sábado, 1 de agosto de 2015

ASSOCIAÇÃO SAÚDE CRIANÇA

Ontem recebemos 20 adolescentes da Associação Saúde Criança para um café da manhã dentro do Projeto Café, Pão e Texto. Chegaram atrasados, pois vieram de longe. Então começamos por onde termino: o café da manhã. Eram lindos e coloridos. Mas muito tímidos. Havia um constrangimento. Nem queriam chegar perto da mesa. Enfim comeram e começamos. Falei para eles do Projeto . Gostaram muito do nome. Dois vieram com camisetas pintadas com meus poemas. Contaram que já me conheciam através da Flávia Lins. Comecei com o livro Quem vê Cara não Vê Coração, pedindo a eles que me dessem ditados populares. Estavam silenciosos mas de repente um falou um ditado e outro e todos! Então lemos alguns poemas e foi aí que se soltaram. Fizemos brincadeiras com os poemas. Eles riram muito. Com o livro Poço dos Desejos cada um me disse um desejo. Poucos disseram não ter nenhum desejo. Mas alguns me falaram desejos belíssimos. Um menino desejava felicidade. Uma menina queria conhecer o mundo. Outra queria morar em Londres e Paris. E um outro queria voar para ser livre. Falei pra eles que para isso há que trabalhar e ajudar os desejos. Depois me fizeram perguntas interessantes e provocadoras. Queriam saber tudo. Duas meninas leram seus próprios poemas. No final todos gritaram bem alto seus nomes numa brincadeira que faço com o poema Receitas de se Olhar no Espelho. Sorteamos livros. E eles foram a praia fazer fotos. Voltaram com os pés sujos de areia e os rostos iluminados. Tinham pela frente uma longa viagem de volta para casa.

quinta-feira, 30 de julho de 2015

APRENDENDO UMA LÍNGUA

Juan, meu marido, começou uma atividade maravilhosa: todos os sábados dá uma aula de espanhol para o Igor, neto da minha caseira Vanda, que tem 7 anos. Com apenas três aulas,Igor já sabe os números, os meses, as cores. Já canta uma música linda e faz pequenas frases . Ele se esforça bastante para falar com um belo acento. Quando termina alguma atividade ele dá pulos de alegria. Juan lhe perguntou qual era o dia da semana mais feliz para ele e sem pestanejar respondeu que era o sábado. Juan perguntou o motivo e ele disse que era porque tinha aula de espanhol! Eu perguntei se ele já havia contado no colégio a novidade e ele disse que sim, mas que ninguém acreditou. Nem a professora. Parece que aprender uma língua é algo do outro mundo. As crianças amam aprender uma língua. E por que as escolas não ensinam? Com a facilidade com que aprendem! Fica registrado o meu protesto veemente. Uma nova língua é um tesouro. Mas para isso é preciso investimento. Existem os genocídios visíveis. Mas existem os genocídios invisíveis. Quando num país se rouba como no Brasil, quantos talentos são assassinados? Quantas pessoas são assassinadas por falta de atendimento médico, por falta de hospitais, por falta de remédios? Quando os recursos são roubados e não se investe em saneamento a morte está sendo semeada. Quando o meio ambiente é degradado, rios poluídos e mares e baías, com a morte de tantas vidas, isso é assassinato. Quando os recursos são roubados e não se investe na infância, na cultura, na educação, aumentando e alimentando a roda gigante da violência, quantos assassinatos. No Brasil , com toda a drenagem dos recursos públicos que seriam investidos e não são, assistimos estupefatos a um genocídio invisível.A destruição sistemática de milhares de vidas ceifadas por falta de investimento.

quarta-feira, 29 de julho de 2015

O FILHO ETERNO

Alguns livros chegam com alguns anos de atraso, mas ainda bem que chegam! É o caso do livro O Filho Eterno do Cristóvão Tezza. Foi muito recomendado mas eu não o havia lido. Não havia lido nenhum livro dele. Como vou viajar com o Cristóvão num projeto do Governo de São Paulo, comprei o livro. E fiquei impactada, emocionadíssima, engasgada. Cristóvão se desnuda de uma maneira impressionante e fala dos sentimentos obscuros, aqueles sentimentos e pensamentos terríveis que escondemos debaixo de sete colchões. A partir do nascimento do seu filho Felipe, com Síndrome de Down, ele traça a estrada inteira da sua vida, das suas vivências, dos seus fracassos, medos, fragilidades, ambições, vaidades. Agora só me resta comprar seus outros livros. Alguns livros que amo me chegaram de uma maneira inesperada. Na Feira de Brasília, parei numa livraria e a mulher olhou para mim e me disse: "Não vá embora, tenho um livro para você. E voltou com o livro As Brasas do Sandor Marai que amo de paixão perdida e já li três vezes e depois comprei vários outros livros seus. Mas para mim As Brasas é único. Como ela podia saber? Monica Botkay, minha amiga tão antiga, quando eu tinha 23 anos me emprestou La Vie Devant Soi, do Émile Ajar, pseudônimo do Romain Gary. Enlouqueci. É um dos livros da minha vida. É perfeito. Nunca mais nos separamos.Tive que devolver o livro naquela época. Mas na única vez em que fui a Paris, no meu primeiro dia fui procurá-lo num sebo na beira do Sena e foi o primeiro livro que vi. Walder, meu amigo onde estava hospedada, ao sair do trabalho também foi procurá-lo para mim sem saber que eu já o havia encontrado. E me trouxe uma outra edição. E uma vez , ouvindo o Bartolomeu Campos Queiróz falando em algum evento, de repente ele disse: "todo mundo tinha que ler La Vie Devant Soi". Pronto. Fui fulminada por um raio. Ao sair falei com ele, mas Bartolomeu, esse é um dos livros da minha vida! Ele fez um carinho no meu sapato e sorriu. Agora, por causa do meu amigo Cristiano Mota Mendes estou viajando com Riobaldo e Diadorim, relendo o Grande Sertão: Veredas. Nos falamos por whatsup várias vezes ao dia para discutir o livro, o trecho onde estou. Recebi ontem por correio A Lebre de Vaatanen de Arto Vaasilina, autor finlandês. É uma tradução portuguesa. O livro é delicioso e li em francês na casa da Monica Botkay. Depois já li mais dois livros dele. Ele fala de coisas sérias e densas com um humor maravilhoso. A gente sapateia de rir. Havia indicado o livro para o Clube de Leitura, mas quase ninguém conseguiu comprar, então desistimos.Agora já estou relendo, intercalando. Quando parece que vou explodir de emoção com o Guimarães Rosa passo para ele. Essas são as minhas veredas. Os livros.

terça-feira, 28 de julho de 2015

O DIA

O dia está escuro, carregado, suas nuvens pesadas de água. Sempre gostei de dias assim cinzentos. Como se houvesse dentro do corpo um ninho onde um pássaro tece seu canto que é feito de uma certa melancolia. E nos dias assim, com novelos de bruma, eu vejo o pássaro. Cada dia tem a sua tessitura, não sabemos ainda que alfabeto nos trará. Hoje recebo amigos que moram em Israel. São pacifistas, pró um Estado Palestino, mas a voz da paz não se faz ouvir. Se houver paz os Senhores das Armas não terão trabalho. Eles são os ajudantes da morte e ninguém sabe como podem dormir, comer, caminhar, com tantos assassinatos , com tanto sangue nas solas dos sapatos. Mas eu acredito na paz. E não estou sozinha. A poesia é o que tenho para oferecer. E pão, que eu mesma faço.E o meu amor imenso por tudo o que é vida. Sexta-feira recebo um grupo de 20 adolescentes. São jovens ávidos por livros. Flavia Lins trabalha leitura com eles, numa ONG que cuida da saúde de seus irmãos doentes. Então mostrarei a eles o jardim luxuriante atrás da casa, onde antes só havia areia. O milagre da vida. Basta uma semente e um pouco de água. E cuidado. Mostrarei meus livros, vamos ler juntos os meus poemas. O esboço da manhã do nosso encontro já dança no ar, como roupas coloridas num varal.

segunda-feira, 27 de julho de 2015

DORES OBSCURAS

Martha Medeiros escreveu um belo artigo ontem, na Revista de Domingo do Jornal O Globo, sobre sentimentos inomináveis, dores obscuras, para os quais não existem palavras. Todos nós, humanos, somos capazes de fazer uma lista destes sentimentos. Quando criança e até muito tarde eu tinha um sentimento horrível de não pertencimento. De repente a dor do outro entra dentro de mim de uma tal maneira que não posso suportar. Às vezes a emoção de alguma vivência é tão grande que o corpo quase não aguenta, o corpo fica pequeno para aguentar tal emoção. Ela descreve as suas vivências, diferentes das minhas e das tuas para falar do trabalho de um americano que está no youtube e se chama John Koenig, que fez uma série c hamada "Dicionário das dores obscuras". A ideia é maravilhosa. E ela termina dizendo : "A poesia é o verdadeiro dicionário das dores obscuras".

domingo, 26 de julho de 2015

DONA CONCEIÇÃO

Dona Conceição tem 96 anos. Mora sozinha em São João Del Rey. Hoje, domingo, dia 26 de julho de 2015, Dona Conceição está deixando sua cidade para trás, suas raízes, seus parentes, amigos, vizinhos, está mudando de vida. Tem sonhos, novos planos.
Ela é a mãe da Vanda, nossa caseira e decidiu comprar uma casinha aqui em Saquarema. Comprou uma casinha na Barreira, um bairro ainda rural, inacabada e já vem vindo, entusiasmadíssima , de malas e cuias, para terminar a casa e se instalar. A mudança veio antes. Ela planeja o que vai fazer, as cores dos cômodos, a cor da casa. Vai continuar morando sozinha, mas quer ficar perto da filha e dos netos e bisnetos nos próximos anos.
Então acho que a Dona Conceição nos dá uma grande aula. Uma aula de vida. Podemos sonhar e mudar tudo até o último minuto!
Enquanto escrevo ela está na estrada. De São João Del Rey até Saquarema são oito horas de viagem!
Ela é bem bonita, mestiça, toda elegante, como se diz na roça, sacudida! Ainda cozinha muito bem e espero que me faça uma broa de milho assada na folha da bananeira na inauguração da casa.

sábado, 25 de julho de 2015

UM PASSEIO

Hoje fomos caminhando até a Feirinha perto da Vila pelas margens do aeroporto para comprar tapioca. O aeroporto daqui de Saquarema não tem pista, é só gramado. Ali, na beira do aeroporto as casinhas ainda são do tempo em que a cidade era um vilarejo de pescadores. São casinhas de pescadores, miudinhas, singelas.
O brasileiro se vira. Cada um como pode. Passo na porta de uma casa e um cartaz diz: "Explicadora formada".
Numa outra casa: "Vende-se sacolés"
E em cinco casas vejo um barzinho na calçada com mesas e cadeiras toscas. Uma improvisação. Num desses estabelecimentos, a janela estava aberta  e havia um balcão com algumas garrafas e imagens de Nossa Senhora.
Dá uma ternura. Uma vontade de chorar como na música do Chico. É gente simples e que faz o que pode para sobreviver.
Na barraca da tapioca se pode comer tapioca feita na hora e também pastéis, caldo de cana, bolinhos de aipim.
Há uma outra barraca que faz churrasquinho com farofa.
Amo as feiras. Viro criança num segundo e me vejo lá longe, na minha infância, com a Eunice, minha mãe negra, comendo quebra-queixo, que me levava direto para Pasárgada sem eu saber que Pasárgada existia.

sexta-feira, 24 de julho de 2015

SUPERAÇÃO

Em agosto o médico que operou a minha coluna me dará alta. Seis meses depois da cirurgia. Ainda não pude voltar para o Pilates, só em agosto.
Mas já consegui um ritmo. Estou caminhando 40 minutos todos os dias. Eu e Juan andamos pelas ruas de dentro. São belas, calmas.
É uma conquista tão impressionante que às vezes nem acredito. Antes da cirurgia não podia ir nem até a esquina.
Sou disciplinada. A caminhada é sagrada. E me dá uma dose de bem estar tão grande que fico eufórica.
Faço meditação. É tão difícil meditar. Mas a meditação é o que me dá a fortuna de estar centrada. A meditação me dá de presente o presente! Viver intensamente o que se faz no momento em que se faz. É magnífico. Fazer meditação todos os dias, caminhar, aprender uma língua nova. Tudo isso requer um esforço. Mas o resultado dentro da gente surpreende.
Ontem alguém me perguntou: qual é o seu lazer? Bom, não posso dizer que a leitura seja um lazer. Ler para mim é respirar. Então acho que tudo o que faço é lazer, porque viver para mim é lazer. Já quase morri algumas vezes, então estar viva é impressionante.
Mesmo quando estou fazendo uma tarefa aborrecida, tento colocar algo bom, algum prêmio.
Enquanto escrevo penso: descobriram um planeta gêmeo da Terra, tão longe. tão longe, mas o pensamento o alcança, em toda a sua maravilha.

