada escola. Assim, Saquarema, além de ser conhecida pelo surf, seria a Cidade dos Corais. A música cura, aproxima pessoas, transforma vidas.
Eu não tenho como agradecer. Maestro Moisés, obrigada.

sexta-feira, 21 de novembro de 2014

PARA BRINCAR

Adultos devem brincar? Claro que sim.  É muito bom brincar. Acho que quando brincamos alguma coisa bem dura, como um pedaço de iceberg, se rompe dentro da gente. Dançar é brincar. Cantar é brincar. Tudo pode virar brincadeira e até as atividades mais cotidianas e sensatas podem se transformar em algo bem prazeroso . Muitos adultos perdem esta capacidade. Mas quando a gente tem contato com crianças , elas nos lembram disso e nos levam pela mão.
Fiz um livro lindo, Brinquedos e Brincadeiras, que já saiu pela FTD, mas ainda não recebi. Está chegando. Tentei recuperar brincadeiras antigas.
Quando era criança eu amava brincar de roda. Amava de paixão jogar amarelinha. Passar o anel. Telefone sem fio. Amava as bonequinhas de papel e suas roupas maravilhosas também de papel, que a gente recortava. E quando era menor ainda eu gostava de brincar de lua. Quando eu voltava da pracinha do bairro, já anoitecendo, a lua me seguia. Eu parava, ela parava, eu andava, ela andava. E quando chegávamos na porta  do prédio, ela parava de vez e eu pensava: Como é que ela sabe onde eu moro?

A LUA
A lua pinta a rua
de prata
e na mata a lua parece
um biscoito de nata.

Quem será que esqueceu
a lua acesa no céu?

in No Mundo da Lua, ed. Paulus

quarta-feira, 19 de novembro de 2014

VISITA

Quando fui morar em Madrid em 1998, levei na bolsa o nome e o telefone de uma brasileira casada com um espanhol. Telefonei e marcamos um encontro. Ela foi me buscar em casa, na Calle Arquitecto Gaudí. Era a Miriam, com sua filhinha Clara, devia ter menos do que dois anos ou no máximo dois anos. Clara era fofíssima. Usava óculos, estava começando a falar. Fomos tomar um sorvete numa linda sorveteria. Clara já era bilíngue .  Olhou para o meu cabelo vermelhíssimo, apontou e falou: - Rojo! Miriam, sua mãe, perguntou: _ Em português, como é, Clarinha? E ela respondeu: _Verrrmelho!!! forçando bem os erres.
Durante toda a minha estadia em Madrid Miriam foi um anjo, me levando daqui pra lá, de lá pra cá. E quando eu queria falar assuntos da alma era com ela que eu conversava, já que com os espanhóis só podia falar do clima e das férias.
Uma vez Miriam nos convidou para jantar. Eu jurava que seria na quarta-feira. Na véspera, na terça, Juan chegou do trabalho, nós dois jantamos, bebemos vinho, vestimos pijamas quentes e fomos para a cama, fazia frio e nosso apartamentozinho não tinha calefação. Pois bem, toca o telefone quando eu já estava flutuando na vigília. Era Miriam, furiosa:
_ Roseana, vocês estão muito atrasados. Já estamos morrendo de fome e o fulano e a fulana, nossos amigos já estão aqui! Venham rápido.
Eu falei, Miriam, era amanhã! E ela: _Roseana, é hoje! E vem agora, fiquei horas cozinhando!
Bom, nos vestimos, saímos da cama tão quentinha, fomos para a rua gelada buscar um táxi, mas o pior foi ter que jantar outra vez!!!
E hoje recebo a linda notícia de que minha amiga Miriam vem almoçar aqui com a sua Clarinha que se transformou numa moça lindíssima.
Que maravilha as surpresas da vida!

