terça-feira, 24 de maio de 2016

NO ALTO MARINGÁ

Todos os meses, quando venho ficar com a minha família em Visconde de Mauá, durmo um dia na casa da minha irmã ceramista para muito abraços e uma sessão de cinema.
Dividimos a cama, eu, minha irmã, meu cunhado e a Lola, a gata, dois potes gigantes de pipoca. Até a Lola adora pipoca.
Ontem vimos Brooklyn, uma love story bem bonita e Trumann, com o amado Ricardo Darín, um filme absolutamente terrível e maravilhoso. Fiquei tão impactada com o filme que quase não pude dormir, praticamente virei a noite.
Depois do almoço volto para a minha casinha na mata, onde todos os laços com a civilização são precários: o sinal da internet é frágil e o do telefone também. Na minha casa não recebo sinal de nada, se quero ver alguma mensagem tenho que caminhar até o Babel, restaurante do meu filho. O caminho dentro da mata é maravilhoso e me assombro a cada vez. Não tenho sinal de internet mas recebo visitas maravilhosas de guaxos, teiús, tucanos e ontem um temporal com arco íris.
Fico aqui até o dia 30 quando volto para o mar, atravessando não só estradas, mas várias dimensões.


E assim começa o dia:
nas mãos a chuva
se avoluma
enquanto um arco íris
incendeia o coração,
vira o corpo do avesso,
enche de cor as entranhas,
entorna por dentro um novo
caminho.
O vento sussurra
suas frágeis palavras
e é preciso guardá-las
entre os ossos
para que algum dia
virem pássaros.

quinta-feira, 19 de maio de 2016

ENCONTRO E VIAGEM

Ontem recebi a UMEI Jacy Pacheco, uma creche com 270 crianças lá de Niterói: Uma ideia linda: as crianças se misturam nas atividades. Crianças de idades diferentes.
Conversamos muito sobre leitura. Sobre a infância. Li trechos do livro Casa das Estrelas de Javier Naranjo. Li um conto do meu livro Exercícios de Amor.
Foi muito bom. Estou plena. Virei uma casa de estrelas.
E hoje viajo para a montanha. Meu exercício de mensal irar árvore no meio da mata.

segunda-feira, 16 de maio de 2016

VASTAS EMOÇÕES

A semana passada foi de vastas emoções. A inauguração de uma Sala de Leitura com meu nome em Sampaio Correia , na E.M.Clotilde me levou para os anéis de Saturno.
Além da beleza fulgurante da Sala sob a batuta da Professora Rosilea, o conceito é absurdamente belo.
Leitura integrada com as disciplinas, um dia de leitura com as mães, carteira de leitor personalizada para levar os livros para casa, um dia de contação de história, um dia de história da arte com a participação de toda a escola. Na Sala há um cantinho da poesia, um cantinho de histórias e um cantinho adolescente! Tudo com tapetes e almofadas pra gente se esparramar lendo e... transbordar.
Com certeza a Sala de Leitura fará uma diferença muito grande no cotidiano dessa belíssima escola.
E as diretoras me contaram que a partir dessa semana ou da outra, irão substituir a campainha horrorosa de fábrica, para marcar os intervalos, por música! O que mais posso pedir?
Na Sala há uma árvore-estante com meu poema Transformação do livro Fábrica de Poesia. Gosto de partir da ideia da semente, pois tudo começa assim, com um sonho. A Sala foi feita com um grande esforço coletivo pois não havia verba. Mas todos ajudaram, inclusive colocando a mão na massa, pintando e bordando.
Todo o meu agradecimento e toda a minha alegria. E vida longa para a Sala de Leitura que leva o meu nome.

quinta-feira, 12 de maio de 2016

COM AS PROFESSORAS DE ITABORAÍ

Hoje, com um sudoeste querendo entrar, recebi 26 professoras de Itaboraí na minha varanda.
Durante duas horas, depois do café da manhã, falamos de leitura e literatura.
Comecei fazendo com elas uma lista do que na escola se assemelha a um cárcere. Fomos enumerando: grades, portões, filas, uniformes, campainhas estridentes para separar o tempo, carteiras em fila e tudo compartimentado.
E então a literatura é a janela por onde se pode escapar.
Falamos das mudanças possíveis, o que podemos fazer.
Foi muito rico esse encontro. Professoras apaixonadas por leitura e relatos maravilhosos.
Sou a convidada especial da Feira de Livros e já estou sendo lida nas mais de 80 escolas do município.
Depois que elas partiram o Sudoeste entrou e uma poeira de chuva.
Um tempo propício para agarrar um livro

terça-feira, 10 de maio de 2016

CAFÉ, PÃO E TEXTO COM KALU COELHO

Cada encontro do Café, Pão e Texto me diz o caminho. Não tenho nenhum roteiro.
Hoje recebi a Escola Municipalizada Onze de Junho pelas mãos das Professoras Prica Mota, Fabiana, Janaína, Lucine, Aldilea e o Motorista Sérgio.
Um pouco antes do ônibus da escola encostar, a minha convidada especial chegou, Kalu Coelho, trazendo a Diretora de uma escola de Cabo Frio, Eunice e Lilian, professora.  Kalu é musicista e professora de música em Búzios.
O café da manhã já estava na mesa e eles comeram antes da gente começar a conversar, pois estavam com fome, vieram de Itaboraí.
Eu havia acordado às cinco da manhã para preparar tudo.
Logo ganhei um presente da escola: uma caderneta linda, mas a maravilha é que o presente vinha com um texto emocionante escrito por uma aluna, Aldaleia. Ela me diz:
“ Seu poder Sonhador. Com tuas mãos fazes do mundo um melhor lugar.Grande poetisa que descreve tudo com letras.
Você descobriu um mundo encantado. Onde nada faz sentido, porém tudo é belo. Onde cada palavra guarda um profundo significado.
Onde sonhar se torna possível com papel e lápis.
Você Roseana descobriu algo desejado como a alquimia.
Você, minha cara, descobriu como se manter sonhando em um mundo virado ao avesso.”
Kalu fez mísica para um poema do livro Poemas de Céu: Estrela Cadente.
 A sua música , lindíssima, emocionante teve um efeito indescritível em todos nós. As crianças aprenderam e cantaram o refrão.
Fizemos a Orquestra Noturna, do livro Caixinha de Música, mas Kalu, depois do poema, perguntou se eles queriam fazer um temporal e ensinou várias maneiras de bater palmas. De olhos fechados eles fizeram um temporal. Perfeito.
Brincamos com muitos poemas e Kalu explicou para eles o que era música instrumental. Explicou o seu processo de criação, como antes de compor há uma história ou alguém, há um sentimento, há o momento... E todos de olhos fechados, eles ouviram a maravilhosa música Amálgama. No final ela perguntou o que eles pensaram enquanto ouviam a música e Aldalea disse que pensou que essa música talvez tivesse sido feita para alguém, Aldalea havia pensado no pai, pois ontem fora o seu aniversário... Kalu disse que havia incrivelmente feito a música para um amigo que era como um pai, pro grande músico Guinga.
Então falamos sobre a palavra amálgama, essa liga que estava unindo o grupo naquele momento.
Hoje falamos de sentimentos e desejos.
Kalu foi uma grande parceira e estou muito emocionada.  