PARA VER O MUNDO

Para ver o mundo
há que afiar os olhos
com a luz do sol
e da lua
e nos lume dos olhos
do outro.

Então as cores acordam
como flores raras
e pequenas felicidades
(ou sofrimentos)
esvoaçam pela superfície do dia

in Cinco Sentidos e Outros (Lê editora).

quinta-feira, 23 de julho de 2015

SIGNIFICADO

Ontem escrevi uma carta para uma sobrinha espanhola. Ela me perguntava em sua carta o que tenho feito e eu respondia:
Alimento meu Clube de Leitura com belos pensamentos constantes, (amo cada um dos participantes) e com livros.  Nos encontramos de dois em dois meses e no último encontro, Gil, que antes não era leitora, nem sabia como expressar a vastidão do mundo que se abriu para ela.
Recebo escolas públicas aqui em casa para um café da manhã ou almoço comigo.O encontro e feito de várias vivências maravilhosas.
Recebo professores para lhes dar uma pitada da minha loucura.
E me envolvi agora com a construção de uma escola em Burkina Faso, África, numa aldeia paupérrima e perdida que jamais visitarei, pois não tenho condições físicas para isso.
A escola que será construída arrebatou meu coração, pois os habitantes da aldeia não pedem nada e falta tudo. Mas eles querem uma escola para os pequenininhos, uma escola de ALVENARIA e não de palha e barro como suas casas. Eles querem que a escola dure para sempre.
Monique Malfatto entrou na minha casa pelas mãos da Monica Botkay no dia em que recebia uma escola de Duque de Caxias. Ela vive três meses na África com eles e o resto do tempo entre França e Itália para conseguir doações. Esta será a terceira escola de uma aldeia de 600 habitantes. A primeira era muito pequena. A segunda já era maior e cabia bastante gente. E agora a terceira que ajudaremos a construir será para o maternal.
Quando a escola fica pronta o Estado assume , mandando os professores. É a primeira geração que saberá ler e escrever. As escolas são bilíngues. Aprendem na sua língua e em francês.
Quando acabei de escrever a carta, eu me perguntei: o que significa tudo isso? Acho tão pouco tudo o que faço, às vezes.
Mas tudo isso "me significa", me dá sentido, me mantém viva e pulsante.
Aplico na minha vida diária o conceito africano de UBUNTU. Eu sou eu mas também sou você.
Estou fazendo uma campanha no facebook para quem quiser me ajudar. Você pode entrar em contato comigo.
Minha irmã Evelyn Kligerman e meu cunhado Luis farão juntos uma placa de cerâmica para embutir na parede da escola. E já sei o que quero escrever:

Une école pour toujours               Uma escola para sempre
Comme un puits                           Como um poço
Les amis brésiliens sont ici.          Os amigos brasileiros estão aqui.

quarta-feira, 22 de julho de 2015

O VENTO

Ontem veio o vento. De repente entrou cantando num redemoinho, varreu a varanda, encheu a varanda de folhas, virou o mar do lado do avesso, trouxe a chuva.
Em nosso encontro de sábado , do Clube de Leitura, Ronaldo cantou um poema do Manuel Bandeira que amo de verdade. Aliás amo tudo o que ele escreveu. É um dos poetas da minha vida:

CANÇÃO DO VENTO E DA MINHA VIDA

O vento varria as folhas,
O vento varria os frutos,
O vento varria as flores...
   E a minha vida ficava
   Cada vez mais cheia
   De frutos, de flores, de folhas.

O vento varria as luzes
O vento varria as músicas,
O vento varria os aromas...
   E a minha ida ficava
   Cada vez mais cheia
   De aromas, de estrelas, de cânticos.

O vento varria os sonhos
E varria as amizades...
O vento varria as mulheres.
   E a minha vida ficava
   Cada vez mais cheia
   De afetos e de mulheres.

O vento varria os meses
E varria os teus sorrisos...
O vento varria tudo!
   E a minha vida ficava
   Cada vez mais cheia
   De tudo.

Manuel Bandeira

segunda-feira, 20 de julho de 2015

MIGUILIM

Receber Miguilim em nossa casa foi uma experiência única e maravilhosa.
Este encontro do Clube de Leitura da Casa Amarela foi especial pois festejávamos também o aniversário do Juan.
Amigos mais do que amigos chegaram cedo do Rio e a varanda já estava arrumada para o almoço com as mesinhas que alugo cobertas com as lindas toalhas de chitão florido. A varanda fica parecendo um imenso jardim.
Um pão acabava de sair do forno quando chegaram Messias , Kátia e Monique. Fizemos um botequinzinho com café e pão quente com queijo. E logo chegaram Cristiano, Ana e Ronaldo com seu violão para as muitas surpresas. O botequim foi crescendo. Chegaram Norma Estrela e Dirceu. Chegaram César e Fátima.
E finalmente chegaram  Hélio e Fernando, Chico, Gil.
Entramos, nos sentamos.  Quis começar pelo fim, marcando a nova data e indicando os livros:
Dia 10 de outubro. Judas, do Amoz Oz e A Última escala do Velho Cargueiro do Alvaro Mutis. E li a linda carta da professora Zete.
Cristiano que estuda Guimarães Rosa desde a sua juventude, também fez a proposta de começar pelo fim. Mas eu não resisti e quis falar só um pouquinho do começo, quando Miguilim traz para a sua mãe o grande presente: alguém lhe disse, na sua viagem com Tio Terez, que o Mutum é bonito. E como ele queria levar esta frase de presente para a sua mãe! Assim ela não ficaria mais triste suspirando pelos cantos! E ela nem ligou, aprisionada que estava naquele lugar, naquele triângulo amoroso que Miguilim e seu irmão Dito intuíam.
Mas Cristiano puxou o fio para o fim, para o médico que traz os óculos e  finalmente Miguilim pode ver tudo e finalmente pode ir embora, a promessa que fez lá atrás quando Dito havia lhe ensinado que pagar uma promessa antes do pedido ser realizado é muito bom. Os óculos são o seu ritual de passagem. Messias falou um pouco dos rituais de passagem em algumas culturas.
Chico e César falaram que o livro contava a infância deles.
Messias contou que seu tio tinha uma fazenda onde passava a infância que era perto realmente do Mutum. E que ele havia vivido aquelas maravilhas.
Gil falou que o livro também era a sua infância no interior do Maranhão.
Ronaldo cantou uma música que ele fez para um espetáculo que faz a síntese do livro e fala lindamente do Miguilim não é alegre e não é triste. Nos apaixonamos pela música e
cantamos o refrão.  
Maria Clara leu um poema que fez, lindíssimo, sobre o Miguilim.
Falamos um pouco sobre tudo, a sensibilidade das crianças, o amor entre os irmãos, a morte do Dito, o ritual que a preta velha Mãiitina faz com Miguilim, a sensualidade da mãe, a tragédia da família. Seria Miguilim filho do Tio Terez?
Falamos um pouco de cada personagem.
Todos falaram que ninguém no mundo jamais descreveu a natureza como Guimarães Rosa . Cores, cheiros, animais, sensações.
Todos nós vivemos no Mutum enquanto líamos o livro. E eu confesso que jamais sairei de lá. Assim como passei a minha infância no Sítio do Pica Pau Amarelo, agora vivo para sempre no Mutum, dentro das suas matas. Nas suas veredas.
Juan , que passou a sua infância numa aldeia pobre no interior da Galícia , disse que dentro do livro estava em casa, pois foi aquilo que viveu. E lembrou que antigamente as crianças viviam no mundo real. Tocavam as coisas, viam a vida acontecer e morrer e que hoje vivem no mundo virtual. Ainda não temos distanciamento para saber o que é isso. E também disse que ele descreve um mundo que logo acabará, pois 80% da população já saiu do campo para as cidades
Devo dizer que nunca li e reli nenhum livro mais belo na minha vida. E que se alguém não leu corra para ler pois ninguém pode viver sem Miguilim.
Ana e Ronaldo prepararam uma surpresa para o Juan: cantaram Se Todos fossem iguais a Você, do Vinicius. Ana tem uma voz maravilhosa.
Todos leram poemas do Vinicius e fechamos o encontro cantando Uma Tarde em Itapuã. Coral do grupo!
Vanda preparou a melhor feijoada do mundo. Havia empadão de legumes para quem não come carne.
Cantamos parabéns com violão e tudo. E celebrar a vida e a literatura alimenta a nossa chama de vida.

sexta-feira, 17 de julho de 2015

CARTA

Ontem recebi uma carta de uma professora, por correio, verdadeiramente impactante.
A carta é muito longa e transcreverei alguns trechos. A professora se chama Eliane.

Curitiba, 09 de julho de 2015

Cara Roseana,

   É com grande expectativa que lhe escrevo novamente, porém desta vez com uma expectativa bem maior
    Sou professora do quarto ano da Rede Municipal de Curitiba. Nossa escola se localiza num bairro de periferia e nossos alunos vivenciam várias situações: violência, drogas, assaltos e com baixo nível de escolaridade das famílias. Atualmente .a comunidade vem recebendo muitas famílias de Alagoas e algumas agora vindas do Haiti.
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   No início do ano letivo , tivemos um encontro pedagógico no Núcleo de Educação do bairro que pertence a nossa Escola CEI Professor Antonio Pietruza. Lá a professora do curso apresentou sugestões de textos de sua autoria a serem trabalhados com os alunos. Salientei naquele momento, que eu já havia programado em trabalhar neste ano novamente alguns textos seus, pois obtive resultados surpreendentes e que na época também lhe escrevi juntamente com meus alunos. Foi uma troca de experiências!
   Como não foi diferente, desenvolvi um projeto englobando Língua Portuguesa e Matemática.
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   No decorrer do projeto vimos como os alunos foram ficando encantados com a leitura dos seus textos. Um belo dia, uns alunos cogitaram a ideia de lhe escrever e muitos riram pois disseram que autores-escritores não tem tempo... Foi aí que comentei que há uns anos atrás uma turma minha também pensava assim, e você provou ser diferente! Não deixou seus leitores "na mão". Lembro hoje como tudo aconteceu...
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   Nesta última semana , me emocionei muito na reunião de pais, com um relato da mãe do João Andrei. Ele é um aluno com muita dificuldade em Língua Portuguesa, tem todo um histórico, faz atendimentos e sala de recurso. Contei à mãe que percebi avanços neste último mês na aprendizagem: já está lendo lentamente e formando pequenos textos, o que não acontecia . A mãe, imediatamente, relatou-me a mudança de comportamento de seu filho, disse-me que vem lendo mais e está pedindo muito a ela que compre um livro da Roseana Murray porque a professora Eliane leva textos legais desta autora. Meus olhos encheram-se de lágrimas de emoção, saber que através de seus textos consegui despertar o interesse de um aluno de quarto ano à leitura e escrita. Isto é gratificante, e você Roseana, é parte desta conquista deste aluno! Bem, se fossemos eu e a professora Rosiméri relatar as nossas experiências ficaríamos um tempão falando...
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Bom, a carta continua . Ela me conta o quanto gostaria de trazer seus alunos para o meu projeto Café, Pão e Poesia, mas é tão longe...E seus alunos me escreveram e me enviaram cópias de seus próprios poemas e também desenhos. Hoje vou ao correio levar a resposta e estou enviando um livro.
Transcrevo trechos desta bela carta para mostrar a força da poesia.
A poesia é terapêutica . A poesia abre estradas dentro do corpo e da alma. A poesia fez com que um aluno ml alfabetizado, com muitos problemas, retomasse a leitura e a escrita.
Obrigada Eliane, por me fortalecer.

quinta-feira, 16 de julho de 2015

CHEGADA

Cheguei ontem de Visconde de Mauá. Seis horas e meia de viagem, mas acontece que não são essas horas apenas. É a passagem de uma dimensão para outra. Fico muito cansada. Como se tivesse feito uma viagem interplanetária.
Na minha casinha dentro da mata nem o telefone recebe sinal. Sem internet , sem televisão, sem notícias.
Na última manhã, antes de ir embora, enquanto arrumava tudo, um esquilinho gritava na varanda. Estava no limoeiro a um palmo da minha mão. Acho que me dizia adeus.
Aqui estou, na minha mesa, o mar maravilhosamente azul atrás de mim, está tão calmo que nem fala. Rumino as notícias, rumino o mundo.
Mas sábado temos o encontro do nosso Clube de Leitura com a presença de muitos amigos. Nosso Clube já é uma família, fortes laços nos amarram, as cordas sonoras da literatura.
Discutiremos Miguilim do Guimarães Rosa, de uma beleza estonteante.
E sairemos fortalecidos para aguentar o peso do mundo.