terça-feira, 18 de novembro de 2014

SÉCULO XXI

No século XXI uma sonda, depois de 10 anos viajando pelo espaço, pousa num cometa e o que vejo é tão diferente da minha imagem poética de um cometa... Vejo pedras, aridez.
No século XXI todas as grandes Bibliotecas estão ao alcance das mão, realizando o sonho alucinante do poeta Borges de uma Biblioteca Infinita como paraíso.
No século XXI tudo o que acontece no mundo, eu sei agora, no minuto em que está acontecendo, tudo é instantâneo e se dissolve como leite em pó. Como poeira de um cometa fugaz.
No século XXI distância e tempo não existem mais como conhecíamos antes. Posso alcançar a voz de um ser amado a milhares de quilômetros de distância, agora no mesmo segundo em que penso em sua voz.
Mas no século XXI, como na Idade Média, como na Europa depois das grandes guerras, no século XX,como na Pré-história, as pessoas se deslocam de um lado para outro, caminham foragidas por grandes distâncias, açoitadas pela fome, pelo medo, pela saudade das suas casas ou cavernas perdidas.
São milhares os apátridas, os refugiados, as crianças que atravessam órfãs e sozinhas as fronteiras
Mas no século XXI, as atrocidades se parecem com atrocidades antigas, perdidas no fundo do poço do tempo.
O inimaginável acontece no século XXI . O mal em estado puro. O mal em estado absoluto. Pessoas desaparecem, e como na história da Alice no País das Maravilhas, que me dava tanto medo quando eu era criança, uma voz diz : "Cortem-lhe a cabeça". Seja no México, na Síria, no Iraque.
Precisamos abraçar nossas crianças, oferecer amor , o pão da beleza, arte, pedaços de aurora e sussurrar em seus ouvidos as mais lindas canções e dizer, podemos ser bons, podemos plantar, podemos cuidar, podemos guardar no coração o rastro azul de um cometa, podemos, como diz a Bia Bedran em seu livro "Fazer um Bem", fazer um pequeno bem cotidiano por qualquer ser vivo, e até mesmo pelas pedras.
Podemos afagar nossas crianças e sussurrar em seus ouvidos, vamos mudar o mundo.

segunda-feira, 17 de novembro de 2014

FOGÃO DE LENHA

Fogão de lenha aceso com feijão cozinhando. Samuel cortando a grama. Igor, nosso neto de estimação (neto do Samuel e da Vanda) tomando café da manhã com a gente, bela manhã de segunda. Luminosa, cheia de afeto circulando pela casa. Preparamos a casa para receber duas amigas que chegam sábado de Salvador. Verbena, minha amiga desde 1994, quando eu estava triste e perdida no encontro do Proler em Feira de Santana, sem me conhecer, mas apaixonada pelo meu livro Pássaros do Absurdo, simolesmente me levou para sua casa em Salvador, para cuidar de mim, da sua poeta de cabeceira, pois meu livro estava literalmente na sua mesinha. Não a vejo desde muitos anos. Mas para amigos verdadeiros que cuidaram da gente o tempo n]ão existe, é menos que um grão de poeira. E Regina, que também me adotou naquela época, com sua alegria cor de girassol. Minha Tia Alice também voltará para cá no sábado. E a gente vai tecendo as suas felicidadezinhas, pois a vida é um sopro.

domingo, 16 de novembro de 2014

BOAS NOTÍCIAS

Hoje, porque é domingo, porque desde às 5.30h chove torrencialmente aqui na praia, em Saquarema, e o jardim de tão belo parece uma irrealidade, porque imagino a terra se enchendo de água, os rios, os poços, só quero dar boas notícias.
Por exemplo, ontem, fui dormir com os olhos cheios de elefantes.Explico: vi um documentário sobre um tratamento de crianças (com problemas de todo tipo)  com elefantes. Na Tailândia. As crianças abraçavam elefantes , muitos eram crianças também, davam banho, abraçavam, beijavam, davam comida. Andavam de elefante. Depois abraçavam as mães com uma felicidade impressionante. Sou tão apaixonada pelos elefantes que se pudesse iria até a Tailândia para fazer esta terapia também. Que a criança que fui, quieta, tímida, diferente, pudesse abraçar um elefante!
Na mesma Tailândia, numa cidade pequena, com as orquídeas explodindo sua beleza, o que seria o prefeito da aldeiazinha teve uma grande ideia. Recebe turistas americanos para mostrar como é a vida dos tailandeses na sua intimidade, mostrar como são felizes sem praticamente nenhum bem material.
Parece que a tendência é buscar a verdadeira felicidade, a que brota de dentro, como um manancial de água preciosa.
A minha última grande e boa notícia é a brincadeira que já contei aqu, a que meu neto Luis faz com seu pai e sua mãe. O nome da brincadeira é vejo-vejo. Cada um conta o que está vendo. Por exemplo: da janela do meu quarto eu digo: _Vejo-vejo! E alguém me pergunta: _ O que?
Respondo: _Vejo-vejo uma cachoeira de flores cor de maravilha, a nossa buganvília (é assim que se escreve?) ou primavera.
E minha íris agora é cor de maravilha.
E você , o que vê?