segunda-feira, 9 de maio de 2016

OGUM E MARIA MOURA

O encontro de sábado do Clube de Leitura da Casa Amarela  foi cheio de ausências e uma presença inesperada.
Dez pessoas faltaram por motivos alegres, trágicos e tristes.
Mas uma pessoa chegou de muito longe e de surpresa.
O Clube é um barco que ondula com gente maravilhosa.
Dr.Messias, meu médico e amigo e irmão há mais de quarenta anos, é um leitor voraz e magnífico e veio do Rio.
Cristiano Mota Mendes, Ronaldo Mota e Ana Amorim, vieram do Rio também. Cristiano é um dos maiores conhecedores de Guimarães Rosa, um leitor absolutamente apaixonado. Seu ofício é ler, embora seja ator e músico. Ronaldo é músico, Ana, bibliotecária e cantora, dona de uma voz lindíssima.
Cris e André vieram de Niterói.. São leitores , Cris é advogada e agora vai dirigir um Clube de Leitura. São novos do grupo.
Delma, professora e orientadora pedagógica veio de São Gonçalo.
Gilcilene, contadora, se descobriu leitora no Clube, e hoje não vive sem ler, trabalha em Saquarema.
César,contador, que tem o coração do tamanho do sol, Bruna, professora em Saquarema, Chico, meu amigo querido, poeta sensível e advogado e vereador , Denise, psicóloga, Adelaide, professora amada pelos adolescentes. Todos vivem aqui.
Começamos com a pergunta instigante de Cristiano para o livro da Rachel de Queiroz:
___ Quem é Maria Moura?
Falamos sobre toda a complexidade desta mulher que se vestia de homem, que atuava como um homem, naquele nordeste tão machista e dos coronéis. Ela era um coronel com seus jagunços.
Mas o que a movia? O que movia seus atos, roubos, assassinatos,? Que mulher era essa?
Esmiuçamos isso, escavamos o seu passado e encontramos tantas contradições em Maria Moura. Ela gostava de dominar. Mas também gostava de ser dominada.
Messias, como médico, disse que era uma perversa.
Adelaide e Gil lembraram que ela agia como homem, mas quando se apaixona, vira uma mulherzinha e desmonta.
Cristiano lembra que o único lugar onde Maria Moura era ela mesma, era no seu cubículo. Ali era o seu lugar de prazer e dor. Ali contava o seu ouro, ali gritava a sua dor.
Eu disse que sinto pouca profundidade nos emaranhados sentimentos de Maria Moura. Há uma barreira que não deixa o leitor mergulhar. Fizemos um paralelo entre Maria Moura e Diadorim e a diferença é gritante. Guimarães Rosa nos deixa penetrar na alma de Diadorim. Cristiano sublinha: é a linguagem de Guimarães que permite isso.
Concordamos que o personagem mais bem resolvido e muito bonito e comovente é o padre.E o casal de saltimbancos também é belíssimo.
O livro, achamos, tem pontos altos e algumas possibilidades que deixaram de ser exploradas.
Mas concordamos também que o romance é muito bem estruturado e que tem um final magnífico, em aberto.
Passamos para o Compadre de Ogum de Jorge Amado. Frisamos que o contraste desses Brasis, a secura do Ceará e a umidade sensual da Bahia, é gritante.
E achamos por unanimidade que é o melhor livro dele! Alegre, brincante, irreverente, engraçadíssimo, delicioso, aborda o sincretismo de uma maneira fantástica. Deveria ser lido por gente de todas as religiões. Sua escrita é bela, poética, deliciosa.
Então alguém disse: _ Tem um moço ali no portão.
Fui ver e achei que estava delirando. Meu amigo, poeta, escritor e psicanalista William Amorim, chegou de surpresa de São Luis do  Maranhão. Perdeu o ônibus no Rio e chegou atrasado.
Então tínhamos quatro maranhenses num grupo de quinze pessoas: ele, Cristiano, Ronaldo e Gilcilene!
Ronaldo e Ana cantaram. Cris e André trouxeram livros para sortear. Chico leu seu novo poema.
O almoço era de comidinha mineira  .
A alegria era um cavalo solto no vento, era Pégaso  galopando no azul.

quarta-feira, 4 de maio de 2016

__ ESTÁ SERVIDA?

Que eu saiba tenho Salas de Leitura em Duque de Caxias, Realengo, Tomé- Açú, São Bernardo do Campo e agora em Saquarema, na minha cidade.
Peço a essas Salas que me lembrem de enviar livros de vez em quando.
Essa semana enviei o Coração à Deriva para Tomé-Açú, Professora Mira Mendes.
E doei muitos para a escola rural E.M.Clotilde.
O caminho até o correio é belíssimo e há uma parada obrigatória para um pingado com vista para a Lagoa.
Na volta para casa, hoje, dois senhores que trabalham na obra do calçadão aqui da orla, estavam sentados no meio fio comendo com a marmita no colo. Era a hora do almoço.
Eu passei e disse:
- Bom Apetite!
E eles responderam com uma frase que veio lá da minha infância:

-Obrigada! Está servida?

terça-feira, 3 de maio de 2016

SONHOS DE CRIANÇA

Lembro dos meus sonhos quando criança.
Meu pai tinha um armarinho mas eu sonhava com uma papelaria.
Também queria que meu pai tivesse uma carrocinha da Kibon, eram amarelas e lindas.
Não sonhava com viagens. Papelaria com livros além de todas as outras maravilhas e picolé.
Eu tinha uma professora que na hora de muito calor, enquanto escrevíamos, chupava um picolé. Eu tinha tanta inveja, mas tanta, que jurei que  quando crescesse iria ser professora. Só para poder tomar sorvete.
E hoje nem gosto de sorvete! Mas continuo amando papelarias e os livros são a minha verdadeira casa e as minhas mais maravilhosas viagens.

segunda-feira, 2 de maio de 2016

A MESA DE TRABALHO

Quando chego da montanha, encontro a minha mesa de trabalho transbordando. Porque na minha casinha não tenho internet e fica tudo para a volta.
Sou minha própria empresa e minha própria secretária sem nenhuma competência para isso.
Só gosto de ler, escrever e cozinhar.
Ofícios e notas fiscais e papéis e papéis , eu me perco nesse oceano, quase surto.
Mas consigo atravessar e chegar ao outro lado mais ou menos salva.
Claro que sempre deixo algo para amanhã.
Mas hoje tive uma ideia para um livro novo. E isso me dá fome.
Desculpem, mas preciso tomar um café.

terça-feira, 26 de abril de 2016

A GAROTA DINAMARQUESA

Ontem vi o filme A Garota Dinamarquesa. Uma obra prima que traz questões muito atuais.
Quanto amor e quanto sofrimento.
Deve ser terrível nascer num corpo errado.
Mas o filme me faz também pensar em como as famílias estão mudando. E não se trata mais em estar de acordo ou não.
Não adianta dizer : Não concordo. Não adianta dizer: Para mim a família é o pai , a mãe e o filho.
Devemos é aceitar que agora, às vezes, a família é diferente, tem outra constelação.
O professor vai ter que lidar com isso na escola. A criança vai ter que lidar com isso junto aos seus amigos.
E tentar se colocar no lugar do outro é sempre uma boa receita para se aceitar algo diferente.
E onde a criança for amada e acolhida, em qualquer núcleo que seja, ela estará salva.

