quinta-feira, 26 de março de 2015

A VIAGEM

A minha viagem rumo à montanha começou no dia 17 quando o Dr. Schettino, que operou a minha coluna disse que sim, eu poderia viajar. Perguntei se podia dançar e ele disse : _Valsa!
Dia 18 eu e Monica fomos para Resende. Era uma quarta-feira. Eu e meu neto enlouquecemos de felicidade! A Atrium, Escola de Música, já estava a mil por hora quando chegamos. A família toda almoçou no Babel Bistrô, do meu filho Chef e passei a tarde com a Gabriela, a outra neta. Gabriela tem um ano e quatro meses e fala uma lingua bem complicada, mas lá no meio a gente entende uma frase inteira.
Passei 24 horas em Mauá com a Monica. Chegar na minha casinha depois de cinco meses de ausência foi uma emoção avassaladora . Era fim de tarde. Quando acabamos de arrumar tudo nos sentamos na varanda e já era noite e chovia. Abrimos um vinho. A vida era simples. A mata, escura e respirando em nosso corpo.
Dia 21 a Atrium, em Resende, recebeu umas 120 pessoas para o lançamento do livro da minha nora Patricia de Arias, "Uma Ideia no Bolso", ed. Rovelle, e um café da manhã. Monica foi a fotógrafa oficial. Houve uma contação de história, as crianças emudecidas de tanta atenção. O espaço lindíssimo que é o da aula de teatro e musicalização, abarrotado. Eu era a pessoa que mostrava o livro e passava as páginas para a Contadora de Histórias.
Então voltei para a montanha. Monica foi rever amigos em outro lugar. E as primeiras 24 horas, quando então voltei para Resende, nem notaram que houve uma interrupção.
No domingo recebi minha amiga Leila. Nosso projeto era dedicar bastante tempo para a meditação.
E foi o que fizemos. Meditamos juntas várias vezes ao dia. Fogão de lenha aceso, frio e neblina, tudo o que eu desejei ardentemente durante os cinco meses em que não pude vir.
Na minha casinha nem o celular recebe sinal. Para telefonar tenho que andar até o Babel Restaurante.
Ontem viemos para Maringá-Rio passar o dia com a minha irmã Evelyn em seu belíssimo, estonteante Ateliê de cerâmica , o Ateliê Kligerman-Mérigo.
Eu e Leila dormimos na Pousadinha Cruzeiro do Sul, atrás do ateliê, pois aqui não há lugar para dormir. A Pousada é de uma simplicidade que emociona. Parece um quadro naif, os jardins tão bem cuidados, os cheiros de frutas no pé, de grama cortada, de terra densa , bem preta, me deixam em êxtase.
Ontem almoçamos no Restaurante Trem de Minas, comidinha caseira, deliciosa, bem de roça. Hoje voltaremos ao restaurante e uma amiga querida virá ao nosso encontro.
Depois do almoço subo para a casinha e os laços com o mundo se cortarão outra vez. Desaparecerei um pouquinho outra vez.

segunda-feira, 16 de março de 2015

MALAS NA VARANDA

Acordei para viajar. A felicidade pessoal é como uma orquídea , há que saber cuidar. Com palavras, gestos e principalmente há que alimentá-la com o olhar. A felicidade é o vento bom que nos inunda quando sabemos viver as pequenas coisas com intensidade, pois tudo passa como um sopro. A felicidade não depende de grandes aparatos, grandes arquiteturas e engenharias. E é possível separar a felicidade pessoal da dor do mundo, a que carregamos com esforço.
Acordei para viajar e o céu estava maravilhoso. Escrevo quando puder.Não se esqueçam de mim!

domingo, 15 de março de 2015

MANUAL DA DELICADEZA

A ed. FTD fez uma edição nova do meu livro Manual da Delicadeza. São as mesmas ilustrações da Elvira Vigna, mas o formato é diferente. Antes era um livro comprido e agora é um livro pequeno. O tamanho do livro mudou a minha percepção das ilustrações. O livro diminuiu e elas cresceram muito. E os poemas cresceram junto.

A nossa sociedade hoje está crispada, tensa, violenta. Nada delicada. O século XXI é duro, com guerras por intolerância religiosa. Jovens desertam de suas vidas, de seus países, para ingressar em movimentos terroristas que matam da maneira mais cruel, destroem, nos levam para as ruelas inundadas de sangue da antiguidade.

Há uma falta generalizada de delicadeza. E ela é o exercício mais necessário para que possamos exercer a nossa precária humanidade que se inaugura quando me reconheço no outro mesmo que ele seja diferente.
A intolerância e a brutalidade tornam a vida áspera.
Uma parte do país foi para as ruas defender o Governo e felizmente tudo aconteceu em paz. Hoje outra parte sairá para protestar e esperemos que tudo ocorra em paz. Todos, cada um de nós, tem o direito de pensar de uma maneira ou de outra. Sem bombas ou destruição.

MOINHO

São as águas
da delicadeza
que movem o mundo.

Uma palavra amorosa,
um gesto,
uma carícia,
fazem a Terra
mais azul
e mais leve,
trazem à pele
a memória mais antiga:

Também somos um grão
de estrela e de infinito.

sábado, 14 de março de 2015

UM CAMINHO NO OUTONO

Levo comigo um pequeno livro do Kafka , uma espécie de diário, onde anotava seus pensamentos,indagações, discussões sobre o pecado, o bem e o mal. Muitas vezes são páginas lindíssimas, fazem o coração disparar. Às vezes uma pequena frase e me desprendo de mim e voo. "Cuadernos en Octavo", não sei se existe em português. 
No dia 6 de novembro de 1917 ele escreve:" Como um caminho no outono: acabam de limpá-lo e já está outra vez coberto de folhas secas". Logo em seguida escreve: " Uma jaula foi em busca de um pássaro."
Estas duas frases me inquietam. Porque a vida é este caminho coberto de folhas secas que uma e outra e outra vez temos que limpar, nas tarefas miúdas do cotidiano e só quando a vida corre perigo, vemos a beleza deste gesto que se repete desde o começo do mundo. Além disso, um caminho coberto de folhas secas no outono enche meus olhos de dourado e a sensação dos pés que fazem música pisando nas folhas que estalam,  fazem  meu corpo se fundir com a terra.
E "uma jaula foi em busca de um pássaro", além de uma pintura me fala sobre o nosso desejo de conforto,m de aprisionamento, de um vestir-se de clichês, frases feitas, porque a verdadeira liberdade dói. Porque o céu é demasiadamente imenso e quando livres temos a perfeita dimensão da nossa insignificância. 

sexta-feira, 13 de março de 2015

HONRA

Acho que recebo de Saquarema muito mais do que mereço, sem estar fazendo demagogia ou dizendo isso para que vocês respondam aquilo. Mas ontem fui incluída pela Secretaria de Educação e Cultura entre as 14 pessoas homenageadas porque fizeram e fazem parte da história de Saquarema.
Eu simplesmente existo aqui, quietinha no meu canto. Tento fazer algo pela leitura nas escolas, porque tendo participado de tantos projetos de leitura acabei aprendendo alguma coisa sobre a formação do leitor.E é o mínimo que posso fazer.
É uma honra muito grande você ficar sabendo que faz alguma diferença na sua cidade. E ao dizer isso para o Nelsinho, pintor e figura maravilhosa ontem à noite, que tanta gente merecia mais do que eu estar ali, ele me disse a frase mais linda: _ mas você está aqui, entre a gente, escolheu estar aqui.  
Entre os que já não vivem na Terra, meu grande amigo Latuf, que foi embora me deixando órfã de uma das mais belas amizades que já vivi, estava entre os escolhidos. Ele era mais velho do que eu, mas ele dizia, eu era a sua idiche mami. Com bolo e café com leite para a merenda.
Minha amiga Fátima Alves, por exemplo, constrói uma história tão bela aqui no Município, com o seu Educandário do Bem. Silenciosamente ela transforma a vida de muitas crianças e jovens. Ela oferece Oficinas de Capoeira, Rodas de Leitura, Dança, Percussão e ainda outras, que são fruto de parcerias. Funciona no contra turno escolar, apenas para quem está matriculado em Escolas Públicas. São mais de cem crianças, todos os dias! E com lanche e numa casa linda que transborda amor.
Fátima não faz alarde do seu trabalho E precisa muito de colaboração. Tem gente que se oferece para cortar o cabelo das crianças, para pintar a casa, consertar, remendar. Tem gente que contribui com pequenos valores mensais que ajudam a pagar as contas de água e luz.
É emocionante alguém fazer um trabalho tão imenso e que dá tanto trabalho, apenas para fazer um bem!
Quem quiser colaborar com a sua gotinha de chuva que ao se somar com outras gotinhas e receber um raio de sol, farão o mais belo arco-íris, deixo aqui o telefone e o endereço do Educandário do Bem.
Tele: 22 26532501
Endereço: Rua Cananéia número 02 (final da Rua Pereira), Bairro da Raia, Bacaxá, Saquarema.
E agradeço aos que me escolheram para estar entre as pessoas que fazem a História de Saquarema, tamanha honra.