sábado, 15 de novembro de 2014

A VOZ DE ANA MARIA MACHADO

Ana Maria Machado, a grande, maravilhosa escritora brasileira, Prêmio Hans Christian Andersen, Imortal da Academia Brasileira de Letras, orgulho nacional, diz hoje em seu artigo no O Globo:
........................
""Oposição é aceitar o resultado das urnas. E vigiar, acompanhar, cobrar o que fazem os eleitos. Como seus líderes mais responsáveis têm reiterado, também é não aceitar mentiras, não se deixar enrolar, não deixar que o governo enrole os eleitores.É agregar para crescer, somar o conjunto de forças que quer ser diferente.
..........................................................
Não deixar que mentiras repetidas sejam aceitas como verdades"

Declaro que discordo dos métodos truculentos do governo.
Declaro que desejo um Brasil mais limpo para meus netos Luis e Gabriela.
Declaro que simplesmente me envergonha tudo o que está acontecendo , a política como Feira Livre, barganha, toma lá, dá cá, quem dá mais, quem rouba mais.
Declaro que sou contra toda a tentativa de destruição da Lei de Responsabilidade Fiscal. Todos, cada um de nós, tem que ser responsável por seus gastos, seus gestos, sua vida.
Declaro mais uma vez que rótulos do Século XX não cabem no Século XXI.

sexta-feira, 14 de novembro de 2014

SEDE

Hoje, na Coluna "Conte Algo que não sei" do jornal O Globo , fala Cristiano Borges, engenheiro químico e professor. O que ele nos conta deveria estar escrito nas paredes, muros, em outdoors imensos por todo o país, mas principalmente escrito na cabeça dos governantes. Ele nos diz coisas maravilhosas e terríveis.
As maravilhas: não faltará água. O custo de dessalinizar a água do mar é barato com a invenção de uma membrana produzida em laboratório. Aí ele explica a fabricação da membrana. Ele sugere que as grandes indústrias, que gastam uma quantidade colossal de água já poderiam estar usando água do mar.Custa 2,00 (dois reais) para produzir mil litros.
Já existe, já se pode fazer isso: uma usina que aproveita a energia do encontro das águas do mar e do rio. Energia AZUL, sem nenhum impacto ambiental. A diferença de pressão é de uma altura de 220 metros. Imaginem na Amazônia, sem ter que destruir, alagar, expulsar índios... Em Israel a água é 70% reusada. E a nossa água? Na Noruega a Usina do encontro das águas já existe.
Aproveito para falar do lixo. Na Noruega acho que reaproveitam 100% do lixo. E no Brasil? O lixo é uma grande riqueza, além disso produz gás.
Então, a notícia maravilhosa é que não precisaremos morrer de sede! A notícia terrível é que os governantes viram as costas para a ciência, para as saídas que respeitam de verdade o meio ambiente. Em Saquarema venta todo o tempo e por aqui nunca se ouviu falar em energia eólica...  

