segunda-feira, 25 de maio de 2015

GIUDECCA

A Praça São Marcos havia se transformado num oceano de gente ontem pela manhã . O dia estava lindo finalmente. Para chegar até a barca que nos levaria para a Giudecca era preciso se transformar num felino e se esgueirar por entre as frestas dos corpos.

Logo ao desembarcamos passamos pelo Pavilhão da Síria, na Mostra Paralela da Bienal. O título da exposição, belíssimo: "Origens da Civilização". Eram quadros imensos, de uma bela pintura abstrata, como se para falar do começo não se pudesse utilizar uma arte figurativa. Não guardei o nome dos artistas, apenas de um, pois nas paredes Liu Shuishi, que não tem um nome árabe, escreveu coisas lindas, por exemplo: "A história distante só pode estar presente pelas palavras".
Saímos emocionados ao pensar nestes artistas produzindo obras tão belas e neste país tão dilacerado pela guerra, pela morte , pela destruição.
Era um alívio estar na Giudecca, esta ilha tão linda, com tão pouca gente. Ontem, domingo, acho que o número de pessoas em Veneza dobrou.
Do calçadão, logo ao chegar , descemos na segunda estação, se vê o Palácio Ducal em frente , a Torre da Praça, uma vista estonteante .
Caminhamos ao longo do calçadão até o final, onde ficava uns dos maiores moinhos da Europa, uma construção belíssima, o Molino Stucky, construído nos final do oitocentos pelo empresário Giovanni Stucky. O moinho chegou a empregar 1.500 pessoas, trabalhando em turnos por 24 horas.
Em 1955 o moinho fechou depois de uma lenta decadência. Ficou abandonado por muitos anos até que em 2007 o moinho se transforma num grande e muito luxuoso hotel, o Hotel Molino Stucky Hilton. Entramos para visitá-lo. Lá dentro é outro mundo, nada lembra que aquele espaço outrora foi um moinho. Mas o melhor de tudo é que respeitaram a sua fachada. Ao lado ainda há um pedaço do moinho totalmente abandonado.
Caminhar pelo calçadão com a vista deslumbrante do outro lado, pois se vê todo o Zattere, o calçadão da Accademia, é o verdadeiro luxo.
Escolhemos um restaurante na beira da água. Era lindo, mas o atendimento péssimo. Ostaria ae Botti. Não aconselho, o serviço beira a grosseria.
Na volta, para fugir da multidão da Praça São Marcos  já pelas escadarias podíamos medir a sua espessura, fomos por dentro, pelas ruelas e que sorte! caímos dentro de uma livraria. Juan comprou um livro do escritor croata Predrag Matvejevic , "L'Altra Venezia". Ele vai contando a história dos detalhes, comecei a ler e é lindíssimo. Ele apreende Veneza de uma maneira muito parecida com a nossa. Escreve: Cada vez que se volta a cidade é igual e diferente ao mesmo tempo, de dia ou de noite, com sol ou sob a chuva". (minha tradução). Comprei dois livros e o dono da livraria era um livreiro de verdade, espécie em extinção.
Agora, enquanto escrevo, a filha do Juan, Maya, com seus dois filhos, Kira e Astor, já deve estar no barco a caminho do hotel.
Hoje não chove, mas está meio nublado, faz um pouco de frio.   E não faço a menor ideia de como construiremos o nosso dia .    

domingo, 24 de maio de 2015

MODIGLIANI

Ontem ao ultrapassar a porta do hotel fomos recebidos por muita chuva, muito frio, um dia horroroso, escuro, nada promissor.
Decidimos andar por dentro da Academia, seus pequenos canais maravlhosos.
Entramos na Igreja de San Trovaso, fundada no século VIII e reconstruída nos séculos XI e XVI. Dentro as obras de Tintoretto, Giambono, Maestro di San Trovaso, etc, não estavam iluminadas e a Igreja estava muito escura, a emoção era saber que numa igreja sem nenhum fausto os maiores pintores da época aí deixaram seus tesouros.
Ao lado do Sotoportego Calle Balastro encontramos uma feirinha que era uma joia, na beira do canal. A maneira como arrumam os legumes e as verduras é a mesma com que um pintor arruma as suas tintas. E então tenho que falar das vitrines, verdadeiras obras de arte. Nada é deixado ao acaso, são verdadeiras instalações. E tenho que falar das embalagens, parece que na Itália a beleza é o ar que se respira e o que é feio fica bem escondido.
Passamos por uma casa onde trabalhou Modigliani e podemos ler:

" Da Venezia ho ricevuto gli insegnamenti più preziosi nella vita;
Da Venezia sembra di uscirmene adesso come accresciuto dopo un lavoro" Modigliani, 1905
De Veneza recebi o ensinamento mais precioso da minha vida; De Veneza parece que ao ir embora agora, estou maior depois de um trabalho.

Quando Modigliani diz "adesso" , agora, o tempo é abolido e estou na sua porta, estou em 1905 .

Chovia tanto que o grande desejo era estar dentro de algum lugar seco e quente. Mas passeamos pelo zattere, o calçadão da Academia de onde se pode ver a Giudecca lá do outro lado.
Quando os sinos bateram as doze horas entramos no primeiro café que encontramos, numa ruazinha de dentro para a minha taça de vinho.
Paolo, nosso amigo garçom, nos recomendou muito um restaurante napolitano que fica no Campo S.Angelo e se chama Acqua Pazza . Adorei o nome, água louca e calculamnos o tempo para chegar lá às 13.30h.
Realmente é um restaurante impressionante. E dedico este almoço ao meu filho André, Chef do Babel em Visconde de Mauá. Pedimos de entrada flores de abobrinha .Mas antes como cortesia da casa trouxeram uma entrada belíssima, uma bruschetta, um bolinho de macarrão com queijo e alguma verdura empanada. As flores de abobrinha com queijo derretido dentro são o bilhete de entrada para o paraíso. Eu pedi um gnocchi que não era de batata, mas sim de trigo sarraceno e Juan um risoto de espuma de limão. Cada gnocchi parecia uma moeda grande com molho de tomate (o molho de tomate na Itália explica o nascimento do mundo) com manjericão.
E de sobremesa pedimos um tiramisù , parecia uma espuma de chocolate amargo e café.
No final da tarde fomos para a Praça São Marcos. Já não chovia. Neste percurso do hotel até lá, há a maior concentração de grifes famosas do mundo, certamente. Suas vitrines são belíssimas e os preços estonteantes . Será que alguém paga mais de mil euros por um vestido? Todas as lojas são maravilhosas.
Cada vez que se entra na Praça se perde o fôlego de tanta beleza. Nos sentamos no Café Lavena, aberto desde 1750. Os Cafés da Praça são absolutamente decadentes, mas para mim há muita beleza nesta decadência.
Eu me sentei de frente para a Igreja e o leão alado e dourado enchia meus olhos.   Os anjos falavam comigo. A Igreja fulgurava, ardia em todos os tons de dourado. Acho que não existe nenhuma praça mais bonita no mundo.
A pequena formação de músicos tocava umas três ou quatro músicas e parava para que os músicos do café ao lado pudessem tocar. A praça estava quase vazia, pois os milhares de turistas que são despejados diariamente em Veneza pelos Cruzeiros a essa hora já estavam longe, em seus navios.
Há em Veneza a máfia dos cruzeiros. Um acordo de cavalheiros corruptos entre os políticos , os donos dos navios, o comércio local.
Veneza possui apenas cinquenta mil habitantes. São os turistas que alimentam a ilha . Mas não sei o que compram ou deixam aqui estes grupos imensos. Pouca coisa, eu diria. Mas eles são o deleite dos gondoleiros.
Hoje vamos tomar um barco e caminhar na Giudecca para ver a vista de Veneza lá do outro lado. É como ver o Rio de Janeiro de Niterói.
Da minha janela, enquanto escrevo, ouço os sinos que agora batem as horas para que caiam no precipício do tempo em todos os tons de grave e agudo. Ouço as gaivotas e as vozes das pessoas que cruzam a ponte do pequeno canal onde está debruçado o pequeno balcão do nosso quarto.

sábado, 23 de maio de 2015

GUARDA - CHUVAS

Ontem pela manhã a Praça São Marcos era um imenso arco-íris de guarda-chuvas coloridos. As gôndolas passeavam cheias de guarda-chuvas. Chovia e fazia frio. Decidimos caminhar por dentro até o Rialto para olhar a vista lá de cima.
Chegamos ao Campo Sanzolo onde há a Parochia de S.Stefano. Um Palácio se impõe com seus detalhes rosados, talvez de mármore carrara.
Passamos por uma livraria antiquário, Libreria Linea D'Acqua e na sua vitrine uma coleção de 36 volumes com a data de 1781: Compendio della storia generale dei viaggi. Imagino um colecionador de livros antigos e raros entrando na livraria com o coração aos saltos. E naquela época sim, viajar era a maior aventura do mundo!
Ao chegar no Sotoportego Di Amai uma coisa inominável fere as linhas do Campo e do nosso campo visual: A Casa di Risparmo de Venezia, um quadrado horroroso, fruto de alguma permissão fraudulenta de algum Prefeito corrupto que deixou um Palácio ser demolido para que se construísse tal horror em seu lugar. Mas fico sabendo que o Primeiro Ministro Renzi enviou um Projeto de Lei para o Parlamento tornando o crime de corrupção eterno: não pode prescrever. Não sei se já está valendo mas a ideia é maravilhosa e deveria ser copiada no Brasil.
No Campo S.Luca , num Palácio, há um baixo relevo com uma virgem maravilhosa, de pedra, sua túnica é toda pregueada e no lugar do coração ela carrega a imagem do menino Jesus.
Chegamos na Calle del Teatro o de la Commedia.
Aos pés da Ponte do Rialto, antes de subir para ver a vista, nos sentamos num bar, no sotopertego, abrigados da chuva para um cálice de vinho. Juan pede um chocolate quente. Explodem os sinos do meio dia.
A vista de cima da ponte é um dos cartões postais mais belos e conhecidos de Veneza.
Como diz Juan, Veneza não é uma cidade, é uma sensação. Veneza é um lugar irreal e surreal. Uma dimensão.
Encontramos um restaurante muito antigo: Ristorante Al Colombo, aberto desde 1780!
Na volta vemos uma exposição surreal de Joseph Klibansky , no Campo Stefano. São quadros fotografias de uma Veneza coloridíssima e verdadeiramente alucinante.  Passamos pelo estúdio do artista Gianni Aicó. Em Veneza a cada esquina encontramos uma galeria de arte ou o estúdio de algum pintor ou escultor.
E vimos a exposição do Azerbaigian, um país para nós brasileiros muito remoto. A instalação de Huseyn Hagverdi é absolutamente impactante, um soco no coração. São seres humanos muito estilizados, lembrando esculturas africanas, enredados em estacas, cercas, enfim fronteiras fechadas. Tudo em madeira escura e sentimos todo o sofrimento daquelas "pessoas". Algo tão atual quando sabemos das milhares de pessoas de carne e osso que tentam escapar de seus países pela guerra, fome, falta de horizonte. Esta bela exposição faz parte das mostras paralelas da Bienal que invadiu toda a cidade.
Depois almoçamos na Tavernetta S.Maurizio, nosso amigo Paolo nos recebe com tanta alegria!
Comemos um risoto de frutos do mar e é impressionante a delicadeza dos mariscos, um prato perfeito. Comemos por 45 euros com meio litro de vinho, cesta de pão,queijos variados de sobremesa.
Comer uma vez por dia é mais do que suficiente e o café da manhã aqui no hotel é tão bom que vale a pena acordar com fome. Todos os dias como a mesma coisa: muzzarella de búfala , tomate, café e pão.
Agora chove, faz frio. O dia está feio, cinza, mas nada é capaz de tirar nosso fôlego e a beleza da cidade. Lá vamos nós para a rua.