segunda-feira, 25 de abril de 2016

NO ATELIER DE CERÂMICA

Quando venho para Mauá, a cada mês, passo um dia com a minha irmã em seu atelier de cerâmica aqui em Maringá. Somos inseparáveis e quando estou longe nos falamos todos os dias muitas vezes.
Fico aqui no atelier e adoro vê-la trabalhar. Seu ofício é tão diferente do meu, tão duro e tão cansativo e tão lento. Eu preciso apenas de um verso e uma ideia para começar, um pedaço de papel e uma caneta .Mas a cerâmica tem o mistério do fogo e o resultado final é muito emocionante. São muitas etápas, uma queima, esmaltação.  outra queima.
Minha irmã Evelyn Kligerman é uma das grandes ceramistas do Brasil e tenho orgulho dela, da sua tenacidade, do seu talento tão grande.
Tivemos um tio ceramista na Polônia. Ela continuou a linhagem.
E tem mais, à noite vemos dois filmes com pipoca em sua cama.
Hoje vamos ver A Garota Dinamarquesa e A Menina que roubava Livros. A Lola, sua gata, também adora cinema.

quarta-feira, 20 de abril de 2016

LABIRINTITE

Estive três dias fora do ar por uma crise terrível de labirintite. Experimentei a condição de virar zumbi. E o pior:não podia ler.
Mas hoje estou bem melhor e amanhã zarpo de madrugada para a minha casinha dentro da mata.
Preferiria ir de balão ou de unicórnio, mas o importante é chegar.

sexta-feira, 15 de abril de 2016

A TUA PELE E A TUA SOMBRA

Vou escrevendo poemas sem a menor pretensão de publicar. Vou juntando, como a gente juntaria um feixe de trigo, de alfazema, de flores do campo. Quando faço um poema sinto uma alegria diferente como se construísse uma ponte imaginária sobre um rio na beira da floresta.Como os poemas me ajudam a respirar, acho que escrever é uma maneira de não ficar sufocada.

A TUA PELE E A TUA SOMBRA

Para que a poesia venha
e pare na tua porta,
há que deixar a porta
aberta,
há que pescar as estrelas mortas
que se derramam
por sobre os telhados
e as gotas de luz
que habitam os interstícios
da dor.
Há que abrir as tramelas
para que as palavras entrem
e desarrumem
a casa e os pensamentos.
Não se pode tocar nas palavras
com medo ou cerimônia,
e preciso deixar que nos acariciem
ou machuquem
e encontrar a música
para cada objeto,
sentimento ou lugar.
Para que a poesia não faça
cerimônia,
ela tem que ser
a tua pele e a tua sombra.

quinta-feira, 14 de abril de 2016

RIO DAS OSTRAS NA VARANDA

Café, Pão e Texto, uma ideia que deu certo.
Abro a casa para receber escolas públicas e agora professores.
A nossa manhã foi quente e luminosa.
A Secretária de Educação Andrea chegou primeiro, junto com sua principal colaboradora, Lilia, que também é escritora. E me contou:
Em Rio das Ostras há dentro da Secretaria de Educação um Departamento de Leitura e Arte.
Isso faz toda a diferença.
Todos sabemos que uma escola sem literatura e arte não existe, é uma escola morta, um cárcere. E esse Departamento não pode ser extinto pois foi votado pelos vereadores.

Lemos um conto do meu livro Território de Sonhos. Um conto lindo e muita gente se emocionou. Perguntei: Vocês são anjos de quem?
Pois o conto traz essa questão.
Falamos de tudo um pouco. Do que é humano. Falamos de vida e de sonhos. E de resistir.
Ganhei muitos livros e distribui o livro O Amor Possível do meu marido Juan Arias com Saramago.
Algumas professoras são também escritoras.
O afeto era um oceano vivo aqui na varanda.
E a mesa do café estava linda! Com bolos, pão recheado, torta de legumes, beringela italiana...
Agradeço o gesto maravilhoso da Secretaria de Educação, foi o mais lindo presente que recebi, as professoras e um professor. Obrigada.

quarta-feira, 13 de abril de 2016

AS PALAVRAS

Meu ofício é afiar e cortar palavras. O meu destino é a poesia, faça chuva ou sol, tristeza ou felicidade.
Hoje fala por mim o poeta Eugénio Andrade  .

AS PALAVRAS

São como um cristal,
as palavras.
Algumas, um punhal,
um incêndio.
outras,
orvalho apenas.

Secretas, vêm, cheias de memória.
Inseguras navegam:
barcos ou beijos,
as águas estremecem.

Desamparadas, inocentes,
leves.
Tecidas são de luz
e são a noite.
E mesmo pálidas
verdes paraísos lembram ainda.

Quem as escuta? Quem
as recolhe, assim,
cruéis, desfeitas,
nas suas conchas puras?

Eugénio Andrade

terça-feira, 12 de abril de 2016

DENKOV

Minha irmã Evelyn Kligerman me pergunta:
- Como é mesmo o nome da cidade do papai?
Não sei. Mas tenho uma certidão. Vou olhar.
Procuro a certidão e não acho pois tenho o dom de perder todos os papéis, até mesmo os que são muito importantes.
Mas esta certidão está publicada no livro esgotado O Silêncio dos Descobrimentos. Tenho um exemplar.
A certidão me diz que meu pai nasceu em Denkov, na Polônia.
Foi tirada no Consulado ou Embaixada para ser apresentada ao Serviço de Estrangeiros em 1943.
E não sei mais nada.
Simplesmente porque não perguntei.
Sei apenas que chegou ao Brasil com 14 anos. Veio com a minha avó. E eram muito pobres.
Sei que seu pai foi assassinado.
Sei que na Polônia passava frio e fome. Sei que tinha fome de sol, de arte e beleza e que aprendeu a ler e escrever sozinho. Sei que ouvia música clássica e quando criança me levava aos Concertos para a Juventude, no Teatro Municipal.
Sei que me passou os valores que tenho. Sei que mora dentro de mim, e que hoje quer ser escrito. Meu pai, Lejbus Kligerman.

segunda-feira, 11 de abril de 2016

CISNE E PEDRA

A mais instigante pergunta que uma criança me fez um dia:
-- O que existe dentro da cabeça de um poeta?
Poesia. Mas como explicar isso?

Antes, quando minha vida estava toda quebrada, onde só havia dor, a minha poesia era diferente da que faço hoje. Mas era bela.
Em 1990 ganhei um concurso nacional de poesia no sul e o livro foi publicado, Pássaros do Absurdo. Hoje existe apenas em versão digital, mas alguns poemas entraram no livro Poesia Essencial.
Não poderia escrever esses poemas hoje, porque embora eu ainda seja aquela pessoa, sou também outra.