quinta-feira, 13 de novembro de 2014

CRIANÇAS À MARGEM

Dois documentários que machucaram meu coração:
1 - A situação das crianças transexuais . Crianças que nascem meninos ou meninas, mas na sua mente são do sexo oposto. Ao se olhar no espelho, não se reconhecem. A família os esconde, a escola não aceita, a sociedade não aceita. Para a criança é uma situação muito dura e os pais precisam estar atentos, pois não é um capricho, uma escolha, uma preferência. É assim. Nasceu menino, mas não se sente menino, nasceu menina, mas não se sente menina. Há todo um movimento na sociedade para a aceitação de outros gêneros , além do simplesmente homem ou mulher. Mas os preconceitos são imensos e tudo isso ainda vai gerar muito sofrimento. O ideal é que a gente tente sempre entender o sofrimento do outro. É um passo para a aceitação. Sem dogmas religiosos.
2 - Há um milhão e trezentas mil pessoas invisíveis na China ou serão três milhões? Já não tenho certeza, mas enfim, uma multidão inimaginável de segundos filhos proibidos que não podem ser registrados nem possuir carteira de identidade, nem frequentar uma escola, nem trabalhar. Seus sonhos são todos roubados pela política do filho único. Mas se o casal tiver uma fortuna para pagar de multa, a criança pode ser registrada. Um comércio terrível com a vida das pessoas! Geralmente poucos podem pagar esta multa gritante. Imaginemos a vida de uma criança que vê seu irmão ou irmã ir para a escola e esta criança não pode ir, etc, etc.
Se o casal morar no campo e a primeira filha for mulher aí sim, porque precisará de ajuda no campo, pode então ter legalmente um segundo filho.
Todos já ouvimos rumores sobre assassinatos de meninas recém-nascidas, para que o casal possa tentar um menino.
Será que existe no Universo seres menos cruéis que nós, humanos?

quarta-feira, 12 de novembro de 2014

UM DIA MUITO FELIZ

Ontem falei com um amigo do nosso Clube de Leitura: o mundo está mesmo esquisito, mas vou fazer 64 anos em dezembro e só tenho uma vida, se tiver outra depois, certamente será outra coisa. Se não existir nada depois, pelo sim pelo não, há que viver esta vida com alegria e felicidade. Fazer a felicidade de quem está perto de mim é a minha tarefa. E lá vou indo com a minha trouxa de poesia, leve, feita de coisas etéreas. Por exemplo hoje, acordei às 4:30h e antes das 5h, já estava no meu banco na varanda com a garrafa térmica vermelha , uma xícara que minha irmã ceramista fez e todos os barulhinhos maravilhosos do final da noite. O mar, sua sinfonia nas minhas costas, suas intermitências. O vento no jardim, nos coqueiros, nas palmeiras, o ranger da casa, os estalos das madeiras, a casa parece um barco, parece viva e um galo lá longe, todos sabem, chamando a manhã. Deve ser terrível a manhã que se aproxima sem um galo puxando a luz com seu canto.E de repente a luz desfiando o resto da noite. O cheiro das algas e do jardim me envolve e chega o Juan. São 6h.
Depois do café Juan me traz a Luna , minha gata persa que já está com 14 anos e há uma sessão de cabeleireiro e cafuné. Primeiro a colocamos no banco e ela é escovada enquanto resmunga sem parar. Depois eu a pego no colo como um bebê e é sessão de cafuné. Canto para ela, afago, conto coisas, ela fica muito muito tempo no meu colo ronronando, lembrando... Depois quer ir para o jardim, desliza e vai descendo as escadas devagar.
Hoje comecei a dar aulas de leitura para a Vanda, nossa amada caseira. Ela quer melhorar a sua leitura para um dia poder participar do clube. Foi maravilhosa a aula. Começamos a ler um livro pequeno e lindo "As aventuras do meu avô" de Angela Quintieri.
Foi uma experiência maravilhosa para nós duas. Ela ganhou uma palavra nova: "auge" e expliquei para ela que o que mais separa um pobre de um rico é o número de palavras que possui. Com palavras e pensamentos articulados podemos nos defender. Faremos 20 minutos de aula três vezes por semana. Interpretamos o que leu. Contei para ela porque falamos português no Brasil e não uma língua indígena. Ela amou tudo, parecia explodir de felicidade e eu também.
E finalmente para fazer um feixe de flores campestres com tudo isso, hoje é o aniversário da minha neta Gabriela. Ela faz um ano hoje. E já sabe beijar na boca!