quinta-feira, 12 de março de 2015

LANÇAMENTO

Estou quase de malas prontas. Farei uma viagem cheia de surpresas. Primeiro vou para a casa da Monica no Rio, onde uma braçada de afetos me espera. Pipoca, sua linda viralatinha, já mandou dizer que está com saudades. Urso e Polar também. Além da minha amiga tem a sua netinha, filha da Louise, que adotei em meu coração, tem a Letícia, o Bruno, A Dôra que faz comidas maravilhosas... é muita gente amada. Depois de alguns médicos e a algumas visitas, sigo para Resende levando a minha amiga junto.
E lá em Resende, filhos, noras e meu neto Luis e minha neta Gabriela.
Gabriela, com um ano e quatro meses falou a sua primeira frase: "neném quer papar", sendo filha de dois cozinheiros...
Meu neto Luis, como mora dentro de uma escola de música e artes, faz todos os cursos para a sua idade. E agora também faz aulas de hiphop e está amando.
Viver longe dos netos é um suplício. Cada vez que nos encontramos eles já mudaram demais.
Sábado dia 21 minha nora Patrícia de Arias lança seu terceiro livro , Uma Ideia no Bolso, com ilustrações de Elizabeth Teixeira , ed. Rovelle. O livro é uma graça. O lançamento será no casarão da Atrium  Escola de Música, no Centro Histórico de Resende, Será um Café da Manhã com contação de histórias. Estarei lá, super orgulhosa da minha nora, excelente poeta. Sou sua tradutora e se alguém quiser conhecer a Patrícia, estar um pouco comigo, que venha!
E depois... Mauá, minha casinha na Mantiqueira. Mergulhar na mata.

quarta-feira, 11 de março de 2015

GRITO DE GUERRA

O Brasil anda em pé de guerra. O momento é muito delicado. Escuto gritos de guerra e gostaria de me posicionar. Porque um político disse que era preciso dar porrada nos burgueses. Um ex Presidente diz que é preciso botar o exército dos Sem Terra nas ruas.
Tenho amigos de todas as idades e de todas as cores. De todas as camadas sociais. Da Classe A a Classe Z. E de todos os matizes políticos . Pois entendo que qualquer ser humano, desde que respeite o seu semelhante tem direito de pensar do jeito que quiser. Tenho 64 anos, brasileira, profissão poeta, branca, burguesa, de elite. Já que tenho casa própria, seguro de saúde e posso comer e viajar. Não sou consumista por filosofia de vida. Prefiro usar o que ganho para ajudar quem posso. Na nossa casa empregamos um casal. Ele é diarista, jardineiro e vem duas vezes por semana. Samuel, um ser humano maravilhoso. Ela é a nossa caseira,Vanda. Trabalha meio expediente, mas ganha mais que o salário mínimo. Além dos encargos, todos os meses deposito seu FGTS. Nossos empregados comem na mesa com a gente e trabalhamos num esquema de cooperação.  Sofremos, eu e meu marido, de empatia crônica. Todos que nos conhecem sabem disso.
Mas como sou branca, burguesa e de elite, e discordo completamente do Governo em ação e do seu tom belicoso e estridente, mereço levar porrada. 
Sou pacifista. Prego o entendimento. A delicadeza em todas as esferas. Claro que eu seria hipócrita se dissesse que falamos a verdade o tempo todo. Mas há limites para a mentira e para o engano.
Não gosto deste clima de guerra e de ver  quem não pensa como eu como um inimigo a ser exterminado. Tenho horror, por motivos genéticos, da palavra extermínio.

terça-feira, 10 de março de 2015

O AMOR É VERMELHO

Ganhei de presente o livro O Amor é Vermelho, da poeta Suzana Vargas com fotografias belíssimas de Antonio Lacerda, ed. Garamond.
Para a poeta o amor é vermelho, é sangue, pele, corpo. Às vezes é áspero,  e o outro inalcançável. Às vezes é pedra, sombra, numa poesia de arquitetura perfeita, numa trama espessa.

COMO SEMPRE
Na minha estrada há sempre um trem partindo:
trilhos, acenos, lenços,
lembranças me esmagando, muitos sóis.

Há sempre um ocaso ameaçando
as fotos novas que prego
em meus murais.

Tu és mais um adeus
neste caminho
que acomete diamantes,ouro
tardes tardes e mais sol
enquanto eu passeio muda
                                pelas sombras.

segunda-feira, 9 de março de 2015

MORTE EM VENEZA

No último encontro do Clube de Leitura da Casa Amarela discutimos dois livros que se entrelaçam e são opostos. Marca D'Água de Joseph Brodsky é um mergulho do olhar na beleza, não uma busca pela beleza, pois simplesmente ela está em tudo e o poeta e suas entranhas navegam sem tensão.
Se Marca D'Água se passa no inverno, Morte em Veneza de Thomas Mann se passa no verão, num calor que tudo apodrece, até mesmo o mundo interno tão bem construído do personagem escritor.
Falamos das premonições, Cristiano lembrou que se em Marca D'Água o poeta é o narrador e personagem, em Morte em Veneza temos o narrador separado do personagem.
A busca pela beleza em sua escrita, em sua vida, é cheia de tensão, o escritor nunca relaxa, ele não é um poeta que mergulha  que se deixa perder, mas um caçador. Disciplinado, atento e tenso. Sua vida até então é uma arquitetura muito bem construída que começa a ruir já na escolha do seu destino, quando o destino se impõe. E rui definitivamente quando encontra Tadzio, o menino de beleza deslumbrante.
Fernando pergunta: " a sua paixão por Tadzio é homossexual ou apenas a busca da beleza perfeita"?
Todos achamos que é uma mistura das duas coisas. Maria Clara fala do mito de Narciso. E diz que o amor homossexual é narcísico, o que gerou muita discussão.
Cristiano trouxe dados concretos da vida de Thomas Mann.
E falamos do contraste entre a "velhice" do escritor e a extrema juventude de Tadzio, apenas um menino. E como tudo se soma para desembocar na morte.
Falamos muito. É um livro muito rico. Magnificamente estruturado.
Discutir dois livros tão belos dá fome. Um almoço maravilhoso preparado pela Vanda, nossa caseira, vinho e pão feito em casa (por mim). E no final uma homenagem aos que fizeram ou fariam aniversário. Na verdade, Suzana e Leila, mas muitos também quiseram a homenagem e foi divertido. Cantamos parabéns, e já somos uma família.
Próximo encontro: dia 16 de maio às 11hs
Livros: As Cidades Invisíveis, Italo Calvino, alguma crônica do Rubem Braga e um poema da Elizabeth Bishop.

  

 

domingo, 8 de março de 2015

ENCONTRO



Ontem aconteceu o nosso encontro do Clube de Leitura da Casa Amarela. Recebemos uma convidada muito especial: Suzana Vargas, poeta, criadora do espaço Estação das Letras no Rio de Janeiro.E Cristiano Mota Mendes, músico, ator, diretor de teatro, leitor extraordinário, que de vez em quando aparece.
O grupo é bastante heterogêneo, o que torna a leitura de um livro extremamente rica, são tantos olhares diferentes .
Começamos com Marca D’Água de Joseph Brodsky, que nos leva com seus olhos de poeta por uma Veneza no inverno, que eu achava em preto e branco, mas Maria Clara me chamou a atenção para os dourados delicadíssimos na luz do inverno. Maria Clara também nos diz que pelo fato de ter voltado a Veneza 17 vezes, a intimidade do poeta com os labirintos venezianos o torna quase um ser aquático.
Adelaide, Janaína, César e Maria Clara comentaram sobre a dificuldade de entrar no livro e eu diria que há que atravessar o primeiro nevoeiro, pois não é um romance, não é um livro de poemas. É uma divagação, um quase sonho. Hélio diz que é uma prosa poética e romântica.
Juan falou sobre dois momentos do livro que também aconteceram com ele em viagens a Veneza. Juan é, como Brodsky, um amante de Veneza, de tal maneira, que Felipe Gonzalez, quando estava no poder, lhe ofereceu o cargo de Cônsul Honorário O passeio de gôndola por uma Veneza desconhecida onde o gondoleiro pediu que se deitasse no fundo do barco e o encontro com a viúva de Ezra Pound.
No livro Brodsky faz um passeio impressionante de gôndola à noite.
Leila nos diz que fez um passeio de gôndola bem turístico, mas completamente emocionante. Ela encontrou a paz, e também um novo olhar sobre a cidade.
Ninguém conhece a origem das gôndolas, diz Juan, e Chico conta das gôndolas em Las Vegas, para mim, algo completamente estranho. Como uma baleia num aquário. Juan completa: ao conhecer uma fábrica de gôndolas em Veneza, lhe contam que os maiores compradores são americanos.
Angela e Helio leram trechos belíssimos.
Todos falamos sobre a beleza que o olho encontra naturalmente em cada lugar que pousa. Assim também a escrita de Brodsky, maravilhosa.
Falamos dos espelhos e da água.
Da água calma e lacustre e então passamos para o mar, para Veneza no verão, para Morte em Veneza.
Continuo amanhã a nossa viagem.

quinta-feira, 5 de março de 2015

CINEMA

Já que em Saquarema não temos cinema, vou vendo os filmes que caem nas minhas mãos. Muitas vezes pesco filmes maravilhosos na TV fechada. Ontem vi London River, a história de uma mulher que vive numa ilha britânica e de um guarda  florestal africano que trabalha na França. Seus destinos se cruzam na busca pelos filhos desaparecidos. O filme é belíssimo, perfeito e muito muito muito triste. 
Uma amiga me manda uma mensagem: "por favor, veja A Cem Passos de Um Sonho" . Vai amar".
Comento com a minha irmã e ela disse que viu e tem o filme e me envia por correio.
Adorei o filme, é uma graça. Amor e gastronomia. Culinária francesa e indiana. Atores maravilhos, muito humor e final feliz. Pronto, uma receita maravilhosa. Vi duas vezes.
Os sabores são uma das melhores chaves para abrir o castelo da memória.

quarta-feira, 4 de março de 2015

SOLUÇÃO

Vocês sabem aquelas bicicletas cobertas , fechadas, lá dos países do Oriente, conduzidas por alguém que pedala?
Pois bem, vi uma reportagem mostrando a mesma condução, mas ao invés de alguém pedalando aquele peso tão grande, a "bicicleta" era elétrica.Cabem três pessoas. E ela salvaria o mundo, as grandes cidades. Sonho: poderia funcionar com energia solar. Já se poderia estar fabricando este veículo aos milhões.
E os carros seriam coisa do passado. Caros, pesadíssimos, poluentes.Atravancadores.
Imagino além: estas "bicicletas" coloridas, bem coloridas, as ruas pareceriam um eterno arco-iris.
E quem adivinha porque isso não é possível?
Porque o mundo anda na contramão do mundo. E não há quem consiga financiar este projeto que colocaria um ponto final nas indústrias de carros, na dependência que temos do petróleo, etc.