E naquela época, quando a criança ainda não tinha perguntado nada, ela nem era nascida, eu havia respondido da seguinte maneira:

POESIA

Juntar cisne e pedra
caminhar pela existência
com esse talho na gargante

no redemoinho das horas
um barco e nas mãos
um punhado de aurora

um poema se faz
com o avesso das águas

domingo, 10 de abril de 2016

PRAÇA DOS PESCADORES

Saímos para caminhar cedinho, antes das seis.
Um maluquinho passou falando e gesticulando. Mas decidiu parar e pedir um cigarro.
Íamos pela beira da lagoa, um lugar de antigas casinhas de pescadores.
O sol nasceu. Atravessamos a ponte e fomos tomar café na padaria.
A dádiva de um café com leite e pão fresco depois de uma longa caminhada.
Nos sentamos na Praça dos Pescadores de frente para a lagoa com sua capelinha, suas flores, garças, gaivotas,montanhas ao longe. Todos os azuis entraram por dentro do meu corpo e se misturaram com meu sangue bem devagarinho.

quarta-feira, 6 de abril de 2016

CERÂMICA PARA GORIN

Hoje vou ao Rio levar a placa de cerâmica que minha irmã Evelyn Kligerman fez para a Escola que será construída em Gorin. Entregarei a uma pessoa que vai para Paris e de lá Monique Malfatto levará a placa para Burkina Faso.
Minha irmã viveu em Abdjan por quatro anos e sua ligação com a África é profunda. A minha também, pois em nossa linhagem temos a Eunice que foi nossa mãe e nos acolhia em sua cama.A avó da Eunice foi escrava. Sendo assim, fez a placa com muito amor.
Muitas pessoas da minha rede social contribuíram para que a escola fosse construída. Confiaram em mim e nem tenho como agradecer.
Se cada um doasse algo, desse a mão ao outro, tudo seria diferente.

terça-feira, 5 de abril de 2016

SAQUAREMA E BÚZIOS SE ABRAÇAM

O entrelaçamento da E.M. Clotilde de Oliveira Rodrigues e o Coral Encanta Búzios, sob a batuta da Professora Delma Marcelo Dos Santos e do Maestro Moisés Santos, aqui na minha varanda, dentro do Projeto Café, Pão e Texto, foi uma experiência única e maravilhosa.
Preparei todo o café da manhã com as minhas mãos como se fosse a princesa fazendo o bolo no conto da Pele de Asno: com todo o amor.
Primeiro chegou a escola e conversamos sobre a descoberta do Brasil, porque falamos português, sobre a África e a escravidão e a Van de Búzios chegou com o coral.
Fizemos muitas brincadeiras com os poemas. O Coral cantou maravilhosamente para a escola.
Depois lanchamos e quando a escola foi embora o Coral foi para o jardim onde li alguns poemas e conversamos e elas cantaram...e como nos contos de fada fomos felizes para sempre.

domingo, 3 de abril de 2016

CAMINHADA

Faz um ano que operei a coluna e pude recuperar o que havia perdido por mais de vinte anos. É a mais bela experiência. Encontrei dentro de mim uma pessoa que também estava perdida. Eu a trouxe de volta com a sua luz.
Todos os dias caminho. ,Agora posso caminhar! por estas ruas vazias e lindas de dentro do meu bairro aqui em Saquarema. São tantas flores, tantos verdes e azuis, mergulho intensamente dentro de toda a beleza que está ao meu redor.
Penso que poder caminhar é uma dádiva tão grande e ter o olhar afiado para cada pedra e cada flor é uma dádiva tão grande.
Bom domingo para todos.

 .

sexta-feira, 1 de abril de 2016

COM CHEIRO DE MARESIA

Essa casa com cheiro de maresia me reconhece. 
Fala comigo a sua língua de madeira e vento.
Estala como se fosse romper as cordas imaginárias
que a seguram precariamente ao chão. 
Pois a casa quer voar por sobre o oceano,
encontrar uma ilha perdida, 
desdobrar mapas inexistentes.
Essa casa com cheiro de flores e algas
me reconhece quanto volto da mata,
meio humana, meio árvore,
buscando as palavras
escondidas nas conchas.

segunda-feira, 28 de março de 2016

IRARA

Ter uma casinha dentro da mata é uma experiência única. Sei que existem tantas vidas aqui, é todo um universo e sou apenas uma variação.
Faz tempo que uma irara aparece , já a vi muitas vezes. Mas agora, com a goiabeira na porta da casa, pude vê-la com calma e deleite. É grande, do tamanho de uma preguiça ou até maior. Tem um rabo maravilhoso, uma carinha de coala ou de ursinho. Mas é feroz. Ontem ela veio e não me viu, mas hoje me viu e bufou pra mim. Eu não estava tão perto que ela pudesse me alcançar. Estava do outro lado da janela, mas ela se sentiu ameaçada. Espero que volte.
Tenho então três seres maravilhosos e quando dou sorte aparecem: um lagarto teiú, imenso, um esquilo e agora a irara.
Fora os jacus, guaxos, tucanos, dezenas de borboletas brancas e azuis, passarinhos de todas as variedades.
Felizmente as cobras não me visitam , são lindas, mas prefiro que fiquem bem escondidas.

segunda-feira, 21 de março de 2016

ÁRVORES DE PRESENTE

Estou na minha casinha da montanha, profundamente mergulhada no verde e no azul, na chuva e no sol, mergulhada no bosque. Amo esse lugar.  
Meu filho mora aqui, com minha nora e minha neta de dois anos e quatro meses.
Hoje minha nora me conta:
Todos os dias, ao acordar, Gabi olha pela janela e dá uma árvore de presente para cada pessoa da família. Ela olha a árvore e diz: essa árvore é de presente pra mamãe, essa é pro papai... e vai assinalando as árvores com o seu olhar.

quinta-feira, 17 de março de 2016

PARTIDA

Amanhã parto bem cedo para a montanha. Muita saudade dos filhos e dos netos. Muita saudade da mata, do fogo, do frio.
Dou notícias.

quarta-feira, 16 de março de 2016

GRITO E SILÊNCIO

Ferreira Gullar é meu poeta mais do que amado. Sem saber, com o seu Poema Sujo, ele me deu licença para escrever poesia.
Peço então licença poética para dizer o que vou dizer: temos dois poemas que se complementam. O dele está no livro Muitas Vozes. O meu está no livro Poesia Essencial. Quando escrevi meu poema, não conhecia o seu, escrevi muito antes que saísse o livro Muitas Vozes.

INFINITO SILÊNCIO

houve
   (há)
um enorme silêncio
anterior ao nascimento das estrelas

   antes da luz

   a matéria da matéria

de onde tudo vem incessante e onde
     tudo se apaga
     eternamente

esse silêncio
     grita sob nossa vida
     e de ponta a ponta
     a atravessa
                      estridente

Ferreira Gullar, in Muitas Vozes


GRITO

a única certeza que me cabe
quando olho minhas mãos
que envelhecem comigo
embora às vezes pareçam
tão separadas do corpo
pássaros que tivessem perdido
todo o resto do bando
a única certeza é de que o grito
que nasce com cada um
o primeiro grito
tem que ser ouvido
com seu timbre ainda impregnado
de infinito e dores ancestrais
e esse grito se espalha
em tudo que se faz

in Poesia Essencial

terça-feira, 15 de março de 2016

VARANDA VAZIA

Hoje eu receberia o Colégio Estadual Ducler Laureano Matos, pelas mãos da Professora Monica Pimentel, para um encontro aqui em casa, dentro do meu Projeto Café, Pão e Texto.
Os professores, com toda a razão, estão em greve. Com a greve, todos saem perdendo, alunos e professores, que terão que repor as aulas. Toda a minha solidariedade aos professores, que deveriam ter um salário digno e condições de trabalho e aos alunos. E estou bastante triste com a varanda vazia.