sexta-feira, 22 de maio de 2015

FONDAMENTA NUOVE

Ontem, antes de sairmos do hotel, atenderam ao nosso pedido e trocamos de quarto, ou melhor de vista: agora nosso balcão dá para um pequeno canal por onde passam as gôndolas e do quarto ouvimos seus cantores. É maravilhoso.
Do  nosso Campo del Giglio, depois de farejar o ar, decidimos ir para a Fondamenta Nuove, o bairro amado por Joseph Brodsky, o poeta russo. É um lindo passeio. No caminho para São Marcos entramos na Galeria Contini , há uma exposição de Igor Mitoraj, escultor polonês que faz uma releitura das esculturas da antiguidade. Trabalha com mármore branco. Não gostei. Apenas uma me tocou, parecia um caracol gigante,
Para ir a a Fondamenta Nuove há que seguir em direção a Rialto e isso quer dizer multidão. Mas de repente, como num milagre, depois de subir e descer escadas e passar por muitas pontezinhas, antes de chegar a Rialto, viramos à direita e já a rua é vazia, suas lojas são simples e é como se saíssemos de um filme e entrássemos em outro.
Desembocamos no Campielo Bruno Crovato. Há um bar no Campo e todos os que estão sentados são venezianos.
Depois chegamos ao Campo S.Maria Nova.  Não é um Campo mas sim uma praça maravilhosa, senhoras e senhores sentados nos bancos , de um lado da rua há um antiquário e do outro uma loja esplêndida de carnaval. Logo ali ao lado há um Campo bem pequeno com seu poço e vejo a data: é de 1.800.
Numa ruazinha que sai da praça vimos uma exposição de fotografias num estúdio de arquitetura. A Mostra faz parte dos eventos paralelos da Bienal que privilegiam a arquitetura, pensam as cidades.
A exposição tem o belo nome de Città Africane in Movimento e são muitos fotógrafos. É belíssima a exposição.
Estamos na Veneza de dentro. Amamos este bairro tão simples, nenhuma suntuosidade, mas o silêncio dos canais.
No Campiello del Pestrin há um restaurante tipicamente veneziano onde vão comer os trabalhadores locais, os gondoleiros : Trattoria Cea.
Quando chegamos estava abarrotado e o movimento era magnifico , uma dança de pratos e jarras de vinho, cestas com pães para lá e para cá. As mesas são coletivas e nos sentamos finalmente, depois de alguma espera, ao lado de três trabalhadores.
O Menu do Dia, composto por três pratos por 16 euros, era magnífico. Comi uma pasta a la rabiatta, um prato de cogumelos frescos, uma lula em sua tinta com polenta branca, a polenta veneziana. O pão bem camponês, bem tosco, como adoro. Meio litro de vinho da casa.
A senhora que servia era super paciente ,nos explicou cada prato e conhecia todos e beijava todo mundo.  Perguntei e ela me respondeu: todos os dias há um menu diferente. Mas a Fondamenta Nuove fica longe, impossível comer lá todos os dias, infelizmente.
Ao sairmos havia uma loja fechada, parecia uma exposição permanente, e a sua vitrine era de enlouquecer. Ali havia sido , isso eu entendi, uma antiga tipografia, que neste ano completava 500 anos. Era a tipografia de Aldous Manutius e a data: 1515.
Como sei que a Fondamenta Nuove foi destruída e refeita, não sei se nestes quinhentos anos sempre esteve no mesmo lugar..
Na vitrine podemos ler e a autoria é de Di Francesco di Ser Bernardone:
" Chi lavora con le mani è un operaio. (Quem trabalha com as mãos é um operário)

" Chi lavora con le mani e il cervello è un artigiano" (Quem trabalha com as mãos e o cérebro é um artesão)

" Chi lavora con le mani, il cervello e il cuore è un artista" (Quem trabalha com as mãos, o cérebro e o coração é um artista)

A arte da tipografia , com todas aquelas peças e engrenagens maravilhosas está em franca decadência.
Somos espectadores de um novo mundo.

E hoje no café da manhã , nos jornais que vejo no balcão em frente , me dizem que a cidade de Palmira, na Siria, caiu nas mãos do grupo islâmico Isis que já deve ter destruído tudo na região que foi o começo do mundo e da civilização .
No N.Y Times, na primeira página está estampada a violência do Rio de Janeiro.
Mas estou em Veneza e por aqui se caminha pelas ruas sem medo nenhum. Não se ouve falar em roubos ou facadas.
Aqui mergulho o corpo e a alma na beleza mais absoluta.

    

quinta-feira, 21 de maio de 2015

CAMINHADA

Ontem decidimos ir até os Jardins do Arsenal onde está a Bienal. Esperarei a minha enteada Maya para ver a grande exposição, ela chegará dia 25.
Na frente da Igreja São Marcos uma cena que nunca vi no Brasil e para mim comovente: uma turma enorme de adolescentes sentados no chão com seus cadernos abertos no colo e a Professora na frente dando uma aula sobre a Igreja. Eles anotavam e prestavam toda a atenção, em silêncio.
Chegamos ao Campo San Zaccaria com azulejos de mármore carrara, belíssimos. Começaram a tocar os sinos que pontuam as horas. Há quem não goste dos sinos, eu amo, é como se a sua música fosse um tapete mágico e me levasse flutuando pelo rio do tempo. Neste campo há uma bica de água potável com uma cara de leão. Os leões estão espalhados por toda a cidade.
No Pórtico de San Zaccaria no Idade Média havia uma porta fechando o bairro. Há uma placa de pedra que fornece os horários da abertura, as letras bem apagadas, a data quase ilegível, 15...
Ao sair do Pórtico se vê uma torre inclinada.
Na esquina da Ponte Del Diavolo com a Fondamentina de Liosmarin há um baixo relevo bem intrigante: um homem de túnica, parece um romano, com um instrumento na mão, difícil saber se é um instrumento de trabalho ou musical. Dois operários trabalhavam numa reforma de uma casa em frente. Pedi a um deles para me ajudar a entender. Ele olhou, olhou e disse que era impossível saber. Então tomei a liberdade poética de decidir : uma harpa, era um tocador de harpa.
Logo ali há um Palácio maravilhoso que virou hotel: Palazzo Friuli. No mesmo lugar há a loja de fantasias mais linda que já vi, tão onírica que causa um arrebatamento.
Na Ponte Dei Greci outro Palácio estonteante: Hotel Liassidi.
Chegamos ao Campiello de La Fraterna, desembocamos no Sotoportego Dei Preti, chegamos ao Campiello de La Grana e entremos numa viela sem nenhuma pessoa, os turistas vão desaparecendo .
No Campo de Le Gorne há uma placa de pedra de 1787 lindíssima in memoriam do Conte Piero Foscani, com um leão alado. Por aqui já é a Veneza dos Venezianos. Aqui se ouve o silêncio entre os passos e entre as poucas vozes.
Na Fondamenta del Pintor cruzamos com um Senhor que devia ter mais de cem anos, todo vestido de negro, na mão direita uma bengala, na esquerda uma sacola de livros. A sua cor era de cera e tenho certeza de que era um fantasma, saiu para passear.
Chegamos ao Arsenal com seus quatro leões, dois imensos, um menor e um filhote. São monumentos navais.
Veneza terá outras Bienais, não apenas a de arte, mas de música, de dança e de carnaval. A de Música tem o título mais lindo do mundo: O Som da Memória.
Os títulos das exposições são maravilhosos e os cartazes estão espalhados por toda a cidade. Eu os saboreio , para mim são música.
Deixo então os jardins da Bienal para quando Maya chegar e nos sentamos no Campo Bandera e peço uma taça de vinho para receber os sinos do meio dia. Há que tomar muito cuidado, pois no mesmo Campo, na esquina, encontramos a Calle de La Morte.
Almoçamos na Tavernetta San Maurizio, perto do Campo San Maurizio (San Marco 2619) e nosso amigo Paolo nos recebeu com muita surpresa e alegria. Essa é a taverna que escolhemos para comer sempre, pois além de linda, animadíssima, tem um vinho da casa maravilhoso, a comida é excelente e ficamos amigos do garçom. Comemos uma vez por dia e ontem de entrada pedimos um Piatto Vegetariano, com legumes grelhados, eu comi uma pasta com molho de tomate e ricota e Juan uma pasta com vongole, de sobremesa queijos variados. O pão da casa é muito bom, o azeite nem se fala e o preço é justo: 64 euros. Comentei ontem que não se deve pensar em converter os euros para real, mas sim pensar num salário de 2.500 euros que é um bom salário por aqui. Onde se pode comer assim no Brasil com meio litro de um bom vinho, entrada, prato principal e sobremesa por 32,00 por pessoa?  Eu como num restaurante a quilo em Saquarema, sem nenhuma bebida, nem entrada, nem sobremesa por 20,00.
Claro que  aqui ainda se pode comer por um preço muito menor, há muitos restaurantes com menus turísticos por 15 euros .
Pela tarde fomos até a Academia, do alto da sua ponte se desdobra a vista mais linda do mundo, emocionante. Depois andamos até o calçadão , havia chovido, a luz estava linda e era dia ainda às 20hs.
As nove horas comemos um pedaço de pizza numa portinha na frente da nossa taverna, a melhor pizza que já comi na vida, há um movimento tão intenso, nem dá tempo da pizza esfriar, vão saindo do forno constantemente e se come em pé ou sentado na escadinha do poço do Campo a dez passos.
Hoje, que bom, faz um friozinho, entre 18 e 19 graus, choverá às 11 horas uma chuva fraca e novamente às cinco. Às 20 horas choverá forte.
Ainda não sei por onde andaremos.
 

