domingo, 20 de agosto de 2017

SUDOESTE

De repente, o dia que estava azul e fresco, recebeu uma lufada de falta de ar. O vento parou e um mormaço insuportável cobriu tudo.
Então eu sabia que o tempo ia virar.
Eu nem preciso olhar nenhum site de meteorologia.
Sei pelo vento, pelo cheiro do mar.
E algumas horas depois entrou o sudoeste rasgando feito navalha.
O vento sacode e parece que vai esquartejar a casa.
As madeiras rangem, estalam, os vidros vibram.
A casa fala a língua do vento.
Olho pela janela e o mar já está muito revolto.
Gosto da natureza assim.
Algo no meu corpo responde a esse chamamento. Como a casa, meu corpo também vibra e estala.

segunda-feira, 7 de agosto de 2017

VISITA NA CASA

Hoje recebo a visita mais especial do mundo:
Minha neta Gabi. Não me canso de acompanhar seus jogos, teatros, brincadeiras. É matéria em estado de luz para a minha poesia. Ela tem 3 anos e meio e não se cansa de me surpreender.
Sorte do poeta que escreve para criança e tem uma neta ao alcance da mão.

domingo, 6 de agosto de 2017

DESPERDÌCIO

Hoje, não sei porque, viro e reviro a palavra desperdício. O que se perde por descaso, descuido, o que o Brasil desperdiça, começando por seus jovens, milhares de talentos desperdiçados, ano após ano, com uma Educação que não voa, que não faz pensar, que parece que prefere deixar tudo assim mesmo. O Brasil desperdiça sol e vento. Quantos países gostariam de ter a quantidade de sol e vento que temos para gerar energia!
E o lixo? Já há países com lixo zero. E aqui desperdiçamos essa grande fonte de riqueza. Do lixo absolutamente tudo se recicla, se aproveita.
Desperdiçamos a capacidade das crianças de aprender outra lingua. Espanhol, por exemplo, já que somos uma ilha de português cercada de espanhol por todos os lados! Uma língua que se aprende é um tesouro extraordinário.
Todas as escolas deveriam ter uma máquina mágica farejadora de dons. E dar a cada aluno a chance de exercer esses dons.
Desperdiçamos o tempo que uma criança passa na escola, quando não recebe fartas doses de literatura e arte.
Sem desperdiçar tudo isso que imenso seria o Brasil.

quarta-feira, 2 de agosto de 2017

PRECONCEITO E LITERATURA

Quando era uma criança de classe média na década de 50 (meus pais tinham um armarinho no Grajaú, um belo e pacato bairro da zona norte do R.J), ninguém do meu convívio era separado. Havia apenas um caso escandaloso na família, sussurrado. Uma bela mulher que teve um filho de um amante.
Casamento tradicional era a regra. As pessoas se suportavam ou amavam ou odiavam mas ninguém se separava. Era estigma.
Isso na classe média. Na classe pobre, onde eu também vivia pelas mãos da Eunice, minha mãe negra, ser separada, mãe solteira e etc era muito comum. A própria Eunice era separada e criava seu filho Aderbal sozinha. Ele se hospedava durante a semana na casa de uma familia na favela das redondezas e íamos sempre visitá-lo na casa da D.Edméia, com suas duas filhas lindas da minha idade e eu nunca ouvi falar de nenhum marido. Passei horas maravilhosas naquela casa em cima do morro onde o afeto era a regra. Uma casa muito melhor do que a minha casa triste.
Faço um corte e passo para um encontro na minha casa em Saquarema com professores e a Secretaria de Educação , não me lembro o ano.
Uma professora levava uma camiseta com o desenho de um casal e um filho e a frase:
Família tradicional: Eu apoio.
Mas não se trata de apoiar ou não.
A família mudou.
Mudou radicalmente.
Hoje existem muitas constelações familiares diferentes.
Duas mulheres, dois homens, uma mulher e um homem, uma mulher sozinha, um homem sozinho e um filho.
O que importa mesmo é o amor.
É isso que conta.
E não será expulsando livros de literatura que falam do assunto que se manterá a familia tradicional.
Quero colocar bem clara a minha posição:
Todo preconceito é uma tentativa desesperada de manter uma realidade que não se sustenta.
As religiões não deveriam legislar sobre a família mas apenas fortalecer o amor entre seres humanos.
Devemos nos indignar contra qualquer tipo de censura e preconceito.
Somos todos frágeis e mortais e insignificantes frente ao universo.
Que nenhum livro seja banido por tocar em temas desagradáveis para alguns. Que a qualidade do livro seja sempre o mais importante. E que se saiba que a criança está sempre apta a discutir qualquer tema com delicadeza.

quinta-feira, 27 de julho de 2017

POEIRA DOURADA

Fui para a montanha e voltei para o mar. Passei 18 dias dentro do bosque.
Escrevi poemas, fiquei com os netos e a família, recebi amigos, fiz o encontro do Clube de Leitura da Casa Amarela.
Quando olho para trás, o que vivi não me transforma numa estátua de sal, mas deixa em mim a poeira dourada dos sonhos.

quarta-feira, 5 de julho de 2017

ENCOMENDA

Quando morei no Rio Comprido havia um correio dentro da Faculdade Estácio de Sá.
A moça que me atendia sabia que eu era poeta.
Então um dia ela me disse:
-Faz por favor um poema pro aniversário do meu namorado.
Alguém me pede um poema pro inverno.
Minha irmã Evelyn Kligerman me diz :
- Faz um poema pro arco-íris que você viu.
Sim, eu tenho em casa uma fábrica de poesia.
É engraçado como as pessoas fazem encomendas.
Mas a fábrica não tem uma linha específica de produção.
Funciona não se sabe como, às vezes movida a sensações, beleza, outras vezes por espanto ou dor.
Verdade que o arco-íris que vimos ontem juntas, eu e Angela Carneiro , nos fez sapatear de alegria. Parecia um portal imenso, pois era um arco perfeito, mas a poesia daquele momento não era traduzivel.
Eu apenas fiz um pedido. Mas pedidos a gente não pode contar.
E quanto ao poema de inverno... quem sabe.