segunda-feira, 14 de março de 2016

VANDA E SAMUEL

Vou contar a história da Vanda e do Samuel. Para mostrar que posso ter uma grande consciência social e não concordar com o governo sem que por isso mereça adjetivos terríveis.
Vanda e Samuel vieram de Minas.
Quando estávamos construindo a nossa casa, Samuel era ajudante do pedreiro, ele misturava cimento. Juan vinha ver a obra todos os dias e num destes dias, viu que Samuel havia cercado a única planta, uma alamanda amarela, que havia no terreno, para que ela não fosse destruída.
Juan chegou em nossa casa provisória e me disse:
_ Encontrei o nosso caseiro.
Assim que a obra ficou pronta, Samuel veio trabalhar aqui de jardineiro. Não havia nenhuma planta, só o pé de alamanda. Hoje temos o mais lindo jardim.
Vanda, sua mulher estava muito doente. Eles não tinham casa, pagavam aluguel num casebre onde dormiam cinco pessoas.
Conseguimos uma internação no Pedro Ernesto.Fizemos toda a papelada e o seu caso era tão grave que ela foi operada em emrgência.
Compramos uma casa para eles na zona rural de Saquarema e a financiamos sem juros em alguns anos. Eles já acabaram de pagar , a casa é linda, com jardim, um varandão com fogão de lenha .
Pagamos um seguro de saúde para Vanda e ela trabalha meio expediente ganhando um salário integral. Eu já pagava seu FGTS muito antes de virar lei. Pagamos o seguro de saúde da sua filha que também tem um problema crônico de saúde; Pagamos um curso profissionalizante no Senac de cabeleireiro para sua filha que se formará em abril. Ela já havia feito cursos de manicure, maquilagem, etc. Pagamos a melhor escola particular para o neto da Vanda, pois queremos que esteja em pé de igualdade com o meu neto. Dou aula de leitura para a Vanda.
Samuel e Vanda comem com a gente na mesa e são nossos amigos. Participam das nossas vidas como nós participamos da vida deles. Quando chegam aqui pela manhã, encontram a mesa do café posta para eles.
Participam de todos os meus eventos de leitura, que faço gratuitamente, nunca pedi ajuda financeira para ninguém.
A minha imensa consciência social já nasceu comigo. Mesmo quando não podia eu dividia o que tinha. Já adotei muita gente pagando cursos de música, de inglês, etc.
Conto tudo isso para dizer que não concordo com esse governo. Aplaudo tudo o que foi feito de bom mas a corrupção não tem desculpa.
Os ganhos sociais não podem ser desfeitos, como não foram desfeitos na Espanha, quando o PSOE saiu do poder. A Espanha não perdeu seus direitos quando o PP (que eu detesto) assumiu o poder. Ainda bem que a filha da Vanda terá o seu Salão de Beleza e não precisará fazer faxina pelo resto da vida. A leitura está dando tanta dignidade para a Vanda, ela é outra pessoa. Ainda bem que a nova geração está podendo seguir novos sonhos. Mas ainda acho que tanto tem que ser feito pela educação e pelos professores. Não estou satisfeita com nada do que vejo. Falta muito.
Infelizmente não temos ninguém que pudesse assumir o Brasil, mas não por isso corruptos precisam continuar no poder. Corruptos precisam pagar pelo mal que fizeram.
Sou contra o governo e não tenho partido. Mas não concordo com o que vejo.

sexta-feira, 11 de março de 2016

CARAVANA

Faz muito tempo fiz um livro com Roger Mello que se chama Desertos. Foi publicado pela Objetiva, mas está esgotado. Em algum momento, não sei quando, sonho em publicar outra vez este livro tão belo.
Roger havia feito uma viagem ao Marrocos e levou um caderno para desenhar na viagem. Ele me mostrou o caderno e num gesto de extrema confiança deixou o caderno original em minhas mãos. Fiz um poema para cada desenho.
Eu não conheço o deserto, mas quando criança lia na escola as histórias da Bíblia, onde o deserto é paisagem  assídua. Também as Mil e Uma Noites com suas caravanas. Busquei dentro de mim o eco dessas lembranças ao olhar os desenhos do Roger e os poemas foram chegando.
Esse livro faz um contraponto com o livro Jardins tão colorido e exuberante e acho que os dois deveriam estar sempre juntos. Há um silêncio maravilhoso no livro. O que eu imagino ser o silêncio do deserto.
O meu livro Poesia Essencial da Ed. Manati, abre com o deserto. Eu adoro esse poema:

CARAVANA

no meio do deserto
os homens arrumam
a noite
para que a caravana
pouse
o céu é de zuarte
e o silêncio anda
em círculos
feito lobo

alguns mastigam
sonhos
enquanto o sono
costura as pálpebras
com o fio do não tempo

essa é a pausa
entre um século
e outro
entre um delírio
e outro

em algum lugar
dorme um poço
com seus anjos
e demônios.


quinta-feira, 10 de março de 2016

REGINA RENNÓ

Regina Rennó é uma grande ilustradora. Fez apenas um livro comigo e eu amei.
Ilustrou o livro Fio de Lua&Raio de Sol que fiz com Patricia de Arias.
Viajamos juntas uma vez e foi uma delícia ter a sua companhia.
Descobri já faz tempo que todas as pessoas fazem algo surpreendente. Regina, além das ilustrações tão lindas, desenha óculos. Olha para o rosto da pessoa e desenha o seu modelo perfeito!
Agora temos a Mantiqueira em comum. Quando vou para a minha casinha da montanha sei que ela está no mesmo planeta que eu.
Regina acaba de finalizar um livro lindo de imagens e me perguntou se eu achava que caberia algum poema. Eu achava que cabia apenas um, falando do desfecho. Fiz o poema e dei de presente.
Regina ficou feliz, eu fiquei feliz e os leitores vão amar quando o livro sair.
Agora estamos juntas outra vez .

terça-feira, 8 de março de 2016

DIA DA MULHER

Hoje é o Dia da Mulher.
Temos que pensar nas mulheres que ainda vivem em cativeiro, físico e psicológico.
Nas mulheres que sozinhas enfrentam o mundo.
Nas mulheres que sozinhas sustentam a sua família.
Nas mulheres que ainda lutam contra moinhos de vento.
Todo dia é Dia da Mulher, subjugada por milênios.

TAITI

Adoro os documentários da TV5. Ontem vi um maravilhoso sobre o Taiti e o esforço de algumas pessoas para salvar um pequeno pássaro negro que vive em altitudes. Estava praticamente extinto e começam a recuperar a sua vida na Terra.
Os europeus quando chegaram ao Taiti traziam uma espécie de planta que se espalhou rapidamente por todos os lugares. Ela ameaça a floresta, é invasora e mata as outras espécies, ficando assim o pequeno pássaro sem a sua alimentação. A planta também ajuda na proliferação de ratos, predadores dos pássaros.
O trabalho dessas pessoas é cortar o arbusto e colocar veneno para os ratos. Para chegar até o local distante, o caminho é quase intransponível . Cheio de armadilhas mortais.
Mas o que move essas pessoas para salvar uma espécie da extinção é um amor tão imenso que enfrentam todos os riscos.
É uma magnífica lição de vida.

domingo, 6 de março de 2016

TECELÃS DE SONHOS

Recebo uma carta emocionante da Espanha, dos arredores de Granada. Minha sobrinha Maria José Sanchez criou um grupo de mulheres que tecem.
As Tecelãs de Sonhos/Tejedoras de Sueños.
São mulheres simples, do povo. Elas tecem em lugares públicos e contam suas vidas, suas tristezas, doenças, silêncios, alegrias. Eram mulheres massacradas, tinham tudo bem guardado lá dentro. Massacradas por seus homens, pela dureza da vida.  E então, tecendo, exercendo esse ofício milenar, puderam voltar a sonhar.
O movimento foi crescendo tanto, já que como elas tecem em público, chamam a atenção, que os sonhos foram se ampliando. Agora fazem troca de livros, ajudam escolas e até mulheres presas.
Virou um movimento social. Que inspire outros movimentos assim poéticos e maravilhosos.
Cabe aqui o meu poema :

Oração:

A todos os ventos
eu peço coragem
a cada estrela e estrada
ao mar que não morre nunca
eu peço coragem
e ao sol e à lua
e a todo o firmamento
a cada pássaro
a cada pedra
a cada bicho da terra e do ar.
Peço coragem a tudo o que vive agora
e ainda viverá
coragem para cavalgar os dias
navegar nas horas
e a cada minuto e segundo sonhar.

sexta-feira, 4 de março de 2016

DESCOBERTAS

Vamos então falar de poesia, hoje, muito necessária, com todos os ânimos e humores exaltados. Que cada um prove a sua inocência nesse oceano de lama. Basta isso. Provar a inocência.