quinta-feira, 9 de julho de 2015

NA MONTANHA

Hoje estou conectada pois vim até o ateliê de cerâmica da minha irmã Evelyn Kligerman e meu cunhado Luis Mérigo. Cada vez que venho a Mauá ela passa um dia comigo na minha casinha e eu desço para passar o dia com ela aqui no Vale do Maringá.
Impossível descrever a minha felicidade todos os dias. Nem tentarei. Como a Bia Hetzel sabe, pois publicou meu livro Diário da Montanha e agora contei para o Cristiano Mota Mendes, e agora conto para todos , eu também sou árvore além de gente (aliás sou muito melhor como árvore do que como gente) e é na montanha. dentro da mata, que posso ser o que sou de verdade, sem medo de mim.
Cada dia é único em sua imensa felicidade. Acendo o fogo bem cedinho e os jacus já estão fazendo a sua primeira reunião, os guaxos gritam suas belas palavras e quando dou sorte vejo esquilos subindo e descendo o primeiro tronco que minha vista alcança.
Meu grande sonho era ver uma onça.
E como a onça do Rosa eu vou andando e falando, bom, bonito, bom, bonito...

terça-feira, 30 de junho de 2015

UNI(r)VERSOS

Ontem fui a Bacaxá, o bairro de Saquarema onde se encontra todo o comércio. Fui ao contador fazer algo muito desagradável, um certificado digital que o governo inventou para tirar mais um pouquinho de dinheiro da gente. Para fazer uma inscrição e ganhar uma carteirinha, 370,00!
Mas seguindo a minha filosofia de vida, em cada momento tem que haver algo bom. Então me sentei na padaria Bela Bel para um pingado e fiquei ali olhando o movimento, vendo toda a gente passar. Vi o maluquinho que era meu amigo, mas ontem estava tão exaltado que passou por mim esbravejando e nem me viu. Durante anos ele passava por nossa casa e eu lhe dava um café com leite e pão com manteiga ou bolo e ficávamos conversando no portão as suas conversas sem nexo. Um dia ele me pediu uma camisa pois a sua realmente já estava bem esfarrapada. Fui até o armário do Juan e apanhei uma camiseta vermelha quase nova. Ele olhou, examinou e me devolveu dizendo: _"Não gosto de vermelho. Não tem azul?" E não levou mesmo a camiseta quase nova! Eu achei incrível.
Eu estava ali, sentada e divagando, fazia um solzinho bom, o pingado era tão bom, era tudo bom naquele momento. Aí chegou alguém perto de mim e me disse: "_ Eu sabia que ia te encontrar!"
Era o poeta Jota de Jesus, o poeta de Saquarema. Ele é um grande trovador e ganha todos os concursos. Nosso amigo Chico Peres, antes de ser vereador, isso é importante, pois não foi com dinheiro público, mas sim do seu bolso, financiou um livro para ele e se chama Uni(r)versos.
As trovas do Jota de Jesus são geniais. Ele é um filósofo em suas trovas. A poesia é a sua vida, o que ele respira e mastiga e é um andarilho, está em todos os lugares, com uma pasta de poemas inéditos e seu livro debaixo do braço.
REVELAÇÃO
Na fotografia
     sou aquele,
que o flash quase esqueceu.
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ACUADO
Não posso falar,
nem ouvir, nem calar...
cantar, sorrir, chorar,
   não posso!
O que fazer?
...sonhar!
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Se nada posso fazer
em relação ao destino,
que eu viva pensando ser
sempre um eterno menino.
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Ele parece mesmo um menino, tão franzino. Nos despedimos, ele seguiu seu caminho e eu ainda fiquei um tempo sentada, pensando.

Hoje vou para Resende ao encontro do meu filho, nora e neto. Amanhã subo para a montanha onde não tenho internet e na minha casinha nem o celular funciona.
Levo livros e a minha paixão pela montanha.
Vou desaparecer até o dia 16. Até a volta e de vez em quando me mandem um pensamento bom.

segunda-feira, 29 de junho de 2015

FRUTOS DIÁFANOS

Recebo de presente o belo livro de poesia de Alfredo Garcia-Bragança.
Seus frutos diáfanos que nosso olhar atravessa e sua sombra, o que dá peso e consistência ao poema . A sombra da memória que todos carregamos, o invólucro dos nossos ossos, os gestos repetidos de algum antepassado, o que se viveu e que se leva nos bolsos feito migalhas de pão para alimentar os pássaros, para alimentar a vida.

O PESO DA MEMÓRIA

Carrego em cima dos ombros
o peso dessa memória
repleta de odores e
sabores do tempo e quando.

Carrego em cima dos ombros
o peso dessa memória:
ectoplasmas de pijama
andam nas ruas-lembranças.

Eu carrego nas retinas
o peso dessa memória:
nas esquinas do que eu fui
dessoterrados desejos.
Eu carrego nas retinas
o peso dessa memória:
olhares varrem quintais
do "paraíso perdido".

Eu carrego pela vida
o peso desa memória,
umbigo solto no mundo,
à espera de ser história.

in Frutos Diáfanos, Alfredo Garcia-Bragança, Obra premiada pelo Instituto de Artes do Pará, Prêmio Max Martins, INP
 

domingo, 28 de junho de 2015

MONIQUE&MONICA

Monique, minha nova amiga francesa, que chegou até a minha casa pelas mãos da minha grande amiga Monica, chegou para ficar, embora tenha partido hoje de volta para o Rio.
Monique faz o trabalho mais belo do mundo. Ela escolheu um país na Africa, Burkina Faso, neste país ela escolheu uma cidadezinha , neste lugar ela escolheu um povoado onde não existe nada, nem água nem luz, pouquíssima comida. Eles basicamente se alimentam de "mil", um cereal que não existe aqui.A pobreza é absoluta. Ela perguntou no povoado o que eles gostariam e ela ela tentaria recursos para fazer. Uma escola, eles responderam. Eles disseram que eram analfabetos e gostariam que seus filhos soubessem ler e escrever.
Ela voltou para a França , buscou associações e finalmente conseguiu recursos na Suíça.
A primeira escola foi construída. Agora ficou pronta a segunda escola.
As aulas são no idioma deles e quando já estão alfabetizados começam a estudar também em francês.
Monique passa três meses por ano neste lugar.
Depois da escola eles disseram que gostariam de ter algumas cabras.
Monique conseguiu recursos para comprar algumas cabras e construir seus cercados.
Ela fez uma campanha para as cabras e teve muito êxito.
Agora as crianças podem beber leite de cabra.
Agora Monique quer construir uma terceira escola para fazer um maternal.
Conhecer alguém assim é o maior presente que eu poderia receber.
Fazer alguma coisa pelo outro, doar algo do que temos para quem tem tão pouco, isso faz com que a vida realmente adquira um sentido.
Ela ficou encantada com a Escola de Magé , Magid Repani, que veio aqui para o Café, Pão e Poesia.  Ela contou a sua experiência para as crianças.
Conversamos muito e nós duas pensamos igual: não podemos mudar o mundo, mas podemos trabalhar no pequeno. Eu dei de presente para as crianças de Magé um dia maravilhoso para a sua memória. Cada criança foi tocada.  Monique conseguiu fazer uma escola num povoado perdido em Burkina Faso. Os adultos lhe disseram: Você salvou nossos filhos da escravidão. Agora eles sabem ler.

sexta-feira, 26 de junho de 2015

VISITAS ESPECIAIS

Quase ao mesmo tempo, um ônibus escolar encostou hoje pela manhã na porta da minha casa e minha amiga Mônica também trazendo sua amiga francesa, a Monique.
Era a E.M.Municipal Prefeito Magid Repani, do Município de Magé, pelas mãos da professora Kátia. Todas as professoras eram maravilhosas, tão amorosas, cuidadosas, fantásticas.
Primeiro descemos todos ao jardim e contei para eles que o jardim magnífico que temos antes era um areal.
Depois, na varanda, no chão forrado com colchas e almofadas, nos bancos, era um jardim de crianças lindas.
Fiz com eles brincadeiras com poemas e finalizamos com o livro Carona no Jipe, depois da leitura eles me contavam para onde gostariam de ir. Muitos queriam ir para Londres, Paris, Barcelona, Rio e outros queriam voltar para Magé.
Aí a surpresa:   Monique, a francesa, trabalha três meses por ano em Burkina Faso na África. Num lugar muito remoto, sem água, sem luz, sem nada, na beira do deserto.
Ela foi para lá ajudar a fazer uma escola. E contou tanta coisa, a gente ia traduzindo. Contou que na época da grande fome as crianças comem apenas três vezes por semana.
Falou do trabalho na escola, como os pais lhe disseram que ela ajudou a tirar as crianças da escravidão. Falou da dignidade deles, de sua criatividade e beleza.
Contou as coisas mas emocionantes e nos mostrou fotos. E pediu para entrelaçar as duas escolas, a de Magé e a de Burkina Faso. Quer que as crianças de um país conheçam a do outro.
As crianças tomaram chocolate quente com bolo e sanduichinhos e biscoitos . Foram até o mar. A metade da turma não conhecia o mar.
Foi um dos encontros mais emocionantes do mundo.
Sorteei alguns livros, Juan autografou e ensinou algumas frases em espanhol para eles. Aprenderam a dizer bonjour!
Cada encontro é tão diferente do outro. E me deixa em estado de graça.

quinta-feira, 25 de junho de 2015

ALEGRIAS

Conversava com meu  amigo Cristiano e minha irmã Evelyn em como está difícil sobreviver emocionalmente a tanta notícia ruim no Brasil e no mundo. Os dois me dizem : há que se agarrar nas pequenas alegrias com todas as forças, e nos amigos, para conseguir enfrentar essa onda de más noticias.
Claro que concordo. Amanhã recebo uma escola para um café da manhã no meu projeto Pão, Café e Texto, já tenho duas escolas para agosto e uma para setembro. Este projeto é uma das maiores alegrias da minha vida.
Dia 1 vou para a montanha virar árvore. Desligo de tudo. Fico 15 dias e estarei com filhos e netos. Muitos amigos prometeram me visitar.
Estar dentro de um pedaço de mata é sim a maior alegria da minha vida.

quarta-feira, 24 de junho de 2015

DIRETORES E COORDENADORES

Pelas mãos do Valdinei e da Secretaria de Educação de Saquarema chegaram hoje de manhã, manhã de sudoeste e chuva, até a minha casa para um café da manhã, trinta e cinco coordenadores e diretores de Escolas Municipais. Tivemos que nos apertar na sala, era impossível ficar na varanda.
A mesa do café estava linda: A Secretaria triuxe canjica, bolo de fubá, bolo de aipim, paçoca. doce de leite... Puro São João.
Conversamos sobre muitos temas, foi muito bom. Desde intolerância religiosa até educação sexual na escola. Conversamos sem medo.
Li um texto da Bia Hetzel, a Fada da Literatura, li um conto do meu livro Exercícios de Amor, Lê ed.. Li um texto maravilhoso sobre educação, resumo de um dos tantos Congressos de Educação. Eram 10 pontos para uma educação de qualidade.
Mostrei como através de um conto se pode falar de prevenção de gravidez precoce e aids.
Algumas diretoras contaram lindas histórias de superação.
Terminamos com todo mundo se abraçando.
E embora até agora nenhuma escola tenha vindo participar do meu Café, Pão e Poesia, hoje uma escola daqui de Saquarema se inscreveu . Tomara que venha mesmo. Estes encontros são alimento para todos.

terça-feira, 23 de junho de 2015

TIC-TAC

Lucia Pellon, uma amiga virtual, foi ao Salão do Livro para me conhecer. Ela me disse que estudou no mesmo colégio que eu, no maternal. Talvez até na mesma sala.
Eu era muito pequena. Teria no máximo 4 anos. As minhas lembranças da escola são pura neblina.
Mas lembro que detestava ir para a escola e como tinha um diálogo constante com meu anjo da guarda, eu pedia que ele fizesse a babá esquecer o caminho. Mas ela nunca esquecia.
Às vezes meu irmão mais velho me levava de bicicleta. Eu repetia o pedido. Mas o meu anjo não ouvia e eu sempre chegava na escola.
Eu vomitava todos os dias na escola. Já tinha uma muda de roupa para trocar.
Não sei o motivo.  
Ainda bem que todos os medos e fragilidades transformei em poesia.
A criança tem um mundo imenso dentro de si, galáxias de sentimentos.
Acabei de reler Miguilim do Guimarães Rosa para o Clube de Leitura da Casa Amarela e acho que foi o livro que melhor conseguiu expressar esse emaranhado dos sentimentos infantis.
Agora estou profundamente mergulhada no Grande Sertão: Veredas . A leitora de vinte anos, quando li o livro,  é muito diferente da leitora de hoje.
Ontem me pediram para citar três livros preferidos. Não há tarefa mais difícil. Mas se eu fosse para os anéis de Saturno e só pudesse levar três livros...
Tic-Tac, a escola que desapareceu no começo da minha infância me diz como o tempo desaparece. Está dentro das mãos em concha, quero guardá-lo, tictac, ele se esvai.

