quinta-feira, 17 de abril de 2014

CAMINHO DA MONTANHA

O trabalho em Três Rios foi muito bom. O Sesc me deu toda a acolhida e todo o carinho. Agradeço a companhia da Raquel Mascarenhas e Paulo Ricardo.
Recebi duas escolas no auditório pela manhã e pela tarde. Brincamos, lemos poemas, cantamos, foi bom demais. E ainda por cima cada criança recebeu de presente um exemplar do Fio de Lua & Raio de Sol. Autografei 200 livros!
E agora depois de assistir a aula de natação do meu neto vou para a montanha.
Meu coração bate forte. Minha casinha me espera.

segunda-feira, 14 de abril de 2014

TRÊS VIAGENS

Hoje vou para Três Rios numa viagem dividida em três pedaços:
Apresento no Sesc um pouco da minha obra para leitores e Guga, meu filho e Patricia, minha nora apresentam o Concerto Fio de Lua & Raio de Sol, com uma pessoa muito ilustre na plateia: meu neto Luis, de quatro anos. Na última apresentação ele ficou muito aflito de ver os pais no palco. Ele me disse que não queria ir, que não ia gostar. Então nós dois fizemos um trato. Se ele não gostasse , ganharia um prêmio. Então ele ficou bem confortável para não gostar e realmente detestou e comprei para ele um bonequinho de super herói , era o que ele escolheu. Vamos ver agora.
De lá vou para Mauá e dia 23 vamos novamente nós quatro para Friburgo, onde repetiremos o programa no Sesc.
Trabalhar com a família é algo tão mágico e maravilhoso, fico tão comovida. Faz pouco tempo meu filho estava longe, ficou oito anos na Espanha e agora estamos juntos outra vez!

domingo, 13 de abril de 2014

FESTA DE BABETTE

Como agradecer tantas dádivas que tenho recebido da vida? O Clube de Leitura da Casa Amarela é uma das minhas maiores alegrias, é um grande presente e somos já uma linda família, nosso traço em comum: amamos ler. Maria Clara, Leila, Gil, Felipe, Pamela, Cristiano, Ana, César, Flora, Hector, Helio, Fernando, Juan, Chico, Adelaide, Isabela, será que esqueci de alguém? E ontem falamos tanto de anjos, eles percorrem os contos da Karen Blixen de lá para cá, agradeço ao Samuel e Vanda, nossos anjos.

O dia ontem, o do nosso encontro, estava lindo e quente. Vanda nossa caseira, já cedinho às voltas com o bobó que inventei de abóbora com salmão. Ficou maravilhoso, simplesmente. De sobremesa compramos uma torta de coco para festejar o recente casamento de Ana Cristina e Cristiano.
A sala estava cheia e optamos por discutir conto por conto do livro Anedotas do Destino da Karen Blixen. Todos ressaltaram a beleza da escrita, a beleza da urdidura dos textos e a estranheza das histórias. Felipe lembrou que ela nasceu na mesma terra de Andersen e que portanto, apesar da diferença no tempo, o estilo dos dois tinha um parentesco. É o "maravilhoso" em estado puro. Falamos sobre a grande espiritualidade dos contos, a ausência de moral no final das histórias , a busca pessoal de cada personagem. Pamela, namorada do Felipe que veio pela primeira vez, falou que os contos bebiam diretamente na fonte do inconsciente e tinham um parentesco a posteriori com o surrealismo, com Dali. César falou sobre a perfeição do conto da História Imortal, o conto do Mister Clay é uma ode à literatura. Fazer com que a ficção virasse realidade para depois tornar-se ficção outra vez..Foi maravilhoso termos lido A Tempestade do Shakespeare para poder ler depois A Tempestade da Karen Blixen. Nos deu um grande alicerce, pois o conto da Blixen é inspirado na peça.  E o conto do anel retoma o conto de fadas do lobo mau...Conto totalmente Junguiano.Hélio, Fernando, Chico, leram trechos especialmente poéticos.
Pulamos o conto da Festa de Babette, pois depois do almoço passamos o filme. Saímos do filme emudecidos, transtornadoss, Leila cheia de lágrimas, todos nós alucinados com a beleza do filme, a fidelidade da adaptação. Cada um de nós agradeceu estarmos juntos, dividirmos juntos tanta felicidade e beleza.. Nos abraçamos com emoção verdadeira.

O próximo encontro será dia 26 de julho em Visconde de Mauá e os livros serão: Amrik de Ana Miranda e Um bonde Chamado Desejo de Tenesse Williams. 

sexta-feira, 11 de abril de 2014

VÉSPERA

Toda véspera carrega uma estrela vésper no coração. Amanhã é o nosso encontro do Clube de Leitura da Casa Amarela. Reli esta semana o livro da Karen Blixen e a segunda leitura foi incrível, tantas coisas eu não havia visto na primeira leitura! Há que preparar tudo cuidadosamente. Ir ao mercado, o que Juan faz por mim com a lista das compras na mão. Mas antes há que pensar o que fazer para o almoço. Vanda fará um bobó que não será de camarão, pois temos alérgicos na turma. Inventei um bobó diferente, tomara que dê certo. Aluguei mais algumas mesas , pois as que temos já são poucas. Temos um casal maravilhoso que se casou e faremos do encontro uma celebração.Meu contador (e sua belíssima mulher) diz que virá, apesar da maratona de trabalho do I.R. Aliás, a Fátima faz um trabalho quietinha que é para a gente chorar de tanta beleza: o Educandário do Bem, criado por ela, é um Ponto de Cultura que recebe muitas crianças para aulas de teatro , leitura, música, etc.  Em nosso grupo temos profissões bem variadas e é isso o que torna tudo tão interessante. Vanda e Samuel, nossos amados caseiros dão o seu dia de presente para o Clube, embora ninguém saiba disso. Não querem cobrar pelo trabalho neste dia porque também querem colaborar com o grupo! Samuel, que não consegue ler com fluência, fica ouvindo toda a discussão de boca aberta e ama e depois comenta tudo. Vanda, muito tímida, ouve tudo escondida e também adora escutar de longe a discussão. Ela é sempre aplaudida por sua comida maravilhosa. Juan, meu marido, embarca comigo em tudo o que eu invento. Nosso barco é feito de sonhos de um mundo mais justo, de poesia, de muito amor por tudo o que é vivo.

quarta-feira, 9 de abril de 2014

HERDEI O DOM DE LER DA MINHA AVÓ

Uma menina, Thayssa Eduarda, disse em nosso segundo encontro do Café, Pão e Texto:

"Herdei o dom de ler da minha avó". "Eu amo ler".
Às 9h em ponto um ônibus amarelo encostou aqui na porta e uma revoada de pré-adolescentes e adolescentes desceram com o Prof. Robledo, professor de teatro. Alguns já vieram vestidos para a pequena peça que apresentariam.
A nossa varanda estava linda, cheia de tapetes e almofadas espalhadas pelo chão. A mesa do café já preparada: quatro bolos feitos pela Vanda e dois pães imensos feitos por mim hoje bem cedinho. Sucos, café com leite e manteiga.
Começamos conversando sobre a força da poesia e como pode ser terapêutica. Depois falei de alguns depoimentos de cura através da poesia , algumas pessoas me contam. Então falamos sobre drogas e como o corpo sozinho fabrica drogas maravilhosas sem que a gente precise recorrer a nada: endorfina, oxitocina. falamos dos abraços e como também curam.. Distribuí meus poemas do livro Poço dos Desejos , cada um ficou com uma cópia. O livro ainda está em produção.Escolhi cinco pessoas e o poema foi lido em voz alta. Depois de cada poema lido falávamos sobre o poema e nossos desejos. Foi maravilhoso!
A Carolina da ed. Rovelle mandou bem cedinho um motorista trazer 30 livros da sua editora e distribuidora para presentear as crianças. Foi uma loucura a felicidade dos meninos-as ganhando um livro belíssimo cada um.

 A peça, bem pequena, era super original. Chapeuzinho Branco. Uma versão diferente do Chapeuzinho Vermelho. Foi brilhante e engraçado. Aulas de teatro na escola fazem toda a diferença!

Antes do café da manhã , espontaneamente o Márcio, que veio de terno e gravata para a peça, disse: -Vamos nos dar um abraço de vinte segundos!E todos abraçavam todos! O s bolos e pães eram tão fantásticos, os pães quentinhos com manteiga, que ninguém conseguia parar de comer.
Ai se as aulas nas escolas fossem sempre uma festa. Como sairiam da escola todos felizes e cheios de novos aprendizados. Este projeto me enche toda de dourado por dentro e pó de pirlimpimpim : hoje não caminho, levito.

segunda-feira, 7 de abril de 2014

O MESMO MAR

Releio O MESMO MAR de Amoz Oz, Cia das Letras. O bom é que já tinha lido mas não me lembrava muito, vou lendo e vou me relembrando vagamente e o impacto é imenso.  A estrutura do romance e originalíssima. Amoz Oz conhece como poucos os labirintos da alma humana, as falhas de que somos feitos, os desejos proibidos. Ele e Antonio Muñoz Molina,espanhol, hoje são autores queridos que me acompanham sempre. Além disso partilho das mesmas opiniões que o Amoz Oz em relação ao conflito árabe-israelense. E isso me conforta.

Esta semana tenho dois espetáculos em nossa casa, os atores somos nós.O Café, Pão e Texto e o encontro do Clube de Leitura da Casa Amarela. Escolher o que será lido para o próximo encontro é uma dança lenta , eu vou e venho e mastigo nuvens e finalmente escolho. É uma tarefa maravilhosa. 
E José Wilker ter desaparecido foi como se desaparecesse um parente. Fazia parte das nossas vidas.
                                                         METEOROLOGIA:
A segunda-feira começa toda azul e aqui em Saquarema a temperatura é de puro outono a estas horas.

domingo, 6 de abril de 2014

FUTURO

Quem pode se arriscar a prever o futuro? Nem o mais louco dos cientistas. "Há água numa das luas de Saturno" e além da poesia contida nesta frase, será que há a possibilidade de que um dia o homem construa cidades numa lua de Saturno? A vista será linda, ao se olhar para o céu. Apartamentos serão anunciados: terraço com vista para os anéis de Saturno. O homem já inventou um cromossomo. Além de uma maravilhosa ferramenta para a medicina, será que serão fabricados seres humanos? O que sairá daí?
Felizmente faço meu trabalho com palavras e imaginação e não estarei viva para ver as novidades do ano 3000. Ou será que acontecerá o que me arrisquei a prever no livro Casas em 1994, no poema abaixo:

NO ANO 3000
No ano 3000
os homens já vão ter
se cansado das máquinas
e as casas serão novamente românticas.
O tempo vai ser usado sem pressa:
gerânios enfeitarão as janelas,
amigos escreverão longas cartas.
Cientistas inventarão novamente
o bonde, a charrete.
Pianos de cauda encherão as tardes
de música
e a Terra flutuará no céu
muito mais leve, muito mais leve.

in Casas, ed. Formato.

sábado, 5 de abril de 2014

POÇO DOS DESEJOS

Tenho vários livros em produção. Um deles. o POÇO DOS DESEJOS que sairá pela editora Moderna. O livro aconteceu assim: Maurício Leite , meu amigo, me telefonou um dia contando que sua exposição de brinquedos em Ceilândia havia terminado e ele teve que desmontar um poço dos desejos que havia feito. As pessoas jogavam papeizinhos com seus desejos mais profundos. Adorei a ideia e fiz o livro, pois nós, humanos, somos movidos desde o primeiro segundo do nascimento, por desejos. O recém-nascido deseja o peito da mãe e seguirá desejando isso ou aquilo pelo resto da vida. Saí perguntando a todo o mundo que ia encontrando: - O que você deseja? Os desejos eram muito variados. O poema que vou reproduzir, é o meu mais forte desejo. É um desejo de paz. Sem paz nada existe de belo. O moinho da vida precisa de paz para funcionar. Já imaginaram se ao invés de brigarem entre si, de se caluniarem, os partidos políticos se unissem para fazer o melhor pelas pessoas? Se os árabes e os israelenses se entendessem? Se na antiga Albânia e em tantos lugares do mundo não existisse o direito da vingança? Se em cada pedacinho do mundo todos trabalhassem juntos pelo entendimento entre as pessoas, independente da sua cor, escolha sexual, religião, etc? Então a paz é o meu desejo . Possível? Impossível? Enquanto não houver um salto quântico nos humanos, em sua mente, impossível, eu diria. Mas na poesia o impossível é possível:



DESEJO DE PAZ

O mais belo dos desejos
deveria ocupar todos os corações.
Então homens e mulheres,
velhos e crianças,
coloridos habitantes do planeta
Terra
sorririam para o sol e a lua,
dançariam no meio da rua,
e enquanto nos jardins
dálias e violetas se abrissem
ao vento,
pássaros e borboletas
escreveriam beleza no ar.
Mãos humanas cheias de paz
só fabricariam amor.

in Poço dos Desejos, ed. Moderna, em produção.