quarta-feira, 20 de maio de 2015

CHEGADA

Saímos de casa às oito horas da manhã do dia 18. Nosso voo para Veneza sairia às 14:35. Mas nunca se sabe como será o caminho de Saquarema até o aeroporto. Chegamos em duas horas e nos sentamos num bar novo no Terminal 1. Todos que viajam sabem que o Terminal 1 do Galeão parece uma tumba: feio, escuro, deprimente.
Mas o tempo passou e a espera faz parte da viagem. O avião saiu pontualmente. Depois do jantar, lá pelas tantas, eu estava vendo um filme, perguntaram se havia algum médico a bordo. Chamaram muitas vezes. Pouco tempo depois o Comandante anunciou que teríamos que fazer um desvio e pousar em Recife pois havia uma pessoa passando mal.
Voamos mais de uma hora para pousar em Recife. A história foi assim: um senhor foi encontrado desmaiado no banheiro. Quando a equipe médica entrou no avião ele já estava acordado. Ficamos duas horas em solo com ele tomando soro. Parecia bem. E resolveu continuar a viagem. O Comandante exigiu um atestado da equipe de que ele poderia permanecer a bordo. Bom, levamos duas horas em Recife dentro do avião. Fiquei sabendo que a jovem senhora sentada perto de mim estava indo para a Sicília a trabalho. Um senhor ia para Beirute.
Perdemos a nossa conexão, é claro, mas como nos deram falsas esperanças de que a conexão esperaria um pouco, corremos feito loucos para conseguir , quem sabe, tomar o avião. A aeromoça ainda nos disse: o aeroporto de Roma é pequenininho! É imenso e depois de passar pela polícia, há que sair do aeroporto e entrar no nacional, passar outra vez pela polícia até chegar ao terminal. Ainda nos disseram: Corram que ainda estão embarcando! Se o médico que operou a minha coluna em fevereiro soubesse a maratona que corri... Claro que o voo já havia partido. Volta tudo para trás e na porta B3 há a Oficina de Trânsito. Então, aí sim, trocam nosso cartão de embarque para o próximo voo. Juan tinha a certeza absoluta de que perderiam as nossas malas.
Eu estava tão exausta que não vi nem senti o voo para Veneza. Mas nossas malas chegaram perfeitamente e depois de um banho no hotel e de um pouco de descanso saímos para caminhar.
Estamos no mesmo hotel que no ano passado, com a mesma vista para o Campo del Giglio.
A sensação é a de que não saímos daqui, que o tempo não passou. A sensação é de continuidade.
Veneza não é uma cidade , é uma miragem. Há lojas antiquíssimas e esplêndidas, verdadeiras jóias. Lojas de encadernação, papelarias, máscaras, lojas de queijos e especiarias, galerias de arte, quando as ruas já são uma imensa galeria de arte. Há que olhar para cima, pois vimos lá no alto, um relevo de o final de 1.500! Era uma cena religiosa e abaixo um sapato. Não entendi mesmo.
Entramos numa galeria com um nome em inglês: Holly Snapp Gallery, na Calle delle Botteghe, com a linda exposição de mulheres do pintor inglês Geoffrey Humphries. Amei! Agora vamos buscar as mil exposições que estão acontecendo em Veneza por conta da Bienal.
Às 19.30, famintos, entramos na Osteria Doge Morosini. O restaurante onde trabalha nosso amigo Paolo estava fechado, devem fechar às terças.Recomendo: Fica numa ruazinha lateral ao Campo Santo Stefano que é maravilhoso. Comemos esplendidamente, entrada, prato principal , sobremesa por 66 euros. Quanto estamos fora não pensamos em converter o dinheiro, pois os salários das pessoas "normais" são mais ou menos iguais aos salários do Brasil. Não se come assim no Brasil por 33 reais cada pessoa. Impossível. A sobremesa vale o comentário: Juan pediu um pedaço de gorgonzola. Veio numa travessa lindamente arrumada, numa cama de rúcula os pedaços de gorgonzola com mel. Uma verdadeira iguaria.
Agora vamos para a rua como sempre sem nenhum plano definido. É assim que amo viajar. Fugindo das multidões, flanando, olhando.
Ontem terminamos nosso passeio na Praça São Marcos que para nossa felicidade estava quase vazia num belo entardecer. Chegamos no hotel às 21 horas e começava  a escurecer. Dormimos dez horas seguidas.

domingo, 17 de maio de 2015

AS CIDADES INVISIVEIS

Ontem foi nosso encontro do Clube de Leitura da Casa Amarela .O dia estava nublado e um pouquinho frio. Às 10 horas. as pessoas começaram a chegar.
Nosso grande amigo e nosso médico Messias e Kátia, sua mulher, Cristiano, Ana e Edith vieram do Rio.
A Zete chegou de Cabo Frio para onde havia ido visitar uns amigos.
E chegaram Hélio, Fernando, Chico, César, Fátima, Maria Clara. Hector e Flora chegaram atrasados trazendo mais um casal: Norma Estrela e não me lembro o nome do seu marido. Por último Gil, gripadíssima.
Começo quase pelo final. A Zete trouxe para a nossa roda o seu sotaque baiano e uma fala belíssima: Começou dizendo que sua cidade, Ribeira do Amparo, era invisível e Saquarema para ela também era invisível. E agora as duas eram visíveis, pois ao falar da sua cidade ela passava a existir. E Saquarema agora existia para ela.
Para falar sobre as Cidades Invisíveis do Italo Calvino, puxamos muitos fios coloridos. Falamos da sua matriz, a cidade natal de Marco Polo, Veneza, da beleza , da poesia, da delicadeza da escrita, das alucinações, as cidades são todas alucinadas.
Falamos dos avessos, da cidade dos mortos, das sombras, das ruínas, da decadência das cidades. Do jogo dos espelhos, da beleza do encontro entre Kublai Khan e Marco Polo, do viajante e do grande Imperador que não se move. Do narrador e do que escuta . E tudo o que é imaginado , fulgura e existe. Falamos da influência de Borges, de Scherazade e por fim falamos sobre o olhar e sobre o tempo. Nas Cidades Invisíveis passado e futuro coexistem, Oriente e Ocidente. Tempo e Espaço.
Falamos sobre as megalópolis hoje, a inviabilidades das cidades imensas. A inviabilidade do planeta!
E terminamos com o último parágrafo do livro:

" E Polo:
_ O inferno dos vivos não é algo que será: se existe, é aquele que está aqui, o inferno no qual vivemos todos os dias, que formamos estando juntos. Existem duas maneiras de não sofrer. A primeira é fácil para a maioria das pessoas: aceitar o inferno e tornar-se parte deste até o ponto de deixar de percebê-lo. A segunda é arriscada e exige atenção e aprendizagem contínuas: tentar saber reconhecer quem e o que no no meio do inferno, não é inferno e preservá-lo e abrir espaço."

Como diz meu neto todas as noites: _ Mamãe, me conta as coisas bonitas.
As coisas bonitas são o que acontece de bom na sua vida.
Que nosso olhar busque sempre as clareiras que existem dentro do inferno.

Juan escreveu um texto belíssimo que leu em espanhol, fazendo um elo entre as cidades invisíveis de Calvino e a Veneza de Marco Polo.

Edith leu alto uma crônica do Rubem Braga: Recado ao Senhor 903.
Zete leu o poema Perda da Elizabeth Bishop.
Maria Clara trouxe uma reportagem de Marcelo Moutinho sobre a origem das crônicas do Rio de Janeiro. Trouxe também a letra de duas músicas . " O nome da Cidade" de Caetano Veloso, maravilhoso poema que Maria Clara cantou maravilhosamente e  "Lamento Sertanejo" de Dominguinhos e Gilberto Gil que cantamos todos juntos.
Ana também cantou uma música linda sobre Porto Alegre, a sua cidade. Ana é bibliotecária e cantora. Tem uma voz muito bonita.

Depois fomos para a varanda e o almoço estava esplêndido: escondidinho de aipim com carne seca, escondidinho de aipim com abobrinha e gorgonzola, arroz, feijão, couve, salada. Fiz dois pães lindos que foram devidamente devorados com azeite. César trouxe espumante para todos e oferecemos um ótimo vinho argentino, em homenagem ao Hector.
Uma torta com o nome do César marcou seu aniversário. E estávamos todos em estado de graça: literatura, amigos, pão, azeite e vinho, comida maravilhosa, a música do mar...
Esta é uma lindíssima clareira, com o chão varrido em círculos, onde dançam as fadas.

Próxima data: dia 18 de julho aqui em Saquarema
Os livros: A lebre de Vatanen de Arto Pasiilina, Campo Geral de Guimarães Rosa e um poema de amor do Vinicius de Morais.

sexta-feira, 15 de maio de 2015

N.SENHORA DE NAZARÉ

Ontem fui com minha hóspede, a Professora Zete visitar a Igrejinha Nossa Senhora de Nazaré em cima do outeiro. É a vista mais esplêndida do mundo e sempre me emociono.
A Igrejinha, tão simples e singela, estava aberta. Nenhuma fausto, nenhuma riqueza. Ela data de 1630 e não sei o que guarda de original.  Quis ver a Nossa Senhora de Nazaré sentada, pois Celmar, minha professora de italiano me disse: é a única Nossa Senhora sentada! Está mesmo sentada.
Apesar de não ser católica, gosto do silêncio das Igrejinhas simples e das capelas.
Depois à tarde eu a levei para ver a parte mais rural de Saquarema, o bairro Jardim, onde moram nossos caseiros. Sou apaixonada pelo bairro. A lagoa ali é tão linda, entardecia e a água falava baixinho.
Tomamos um café com broa de milho na casa dos caseiros.
E faço os últimos preparativos para o encontro do nosso Clube de Leitura amanhã.  

quarta-feira, 13 de maio de 2015

CIRANDA CIRANDINHA

Quando criança amava brincar de roda. Amava de paixão mesmo. Enquanto rodava acho que construía uma mandala dentro de mim e o mundo era bom e seguro.
No meu livro Brinquedos e Brincadeiras faço poemas com as brincadeiras da minha infância. Acho que os poemas ficaram belos.
Faz tanto tempo não ouço vozes de crianças cantando as cantigas de rua. Brincávamos na pracinha.

 CIRANDA

Ciranda, cirandinha,
vamos todos cirandar,
enquanto ainda dá tempo,
a primeira estrela anuncia:
A noite já vai chegar.
Vamos dar a meia volta
de mãos bem apertadas
e corações entrelaçados,
volta e meia vamos dar.

O anel que tu me deste
era vidro e se quebrou,
o tempo parece de vidro,
há que carregar com cuidado,
o amor que tu me tinhas
era pouco e se acabou,
mas amor nunca se acaba,
meia-volta, volta e meia,
outro amor há de chegar.

in Brinquedos e Brincadeiras

terça-feira, 12 de maio de 2015

DESABAFO

Hoje caminhei até a Ponte do Girau aqui em Saquarema. A lagoa é belíssima, mas suas margens estão cheias de lixo. Educação ambiental deveria ser , junto com a leitura, prioridade nas escolas. É muito trite ver o que seres humanos fazem com o seu entorno, com o lugar onde vivem. A Ponte do Girau tem sua balaustrada toda quebrada, com vãos interrompidos, podendo causar um sério acidente. Vejo a cidade se degradar e é uma pena.
A cultura é um feixe de conhecimentos. Tratar bem a sua rua, o seu bairro, é cultura. Sinto o lixo e a degradação como uma ferida em meu corpo.

Vi uma foto no jornal. A Presidente linda, magra, com um belo vestido azul, reinando num país fictício, na festa mais cara do mundo! Todos estavam lá, todos os podres poderes, inclusive os que enchem a boca de pedra para falar contra as elites. Era uma festa de elite, claro. Não vi nenhum pobre na foto.

Vi uma reportagem terrível sobre a situação das Universidades Públicas no Rio de Janeiro. Lixo, ratos, baratas, entulho, o descalabro é tanto que muitos cursos foram suspensos na UFRJ e na UERJ. A violência entra dentro do Campus.

Vi uma foto no jornal de um homem com uma faca na mão, nos arredores do MAM, um dos lugares mais lindos do mundo, onde vive, mora, dorme, acorda, um bando. Assaltam as pessoas  , esfaqueiam as pessoas. O Secretário Beltrame disse que é melhor pensar bem antes de chamar a polícia, pois não adianta nada.

Este é o país verdadeiro, onde reina a mulher do vestido azul.

Faz muito tempo não acredito mais em direita ou esquerda. Acredito em bom senso, bondade e honestidade. Bem estar para todos. Oportunidades iguais para todos.