terça-feira, 4 de julho de 2017

Enquanto o Sono não Vem

Depois que o livro Enquanto o Sono não Vem, do José Mauro Brant foi recolhido, leia-se censurado, penso que temos que resistir pelo belo, pelo insigante, pelo que atiça e acende o pensamento.
Pois vivemos tempos sombrios.
Madame Rosa, no livro de Émile Ajar, La Vie Dévan Soi, guarda um retrato do Hitler debaixo da cama, ela, sobrevivente de Aushwitz. Quando as coisas vào muito mal, ela retira o retrato e pensa que irá sobreviver.
Iremos sobreviver. Mas nós, que escrevemos para as crianças e jovens, temos que apostar na capacidade, no potencial de cada um.
Quantos talentos perdidos no Brasil, por falta de um exercício de pensamento, de oportunidades.
As crianças podem ver na TV que um bebê é vítima de um tiro perdido na barriga da mãe, ouvem falar de milhões roubados ( poque ouvem tudo!) e não podem ouvir uma história que fala de incesto?
Não vamos colocar amarras em nossas criações.
A nossa resistência é pela arte.

sexta-feira, 30 de junho de 2017

SAQUAREMA

Esse ano completo 15 anos
de Saquarema.
Viemos morar aqui por puro acaso.
Minha mãe tinha uma casinha aqui desde 1970.
Um dia, trouxe Juan para conhecer a cidade.
E ele, que conhece o mundo todo, pois viajou com Paulo VI e João Paulo II como correspondente, ao descer do ônibus, olhou para todos os lados, suspirou e disse:
- Achei o meu lugar.
Então um dia viemos. Com as gatas, o computador, uma mala de roupa. Da noite pro dia, - Vamos? E viemos e construímos uma casa .
E todos os dias me assombro com a beleza e a qualidade do silêncio.
Nos dias em que tenho pilates caminho no mar.
E depois do pilates venho tomar meu pingado no Marisco na beira da lagoa.
Saquarema é uma aldeia. Um povoado. Pena que tenha carros.
Nos outros dias caminho por dentro. Adoro a Saquarema de dentro.
Abro a minha casa e meu coração para as escolas, os leitores, os amigos.
E assim a poesia acontece.

quarta-feira, 28 de junho de 2017

UM JORNAL INCRÌVEL

Ontem recebi de Domingo Gonzalez um exemplar de um jornal feito por crianças de 10 anos.
É o informativo do Instituto Rogerio Steiberg, que trabalha com crianças superdotadas mas sem recursos.
O jornal é incrivel.
Conversei com a jornalista que faz o jornal com as crianças sobre temas da atualidade do Brasil e do mundo.
Ela fez parte da minha infância, se chama Rosa Cass, tem 91 anos e me diz: " Hoje a minha mente é tão aberta que dá até medo"
Quando eu era criança ficava extasiada com o seu conhecimento.
Ela me conta que ensina seus pequenos redatores a discutir sem brigar, a fundamentar as suas opiniões, a respeitar sem desqualificar as opiniões dos outros.
Ganhei um poema na revista.
E fiquei louca de vontade de conhecer essas crianças.

terça-feira, 27 de junho de 2017

DE ITALVA, R.J

Uma escola veio de longe: Escola Municipal Glycério Salles, da cidade de Italva. Quase cinco horas de viagem até aqui, para o nosso Café, Pão e Texto.
Mas como descrever a magia que se derramou sobre todos nós desde o minuto em que o ônibus encostou em nossa porta?
Uma Professora, ao me abraçar na chegada, me diz: - Estamos realizando um desejo antigo.
E recebi presentes da roça: doce de figo,
geléias, queijos, kibe (Italva é a cidade do kibe!), uma almofada com meus poemas, avental de cozinha, com meus poemas e um cofre de mármore também com meus poemas! Ganhei também uma orquídea.
Fizemos brincadeiras com os poemas. Rimos e dividimos a felicidade deste encontro.
Alguns alunos disseram alguns poemas de cor.
As crianças correram pelo jardim.
E arrumamos as mesas pro almoço como se fosse um restaurante! Todos ajudaram, alunos e professores.
Vanda Oliveira , Aline De Oliveira Oliveira e Samuel, meus anjos, foram incansáveis.
Samuel acendeu o fogão às 7h da manhã e às 12.30 comemos a feijoada mais perfeita do planeta Terra. Éramos 37 pessoas!
Servimos canjica de sobremesa.
Depois fomos até o mar. Muitos não conheciam o mar!
E então, sessão de autógrafos. E beijos.
Devo dizer que os alunos eram maravilhosos. Fruto da dedicação de professores maravilhosos.
E como hoje contei a história da Sherazade para eles, a minha sensação agora é a de estar voando num tapete voador.
Agradeço a presença da Secretária de Educação de Italva Vera Lane Rodrigues e das professoras absolutamente maravilhosas e amorosas:
Elane, , Marley, Virginia, Eliane, Vivian, Elisângela,Leila, Si Lopes e Jussara.
E esse lindo dia ficará guardado para sempre em nossos corações.
Juan Arias falou espanhol com as crianças e elas amaram!!!
Vamos fazer uma campanha pelo ensino de espanhol nas escolas municipais?
Criança adora aprender línguas.