Escrevo na varanda.  Escrevo voltada para o jardim. O dia está absolutamente azul.  Os coqueiros dançam. No flamboaiã não há mais flores mas a árvore está cheia, gorda de folhas de um verde macio. E o mar canta nas minhas costas.

terça-feira, 3 de março de 2015

POÇO DOS DESEJOS

Para escrever os poemas do meu livro Poço dos Desejos, ed. Moderna, fiz uma lista de desejos. Perguntava para as pessoas: _Qual o seu maior desejo?
Mas pensando bem, tão importante quanto saber o que desejamos é saber o que não desejamos.
Tenho uma lista do que não desejo. Difícil administrar isso, pois às vezes é necessário dizer não.
Dizer não às vezes é muito importante.
Que cada um um de nós saiba claramente o que deseja. E saiba dizer sim e não na hora necessária.
Mas há um desejo que nunca passa :

DESEJO DE ABRAÇO
Desejo de abraço
nunca passa.
Abraço é o nó mais delicado
que há.
Um braço aqui e outro lá
e o coração se derrete,
o corpo afunda na mais
gigantesca felicidade.

in Poço dos Desejos, ed. Moderna

  
 

segunda-feira, 2 de março de 2015

RECUPERAÇÃO

Hoje faz um mês que fiz uma grande cirurgia na coluna, quando apenas três meses e meio antes havia feito uma grande cirurgia no quadril.
Com apenas um mês já faço quase tudo e não tenho dor. Já assumi a cozinha da casa. Eu sou a cozinheira.
Eu já não tinha a memória de um tempo sem dor.
Agora tenho vontade de dançar.
Nunca imaginei que isso pudesse acontecer. Para o milagre, dois grandes cirurgiões, claro,e uma grande amiga, Monica Botkay, que entrou novamente na minha vida para me conduzir a este final feliz. Mas foi preciso que eu chegasse ao mais fundo do poço.
Voltei para casa muito fragilizada e agora faço meditação novamente com a supervisão de uma terapeuta de meditação healling. Como moro longe, a supervisão é feita por whatsup, usando a tecnologia como suporte.
Aconselho meditação como um remédio muito eficaz. É impressionante como está sendo fundamental na minha reconstrução..
Quando uma pessoa tem dor contínua por vinte anos, diariamente, a dor pauta a sua vida.
Há que aprender a não buscar a dor.
Faço planos, mergulho de cabeça nos meus projetos.
Em breve poderei ir para a montanha. A minha casinha dentro da mata me espera. Onde escrevi o Diário da Montanha.
Numa das meditações que fiz ontem, uma imagem lindíssima: ao fazer contato com o coronário (o lugar onde fica a moleira do bebê) um baobá irrompia de dentro de mim rumo ao céu. Suas raízes eram a minha coluna. Nunca tive dúvidas de que sou humana-árvore. Tem gente que é. Mas com esta linda imagem que meu inconsciente me enviou, fica provado. Só não sabia que eu era um baobá.

domingo, 1 de março de 2015

NA COZINHA

Ratos e baratas, para mim, são monstros. Odeio e dou chilique. Mas, convenhamos , a cozinha deveria ser o último lugar onde estes "monstros" deveriam viver.
Pois bem, li uma matéria ontem de William Helal Filho, que me deixou estarrecida. Uma matéria bem pequena mas que demonstra muito concretamente a falência moral de um país.
Restaurantes e Botequins na Gávea e Leblon, os bairros mais caros do Rio de Janeiro, com ratos e baratas na cozinha, TONELADAS de alimentos estragados, restaurante japonês com quilos de salmão fora do gelo, carne apodrecendo numa hamburgueria famosa... e nós , simples e crédulos mortais, acreditando nos donos destes restaurantes. Pois o princípio de tudo é a confiança. Se vou comer num lugar caro, num bairro nobre, para festejar com amigos, para festejar um aniversário, digamos, eu confio que a cozinha estará limpa, que os cozinheiros tenham muito orgulho do seu trabalho, etc, etc, a matéria prima de primeiríssima qualidade!
Quando o dono do restaurante, em plena consciência, convive com ratos, baratas e alimentos podres, a sua moral também apodreceu. Ele traiu um pacto entre o que cobra e o que oferece. Está enganando, roubando.
Os nomes dos estabelecimentos estão no O Globo de ontem.
Que cada um de nós se proteja e não se deixe contaminar por toda esta onda de lama que assola o país. Que cada um permaneça limpo e ofereça o melhor que tem dentro , o melhor do seu talento, dos seus esforços. É o que nos confere dignidade.
Se cada um de nós fizer o que sabe fazer da maneira mais bela possível, sem enganar, trair, roubar, ainda podemos salvar o país.

sexta-feira, 27 de fevereiro de 2015

MEMÓRIAS

Recebo por correio um livro da minha irnmã Evelyn que mora em Visconde de Mauá. Ela comprou num sebo e chorou muito. Ela me diz: se prepare para ter um encontro com o nosso pai.
O livro se chama Eu, Filha de Sobreviventes do Holocausto de Bernice Eisenstein.
Eu respondo: nossos pais vieram antes da guerra. Nós não somos filhas de sobreviventes do Holocausto.
Ele me diz : leia, mas se prepare.
Comecei a ler.  O pai da autora É o nosso pai. A sua casa da infância É a nossa casa.
Meus pais vieram antes da guerra, mas toda a minha infância convivi com sombras.
Muito pequena mesmo, com seis anos, eu já sabia o que era um Kapo, um neurótico de guerra. Na minha casa se falava ídiche quando era pra gente não entender. Eu nunca quis aprender. Mas sei algumas palavras pejorativas, palavrões, nomes de comida. Minha babá negra, a Eunice, xingava em ídiche.
Como o pai da autora , meu pai era um jogador. Meu avô materno também. E nosso vizinho, Waldemar, neurótico de guerra, tinha em casa como um Salão de Jogos. As pessoas (só judeus) iam lá para jogar.
Meu pai, como o pai da autora, tinha acessos de raiva, mas era engraçadíssimo, ria, contava piadas, comia muito. Ele dizia: Passei fome na Polônia. A fome que a gente passa nunca passa.
Meu pai era lindíssimo. Um homem alto, de olhos azuis, sempre bem arrumado. Como o pai da autora. E como ela eu sempre disse para mim mesma: Ah, porque não herdei os belos olhos do meu pai? Meu pai era um homem muito sensual. 
Algumas posturas do pai da autora são do meu pai. Domingo de manhã, deitado na cama, ouvindo música clássica. Já no segundo acorde ele dizia o autor e eu com uns oito anos nem podia acreditar.
Como a família da autora toda a minha família na minha infância morava perto, mas perto mesmo, quase ao lado. Bem novinha eu ia só de uma casa para outra para comer as delícias. Biscoitos de nata na casa da minha vovó Faiga e pudim de duas cores na casa da tia Cecília.
Meu pai nunca queria falar do passado. Não sei nada do seu passado na Polônia, nem quem são os seu antepassados. Ouvi falar, de leve...Não sei quem ficou na Polônia .
Meu pai saiu da Polônia com 14 anos . Ele não falava polonês. Só ídiche. Mas cantava uma música meio indecente que eu adorava: da Tatiana. É que a Tatiana estava doente e foi ao médico , mas a sua doença era um bebê na barriga! E pedia: pai, canta a musica da Tatiana!!!
O irmão do meu pai morava em Niterói.Tio Waldemar. E sua mulher era tão doce, minha tia Dora. Eles conversavam muito em ídiche.  Passei minha infância indo de barca ver meus tios. Os irmão se amavam e era bom, eu sentia a felicidade do meu pai. Contavam piadas, riam.
O pai do meu pai foi assassinado na sua frente. A Polônia, mesmo antes da guerra não gostava nada dos judeus.
Meu pai me deu uma caixa invisível cheia de tesouros: a honestidade como valor absoluto, a compaixão, saber que a minha humanidade é um exercício diário. O amor pela arte. Meu pai era um homem bom. Incorruptível. Nunca desejou bens materiais. Nunca se curvou diante de ninguém. Queria amor. O amor dos filhos.
Faz tanto tempo que ele se foi. Mas ontem nos encontramos . Lejbus Kligerman, meu pai, a morte não existe.
 

quinta-feira, 26 de fevereiro de 2015

ATOS E PALAVRAS

Às vezes fico tão desesperada com o mundo que não quero ouvir nada nem ler jornal nem saber de nada, como se assim apagasse as tragédias. Mas é impossível. Estamos no mundo. No café da manhã o jornal O Globo já está na mesa. Mas há uma coluna no jornal que amo : Conte algo que não sei. É sempre gente fantástica falando com alguma proposta ou algum olhar bem diferente.
Hoje fala Gab Gomes, empreendedor urbano. Ele diz : "A utopia serve para a gente caminhar".
Ele diz que temos que nos apropriar da nossa rua. O espaço público é nosso. E pequenas ações são revoluções.