segunda-feira, 22 de junho de 2015

CHAVES PARA A FELICIDADE

Li um artigo tão bom no El País que vou copiá-lo aqui. Sei que nem todos conseguem ler em espanhol, mas com algum esforço dá para entender algumas coisas. Quem sabe a partir deste artigo o meu leitor ou a minha leitora ficam loucos de vontade de aprender espanhol? Aprender uma lingua é algo maravilhoso. Lá vai:

"Cada vez parece más claro que la nueva fiebre del oro no tiene que ver con hacerse millonario ni con encontrar la fuente de la eterna juventud. El tesoro más codiciado de nuestros tiempos es atesorar felicidad, un concepto abstracto, subjetivo y difícil de definir, pero que está en boca de todos. Incluso es materia de estudio en la prestigiosa Universidad de Harvard.
Durante varios años, algunos de los estudiantes de Psicología de esta universidad americana han sido un poco más felices, no solo por estudiar en una de las mejores facultades del mundo, sino porque, de hecho, han aprendido a través de una asignatura. Su profesor, el doctor israelí Tal Ben-Shahar, es experto en Psicología Positiva, una de las corrientes más extendidas y aceptadas en todo el mundo y que él mismo define como “la ciencia de la felicidad”. De hecho, sostiene que la alegría se puede aprender, del mismo modo que uno se instruye para esquiar o a jugar al golf: con técnica y práctica.

Aceptar la vida tal y como es te liberará del miedo al fracaso y de unas expectativas perfeccionistas
Tal Ben-Shahar, profesor de Harvard
Con su superventas Being Happy y sus clases magistrales, los principios extraídos de los estudios de Tal Ben Shahar han dado la vuelta al mundo bajo el lema de “no tienes que ser perfecto para llevar una vida más rica y más feliz”. El secreto parece estar en aceptar la vida tal y como es, lo cual, según sus palabras, “te liberará del miedo al fracaso y de unas expectativas perfeccionistas”.
Aunque por su clase de Psicología del Liderazgo (Psychology on Leadership) han pasado más de 1.400 alumnos, aún así cabría hacerse la siguiente pregunta: ¿Alguna vez se tiene suficiente felicidad? "Es precisamente la expectativa de ser perfectamente felices lo que nos hace serlo menos”, explica.
Estos son sus seis consejos principales para sentirse afortunado y contento:
1. Perdone sus fracasos. Es más: ¡celébrelos! “Al igual que es inútil quejarse del efecto de la gravedad sobre la Tierra, es imposible tratar de vivir sin emociones negativas, ya que forman parte de la vida, y son tan naturales como la alegría, la felicidad y el bienestar. Aceptando las emociones negativas, conseguiremos abrirnos a disfrutar de la positividad y la alegría”, añade el experto. Se trata de darnos el derecho a ser humanos y de perdonarnos la debilidad. Ya en el año 1992, Mauger y sus colaboradores estudiaron los efectos del perdón, encontrando que los bajos niveles de este hacia uno mismo se relacionaban con la presencia de trastornos como la depresión, la ansiedad y la baja autoestima.
2. No dé lo bueno por hecho: agradézcalo. Cosas grandes y pequeñas. "Esa manía que tenemos de pensar que las cosas vienen dadas y siempre estarán ahí tiene poco de realista".
3. Haga deporte. Para que funcione no es necesario machacarse en el gimnasio o correr 10 kilómetros diarios. Basta con practicar un ejercicio suave como caminar a paso rápido durante 30 minutos al día para que el cerebro secrete endorfinas, esas sustancias que nos hacen sentir drogados de felicidad, porque en realidad son unos opiáceos naturales que produce nuestro propio cerebro, que mitigan el dolor y causan placer, según detalla el entrenador de easyrunning y experto corredor Luis Javier González.
4. Simplifique, en el ocio y el trabajo. “Identifiquemos qué es lo verdaderamente importante, y concentrémonos en ello”, propone Tal Ben-Shahar. Ya se sabe que “quien mucho abarca, poco aprieta”, y por ello lo mejor es centrarse en algo y no intentarlo todo a la vez. Y no se refiere solo al trabajo, sino también al área personal y al tiempo de ocio: “Mejor apagar el teléfono y desconectar del trabajo esas dos o tres horas que se pasa con la familia”.
5. Aprenda a meditar. Este sencillo hábito combate el estrés. Miriam Subirana, doctora por la Universidad de Barcelona, escritora y profesora de meditación y mindfulness, asegura que “a largo plazo, la práctica continuada de ejercicios de meditación contribuye a afrontar mejor los baches de la vida, superar las crisis con mayor fortaleza interior y ser más nosotros mismos bajo cualquier circunstancia”. El profesor de Harvard añade que es también un momento idóneo para manejar nuestros pensamientos hacia el lado positivo, aunque no hay consenso en que el optimismo llegue a garantizar el éxito, sí le aportará un grato momento de paz.
6. Practique una nueva habilidad: la resiliencia. La felicidad depende de nuestro estado mental, no de la cuenta corriente. Concretamente, “nuestro nivel de dicha lo determinará aquello en lo que nos fijemos y en las atribuciones del éxito o el fracaso”. Esto se conoce como locus de control o 'lugar en el que situamos la responsabilidad de los hechos', un término descubierto y definido por el psicólogo Julian Rotter a mediados del siglo XX y muy investigado en torno al carácter de las personas: los pacientes depresivos atribuyen los fracasos a sí mismos, y el éxito, a situaciones externas a su persona; mientras que la gente positiva tiende a colgarse las medallas, y los problemas, “casi mejor que se los quede otro”. Sin embargo, así perdemos la percepción del fracaso como 'oportunidad', que tiene mucho que ver con la resiliencia, un concepto que se ha hecho muy popular con la crisis, y que viene prestado originariamente de la Física y de la Ingeniería, con el que se describe la capacidad de un material para recobrar su forma original después de someterse a una presión deformadora. "En las personas, la resiliencia trata de expresar la capacidad de un individuo para enfrentarse a circunstancias adversas, condiciones de vida difíciles, o situaciones potencialmente traumáticas, y recuperarse saliendo fortalecido y con más recursos”, afirma el médico psiquiatra Roberto Pereira, director de la Escuela Vasco-Navarra de Terapia Familiar"

domingo, 21 de junho de 2015

SALÃO DO LIVRO

Ontem tive uma grata surpresa no Salão do Livro. Era um sábado, dia em que as escolas estão ausentes do Salão, achei que não ia ter nenhum público. Mas, depois de um encontro muito feliz com a Carolina, minha editora da Rovelle, fui para o espaço de Encontro com os Leitores. Lá estava a Miriam, de coordenadora, foi ela quem me levou para a Rovelle, e eu a adoro. Comecei com umas poucas pessoas e de repente um sol inteiro entrou pela sala . Era uma escola de Duque de Caxias, onde tenho muitos leitores. Eram pré adolescentes e adolescentes e foi uma alegria só! Fizemos mil brincadeiras, eles eram maravilhosamente participativos.
Depois chegaram Bia Hetzel e Silvia Negreiros, minhas editoras amadas da Manati. Almoçamos juntas. Na saída do almoço encontrei o Rui de Oliveira, fomos grandes amigos no passado e não nos víamos desde muito tempo!
Ás 14 horas fui para o espaço dos autógrafos e a surpresa: muitos amigos foram me ver.
Monica Botkay, Cristiano e Ana, Lourdes de Oliveira e Stella Maris, a grande escritora! E como se não bastasse chegou a ilustradora do Colo de Avó, a Elizabeth Teixeira!
Foi uma festa. Nosso tempo se esgotou e fomos para o stand da Manati. Conheci várias amigas virtuais, uma professora de uma escola de Vassouras, que prometeu levar os alunos ano que vem até a minha casinha da montanha quando eu estiver lá, a Kátia que veio de Realengo só para me conhecer! a Elizabeth Caldas que é minha grande leitora...
Na hora de ir embora mais uma surpresa maravilhosa, uma pessoa que mora no meu coração, a CriCri, veio com os filhos para que eu os conhecesse!!! Moramos juntas nos anos setenta.
Enfim, voltei com a minha arca de tesouros transbordando. Obrigada todo mundo!

sexta-feira, 19 de junho de 2015

SESSENTA MILHÕES

Na Segunda Guerra Mundial morreram sessenta milhões de pessoas.
Ontem a ONU divulgou um número aterrorizante: cinquenta e nove milhões e quinhentas mil pessoas estão "deslocadas".  Trinta milhões são crianças.
Deslocadas quer dizer que estão refugiadas , estão em trânsito, vagando por aí, estão em situação provisória. Saíram de seus países, de suas cidades, de seus bairros, de suas casas.
São pessoas, não são um número. Estão fugindo das guerras, de perseguições étnicas, religiosas, fugindo de conflitos.
São pessoas como nós, como eu e você , precisaram deixar tudo para trás, fugir. São pessoas que viviam uma vida, brincavam, cozinhavam visitavam seus parentes, tinham sonhos, projetos. Tiveram que fugir.
Então a Segunda Guerra não ensinou nada.

quinta-feira, 18 de junho de 2015

NÓS

Todos os dias acordamos para a vida. Não sabemos o que a vida colocará em nossa porta. Cada dia temos que impregnar as mãos em nosso poço interno de alegria e esperança para cumprir o dia.
O Brasil vive um momento duro, difícil, desesperança e desespero estão muitas vezes na mesa de cada um. Mas a vida é movimento, a Terra dança no céu, nada é para sempre. Dias melhores virão.
É uma questão de sobrevivência nos lembrarmos de que eu sou eu e o outro. Se não me esqueço disso, a delicadeza e a honestidade irão pautar a minha vida.
A arte nos salva e nos dá lições de humanidade. A poesia amplia nossas dimensões.

NÓS

Quando repentinamente
olhamos para trás
e nossos pés flutuam
sobre as pegadas
dos que nos antecederam
e nos sentimos a corda
de uma grossa cadeia,
aprendemos que tudo
que é o outro
somos nós.

in Cinco Sentidos e Outros, ed. Lê

quarta-feira, 17 de junho de 2015

FEIRA LITERÁRIA DE RESENDE

Voltei da Feira de Resende fortalecida , apesar dos bilhões que foram cortados da Educação.
A Feira era uma festa num espaço ótimo para as crianças, tinha um ar de quermesse e era uma Feira Literária com povo dentro. Todas as classes sociais misturadas e todos comprando livros!

Dança, teatro, contação de histórias, computadores interativos com histórias, shows de música e cada segmento de Resende estava representado em suas barraquinhas. Lá fora um ar de festa junina, gente da Cruz Vermelha pintando as crianças, salsichão, pipoca, cachorro quente, crianças correndo...
Assisti a um show com a obra do Vinicius , música e poesia, lindo de morrer, um show de hiphop espetacular, tive um encontro com um público atento num auditório feito sob medida, e a Feira fechou com chave de ouro: a Deusa Elisa Lucinda, que derramou poesia e beleza pelo Universo inteiro.
Tomara que as cidades continuem fazendo as suas Feiras Literárias apesar da crise. É um sopro de esperança num país machucado.

sexta-feira, 12 de junho de 2015

PARA O DIA DOS NAMORADOS III

Namorado ou namorada é tudo de bom. Mas não precisamos ficar restritos a uma ideia preconcebida. Podemos namorar uma estrela, a lua, uma árvore, um cachorro, uma gata, uma rena, um boi, um cavalo... Namorar é derramar sobre o outro, humano ou não, um olhar amoroso.
Hoje termino de contar o meu conto da Maria, do livro Exercícios de Amor. Mas antes divido com vocês a primeira namorada do poeta Manuel Bandeira:

PORQUINHO-DA-ÍNDIA

Quando eu tinha seis anos
Ganhei um porquinho-da-índia.
Que dor no coração me dava
Porque o bichinho só queria estar debaixo do fogão!
Levava ele pra sala
Pra os lugares mais bonitos mais limpinhos
Ele não gostava:
Queri era estar debaixo do fogão..
Não fazia caso nenhum das minhas ternurinhas...

_ O meu porquinho-da-índia foi a minha primeira namorada.