Desculpem o desabafo, mas a Pátria Educadora está à deriva.

segunda-feira, 11 de maio de 2015

SEMANA

Hoje começa uma semana maravilhosa, recheada de coisas incríveis.
Amanhã , pela segunda vez, recebo alguém que só conheço virtualmente, que virá para o encontro do nosso Clube de Leitura da Casa Amarela no sábado e se hospedará aqui. A Professora Zete do Sertão da Bahia.
A primeira vez recebi Mariana, uma jovem bailarina, minha leitora desde criança. Ficamos amigas para sempre. Nos amamos e uma vez por ano nos encontramos numa amizade sólida como o sol. Ou em Saquarema ou na montanha.
Sábado é o encontro do Clube, uma das grandes felicidades que a vida me dá. Já somos uma família.
Vamos discutir As Cidades Invisíveis do Italo Calvino, um dos livros mais belos que já li em toda a minha longa existência de leitora. Releio e tem que ser muito aos poucos para não ficar sufocada com tanta beleza. Vamos ler em voz alta uma crônica do Rubem Braga, elas são todas maravilhosas, tão humanas, tocantes. Vou sortear alguém para ler em voz alta. E cada um trará um poema da Elizabeth Bishop.
Sempre temos um aniversariante no Clube e a sobremesa é uma torta com velas e parabéns. Desta vez é o nosso amigo César.
E segunda-feira, dia 18, embarcamos para Veneza. Estou indo pela quinta vez. Juan já foi umas cem vezes. É a sua cidade do coração.
Não saímos de Veneza para nada. Percorremos incansavelmente seus labirintos, extasiados.
Para mim, a matriz das Cidades Invisíveis é Veneza.

domingo, 10 de maio de 2015

DISTÂNCIA

Minha mãe está tão longe, em alguma estrela fazendo seus vestidos com luz, pois era modista . Meus filhos moram longe e um almoço em família seria impensável...Mas recebo mensagens pelo celular, recebo fotos da minha mãe, não nas estrelas, mas em Teresópolis, com minha irmã e minha sobrinha.
O Dia das Mães possuiu uma carga emotiva imensa e quer ou não quem não tem mais a sua mãe vivendo neste planeta, quem tem os filhos longe, quem não tem filhos, sente uma pontinha de tristeza.
Mas sei que minha mãe viveu 89 anos e embora o Drummond já tenha dito que mãe não deve morrer nunca, ela até que viveu bastante e segurou seu bisneto Luis no colo na sua última festa de aniversário. Eu lhe perguntei: _Mãe, você está feliz? e ela respondeu com o Luis no colo: _É o ápice!
Meus filhos tocam panelas e instrumentos, cada um fazendo o que ama e não há felicidade maior.
Então, apesar da distância entre nós, já que a mente tudo alcança, estou com eles agora .Com meus filhos. Com a minha mãe.

sábado, 9 de maio de 2015

ARTE POÉTICA

Talvez esteja cometendo uma heresia literária, mas como não ligo para nenhum dogma, afirmo que sou completamente apaixonada pela poesia do Borges, mas não amo os seus contos. Que poeta magnífico e como a sua poesia fala com as minhas emoções. Ganhei uma vez uma linda antologia em espanhol mas agora ganhei da Catalina Pagès o poema abaixo em português, um dos meus preferidos. Não sei de quem é a tradução .

ARTE POÉTICA

Olhar o rio de tempo e água
e lembrar que o tempo é um outro rio,
saber que nos perdemos como o rio
e que os rostos passam como a água.

Sentir que a vigília é outro sonho
que sonha e que a morte
que teme a nossa carne é esta morte
de cada noite, que se chama sonho.

Ver em um dia ou um ano um símbolo
dos dias do homem e de seus anos,
e converter o ultraje dos anos
em uma música, um rumor e um
símbolo,
ver na morte o sonho, no pôr-do-sol
um triste ouro, tal é a poesia
que é imortal e pobre. A poesia
volta como a aurora e o pôr-do-sol.

Às vezes numa tarde uma cara
observa-nos do fundo de um espelho;
a arte deve ser como esse espelho
que nos revela nossa própria cara.

Contam que Ulisses, farto de
prodígios
chorou de amor ao divisar sua Ítaca
de verde eternidade, e não prodígios.

Também é como o rio interminável
que passa e fica e é cristal de um
mesmo
Heráclito inconstante, que é o mesmo
e é outro, como o rio interminável.

Jorge Luis Borges

sexta-feira, 8 de maio de 2015

CICATRIZ

Hoje em todo o mundo ocidental é comemorado o fim da II Guerra Mundial. Não sou muito boa em números mas acho que foram 60 milhões de mortos. A minha geração, nasci em 1950 ainda ouviu os ecos da guerra. Em tempos históricos ela está logo ali, na esquina. E deixou uma cicatriz indelével na alma do mundo.
O homem, único animal que mata seu semelhante por prazer, pura crueldade, preconceito, exploração, conseguiu chegar, nos anos terríveis da guerra, a profundidades impressionantes no abismo do horror.
O mundo ainda está longe da paz. Muitos bilhões de seres humanos vivem acossados pela miséria, doenças ou pela guerra . Mas um conflito como o da II Guerra , hoje, seria inimaginável. Então algum caminho andamos.
Acredito muito firmemente na melhora do homem pela educação, pela arte.
Trabalhemos como abelhas para isso, de flor em flor.
Só a paz constrói. Só a paz produz bem estar, felicidade e beleza.
A guerra, apesar dos senhores das armas votarem sempre pela guerra, só deixa em seu rastro sangue e escombros.
Ontem, meu amigo Berbere Hammu Toppia, me disse que na língua berbere as pessoas quando chegam e se despedem dizem "azul". Os judeus dizem shalom, paz.
Então, paz e azul para todos neste dia .

quinta-feira, 7 de maio de 2015

AZUL

Alguns poemas ficam morando dentro da gente desde a primeira leitura. Foi o que aconteceu com o poema do Carlos Pena Filho. Agora ganhei uma antologia bem simples mas com poemas maravilhosos usada pela Catalina Pagès em seus Círculos de Leitura e para minha grande alegria reencontro o azul:

SONETO DO DESMANTELO AZUL

Então, pintei de azul os meus sapatos
por não poder de azul pintar as ruas,
depois, vesti meus gestos insensatos
e colori as minhas mãos e as tuas.

Para extinguir em nós o azul ausente
e aprisionar no azul as coisas gratas,
enfim, nós derramamos simplesmente
azul sobre os vestidos e as gravatas.

E afogados em nós, nem nos lembramos
que no excesso que havia em nosso espaço
pudesse haver de azul também cansaço.

E perdidos de azul nos contemplamos
e vimos que entre nós nascia um sul
vertiginosamente azul. Azul.

     Carlos Pena Filho

quarta-feira, 6 de maio de 2015

CAMINHADA II


Ontem fui ao Rio de Janeiro para a revisão de três meses da cirurgia na coluna. A viagem foi cheia de obstáculos. Chovia torrencialmente quando saímos mas depois a chuva abrandou. Mas na Alameda, numa favela chamada Caixa d' água, passamos no meio de um tiroteio. Fiquei com muito medo. Na Ponte Rio Niterói havia um acidente de um ônibus da 1001 com uma moto. Mais tarde soubemos que o motoqueiro morreu e ficamos arrasados. Para quem vive numa aldeia no interior, o oceano de ônibus e carros assusta.
Mas almoçamos com três amigas amadas: Bia, Silvia e Mônica e a nossa alegria era feito espuma de onda.
Depois o médico me deu uma quase alta: só não posso ainda ficar na rede (adoro ler na rede) e pegar peso. Não tenho nenhum limite para caminhadas. Posso subir e descer na montanha quanto quiser e conseguir. Vou poder visitar meu grande amigo Salvador Almeida, que mora em Visconde de Mauá numa terra muito acima da nossa e para chegar até a sua casa há que subir muita montanha.
E hoje fui a pé até a vila com o Juan.
Logo ao abrir o portão fomos recebidos por uma revoada de gaivotas. Nunca vi tantas juntas voando pertinho da gente! Centenas. O mar devia estar com muito peixe.
Paramos no Posto de Saúde: Feio, decadente , uma pena, pois é onde vacinam os bebês, as crianças. Deveria ser lindo. Tomamos a vacina contra a gripe e fomos tomar outro café da manhã , no Marisco, de frente para a lagoa.
Mar, montanha e lagoa fazem de Saquarema um lugar único no mundo. E com um pingado e um pão francês na chapa com queijo de Minas, vira um paraíso imbatível.
A felicidade é quase grátis. Poder andar e olhar!!! Os garis varriam, varriam muito, pois dia 8 de maio é o aniversário da cidade. A verdade é que a cidade anda bem abandonada ultimamente mas hoje havia uma caravana de garis, todos num varre-que-varre delicioso.
Fui ao correio. Meu amigo gordinho estava lá atendendo. Voltou das férias e como aqui tudo se sabe , ele já sabia que fui operada e etc.
E assim vamos tecendo a vida. E caminhando. Fui andarilha no passado e espero retomar este maravilhoso ofício.

segunda-feira, 4 de maio de 2015

CAMINHADA

Tenho andado uma hora todos os dias. É uma conquista imensa. Antes de operar a coluna já não podia andar nem dez minutos.
Gosto de andar pelas ruas de trás do nosso bairro. São ruas lindíssimas, calmas, com casas ajardinadas, fazem lindos jardins até nas calçadas. Não há trânsito nenhum cedinho de manhã, uma ou outra bicicleta ou moto.
Eu me vejo caminhando pelas ruas magníficas da minha infância no bairro do Grajaú, no Rio de Janeiro e uma emoção imensa me invade.
Ouço um galo, passam patos selvagens em sua estrada no ar, da lagoa para o oceano, não sei.
A luz e a calma da bela manhã de outono me invadem . Para que escrever um poema? Tudo isso é poesia!

sábado, 2 de maio de 2015

REVOLUÇÃO

Penso que a única revolução, a que realmente pode mudar um país, é a educação.
E esta revolução começa com o respeito pelos professores.
Por que os políticos possuem tantos, imensos privilégios e um professor ganha tão pouco que ao receber o seu salário sua dignidade fica ferida?
O que aconteceu no Paraná jamais teria acontecido, se lá , no princípio de tudo, o professor fosse respeitado.
Não há nada que justifique a violência contra os professores.
Não há nada que justifique o professor ser tratado com desprezo.
O professor é a chave do cofre do tesouro. A chave para abrir as mentes.
Nenhuma tecnologia pode substituir o olhar, o sorriso, o incentivo que o professor dá aos seus alunos. Ou, ao contrário, um professor despreparado pode destruir a auto estima de um aluno.
Devo muito a uma professora de português, Rosa Herman, ela lia minhas redações em voz alta, me incentivava a ler e escrever.
Todos nós, devemos muito a muitos professores amados.
O país que não coloca os professores no mais alto patamar está fadado ao fracasso.
Que cortem os privilégios dos palácios e dos políticos. Carros com motorista, mansões, jatinhos, e tratem a educação com o respeito que merece. O seu pilar é o professor.
Aqui não é questão de ideologia, deste partido ou daquele. É uma questão de vida ou morte para um país.
Milhões de pessoas podem sair da pobreza com uma escola de qualidade.
Podem expandir suas mentes, encontrar seu caminho.
E os professores são a peça principal desta bela engrenagem.

 

sexta-feira, 1 de maio de 2015

ECOS VERDES

Ainda estarrecida com o artigo que li ontem no El País sobre a contaminação dos alimentos que comemos em níveis absolutamente alarmantes, faço um contraponto com uma linda notícia:

Acaba de sair o livro ECOS VERDES da ed. Rovelle, Eu traduzi o livro chileno e é um dos melhores que já li sobre ecologia para crianças. O texto é simples, maravilhoso e ensina a criança, ponto por ponto, a ter um Pensamento Verde. Ensina a reutilizar, reaproveitar, não consumir mais do que necessita, a dividir, a respeitar toda e qualquer vida, pois ela faz parte de uma cadeia absolutamente necessária para a nossa sobrevivência. Educa o pensamento, os gestos, o olhar. Aplaudo o livro de pé e aplausos para as autoras Mônica Martin e María de los Ángeles Pavez.
Todos sabemos que as crianças são a nossa última esperança. Que elas reeduquem os adultos.