 

sexta-feira, 4 de abril de 2014

DESCOBERTA

Lendo o livro "La Calle de la Judería", lá pelo final do livro, descubro que um converso, um cristão novo muito próximo da Rainha Isabel, se chamava Juan Arias, como o meu marido e era de Àvila. Descubro então, que lá pelo começo de 1400, Juan teve uma família judia. Nunca sabemos,os os rios de sangue antigo que correm nas nossas veias. Não sei nada da minha família para trás, parei nos avós de pai e mãe que moravam na Polônia e eram muito pobres .
Agora estou lendo um segundo livro sobre o tema das "polacas". Eram judias da Europa, pobres, que vieram para a América do Sul enganadas e eram prostituídas. Uma máfia judaica buscava as mocinhas nos vilarejos, muitas vezes se casavam com elas prometendo uma futura vida magnífica e já no navio as prostituíam. No Brasil eram famosas. Lindas mulheres de pele branquíssima.. Sua vida era terrível, pois a comunidade judaica não as aceitava, elas eram impuras, não podiam ser enterradas no cemitério judaico. Então, elas se organizaram numa Sociedade, compraram um terreno em Inhaúma, hoje abandonado e eram enterradas neste lugar. Não posso imaginar a tristeza das suas vidas. Não tenho ferramentas internas para isso. Até agora é um tema tabu.Tudo o que as cerca é cheio de névoa.
.   

quinta-feira, 3 de abril de 2014

NÉVOA

Não sou pintora, nem ao menos sei desenhar. Mas hoje acordei e uma linda névoa cobria tudo, nem mesmo se via o mar. Não tenho o menor interesse científico sobre este fenômeno. Meu interesse é puramente poético e estético. Amo esta matéria impalpável que apaga os contornos, os telhados, apaga o mar e seu horizonte, é quase uma matéria de sonho. E agora vem o sol e desfia a névoa , seus fiapos se desmancham e tudo retoma a concretude, as casas saltam aos olhos, mas ainda não vejo as montanhas lá longe, espero o momento em que deixarão de boiar invisíveis e poderei adivinhar as vidas que aí se escondem. Se fosse pintora...

quarta-feira, 2 de abril de 2014

INFÂNCIA

Li em algum lugar que a infância é nossa única pátria. E é impressionante como pode caber em nosso corpo e em nossa mente uma cidade, um bairro, uma rua, uma determinada casa que vive e oscila enquanto caminhamos, com seus móveis, ruídos, pessoas e cheiros. Às vezes, quando nos sentimos "em casa" em algum lugar, é o eco desta casa primordial que vibra em nossa pele. Ali nos reconhecemos.

terça-feira, 1 de abril de 2014

VIAGEM AO RIO

Encerrei ontem a revisão do câncer de mama que tive em 2010. Está tudo ótimo e só falta um ano para a "cura" e suspensão de um medicamento muito agressivo para a supressão total de hormônios. Fiquei feliz mas não tenho mais medo de nada. Cada dia me convenço mais que nossa vida, breve demais, tem que ser vivida de verdade com um olhar profundo para dentro e um desejo imenso de dar a mão ao outro e melhorar como ser humano.É o que tento fazer.
Mas estive com pessoas que amo e foi muito bom. Fiz coisas proibidas, comi massa recheada e torta de chocolate. É muito bom transgredir de vez em quando!
E aqui, de volta, o mar me abraça e me diz coisas lindas ao ouvido, me diz, somos eternos .

domingo, 30 de março de 2014

ANIVERSÁRIO

Hoje meu filho André, que ilumina minha vida, faz anos.Não estaremos juntos, infelizmente. Para ele este poema:

ANIVERSÁRIO
Para o teu nascimento
o céu se arrumou inteiro:
estrelas escreveram teu nome,
cometas escreveram um caminho
com poeira de luz
para que o teu destino,
carruagem carregada de sonhos,
pudesse passar.

Para o teu nascimento
os anjos inventaram palavras
nunca antes pronunciadas,
e os jardins secretos
fabricaram flores desconhecidas.

Para o teu nascimento
o universo inteiro
desfraldou suas velas.

Tua mãe.

sábado, 29 de março de 2014

DIA DA TERRA

Hoje é o Dia da Terra. Mas e os outros dias? Será que hoje ninguém irá desmatar? Ninguém irá extrair petróleo , carvão e gás das profundezas da Terra? Será que hoje ninguém sairá de carro? Será que hoje ninguém irá poluir com dejetos, nascentes, rios e mares? Todos os dias destruímos mais um pouquinho e de grão em grão... destruiremos tudo?

sexta-feira, 28 de março de 2014

ESPERANDO VISITA

No feriadão espero uma linda visita em Mauá: José Mauro Brant. Para ele escrevi meu poema Oração que é mesmo uma oração para muita gente. Tenho uma admiração imensa por seu talento de Contador de Histórias, Ator, Roteirista. Zé Mauro pega um emaranho de textos feito um novelo cheio de nós e desamarra tudo e amarra tudo num lindo espetáculo. Foi assim com o Pequeno Poema Infinito do Lorca. Foi assim com o maravilhoso espetáculo de Contação de Histórias que levou junto com meu filho Guga Murray para as Canárias, na Espanha.
Zé Mauro é artista fiel ao seu coração , pulsa junto com o sol e as estrelas. Uma vez brigamos, eu já fui muito brigona , mas ainda bem , fizemos as pazes, pois eu o admiro demais, gosto dele demais e quando falo nele, ouço a sua voz e o vejo no palco.
Ouçam este pedacinho do texto da peça Pequeno Poema Infinito, textos de Federico García Lorca, que lindo!
" Temos que amar a lua sobre o lago da nossa alma e fazer nossas meditações religiosas sobre o abismo magnífico dos crepúsculos abertos... porque a cor é a música dos olhos..."

quinta-feira, 27 de março de 2014

REPARAÇÃO

Em 1492 os judeus foram expulsos da Espanha. Ficaram os que se converteram. Mas se antes dos cristãos tomarem a Espanha dos mouros, na época em que as três religiões conviviam, a vida dos judeus transcorria sem sobressaltos, apenas pagavam um imposto aos árabes, depois da chegada dos cristãos ao poder, antes da expulsão total, sua vida já não era nada fácil. Os que se convertiam eram vigiados de perto. Se caísse sobre eles a desconfiança de que ainda guardavam as leis judaicas, o destino certo eram as fogueiras, eles eram chamados "marranos" que quer dizer, porcos. Foram expulsos todos os judeus: médicos, filósofos, poetas, joalheiros, músicos, artesãos, etc, etc. Tiveram que deixar suas casas, cidades, suas vidas , ir embora para um destino incerto.Agora, centenas de anos depois, o Governo Espanhol vai dar cidadania aos que provarem que suas famílias foram expulsas da Espanha naquela época. Diz-se que muitas famílias guardaram as chaves da casa , que foram passando de geração em geração.Os judeus da Espanham tinham sua própria língua, o ladino. Quando fui a Córdoba assisti a um espetáculo onde contavam a história dos judeus na Espanha e cantavam belas canções em ladino.
Por conta disso estou relendo um lindo livro de uma escritora espanhola , Toti Martinez de Lezea, ela é basca, que se chama La Calle de La Judería, o livro conta esta história através de uma família que vai se convertendo aos poucos.O tema mexe tanto com minhas emoções que leio um pouco e tenho que parar para acalmar meu coração.A Espanha fez um gesto inacreditável, pois em muitos lugares as pessoas continuam antissemitas. Marrano é um xingamento horrível e ainda se usa. Meu filho me contou que na Semana Santa era acometido de um medo atávico, quando saiam às ruas aquelas procissões medievais.