MARIA (final)
 
   Ele conta: está separado. Passou por um período difícil, de depressão. Parecia que sua vida não passava de uma sucessão de desastres. Ele só poderia contar pessoalmente.
Mas, lá no fundo de tudo, havia um país ensolarado, uma jovem a quem dedicara tantos sonhos. Tudo isso dançava em sua memória quando ele queria afundar.
No fundo, ele sabia que podia reconstruir a vida.Então arriscara escrever sem saber se a carta chegaria ao destino. Era o endereço que tinha, numa caderneta velha, que sobrevivera intacta a todas as encruzilhadas.
   Quando seus pais morreram, Maria que morava sozinha depois de sua separação,voltou para a casa da infância. Às vezes esbarrava com ela mesma em algum cômodo da casa; a casa parecia uma arca de memórias. Mas era bom, sentia a presença dos pais, o seu amor. E agora estava aqui para receber a carta, como antigamente, o cheiro de céu no envelope.
   Maria queria ir para a rua e dançar na chuva. Era outra vez a menina do barco. Buscou o livro na estante: Vinte Poemas de Amor e Uma Canção Desesperada. Nenhum poeta escreveu versos de amor tão magníficos como Neruda.
   Maria escreve: "Julian, venha, temos muitos anos para passar a limpo. A minha vida também foi uma sucessão de desastres. Ou uma espera. Mas os poemas do Neruda que você me ensinou a amar, sempre me acompanharam."
   E nem por um segundo o metrônomo deixou de partir o tempo, até que a sua carta, como aquele pequeno barco, atravessasse o mar e chegasse até as mãos de Julian, e até que sua resposta chegasse num dia de sol: "Sim, vou".
   E nem por um segundo o metrônomo deixou de partir o tempo até o dia em que, com a mão tremendo, Maria abriu a porta da casa para Julian, que era o mesmo e não era o mesmo. Fazia sol. E o sol brilhava nos olhos de Julian. Na rua, o jasmineiro desprendia um cheiro de amor que se esparramava pela casa como um presságio.
   Um beijo que tinha gosto de cordilheira, de pássaros selvagens abrindo caminho novamente em seu corpo, de um barco azul e branco, mudou novamente sua vida e a rotação da Terra.
 
in Exercícios de Amor, Lê Editora, Altamente Recomendável para Jovens




                                             
   

quinta-feira, 11 de junho de 2015

CONTINUAÇÃO DO CONTO MARIA

   Então Julian a beija, e é a inauguração de seu corpo, um beijo imenso e salgado, seu primeiro beijo.
   Na volta, sentados juntos no barco, ele promete que vai escrever, que vai voltar, que agora ela é a sua namorada. Ele pede aos pais um pedaço de papel e uma caneta e anota seu endereço; ele diz, "eu prometo", num tempo em que as cartas, com suas palavras escritas em papel, era a ponte que unia pessoas distantes.
   Quando o barco atraca e range, Maria desce e apresenta Julian e a família a seus pais. Então todos resolvem almoçar juntos, passar juntos o resto da tarde. Os pais de Julian são alegres, simpáticos, e o menino, o irmão, faz palhaçadas para ser notado. Maria nunca havia imaginado que um momento tão perfeito pudesse existir.
   Da estante de livros seus pais a olham numa moldura de conchas, jovens, belos e enigmáticos. Ela fala para eles em voz alta: depois de tantos anos, Julian escreveu outra vez.
   A volta para casa naquele dia distante foi uma mistura de sensações. Julian era um sonho? O beijo ainda latejava em sua boca.
   Um mês depois recebeu uma carta. Ele prometia não a esquecer. Havia um poema do Pablo Neruda do livro Vinte Poemas de Amor e Uma Canção Desesperada. Maria entrou num curso de espanhol. E decidiu estudar literatura. De certa maneira, Julian forjou seu caminho.
   Mas, com o passar do tempo, as cartas foram se espaçando e Julian não voltou. Vieram outros beijos, outros encontros, um casamento que se desmanchou. Vieram alegrias e tristezas e nunca mais nenhuma carta. Nunca mais souberam um do outro.
   A chuva apertava. A carta, que ainda não foi aberta, lateja no colo, como um gato ou um filho. Ela abre a carta com cuidado, como um tesouro. A caligrafia, ela lembra, é a mesma, letras miúdas como pequenas mariposas. E ela pode ouvir sua voz, como se a carta fosse gravada

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                                          CONTINUA AMANHÃ

quarta-feira, 10 de junho de 2015

DIA DOS NAMORADOS

O Dia dos Namorados se aproxima. E quero lembrar que amor não é só de um homem por uma mulher ou de uma mulher por um homem. O amor assume as formas mais variadas e como disse o poeta, qualquer maneira de amar vale a pena.
E como disse Ítalo Calvino na epígrafe que usei em meu livro Exercícios de Amor, que retirei do livro O Dia de Um Escrutinador, Cia das Letras , " O humano chega aonde chega o amor, não tem fronteiras a não ser as que lhe damos."
Se o amor não tem fronteiras, toda forma de amor é lícita, só o desamor é ilícito. E quem ama não machuca, o amor precisa ser generoso para ser amor.
No meu livro de contos, cada um tem o nome de um personagem, homem ou mulher. E abordo com delicadeza muitas maneiras de amar.
O conto que escolhi para transcrever aqui como presente do Dia dos Namorados, e que irei dividir em três pedaços, é bem simples, singelo e fala de recomeço, de esperança, de chuva e de sol.  Fala de um amor que ficou latente, semente adormecida, o amor de um homem por uma mulher...

MARIA

   A chuva era uma cantilena que trazia ecos de um pátio da infância. Vozes perdidas enchiam a memória de cantigas de roda, mas nem por um segundo o metrônomo deixou de partir o tempo durante dias e meses e anos, até desembocar neste preciso instante onde Maria, com uma carta no colo, olha pela janela da sala os cacos de chuva, ao abrigo.
   Quando acordou nessa manhã de abril, ao descer para apanhar o jornal e a correspondência, não havia nenhum aviso no céu, além da chuva, do que estava para acontecer.
   Maria olha pela janela com a carta nas mãos e o que vê é um barco ancorado no cais, e ela, uma jovem menina, pronta para o passeio, enquanto seus pais lhe fazem mil recomendações. Eles a esperariam, na volta, no mesmo lugar.
   A carta traz um selo do Chile. E um nome: Julian. A doçura do nome esquecido em algum desvão da memória, oscila junto com o barco. Era um saveiro azul e branco e os turistas já se acomodavam prontos para a partida. Enquanto o barco se afastava naquela estrada de água clara, seus pais acenavam do cais e a família à sua frente falava espanhol. Um casal, um menino de uns oito anos e um rapaz de dezoito ou vinte.
   Sua rua é calma, as árvores suntuosas derramam verde na calçada.  O prédio é antigo, de três andares, construído na década de 50. Herança dos pais que morreram ano passado num acidente de avião. O bairro guarda certa inocência e a proximidade do mar, às vezes, traz um ar salgado e bom. Mas hoje traz saudades.
   O rapaz sorri para ela do banco em frente e, num átimo, senta-se ao seu lado. Eles conversam, cada qual em sua língua e, cada vez que ele fala, Maria estremece como se um vento desconhecido passasse por sua pele.
   O barco para numa pequena ilha e Julian a ajuda a descer. Sua mãe é doce e quente. Eles mergulham juntos no mar. Caminham até o final da praia abraçados.

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                                  CONTINUA AMANHÃ

terça-feira, 9 de junho de 2015

LIVROS PARA COLORIR

A Editora Manati, faz a seguinte chamada para o lançamento que farei do Colo de Avó, no dia 20 às 14 horas, no Salão do Livro Infantil e Juvenil, no Rio de Janeiro:

"Pessoal, olha que oportunidade in-crí-vel: UM LIVRO QUE JÁ VEM COLORIDO e não se propõe a salvar ninguém dos calmantes tarja-preta, com poemas de Roseana Murray , e a chance de ganhar um rabisco de quem mais importa (a autora predileta de milhões de brasileirinhos"

Não sou especialista em nada, mas gostaria de dar o meu palpite sobre este fenômeno editorial de colorir livros.
Façamos uma analogia: livros para colorir seriam eucaliptos. Livros de literatura, com letras, frases, histórias, poemas, estruturas de pensamento, seriam árvores frondosas da Mata Atlântica.
Acontece que metade das vendas de livros hoje são de livros para colorir para adultos.
Então no futuro teremos um deserto de eucaliptos.
Eu proponho:para cada livro de colorir que você comprar, compre dois de literatura. Só assim continuaremos seres pensantes.
Fabricar catedrais de pensamentos é um dos itens que nos faz humanos. Colorir é muito gostoso, assim como do eucalipto se faz papel, se acende uma bela fogueira, mas não se cria diversidade com eucaliptos,colorir é uma atividade lúdica que não inquieta. Mas acontece que temos que pensar senão o cérebro congela. Temos que entrar em outros, mundos, viver outras vidas para exercitar a empatia e a imaginação.
Acho o fenômeno muito preocupante. Espero que seja simplesmente uma onda passageira e que se esgote.
Aproveito para indicar o livro Uma Praça em Antuérpia, de Luize Valente, ed. Record. É seu livro de estreia e é muito bom. Não é para colorir.

domingo, 7 de junho de 2015

CAMINHADA

Retomo as caminhadas embora ainda não esteja bem, a virose grudou em mim!
Caminhar por dentro de Saquarema é uma dádiva imensa. A luz, os pássaros, a vegetação , as flores, as casinhas, entro num cenário idílico que deixa nas margens todos os horrores do mundo.
Penso: deveríamos oferecer às crianças, todos os dias, doses fartas de beleza, poesia, bem estar. Talvez assim o cérebro que é plástico, fosse se expandindo na direção do amor, como o girassol que busca o sol. É terrível vivermos imersos numa cultura tão violenta.
É como se houvesse uma rua com escombros, sangue, destruição, outra com sol e árvores maravilhosas.
Oferecer doses fartas de arte todos os dias nas escolas é escolher a rua maravilhosa.
O ser humano é feliz quando está criando. A sua auto estima cresce e ele consegue viver em outras dimensões.
Que todos os dias possamos exercer nossos melhores dons, descobrir a alegria simples de estarmos vivos.

sábado, 6 de junho de 2015

AMIZADE

Já li tantos ensaios sobre a amizade e no entanto, como é difícil explicar essa misteriosa forma de amor. Amigos para mim são sagrados, são bússola, âncora, arco-íris. São a rede no fundo do abismo, a aurora boreal dentro da noite escura. O primeiro mandamento para uma bela amizade, é a aceitação do outro. Do jeito que ele é. Nos momentos duros da vida os amigos verdadeiros ficam, os que não são verdadeiros fogem.  A qualidade do silêncio entre amigos é musical, é veludo. Um amigo sabe de mim apenas pelo tom da minha voz . Pela postura do meu corpo. Se um amigo me pedir a lua, vou tecer uma escada de vento para alcançá-la. Os amigos verdadeiros sabem as horas em que precisam estar presentes, eles possuem o dom da telepatia e da adivinhação . E como não poderia deixar de ser, escrevi muitos poemas sobre a amizade.