segunda-feira, 19 de junho de 2017

NO JAPÃO

Ontem vi um programa sobre a sexualidade e afetividade no Japão.
Fiquei muito impressionada.
Noivas que se casam sem noivo. Para sentir a experiência. Mas o que faz sentido em dupla, transforma-se numa pantomima triste e surreal.
Namorados de aluguel. Mas não para fazer sexo e sim para andar de mãos dadas, tomar sorvete juntos, enfim, o que faria um namorado na década de 50.
Amantes que são bonecas perfeitas de silicone.
Casas de encontro que não são bordéis, mas o cliente paga apenas para estar perto de uma mulher, vestida como heroína de mangá, paga para deitar por alguns minutos a cabeça em seu colo.
Japoneses não tocam ou beijam. Mas o que foi focalizado é gravíssimo.
Na era virtual não conseguem mais comunicar-se realmente, cara a cara com outro humano. Sabem mover-se apenas no mundo virtual, apenas dentro dos mangás.
Diz o programa que a natalidade está diminuindo assustadoramente.
Um francês faz festas para favorecer encontros entre franceses e japoneses, já que os franceses ainda possuem a capacidade de se relacionar. E realmente já conseguiu juntar alguns pares.
Não sei a extensão do problema realmente. Mas se o que vi for verdadeiro é apavorante.
Será esse o futuro da humanidade na era virtual?
O Brasil é um país muito complicado e estamos vivendo um tempo triste e difícil. Entretanto, ainda sabemos abraçar, beijar, fazer amor. Ainda sabemos nos tocar.

O MALUQUINHO DO JARDINS

Toda aldeia tem o seu maluquinho. Edésio é o maluquinho do Jardins ( Será que é politicamente incorreto falar maluquinho?)
O seu delírio é a política. Sempre querendo ser candidato a Senador pelo bairro. Sempre fazendo campanha, muito exaltado.
Todos o conhecem, ele anda sem parar e tem as portas de muitas casas abertas e do comércio também.
Juan sempre conversa com ele quando se encontram.
Hoje fomos ao correio e o maluquinho estava lá.
Juan perguntou:
- Como vai a sua candidatura a senador?
Ele respondeu muito sério:
- Larguei a política. A política virou uma palhaçada!
Dentro da sua loucura, do seu surto e delírio, ele percebe a nossa realidade, que não é a dele. Acho isso muito impressionante.
Ele tem toda razão.
A política brasileira atingiu um nível de horror tamanho que consegue se fazer perceber até por quem não vive em nosso mundo.

quarta-feira, 14 de junho de 2017

CONVERSA DE AVÓ E NETO

Hoje, no meio da caminhada, meu neto de 7 anos me ligou. Ele nunca me telefona.
Ele me disse que tinha duas notícias maravilhosas para me dar.
A primeira: estava fazendo um exercício para a escola com meu poema Quintal, do livro Casas.
Mas a segunda, ele me disse, era muito mas muito mais maravilhosa: Ele ia falar meu poema Casa de Amigo na frente da turma!!!
E eu disse: A maravilha é que você tem quintal e tem amigos!!!
Ele respondeu: Tá bem. Tchau!
E falando em quintal, a maravilha é que meus vizinhos trouxeram galinhas e dois galos para o seu quintal.
E todos os dias, na minha vigília bem cedinho de manhã, um galo canta e já entorna o amarelo do seu canto no meu dia e traz ( embutido nas suas notas musicais) o poema do João Cabral.

terça-feira, 13 de junho de 2017

DIA DE SANTO ANTONIO

Hoje é dia de Santo Antonio de Pádua.
O que sei do Santo:
Italiano, provavelmente gostava de comer bem e beber vinho, qual italiano não gosta?
Já fazia voto de castidade, instituição a meu ver nefasta, decidida num Concílio, no Século III em Granada,
para nào dispersar os bens da Igreja. Apesar do voto de castidade é um Santo Casamenteiro .
E mais não sei.
Hoje é feriado em Saquarema e começamos o dia com uma longa e bela caminhada até a Padaria da Ponte para tomar aí o café da manhã e depois nos sentamos num carramanchão na frente da lagoa.
Havia revoada de pássaros e gaivotas.
E uma garça tão branca e solitária caminhava sobre as águas.
Quero dar essa garça de presente ao meu amigo amado, meu irmão Hélio Nicoletti que faz anos hoje.
Hélio, o voo da garça é teu e dos meus leitores. Façamos deste voo a nossa estadia na Terra.

quinta-feira, 1 de junho de 2017

CONSUL HONORARIO

Juan Arias me conta: morou 40 anos na Itália, em Roma, mas escolheu Veneza como a sua cidade do coração. Pergunto: Quantas vezes já veio aqui? Umas 100 vezes? Ele me diz: Em 40 anos, umas 200 talvez.
Veio convidado como jornalista para grandes eventos e sua paixão pela cidade é tamanha que Felipe Gonzalez lhe ofereceu o posto de Cônsul Honorário. Não pode aceitar, pois não havia remuneração e ele precisava trabalhar para viver.
Mas a sua felicidade quando está aqui é monumental. Eu disse, estou com pena de voltar. Sentirei falta dos barulhos, dos canais, da língua, dos gondoleiros que passam levando um cantor na barca, dos cheiros de café e pizza,
de tudo.
Ele diz: Imagina eu.