O mundo hoje, as grandes cidades, super habitadas não podem ficar apenas nas mãos dos governantes.
Se você puder fazer algo pela sua rua faça. Não fique apenas reclamando.
Ele fala do Múrmura, um projeto que trabalha este conceito. Múrmura é uma palavra linda. Parece um rio murmurando. Ele diz que o mundo precisa cada vez mais de pessoas que façam. As ideias já existem.
Concordo com ele. Não podemos cruzar os braços. Trabalhemos no pequeno.

quarta-feira, 25 de fevereiro de 2015

FRUTA NO PONTO

Ontem a minha editora da FTD disse que neste semestre sairá uma nova edição, com novas ilustrações, do meu livro Fruta no Ponto.
Este livro tem uma belíssima história. Saiu em 1986. Antes de sair, eu estava em Belo Horizonte e Bartolomeu Campos me disse: "vi as ilustrações do seu livro. O livro está ficando maravilhoso."
Só vi o livro pronto. Muito mais do que maravilhoso. Era algo novo. As ilustrações de Sara Ávila, abstratas, ocupam na página o mesmo éspaço que o poema. Se o poema tinha três estrofes, na página ao lado a ilustração também tinha três estrofes.
Uma noite, no meu apartamento do Rio Comprido, era uma festa, não lembro porque amigos e família estavam lá. Tocou o telefone. Era alguém da F.N.L.J. Não sei se Laura Sandroni ou Eliane Yunes. Meu livro havia recebido o Prêmio de "O Melhor de Poesia". Era o primeiro ano em que davam este prêmio.
Comecei a tremer e em minutos estava com 40 graus de febre. Fui para a cama e me encheram de cobertores.
Este livro foi para a Feira de Frankfurt em 1994. O Brasil era o país homenageado. Um poster com o livro ali na Alemanha. Muita emoção.
Em 2016 Fruta no Ponto faz 20 anos.

terça-feira, 24 de fevereiro de 2015

FLORES RARAS

 Encontro a descrição do livro Flores Raras que amei. Faz tempo que li. Está abaixo. Ontem vi o filme do livro por Bruno Barreto e fiquei emocionadíssima. As atrizes estão mais do que perfeitas e convincentes.Vale a pena ver.
Uma cena, para quem é poeta, vale por mil aulas de poesia. Elizabeth Bishop, em sua primeira aula de poesia na frente da turma, nos Estados Unidos, depois de ganhar o Pulitzer , diz aos alunos mais ou menos isso:
Não acho que se possa ensinar a fazer poesia. Posso ensinar a olhar.

" Na década de oitenta, ao ler esta dedicatória em livro de Elizabeth Bishop para Lota de Macedo Soares, a escritora Carmen L. Oliveira ficou intrigada - ´...Lota?´, indagou-se. Em 1966, na pós-graduação nos Estados Unidos, conheceu a obra de Bishop, famosa poeta americana, e ficou surpresa ao saber que, naquela época, as duas moravam no Brasil. Mas quem era Lota? No início dos anos noventa Carmen descobriu que Maria Carlota Costallat de Macedo Soares foi uma esteta brasileira, que concebeu e construiu o Parque do Flamengo, enorme contribuição para a cidade do Rio de Janeiro. A publicação nos Estados Unidos do livro One art, que reúne a correspondência de Bishop, revelou a ligação amorosa das duas, que durou de 1951 a 1967. Nas biografias lançadas sobre a poeta, a esteta brasileira aparece como her lover, sempre em segundo plano. Simultaneamente, Carmen descobria em Lota um dos mais fascinantes, insólitos e raros personagens brasileiros deste século, que caiu em total anonimato. Neste livro, a autora conta a relação das duas e a criação do Parque do Flamengo. E ao contrário das biografias norte-americanas, que priorizam Bishop, o livro focaliza Lota e as figuras que junto com ela construíram a história recente do Rio de Janeiro e do Brasil. Segundo a autora, a relação das duas pode ser dividida em duas fases. Nos primeiros dez anos foram felizes e assumiram sua homossexualidade com surpreendente naturalidade para a época. A partir de 1961, a obsessão de Lota pela conclusão do Parque do Flamengo e a crescente instabilidade emocional de Bishop contribuíram para que enfrentassem uma forte crise até 1967. Muito além de um caso amoroso, o livro revela trechos inéditos da história do país: as discussões de Lota com o governador Carlos Lacerda, a briga com o arquiteto Sérgio Bernardes, a rivalidade com Burle Marx, a presença de Manuel Bandeira, Clarice Lispector, Portinari, Carlos Scliar, Rachel de Queiroz e Carlos Drummond de Andrade. Mas sua principal contribuição é o resgate de Lota, consciência de vanguarda que combateu a fúria imobiliária e a intervenção nos monumentos naturais do Rio de Janeiro. Lota conseguiu pela primeira vez no país que um projeto urbanístico fosse tombado."

segunda-feira, 23 de fevereiro de 2015

PARA COPIAR

Algumas atitudes mudam a vida da própria pessoa e mudam a vida de muita gente. Recebi um depoimento maravilhoso de Lucia Pellon. Por favor, copiem.
Conto histórias desde que me entendo por gente. Primeiro, para minha irmã mais nova, depois, como professora de Jardim de Infância, logo que saí formada do Instituto de Educação, e também para os três filhos, e agora para os netos. Assim que me aposentei, há vinte anos, trabalho como voluntária em casas que trabalham com crianças de comunidades de baixa renda. Monto bibliotecas com o acervo doado ( muitos livros bons,impressionante ) e trabalho com oficina de leitura. Conto histórias, sempre de livros, e depois proponho um aproveitamento do texto, através de técnicas de arte- educação, nos moldes da saudosa Escolinha de Arte do Brasil, de Augusto Rodrigues. Há, em paralelo, o empréstimo de livros, quando a criança escolhe livremente qual deles deseja levar para casa. Ao retornar o livro, a criança faz um breve relato, para as colegas, sobre o que leu, se gostou ou não, como uma propaganda do livro.
Continuo frequentando cursos de contação de histórias, porque o professor tem que se atualizar constantemente. Sou discípula do Mestre Francisco Gregório e do ator, autor e palhaço Março Andrade.

domingo, 22 de fevereiro de 2015

PROJETOS

Abrigo em minha casa vários Projetos que me dão felicidade , alegria, vitalidade.
Atualmente tenho três funcionando. O Clube de Leitura da Casa Amarela, onde os leitores compram o livro indicado para ler em casa e nos encontramos de dois em dois meses para discutir o que lemos.Não é uma discussão acadêmica, eu não tenho nenhuma base para isso. É uma discussão amorosa. Depois ofereço um almoço ,pão feito por mim, vinho. Desta vez além do livro Morte em Veneza, também se poderá ver o filme depois do almoço. Discutiremos também o livro Marca D'água de Joseph Brodsky. Interessantíssimo discutir os dois livros juntos pois Joseph Brodsky comenta Morteem Veneza, o livro e o filme.
O Segundo Projeto é o Café, Pão e Texto. Recebo escolas para um café ou almoço literário, um encontro comigo. É fantástico, emocionante. Espero que em abril já receba a primeira escola do ano com a Eczúvia Magenta. Podemos remarcar Eczuvia?
O terceiro é um encontro mensal com os professores trazidos pela Secretaria de Educação.
Faço meus projetos como a minha pequena doação. Já consegui fazer leitores. E amigos!!!
O Coral do Maestro Moises Santos já veio por duas vezes cantar aqui em casa e espero que logo venha pela terceira vez.É muito emocionante.
Já fiz vários lançamentos de livros aqui. Acho que a Casa Amarela já tem vida própria.

sábado, 21 de fevereiro de 2015

DANÇA

Sou apaixonada por histórias de esforço e superação, talvez porque a minha própria história pessoal caminhe por esta estrada.
Já falei aqui do Leo, o bailarino de Saquarema que estuda balé no Teatro Municipal, terminou a Faetec e passou para uma Uuniversidade Pública onde cursará dança. Os esforços deste lindíssimo menino para conseguir dar conta de todos estes compromissos morando em Saquarema, são inimagináveis. Com a ajuda de várias pessoas, amigos e admiradores, Leo conseguiu doações para pagar as passagens, lanches, etc. Maria Clara, do nosso Clube de Leitura, que foi sua professora, abriu sua casa no Rio para ele.
Pois bem, Leo ganhou uma bolsa completa para um curso de um mês em Miami em julho.As possibilidades que se abrem para o Leo, de uma carreira internacional são imensas. Se o Balé de Miami gostar do seu desempenho, ele ganhará uma bolsa completa de um ano, com passagem, hospedagem, alimentação.
A sua viagem em julho não dá direito a nada disso. Apenas o curso. Leo é negro e sua família não tem a menor condição de ajudá-lo. Acontece que o Leo voa. Que o seu sorriso é o mais lindo do mundo. Acontece que o Leo é um exemplo magnífico para jovens estudantes. Então, é impossível ficar indiferente ao esforço do Leo. Já estou mexendo o caldeirão de bruxa boa para conseguir a passagem do Leo. O meu conselho para o Leo foi : Não aceite dinheiro de políticos. Hoje em dia é um dinheiro perigoso. Portanto, sopro poesia no meu caldeirão e quem quiser ajudar, fale comigo.

sexta-feira, 20 de fevereiro de 2015

O MAR

Notícias do mar que só vejo de longe, daqui da varanda : está calmo, assim parece. Azulazulazul , o que pede como complemento gaivotas brancas .Ainda não posso descer até o mar, o que será possível assim que tiver alta no dia 17 de março. Tenho vários encontros marcados para depois da alta. Comigo mesma, com a montanha e o mar.
Espero para março meu livro Duas Casas que sairá pela ed.Lê com ilustrações maravilhosas da Elvira Vigna. Neste livro falo das minhas duas metades, de um lado meu sangue é verde e do outro misturado com sal. 
Já tenho vontade de trabalhar. Em breve recomeçarei meu Projeto Café, Pão e Texto.Se consigo tocar uma criança com meus poemas já ganhei todos os prêmios.
Sinto a vida mais espessa dentro de mim. Meus pós operatório está terminando.