Que todo homem se reconheça em outro homem. Que toda mulher se reconheça em outra mulher. Somos todos mortais.
       

quarta-feira, 26 de março de 2014

LOUCURA

Vi esta semana e a passada dois filmes sobre a loucura, entre outras coisas. Blue Jasmine e A História de Adèle H, história verdadeira, sobre a filha do Victor Hugo. Ambas enlouqueceram em tempos diferentes por motivos diferentes, mas que no fundo eram parecidos. Jasmine enlouquece por perder seu status, sua vida de futilidade e riqueza excessiva, enfim, por sua vida vazia, preenchida com vivências e objetos de luxo, sem nenhum olhar sobre o outro, sobre sua irmã, por exemplo.  Adèle enlouquece por amor, um amor doentio, que não lhe deixa respirar nem viver. No século XIX a mulher não tinha muita escolha quando era de uma certa classe social. O casamento era a sua única meta. Por ter sido rejeitada pelo homem que lhe prometera casamento, Adèle inventa , persegue, mente. Sem o homem desejado ela não existe. Finalmente, a fina linha que nos separa da insanidade se rompe. Com Jasmine acontece quase o mesmo, por não poder ter de volta o que perdeu, ela passa a vagar por um mundo imaginário. As duas são desmascaradas e nada pode trazê-las de volta. A loucura ainda é um dos mistérios que nos intrigam. Por que a maioria das pessoas se recuperam das perdas, de tragédias imensas e outras não conseguem, enlouquecem? Não posso acreditar que a chave seja apenas química, que enlouqueceriam de qualquer maneira, por um motivo ou outro. Prefiro crer no emaranhado que é a alma humana, cheia de caminhos perigosos, precipícios, florestas densas e muitas vezes intransponíveis, quando nos perdemos de nós mesmos passamos a vagar sem rumo. Ajuda amar todas as coisas vivas.  

terça-feira, 25 de março de 2014

ONDE VOCÊ ESTAVA?

É hora de revisitar a História. Começam a abrir a tampa de uma caixa escura e maldita. Onde eu estava no dia do golpe? Eu tinha 13 anos e estava na casa de uma amiga que amava, a Norma, e não entendia nada. Nós duas adorávamos brincar de teatro e estávamos montando uma peça. Voltei para casa, eu acho que logo depois das primeiras notícias, mas lá o ambiente era nervoso. Livros e revistas no quarto dos meus irmão faziam uma pilha imensa e iriam alimentar uma fogueira na casa da nossa maravilhosa babá-que ficou-com-a-gente-para-sempre, na favela onde morava, em nosso bairro, o Grajaú. Quando já tinha 16 anos fui a algumas passeatas, mas tive medo de me envolver, ir a reuniões, mesmo nas passeatas tinha muito medo quando jogavam os cavalos em cima da gente , quando tínhamos que correr como loucos. Muitos amigos eram presos. Eu tinha uma amiga mais velha que amava. Fui visitá-la , ela havia tido um bebê. Ela estava em casa com seu recém-nascido e na véspera seu marido havia sido preso.Nunca mais a vi. Casei no final de 68  e me mudei para Juiz de Fora. Logo engravidei e minha vida passou a girar em torno da gravidez. Claro que eu sabia de muita coisa que se passava, mas acompanhava de longe, como se fosse em outro planeta. O casamento e o nascimento do meu filho me salvaram de qualquer atitude que me comprometesse. O máximo que fiz foi receber por dois anos duas chilenas fugidas da repressão no Chile em 74. Elas ficaram em minha casa por um ano. Eram mãe, filha e neta, mas na verdade a mãe, uma grande escultora foi embora antes para Paris.Quando voltei para o Rio, depois de uns anos morando em Juiz de Fora e Belo Horizonte, procurei meu melhor amigo do tempo em que estudei no Lafayette e ele no Aplicação ao lado.Era meu companheiro de passeatas. Consegui encontrá-lo. Mas ele não era mais ele. Havia sido tão torturado que depois só se drogava. Foi uma das maiores perdas da minha vida. E escapei de irmos juntos porque me casei.

Que bom que tudo isso é passado.Não devemos flertar com nenhum tipo de autoritarismo. São aventuras que ofendem a dignidade humana.

segunda-feira, 24 de março de 2014

PENSAMENTO VERDE

Aprendo num livro de ecologia para crianças que devemos adotar em tempo integral um "pensamento verde". Assim, cada pequeno gesto revelará a nossa preocupação com o planeta e tornará a nossa pegada mais leve. Desde o momento em que acordo e economizo água para escovar os dentes e tomar banho, até a maneira como escolho locomover-me, o melhor seria usar a própria energia do corpo ou bicicleta, mas se vou de carro , o melhor é levar outras pessoas junto e de ônibus é dividir o gasto a energia com outros. O pensamento verde não me deixa usar sacos plásticos, mas sim de pano ou papel ou nenhum saco. O pensamento verde me faz consertar as coisas ao invés de jogá-las fora e comprar novas. E também me faz pensar muitas vezes antes de comprar alguma coisa se não preciso ou se posso comprar de segunda mão.
As escolas deveriam ter uma matéria intitulada "Pensamento Verde" onde se estudasse os animais já extintos, os que ainda podem ser salvos e todos os problemas pertinentes ao nosso tempo. Seria muito muito útil. Não é um pensamento fácil de usar no dia a dia, pois estamos muito mal acostumados, inclusive esta pessoa que está escrevendo agora. Falta muito para eu chegar perto do ideal. 

domingo, 23 de março de 2014

PEQUENA CHUVA

A verdade é que já não aguentava tanto sol. E ontem à noite, aqui na frente do mar, caiu uma chuva fina, mas molhou as plantas. E hoje há uma cara de outono. O céu está nublado e o mar está escuro, cinza chumbo, como gosto.Saquarema, além de toda a seca que assolou o sudeste, é uma região de semiárido, naturalmente já chove muito pouco e o jardim que temos no quintal é um milagre de perseverança. Tudo aqui é hostil ao jardim, o sal, o vento, a secura. Mas conseguimos . É quase um pequeno bosque. E debaixo de um flamboiã imenso que plantamos e que ainda não perdeu as folhas, me sento e sou acolhida.

sábado, 22 de março de 2014

OLAC

Em 1984 fiz duas oficinas de poesia na Olac no Leblon, na Rua Paul Redfern. Não existe mais. A porimeira foi com o Antonio Carlos Sechin, hoje membro da Academia Brasileira de Letras e a outra com a Rita, poeta também, como o Sechin. Eu me sentei muito tímida , no último lugar, insegura e perdida. Era jovem , tinha 33 anos. Como poderia imaginar , naquela época tão difícil para mim, que um dia, bem longe no futuro, meus poemas estariam no coração de milhares de leitores pelo Brasil? A vida é sempre uma caixa de surpresas imensas e nunca planejei nada. As coisas simplesmente aconteceram. A gente faz o melhor possível e se entrega ao vento, ao destino, ao acaso.