quarta-feira, 31 de maio de 2017

AS NOIVAS

Saímos bem cedo para ver a Praça S. Marco vazia.
No caminho é outra Veneza, uma Veneza anterior , a que as multidões apagam.
Nos cruzamos com varredores de rua e amei as suas vassouras de bruxa!
Ao chegar na praça vazia encontramos a primeira noiva e seu séquito: o noivo, o fotógrafo, a ajudante.
Logo depois outra noiva e depois outra. Três e duas eram chinesas!
Se Marco Polo saiu de Veneza para ir à China, tantos séculos depois  os chineses descobriram Veneza definitivamente.
Fomos andando para o Campo dei Frari para nos despedirmos de Eugenya,  mulher do Paolo, nossos amigos aqui.
Ela trabalha no Café Dersut e é tão maravilhosa e bela e delicada. Foi muito emocionante a nossa despedida. Combinamos: ano que vem eles irão a Saquarema.
Um músico tocava violoncelo logo ali, magnificamente: A suíte para violoncelo, de Bach.
E nos sentamos no Campo S.Polo para descansar um pouco. Já havíamos caminhado uma hora e meia.
Um casal colombiano conversava em espanhol ao nosso lado e logo começamos a conversar com eles.
Na Colômbia tudo muito parecido com o Brasil: corrupção, esquemas, acordos e os salários dos políticos são altíssimos.
Chegando a Rialto pela Ferrovia, encontramos uma tenda que vendia cartazes, calendários, camisetas, tudo sobre o Referendo do dia 12 contra os Cruzeiros e pudemos nos informar: É uma iniciativa particular de um grupo de cidadãos de Veneza. Ou seja, mesmo que ganhem já perderam, pois há um pacto entre os políticos e a Máfia dos Cruzeiros e ninguém conseguirá acabar com isso.
Chegamos em nosso restaurante em Fondamente Nuove, a Trattoria Storica.
O dono já nos conhece e nos fala um pouco de todos os problemas, da brutalidade desse capitalismo selvagem que passa por cima de tudo. Ele diz: "Deveríamos voltar no tempo, voltar ao campo, sei lá. Fazer as coisas bem feitas, como antes"
Antes não existia a sociedade de consumo dessa maneira que conhecemos.
Também sonho com um outro mundo.
Em todo esse percurso nos cruzamos com muitas livrarias lindas e com várias lojas maravilhosas de papéis, postais, caixinhas de papelão, penas para escrever, miniaturas...                      

segunda-feira, 29 de maio de 2017

ONDE COMER EM VENEZA

Sou uma caçadora- farejadora de silêncios. Desde a infância.
E aqui em Veneza vou buscando esses espaços vazios, onde quase dá para sentir os séculos andando para trás. Sentada num banco, no Campo dei Gesuiti, para onde voltamos sempre, as vozes em sussurros, o vento leve sobre a pele, quando fecho os olhos, hoje poderia ser qualquer dia de 1600, 1700.
Miinhas roupas seriam outras, outra vida a minha vida, mas os sentimentos, o que me faz humana e me deixa atravessar o tempo, isso não muda : sempre iguais.
Num restaurante em Fondamente Nuove, encontro na entrada um poema que traduz isso.
E onde comer em Veneza?
É caro e se come mal nos restaurantes turísticos.
Há que buscar um lugar onde comam os italianos.
Encontramos. A Trattoria Storica.
É longe de onde estamos hospedados, mas como adoramos a Fondamenta Nuove, não nos importamos de caminhar até aí. Dá uma hora e algo de caminhada. No mínimo duas horas de ida e volta.
Hoje, depois de entrar numa Igreja para ver outra vez uma exposição de instrumentos antigos da época do Vivaldi, começamos a nossa ida.
O restaurante estava cheio. Queríamos comer do lado de fora e ficamos esperando por uma mesa.
O dono, amabilíssimo nos levou para dentro, até que esvaziasse um lugar.
Mas como demorava, veio com duas taças de espumante.
E nos contou que tem um irmão no Brasil, mora na Bahia.
Por 13 euros se come um esplêndido menu del giorno.
Comi spaghetti ao alho e óleo e uma salada imensa, mas tenho vocação para cabra. Posso comer um balde de salada.
A Trattoria está sempre cheia de gente local, o que é uma grande garantia.
Devo dizer que a minha paixão pelo povo italiano só aumenta.
Nunca, em nenhum país fora do Brasil, encontrei tanta amabilidade e delicadeza.

domingo, 28 de maio de 2017

DOMINGO

E aí vc sai do meio da multidão e cai dentro de uma clareira de silêncio, um Campo com seu poço, seus bancos vermelhos e algumas árvores par dar sombra:
Campo S. Polo. Sentada num café, cercada pela musicalidade de muitas línguas, vejo à minha direita um palácio magnífico, tão oriental, quase todo fechado.  Há três entradas e numa
delas há uma placa de aluga-se. Nos outros edifícios, menos imponentes, sim há janelas abertas.
E fomos andando por dentro desse bairro, cheio de curvas e surpresas, por caminhos que nunca tinhamos andado. Sempre existe algum lugar por onde nunca fomos. E  numa ruela escura encontramos uma loja Pierre Cardin, com uma vitrine que era um assombro de bela e ousada. Mas quem é que vai aí comprar?
E passamos pela Rua das Donzelas...
No Campo S.Agostin havia um grupo de moradores com luvas e macacões de plástico e baldes, vassouras, panos, esponjas e muita disposição para limpar as pichações.
O bairro é muito pichado, aí pelos lados da Ferrovia.
Hoje é domingo e portanto há muitos italianos de outros lugares fazendo turismo na cidade.
Faz calor. Parece verão.
Os gerânios colocam uma pitada de vermelho no ar.

sábado, 27 de maio de 2017

PELOS LADOS DO PALÁCIO GRASSI

Andamos pelos lados do Palácio Grassi. É um bairro lindo de gritar com suas muitas galerias de arte contemporânea, antiquários. Um passeio imperdível.
Vimos uma exposição estranha, acho que já esteve no R.J, do artista Evan Penny: Ask your Body. São pedaços do corpo como se estivessem vivos.
Como estão dentro de uma Igreja, a de S. Samuelle, o efeito é altamente perturbador.
Debaixo de uma pintura de um Cristo deitado e morto, ( antiquíssima), pedaços de corpo como se fossem de verdade. A gente sente no estômago.
A mostra faz parte da Bienal e o que acho incrivel é a Bienal estar absolutamente entrelaçada na cidade e artistas contemporâneos interagem com a arquitetura e até com essa igreja!
Dá uma ideia maravilhosa de camadas.
Almoçamos numa Trattoria na P. S.Margarita, onde há uma vida de bairro, uma praça que pulsa.