quinta-feira, 19 de fevereiro de 2015

VISITAS

Ontem minha amiga Monica me disse: já somos uma tribo.
Amo a palavra tribo. Mas depende do que une a tribo.
Saramago uma vez disse numa conferência, eu estava na plateia:
"Existe no mundo a tribo da sensibilidade".
E os amigos são a tribo mais maravilhosa do mundo. Um grande exercício de amizade é ficar atento. Se meu amigo(a) oeiras precisa de algo e eu posso ajudar, tento ajudar. Para mim é quase um ofício. Sou exímia tecelã de redes.
Hoje recebo Letícia, filha da Monica e seu namorado Bruno. Eles foram grandes Anjos da Guarda na minha recuperação lá no Rio. Poder retribuir um pouco é um luxo.
Ao mesmo tempo meu filho Guga recebe a Nina , a outra filha da Monica em Resende para encaminhá-la a um belo lugar de cachoeiras.
Esse é o sentido da tribo e suas conexões.
Eu espero o dia de voltar a Mauá para a minha tribo de árvores.

quarta-feira, 18 de fevereiro de 2015

CALMARIA

Saquarema acordou bem mais vazia e silenciosa. Que venha a calmaria mas com vento. Não tenho ferramentas para compreender a loucura que cobre a cidade, as cidades. Isso é tarefa para antropólogos. O furacão CarnavalBrasil pede que você entre em seu núcleo.Que você participe. Estar fora é estranho.
Mas a vida é assim, cheia de abre e fecha parênteses.
Entretanto a loucura que toma conta do país pode ensinar muitas coisas ao mundo. Todos pulando e dançando juntos, pele com pele, o meu suor é o teu suor, e se trocássemos as guerras pelos blocos de carnaval? Palestinos e israelenses sambando juntos, gritando juntos, russos e ucranianos, etnias africanas ? Cada um cantando em sua língua. Ninguém precisando matar ninguém.
Engraçado, no carnaval há um ímpeto nos homens em se vestir de mulheres. No entanto, não vejo as mulheres querendo, desejando se vestir de homens.  Ao contrário, cada mulher traz à tona tudo que pode da sua sensualidade feminina.
Talvez os países árabes devessem importar o carnaval brasileiro para que as mulheres pudessem dançar junto com os homens.(Tenho até medo de escrever isso. Será que estou ofendendo?)
Então, talvez  a loucura- carnaval ajude a quebrar preconceitos. Sabe aquele homofóbico doente? Está lá no bloco, vestido de mulher, pulseiras, colares, batom. Sabe aquela senhora racista? Nem que estude mil anos conseguirá sambar como a negra maravilhosa ao seu lado.
Mas o carnaval já é uma miragem que se afasta. Novamente, fantasias no armário, as pessoas retomarão suas vidas, seus preconceitos. Bom seria que algo maravilhoso sobrasse. O desejo de ser verdadeiro. Pequenas loucurazinhas em doses homeopáticas, tipo uivar para a lua. 
  

terça-feira, 17 de fevereiro de 2015

MEMÓRIAS

Carregamos um saco de memória nas costas. Li uma reportagem muito interessante. Mas Jung já falava disso no inconsciente coletivo: o que meus pais passaram os medos que trouxeram da Europa, entraram mo meu DNA . Sou uma herdeira de experiências que não vivi. Então, às vezes o saco de memórias vai nas costas e outras vezes é alguma coisa que vive dentro de mim, que veio de longe.
O saco de memórias do nosso jardineiro Samuel tem cheiro de fazenda. Ele sempre trabalhou na terra, arando, dirigindo trator, levando o leite  para a cooperativa no interior de Minas. Adoro conversar com ele. Entendo a sua nostalgia.Ele é da terra profunda como eu.  Hoje ele veio trabalhar, pois é diarista.E não gosta de carnaval. Pedi para cortar a grama de dois pedacinhos de jardim. E o cheiro da grama cortada abre o meu saco de memórias. E me faz feliz. Sou transportada para o campo. A temperatura está maravilhosa e este cheiro inebriante de verde me dá vontade de dançar feito uma árvore..A minha paixão pela terra vem de longe. Não sei praticamente nada da minha família, mas alguma voz distante diz que minha avó materna  morava no campo, na Polônia. E claro que se examinarem atentamente meu DNA, sou árvore também.

segunda-feira, 16 de fevereiro de 2015

ANTIDEPRESIVO

No começo de 2014 comecei a tomar um antidepressivo . As dores que tinha não eram suportáveis e eu me afundava num pântano. Todos as manhãs quando acordava urrando de dor pensava como iria suportar o dia. O Cymbalta é um auxiliar na dor crônica. E consegui sair do pântano e respirar. Mas eu já tinha programado parar o Cymbalta depois da cirurgia. Só que parei de uma vez só, contrariando todos os cânones da medicina. Tive muitos efeitos estranhos. Hoje finalmente acordei bem. Digo, por dentro.
A partir desta experiência a consciência de mim ficou abalada. Eu era eu mas também uma outra. Eu não choro nunca. Fiz um bloco de pedra para aguentar tanta dor. Pois bem, chorei todos os dias um pouco.Gostei de chorar.
Sou uma pessoa de paz. Não gosto de brigar. Mas tive acessos de irritação , perdi a paciência, queria quebrar a casa. Eu tinha acessos de mar revolto por dentro.
Conto tudo isso para dizer que a gente toma os remédios quando precisa tomar. Ainda bem que eles existem. Dor crônica é uma doença terrível. Como se nosso corpo fosse uma jaula com um leão querendo arrebentar tudo.  Mas não é fácil deixar nenhuma droga. Café, cigarro, álcool e etc. Conto tudo isso apenas para dividir uma experiência.
Quem sou eu? Onde termina o meu ser ? Até que ponto me conheço?  Quando a dor no corte da cirurgia passar e toda a área em volta estiver liberada. serei uma pessoa sem dor. Espero que a ausência da dor me faça uma pessoa melhor. Mais uma vez uma outra pessoa. Nunca pensei que um dia seria possível viver este sonho.

sábado, 14 de fevereiro de 2015

MANHÃ

Aproveito as primeiras horas da manhã quando a temperatura está bem leve e amena. Tomei um banho gelado no jardim às 6hs. Há uma primavera que faz uma cortina cor de maravilha. Mergulho em suas flores.  Um galo cantou muito ao longe. Ainda não posso ir ao mar, mas deixo que o intervalo entre as ondas, este silêncio cheio de expectativas, me envolva. Cada vez mais aguço os sentidos Neste exato momento um beija flor faz piruetas diante dos meus olhos.
Logo fará tanto calor que será impossível estar aqui na varanda.  Será impossível estar em qualquer lugar. Para quem não gosta de calor, é claro. Juan, meu marido, adora. Para ele quanto mais quente melhor. A nossa incompatibilidade meteorológica é abissal.  Ele diz: "mas eu nasci na Andaluzia com 45 graus!". Isso não é motivo, eu retruco, pois nasci no Rio de Janeiro, com 40 graus e tenho sempre nostalgia do inverno, de chuva fina, de brumas que tudo encobrem...  Aqui estou sempre cercada de ventiladores e Juan fugindo do vento. Ele diz: "Coitado de mim, logo chegará o inverno!"
Juan volta da Feirinha cheio de presentes. Conseguiu ovos caipira de um velhinho bem velhinho que cria suas galinhas no quintal . Na barraca da tapioca, ele me conta, o dono da barraca serve vestido de mulher, pois hoje é carnaval. A sua mulher toda séria, ao seu lado, não o reconhece. Ele volta todo animado, os temperos transbordando dos braços.
E assim, a vida é um espetáculo. Somos a sua matéria prima.


sexta-feira, 13 de fevereiro de 2015

MARCA D'ÁGUA

Começo a reler Marca D'água de Joseph Brodsky para o encontro do Clube de Leitura da Casa Amarela. Estou possuída pela sua beleza em estado absoluto. Cada parágrafo mexe com todos os meus sentidos.
Marca D'água é Veneza em preto e branco. É a noite líquida, transformada em água.Marca D'água é o poeta que nos leva pelas ruelas dos seus pensamentos. Alguns poetas são generosos e nos lembram quem somos e onde fica a nossa terra natal.

Ainda há silêncio em Saquarema nestes últimos momentos que antecedem o carnaval. Sou completamente apaixonada pelo silêncio e suas nuances. Sei o quanto vou sofrer. A invasão. Gente que chega de todos os lados.