Todos sabemos, que tudo já foi escrito, não há nada de novo. O que muda é o olhar do poeta, seu jeito de respirar, de ver o mundo, de se emocionar com o mundo.
Para mim um poema vale quando me dá um choque, essa é a minha medida, um curto circuito de emoção. Experiências formais nunca me emocionaram.Quanto mais inesperada é uma imagem, maior a emoção. A poesia é um grande mistério, pois é música sem ser música.
Um dos poetas que me acompanham desde os 20 anos é Neruda, que descobri através de uma chilena que hospedei, pois chegou ao Brasil fugida do golpe no Chile. Ela me apresentou os 20 Poemas de Amor e Uma Canção Desesperada em espanhol, língua que falo e amo .(Segundo meu neto espanhol eu falo mal, ele detesta o meu acento!)
De Neruda só não gosto dos poemas políticos, daqueles que estão servindo a uma ideologia. Os de amor são insuperáveis.

ARTES POÉTICAS (II)

No he descubierto nada yo,
ya todo estaba descubierto
cuando pasé por este mundo.
Si regreso por estos lados
les pido a los descobridores
que me guarden alguna cosa,
un volcán que no tenga nombre,
un madrigal desconocido,
la raíz de um rio secreto.

Fui siempre tan aventurero
que nunca tuve una aventura
y las cosas que descubrí
estaban dentro de mí mismo,
de tal modo que defraudé
a Juan, a Pedro y a María,
porque por más que me esforcé
no pude salir de mi casa.

Contemplé con envidia intensa
la inseminación incesante,
el ciclo de los sateloides,
la añadidura de esqueletos,
y en la pintura vi pasar
tantas maneras fascinantes
que apenas me puse a la moda
ya aquella moda no existía.

( Isla Negra, 1969) Fin de Mundo.

Maneira linda de Neruda dizer que está tudo dentro da gente e que às vezes modismos frívolos são passageiros e nada como a raíz de um rio secreto.


quinta-feira, 3 de março de 2016

CASULO

Tudo o que está acontecendo no Brasil e no mundo nos deixa tristes e desanimados.
Depois da barbárie da Segunda Guerra no século passado, não era para o mundo ser um lugar menos violento?
Basta saber que o Homo Sapiens, desde que existe, já dizimou 90% das espécies! E a velocidade com que a destruição avança é absurda.
Talvez tivesse que nascer uma outra espécie.
E muitas perguntas ficam sem resposta.
Por que algumas pessoas se deleitam com o mal, sentem prazer em matar, ferir, magoar? Por que alguns se sentem superiores, quando não existem raças, mas apenas uma, a raça humana, de triste figura?
Então para sobreviver, construo um casulo feito de livros e beleza. Feito de silêncio e de amigos.
Pois esse é o tempo que me coube viver e só o que sei fazer é doar amor e rabiscar alguns poemas. Essas são as minhas ferramentas.

terça-feira, 1 de março de 2016

CONFESSO QUE VIVI

Ando numa fase de releituras. Como é maravilhoso reler. A leitora da primeira leitura é tão diferente da segunda, tantas coisas aconteceram no intervalo entre uma leitura e outra e como vou me tornando com o tempo uma leitora melhor.
Estou terminando de reler um livro maravilhoso, pela terceira vez. Sem discussão essa está sendo a melhor leitura.
O livro é Sefarad, de um dos maiores escritores espanhóis que quase ninguém conhece no Brasil, por quem sou apaixonada: Antonio Muñoz Molina. Li muitos livros seus. Está publicado em português pela Companhia das Letras. São relatos que se passam em épocas distintas, sempre na fronteira de alguma coisa, já que Sefarad é o país perdido (Espanha) pelos judeus. Então Sefarad, além de um país, é também uma metáfora.
Mas hoje me deu saudades imensas do livro Confesso que Vivi, do Neruda. Vou ter que reler.São também relatos autobiográficos. Num deles, a minha paixão, Neruda se perde nas montanhas.Mas encontra uma casa e pede abrigo. É a casa de três irmãs francesas. Quando diz que é estudante, elas o recebem com uma grande alegria. É servido um jantar que é um banquete. Ele recita Beaudelaire e as irmãs recebem o poema como a joia mais preciosa. E contam que ao longo dos anos, para cada visitante perdido, prepararam um suntuoso jantar, sem nunca repetir um prato.
Que a alegria em torno de um poema que nos acende e nos traz de volta algum momento mágico, possa sempre existir em nossas vidas.
    

segunda-feira, 29 de fevereiro de 2016

CHUVA

Depois de tantos dias de calor extremo e tanta seca no jardim, a chuva, linda, benfazeja, que água boa.
Quase posso ouvir, além da música da chuva que amo, o sussurro verde das plantas de pura alegria. .Olho o jardim em sua plenitude. Fecho os olhos para ouvir melhor, para que a chuva me diga seus versos.