terça-feira, 11 de novembro de 2014

EXPECTATIVA

Não ter expectativas é muito difícil para nós ocidentais, equivaleria a viver num presente eterno, deixar que tudo flua e não esperar nada. Mas fazer tudo o que tiver que fazer da melhor maneira possível. Se faço uma coletânea de poemas, quero que os poemas sejam lindos, quero dar o melhor de mim, do meu talento. Quero que o livro saia o mais belo possível , para que inunde os olhos e o coração de uma criança de beleza. Mas não posso ter nenhuma expectativa de vendas ou prêmios. Se estiver esperando que isso aconteça e realmente o livro não vender nada e não ganhar nenhum prêmio, ficarei arrasada, pois estava esperando alguma coisa. Mas se deixo apenas a vida fluir e o livro fizer o seu caminho, qualquer que seja, não ficarei triste.Ou ficarei radiante com a surpresa boa que o livro traga para todos!
Eu diria que não existe nenhum exercício maior do que este. Já consegui muito. Tento não esperar nada e viver apenas. Repito :não existe nada mais difícil. Sem a meditação não conseguiria chegar nem perto , nem ter este vislumbre.
Mas na recuperação mão consigo não ter expectativas. Só que a recuperação física de uma cirurgia grande com uma coluna tão instável quanto a minha, não é linear. Um dia estou ótima, podendo andar sem dor. Noutro dia, nem tanto. Talvez este esteja sendo o maior aprendizado da minha vida. Pois agora, tenho consciência de que tenho que fazer, como faço com os livros, o melhor possível, repouso, gelo, etc, etc, e ao mesmo tempo deixar tudo fluir sem que entre a expectativa e a ansiedade. Ler um livro, contemplar, escrever, receber amigos, fazer fisioterapia, sem pensar no corpo, ele tem o seu tempo, que não é o mesmo tempo que o da minha mente, ou da minha alma, que gostaria que o corpo pudesse andar normalmente, pudesse correr, pudesse voar...
Mas aqui, em Saquarema, respiro o jardim, o mar, o amor de todos os que me cercam, que estão perto ou longe, e deixando que o vento me embrulhe, e faço meus exercícios : espero não esperar.

segunda-feira, 10 de novembro de 2014

VIAGENS

Neste tempo de recuperação física viajo muito para dentro. E penso muito e leio muito.
Penso que trabalhar no pequeno é algo lindíssimo, pois o nosso trabalho pode ser um farol.
Daqui, de Saquarema, uma cidadezinha linda no litoral fluminense, a cidade que escolhemos para viver, o meu trabalho tão pequeno, faz com que pessoas lá longe queiram fazer algo assim.
Esta semana tive a grande alegria de ser procurada por duas pessoas que não conheço, pedindo ajuda para criar um Clube de Leitura nos seus lugares. Uma delas queria textos simples, para leitoras iniciantes e aconselhei literatura infantil. Os textos de qualidade podem se desdobrar em leituras riquíssimas e ainda por cima podemos fazer a leitura das imagens.
Faremos aqui em casa o último encontro do ano com os professores(a) da Rede Municipal de Saquarema com a Secretaria de Educação. Meu trabalho com este grupo tem o foco na sensibilização do olhar para com o outro, através da leitura, claro. Como estamos bem perto do Natal, pedi que cada pessoa trouxesse um poema e dedicasse para alguém, presente ou ausente, falando alguma coisa boa sobre esta pessoa. Acho que o resultado será emocionante. Preparei algumas outras coisas, surpresas.
Tudo isso me alimenta, transformar o que penso em ações , ver a nossa varanda com uma linda mesa arrumada para um café da manhã coletivo, ou com um almoço do Clube de Leitura, ou com um almoço para crianças que chegam de longe, me faz transbordar, como se eu não coubesse em mim.
No entanto, não almejo trabalhar com muita gente. O que quero é construir no pequenininho, como a personagem do livro da Stella Maris, escrever num grão de arroz, jogar um desejo no mar...   