Andei hoje 15 minutos na rua. Na volta fiz um pão. Quando faço pão evoco para mim mesma a história de uma belíssima amizade. Aprendi a fazer pão com a Dona Maria do Vale do Pavão, em Visconde de Mauá. Uma camponesa calejada pela vida tão dura que lhe coube e que dizia as coisas mais lindas e filosóficas e poéticas , ali, naquela cozinha de uma casa de roça, o fogão de lenha sempre aceso, de onde ela retirava fornadas e fornadas de pão. Quando Seu Elói , o marido, estava presente, enquanto enrolava o cigarro de fumo de rolo, contava casos que nunca tinham nem começo nem fim.
Ela me ensinou a fazer pão e a caçar felicidade. Nas mínimas coisas. Sou muito grata. 

domingo, 8 de fevereiro de 2015

A VOLTA

Voltei para a vida aos pouquinhos depois da cirurgia na coluna. O Dr.Schiattino retirou um cisto do tamanho de uma bola de gude que estava pressionando os nervos. Colocou uma prótese de titânio no lugar de disco com quatro parafusos e acordei na U.T.I intermediária, uma das piores experiências que já tive. Com oxigênio, sonda , remédios fortes na veia e a pressão muito baixa. Achei , pela primeira vez , que ia morrer e não era bom. Passei por outras experiências limites, mas era como um sono, como dormir devagarinho. Desta vez não. Não sei explicar. Dentro de mim era vazio, era horrível. Mas no fim do dia fui para o quarto, tiraram as tralhas e foi tudo melhorando. Meu quadro de pressão baixa mudou e eu já ia aos pouquinhos me encontrando.
A dor era só no corte.
Tive alta e vim para a casa da Monica, este casarão de cem anos que me abraça. Pouco a pouco vou melhorando. Ontem já caminhei. Mas ontem foi o dia mais lindo e louco da minha vida!
Amigos, irmão e cunhada, chegaram, todos foram chegando. E meu filho, mulher e neto e minha neta-cachorra Luna que eu não conhecia. Os três cachorros não gostaram muito. Foi uma adaptação difícil, mas agora está tudo em paz. E de noite dormimos todos no mesmo quarto! Primeiro meu neto amou a cama de hospital e quer uma igual. E na cama dormiu a família  inteira com a Luna, minha irmã no chão e eu na cama de hospital . Nunca estive mais feliz!!!! Queria dormir assim para o resto da vida!!! Todos os que amo dividindo a noite e os sonhos. Meu neto amou o acampamento. E eu que sou uma vovó tão apaixonada entrei na brincadeira.]
Hoje, eles se vão. Mas logo o médico me dará alta para voltar para casa e depois aos dois meses alta para viajar. E as dores malucas desapareceram. E eu já sei quem sou novamente. Roseana poeta, que apesar de 20 anos de dor contínua, conseguiu levar a vida com humor, força e alegria. Claro que a poesia e os livros foram sempre o meu suporte.
Agradeço a todos que rezaram por mim, que pediram aos deuses , ao Universo, que me ajudaram com seus pensamentos maravilhosos de cura.
Poderei andar novamente, ir à praia, caminhar um pouco na montanha, andar de triciclo em Saquarema (meu sonho total de consumo).
Agradeço aos anjos que ainda estão cuidando de mim: Monica com seus três cachorros, Letícia com seu grande amor, Dora com suas comidas maravilhosas e minha irmã Evelyn que largou tudo para ficar comigo.  
Agradeço ao Juan, meu grande amor. Conviver diariamente com alguém com dor crônica não é fácil.
E la nave va. Com alegria.

domingo, 1 de fevereiro de 2015

ESPERA

Este tempo de espera num casarão centenário com uma grande amiga, sua filha, três cachorros, a cozinheira  Dora, uma imensa e florida acácia amarela e uns meninos lindos que estão aqui passando férias, foi maravilhoso. Recebi tantas visitas, tomei banho de chuveirão no quintal, comi comidas fantásticas, celebramos a vida cada dia.
Conheci pessoas novas, todos os dias recebi fotos dos meus netos e hoje chega a minha irmã. Amanhã cedo é a minha cirurgia . Ficarei com alguns parafusos na coluna, além de humana, serei algo como uma loja de ferragens, e esta palavra composta "loja de ferragens" me leva até a Rua Barão do Bom Retiro. Eu era criança, tinha uns sete anos e seu Waldemar, amigo do meu pai, tinha uma loja dessas. Mas além de ferragens vendia louças, copos, panelas, relógios. Todos os dias eu ia visitar a loja, na esquina da nossa casa. Namorava as canecas , namorava tantas coisas lindas.
Então é assim,sou uma loja de ferragens que range em suas dobradiças ( serão agora três próteses e parafusos) mas lá dentro tenho gavetas e mais gavetas cheias de poesia.
Um domingo maravilhoso para todos. Volto a escrever quando puder.

sábado, 31 de janeiro de 2015

CHUVA

Choveu de madrugada. Acordei com a chuva. Já estamos sentindo na pele diariamente o que o desmatamento da Amazônia faz. A situação é terrível. E a chuva que caiu de madrugada, caiu dentro do meu sono e me acordou de leve, foi uma bênção dentro da seca que estamos vivendo.
Os governos desmatadores são assassinos. Os que derrubam árvores para plantar são assassinos. Os que possuem poder para impedir o desmatamento e fecham os olhos e cruzam os braços e olham para o outro lado, são assassinos. Nenhum interesse político ou econômico poderia estar acima da floresta. Porque simplesmente é a nossa sobrevivência que está em jogo.
Os neandertais desapareceram e não sabemos a causa. Mas nós, humanos ora sublimes, ora destruidores, para não desaparecermos, temos que preservar o que nos dá a vida. 

domingo, 25 de janeiro de 2015

VIAGEM

A privacidade como a conhecíamos acabou. Os humanos gostam de contar suas vidas em praça pública, porque cada vida é uma sucessão impressionante de histórias, umas mais simples e outras com enredos bem complicados. Nós, humanos vivemos para contar histórias.
Então eu conto: já estou com a mala pronta. Amanhã bem cedo vou para o casarão da minha amiga Monica e meu futuro será tecido para o bem , nesta casa tão antiga e maravilhosa, entre pessoas esplêndidas que ajudarão a cuidar de mim depois da cirurgia da coluna. Hoje é um dia especial. Ficarei 20 dias longe da minha casa e quando voltar serei outra. Os meus sonhos são tão simples: poder cozinhar outra vez, andar, ir para a montanha ao encontro da minha casinha, ao encontro dos filhos e netos. Poder caminhar. Tudo isso me espera , aos poucos, quando eu voltar. É um sonho possível.

sábado, 24 de janeiro de 2015

DENTRO DA CESTA

Adoro cestas e cestos de palha, trançados por mãos humanas num trabalho belíssimo.
Dentro das cestas há sempre uma surpresa. Na minha casa guardo as frutas em cestas. Fica lindo. Guardo as redes numa cesta. Guardo a lenha pequena numa cesta e também os jornais antigos que o vizinho vem buscar para seus cachorros. E no ateliê de cerâmica da minha irmã Evelyn em Visconde de Mauá , ela tem uma cesta cheia de livros, todos meus, para as crianças. E ela me conta que ontem uma criança que ainda não lia, ficou fascinada com os livros e sua mãe teve que sentar no chão para ler meus poemas para ela.
Fiquei muito muito feliz.

A gente se agarra numa corda tecida de pequenas coisas belas para aguentar o mundo e o nosso país. Aqui em nossas terras, por motivos políticos a situação não é nada boa. É um erro fatal politizar as nossas mazelas. As coisas precisam ser ditas, porque nós, cidadãos de terceira classe, não somos tão inocentes assim.
Políticos de qualquer partido deveriam dizer a verdade. Sim, faltará água e deveríamos fazer um esforço coletivo, toda a nação, para economizar. Sim, já existem apagões, falta luz e faltará muito mais. Sim, o problema de locomoção das pessoas nas cidades é gravíssimo. Sim, já há desemprego.  Sim, a violência chegou a níveis inimagináveis. Sim, há uma sensação de que o país está à deriva. Não se trata de uma luta partidária. Trata-se de gente. Gente de carne, osso, sangue e sonhos.  E todos sofreremos mas como sempre os menos favorecidos sofrerão muito mais. Cada pessoa que perde o emprego é uma história muito triste, pois a perda do emprego além de afetar a dignidade , afeta a família.
Não quero terminar este post de uma maneira triste ou pessimista, mas acho que deveria haver um movimento para o resgate das palavras. Um governo não pode funcionar proibindo a verdade, proibindo palavras.
Somos feitos de água e energia. Somos feitos de palavras e histórias. O que fazer agora?
Salve o vento e salve o sol. Investir em energias alternativas, solar e eólica para o futuro. Para que nossos filhos e netos possam viver num mundo menos hostil.. Dizer a verdade e buscar soluções com a participação de todos. A verdade é sempre o melhor caminho.

sexta-feira, 23 de janeiro de 2015

COLO DE AVÓ

Recebo ontem pelo correio meu novo livro Colo de Avó, da editora Manati. As ilustrações são as mais maravilhosas do mundo! da Elizabeth Teixeira. Cada avó mais linda do que a outra e os netos e as netas, nem se fala.
Um livro que cabe como uma luva nas duas pontas da vida: crianças e terceira idade.
Eu só pude escrevê-lo depois de ser avó, apesar do poeta sentir coisas que nunca vivenciou, este sentimento de amor agudo, de amor fabricado pela máquina do tempo, só sendo avó. O filho do meu filho.
A filha do meu filho. O filho da minha filha. A filha da minha filha.
O poema que vou transcrever foi inspirado nos  Cem Anos de Solidão, que li na minha juventude. Algumas cenas vivem até hoje fortemente dentro de mim. Uma delas é a de uma avó sentada num banquinho em frente da penteadeira e as netas fazendo dela gato e sapato, pintando a avó todinha. Não me lembro do nome dos personagens. Mas lá vai o poema:  

SALÃO DE BELEZA

A penteadeira da avó
é um mundo:
pote de cremes variados,
pentes, escovas, perfumes
e vidros coloridos, grampos,
porta-retratos, fitas de cetim,
batom, sombra, pó de arroz.