CORAÇÃO

Meu rosto se reconhece
na chuva e no vento,
as mãos se reconhecem
nas pedras, em seu silêncio denso,
os pés se reconhecem no barro,
nas folhas esmagadas e seu cheiro
de terra antiga,
meu coração se reconhece
na cantiga
de outro coração.

in Carteira de Identidade, Lê ed.

sexta-feira, 5 de junho de 2015

A VOLTA

Voltei de Veneza exausta, mas mais do que isso, com febre e dor de cabeça. Acho que peguei a virose da minha enteada Maya e sua filha Kira. Passei dois dias de cama e estou revivendo aos poucos.
Tenho uma viagem na terça-feira para Resende - Mauá e espero me recuperar bem até lá. Na verdade atravessar um oceano não é atravessar um lago e todas as vezes em que fui a Europa voltei muito cansada.
Agradeço aos leitores que viajaram comigo. Escrever sobre Veneza é uma temeridade, afinal tantos escritores maravilhosos escreveram sobre a cidade , compuseram obras musicais , como Wagner que ficava temporadas em Veneza buscando inspiração.
No último dia pela manhã fomos novamente até a Fondamenta Nuove, onde os turistas quase desaparecem. É um dos meus lugares prediletos .
Viver em Veneza deve ser muito difícil, três venezianos nos disseram :" Para conseguir morar em Veneza tem que ser veneziano, ter nascido aqui." O primeiro era o dono de um prédio apart-hotel em Dorsoduro, fomos ver o apartamento de curiosidade e conversamos com ele sobre isso. O segundo era o cabeleireiro onde cortamos o cabelo ano passado e voltamos para um novo corte. Ele nos disse que é tudo tão difícil, que realmente... só tendo nascido aqui. E finalmente o terceiro foi o dono do restaurante em Rialto onde nos levou nosso amigo Paolo, o garçom da Taverna Maurizzio, junto com sua noiva russa Eugeniya. Ele nos disse que se pode até amar Veneza mas morar é muito difícil, tem que ter nascido em Veneza. Pronto, três depoimentos idênticos de gente local. Paolo, nosso amigo, detesta Veneza, ele é de Puglia e mora em Mestre, terra firme, ligada a Veneza por uma ponte. Trabalha em Veneza mas sonha em sair dali. Quanto voltávamos para o hotel depois do banquete que nos foi servido, o casal nos acompanhou até lá, já era mais de meia noite , havia uma lua maravilhosa, e Veneza parecia outra, vazia. Só no Campo Santa Marguerita havia uma multidão compacta de estudantes, não dava para passar, Ficam ali conversando, bebendo muito, e nossos amigos nos dizem que só há uma discoteca em Veneza, porque é proibido o som alto. E Paolo suspira e diz: "Só gosto de Veneza à noite" .
Chegar em Saquarema é tão bom, o jardim, o mar e as gatas nos abraçam. Nossos caseiros que tomaram conta da casa na nossa ausência com tanto amor, nos abraçam. E me sinto acolhida.

sexta-feira, 29 de maio de 2015

ÚLTIMOS DIAS

Numa das noites em que Maya, a filha do Juan, ainda estava aqui, andamos até o ancoradouro perto do hotel e lá do outro lado víamos o Museu Gugenheim . Então ela me contou que antes da Peggy Gugenheim, o palácio havia sido da Marquesa Luisa Casati, um ícone para o mundo da moda. Ela viveu no começo do século passado e foi uma mulher milionária e excêntrica que dava em sua casa as festas mais loucas da Europa e passeava por Veneza com uma cobra enrolada no pescoço e com seu tigre de estimação. Tingia os cabelos de vermelho e pingava beladona nos olhos para que ficassem imensos, arregalados. Foi amante de D"Annunzio, usava vestidos de seda colados no corpo , vestidos de Fortuny, sem nada embaixo. Também era capaz de ficar nua em qualquer lugar para chamar a atenção. Era alta e magérrima. Maya me contava tudo baixinho e me dizia: Imagine o palácio iluminado por tochas, ela passeando pelos jardins com seu tigre de estimação...Maya também me disse que foi a mulher mais pintada e fotografada do mundo e fez da sua vida e do seu corpo uma obra de arte louca, como se tivesse saído da mente de um Dalí. Morreu em 1957 na miséria total pois gastou toda a sua imensa fortuna em suas festas.
Ontem, depois que Maya e as crianças foram embora, andamos até o Campo San Polo, passando pela Igreja San Apollinaire do século XI, que estava infelizmente fechada. Há que ir por Rialto e uma parte da Ponte está em obra, sendo restaurada. No tapume da obra há um trecho das Cidades Invisíveis do Calvinoi, o trecho em que fala do arco e da pedra. Que ideia maravilhosa colocar trechos de livros em tapumes de obra. Qualquer superfície é boa para receber um poema. A restauração da ponte , a aquisição de dois palácios por Prada, desmente o vaticínio de que Veneza está acabada. É um museu vivo que vai se desdobrando diante dos nossos olhos como um leque de sonho e água  . Sempre igual e diferente.
O que é horrível por aqui é a multidão que os cruzeiros despejam por suas ruas. Os cruzeiros, tão nefastos, deveriam estar proibidos e os turistas que chegassem saberiam muito bem que estão em Veneza, a cidade miragem de tantos rostos, que a cada dia desmente seu fim.
Vivemos os últimos dias. Segunda embarcamos de volta. Por que viemos sempre a Veneza?  Porque Juan é europeu e de vez em quando precisa estar na Europa e escolheu Veneza como a sua cidade.
Agora tocam os sinos que amo, uma orquestra de muitas igrejas. Um pássaro canta entusiasmado pois o dia está lindíssimo. Embrulho tudo junto, o canto do pássaro, os sinos, as vozes dos cantores das gôndolas e levo comigo.
Escreverei quando chegar em Saquarema. Até lá.

quinta-feira, 28 de maio de 2015

DORSODURO

Caminhar por Dorsoduro é uma verdadeira maravilha. Desembocamos no Campo Santa Margueritta, uma praça tão bonita, com uma feira de peixes frescos e luxuosamente arrumados , como jóias. Porque para um italiano tudo quem que ser belo. Há uma livraria na praça, há venezianos!!! há vida verdadeira, gente passeando com seus cachorros, velhinhos arrumadíssimos para o passeio matinal. Observei os venezianos comprando: apenas o que vão fazer para o almoço ou para o jantar, Bem pouco.
As casas são lindas de gritar e eu gostaria de alugar um apartamento aqui ao invés de estar num hotel.
Andando chegamos ao Campo San Pantalon com sua Igreja neo românica, fundada no século XII e reconstruída no XVII. Entrei na Igreja. Com a luz de fora ainda nos olhos levei um tempo para enxergar. O teto era uma verdadeira maravilha,  nenhum adjetivo alcança o que quero dizer e me sinto pobre de palavras. Os maiores artistas pintaram esta Igreja.
Na esquina da Igreja há um baixo relevo tão bonito de São Pantalon com uma palma na mão e acima um baixo relevo de um cálice. Como não sou católica não entendo os símbolos, mas a data me comove: 1698.
As esquinas são espaços de pura beleza, um recorte de janelas, balcões, telhados.
Passamos por uma alfaiataria. Ainda existe!!!
Passamos pela Universidade Ca'Foscare. No canal há um barco de comida barata "Hard Rock" com uma fila gigantesca de estudantes.
Encontramos um africano com uma roupa incrível, cheio de colares e um instrumento de cordas que parecia um alaúde. Perguntei de onde era e disse do Senegal. Falei que conhecia Dakar e ele ficou muito feliz. Se chama Alioune e seu instrumento se chama Kaamale Ongoni. Pedi para cantar e tocar alguma coisa. Ele perguntou meu nome. Então começou a cantar uma canção em que a cada frase repetia meu nome.  Depois me explicou que os versos eram seus . E dizia: "A vida é como um espelho, só vemos o que somos" . Fiquei muito emocionada.
Para almoçar voltamos para a praça, o Campo Santa Margueritta. Comemos numa trattoria na calçada com um menu do dia maravilhoso e baratíssimo. Doze euros e meio por pessoa com direito a dois pratos.
Na volta paramos numa sorveteria e Juan quis um sorvete de chocolate super amargo da Venezuela, quis provar e ele disse que não me dava nem uma provinha e comprou um inteiro para mim. Não gosto de sorvete mas este era uma outra coisa.
Na volta passamos por um barco feirinha de frutas e legumes. Na verdade dois barcos. Dentro de um deles se limpava tudo para arrumar no outro. Era um quadro.
Fizemos planos para o fim da tarde, mas Maya, a filha do Juan, pegou a virose da Kira. Febre e dor de cabeça.
Então ficamos no quarto lendo. Estou atracada com um romance policial de um autor israelense que não conhecia, Igal Shamir. A trama é incrível e embora seja aquele tipo de livro que não merece ser chamado de literatura, não desgruda das nossas mãos. Se chama O Violino de Hitler e mistura músicos da século XVII, nazismo, Veneza, uma salada.
Hoje Maya, Kira e Astor vão embora. Daqui a pouco.  Astor, de três anos, gostaria de levar uma gôndola no avião de volta para Barcelona. Vai saltando de uma ponte para outra gritando "Gôndola Gôndola"...

quarta-feira, 27 de maio de 2015

GOTIKA

Ontem Kira, a neta do Juan e minha neta do coração, acordou com febre e dor de cabeça. Mesmo assim fomos ao Palazzo Loredan no Campo S.Stefano para ver a exposição Gotika.
O Palácio foi comprado por Loredan em 1536 sofrendo várias reestruturações ao longo dos anos. É tão magnífico, são tantas pinturas maravilhosas que fico muda. Não sei o que dizer. Perco a voz.
A exposição de muitos artistas contemporâneos, toda em vidro de Murano misturado com outros materiais, é absurdamente boa. O choque da arte contemporânea com o Palácio já por si nos deixa em transe. Os artistas idealizam e os artesãos de Murano realizam. São obras inspiradas em animais mitológicos, armaduras medievais, há um desfile de monstros que se tornam belos pela perfeição da obra que exige uma maestria impressionante para a sua execução,
Numa sala há uma sereia de uma artista inglesa Kate Mccgwire que me deixou em estado de choque. Ocupa a metade de uma sala e é uma mistura de sereia com cisne, toda de vidro e penas. Dá uma impressão tão estranha, parece viva.
Numa sala absolutamente escura, um breu da noite mais fechada, pedaços de corpos de vidro branco brilham de uma maneira estonteante.
Ainda bem que fomos ver esta exposição, pois Kira piorava a cada momento e apesar de termos saído com sol, caiu um temporal impressionante com raios e trovões. Tivemos que voltar para o hotel.
Passamos o dia no quarto nos revezando com Maya. Ela saiu um pouco sozinha, depois fomos almoçar sozinhos e ela ficou no quarto e à noite acompanhei Maya a um restaurante para jantar pois ela não havia almoçado. A situação da Kira não era boa e eu estava assustada. Por duas vezes tomou paracetamol mas vomitava tudo. Finalmente conseguiu suportar o remédio e sua febre foi baixando.
Na volta do jantar os Campos por onde temos que passar para voltar ao hotel estavam tão lindos que dava vontade de gritar. Caminhamos por uma ruela até o canal e passamos por um hotelzinho minúsculo que nunca havia visto, se chama Novecento e era uma miragem.
Astor, de três anos, está enlouquecido com as gôndolas e quer levar todas para casa.
Hoje Kira amanheceu melhor e vamos tentar passar o dia fora. Ir para a Veneza de dentro, fugir das multidões.

terça-feira, 26 de maio de 2015

MAYA

Estivemos esperando Maya, a filha do Juan que vinha de Barcelona, a manhã inteira. Chegaria às 10:15 aqui no cais Giglio. Esperamos esperamos esperamos. Ainda bem que a vista do Canal é magnífica. No celular nenhuma mensagem. Quando nos cansamos de estar em pé voltamos para o Hotel nervosos. Ao meio dia ela chegou com Kira e Astor,os dois netos. Seu avião teve um problema técnico e atrasou uma hora. Além disso ela perdeu o vaporetto que para aqui na esquina e teve que esperar algum tempo pelo próximo.
Enfim saímos. Astor tem apenas três anos e andar com ele é complicado. Kira tem nove e já é uma linda mocinha.
Fomos para a Accademia caminhar no Zattere. Sobe escada, desce escada, uma ponte, outra ponte, outra ponte... Felizmente Astor se apaixonou de paixão perdida pelas gôndolas.
Almoçamos ao ar livre, debruçados na água. E falávamos da dificuldade de viver em Veneza e como já quase não há venezianos vivendo aqui. Tudo é complicadíssimo. Para fazer uma compra, levar crianças para a escola, ir a um hospital. Nada é fácil nesta cidade museu. E nem se fala do inverno. Dos ventos. Quase todos os  Palácios estão fechados. Felizmente muitos viraram hotéis e Museus.
Esta cidade deveria fechar o porto para os Cruzeiros e dar incentivos aos moradores para que não fossem embora. Veneza é tão bela que a sua irrealidade salta aos olhos.
No fim da tarde fomos para São Marcos e as crianças enlouqueceram com os pombos.É proibido alimentá-los, mas imigrantes paquistaneses, indianos, colocam milho na mão das crianças em troca de alguma moeda.
Africanos vendem bolsas falsas e a polícia tem algum acordo com eles, pois quando vem chegando perto, eles se afastam. Kira teve medo de que os levassem presos, ficou muito nervosa. A minha teoria é de que as próprias grifes fabricam as bolsas falsas.
Para hoje anunciavam muita chuva o dia inteiro, mas felizmente erraram. O dia está lindo! Vamos agora ver uma exposição num Palácio belíssimo, onde fica o Instituto Italiano de Desenho. E assim começará o dia, a sua arquitetura tendo que moldar-se ao desenho de uma criança de três anos.

segunda-feira, 25 de maio de 2015

GIUDECCA

A Praça São Marcos havia se transformado num oceano de gente ontem pela manhã . O dia estava lindo finalmente. Para chegar até a barca que nos levaria para a Giudecca era preciso se transformar num felino e se esgueirar por entre as frestas dos corpos.