TANTOS DÍAS

Passar tanto tempo na mesma cidade para mergulhar nas veias da cidade.
Veneza não é uma cidade qualquer.
Aqui a água é soberana e sem outro meio de transporte a não ser os barcos, o ritmo da cidade é mesmo lento e aquático.
Os carregadores passam e gritam : Atenção!!! para não sermos atropelados nos afastamos para o lado.
Aqui o nome das ruas é pura poesia e não nomes de pessoas que não conhecemos. São sugestivos e cheios de possibilidades.
Há uma Ponte dos Suspiros, os suspiros dos que iam para a prisão e viam Veneza pela última vez. Se não soubessemos da história, poderíamos pensar em suspiros de amor não correspondido.
Podemos com uma única palavra imaginar seus corações desesperados.
Há uma Rua do Diabo, para nos lembrar que o mal está sempre à espreita e a Rua dos Grandes Provérbios.
Há um cheiro de tomate e café que flutua como nuvem e Palácios maravilhosos, muitos estão fechados, habitados por sombras e fantasmas. Outros são hotéis luxuosíssimos lembrando o fausto de outras eras.
Há uma paciência inacreditável dos venezianos para com os que chegam de fora. Cada vez que se pede uma informação, eles param e amavelmente explicam.
Há os ruídos que sobem pelas paredes até a janela do quarto, param por alguns segundos no parapeito e saltam para dentro: Vozes enroladas em um grande novelo ininteligível e murmúrios, sussurros, arrulhos. Não buzinas ou chiar de pneus. E nos damos conta de que os carros foram a invenção mais terrível. Deveríamos nos mover sempre em barcos, balões, bondes, dirigíveis, bicicletas, onde o silêncio é o motor.
Em Veneza se recupera a caminhada como meio de locomoção e este simples caminhar nos conecta aos habitantes de outros tempos.
Há praças maravilhosas com mercadinhos ao ar livre de peixes e frutas, legumes, verduras onde senhoras e senhores sentam para conversar em bancos vermelhos. Os mercadinhos são arrumados com esmero como se as frutas, peixes, verduras, legumes, fossem jóias para comer.
Há quase um cachorro para cada habitante.
Não há gatos pelas ruas.
Como é primavera há uma explosão de flores e o céu reinventa o azul.
Estar aqui nessa cidade onírica, totalmente irreal, , como se suspensa na vigília, sem outra pretensão além de caminhar
 e olhar , por tantos dias e noites, apenas deixando que as horas se construam, confiando no acaso, é uma bela aventura.

sexta-feira, 26 de maio de 2017

CASTELLO, VENEZA

Saimos pelas ruas do Castello, atrás de S.Marco.
A ideia era clara: olhar, apenas isso. Os palácios, as praças, entrar em algumas Igrejas.
E lá pelo pelas 13h ir para Fondamenta Nove comer na Tratoria Storica .
 Antes de entrar em Castello, primeiro  visitamos a livraria Acqua Alta, recomendada por Delmino Gritti. Já a conhecíamos, mas não pelo nome. Linda, de livros antigos.
O bairro Castello é maravilhoso. Vi duas exposições que fazem parte da Bienal. Uma de Andorra, uma instalação de peças de cerâmica chamada murmúrios, da artista Eve Ariza, e outra da Polônia.
Pareciam conchas, são bowls, recipientes quase tão antigos quanto o homem.
Assim como não gosto que um poema venha com bula, detesto as explicações penduradas na obra. Por que cada um não pode ser livre para sentir o que quiser?
A instalação me fez ouvir um som inexistente e me provocou uma sensação muito agradável.
Já o artista polonês Ryszard Winiarski, com seu vídeo, não me disse nada.
Paramos num café para descansar e na frente, do outro lado do canal, numa casa, havia um baixo relevo estranho, um homem com um instrumento musical. Que instrumento seria? De que época? Será que o dono da casa era músico?
Decidimos ir para Fondamente Nove sem voltar para trás. E nos perdemos de uma maneira espetacular. Íamos nos enredando cada vez mais mais e não nos encontrávamos no mapa e cada pessoa ensinava de um jeito.
De repente entramos no bairro, depois de rodar por mais de uma hora. Mas entramos de um jeito diferente, por outro lugar e era impossível encontrar o nosso pequeno restaurante onde se come maravilhosamente por um preço incrível.
Então quando eu já estava disposta a desistir, pronto, demos de cara com a trattoria.
Onde se come dois pratos fantásticos aqui em Veneza por 13 euros, comida de verdade, para italianos e não para turistas? Um achado.
E hoje era nosso dia! Nos perdemos na volta também.

quinta-feira, 25 de maio de 2017

BURANO

Entrar em Burano é como tropeçar e cair dentro de uma aquarela.
A pequena ilha vive dos bordados que vende, dos restaurantes maravilhosos.
 Antes as bordadeiras produziam aí, agora não sei de onde chegam.
Mas a ilha inteira parece um bordado. É irreal.
As casas, coladas umas nas outras, de todas as cores, vibrantes, quentes, nos convidam a nunca mais ir embora.
Ainda mais quando sabemos que um país destroçado nos espera.
As casas exibem suas roupas lavadas ao sol. É lindo o contraste das roupas brancas com as cores vibrantes das casas. E possuem cortinas lindas nas portas, como na Andaluzia. Assim, no verão, podem deixar a porta aberta, só com a cortina.
Tomamos a barca de manhã cedo em Fondamente Nove, o que já dá uma grande caminhada.
A barca parecia a Torre de Babel. Tanta gente, tantas línguas. É tão bonito ouvir tantas linguas diferentes ao mesmo tempo.
As jovens chinesas são maravilhosas. Não me canso de olhá-las. Como se vestem e se movem.
Acho que dentro de pouco a moda virá da China. Elas possuem um charme parisiense/italiano/oriental.
E na volta descemos em Fondamenta para outra caminhada. Paro em S.Marco para um café, encostada no balcão. Acho que é o melhor pingado de Veneza. Não sobrevivo sem um pingado.