" A TERRA É NOSSO LAR

A Terra é um lugar extraordinário, cheio de vida, e nos fornece tudo o que precisamos para existir. Todos os dias desfrutamos do que o planeta nos dá, desde um simples copo de água até as maravilhas da natureza.
Compartilhamos este lar com milhões de animais, insetos e plantas. Juntos, habitamos um ecossistema, isso quer dizer que vivemos num equilíbrio em que cada espécie desempenha seu papel e tanto contribui para o meio ambiente como obtém dele o que necessita."

in Eco Verdes, Mônica Martin e María de los Ángeles Pavez, ed. Rovelle

quarta-feira, 29 de abril de 2015

EM PENEDO

Acabo de chegar de Penedo, pois a Secretaria de Educação de Itatiaia fez o evento com as escolas da região no Clube Finlandês. Era uma homenagem ao meu trabalho. O Projeto Itatiart trabalha o ano inteiro com vários artistas, estudando suas vidas e obras.
Saí do encontro impactada. Foram muitas escolas, muitos alunos, até a escola da Maromba de Visconde de Mauá estava lá.
Houve uma dramatização do meu livro O Circo tão linda tão linda, que dava vontade de rir e chorar ao mesmo tempo.
Houve uma leitura sobre a minha vida feita por um menino de uns 8 ou 10 anos, tão maravilhosa, ele lia tão bem, tão fluentemente e devo dizer que infelizmente esta não é a norma, que nem sei o que dizer.
O Rafael Fioratto faz bonecos para teatro, ele é professor de teatro . Houve uma apresentação lindíssima de um casal de bonecos. A menina é apaixonada pelo menino que não lhe dá a menor bola. Pois bem eu me apaixonei também por um dos bonecos do Rafael. Achei a cara do meu neto Luis. Tanto fiz e aconteci que acabei ganhando o boneco. Agora ele vai morar aqui na Atrium Escola de Música. Receberá os alunos de braços abertos.
Levei minha nora Patricia de Arias comigo, lemos juntas um poema do nosso livro Fio de Lua&Raio de Sol.
Fiz uma brincadeira poética com eles: o poema Orquestra Noturna do livro Caixinha de Música.
E foi tudo maravilhoso, levada que fui pelas mãos da Virgínia Ferraz.
Amanhã estarei no mar.

terça-feira, 28 de abril de 2015

COISAS DE NETO

  Estou em Resende. Passei dias esplêndidos na montanha. O encontro com meu neto Luis tem a força de uma explosão cósmica, já que nos vemos tão pouco.
Luis foi para a minha casinha. Levamos a caixa de tinta guache para a mesa da varanda e folhas de papel ofício. Luis pintava com os dedos misturando as cores. Eu era a ajudante, a trocadora de água.
Quando ele achou que a pintura já estava pronta, ele me disse:
_ Vovó, ficou lindo. Você pode colocar numa moldura. É arte sem sentido. Nós temos um quadro de arte sem sentido na nossa casa e é igualzinho!

No dia da minha chegada em Visconde de Mauá, fui direto para o ateliê da minha irmã Evelyn Kligerman . À noite jantamos com filho , nora e minha neta Gabriela no Warabi, restaurante japonês ao lado do ateliê. Minha tia Alice, a guardiã da memória da família materna, está passando dias com a Evelyn. Tia Alice não é japonesa mas é completamente zen.  Uma lição de vida. Eu estava tão feliz que me sentia forrada de luz. A comida era incrível e a Gabriela, tão pequenininha já adora comida japonesa.

Amanhã serei homenageada em Itatiaia, com um grande encontro com alunos da Rede Municipal.
E a escola da Barra da Tijuca que iria ao meu encontro em Saquarema no dia 13 cancelou a sua ida por enquanto. Já tinha o cardápio do almoço arrumadinho na minha cabeça! Mas faremos em agosto.

Hoje vamos almoçar aqui pertinho no Rei do Milho. Adoro este nome. É tão da roça! A comida é bem de roça mesmo e o milho ocupa um espaço privilegiado.

Depois de tantos dias sem notícias do mundo, não há nenhuma digna de alegria. Então, para sobreviver, cultivemos nossas pequenas- imensas alegrias pessoais: amor, amizade, sonhos.


terça-feira, 21 de abril de 2015

PASSEIO

Hoje caminhei uma hora com o Juan por dentro do bairro, as ruas são lindíssimas. Jardins e passarinhos. Andamos um pouco pela lagoa. Desde antes da primeira cirurgia na coluna em 1993 que não deu certo, não caminho assim, como uma verdadeira caminhante. Acho que vou ter uma overdose de endorfina.
Havia uma igrejinha antiga dentro do bairro, uma igrejinha colonial e um coreto numa pracinha. Era um conjunto belíssimo. Na década de 70 cheguei a ir numa quermesse nesta pracinha.
Pois bem, destruíram tudo. A igrejinha singela, saída de um quadro naïf, virou um monstrengo horroroso, transformaram uma obra prima num amontoado de feiura . Destruíram o coreto antiquíssimo e fizeram outro em seu lugar, mas não encontro palavras para descrever tal aberração. A cidade não cuida do seu patrimônio histórico. Além disso todo o conjunto está cheio de lixo.
Agora começaram a fazer a orla da praia. Um calçadão. Dá medo. Já estão construindo uns banheiros horrorosos, tiram a magnífica vista da praia, vários banheiros, como se uma multidão precisasse ir ao banheiro ao mesmo tempo! Já existem alguns prontos na Praia de Itaúna.. Olhando parece um amontoado de pedras, como se fosse um banheiro pré  histórico, só que naquela época não existiam banheiros. Quem desenhou deve ser obcecado pelos Flinstones . A população não foi consultada.
Eu grito sozinha de horror. Onde posso gritar? Ficamos nas mãos de políticos que não perguntam nada para os moradores, aos poucos a cidade vai se transformando sem que possamos interferir.

Amanhã mergulharei na montanha. Ficarei ausente por uns dias.

segunda-feira, 20 de abril de 2015

MOLHANDO JARDIM

Sábado pude molhar meu jardim. Antes da cirurgia na coluna era impossível. Além de não conseguir ficar em pé, qualquer movimento provocava dores terríveis.
Molhar o jardim e sentir o agradecimento e a alegria das plantas é tão maravilhoso, produz uma onda de amor tão grande dentro da gente! E o cheiro da terra molhada! Estava descalça , a tarde caia, a luz pousada sobre o jardim era quase um espelho. Eu fui me transformando pouco a pouco em planta e ao mesmo tempo eu ia derretendo de felicidade. 

AMOR ENTRE CÃES E HUMANOS

O artigo abaixo saiu publicado no El País e é interessantíssimo.


Desvendado o mecanismo do amor entre os cachorros e seus donos
O olho no olho entre donos e mascotes faz disparar a produção do hormônio do afeto

    O cachorro abandonado por medo de que tivesse ebola é adotado

Manuel Ansede 16 ABR 2015 - 20:33 BRT

   

"O amor pelo cachorro é voluntário, ninguém o impõe [...]. E o principal: nenhuma pessoa pode outorgar a outra o dom do idílio. Isso só o animal sabe fazer [...]. O amor entre um homem e um cachorro é um idílio. Nele não há conflitos, não há cenas angustiantes, não há evolução”, escreveu Milan Kundera em A Insustentável Leveza do Ser. No romance, a protagonista, Teresa, chega a pensar que o amor que sente por sua cachorra Karenin é muito melhor do que o que sente pelo marido.
mais informações

Esse sentimento se repete em um número sem fim de obras artísticas e se condensa na frase “Quanto mais conheço as pessoas, mais gosto do meu cachorro”, atribuída a dezenas de autores, embora possivelmente possa ser assinada por dezenas de milhões. Hoje, uma equipe de cientistas lança luz a esse processo de enamoramento entre cachorros e seus donos: retroalimentam sua felicidade olhando-se nos olhos.

Os pesquisadores, encabeçados pelo veterinário japonês Takefumi Kikusui, colocaram 30 cachorros com seus donos em um mesmo quarto, durante 30 minutos, e observaram o que ocorria: olhares, carícias, vozes carinhosas. Antes e depois do experimento, mediram a quantidade do chamado hormônio do amor, a oxitocina, tanto na urina dos mascotes como na dos donos.

As conclusões de Kikusui, da Universidade de Azabu (Japão), são surpreendentes: quanto mais os cachorros e seus donos se olhavam nos olhos, mais oxitocina seus cérebros produziam. Em seguida, o experimento foi repetido com lobos criados com mamadeira. O hormônio, ingrediente químico fundamental do carinho que sentimos em nosso cérebro, não aumentava.

A equipe de cientistas foi ainda mais além. Em um terceiro experimento, borrifou oxitocina no focinho de alguns cachorros e voltou a colocá-los em um quarto com os donos e duas pessoas desconhecidas. Nos vídeos, é possível ver como alguns mascotes ficavam congelados olhando nos olhos dos donos, que, por sua vez, produziam mais oxitocina, em uma quantidade correlacionada com a de seus animais.

“Esses resultados respaldam a existência de um circuito de oxitocina que se autoperpetua na relação entre humanos e cachorros, de uma maneira similar à que ocorre com uma mãe humana e seu filho”, argumenta a equipe de Kikusui, que publica suas conclusões na capa da prestigiada revista científica Science. Durante o processo de domesticação, ao longo de milhares de anos, os cachorros teriam evoluído para imitar um comportamento, o olhar das crianças, que provocava recompensas e agrados. “A alma que pode falar com os olhos também pode beijar com o olhar”, recitava o poeta Gustavo Adolfo Bécquer. Kikusui diz o mesmo, mas dos cachorros e seus donos.

As implicações do estudo são importantes do ponto de vista médico. Os resultados endossam as terapias com cachorros para pessoas com autismo ou transtorno de estresse pós-traumático, duas patologias nas quais, de fato, a oxitocina está sendo empregada como tratamento experimental.
Pontos frágeis

O trabalho de Kikusui, no entanto, tem pontos frágeis. Os cachorros borrifados com oxitocina que ficavam congelados olhando para seus donos eram todos fêmeas. Um estudo similar em humanos, realizado em 2012 com 35 pais e seus filhos de cinco meses em Israel, não encontrou essas diferenças por gênero. Os adultos eram borrifados com oxitocina e o hormônio do amor subia ao mesmo tempo nas crianças, fossem meninos ou meninas. “É fascinante ver que a oxitocina disparou somente entre os proprietários das cachorras”, opina o principal autor daquele estudo, o médico Omri Weisman, da Universidade de Yale (EUA).

Para a equipe de Kikusui, é possível que as cachorras sejam mais sensíveis à administração intranasal da oxitocina ou, até mesmo, que o hormônio aplicado artificialmente aos machos desencadeie um mecanismo de agressividade ante a presença de estranhos.

Em 2009, o húngaro Józef Topál, especialista em comportamento animal, publicou outro estudo na revista Science que mostrava que os cachorros e os bebês de 10 meses de idade buscavam um objeto em seu esconderijo inicial mesmo tendo visto que havia sido mudado de lugar, em parte por causa do olhar enganoso da pessoa que o escondia, que indicava o esconderijo original. No trabalho de Kikusui, Topál sente falta de experimentos com lobos mais socializados, treinados para olhar nos olhos de seus donos.

O pesquisador, da Academia Húngara de Ciências, recorda que até os lobos criados com mamadeira evitam o olhar de seus donos, porque para eles esse comportamento está associado à ameaça. Mas os lobos podem aprender a se comunicar de maneira amável com o olhar, segundo demonstrou um estudo de 2011. Na avaliação de Topál, incluir esses lobos nos experimentos de Kikusui teria servido para discernir se o olhar desse animal gera também o hormônio do amor no cérebro de seus donos ou se se trata de uma característica unicamente canina.