sexta-feira, 21 de março de 2014

DIA POR DIA

A vida é dia por dia, hora por hora, sonho por sonho. Numa entrevista para a rádio de Buenos Aires que depois virou livro, Borges diz uma coisa linda: o artista usa a vida como matéria prima. Ela é a substância com que constrói a sua obra, então há que aceitar tudo que a vida nos oferece, tristezas, desastres, alegrias. Neruda também diz num poema que :
Nós, os perecíveis, tocamos metais,
vento, margens do oceano, pedras,
sabendo que continuarão, imóveis ou ardentes,
e eu fui descobrindo, nomeando todas as coisas:
foi meu destino amar e despedir-me.

Porque somos perecíveis e frágeis, nos despedimos. Mas enquanto isso, há que colher a vida com todas as mãos e olhos e boca.

quinta-feira, 20 de março de 2014

FELICIDADE

A mãe da minha nora, Marta, japonesa, me conta que há uma palavra em japonês para algo de bom que você faz por outra pessoa, sem esperar nada em troca. Em hebraico também há, mitzvá, mas a que ela me disse em japonês, eu me esqueci. Isso é algo que deveria nos nortear sempre. A felicidade do outro é como uma onda de água boa que jorra sobre a gente. Às vezes basta um sorriso, um bom-dia, um elogio, a auto estima dos humanos é tão frágil (e dos bichinhos também). Todo o tempo a perdemos e recuperamos. Dependemos do outro sempre. E o que dizer de um abraço, de um toque na pele? É maravilhoso, nos devolve a nós mesmos, fortalecidos. E é tão fácil, tão mais fácil do que acordar de mal com a vida!
Vi uma entrevista com um neurocientista que passou muitos anos no Tibete estudando a felicidade de pessoas tão pobres. A felicidade brota de alguma fonte interna e não necessita de nada externo. Ele dizia, como pode estas pessoas tão pobres serem tão felizes? Pode até ser que do lado de fora as coisas não estejam lá muito bem... Agradecer também gera felicidade. O mundo está tão violento que precisamos nos fortalecer.

quarta-feira, 19 de março de 2014

CAFÉ, PÃO E TEXTO

Ontem, às 8.30h um ônibus escolar parou na minha porta e desceram 25 meninas de camiseta rosa. Maestro Moisés era quem puxava o fio da alegria. Foram direto para o jardim, junto com as coordenadoras das escolas, o músico e João, o namorado do Moisés.Fizeram um arco em volta da goiabeira, onde havia sombra e o músico sentou-se com seu violão na trave da roda de carro de boi que temos no jardim(junto com as rodas, claro, é o seu eixo). O Maestro compôs uma canção lindíssima para a Casa Amarela. Foi absolutamente emocionante. Com todo o calor eu tinha a pele arrepiada de tanta beleza.
Depois as meninas sentaram na grama em cima de colchas e os adultos em bancos e cadeiras. Os cinco jabutis se apaixonaram pelas meninas ou gostaram de ouvir o conto, ficavam andando no meio delas para lá e para cá, principalmente o Godofredo.
Falei um pouco sobre o tempo da ditadura. João contou uma história dessa época, para mim inédita. Ele morava no Sul , numa pequena cidade, com seus pais italianos. Sua mãe não falava português, mas os filhos sim. Só que estava proibido falar na rua qualquer língua estrangeira. Então para ir ao mercado, ela levava um filho e falava no seu ouvido em italiano o que queria e assim podiam comprar. Lembrando que numa cidade pequena não deveria haver supermercado, mas sim uma venda.   Li o conto "Lia", do meu livro Pequenos Contos de Leves Assombros. Quando acabei elas reconstituíram a história e depois entramos mais profundamente no conto. Foi muito bom.
Também preparei uma surpresa para o Maestro. Vanda , minha caseira, fez um imenso bolo de laranja com chocolate e cantamos os parabéns, pois ele havia feito anos poucos dias antes. Fiz pães bem cedinho de manhã, um recheado e outro integral, ´manteiga na mesa, café com leite e suco. Foi uma festa. . Às 11hs o ônibus chegou e se foram todos como uma revoada de pássaros coloridos. Deixaram na casa um rastro luminoso que não se apagará.

terça-feira, 18 de março de 2014

BUAKÊ

Para terminar meu relato sobre a África:

Françoise era a melhor amiga da minha irmã. Era tão delicada que quando estávamos juntas e ela precisava falar com alguém na sua língua, nos pedia licença e depois traduzia.Não sei quantas línguas falam na Costa do Marfim, são muitas.Mas há uma língua comum a todos, a do mercado e se chama djula.
Françoise nos convidou para passar o Natal em Buakê, onde morava seu pai. Fomos de trem .Um trem super lotado, com um calor de uns 60 graus! Muitas linguas, gente que viajava para suas aldeias. Na casa da Françoise não comemoravam o Natal.
Em sua casa tudo acontecia no quintal e seu pai tinha duas mulheres, , muitos filhos, muitos sobrinhos e sobrinhas e ele era o rei. Estalava os dedos e saía um prato de bananas fritas, outro de peixe frito...
 Buakê era uma cidade verdadeiramente africana, não se via brancos. Mulheres costuravam na frente das casas com os seios de fora. As crianças saiam correndo atrás da gente gritando em sua língua (esqueci a palavra, mas poderia ser algo parecido com tubabú): Brancas, brancas! Eu nem me lembrava mais que era branca . Fomos tratadas como rainhas, assim são tratados os visitantes na África. Ganhei um presente lindo do seu pai, um abridor de garrafas de bronze com a cabeça de um homem. Fomos ao mercado e compramos um colar para Françoise. Françoise pechinchava  (é ponto de honra nos mercados). Ela dizia: _ Elas são brancas, mas são minhas irmãs.
Fomos convidadas por uma amiga da Françoise para um café da manhã. A mãe da amiga era tão velha que parecia uma árvore de 100 anos. Com os seios de fora , coberta de colares e de amuletos, nos fazia tantos agrados, nos benzia sorrindo. Ainda posso vê-la 30 anos depois. Evelyn, que já havia avisado que era vegetariana comeu pão com manteiga e café com leite, como eu não havia falado nada , tive que comer um prato fumegante de carneiro com batata às 7 horas da manhã! Não se pode não comer o que é oferecido, é uma grande ofensa. Quando eu dizia para a Evelyn, minha irmã, em português, "não gostei", ela respondia em português, "cala a boca e engole".
Tivemos o privilégio de entrar na África negra, fomos a lugares onde nenhum branco podia colocar os pés.
Fiz muitas viagens na minha vida, nenhuma mais impactante. Levo a África no coração, e tenho tanta dor por todas as guerras, por toda a fome, por toda a pobreza, a doença. Os colonizadores destroçaram a África dividindo o continente de uma maneira artificial. Etnias inimigas tiveram que viver juntas no mesmo país. O mundo deve tudo a África, não deveria abandoná-la..