quarta-feira, 24 de maio de 2017

POÇOS ANTIGOS

Nossos passos nos levaram de volta a Fondamente Nuove.
É uma outra Veneza.
Calma. Silenciosa. Belíssima.
Hoje voltamos a este bairro pois os labirintos de Veneza entraram dentro de mim e desde ontem que estou com labirintite. Queria uma pausa. Queria pouca gente.
Pelo caminho vou prestando atenção nos poços. São muito antigos. Maravilhosos. Eu me encosto num de 1527.
 Muitos possuem um recipiente onde os pombos bebem água.
Num deles se pede que as pessoas não joguem cinza de cigarro pois sujaria a água dos poços.
Fondamente Nuove é uma Veneza simples e pobre. Despojada, sem nenhum luxo.
Voltamos ao Tratoria Storica, pois aqui se come muito bem e por um preço justo. Dou o endereço: Cannaregio 4858, Ponte dei Gesuiti.
O segredo é comer onde come gente local.
Na volta fazia um calor de verão e os Cruzeiros haviam despejado um formigueiro de gente pelas ruelas e praças, assim que saímos do bairro Castello, ao lado de Fondamenta.
Na Praça S. Marcos não se podia andar.
É claro que um dia Veneza afundará com o peso das milhares de pessoas que saem dos Cruzeiros para passar algumas horas aqui.
Mas com a Máfia dos Cruzeiros ninguém pode.

O QUE VEJO POR AÍ

Os mendigos de Veneza mudaram de nacionalidade. Em 2015 eram dos Balcãs, agora são africanos. Em várias pontes encontramos africanos jovens com um chapéu na mão pedindo dinheiro.
Perguntamos ao Paolo porque não estão vendendo alguma coisa, afinal são tão jovens.
Paolo responde o seguinte: que a Itália recebe uma quantia da União Européia por cada imigrante e dá um albergue e 300 euros por mês para cada um. Não tenho como saber se é verdade. Disse que é um.negócio lucrativo para a Itália.
Vejo grupos de estudantes de todas as idades. Desde 8 anos até adolescentes. São italianos.
Na Europa há um movimento bem forte de formação de plateia. Vão aos museus, igrejas, concertos. São alegres, dá para sentir como estão felizes na rua. Para cada grupo grande , uns 3 ou 4 professores.
Vejo gondoleiros solitários, sentados em suas barcas, esperando freguês.
Antes, em outros anos, ouvia seus gritos "oiiii", quando cruzavam com outras gôndolas. Uma espécie de saudação. Nunca mais ouvi. Paolo diz que ser gondoleiro, possuir sua própria gôndola, é o desejo de todos os homens que vivem em Veneza, pois dá muito dinheiro.
Este ano vejo menos russos e mais chineses e hindús.
Paolo diz que os hindús não gostam da comida italiana, sentem falta das suas espécies.
Anoitece tarde, às 21.30.
Às 20h meus olhos se enchem com a luz mais  bela do dia. Cristalina.
Hoje amanhece cinza e refrescou um pouco.
Sairemos ao deus dará.

terça-feira, 23 de maio de 2017

CHOGGIA

Passamos o dia no campo com nossos amigos italianos Paolo e Eugenya.
Eles compraram uma casa linda em Conche, perto de Chioggia.
Fomos de ônibus. Eugenya foi nos buscar na P. Roma, pois não sabíamos onde descer.
Paolo  operou o joelho e está de licença, mas já pode caminhar um pouco.
Depois de Mestre e Marghera começa o campo.
A Pianura Padana.
Linda. A época dos aspargos acaba de passar e agora é o tempo das plantações de alcachofra.
Descemos do ônibus e Eugenya perguntou se não queríamos tomar um café.
No Café há um clima de família. Todos se conhecem . A casa fica ao lado, com dois cachorros e um gato.
Nossos amigos prepararam um banquete maravilhoso. Era um festival de amor.
Depois fomos visitar a lagoa de Conche e vimos pescadores em ação. Pegaram muitos "vongoli" que vendem no mercado.
Conheci uma "fazenda":
A casa da avó da Eugenya, uma casa lindíssima, imensa, com um jardim magnificamente cuidado, com horta e galinhas e um campo enorme todo plantado de grãos. Quando chegamos a Sra. Antonieta estava cuidando da horta. Ela não tem NENHUM empregado. Cuida de tudo sozinha desde às cinco da manhã até escurecer com a ajuda do seu filho.
Nos ofereceu um café, mas já se fazia tarde e tivemos que recusar. Fomos até Chioggia dar uma volta.
Amei Chioggia, é uma cidade vibrante, cheia de vida.
E agradeço a minha professora de italiano Celmar Dos Reis (que infelizmente foi embora de Saquarema), pois passei o dia inteiro entre italianos, conversando. Falo muito mal, mas falo. E entendo tudo e leio livros maravilhosos.