“O estudo de Kikusui é impressionante, mas qualquer conclusão sobre a coevolução desse processo é prematura”, afirma. “Não se pode excluir a hipótese de que esse circuito de oxitocina que se autoperpetua possa existir entre as pessoas e qualquer outro animal, sempre que o animal apresente comportamentos de afiliação socialmente relevantes, como a tendência a olhar para os humanos”, sentencia. O cachorro é o melhor amigo do homem, mas qualquer outro animal bem treinado também poderia ser, sugere

domingo, 19 de abril de 2015

LIBERDADE

No meu livro Carteira de Identidade, com maravilhosos desenhos da Elvira Vigna, encontro alguns poemas especialmente belos. Uma vez, Antonio Carlos Secchin me disse : - A tua poesia é bela.
Tive o privilégio de fazer uma oficina de poesia com este grande poeta, grande estudioso de João Cabral e Drummond.
Acho que é porque busco beleza em tudo. Basta uma folha deslizando no vento para justificar a minha existência. Farejo a beleza como um cão perdigueiro

LIBERDADE

Como Paul Éluard
escrevo a palavra liberdade:
com as linhas da mão,
com os fios de seda
que a poesia inventa,
com a dança lenta
das estrelas desaparecidas.

A palavra liberdade
com a água limpa
dos gestos limpos.

Com a água dos sonhos.

sábado, 18 de abril de 2015

ESPELHO

Aldo José Brasil de Lima me pediu um texto inédito para o seu blog, o Blog do Aldo.
Coo o texto já foi publicado, já posso colocar no meu próprio blog.

ESPELHO
Busco no espelho, como no conto do Guimarães Rosa, a minha alma.
Quem sou verdadeiramente, retirando a pele e os ossos?
Tenho 64 anos e um corpo que atravessou vendavais e sobreviveu. Um corpo marcado pela vida com todas as suas idas e vindas.
O espelho me mostra a superfície: uma bela senhora de olhos acesos. Mas por dentro é outra coisa. Tantas idades coexistem dentro de mim!
Sou uma adolescente, sentada no chão, de pernas cruzadas, querendo adivinhar o tempo. Felizmente, descobri o dom da poesia e do olhar, o meu dom.
E já não preciso adivinhar o tempo, porque hoje sei que o tempo não passa, somos nós que passamos e vamos vivendo o que nos vai acontecendo, as surpresas. Então posso conversar com a adolescente inquieta e apaziguá-la.
Mas se o espelho pudesse mostrar a minha alma, mostraria a criança que fui, a jovem, a velha, todas juntas, bem amarradas, como um feixe de girassóis.
Hoje, nós, humanos, vivemos muito. Podemos até nos aposentar do trabalho obrigatório, mas não da vida, das paixões, dos sonhos, que é o que nos move. Não podemos aposentar os milagres, eles continuam existindo até o último segundo.
Descobrir os nossos dons é uma tarefa  obrigatória para que nossa usina interna de alegria possa funcionar. Então não importa se temos vinte, trinta, sessenta, oitenta anos, a vida será sempre uma aventura.

Roseana Murray, 16 de abril, Saquarema

sexta-feira, 17 de abril de 2015

A POESIA CURA?

A poesia cura? Não radicalmente, mas pode ajudar muito! Minha sobrinha Julia Kligerman, psicóloga, tinha uma paciente que não lhe dava nenhum acesso, nenhuma via de comunicação. Não sei qual era o seu caso, mas através do meu livro Abecedário (Poético) de Frutas,ed. Rovelle, a paciente começou a falar, pois se apaixonou pelas frutas, pelos poemas e imagens, pelo livro.
Já soube de alguns casos parecidos de psicólogos que usam meus poemas.
A poesia tem o dom de mover conteúdos e sentimentos dentro da gente de uma maneira muito rápida e eficaz.
Soube até de um Professor de Psicologia que na Universidade deu um poema do meu livro Poemas de Céu, ed. Paulinas, para discussão.
Eis o poema:

BURACO NEGRO

Essa coisa esquisita
que às vezes
a gente sente,
como se tivesse
um pedaço faltando,
essa vontade que se tem
de não se sabe o quê,
esses abismos que nascem
repentinamente,
esses buracos
negros do céu
dentro da alma da gente.

A propósito deste poema: num dia longínquo, da década de noventa do século passado, fui autografar livros dentro de um Supermercado em Recife. Era uma experiência piloto.
Muita gente passava pela minha mesa cheia de livros comigo sentadinha atrás, e nem parava, às vezes nem olhava. Mas uma mulher parou , pegou o livro com o poema acima, numa outra edição, com outro título (na nova edição mudei o título), e ao terminar de ler o poema ficou muito irritada comigo. Ela me disse que tinha ido ao supermercado fazer compras e agora eu a tinha desarrumado. Ela me perguntou literalmente: _ Você sabe o que faz com as pessoas?
Comprou o livro, eu autografei e ela foi embora furiosa.

quinta-feira, 16 de abril de 2015

TODOS DIAS

Todos os dias nos levantamos com a tarefa urgente de ficarmos vivos. E não é pouca coisa.
Felizmente não estamos em guerra nem temos que fugir como os refugiados africanos ou da Síria, sem saber se a tarefa de atravessar mares e terras será concluída. O Brasil, claro, tem outras mazelas, a violência desenfreada da polícia e do narco, enfim, nem é preciso enumerar.
Mas todos os dias, como na música do Chico ela faz tudo igual...
e ao cozinhar o feijão ou ir para a fábrica, para a empresa, ou fazer faxina ou plantar, às vezes nos esquecemos de olhar.
Não há ofício mais belo e é grátis! Não precisamos pagar.

RECEITA DE OLHAR

nas primeiras horas da manhã
desamarre o olhar
deixe que se derrame
sobre todas as coisas belas
o mundo é sempre novo
e a terra dança e acorda em acordes
de sol

faça do seu olhar imensa caravela.

in Receitas de Olhar.

quarta-feira, 15 de abril de 2015

VAMOS BRINCAR?

Minha neta de um ano e quatro meses brinca sozinha. Vai construindo fios invisíveis entre as coisas. Senta, olha um livro, fala na sua língua, se emociona com algumas imagens, levanta, vai até um brinquedo que faz música, aperta uma tecla, canta junto, dança...Brinca muito de cabra cega com ela mesma. Gosta de colocar uma fralda de pano tampando a cabeça e o rosto e vai se arrastando sentada , no escuro, em busca de algo que não sabemos.
Meu neto de cinco anos brinca de Samurai, Super Heróis, brinca de espada , pedras de poder, Luna, sua cachorra, é muitas vezes parceira de lutas impressionantes. Gosta de alguns livros especialmente e como ainda não lê sozinho, contamos as histórias para ele mas ele vai acompanhando as palavras, já está quase lendo.
É maravilhoso ver como brincam as crianças. Tarefa das mais importantes para a formação de um ser humano e para a manutenção da alegria, brincar é primordial.
Nós, adultos, devemos brincar mais. Levar a vida mais aventureiramente, é fazer contato com a nossa criança.
Eu gostava de pular roda, brincar de roda, brincar com as bonecas de teatro, ler. Considero a leitura como a melhor brincadeira que existe. Num passe de mágica, atravesso o tempo , estou em outro lugar, sou outra pessoa, vivo outra vida.

terça-feira, 14 de abril de 2015

POÇO DOS DESEJOS

Patricia, minha nora, me conta: meu livro Poço dos desejos, ed. Moderna, está sendo lido e amado na aula de musicalização dos bebês na Atrium.
Eu acho incrível porque: quando escrevi os poemas meu leitor imaginário era grande!  Jamais poderia sonhar com um bebê amando estes poemas!
Então, como é que se pode dizer se um livro é para tal ou tal idade?

DESEJO DE ENCONTRAR UM TESOURO

Quem nunca sonhou com um tesouro
bem enterrado no fundo do jardim,
coberto por uma camada de terra
e perfumados jasmins,
ou mesmo num oco da parede
com um quadro em cima?
Quem nunca sonhou com um mapa
de pirata com caminhos sinuosos,
espiralados e o tesouro com um X
vermelho, um tesouro bem enterrado.
Mas às vezes o tesouro é o sol,
a lua, a chuva, flores, borboletas,
passarinhos, beijos, amor.





segunda-feira, 13 de abril de 2015

LA STORIA

Monica Botkay, minha amiga amada, tem uma biblioteca ótima de livros em francês. Da última vez em que estive na sua casa ela me emprestou sete livros.
Estou terminando de ler o terceiro. Um livro da Elza Morante, italiana, mas traduzido para o francês. La Storia. Como é uma edição de bolso, o livro vem em dois volumes)
Estou muito impactada. Ela começa o livro nos primórdios do fascismo, mas vivemos toda a Segunda Guerra junto com a personagem Ida e sua estranha família. Ida é filha de mãe judia e guarda seu segredo com terror. Ela é o pavor personificado. Seu filho Nino é um guerrilheiro sem ideologia, um vagabundo que vai e vem, aparece e reaparece. Logo no início da chegada dos alemães a Roma Ida é estuprada e apesar de já não ser jovem e ter engravidado de Nino com muita dificuldade (seu marido morreu), ela engravida deste estupro e nasce Useppe, a criança mais diferente e especial do mundo.
E desde que comecei o livro estou vivendo aí, junto com  Ida e Useppe e é impressionante como Elza Morante escreve! Consigo entrar na alma e no corpo da Ida, respiro com ela dentro de mim!
Paro de ler, olho em volta aliviada, não há nada mais horrendo do que a guerra.Não estamos em guerra. Há a violência e a guerra não declarada dos assassinatos. Mas não é uma guerra.  E as crianças jamais deveriam passar por experiências tão terríveis.
Conto tudo isso para dizer que amo a paz acima de tudo. Só na paz os afazeres simples e cotidianos adquirem sentido e consistência.

domingo, 12 de abril de 2015

TRANSFORMAÇÃO

Eu tenho um neto e uma neta. Meu neto gosta de espadas, lutas, samurais. Minha neta ainda é bem pequena, mas eu sonho que um dia , no futuro:

UM, DOIS, TRÊS
Um, dois, três,
era uma vez,
e a menina vira
e desvira,
na frente do espelho,
uma fada de longos
cabelos, tiara e varinha,
vira e desvira
uma princesa
e uma rainha.

Um, dois, três,
era uma vez
uma sereia com olhos
de mar,
e as roupas da mãe
esvoaçam dentro do espelho,
parecem feitas de ar.

in Brinquedos e Beincadeiras, ed. FTD , dedicado ao Maurício Leite

sexta-feira, 10 de abril de 2015

ATAQUE

Anteontem a TV 5 estava fora do ar. Havia uma tela azul onde se lia algo do tipo " A transmissão deste canal foi interrompida por motivos técnicos."
Entrei em pânico. Liguei para a Sky , o que é uma façanha para super heróis. Depois de horas esperando, uma atendente me disse que deveria ser um problema da minha antena. E agendou um técnico para vir até a nossa casa.
Entrei em pânico pois a Sky é arbitrária, completamente. A CNN em espanhol faz alguns anos foi retirada sem nenhum aviso.Entrei em pânico pois adoro os programas da TV 5 e é a melhor maneira de ter contato com a língua, eu a guardo como meu maior tesouro.
Mas o que realmente aconteceu foi um ataque terrorista cibernético de vastíssimas proporções assumido pelo EI ou ISIS. Eles conseguiram inviabilizar a transmissão da TV 5 para o mundo tudo e ainda colocar palavras de ordem na tela que ficou negra.
Acho que devemos propor que as escolas façam, criem, brincadeiras de paz.
Como disse o personagem grego do livro A Trégua do Primo Levy, quando acaba a guerra e estão voltando para casa:  "Guerra é Sempre!"
Mas temos que desfazer isso como se desfaz um nó cego, devagarinho, com paciência, no nosso dia a dia.