A neta senta a avó
num banquinho
e começa a trabalhar:
com suas pequenas mãos
trança os cabelos da avó
para que ela se transforme
numa bela rainha
e espalhe pão e amor
pelo mundo.


quinta-feira, 22 de janeiro de 2015

ELISA

Outra vez um lindo bebê na nossa casa. Elisa, filha da Louise Botkay, neta da Monica Botkay, dando continuidade a uma ciranda de mulheres maravilhosas. Elisa encheu minha casa de sinos, arrulhos, barulhinhos únicos e incríveis. Louise é uma mamãe especial. Entrou no mar com Elisa de apenas dois meses e meio. E ela amou!!! Quando troca a fralda, Louise antes acaricia a menina, canta, e ela adora trocar a fralda. Elisa tomou banho de chuveirão. Banho de bacia com água fria. Ela adora tudo! Só chora para mamar e quando tem sono. Louise caminha quase voando de alegria e Elisa voa junto.
Eu e Monica, a vovó, passávamos os dias namorando a Elisa. Não conseguíamos fazer mais nada. E eu acho que os bebês que têm passado por aqui, vão deixando um pouquinho do pó do Universo que ainda trazem na pele, um prenúncio de que a minha cirurgia da coluna finalmente marcada para o dia 2 de fevereiro será um sucesso.
Dia 2 de fevereiro é dia de Iemanjá. Peço desculpas aos evangélicos e aos cristãos, não quero machucar a sensibilidade de ninguém, mas adoro a figura de uma deusa que vive no mar. Todos os mitos antigos me fascinam. E Iemanjá se confunde com as sereias no meu imaginário. Ela brilha, é estonteante, bela como ninguém. Uma vez fui a uma festa de Iemanjá em Salvador, fiquei hospedada na casa da minha amiga Regina e é muito impressionante ver centenas de pessoas de todas as classes sociais e acho que de muitos credos diferentes, chegarem com flores e roupa branca.  Numa fila interminável, vão entregando as flores para os barqueiros.  Juan fez uma reportagem para o El País. É uma festa única, impactante.
E eu, que convivo com todas as religiões, peço à Iemanjá que cicatrize minhas dores com água do mar.

sexta-feira, 16 de janeiro de 2015

O MAR

O mar já corre pelas minhas veias. Com certeza meu sangue é salgado e escuto o canto do mar o tempo todo e em sonhos passeio pelas calçadas da Atlântida. Mas faz parte do meu exercício de paciência ver o mar e não poder  nem mesmo descer para por os pés na água.
Então é assim, olho o mar daqui do estúdio onde escrevo e imagino meu corpo flutuando na água. 
Em pensamento já me vejo caminhando pela praia, na areia branca, catando conchas. Depois da cirurgia, depois dos seis meses de recuperação.
AS CONCHAS
As conchas ouvem música.
O mar rolando seus violinos,
às vezes violas de gamba,
ou mesmo flautas e sinos.
As conchas ouvem,
e depois,
quando e, nossos ouvidos,
cantam baixinho.

in O Mar e Os Sonhos, ed Abacatte.

quinta-feira, 15 de janeiro de 2015

URSO, POLAR E PIPOCA

Cheguei em casa depois de passar uma semana no casarão centenário da minha amiga Monica Botkay.
Urso, Polar e Pipoca, as pessoas não humanas da casa, sabiam que eu não estou bem, estou frágil. Mesmo quando corriam pela casa, tomavam muito cuidado comigo. Nunca me atropelavam, nunca me pisavam.  A casa possui um elevador, tipo plataforma para descer do segundo andar ao térreo. Urso e Polar amavam andar comigo de elevador, mal eu abria a porta entravam felicíssimos, não sei que graça encontravam na brincadeira. Compenetrados como senhores de gravata, lá iam eles comigo, sérios. Pipoca, a cadelinha mais fofa do mundo, tinha medo. Sabia que eu iria usar o elevador, pois desaparecia e os três só andam juntos.
Para falar a verdade Pipoca cuidou muito de mim. Ficava deitadinha aos meus pés , bem perto, de vez em quando me olhava com aqueles olhos maravilhosos que poucos humanos têm.
Fico aqui neste paraíso que é Saquarema por 10 dias. Depois volto para o casarão, dando sequencia aos exames para a cirurgia da coluna. Urso e Polar serão meus colegas de elevador. 

terça-feira, 13 de janeiro de 2015

UMA LEBRE

Monica Botkay, minha amiga fotógrafa, onde estou hospedada, tem uma ótima biblioteca e estou lendo um livro maravilhoso de um autor finlandês , Arto Paasilina. Jamais conheceria este autor se não estivesse hospedada aqui e Monica não me apresentasse o livro.
A história é singela, tocante e cheia de humor. Um jornalista, completamente de mal com a vida, desiludido com seu trabalho, com um casamento horrível, numa estrada atropela uma lebre. Ele para o carro e vai atrás da lebre. Pula a cerca que separa a estrada da floresta e a encontra com a patinha quebrada. Ele rasga um pedaço da sua camisa e faz uma tala. E não volta para o carro, onde seu amigo fotógrafo está esperando.Ele começa a se envolver afetivamente com a lebre e com ela foge de sua vida anterior. E por onde ele vai passando, a lebre só desperta afeto, curiosidade e alegria. Ainda não acabei , não sei o final.
Não é um livro para crianças.Mas com esta linda história, sim, se poderia escrever um livro para crianças.
É um convite para se olhar a vida de um modo diferente. Olhar a vida de verdade, se envolver e aceitar as suas surpresas.

segunda-feira, 12 de janeiro de 2015

CASA ANTIGA

Estou numa casa muito antiga no Rio de Janeiro, em Laranjeiras. Uma casa onde as crianças podem se perder num vão, em lugares secretíssimos. Eu mesma me perdi várias vezes. Um casarão com móveis que foram da avó, da bisavó. Minha amiga tem três cachorros maravilhosos. De repente se ouve um tropel na escadaria de madeira e são eles, quase numa cavalgada.
A fêmea se chama Pipoca. Amorosa,doce, seus olhos nos acariciam. Polar e Urso, brancos, sérios e compenetrados como ursos. Mas hoje os três vieram ao quarto onde estou hospedada , um de cada vez, para me dar bom dia.
Vim ao Rio para uma consulta com o cirurgião que vai operar a minha coluna. Ele, segundo me disseram, é o melhor do Rio e me disse que depois de seis meses de recuperação, ficarei bem. Minhas dores, depois da cirurgia no quadril, se tornaram tão violentas e impeditivas, que tornaram a minha vida bem difícil. Vem aí um tempo duro . Mas ainda bem que minha amiga Monica Botkay , sua maravilhosa filha, os três cachorros e a Dora, cozinheira de mão cheia com seu sorriso nordestino, aceitaram me receber, pois precisarei passar 10 dias no Rio depois da alta no hospital. Agradeço tanto este gesto tão raro. Mas os amigos são os anjos que chegam nas horas difíceis. 

terça-feira, 6 de janeiro de 2015

FOTOGRAFIAS

Tenho uma foto do meu pai e minha mãe, jovens, lindíssimos, naquele instante todos os sonhos, os planos, a estrada da vida, ainda seriam construídos. E a foto deles quando eu nem era nascida me traz um instante preciso. No entanto não sei que dia era aquele, se chovia ou fazia sol. Mas a fotografia eterniza aquele maravilhoso instante em preto e branco e eles me olham, jovens para sempre.
Hoje se fotografa demais, se fotografa tudo, cada instante, numa sequencia louca. São bilhões, trilhões de fotografias pelo mundo afora. Eu não fotografo , não sou fotógrafa, deixo que façam isso por mim. Minhas fotos são palavras.

O QUE FALTA NUM RETRATO

Um retrato aprisiona com luz e sombra
um fragmento do instante,
o que os olhos querem guardar:
um encontro,
uma gota de um momento.
Janela aberta para o passado,
ponte sobre o tempo que escorre.
Mas faltam o cheiro e o gosto.

in Cinco Sentidos e Outros, ed. Lê.

Amanhã vou para o Rio, fico alguns dias com a minha amiga Monica Botkay, fotógrafa de verdade, desde os anos 70 , a quem dedico o poema acima.

segunda-feira, 5 de janeiro de 2015

UM BEBÊ NA CASA

Chegou um bebê da Itália em nossa casa, o Leonardo. É neto do nosso médico José Augusto Messias e da vovó Kátia. Com seis meses Leonardo é um bebê perfeito, não consegui achar nenhum defeito. Sua mãe Fabiana parece uma bailarina russa, parece que ao andar, de repente sairá dançando, também parece uma fada no meio de um bosque, dançando ao luar. Mas é italiana de Perleto, uma aldeia no Piemonte de 250 habitantes. É no Piemonte que se fabrica o famoso vinho Dolcetta D'Alba. Na cidade de Alba.
Fabiana é casada com o Gustavo. Uma ninfa com um homem enorme e barbudo, mas delicado como ela.
Leonardo, o bebê, não chora, não faz manha, só ri e brinca. Enche a casa de alegria, uma alegria da cor da casa, amarela como girassóis .
Claro que a casa ficou toda agitada e da cozinha foram saindo, pães e comidas maravilhosas e os vinhos enchiam as taças como cachoeiras de felicidade. E a promessa que fiz a mim mesma de perder peso por causa da coluna, mais uma vez se esvaiu. Sou muito volúvel eu acho.
E hoje a vida de todos os dias recomeça ? Todos os dias o milagre da vida, é o que nos diz Leonardo, em sua lingua, meio eslava meio semítica , dadábrrrr,guuuuu,rcgjk.
Feliz 2005 para todos.

sexta-feira, 2 de janeiro de 2015

MUDANÇAS

Infelizmente nada muda num passe de mágica, apenas o tempo, um sudoeste repentino pode trazer um temporal, apenas os acontecimentos de uma vida, um encontro, um acidente. Mas as mudanças estruturais são geralmente um longo e muitas vezes um doloroso processo. Li uma vez um livro interessante, não me lembro o nome nem do livro nem do autor.Mas discorria sobre as dificuldades que o cérebro nos impõe para mudar qualquer hábito. Para mudar um hábito temos que ter uma recompensa muito clara. Eu mudo isso para ganhar aquilo. O cérebro registra os hábitos e nos leva a repeti-los já no automático. Por isso a força de vontade tem que ser imensa para enganar o nosso próprio cérebro. E fazemos tantas promessas a nós mesmos no dia 31 de dezembro, e chega o dia 1, chega o dia 2... e nossas promessas se evaporam.
Acho que a principal promessa de cada um de nós deveria, quem sabe, ser a de fazer o que amamos aqui e agora e sermos absolutamente fiéis a nós mesmos.