segunda-feira, 22 de maio de 2017

CAMPO S. MARGARITA

O Campo S.Margarita com suas Osterias maravilhosas havia fincado raízes em nossa memória.
A praça é cheia de bancos vermelhos, alguns na sombra de árvores belíssimas. Uma praça para ficar algumas horas.
Na minha frente há uma Erboristeria Il Melograno. Em 2015 uma senhora muito antiga varria a sua loja.
Hoje, dois anos depois, lá está a velha senhora, na mesma posição, varrendo, com movimentos lentos.
Mas será que esse tempo passou ou voltamos no tempo?
Aqui, milagrosamente , falam italiano. Há uma vida de bairro, o que é raro em Veneza. Cada vez mais os venezianos vão embora.  Amigas tão elegantes conversam. Há uma feirinha de verduras e legumes e frutas no meio da praça. Na sombra um vento leve me acaricia. Hoje parece um dia de verão.
E enquanto caminhava, pensava: E como fazem com o lixo de Veneza?
A resposta:
Uma barca no ancoradouro, com um guindaste, recolhe um engradado de metal onde há vassoura e pá e caixas de papelão. O lixo vai para um buraco aberto no chão da barca e o guindaste devolve o recipiente para terra firme. Alguns lixeiros chegam com sacos plásticos e jogam nesse buraco.
Aqui nessa praça a elegância dos italianos é uma festa para os olhos. É impressionante.
Nada a ver com a deselegância americana.
Um gondoleiro pára e beija uma senhora sentada em nosso banco com a intimidade de quem vive no mesmo bairro.
Daqui a pouco vamos procurar um Café, la pelos lados de Rialto, onde trabalha Eugenya, a russa mulher de Paolo, italiano de Puglia. Ficamos amigos em 2015, ele trabalha como garçom na Taverna Maurizio.
Paolo operou o joelho, está de licença médica e queremos visitá-lo em sua casa em Mestre.
Trouxemos algumas lembranças para eles: café artesanal brasileiro, sandália havaiana para ela. Bem clichê, mas com tanto amor.

domingo, 21 de maio de 2017

OS SONS DE VENEZA

Pombos e gaivotas convivem entre arrulhos e gritos.
Há o murmurinho de pessoas falando ao mesmo tempo em tantas línguas. Há o som de risadas . Os gondoleiros passam cantando.
Em pequenos ancoradouros a água sussurra.
Os sinos os sinos os sinos.
Cachorros.
Crianças.
Os ruídos dos passos durante o dia se escondem entre os outros ruídos.
Mas no silêncio da noite costuram becos e ruelas.
Os acordeões nas esquinas, com sua música lânguida, triste, depositam melancolia nas pedras.
Os barcos em todos os tons e sons.

GUARDA-CHUVAS COLORIDOS EM VENEZA

Ontem choveu o dia inteiro e saí com minha amiga para passear na chuva.
Nas ruas estreitas e apinhadas, os guarda-chuvas coloridos formavam um teto único e desencontrado, instável e perigoso.
Vimos numa galeria uma exposição de um artista espanhol contemporâneo, Manolo Valdès, escultor e pintor. Alguns minutos diante de um quadro era o melhor abrigo contra a chuva.
Mas hoje acordamos com sol e fomos ver a Igreja de S.Maria Della Salute. Que vista maravilhosa. Nos sentamos na escadaria da Igreja antes de entrarmos e nem dava vontade de se mexer. Ficar ali, naquele sol de paraíso, com as gôndolas passando, felinamente...
Duas chinesas tão delicadas nos pedem para bater uma foto.
Dentro da Igreja havia uma missa com uma plateia pequena.  O padre falava sobre o dom da vida.
A Igreja foi construída com os ex votos dos habitantes como agradecimento pelo fim da Peste, na Idade Média, que quase dizimou a população. 80.000 mortos.
Pinturas de Luca Giordano e Tiziano.
Nunca saberemos o que sentiria um cristão nessa época, quando entrava numa Igreja tão monumental. Medo? Respeito? Devoção?
Hoje a maioria entra como turista.
O chão da Igreja traz a marca invisível de milhões de pés, em seu mármore gasto.

sexta-feira, 19 de maio de 2017

FONDAMENTE NUOVE

A ideia de Veneza feito um labirinto era o tecido da nossa manhã.
Saímos apenas com a imagem da escadaria de Rialto e a paz da Fondamente Nuove em mente, sem outros planos.
A vista de cima da ponte de Rialto certamente é a mais conhecida de Veneza.
Da ponte vimos uma instalação curiosa: Duas mãos brancas e imensas segurando um prédio.
Desembocamos na Feira de frutas , verduras e temperos e logo o Mercado do Peixe, antiquíssimo. Novecentos e cinquenta anos!  Mil anos seguidos de pescadores levando seu peixe para ser vendido. A população de pescadores resiste para que continue igual.
Os peixes são tão frescos que espalham um cheiro de mar.
E depois eram becos tão estreitos, prédios que quase se tocavam dos dois lados da rua, que se abriam em praças maravilhosas, indo para a Fondamente Nuove.
Cada praça com seu poço decorado.
No Campo S.Maria Nova vi a exposição iraniana do circuito Bienal.
Um único artista , Binzan Bassani, fez uma instalação curiosa:
Esculturas negras, de um lado pareciam mulheres, em fila, de burka ( assim me parecia) no meio duas esculturas que pareciam homens lendo um livro, e do outro lado a fileira de homens. Entre as figuras um bastão dourado.
Um painel explicava o conceito. Tão complicado que nada entendi. Digo o que senti ao entrar. Senti o silêncio das mulheres. Parecia que estavam sem poder expressar-se. Talvez o bastão dourado simbolizasse o que levavam por dentro.
Continuando a caminhada nos sentamos no Campo Dei Jesuiti. Certamente a Igreja e o que parecia haver sido um convento pertenceu no passado aos jesuítas. Um monge budista em suas vestes passeava solitário.
Já estávamos em Fondamente Nuove, onde há uma vida de gente que mora de verdade no bairro. É belíssimo e calmo e silencioso. As aglomerações que vimos em Rialto já se desvaneceram.
E então encontramos o pequeno e preciosíssimo museu particular de Giani Basso. Uma verdadeira maravilha, com máquinas originais da época da invenção da imprensa. Ao lado do museu ele imprime, como antigamente, cartazes maravilhosos.
Conversamos e ele diz que a Itália acabou. Que o dinheiro prevalece sobre todas as coisas, que nada se faz por prazer ou paixão, que os valores verdadeiros já não existem, que o turismo está destruindo Veneza.
Encontramos um Restaurante maravilhoso onde comem os trabalhadores. Super barato e lindo e bom. Os clientes eram todos italianos.
E na volta vimos uma exposição também do Circuito da Bienal, da Rússia, num Palácio belíssimo, cheio de antiguidades romanas. Ao entrar numa sala de mais de 600 anos, com um sarcófago romano no meio, encontramos uma lua minguante de neon pendurada. O efeito era onírico e tão belo.
A exposição se chama " O homem como pássaro" e é muito bonita. Essa lua vai para muitos lugares insólitos do mundo e o artista fotografa. As fotos estavam expostas.
Instalações simples e emocionantes de vários artistas russos.
E uma outra exposição num outro Palácio, que achei horrivel, só gostei do nome: Diáspora. Coloquei a palavra no bolso. Tão atual.
Então fomos voltando, de ponte em ponte, de beco em beco, de praça em praça.
Hoje sim gastei os pés.