quinta-feira, 9 de abril de 2015

O PEQUENO PRÍNCIPE

O Pequeno Príncipe foi o primeiro livro que li em francês. Fiquei apaixonada. O livro foi alvo de desprezo, por ser o livro predileto das misses. Mas sou sua defensora ardente. É belíssimo.
Faço com a minha caseira Vanda aulas de leitura, já que tendo estudado apenas até o segundo ano primário, ela tem muitas dificuldades para ler e ao mesmo tempo entender um texto.
Por causa das minhas cirurgias e depois emendei com uma viagem de quinze dias, nosso projeto andava abandonado.
Primeiro lemos um livro infantil muito lindo da Angela Maria Quintieri , sobre o seu avô, motorneiro de bonde. A Vanda amou, pois sua mulher era camareira num hotel e logo houve uma identificação.
Ao pensar num segundo livro, pensei no O Pequeno Príncipe. Por ser de leitura fácil, por ser maravilhoso, por atuar no simbólico, despertar a imaginação.
Hoje, logo no primeiro encontro com o Pequeno Príncipe, quando facilmente ele decifra o primeiro desenho, comecei a chorar. Nada no mundo me emociona mais do que a imaginação da criança, a sua capacidade de ver o invisível, de atribuir vida a todas as coisas.
Vanda está amando e a sua capacidade leitora está se expandindo. Ensinei a ela um truque. Quando se deparar com uma palavra grande, que a leia primeiro na mente, para decifrá-la. Ela adorou e já não se atemoriza com palavras grandes e desconhecidas.
Faço ela me contar tudo o que lemos, com as suas palavras. E ganhar novas palavras, as que não conhecia.
Hoje tive uma ideia: numa caixa bem bonita ela guardar a palavra nova, num pedacinho de papel.
Será como a caixa onde o piloto guardou o carneiro imaginário do Pequeno Príncipe.

quarta-feira, 8 de abril de 2015

SONHANDO EM OUTRA LÍNGUA

Uma vez, quando era bem jovem, fui visitar o grande ilustrador Rui de Oliveira em seu ateliê, acho que no bairro do Catete, no Rio de Janeiro.
Ele me contou que morou muitos anos na Hungria como estudante. Um dia um amigo brasileiro lhe perguntou _ Você sonha em húngaro? Porque se a resposta for afirmativa, devo dizer que isso é muito grave.  Se começar a sonhar em húngaro, não voltará mais para o Brasil.
Mas para nosso deleite, ele voltou.
Ontem pela primeira vez sonhei em italiano. Acho que foi porque a minha aula de italiano ontem foi muito engraçada. Minha professora Celmar me pediu: _Vamos fazer um pão em italiano? Quero aprender.
E foi o que fizemos. Ensinei Celmar a fazer um pão em italiano! E depois, claro, o pão assou e ficou lindo.
A nossa aula vai acontecendo. Não suporto seguir um método. Gosto de um caos criativo. Falamos sobre isso e aquilo , conto sobre os livros que estou lendo e ontem lemos uma carta do Simenon para a sua mãe (traduzida para o italiano), para a sua mãe morta. Carta belíssima, emocionante.
Os neuro-cientistas recomendam, para a plasticidade do cérebro, aprender uma nova língua, alguma nova habilidade.  A minha alegria quando falo italiano, quando leio, quando entendo tudo nos programas da RAI, é infantil. Tenho vontade de dar cambalhotas.
Não lembro nada do meu sonho, apenas que estava na Itália e que falava fluentemente. O que já está quase acontecendo. Claro que faço muitos erros, principalmente com verbos, mas como não tenho nenhuma vergonha, vou falando.
É a terceira língua adquirida, território onde falo e leio. Escrever é outra coisa, muito mais complicada . Agora quero melhorar o meu inglês, pois falo mal e não leio. Em agosto começarei um curso on line.
Agora, vejam bem, se com 64 anos consigo aprender uma nova língua, imaginem o desperdício de não ensinar para valer uma língua nas escolas públicas! A criança aprende em minutos!
O Brasil deveria ser bilíngue, pois somos uma ilha de português cercada de espanhol por todos os lados. Isso ajudaria e muito o nosso sentimento precário de latinidade.

terça-feira, 7 de abril de 2015

A MORTE DO MENINO JESUS A

Meu marido Juan Arias escreveu um artigo belíssimo sobre a morte do menino Eduardo. Transcrevo emocionada:

Os pobres no Brasil costumam pôr vários nomes em seus filhos com um desejo inconsciente de um futuro mais próspero para eles.
Uma cruel e simbólica coincidência, como fizeram notar as redes sociais, fez que entre os vários nomes do menino morto na favela do Rio e de seus pais figurassem três nomes emblemáticos do drama do cristianismo: o menino se chamava Jesus, o pai, José e a mãe, Maria. Foi morto com um tiro na cabeça na porta de sua casa na véspera da sexta-feira santa.
Para crentes ou não, a crucificação do inocente Jesus de Nazaré há mais de dois mil anos, a história daquela família pobre e perseguida e o grito de amor universal e de defesa dos mais fracos lançado então continua sendo ainda hoje um apelo no mundo todo contra os crimes e abusos do poder contra os indefesos.
  • Talvez por isso, o inocente e novo crucificado, o pequeno Eduardo Jesus e a coragem de sua mãe, uma empregada doméstica que trabalhava na zona nobre e rica da cidade e que enfrentou a polícia que matou seu filho, está se convertendo em um arquétipo da luta contra a violência perpetrada contra os mais fracos. No Rio, 80% das mortes violentas acontecem nas favelas.
Um dos cartazes de protesto levantados por um grupo de jovens daquela comunidade pobre do Areal tinha duas palavras escritas à mão: "Queremos viver", que era como dizer: Não queremos continuar morrendo. Duas palavras impregnadas de ameaça e esperança juntas.
Dizem que o Jesus cristão ressuscitou. O que é certo é que o pequeno crucificado da favela continua vivo. Com seu sacrifício inocente já está criando um movimento para ressuscitar as favelas. Seu sangue fez os jovens das comunidades pobres do Rio tomarem consciência de que só se morre quando se deixa de lutar contra a tirania. Assim, em outro cartaz escreveram: "A favela não se calará". Não será o primeiro milagre de Eduardo Jesus a quem o sensível papa Francisco poderia proclamar como mártir das favelas?
Eduardo Jesus, dizem em sua comunidade, era um menino doce e alegre, gostava de estudar, sonhava com futuro melhor que o de limpar casas como sua mãe, que todo mês poupava alguns reais de seu salário para poder pagar a ele o sonho de frequentar um curso de inglês.
Era um filho bom que no celular ensanguentado que tinha nas mãos quando o mataram tinha escrito no aplicativo de mensagens do WhatsApp: "Mãe, eu te amo".
Encarando o policial que tinha aberto a cabeça de seu pequeno e que apontou também contra ela a arma com a qual tinha roubado para sempre seu filho, a mãe de Jesus disse: "Pode me matar, porque já acabou com minha vida".
Não existe mãe no mundo que de algum modo não se sinta morrer também ao perder um filho. A lei da vida é que os filhos enterrem os pais. O contrário é só cruel destino.
Entretanto, não é certo que Maria de Jesus tenha morrido com seu pequeno. Ela e todas as mães pobres das comunidades violentas e abandonadas deverá continuar alimentando com sua dor e sua raiva esse grito dos jovens amigos de seu filho: "Queremos viver".
O escritor brasileiro Zuenir Ventura, um dos pioneiros na análise do drama das favelas do Rio, disse-me em uma entrevista há alguns anos que os jovens dessas comunidades procuram viver e divertir-se ao máximo porque "pressentem que morrerão sem chegar à idade adulta".
Sua mãe não morreu com ele. Não pode morrer porque precisa continuar de pé para que também seu filho continue vivo, para que a profecia de Zuenir Ventura se interrompa e para que a partir do sacrifício de seu filho inocente, os jovens das favelas exijam do poder o direito de continuar vivendo. Para que possam divertir-se e desfrutar da vida sem o peso sobre a alma de saber que uma bala perdida os persegue a cada instante.
Se os antigos romanos diziam "Se queres a paz, prepara a guerra", os jovens amigos do pequeno Eduardo Jesus sabem muito bem que é ao contrário: só lutando para exigir a paz e a justiça se fará impossível a guerra. Essa guerra que hoje ainda continua matando, enquanto uma grande autoridade do Rio teve a coragem de dizer: "Isso, nas favelas, sempre foi assim e pior".
As palavras também matam. Às vezes mais que as metralhadoras.
Podem matar mas também salvar, como as escritas pelos jovens em protesto pela morte de Eduardo Jesus: "A favela não se calará".
Por muito tempo essas comunidades tiveram de ficar caladas. Hoje anunciam que levantarão sua voz. E o farão agora também em nome do pequeno Jesus, que fez o milagre de libertá-las do medo.

segunda-feira, 6 de abril de 2015

E LA NAVE VA

Gosto das segundas feiras. Tenho a sensação de que estou num barco, amarrada num porto e que o nó da corda se desfaz, la nave va...
A casa é uma fábrica e adoro o movimento, parece que para começar a semana todas as coisas, objetos e sentimentos vão se rearrumando .
Hoje o Samuel corta a grama do jardim. O jardim é o milagre da casa. Quando compramos a casa era um areal, areia da praia. Havia uma única planta, uma alamanda amarela que existe até hoje. O jardim é quase um pequeno bosque, sete coqueiros, flamboaiã, limoeiro  , canela, cravo, graviola, e flores e flores, sortidas , coloridas. Muitas orquídeas amarradas nas árvores. O jardim é guerreiro, somos seus aliados mas ele tem que lutar contra o sal e o vento e a secura, Saquarema é semi-árida. Mas agora no outono ele está em seu apogeu. Há uma palmeira que se chama leque, tão majestosa, gosto de me sentar na sua sombra para ouvir seus pensamentos.
E o cheiro da grama cortada é inebriante.
Aqui da minha mesa escuto a explosão das ondas do mar nas minhas costas e Juan , trabalhando em sua mesa me diz, como naquele programa da Rádio Relógio da minha infância "Você Sabia?", ele na verdade me pergunta:
_ Você sabia que o Congresso gasta por mês Um Milhão Trezentos e Sessenta Mil Reais em cafezinho, água, refrigerantes, biscoitinhos?
Fiquei muito mais culta com essa informação. A minha cultura sobre a corrupção no Brasil aumentou muito, porque é impossível gastar tanto em cafezinho... Alguém está ganhando alguns trocados aí!


domingo, 5 de abril de 2015

CIDADANIA

Sempre que posso vejo o programa Thalassa na TV 5. Ontem foi sobre o Estuário do Rio Loire e sua navegação, seus estaleiros, suas cidades, sendo a de Nantes a mais importante.
O que me impressionou: Nantes, uma cidade industrial, pensa o tempo todo na melhor maneira de criar bem estar para a sua população. Nantes tem arte na rua interagindo com a população na frente dos estaleiros.
Este pensamento tão simples: Criar bem estar para a população deveria nortear cada passo do poder público. Deveria ser o Mantra dos políticos. Cada político deveria acordar pensando: -O que posso fazer para tornar a vida do cidadão mais leve, mais rica em experiências maravilhosas, mais feliz?
Nós, o tempo todo nos esquecemos que os políticos e os servidores públicos são nossos servidores mesmo, pois é o imposto que cada um de nós paga, e pagamos os impostos mais altos do mundo!  que fornecem os seus salários. Eles nos devem e muito!
Ter uma cidade pensada para o bem estar, limpa florida, agradável, com ciclovias e transportes dignos, ter direito de andar para lá e para cá sem ser atingido por uma bala perdida, ter uma educação de qualidade, sair do fundamental falando fluentemente uma língua estrangeira , não são atos de caridade, nem utopia. É nosso direito. Oportunidades iguais para todos não é favor.É direito.
Aqui em Saquarema não limparam a praia depois da ressaca. Está imunda. Isso é um crime. Pagamos impostos aqui em Saquarema, IPTU. Temos direito a uma praia limpa para deleite do nosso olhar. Os ônibus são um serviço indecente. Os políticos devem pensar, ah, os ônibus são para a ralé que não tem carro... e como os velhinhos sofrem nos ônibus que cobram um absurdo por um serviço indigno, da pior qualidade.
A nossa cidadania é violentada a cada minuto do dia.
Aproveito a Páscoa para pedir Paz e Cidadania.