segunda-feira, 17 de março de 2014

FUTU

Continuando o relato da minha viagem:
Quando o avião pousou depois de passar bem baixinho por uma vasta e densa floresta, quando saí do avião, um soco de ar úmido me nocauteou. Evelyn me esperava radiante. Logo na calçada , antes de tomarmos um táxi, uma mulher vendia banana frita numa grande bacia. Comprei uma porção, seu nome sonoro: alokô. Ela embrulhou num pedaço de jornal e fomos para casa. As mulheres são coloridas, sua vestimenta de 3 peças é maravilhosa: saia, blusa e um pano mágico que elas amarram na cintura, desamarram, amarram de novo, seguram com ele as crianças nas costas, desde recém-nascidos até crianças maiores e não tenho certeza, mas talvez seja o mesmo pano que amarram na cabeça, não sei. Evelyn morava num condomínio aprazível, mas bastava virar uma esquina, se perder um pouquinho e já estávamos no mercado, a maravilha das maravilhas. O mercado é um mundo, uma enorme arca aberta de tesouros. Quilômetros de tecidos no chão, cobres e tapetes, comidas, verduras, peixes secos, frutas, farinhas, etc... Pessoas moram no mercado, dormem à noite nas barracas. E conversam, conversam, conversam...Mulheres sentadas no chão trançam os cabelos umas das outras e colocam apliques.
A uma certa hora descobri o que era futu. Pois se ouvia um barulho grave , pausado e constante: os pilões.
Pilava-se banana da terra ou inhame . Em qualquer lugar da cidade. A pasta , que era o produto no fundo do pilão, se cozinhava e se servia com molho de peixe ou de frango (kedjenú)  . Você podia escolher, futu de banana, meio adocicado, ou de inhame. Era a  comida nacional, como o nosso feijão com arroz. Mas também se comia muito cuscus.
Quando chegamos no apartamento começaram as visitas para me ver. Evelyn era muito querida pois logo se transformou numa africana branca. Vieram muitas crianças e adolescentes. Se sentavam no sofá e ficavam quietas. Não precisavam falar, pois vieram para olhar. Vieram para fazer companhia, eram como os gatinhos. Depois de um certo tempo , riam e iam embora.
Mas Evelyn tinha uma amiga em tudo especial: Françoise.
Continua na quarta-feira

domingo, 16 de março de 2014

VIAGEM PARA ÁFRICA

Agora que vamos discutir os contos da Karen Blixen, a autora da Fazenda Africana , com  adaptação maravilhosa para o cinema (Entre Dois Amores),em nosso Clube de Leitura da Casa Amarela, vou contar um pouco da minha viagem para a África. Se existem vidas passadas fui africana, tamanha a minha identificação .
No começo dos anos 80, minha irmã foi para Abidjan. Um mês depois vendi um cordão de ouro, arrumei um dinheiro emprestado com a minha tia, deixei filhos e marido em casa e lá fui eu via Dakar. Ao chegar ao saguão do aeroporto fiquei estupefata com a beleza das mulheres, seus rostos, seus corpos esguios, suas roupas coloridíssimas. Eu fui acompanhada da mulher de um funcionário da Embaixada do Brasil, ajudei a cuidar dos dois filhos na viagem. Seu marido era amigo do meu cunhado. Em Dakar havia um motorista da Embaixada do Brasil no Senegal nos esperando e enquanto esperávamos a troca do avião que seria muito longa, fomos passear pela cidade.
O avião da Air Afrique era todo remendado. E as pessoas não ficavam sentadas de jeito nenhum, em pé conversando e gesticulando, eu tinha certeza que o avião não iria aguentar. Ao meu lado um senhor bem gordo recusou a comida e me disse, vou comer futu em casa. O que seria futu? Conto amanhã. 

sábado, 15 de março de 2014

CHEGUEI EM SAQUAREMA

Fiquei 15 dias na montanha sem quase saber do mundo. Não queria saber, só queria meditar e contempklar e receber os amigos e beijar os filhos e os netos. Nas vésperas de ir embora, primeiro recebi a ilustradora do Abecedário (Poético) de Frutas, (ed. Rovelle), Cláudia Simões e a Márcia Patrocínio do Centro Cultural Visconde de Mauá para almoçar. Eu ainda não posso cortar legumes com a cirurgia da mão e elas me ajudaram. E no último dia vieram Salvador, meu amigo mais antigo, o que mora muito muito lá em cima, ele cria abelhas e me trouxe de presente um pote de mel, e Evelyn e Luis, irmã e cunhado. Foi maravilhoso. Fiz uma pasta com beringela e não dava para comer só um prato, sou muito gulosa.
Mas ao chegar em Saquarema as notícias entram por todos os poros. Um prefeito que joga lixo na rua, um avião que desaparece no vento, uma quase guerra nuclear.
O planeta não nos suporta mais, nós , os predadores. O planeta está se tornando muito hostil. Professoras e professores, há que trabalhar muito com arte e educação ambiental. Quero que no futuro meus netos possam beber água e respirar. A nossa geração de políticos, em todo o mundo, é insensível.
Mas quero dar uma linda notícia: o mar está de um azul  que dói de tanta beleza, a areia explode de branco, pena que ainda não tenha visto nenhuma baleia.

segunda-feira, 10 de março de 2014

NOITE DE LUA



Fico por aqui na montanha até quinta-feira. Não há nada que recorte o tempo, é um novelo de muitas cores que vai se desenrolando com calma, às vezes chuva, às vezes sol e ontem à noite uma lua já iluminava tudo de prata e ao voltar à noite da casa do meu filho pelo caminho mágico que me leva até a minha casinha, apagava a lanterna e parava para respirar toda a beleza que a noite derramava sobre as árvores.
Fiz um aumento na casinha. Fechei uma varanda e fiz uma sala grande para receber a família. Evelyn, minha irmã, fez uma placa linda de cerâmica dizendo ”Estação Família”. E agora , além do fogão de lenha, tenho uma lareira para os dias frios que virão. Adoro frio. Vou transformando a minha poesia em tijolo e cimento , em tintas e pregos. Transformando palavras e relâmpagos de emoção em casa.  
Ontem terminei um livro novo. Acho que já tenho editora, se ela gostar. Fique muito feliz e muito faminta, como sempre, quando termino um livro.

domingo, 9 de março de 2014

LONGE DE TUDO

Aqui na montanha, longe de tudo, como se tivesse passado por um portal mágico e desembarcado em outra dimensão, tudo fica esmaecido, e só o que importa são as flores, as borboletas imensas , azuis e amarelas. Muito longe fica a quase guerra lá pelos lados da Rússia, muito longe a crise na Venezuela , só o que existe é toda a beleza que me envolve, o livro que leio no momento. Na verdade releio um livro lindo que amo,"El Jinete Polaco" do escritor espanhol Antonio Muñoz Molina,  eu o deixei aqui para ir lendo aos poucos. A história vai do final do século XIX até a morte do Franco e o que a costura são fotografias antigas, um encontro improvável, uma linda história de amor e uma mulher emparedada que quando descoberta estava perfeita em toda a sua beleza. O escritor é muito pouco conhecido no Brasil e um livro seu que é uma maravilha, "Sefarad" está traduzido para o português. Vale a pena.