domingo, 9 de novembro de 2014

EM JERUSALÉM

Ontem vi um documentário mais do que interessante. Era sobre uma cinemateca em Jerusalém, algo que se tornou imenso com o tempo e é um reduto de gente de mente aberta, jovens e velhos misturados pensando em aceitar o outro, o diferente. Ouvimos a luta das dirigentes para conseguir filmes iranianos, por exemplo. Os jovens israelenses querem saber dos países árabes.
O mais importante do documentário, não é conhecer gente que luta pela paz e entendimento em Israel.,mas sim, ver a face autoritária dos super ortodoxos que tomaram a cidade para si. Aos sábados ônibus não circulam! É horrível, eles não querem mesmo a paz e são maioria no Governo (não tenho certeza, não acompanho muito, mas sua influência é muito grande) Como a religião e todo o fanatismo desemboca em ódio quando se mistura com a política.
Temos que estar atentos. O Estado, qualquer um, tem que ser LAICO e as escolas públicas também. Religião deveria ser algo íntimo.
Ouvi muitas pessoas no documentário falando : " A religião para mim é apenas a tradição, eu gosto das festas, da comida, de estar junto celebrando. Mas por que no sábado não posso pegar um ônibus em Jerusalém?"
Sou judia e nada nada religiosa. Cuido da minha espiritualidade sozinha. Mas me emociono nos casamentos judaicos, nas festas, com o cheiro das comidas, com as músicas. É a minha infância. Judaísmo para mim, é o que meu pai me deu, um olhar compassivo sobre o outro , ajudar o outro. Quando eu era jovem e houve o massacre dos Campos de Sabra e Chatila, o massacre dos palestinos, meu pai chorou.
Então vemos os ultra ortodoxos com seu fanatismo, fazendo de Jerusalém sua presa, usando Deus para a guerra e a gente pensa: como isso pode existir hoje? Por que gente que quer a paz de verdade, o convívio não pode discutir a paz?
Tenho um livro lindo lindo lindo. QUAL A PALAVRA? Ed. Paulinas. É sobre a construção da paz, é para gente de qualquer idade.
Eu o ofereci a uma editora israelense em 1994. Ela adorou, me respondeu, mas disse que em Israel já havia muitos livros sobre a paz.
 

sábado, 8 de novembro de 2014

FAZER AS PAZES

Depois de tantas agressões na Rede, talvez todos devêssemos fazer as pazes. Talvez devêssemos jogar peixes dourados. Metade do Brasil vota de um jeito, metade de outro. Metade pensa de um jeito, metade de outro. Isso é democracia. Não é justo o desejo de destruir quem não pensa como a gente. Foi o que fizeram os muçulmanos na África, os católicos na Idade Média. Política é religião? Quem pode ser dono da verdade ? Eu quero o bem do Brasil e voto assim, você quer o bem do Brasil e vota assado. Isso é democracia. Exterminar quem pensa diferente, ridicularizar, debochar ou agredir quem pensa diferente não dá certo. Este filme já passou muitas vezes e só produz dor e ressentimento quando não leva a coisas muito piores. Todos sabemos que o ser humano certamente é a pior espécie do planeta. A que destrói o seu habitat. Todos temos lados sombrios , tenebrosos dentro da gente, Mas temos lados magníficos, luminosos, o poder de sentir compaixão, de imaginar, inventar, Trabalhar com nosso lado luminoso é um exercício diário. Discutir, trocar ideias sem agressões é possível, totalmente possível. Com certeza ninguém sairá convencido do ponto de vista do outro,mas cada um tem direito a ter o seu ponto de vista.
Trabalhar o nosso lado bom desde que o bebê nasce é a saída. Música, leitura, pintura, teatro, dança. Tudo isso acalma e faz de nós seres humanos melhores, ajuda a amar e a controlar a raiva.
Há uma discussão sobre a maioridade penal na sociedade. O foco, do meu ponto de vista está errado. O que se deveria discutir são as prisões e os abrigos para menores. Essa é a verdadeira questão. Seres humanos entulhados como vermes, sem saída , a não ser , lá num futuro próximo, a crueldade, a vingança. Tenha esta pessoa 16 anos ou 18.
Então é necessário que todas as escolas públicas tenham oficinas de arte, aulas de leitura e fórums de pensamento,lugares de discussão na escola para os grandes problemas da sociedade. São tão imensos , exigem uma mudança radical de pensamento.
É isso que ando pensando nesta manhã de sábado, fresca , aqui em Saquarema, com o vento que vem do mar, perfumado de sereias.
Releio um livro lindo A Ponte Invisível, para nosso encontro do Clube de Leitura. Estou em Paris, no tempo sombrio que antecedeu a Segunda Guerra. Sou Klara, a bailarina? Sou Andras, o seu amante? Sou Tibor, a pessoa mais ética, honesta e maravilhosa? Quem escolho para ser? Este o poder imenso de um romance. Posso ser outra, viver outra vida em outro tempo.Posso ser homem ou mulher.  Bom sábado para todos.