EXERCÍCIO

"Conte Algo que Não Sei" é a minha coluna favorita do jornal O Globo. Hoje Daniela D.Sopeski, instrutora de meditação tem a palavra. E suas dicas são as mais simples, porém, dificílimas para nós ocidentais. Ela propõe não apenas a meditação em qualquer lugar, com o foco na respiração, mas também a concentração absoluta no momento presente, no que estamos fazendo aqui e agora. Essa entrega aos afazeres de uma maneira amorosa e atenta, faz com que nossa percepção aumente, nosso olhar sobre todas as coisas seja mais compassivo. E nos traz uma sensação de paz e bem estar , que é o que todos almejamos. Uma sensação de plenitude.
Não é um exercício fácil. E é isso mesmo, um exercício. Requer concentração.
Hoje decidi fazer uma salada de berinjela. Ao cortar as berinjelas, presto total atenção na cor da sua casca, passo a mão em sua textura maravilhosa e quando eu a fatio, meus olhos saboreiam a sua cor, as sementinhas minúsculas.
Aproveito para dar a receita: cozinho a berinjela, escorro, acrescento cebola e tomate bem picadinhos, um dente de alho bem esmigalhado, salsa, sal e azeite de oliva. É muito bom.
Mergulhar plenamente em cada instante da vida, que jamais se repetirá, cada instante é único, é o mais belo exercício .

sexta-feira, 3 de abril de 2015

Rimas Fáceis

Ao chegar em casa, em Saquarema, a correspondência estava toda em cima da mesa. Havia um livro. "Rimas Fáceis" de Edna Bueno.
Conheci Edna lá pelos meados dos anos 80, mas não a reconheço como Edna , já que seu apelido carinhoso era Tutuca.
Fizemos uma oficina de poesia juntas, na OLAC que não sei se existe ainda. Seus poemas eram belos e ela exalava doçura
Seu livro Rimas Fáceis, ed. Gaivota, de 2012, é um tesouro. Imperdível. Como pode caber tanta beleza num livro~tão pequeno? Porque Edna escreve seus breves contos como poeta e eles são uma explosão cósmica, arrebatam o leitor. Cada palavra uma estrela. Os títulos dos contos breves são magníficos, pares de palavras que anunciam o inusitado.
Recomendo o livro com fervor.Terminei de ler o livro com vontade de beijá-lo.

quinta-feira, 26 de março de 2015

A VIAGEM

A minha viagem rumo à montanha começou no dia 17 quando o Dr. Schettino, que operou a minha coluna disse que sim, eu poderia viajar. Perguntei se podia dançar e ele disse : _Valsa!
Dia 18 eu e Monica fomos para Resende. Era uma quarta-feira. Eu e meu neto enlouquecemos de felicidade! A Atrium, Escola de Música, já estava a mil por hora quando chegamos. A família toda almoçou no Babel Bistrô, do meu filho Chef e passei a tarde com a Gabriela, a outra neta. Gabriela tem um ano e quatro meses e fala uma lingua bem complicada, mas lá no meio a gente entende uma frase inteira.
Passei 24 horas em Mauá com a Monica. Chegar na minha casinha depois de cinco meses de ausência foi uma emoção avassaladora . Era fim de tarde. Quando acabamos de arrumar tudo nos sentamos na varanda e já era noite e chovia. Abrimos um vinho. A vida era simples. A mata, escura e respirando em nosso corpo.
Dia 21 a Atrium, em Resende, recebeu umas 120 pessoas para o lançamento do livro da minha nora Patricia de Arias, "Uma Ideia no Bolso", ed. Rovelle, e um café da manhã. Monica foi a fotógrafa oficial. Houve uma contação de história, as crianças emudecidas de tanta atenção. O espaço lindíssimo que é o da aula de teatro e musicalização, abarrotado. Eu era a pessoa que mostrava o livro e passava as páginas para a Contadora de Histórias.
Então voltei para a montanha. Monica foi rever amigos em outro lugar. E as primeiras 24 horas, quando então voltei para Resende, nem notaram que houve uma interrupção.
No domingo recebi minha amiga Leila. Nosso projeto era dedicar bastante tempo para a meditação.
E foi o que fizemos. Meditamos juntas várias vezes ao dia. Fogão de lenha aceso, frio e neblina, tudo o que eu desejei ardentemente durante os cinco meses em que não pude vir.
Na minha casinha nem o celular recebe sinal. Para telefonar tenho que andar até o Babel Restaurante.
Ontem viemos para Maringá-Rio passar o dia com a minha irmã Evelyn em seu belíssimo, estonteante Ateliê de cerâmica , o Ateliê Kligerman-Mérigo.
Eu e Leila dormimos na Pousadinha Cruzeiro do Sul, atrás do ateliê, pois aqui não há lugar para dormir. A Pousada é de uma simplicidade que emociona. Parece um quadro naif, os jardins tão bem cuidados, os cheiros de frutas no pé, de grama cortada, de terra densa , bem preta, me deixam em êxtase.
Ontem almoçamos no Restaurante Trem de Minas, comidinha caseira, deliciosa, bem de roça. Hoje voltaremos ao restaurante e uma amiga querida virá ao nosso encontro.
Depois do almoço subo para a casinha e os laços com o mundo se cortarão outra vez. Desaparecerei um pouquinho outra vez.

segunda-feira, 16 de março de 2015

MALAS NA VARANDA

Acordei para viajar. A felicidade pessoal é como uma orquídea , há que saber cuidar. Com palavras, gestos e principalmente há que alimentá-la com o olhar. A felicidade é o vento bom que nos inunda quando sabemos viver as pequenas coisas com intensidade, pois tudo passa como um sopro. A felicidade não depende de grandes aparatos, grandes arquiteturas e engenharias. E é possível separar a felicidade pessoal da dor do mundo, a que carregamos com esforço.
Acordei para viajar e o céu estava maravilhoso. Escrevo quando puder.Não se esqueçam de mim!

domingo, 15 de março de 2015

MANUAL DA DELICADEZA

A ed. FTD fez uma edição nova do meu livro Manual da Delicadeza. São as mesmas ilustrações da Elvira Vigna, mas o formato é diferente. Antes era um livro comprido e agora é um livro pequeno. O tamanho do livro mudou a minha percepção das ilustrações. O livro diminuiu e elas cresceram muito. E os poemas cresceram junto.

A nossa sociedade hoje está crispada, tensa, violenta. Nada delicada. O século XXI é duro, com guerras por intolerância religiosa. Jovens desertam de suas vidas, de seus países, para ingressar em movimentos terroristas que matam da maneira mais cruel, destroem, nos levam para as ruelas inundadas de sangue da antiguidade.

Há uma falta generalizada de delicadeza. E ela é o exercício mais necessário para que possamos exercer a nossa precária humanidade que se inaugura quando me reconheço no outro mesmo que ele seja diferente.
A intolerância e a brutalidade tornam a vida áspera.
Uma parte do país foi para as ruas defender o Governo e felizmente tudo aconteceu em paz. Hoje outra parte sairá para protestar e esperemos que tudo ocorra em paz. Todos, cada um de nós, tem o direito de pensar de uma maneira ou de outra. Sem bombas ou destruição.

MOINHO

São as águas
da delicadeza
que movem o mundo.

Uma palavra amorosa,
um gesto,
uma carícia,
fazem a Terra
mais azul
e mais leve,
trazem à pele
a memória mais antiga:

Também somos um grão
de estrela e de infinito.

sábado, 14 de março de 2015

UM CAMINHO NO OUTONO

Levo comigo um pequeno livro do Kafka , uma espécie de diário, onde anotava seus pensamentos,indagações, discussões sobre o pecado, o bem e o mal. Muitas vezes são páginas lindíssimas, fazem o coração disparar. Às vezes uma pequena frase e me desprendo de mim e voo. "Cuadernos en Octavo", não sei se existe em português. 
No dia 6 de novembro de 1917 ele escreve:" Como um caminho no outono: acabam de limpá-lo e já está outra vez coberto de folhas secas". Logo em seguida escreve: " Uma jaula foi em busca de um pássaro."
Estas duas frases me inquietam. Porque a vida é este caminho coberto de folhas secas que uma e outra e outra vez temos que limpar, nas tarefas miúdas do cotidiano e só quando a vida corre perigo, vemos a beleza deste gesto que se repete desde o começo do mundo. Além disso, um caminho coberto de folhas secas no outono enche meus olhos de dourado e a sensação dos pés que fazem música pisando nas folhas que estalam,  fazem  meu corpo se fundir com a terra.
E "uma jaula foi em busca de um pássaro", além de uma pintura me fala sobre o nosso desejo de conforto,m de aprisionamento, de um vestir-se de clichês, frases feitas, porque a verdadeira liberdade dói. Porque o céu é demasiadamente imenso e quando livres temos a perfeita dimensão da nossa insignificância. 

sexta-feira, 13 de março de 2015

HONRA

Acho que recebo de Saquarema muito mais do que mereço, sem estar fazendo demagogia ou dizendo isso para que vocês respondam aquilo. Mas ontem fui incluída pela Secretaria de Educação e Cultura entre as 14 pessoas homenageadas porque fizeram e fazem parte da história de Saquarema.
Eu simplesmente existo aqui, quietinha no meu canto. Tento fazer algo pela leitura nas escolas, porque tendo participado de tantos projetos de leitura acabei aprendendo alguma coisa sobre a formação do leitor.E é o mínimo que posso fazer.
É uma honra muito grande você ficar sabendo que faz alguma diferença na sua cidade. E ao dizer isso para o Nelsinho, pintor e figura maravilhosa ontem à noite, que tanta gente merecia mais do que eu estar ali, ele me disse a frase mais linda: _ mas você está aqui, entre a gente, escolheu estar aqui.  
Entre os que já não vivem na Terra, meu grande amigo Latuf, que foi embora me deixando órfã de uma das mais belas amizades que já vivi, estava entre os escolhidos. Ele era mais velho do que eu, mas ele dizia, eu era a sua idiche mami. Com bolo e café com leite para a merenda.
Minha amiga Fátima Alves, por exemplo, constrói uma história tão bela aqui no Município, com o seu Educandário do Bem. Silenciosamente ela transforma a vida de muitas crianças e jovens. Ela oferece Oficinas de Capoeira, Rodas de Leitura, Dança, Percussão e ainda outras, que são fruto de parcerias. Funciona no contra turno escolar, apenas para quem está matriculado em Escolas Públicas. São mais de cem crianças, todos os dias! E com lanche e numa casa linda que transborda amor.
Fátima não faz alarde do seu trabalho E precisa muito de colaboração. Tem gente que se oferece para cortar o cabelo das crianças, para pintar a casa, consertar, remendar. Tem gente que contribui com pequenos valores mensais que ajudam a pagar as contas de água e luz.
É emocionante alguém fazer um trabalho tão imenso e que dá tanto trabalho, apenas para fazer um bem!
Quem quiser colaborar com a sua gotinha de chuva que ao se somar com outras gotinhas e receber um raio de sol, farão o mais belo arco-íris, deixo aqui o telefone e o endereço do Educandário do Bem.
Tele: 22 26532501
Endereço: Rua Cananéia número 02 (final da Rua Pereira), Bairro da Raia, Bacaxá, Saquarema.
E agradeço aos que me escolheram para estar entre as pessoas que fazem a História de Saquarema, tamanha honra.