Ontem me dei de presente um almoço no Babel, restaurante do meu filho. A estradinha de 150m que vai da minha casinha até lá é de conto de fadas. Da minha mesa eu o via cozinhando pelo janelão de vidro. Ele parecia dançar. Isso é o que nós, mães queremos: que nossos filhos dancem com a vida. A comida do André é pura Festa de Babette, um delírio.Na mesa ao meu lado uma "amiga" virtual, que saiu do facebook para almoçar aqui, Sandra Vallim e seu marido, um lindo casal com uma filha bailarina. E passei o resto do dia flutuando.

sábado, 8 de março de 2014

DIA DA MULHER

Datas comemorativas servem para que? Para a gente que é mulher hoje, por exemplo, receber flores ou parabéns? Mulheres são perigosas , diz a Bíblia. Sim, é verdade, somos perigosas porque damos conta da vida. Carregamos a vida dentro da gente , carregamos as crianças, os velhos, somos desde sempre fazedoras de tudo, somos intuitivas, curadoras, sensuais. Os homens tiveram medo. Então nos amordaçaram, acorrentaram, amaldiçoaram, nos encheram de culpas. Mas de uns tempos para cá, um século? rompemos as amarras. Somos perigosas e maravilhosas e enquanto iluminamos o mundo o homem descobriu que pode chorar.
Mas em alguns lugares a mulher continua acorrentada. Choremos por elas.

sexta-feira, 7 de março de 2014

VIAJANDO PARA A ÍNDIA

Ontem, aqui na montanha, choveu muito e o dia esteve escuro. Li um livro sobre as mulheres na Índia, "O Vagão das Mulheres". O livro não é bem escrito, a tradução para o espanhol não é boa, mas a ideia é muito boa. Num trem, num vagão só de mulheres, seis mulheres passam a noite contando as suas vidas. Cada uma daria um romance. São vidas horríveis, de humilhação, subserviência, sonhos mortos, silêncio ou de pobreza extrema. A Índia é um país complexo, mas para além de toda a sua complexidade, a situação da mulher é muito triste e falta muito para que, em qualquer casta, a mulher seja respeitada. Os estupros nos ônibus são a prova disso. Mulher é nada.Muito triste.

Ontem minha irmã e meu cunhado, ambos ceramistas, vieram tomar café da manhã comigo. Eles me contaram que um arquiteto entrou na loja, enlouqueceu com seus pequenos azulejos e levou todos, 70 azulejos. E contou toda a história da sua vida. Evelyn tem este dom: as pessoas chegam perto dela e contam tudo. E eu penso que é uma dádiva ter a irmã, filhos e netos por aqui. 

Daqui do Babel Restaurante, do meu filho, onde há internet sujeita a humores, a vista é esplêndida, temos um parque. Poucos lugares eu conheço com tamanho grau de beleza. Hoje uma amiga do face virá comer no Babel e vamos nos encontrar. Não sei se a conheço no mundo real, esqueci de perguntar, mas hoje vou saber.

quinta-feira, 6 de março de 2014

HOSPITAL EM RESENDE

Segunda-feira passada acordei aqui em Mauá com dor de dente. Ao longo do dia foi piorando. Na terça já estava tão insuportável que desci à noite para Resende, com a cara inchada . Meu filho me levou ao Hospital de Urgências de Resende, onde há um plantão de 24hs para emergências odontológicas. Estava com medo. Chegar num hospital público, de urgências, numa terça de carnaval... mas que nada, para minha surpresa o hospital estava vazio, fui super bem acolhida , era tudo limpíssimo e o dentista espetacular. Dr. Emerson. Se alguém que estiver me lendo conhecer este dentista de Resende, conte a ele da minha gratidão.Ele fez o que tinha que fazer ( havia um nervo necrosado), havia todo o material que precisava disponível. Eu estava com uma infecção, fui medicada, me disse os próximos passos e posso esperar a minha chegada em Saquarema. Já estou sem dor, completamente e o rosto quase voltou ao normal.
Uma saúde pública com esta qualidade é o que todos deveriam encontrar em todos os lugares. Infelizmente é a exceção que confirma a regra: nossos hospitais públicos não são assim.

Hoje chove torrencialmente.As árvores agradecem. Dia maravilhoso para acender o fogo e ler.

domingo, 2 de março de 2014

DOMINGO PÉ DE CACHIMBO

Belíssimo domingo aqui na montanha. Choveu à noite e agora o dia está azul. Neruda disse que sua cor preferida era o azul e a minha também, embora ame especialmente as cores do outono, as cores da terra.
A paineira que plantei na década de 70 está imensa e completamente florida, toda cor de rosa. Uma acácia derrama suas flores amarelas sobre nossos olhos maravilhados. No caminho do restaurante do meu filho até a minha casinha dentro da mata, as árvores me abraçam e um eucalipto gigante perfuma o ar. Ele soltou a sua casca e está de pele nova.
Aqui não chega nenhum eco do carnaval. Apenas o canto dos pássaros, maritacas escandalosas salpicam o ar de verde. Domingo pé de cachimbo. Minha felicidade é total.  

sábado, 1 de março de 2014

PACO DE LUCÍA

André , meu filho, me conta que morreu Paco de Lucía, com apenas 66 anos. Um dos maiores violões flamencos se cala. Há tanta dor em seus acordes...Há tanta paixão. Amo a música flamenca e a sua dança e suas vozes doídas e guturais. Quando era muito jovem ouvi uma "saeta" num disco maravilhoso do Miles Davis e em 1994 , quando fui receber meu prêmio em Sevilha, no dia da chegada, não pude sair com os companheiros de viagem porque minha coluna me impedia. Fiquei no quarto e da janela via telhados e Sevilha tem cheiro de laranja, é perfumada. De repente eu ouvi a "saeta" do disco do Miles Davis, era assim, como eu me lembrava e a emoção quase não me deixava respirar.