Logo ao desembarcamos passamos pelo Pavilhão da Síria, na Mostra Paralela da Bienal. O título da exposição, belíssimo: "Origens da Civilização". Eram quadros imensos, de uma bela pintura abstrata, como se para falar do começo não se pudesse utilizar uma arte figurativa. Não guardei o nome dos artistas, apenas de um, pois nas paredes Liu Shuishi, que não tem um nome árabe, escreveu coisas lindas, por exemplo: "A história distante só pode estar presente pelas palavras".
Saímos emocionados ao pensar nestes artistas produzindo obras tão belas e neste país tão dilacerado pela guerra, pela morte , pela destruição.
Era um alívio estar na Giudecca, esta ilha tão linda, com tão pouca gente. Ontem, domingo, acho que o número de pessoas em Veneza dobrou.
Do calçadão, logo ao chegar , descemos na segunda estação, se vê o Palácio Ducal em frente , a Torre da Praça, uma vista estonteante .
Caminhamos ao longo do calçadão até o final, onde ficava uns dos maiores moinhos da Europa, uma construção belíssima, o Molino Stucky, construído nos final do oitocentos pelo empresário Giovanni Stucky. O moinho chegou a empregar 1.500 pessoas, trabalhando em turnos por 24 horas.
Em 1955 o moinho fechou depois de uma lenta decadência. Ficou abandonado por muitos anos até que em 2007 o moinho se transforma num grande e muito luxuoso hotel, o Hotel Molino Stucky Hilton. Entramos para visitá-lo. Lá dentro é outro mundo, nada lembra que aquele espaço outrora foi um moinho. Mas o melhor de tudo é que respeitaram a sua fachada. Ao lado ainda há um pedaço do moinho totalmente abandonado.
Caminhar pelo calçadão com a vista deslumbrante do outro lado, pois se vê todo o Zattere, o calçadão da Accademia, é o verdadeiro luxo.
Escolhemos um restaurante na beira da água. Era lindo, mas o atendimento péssimo. Ostaria ae Botti. Não aconselho, o serviço beira a grosseria.
Na volta, para fugir da multidão da Praça São Marcos  já pelas escadarias podíamos medir a sua espessura, fomos por dentro, pelas ruelas e que sorte! caímos dentro de uma livraria. Juan comprou um livro do escritor croata Predrag Matvejevic , "L'Altra Venezia". Ele vai contando a história dos detalhes, comecei a ler e é lindíssimo. Ele apreende Veneza de uma maneira muito parecida com a nossa. Escreve: Cada vez que se volta a cidade é igual e diferente ao mesmo tempo, de dia ou de noite, com sol ou sob a chuva". (minha tradução). Comprei dois livros e o dono da livraria era um livreiro de verdade, espécie em extinção.
Agora, enquanto escrevo, a filha do Juan, Maya, com seus dois filhos, Kira e Astor, já deve estar no barco a caminho do hotel.
Hoje não chove, mas está meio nublado, faz um pouco de frio.   E não faço a menor ideia de como construiremos o nosso dia .    

domingo, 24 de maio de 2015

MODIGLIANI

Ontem ao ultrapassar a porta do hotel fomos recebidos por muita chuva, muito frio, um dia horroroso, escuro, nada promissor.
Decidimos andar por dentro da Academia, seus pequenos canais maravlhosos.
Entramos na Igreja de San Trovaso, fundada no século VIII e reconstruída nos séculos XI e XVI. Dentro as obras de Tintoretto, Giambono, Maestro di San Trovaso, etc, não estavam iluminadas e a Igreja estava muito escura, a emoção era saber que numa igreja sem nenhum fausto os maiores pintores da época aí deixaram seus tesouros.
Ao lado do Sotoportego Calle Balastro encontramos uma feirinha que era uma joia, na beira do canal. A maneira como arrumam os legumes e as verduras é a mesma com que um pintor arruma as suas tintas. E então tenho que falar das vitrines, verdadeiras obras de arte. Nada é deixado ao acaso, são verdadeiras instalações. E tenho que falar das embalagens, parece que na Itália a beleza é o ar que se respira e o que é feio fica bem escondido.
Passamos por uma casa onde trabalhou Modigliani e podemos ler:

" Da Venezia ho ricevuto gli insegnamenti più preziosi nella vita;
Da Venezia sembra di uscirmene adesso come accresciuto dopo un lavoro" Modigliani, 1905
De Veneza recebi o ensinamento mais precioso da minha vida; De Veneza parece que ao ir embora agora, estou maior depois de um trabalho.

Quando Modigliani diz "adesso" , agora, o tempo é abolido e estou na sua porta, estou em 1905 .

Chovia tanto que o grande desejo era estar dentro de algum lugar seco e quente. Mas passeamos pelo zattere, o calçadão da Academia de onde se pode ver a Giudecca lá do outro lado.
Quando os sinos bateram as doze horas entramos no primeiro café que encontramos, numa ruazinha de dentro para a minha taça de vinho.
Paolo, nosso amigo garçom, nos recomendou muito um restaurante napolitano que fica no Campo S.Angelo e se chama Acqua Pazza . Adorei o nome, água louca e calculamnos o tempo para chegar lá às 13.30h.
Realmente é um restaurante impressionante. E dedico este almoço ao meu filho André, Chef do Babel em Visconde de Mauá. Pedimos de entrada flores de abobrinha .Mas antes como cortesia da casa trouxeram uma entrada belíssima, uma bruschetta, um bolinho de macarrão com queijo e alguma verdura empanada. As flores de abobrinha com queijo derretido dentro são o bilhete de entrada para o paraíso. Eu pedi um gnocchi que não era de batata, mas sim de trigo sarraceno e Juan um risoto de espuma de limão. Cada gnocchi parecia uma moeda grande com molho de tomate (o molho de tomate na Itália explica o nascimento do mundo) com manjericão.
E de sobremesa pedimos um tiramisù , parecia uma espuma de chocolate amargo e café.
No final da tarde fomos para a Praça São Marcos. Já não chovia. Neste percurso do hotel até lá, há a maior concentração de grifes famosas do mundo, certamente. Suas vitrines são belíssimas e os preços estonteantes . Será que alguém paga mais de mil euros por um vestido? Todas as lojas são maravilhosas.
Cada vez que se entra na Praça se perde o fôlego de tanta beleza. Nos sentamos no Café Lavena, aberto desde 1750. Os Cafés da Praça são absolutamente decadentes, mas para mim há muita beleza nesta decadência.
Eu me sentei de frente para a Igreja e o leão alado e dourado enchia meus olhos.   Os anjos falavam comigo. A Igreja fulgurava, ardia em todos os tons de dourado. Acho que não existe nenhuma praça mais bonita no mundo.
A pequena formação de músicos tocava umas três ou quatro músicas e parava para que os músicos do café ao lado pudessem tocar. A praça estava quase vazia, pois os milhares de turistas que são despejados diariamente em Veneza pelos Cruzeiros a essa hora já estavam longe, em seus navios.
Há em Veneza a máfia dos cruzeiros. Um acordo de cavalheiros corruptos entre os políticos , os donos dos navios, o comércio local.
Veneza possui apenas cinquenta mil habitantes. São os turistas que alimentam a ilha . Mas não sei o que compram ou deixam aqui estes grupos imensos. Pouca coisa, eu diria. Mas eles são o deleite dos gondoleiros.
Hoje vamos tomar um barco e caminhar na Giudecca para ver a vista de Veneza lá do outro lado. É como ver o Rio de Janeiro de Niterói.
Da minha janela, enquanto escrevo, ouço os sinos que agora batem as horas para que caiam no precipício do tempo em todos os tons de grave e agudo. Ouço as gaivotas e as vozes das pessoas que cruzam a ponte do pequeno canal onde está debruçado o pequeno balcão do nosso quarto.

sábado, 23 de maio de 2015

GUARDA - CHUVAS

Ontem pela manhã a Praça São Marcos era um imenso arco-íris de guarda-chuvas coloridos. As gôndolas passeavam cheias de guarda-chuvas. Chovia e fazia frio. Decidimos caminhar por dentro até o Rialto para olhar a vista lá de cima.
Chegamos ao Campo Sanzolo onde há a Parochia de S.Stefano. Um Palácio se impõe com seus detalhes rosados, talvez de mármore carrara.
Passamos por uma livraria antiquário, Libreria Linea D'Acqua e na sua vitrine uma coleção de 36 volumes com a data de 1781: Compendio della storia generale dei viaggi. Imagino um colecionador de livros antigos e raros entrando na livraria com o coração aos saltos. E naquela época sim, viajar era a maior aventura do mundo!
Ao chegar no Sotoportego Di Amai uma coisa inominável fere as linhas do Campo e do nosso campo visual: A Casa di Risparmo de Venezia, um quadrado horroroso, fruto de alguma permissão fraudulenta de algum Prefeito corrupto que deixou um Palácio ser demolido para que se construísse tal horror em seu lugar. Mas fico sabendo que o Primeiro Ministro Renzi enviou um Projeto de Lei para o Parlamento tornando o crime de corrupção eterno: não pode prescrever. Não sei se já está valendo mas a ideia é maravilhosa e deveria ser copiada no Brasil.
No Campo S.Luca , num Palácio, há um baixo relevo com uma virgem maravilhosa, de pedra, sua túnica é toda pregueada e no lugar do coração ela carrega a imagem do menino Jesus.
Chegamos na Calle del Teatro o de la Commedia.
Aos pés da Ponte do Rialto, antes de subir para ver a vista, nos sentamos num bar, no sotopertego, abrigados da chuva para um cálice de vinho. Juan pede um chocolate quente. Explodem os sinos do meio dia.
A vista de cima da ponte é um dos cartões postais mais belos e conhecidos de Veneza.
Como diz Juan, Veneza não é uma cidade, é uma sensação. Veneza é um lugar irreal e surreal. Uma dimensão.
Encontramos um restaurante muito antigo: Ristorante Al Colombo, aberto desde 1780!
Na volta vemos uma exposição surreal de Joseph Klibansky , no Campo Stefano. São quadros fotografias de uma Veneza coloridíssima e verdadeiramente alucinante.  Passamos pelo estúdio do artista Gianni Aicó. Em Veneza a cada esquina encontramos uma galeria de arte ou o estúdio de algum pintor ou escultor.
E vimos a exposição do Azerbaigian, um país para nós brasileiros muito remoto. A instalação de Huseyn Hagverdi é absolutamente impactante, um soco no coração. São seres humanos muito estilizados, lembrando esculturas africanas, enredados em estacas, cercas, enfim fronteiras fechadas. Tudo em madeira escura e sentimos todo o sofrimento daquelas "pessoas". Algo tão atual quando sabemos das milhares de pessoas de carne e osso que tentam escapar de seus países pela guerra, fome, falta de horizonte. Esta bela exposição faz parte das mostras paralelas da Bienal que invadiu toda a cidade.
Depois almoçamos na Tavernetta S.Maurizio, nosso amigo Paolo nos recebe com tanta alegria!
Comemos um risoto de frutos do mar e é impressionante a delicadeza dos mariscos, um prato perfeito. Comemos por 45 euros com meio litro de vinho, cesta de pão,queijos variados de sobremesa.
Comer uma vez por dia é mais do que suficiente e o café da manhã aqui no hotel é tão bom que vale a pena acordar com fome. Todos os dias como a mesma coisa: muzzarella de búfala , tomate, café e pão.
Agora chove, faz frio. O dia está feio, cinza, mas nada é capaz de tirar nosso fôlego e a beleza da cidade. Lá vamos nós para a rua.