domingo, 28 de fevereiro de 2016

COM GINZBURG E CALVINO

Ontem me dei conta de que nosso Clube de Leitura da Casa Amarela já tem seis anos. Sei porque meu grande e amado amigo Latuf, que foi embora para Pasárgada em 2010, estava vivo quando fizemos nosso primeiro encontro.
Acho que agora não há mais perigo do Clube se desmanchar no ar, sempre tive esse medo.
Desde criança achava que ninguém viria nos meus aniversários e que claro, iriam se esquecer de mim.
Mas os laços que a literatura cria entre as pessoas são impressionantes. E cada vez mais gente quer vir ao nosso encontro.
Ontem recebemos cinco pessoas novas. A casa estava lotada. E me trouxeram muitos presentes! Tortas, vinho, geleias, licores.
O livro As Pequenas Virtudes, que chegou nas minhas mãos inesperadamente numa tarde em Salvador, pelas mãos da minha amiga Verbena, deixou todo mundo emocionado, extasiado.
São crônicas. O livro se divide em duas partes. A primeira, bastante autobiográfica, a segunda, como sublinhou Maria Clara, mais ensaística.
Fomos passando crônica por crônica. Falamos do exílio e da memória. Da escrita maravilhosa da Natália. Máximo Tarantini, italiano, nos falou das distâncias naquela época. Então, quando a família estava exilada em Abruzzo, escondida, durante a guerra, além da sensação de exílio, pois haviam abandonado a própria casa, os amigos, a família, tudo o que amavam, havia a dificuldade de se chegar até lá. Não é como hoje, diz Maximo, quando se vai de Roma a Abruzzo em quarenta minutos.
Rafael falou de Proust para falar da memória.
Cristiano lembrou que a cantiga infantil que Natália ouvia em Abruzzo era um prenúncio da morte do seu marido, como se anunciasse o seu assassinato.
Cada crônica dessa primeira parte, onde ela fala da sua vida, tem a sua cor. Uma nostalgia que é como um vento triste, às vezes muito humor, como quando ela fala da sua estadia na Inglaterra, ou da sua relação com o segundo marido.
Em outra crônica Natália conta a amizade com Cesare Pavese, autor premiadíssimo. É o mais belo tratado sobre a amizade: ela não esconde nada do gênio dificílimo do amigo, das suas manias e esquisitices, mas com suas palavras ela vai untando o amigo com uma camada espessa de amor, quase um unguento. Até o desfecho , o seu suicídio, pensado e preparado, num mês quente de agosto, num hotel em Turim, a sua cidade natal. Li um poema belíssimo do Pavese.
Máximo nos lembrou que o suicídio naquela época era uma filosofia de vida. Cesare dizia que a única liberdade que o homem tinha era a de escolher o momento de sair da vida. Lembramos que anos mais tarde Primo Levi também se matou.
Na crônica sapatos rotos falamos da liberdade . Da importância de ter uma infância sólida, com sapatos fortes, para que no futuro se possa fazer belas escolhas, inclusive a de andar com sapatos rotos, uma metáfora maravilhosa.
Gilcilene nos disse que As Pequenas Virtudes, crônica maravilhosa sobre as Pequenas e Grandes Virtudes, trouxe de volta seu pai, pela relação desprendida que ele tinha com o dinheiro. Falamos um pouco sobre o significado do dinheiro.
Denise e Chico disseram que a crônica fez com que repensassem muitas atitudes com os filhos.
A paixão de todos foi a crônica Meu Ofício, que no caso de Natália era a escrita, mas suas considerações valem para qualquer ofício.
Em nosso Clube temos contadores, advogados, professores, um médico, Dr. Messias, comerciantes,poetas e cada um se viu nesta crônica,
Todos sublinharam como Natália trabalha o tempo todo com luz e sombra,
Messias disse que ela traz para a sua escrita todas as nuances do ser humano, todas as suas faces.
Ao passar para Calvino, Marcovaldo, Cristiano disse que nem parecia o mesmo escritor das Cidades Invisíveis (que já lemos no clube).Mas a sua escrita maravilhosa é sempre a mesma.
Propus que cada um falasse o que quisesse sobre qualquer episódio.
E que maravilha de considerações. Cristiano definiu Marcovaldo: uma mistura de Chaplin com D.Quixote. Ou foi Maria Clara, não tenho certeza..
Íamos nos lembrando e rindo e amando relembrar.
Máximo disse algo muito interessante. Depois da Guerra a Itália se uniu e perdoou. Todos se perdoaram querendo olhar para o futuro.
Marcovaldo fazia parte deste momento.
Falamos da sua busca pela beleza, pela natureza, quando a Itália deixava de ser agrária para ser industrial.
Acho que  Marcovaldo, apesar da sua condição de extrema pobreza, da consciência que tinha dessa  pobreza, da sua vida miserável, não desistia de tentar viver poeticamente: aí reside a sua maravilha. O seu olhar buscava os caminhos para chegar até o fio que divide a dureza da vida, da experiência poética.
Alguns leram poemas da Emily Dickinson.
Ronaldo e Ana cantaram: alimento.antes do almoço.
Fiz tabule, um arroz cremoso com frango desfiado e um arroz bem mediterrâneo com atum.
Cantamos parabéns para os aniversariantes, Samuel, nosso caseiro, Angela e Fernando.
Vinho branco e vinho tinto. Meus pães.
Cada um ganhou um livro do Juan autografado, O Amor Impossível, longa entrevista com Saramago.
O livro é maravilhoso e está saindo do catálogo da Manati. Se alguém tiver interesse pode encomendar na editora.
Angela trouxe livros para sortear e Máximo também.
Nosso próximo encontro será dia 7 de maio. Os livros:
O Memorial de Maria Moura de Raquel de Queiróz e O Compadre de Ogum de Jorge Amado.
Poemas do Quintana.


sexta-feira, 26 de fevereiro de 2016

ENCONTRO MÁGICO

Amanhã é o dia do nosso encontro mágico do Clube de Leitura da Casa Amarela.
Na verdade é uma grande celebração. Da literatura, da vida, da amizade. Já somos um clã. Nossa caverna é feita de livros!!!
Lemos Marcovaldo, do Italo Calvino, que li umas cinco vezes e As Pequenas Virtudes, da Natália Ginsburg. Pedi um poema da Emily Dickinson, para saciar a paixão desastrada pela natureza que tem Marcovaldo.
Calvino e Ginsburg fizeram parte de um mesmo grupo, combateram o fascismo, passaram pela guerra.
Os dois livros são magníficos , sendo que As Pequenas Virtudes, que li três vezes, tem uma capacidade de me emocionar que passa dos limites.
Podemos entrelaçá-los.
O Clube é um dos sonhos mais bem realizados da minha vida. Preparo a festa em cada detalhe. Mesmo quando estive doente, operada, o Clube nunca deixou de acontecer.
Algumas coisas que fazemos, pequenas, justificam a nossa vida e esta é uma delas.
Muita gente vem do Rio só para estar aqui e viver algumas horas plenas de poesia.

quinta-feira, 25 de fevereiro de 2016

NOVOS POEMAS

É muito bom deixar um trabalho descansando por um tempo. Para que a gente se afaste dele e possa ter o distanciamento necessário para fazer o que tiver que ser feito.
Eu havia começado uma coletânea. Já tinha 14 poemas. Em cima de uma ideia. Mas , outras ideias vieram e passaram na frente. Guardei o trabalho. E um tempo longo escorreu até que eu me lembrasse dele outra vez. Um ano ou dois, não sou boa para contar o tempo, não sei.
E agora eu trouxe o trabalho de volta, como um belo cavalo marinho, uma flor, um bordado.
Retomo o fio da meada e estou feliz novamente trabalhando na minha oficina de poesia.

quarta-feira, 24 de fevereiro de 2016

LIVROS NA VENDA DO ITAMAR

Quando estou na montanha, se falta alguma coisa para cozinhar, pego emprestado no Babel, restaurante do meu filho. Mas se não tem no Babel o que desejo, há que descer dois quilômetros até a venda mais próxima, que é um supermercado bem pequeno com cara de venda. Não tem nome. É o Itamar. A gente diz, vou no Itamar, ou pega lá no Itamar e anota..
Itamar é o dono e ainda tem aquele sistema de conta no caderninho.
No Itamar tem tudo! e até uma casinha-estante de madeira para livros na varanda. Pois, claro,, no Itamar tem uma varandinha,
A casinha se chama Livro-Livre e qualquer um pode levar um livro, Pode devolver ou passar o livro adiante, Pode colocar um livro que não quer mais. Pode ficar com o livro para sempre.
O Itamar é bem ali, no meio do Vale do Pavão, numa subida.

sábado, 20 de fevereiro de 2016

ITÁLIA DE LUTO

O último trem quando parte nos deixa órfãos para sempre.
Umberto Eco se foi. É uma geração inteira que está indo embora. Porque somos provisórios, somos mortais , somos tão frágeis e nosso tempo aqui na Terra é tão irrisório.
Umberto Eco era um assombro de talento, lucidez, inteligência, humor . Ele era imenso e foi embora.