sexta-feira, 28 de fevereiro de 2014

EM MAUÁ

Este lugar onde estou é mágico. Quando compramos o sítio em 1975 tudo era pasto , poucas árvores aqui e ali: araucárias, uma grande jabuticabeira, umas quaresmeiras. E só. Plantamos muito nestes quase 40 anos. Mas a verdade é que a floresta se refez. Deixamos a terra em paz e hoje estamos cercados de florestas. Foi morando aqui que publiquei meu primeiro livro.  Sinto que a minha poesia se alimenta destas árvores, deste lugar maravilhoso. E o ciclo se completa. Meu filho André fez aqui seu restaurante, o Babel e Guga teve aqui as suas primeiras aulas de música e nos fins de semana vem para cá. Então tenho os filhos e os netos bem juntinho. Numa mesa bem grande nos reunimos todos. Pão e vinho , comida do fogão de lenha e muito amor. Como agradecer tantas dádivas?

terça-feira, 25 de fevereiro de 2014

DIÁRIO

Quando tinha uns onze anos eu tinha um diário, pois adorava escrever. O diário se perdeu, claro, mas adoraria ler alguma daquelas páginas da minha vida de menina. Escrevia também pequenos contos que lia para minhas amigas no colégio Hebreu Brasileiro onde estudava. Elas me ouviam e gostavam. Todos os contos se perderam, claro. O banheiro era um lugar interessante. Ali falávamos dos meninos e nos tornávamos cúmplices. Algumas mais corajosas matavam aula no banheiro. Fui crescendo e escrevendo. Até que me casei com 17 anos e tive um filho com 18. Então saí da adolescência brutalmente e me perdi de mim e parei de escrever por exatos dez anos.  Foi a escrita que me recosturou. E meus livros me levaram por aí, me fizeram voar.

Amanhã vou para a montanha . Talvez desapareça por uns dias.

segunda-feira, 24 de fevereiro de 2014

VÍDEO DA CASA AMARELA

Lá pelo meio dos anos noventa conheci o Caó na Bahia. Ele me mostrou seus livros, seus desenhos e fizemos uma parceria. Temos vários livros juntos e as crianças realmente amam o seu trabalho. Um dia ele veio aqui em Saquarema me visitar. Estava por aqui perto. Seus desenhos animados ganham muitos prêmios. Tenho vários poemas animados no meu site, feitos pelo Caó. No dia da visita ele ia nos filmando o tempo todo e me disse que ia fazer um filme sobre a gente. Eu não acreditei. Até que ontem ele me enviou o trailer do filme.que está no yutube e no facebook . Fiquei radiante com este presente inesperado, porque o filme é a minha cara! Não é sério, não é certinho, é bem maluquinho, mistura filme com fotos, com desenhos da cena que passou. E ele mostra o esboço da casa amarela até chegar ao seu resultado final. Adoro quando o artista mostra seu processo de criação. Enfim, estou muito feliz. Acho que a minha casa amarela com seus habitantes e visitantes, já virou personagem.
E lembro que nossa casa está aberta para receber escolas. Basta agendar comigo.                     

domingo, 23 de fevereiro de 2014

ALGUÉM PARA CORRER COMIGO




Nosso encontro do Clube de Leitura da Casa Amarela, ontem, dia 22-02-14, foi cheio de alegria e surpresas maravilhosas.  Recebemos gente nova. Jurema e Caroline, professoras, vieram de São Paulo! Viajaram a noite inteira para estar aqui. Fiquei muito emocionada. Vieram também, pela primeira vez, José Prado, editor, Miriam,que também foi minha editora e duas alunas da Estação das Letras. Temos assim, um grupo bem heterogêneo  bem variado: Contadores, advogados, um vereador, professores, uma agente de viagens, uma ex diretora de escola, um arquiteto e escultor. Talvez seja esta diversidade o que torna o grupo tão interessante. As primeiras a falar sobre o livro Alguém para Correr Comigo, do israelense David Grossman, foram Maria Clara e Leila .   Maria Clara disse que de todos os livros lidos no nosso Clube, esse tinha sido o que ela mais gostou. Leila falou que se viu adolescente, com todas as indagações, questões existenciais, oscilações de auto-estima próprias desta época.  E acrescentou que achava que todos sentiram o mesmo. Hector leu algumas frases do livro em hebraico para que todos pudessem ouvir a sonoridade da língua original. Maria Clara ressaltou o tempo da narrativa, super interessante, os personagens estão sempre em tempos desencontrados e seus tempos só se encaixam no final. Várias pessoas leram trechos belíssimos do livro e falaram que é um livro policial, é um livro de amor ,e principalmente de amizade. Amizade da irmã pelo irmão, o que leva a personagem Tamar a viver situações limite, colocando várias vezes sua vida em risco. A cadela Dinka que leva Assaf a conhecer lugares e pessoas estranhas foi para muitos, a personagem principal. Uma trama toda picotada, um verdadeiro quebra cabeça onde pouco a pouco as peças vão se encaixando. Falamos da gruta para onde Tamar leva o irmão como lugar de renascimento. Falamos da capacidade maravilhosa de Tamar para ouvir.Da sua capacidade de ser para cada pessoa o que a pessoa precisava que ela fosse. Todos falaram do ritmo vertiginoso do livro . Todos falaram do começo do livro, confuso e difícil. Felipe falou que o livro é cheio de silêncios. Caroline disse que esperava um final mais mágico, menos real, eu discordei e disse que achava que o final era perfeito. Felipe disse que concordava com ela. E que eu tinha o péssimo hábito de maltratar as pessoas que vinham pela primeira vez. Ele disse que com personagens tão bizarros e situações inusitadas ele também queria um final mágico. Juan disse que a vida sempre supera a ficção e que a história de cada um é sempre extraordinária. Hélio falou que ficou surpreso de que Jerusalém, a mítica cidade , tivesse este submundo apresentado no livro. Juan lembrou que cada cidade tem várias camadas, várias cidades na mesma cidade. César disse que Tamar lhe parecia um espírito muito iluminado. Todos nos apaixonamos pela Freira Theodora.
Enfim, todos amaram o livro. Nossas discussões são feitas com o coração.
  Ângela trouxe para o Samuel, nosso jardineiro e ouvinte assíduo das discussões, de presente de aniversário, já que era seu aniversário, uma camiseta preta com o desenho da casa amarela com o título do clube. A camiseta era tão linda que todos morremos de inveja!
E o almoço foi servido no fogão de lenha, tudo preparado pela Vanda e sua filha Aline: Salada verde, maionese de batata, arroz de forno e abóbora com carne seca. Pães com azeite. Flora trouxe dois pães integrais magníficos Eu fiz um pão branco com a mão esquerda somente. Tudo regado a espumante, vento do mar e alegria. Brindamos ao Samuel, que cuida do nosso jardim desde 2002 e prepara a casa para receber o Clube. Com uma torta maravilhosa cantamos parabéns para ele e nosso próximo encontro será  dia 12 de abril com os livros A Tempestade de Shakespeare e Anedotas do Destino da Karen Blixen.