terça-feira, 30 de dezembro de 2014

NÓS

Todos os especialistas em todas as áreas dizem que 2015 será um ano difícil. Então, para que tudo fique mais fácil, desamarre os nós, aqueles que nos prendem a tantas coisas inúteis:

RECEITA DE DESAMARRAR OS NÓS
desamarre os nós do sapato
depois desamarre os pés
desamarre os laços inúteis
os nós do que não serve mais
desamarre o barco do cais
os nós das janelas
e então deixe que o vento...

domingo, 28 de dezembro de 2014

ESTRANHOS NO NINHO

Se me pedissem para trabalhar como arqueóloga ou astrônoma, embora sofra de paixão perdida por estes dois temas, não poderia, simplesmente porque não sei nada sobre o assunto.
Não sou educadora, mas embora também nunca tenha sido boa aluna em matemática, há uma equação muito simples, essa eu entendo:
+ educação de qualidade+leitura+artes+esportes= um salto sobre o fosso social que separa brasileiros uns dos outros.
Então, seguindo o fio deste pensamento, sabendo que no Brasil não há nenhum planejamento em relação à uma educação realmente transformadora, fiquei estupefata com a escolha de um Ministro despreparado . Nunca ouvi falar que o Sr. Cid Gomes tenha exposto suas ideias inovadoras sobre educação. Mas ele disse que , (se não me engano) Professor não deveria pedir aumento de salário mas sim trabalhar por amor. Por que o EXMO futuro Ministro não tenta ocupar alguma pasta onde domine o assunto e não troque o seu salário pelo mesmo valor do salário de um professor? E que até o fim do seu mandato trabalhe por amor sem pedir aumento?
Como cidadã brasileira, carioca, saquaremense, fica minha singela sugestão, em nome dos meus milhares de leitores professores, que, tenho a intuição, concordam comigo. Mas quem não concordar pode deixar aqui o seu protesto.   

sábado, 27 de dezembro de 2014

MEU ANIVERSÁRIO

Abro o computador e recebo dois presentes. O belo livro de poesia do Hammu. E um texto do Talmud, que Angela copiou para mim: 

"O Talmud (livro sagrado dos judeus) nos diz que na data do aniversário judaico o mazal, sorte, da pessoa é dominante. É certamente mais que uma ocasião para receber presentes; é uma chance de festejar, agradecer e refletir sobre o que está realizando atualmente em sua vida. Este é o dia em que você nasceu, em que a sua vida começou e é também o dia em que sua vida pode mudar."
Hoje é meu aniversário. Minha mãe me contava como nasci, prematura de sete meses. Ela foi tomada por uma compulsão por limpeza e estava abaixada passando palha de aço no chão quando sua bolsa arrebentou.
O Talmud me diz para agradecer. Todos os dias agradeço tudo: estar viva, ter o Juan, os filhos, os netos, minha irmã, enfim, ter esta família de artistas maravilhosos. E a Vanda e o Samuel, nossos caseiros que cuidam da gente e da casa com tanto amor e nos deram uma segunda família.
Agradeço o dom da poesia, agradeço ser leitora, agradeço os amigos magníficos que tenho. Agradeço o jardim. Cada flor, cada árvore , agradeço a casinha na montanha, que está lá, me esperando dentro da mata, até quando eu ficar livre da recuperação e puder ir ao seu encontro.
O Talmud me diz para refletir sobre o que estou fazendo atualmente. Estou me recuperando de uma cirurgia e caminho por dentro de mim, por algumas ruas claras, outras escuras, em busca da cura possível, poder andar, já que por enquanto só posso voar.
A minha felicidade é fabricar felicidade para todos os que chegam perto de mim. 
E desejo que a nossa casa, a Casa Amarela, continue fabricando encontros maravilhosos.
Hoje Juan está de Chef e fará um arroz caldoso, um prato espanhol, absolutamente divino. Uma bela mesa com dois amigos , Hélio e Fernando, minha irmã e nossos caseiros Vanda e Samuel (eu disse para a Vanda que hoje é dia de Madame, a Dona Maria Vassourinha fica em casa) , pão feito em casa pela minha irmã Evelyn e vinho para celebrar o dia em que nasci para fazer poesia com tudo o que aparece na minha frente.  
 

terça-feira, 23 de dezembro de 2014

PAPA FRANCISCO

O Papa Francisco é um iluminado realmente. Falou aos Bispos toda a verdade que não era dita desde tempos imemoriais . Os Bispos parecem múmias. Nenhum contato com a vida. Basta olhar os seus rostos tristes e petrificados.
Então o Papa veio e fez um grande pedido. Interpretei o seu pedido assim: sejamos coerentes com o que dizemos e a nossa vida .
Apesar de ser judia sei muito bem o que Jesus pregava. E Jesus era judeu. Pregava a alegria, a aceitação dos diferentes, de quem a sociedade rejeitava. Pregava a paz, quando nos diz para dar a outra face em contraponto ao olho por olho dente por dente. Dar a outra face ao inimigo é buscar o diálogo.
Então que cada vida acrescente algo ao planeta. E vamos seguir pensando na palavra sinceridade e na palavra paz. 

segunda-feira, 22 de dezembro de 2014

PRESENTE DE NATAL

Minha neta veio. Agora está com um ano e um mês. A última vez que a vi tinha una 8 meses. Então entrou uma pessoinha na minha casa que não era aquele bebê que eu havia visto. Desde sexta-feira até domingo fiz uma imersão total na Gabriela. Ela é fantástica e conversamos tanto e brincamos tanto que acho que não se esquecerá de mim. Paixão por neto não se pode explicar. Sinceramente deve haver uma fábrica de um amor intenso e luminoso dentro da gente à espera. Só germinando. Lembro que quando fui para a Espanha ao encontro do meu neto Luis, então com quinze dias, desconhecia o tamanho desta avalanche. Mas já, ao olhá-lo no berço, senti as águas do amor se avolumando dentro de mim, até tomar conta de tudo, da minha pele, meus órgãos, cada mínimo pedaço do meu ser. Hoje meu neto tem cinco anos e somos muito amigos.
_ Vamos lutar, vovó? Como explicar que sou pacifista? Se ele é um Super Herói?
Eu digo, Luis, mas e a minha coluna, vai doer! Ele responde: _ Puxa, vovó, você nunca vai ficar boa?
Trocamos cartas, ele me manda desenhos lindos eu mando adesivos e livros.
A Gabriela ainda fala numa língua que só os bebês entendem. O dicionário é o nosso coração, então a gente adivinha. Ela fala muito e seu idioma é belíssimo.
Então o meu maior presente de Natal são meus dois netos.    

sexta-feira, 19 de dezembro de 2014

IDADE

Li um artigo muito bom. Uma pesquisa feita com gente acima de 60 anos dizia o seguinte: a idade que você tem não é a que você sente. E se você tem 65 mas se sente com 20 ou 30, melhor para você, pois está comprovado que você viverá.mais alguns anos, já que tem sonhos, projetos, cuida da saúde, faz exercícios , quando pode viaja, se interessa por muitas coisas.
Todo mundo que não morre jovem, vai envelhecer. Mas enquanto sonha e se interessa por alguma coisa ao invés de ficar sentado se lamuriando e vendo novela , a chance de viver mais e com qualidade de vida, é maior.
Então a atividade física e mental é importantíssima. Leitores estão mais protegidos de doenças degenerativas do cérebro.
Acho maravilhoso não se intimidar com a idade que está escrita na carteira de identidade. Meu marido Juan tem 82 anos, caminha duas horas todos os dias, faz bicicleta ergométrica, lê e escreve para seu jornal continuamente, faz planos, sonha e portanto, não tem mais do que 30. E isso consta dos seus exames anuais.
Eu vou fazer 64, mas sou criança , adolescente, o que precisar. As crianças ficam muito bem comigo, pois viro criança. Os jovens também, pois embora desconheça os jargões do momento, posso entender perfeitamente seus anseios.  Não tenho idade. Tenho todas as idades.

Começo a ler um livro de Juan Marsé , escritor espanhol que não conhecia. Prêmio Cervantes entre outros e que logo no comecinho, já vi que é maravilhoso. Se chama  Caligrafia de Los Sueños.
E assim imagino que tenha que ser a vida: Uma caligrafia dos nossos sonhos, que passam por mil e uma noites, pontes invisíveis, amores, encruzilhadas, lindos caminhos de flores selvagens...

  

quarta-feira, 17 de dezembro de 2014

LIMITE

Qual o limite entre o ser humano e algo que não se pode nomear? Ontem aconteceu algo inominável com seres que não são humanos, não são bichos, não sei o que são. Tomam a forma do horror em estado puro.
No Paquistão imagino a dor se espalhando feito um incêndio.
Por que nosso planeta abriga seres que não conseguimos reconhecer?  
Como é que se pode matar em nome de algum Deus, alguma religião? Não conheço o Corão mas certamente deve haver um erro de leitura, ou os muçulmanos que sabem ler deveriam corrigir o mal entendido. Maomé manda matar? Jeová manta matar tantos inocentes numa guerra insana?
Voltamos no tempo e estamos vivendo entre as atrocidades que se cometiam em nome da religião, por toda a antiguidade?
Que Deus seria esse que manda matar crianças?

Não posso entrar no coração
das mães, dos pais, dos tios,
avôs e avós
das 132 crianças
que desapareceram para sempre.
Não posso enxugar as lágrimas
que molharão seus rostos
para sempre para sempre.
Não posso pisar em suas
casas distantes onde um silêncio
espesso ocupará um lugar na mesa
na cama na sala nas conversas
no quintal
para sempre para sempre.
E não existe nenhuma explicação
possível para a ausência
que durará para sempre
noites e dias e noites
até a eternidade.