sexta-feira, 19 de fevereiro de 2016

VOLTA PARA CASA

Volto do mato e as más notícias me invadem.
No mato elas perdem a sua força, chegam abafadas como um eco longínquo.
O Brasil inventou a máquina do tempo.
retrocedemos tanto que estamos quase no século XVIII.
Deixo bem clara a minha posição:
Nenhum, absolutamente nenhum político para mim é sagrado. Qualquer político, de qualquer partido ou ideologia, que se aproprie do dinheiro público, nosso dinheiro, deve ir para a cadeia.E trabalhar lá dentro para pagar a sua comida. E deve devolver o dinheiro roubado.
Nenhum político que faz uso do dinheiro público para sua vida pessoal ou campanha, merece respeito.

sexta-feira, 12 de fevereiro de 2016

DUAS VIDAS

Como já contei aqui, tenho duas casas e duas vidas.
Aqui na montanha tenho a família: filhos, netos, irmã, noras e cunhado.
No mar tenho marido, gatas, projetos de leitura.
Nos dois lugares tenho amigos maravilhosos.
Nas duas casas vivo profundamente dentro da natureza, pois só sei viver assim.
Sempre que venho para a montanha as pessoas me desejam bom descanso.
Mas não venho para cá para descansar, simplesmente continuo fazendo o que faço sempre: estar com quem amo, ler, escrever, cozinhar, contemplar, sonhar.
São duas vidas diferentes. Mas nos dois lugares estou inteira, com todas as mulheres que sou bem amarradas num feixe de poesia.
 

quinta-feira, 4 de fevereiro de 2016

VIAGEM

Estou indo hoje para a montanha.

DE LONGE

De longe a pequena casa
me chama,
posso imaginá-la, tijolo
por tijolo,
névoa por névoa,
equilibrada
em meus pensamentos,
ou dentro dos bolsos,
quando busco moedas.

A todo momento
esbarro em seu telhado,
em suas paredes e janelas
que vieram de um tempo antigo.

Estou longe e ela me chama
com a voz da montanha
e com paciência espero a hora
de abri-la
como se abriria uma noz
que guardasse alguns milagres.

In Diário da Montanha, ed. Manati

quarta-feira, 3 de fevereiro de 2016

COZINHANDO

Outro dia um amigo italiano que cozinha muito bem, veio até a nossa casa só para nos preparar um jantar. Trouxe tudo, suas panelas e ingredientes, já que só com suas panelas sabe cozinhar. Nos preparou pratos do sul da Itália. Mas a coisa mais linda foi o que nos disse:
____ Só cozinho para quem gosto . Para quem não gosto não cozinho de jeito nenhum.
Eu adorei isso. Porque é maravilhoso cozinhar para quem se gosta, para os amigos. Cozinhar é um ato de felicidade e comunhão.
Livros maravilhosos e comida, um bom vinho, eis a receita do sucesso do nosso Clube de Leitura da Casa Amarela.

terça-feira, 2 de fevereiro de 2016

IEMANJÁ

É muito antigo o mito de uma deusa do mar, o mito das sereias, de uma rainha do mar. A beleza dos mitos que atravessam milênios nos fazem bem.
Um dia, faz muito tempo, fui com Juan Arias fazer uma reportagem para a revista do El País em Salvador, sobre a festa de Iemanjá. Ficamos hospedados no Rio Vermelho e cedinho já estávamos na fila com nossas flores. Era emocionante ver todas as pessoas de branco carregando braçadas de flores e os barcos que iam ficando abarrotados de flores. Era um povo misturado, lindo de ver, gente de todas as cores e de todas as classes sociais. Naquela época, parece, havia menos intolerância com as religiões de origem africana e provavelmente muita gente na fila carregando suas flores nem pertencia ao candomblé ou umbanda, provavelmente havia ali gente de muitas religiões diferentes para homenagear Iemanjá. Havia respeito, emoção, devoção e certamente sonhos e desejos amarrando as flores. Porque são as emoções e sonhos e desejos que empurram nosso barco da vida para longe. Com as bênçãos do vento e de Iemanjá e de tudo que exala beleza.

segunda-feira, 1 de fevereiro de 2016

GOSTO NÃO SE DISCUTE

Saquarema, onde vivo, em seu cotidiano, parece uma ilha deserta. É tudo o que amo. Silêncio. As coisas acontecem num tempo antigo, com calma. Vivo imersa no som domar, como se morasse dentro de uma concha.
Mas nos feriados tudo se transforma . Há muita gente, vizinhos que deixam o som altíssimo dia e noite, mercados superlotados e até o sol fica mais quente. É outra cidade. Dá vontade de fugir. E fujo mesmo.
Não consigo, nunca pude, participar da alegria do carnaval. Cada um tem a sua natureza e simplesmente sou incapaz. Então eu fujo e me escondo.
Lá na minha casinha dentro da mata na Mantiqueira, só o som do riacho que corre , invisível, ao lado. Só o som dos pássaros, grilos, sapos, corujas, jacus. Só a conversinha das árvores com o vento. E a música da chuva e a música que quero ouvir e às vezes o crepitar do fogo.
Mas gosto não se discute e para milhões de pessoas a maravilha é o que vem por aí, dias e dias de alegria coletiva.
Quando todos vão embora da nossa cidade, deixam toneladas de lixo. E a cidade leva um tempo para se recuperar da invasão. Quando nós humanos aprenderemos a delicadeza?

quinta-feira, 28 de janeiro de 2016

ESTANTE DE LIVROS

Outro dia conversava com um amigo: para algumas coisas sou muito disciplinada e para outras completamente caótica.
Para arrumar livros e papéis não tenho nenhum talento. Perco meus livros dentro de casa e na estante, de uma tal maneira,que muitas vezes compro outra vez o livro que sei que tenho e não encontro.
Mariana, minha leitora e amiga, que está aqui comigo, está arrumando a minha estante. Só de ver a confusão que se instala antes dos livros voltarem para a estante, só ter que decidir quais livros irei passar adiante, sinto uma angústia que é quase uma falta de ar.
Mas depois vem o prêmio: livros perdidos reaparecem e já tenho uma pilha de 15 livros maravilhosos,reencontrados, que desejo reler.
Há uma alegria tão grande em ter um livro perdido nas mãos, é quase uma ilha de felicidade.

quarta-feira, 27 de janeiro de 2016

LÉXICO FAMILIAR

Os livros que serão discutidos em nosso Clube de Leitura da Casa Amarela são maravilhosos.
Marcovaldo do Calvino e As Pequenas Virtudes da Natália Ginzburg. Gostei tanto tanto do livro da Natalia que terminei de ler e comecei a ler outra vez. Por conta disso, desse amor, estou relendo Léxico Familiar da autora.
Ela faz uma arqueologia da sua infância e da sua família através de expressões usadas pelo clã em seu cotidiano. E então, da maneira mágica que só a literatura sabe fazer, a sala da minha casa na Rua Caruarú estava bem na minha frente, na verdade a copa, onde nos reuníamos para jantar.
E minha mãe e meu pai vivos outra vez.
Hoje recebi uma foto da minha mãe, a da sua carteira de identidade. E ouço meu pai gritando, sempre esfomeado:
- Bertha, a comida está na mesa!
Meu pai comia muito. Dizia que passara tanta fome na Polônia que nunca ficava sem fome.
Acabava de comer, afastava o prato e dizia:
- pronto! Comi pouquinho e estou satisfeito.
Seu prato de dois andares.
Até hoje essa expressão é usada quando nos juntamos com os irmãos.
Como no livro da Natália Ginzburg, Léxico Familiar.