sexta-feira, 22 de maio de 2015

FONDAMENTA NUOVE

Ontem, antes de sairmos do hotel, atenderam ao nosso pedido e trocamos de quarto, ou melhor de vista: agora nosso balcão dá para um pequeno canal por onde passam as gôndolas e do quarto ouvimos seus cantores. É maravilhoso.
Do  nosso Campo del Giglio, depois de farejar o ar, decidimos ir para a Fondamenta Nuove, o bairro amado por Joseph Brodsky, o poeta russo. É um lindo passeio. No caminho para São Marcos entramos na Galeria Contini , há uma exposição de Igor Mitoraj, escultor polonês que faz uma releitura das esculturas da antiguidade. Trabalha com mármore branco. Não gostei. Apenas uma me tocou, parecia um caracol gigante,
Para ir a a Fondamenta Nuove há que seguir em direção a Rialto e isso quer dizer multidão. Mas de repente, como num milagre, depois de subir e descer escadas e passar por muitas pontezinhas, antes de chegar a Rialto, viramos à direita e já a rua é vazia, suas lojas são simples e é como se saíssemos de um filme e entrássemos em outro.
Desembocamos no Campielo Bruno Crovato. Há um bar no Campo e todos os que estão sentados são venezianos.
Depois chegamos ao Campo S.Maria Nova.  Não é um Campo mas sim uma praça maravilhosa, senhoras e senhores sentados nos bancos , de um lado da rua há um antiquário e do outro uma loja esplêndida de carnaval. Logo ali ao lado há um Campo bem pequeno com seu poço e vejo a data: é de 1.800.
Numa ruazinha que sai da praça vimos uma exposição de fotografias num estúdio de arquitetura. A Mostra faz parte dos eventos paralelos da Bienal que privilegiam a arquitetura, pensam as cidades.
A exposição tem o belo nome de Città Africane in Movimento e são muitos fotógrafos. É belíssima a exposição.
Estamos na Veneza de dentro. Amamos este bairro tão simples, nenhuma suntuosidade, mas o silêncio dos canais.
No Campiello del Pestrin há um restaurante tipicamente veneziano onde vão comer os trabalhadores locais, os gondoleiros : Trattoria Cea.
Quando chegamos estava abarrotado e o movimento era magnifico , uma dança de pratos e jarras de vinho, cestas com pães para lá e para cá. As mesas são coletivas e nos sentamos finalmente, depois de alguma espera, ao lado de três trabalhadores.
O Menu do Dia, composto por três pratos por 16 euros, era magnífico. Comi uma pasta a la rabiatta, um prato de cogumelos frescos, uma lula em sua tinta com polenta branca, a polenta veneziana. O pão bem camponês, bem tosco, como adoro. Meio litro de vinho da casa.
A senhora que servia era super paciente ,nos explicou cada prato e conhecia todos e beijava todo mundo.  Perguntei e ela me respondeu: todos os dias há um menu diferente. Mas a Fondamenta Nuove fica longe, impossível comer lá todos os dias, infelizmente.
Ao sairmos havia uma loja fechada, parecia uma exposição permanente, e a sua vitrine era de enlouquecer. Ali havia sido , isso eu entendi, uma antiga tipografia, que neste ano completava 500 anos. Era a tipografia de Aldous Manutius e a data: 1515.
Como sei que a Fondamenta Nuove foi destruída e refeita, não sei se nestes quinhentos anos sempre esteve no mesmo lugar..
Na vitrine podemos ler e a autoria é de Di Francesco di Ser Bernardone:
" Chi lavora con le mani è un operaio. (Quem trabalha com as mãos é um operário)

" Chi lavora con le mani e il cervello è un artigiano" (Quem trabalha com as mãos e o cérebro é um artesão)

" Chi lavora con le mani, il cervello e il cuore è un artista" (Quem trabalha com as mãos, o cérebro e o coração é um artista)

A arte da tipografia , com todas aquelas peças e engrenagens maravilhosas está em franca decadência.
Somos espectadores de um novo mundo.

E hoje no café da manhã , nos jornais que vejo no balcão em frente , me dizem que a cidade de Palmira, na Siria, caiu nas mãos do grupo islâmico Isis que já deve ter destruído tudo na região que foi o começo do mundo e da civilização .
No N.Y Times, na primeira página está estampada a violência do Rio de Janeiro.
Mas estou em Veneza e por aqui se caminha pelas ruas sem medo nenhum. Não se ouve falar em roubos ou facadas.
Aqui mergulho o corpo e a alma na beleza mais absoluta.

    

quinta-feira, 21 de maio de 2015

CAMINHADA

Ontem decidimos ir até os Jardins do Arsenal onde está a Bienal. Esperarei a minha enteada Maya para ver a grande exposição, ela chegará dia 25.
Na frente da Igreja São Marcos uma cena que nunca vi no Brasil e para mim comovente: uma turma enorme de adolescentes sentados no chão com seus cadernos abertos no colo e a Professora na frente dando uma aula sobre a Igreja. Eles anotavam e prestavam toda a atenção, em silêncio.
Chegamos ao Campo San Zaccaria com azulejos de mármore carrara, belíssimos. Começaram a tocar os sinos que pontuam as horas. Há quem não goste dos sinos, eu amo, é como se a sua música fosse um tapete mágico e me levasse flutuando pelo rio do tempo. Neste campo há uma bica de água potável com uma cara de leão. Os leões estão espalhados por toda a cidade.
No Pórtico de San Zaccaria no Idade Média havia uma porta fechando o bairro. Há uma placa de pedra que fornece os horários da abertura, as letras bem apagadas, a data quase ilegível, 15...
Ao sair do Pórtico se vê uma torre inclinada.
Na esquina da Ponte Del Diavolo com a Fondamentina de Liosmarin há um baixo relevo bem intrigante: um homem de túnica, parece um romano, com um instrumento na mão, difícil saber se é um instrumento de trabalho ou musical. Dois operários trabalhavam numa reforma de uma casa em frente. Pedi a um deles para me ajudar a entender. Ele olhou, olhou e disse que era impossível saber. Então tomei a liberdade poética de decidir : uma harpa, era um tocador de harpa.
Logo ali há um Palácio maravilhoso que virou hotel: Palazzo Friuli. No mesmo lugar há a loja de fantasias mais linda que já vi, tão onírica que causa um arrebatamento.
Na Ponte Dei Greci outro Palácio estonteante: Hotel Liassidi.
Chegamos ao Campiello de La Fraterna, desembocamos no Sotoportego Dei Preti, chegamos ao Campiello de La Grana e entremos numa viela sem nenhuma pessoa, os turistas vão desaparecendo .
No Campo de Le Gorne há uma placa de pedra de 1787 lindíssima in memoriam do Conte Piero Foscani, com um leão alado. Por aqui já é a Veneza dos Venezianos. Aqui se ouve o silêncio entre os passos e entre as poucas vozes.
Na Fondamenta del Pintor cruzamos com um Senhor que devia ter mais de cem anos, todo vestido de negro, na mão direita uma bengala, na esquerda uma sacola de livros. A sua cor era de cera e tenho certeza de que era um fantasma, saiu para passear.
Chegamos ao Arsenal com seus quatro leões, dois imensos, um menor e um filhote. São monumentos navais.
Veneza terá outras Bienais, não apenas a de arte, mas de música, de dança e de carnaval. A de Música tem o título mais lindo do mundo: O Som da Memória.
Os títulos das exposições são maravilhosos e os cartazes estão espalhados por toda a cidade. Eu os saboreio , para mim são música.
Deixo então os jardins da Bienal para quando Maya chegar e nos sentamos no Campo Bandera e peço uma taça de vinho para receber os sinos do meio dia. Há que tomar muito cuidado, pois no mesmo Campo, na esquina, encontramos a Calle de La Morte.
Almoçamos na Tavernetta San Maurizio, perto do Campo San Maurizio (San Marco 2619) e nosso amigo Paolo nos recebeu com muita surpresa e alegria. Essa é a taverna que escolhemos para comer sempre, pois além de linda, animadíssima, tem um vinho da casa maravilhoso, a comida é excelente e ficamos amigos do garçom. Comemos uma vez por dia e ontem de entrada pedimos um Piatto Vegetariano, com legumes grelhados, eu comi uma pasta com molho de tomate e ricota e Juan uma pasta com vongole, de sobremesa queijos variados. O pão da casa é muito bom, o azeite nem se fala e o preço é justo: 64 euros. Comentei ontem que não se deve pensar em converter os euros para real, mas sim pensar num salário de 2.500 euros que é um bom salário por aqui. Onde se pode comer assim no Brasil com meio litro de um bom vinho, entrada, prato principal e sobremesa por 32,00 por pessoa?  Eu como num restaurante a quilo em Saquarema, sem nenhuma bebida, nem entrada, nem sobremesa por 20,00.
Claro que  aqui ainda se pode comer por um preço muito menor, há muitos restaurantes com menus turísticos por 15 euros .
Pela tarde fomos até a Academia, do alto da sua ponte se desdobra a vista mais linda do mundo, emocionante. Depois andamos até o calçadão , havia chovido, a luz estava linda e era dia ainda às 20hs.
As nove horas comemos um pedaço de pizza numa portinha na frente da nossa taverna, a melhor pizza que já comi na vida, há um movimento tão intenso, nem dá tempo da pizza esfriar, vão saindo do forno constantemente e se come em pé ou sentado na escadinha do poço do Campo a dez passos.
Hoje, que bom, faz um friozinho, entre 18 e 19 graus, choverá às 11 horas uma chuva fraca e novamente às cinco. Às 20 horas choverá forte.
Ainda não sei por onde andaremos.
 

quarta-feira, 20 de maio de 2015

CHEGADA

Saímos de casa às oito horas da manhã do dia 18. Nosso voo para Veneza sairia às 14:35. Mas nunca se sabe como será o caminho de Saquarema até o aeroporto. Chegamos em duas horas e nos sentamos num bar novo no Terminal 1. Todos que viajam sabem que o Terminal 1 do Galeão parece uma tumba: feio, escuro, deprimente.
Mas o tempo passou e a espera faz parte da viagem. O avião saiu pontualmente. Depois do jantar, lá pelas tantas, eu estava vendo um filme, perguntaram se havia algum médico a bordo. Chamaram muitas vezes. Pouco tempo depois o Comandante anunciou que teríamos que fazer um desvio e pousar em Recife pois havia uma pessoa passando mal.
Voamos mais de uma hora para pousar em Recife. A história foi assim: um senhor foi encontrado desmaiado no banheiro. Quando a equipe médica entrou no avião ele já estava acordado. Ficamos duas horas em solo com ele tomando soro. Parecia bem. E resolveu continuar a viagem. O Comandante exigiu um atestado da equipe de que ele poderia permanecer a bordo. Bom, levamos duas horas em Recife dentro do avião. Fiquei sabendo que a jovem senhora sentada perto de mim estava indo para a Sicília a trabalho. Um senhor ia para Beirute.
Perdemos a nossa conexão, é claro, mas como nos deram falsas esperanças de que a conexão esperaria um pouco, corremos feito loucos para conseguir , quem sabe, tomar o avião. A aeromoça ainda nos disse: o aeroporto de Roma é pequenininho! É imenso e depois de passar pela polícia, há que sair do aeroporto e entrar no nacional, passar outra vez pela polícia até chegar ao terminal. Ainda nos disseram: Corram que ainda estão embarcando! Se o médico que operou a minha coluna em fevereiro soubesse a maratona que corri... Claro que o voo já havia partido. Volta tudo para trás e na porta B3 há a Oficina de Trânsito. Então, aí sim, trocam nosso cartão de embarque para o próximo voo. Juan tinha a certeza absoluta de que perderiam as nossas malas.
Eu estava tão exausta que não vi nem senti o voo para Veneza. Mas nossas malas chegaram perfeitamente e depois de um banho no hotel e de um pouco de descanso saímos para caminhar.
Estamos no mesmo hotel que no ano passado, com a mesma vista para o Campo del Giglio.
A sensação é a de que não saímos daqui, que o tempo não passou. A sensação é de continuidade.
Veneza não é uma cidade , é uma miragem. Há lojas antiquíssimas e esplêndidas, verdadeiras jóias. Lojas de encadernação, papelarias, máscaras, lojas de queijos e especiarias, galerias de arte, quando as ruas já são uma imensa galeria de arte. Há que olhar para cima, pois vimos lá no alto, um relevo de o final de 1.500! Era uma cena religiosa e abaixo um sapato. Não entendi mesmo.
Entramos numa galeria com um nome em inglês: Holly Snapp Gallery, na Calle delle Botteghe, com a linda exposição de mulheres do pintor inglês Geoffrey Humphries. Amei! Agora vamos buscar as mil exposições que estão acontecendo em Veneza por conta da Bienal.
Às 19.30, famintos, entramos na Osteria Doge Morosini. O restaurante onde trabalha nosso amigo Paolo estava fechado, devem fechar às terças.Recomendo: Fica numa ruazinha lateral ao Campo Santo Stefano que é maravilhoso. Comemos esplendidamente, entrada, prato principal , sobremesa por 66 euros. Quanto estamos fora não pensamos em converter o dinheiro, pois os salários das pessoas "normais" são mais ou menos iguais aos salários do Brasil. Não se come assim no Brasil por 33 reais cada pessoa. Impossível. A sobremesa vale o comentário: Juan pediu um pedaço de gorgonzola. Veio numa travessa lindamente arrumada, numa cama de rúcula os pedaços de gorgonzola com mel. Uma verdadeira iguaria.
Agora vamos para a rua como sempre sem nenhum plano definido. É assim que amo viajar. Fugindo das multidões, flanando, olhando.
Ontem terminamos nosso passeio na Praça São Marcos que para nossa felicidade estava quase vazia num belo entardecer. Chegamos no hotel às 21 horas e começava  a escurecer. Dormimos dez horas seguidas.