quinta-feira, 18 de maio de 2017

COMEMORAÇÃO NA RUA

O sol só baixou às 19hs. Saímos. Um cachorrinho entrou de penetra na minha foto. Imagem que amo: os varais de roupa em Veneza. Parecem bandeiras coloridas. As bandeiras íntimas de uma família.
Numa ruazinha maravilhosa havia uma comemoração. Um monte de gente em pé com um cálice de vinho na mão. Uma mesa enorme ( na rua) com um pão muito bonito, parecia os meus, mas muito grande, um parmesão inteiro e bresaola, tipo uma mortadela. Juan logo disse: - Vamos nos misturar com eles e comemorar também, mas estava brincando. A rua se chamava Terrá dei Assassini e era sem saída. Juan disse que como era sem saída, ali os assassinos matavam as pessoas. Os nomes das ruas em Veneza são incríveis.
 Ficamos por ali porque queríamos saber o motivo da festa. Eram todos amigos e italianos. Descobrimos: estavam comemorando o nascimento de gêmeos. Havia uma foto enorme dos bebês.
Achei uma maneira belíssima de comemorar.
Voltamos ao restaurante de ontem para comer o risoto de aspargo com camarões que não comemos . Era divino. Para mim uma miatura insólita. Jamais havia pensado.
Mas antes uma cesta de pães com azeite e como estávamos morrendo de fome íamos comendo os pães animadíssimos. Então chegou um garçom argentino, cobriu os pães com um guardanapo e disse:
- Chega de comer pão! A comida já vai chegar.
Achei incrível o garçom entrar assim no meio da nossa fome!
Tomamos uma taça de Amarone. O suficiente para ir flutuando até San Marco.
Os hindús vendem rosas, os africanos bolsas falsificadas.  E as gôndolas levam americanos para lá e para cá.
E bem longe daqui o Brasil e seu desmoronamento.
Vamos ver o que nos trará o dia de amanhã.

ZATTERE

Então por onde começamos a caminhada da manhã, nessa manhã do dia 18 de maio, primavera quente em Veneza, dia em que o Apocalipse chega ao Brasil, todos os partidos no mesmo naufrágio? Começamos indo para a Academia.
Passamos pelo Campo Sanzolo, Parochia de S. Moise. De uma pequena ponte se vê uma torre torta, inclinada. Não é só a de Pisa. Vamos encontrando antiquários lindos pelo caminho.
Entramos numa exposição paralela, off Bienal: Azirbadjan.
Entramos por uma sala escura, subimos uma escada e desembocamos numa belíssima instalação feita com um instrumento chamado saz, que parece um pequeno alaúde. Uma construção incrivel.
Entramos numa sala escura onde um vídeo projetava na parede pessoas transparentes com o corpo todo escrito com palavras que não conhecemos. Um efeito tão belo e perturbador.
Sim, somos feitos de palavras...
Em outra sala uma exposição com desenhos em cima da impressão digital. A impressão digital usada como um conceito para singularidade.
O nome da exposição de Azirbadjan, esse país longínquo e desconhecido é um poema:
A Arte de Viver Juntos Debaixo de um Único Sol.
Seguimos para a Academia. De cima da ponte uma das vistas mais maravilhosas de Veneza.
Seguimos para o Zattere. O calçadão da Academia.
Uma placa no Zattere dizia , numa placa , que o poeta russo Joseph Brodsky se hospedou ali. Lemos seu belo livro Marca d'Agua em nosso Clube de Leitura.
Depois de caminhar duas horas nos sentamos num Café, na calçada, com a vista da Giudeca do outro lado do canal para tomar um cálice de vinho.
Finalmente havia um pouco de brisa.
Na volta paramos no Campo S.Agnese, nos sentamos num banco, na sombra, debaixo de uma árvore maravilhosa.
Havia uma senhora veneziana com seu velho cachorro chamado Ulisse. Finalmente pude conversar em italiano. Falamos sobre o tempo, sobre Veneza, sobre cães e gatos, sobre a maravilha que é poder sentar numa praça, na sombra.
Depois almoçamos numa praça, ao ar livre, apenas salada. E a praça é uma vitrine a céu aberto. Um desfile de homens, mulheres e cachorros. Excursões de estudantes passavam com sua alegria.
Intervalo para o descanso.

CHEGADA EM VENEZA

Ontem, depois de 23 horas viajando, saímos para comer .
As datas em Veneza fazem o coração disparar.
O Restaurante Antico Martini existe desde 1720 e é belíssimo.
O garçom que nos atendeu trabalha aí há 40 anos. A água que bebemos Acqua Panna da Toscana existe desde 1564 e era propriedade dos Medici.
Comemos um prato de tagliatini feito em casa com trufa negra e um cálice de um vinho de Verona, por um preço mais do que razoável
Então fomos caminhar.
 Andamos duas horas.
Veneza à noite é uma aparição tão bela, com as gôndolas flutuando na sombra.
 Terminamos  em São Marcos, a Basílica toda reformada, a primeira vez que a vejo sem estar restaurando e é a quinta vez que estou aqui.
De pé na praça bastante vazia, ouvia Gershwin com um grupo muito bom no Café Quadri. Não se pode sentar nem para um café, os preços são exorbitantes.
Acordo em Veneza com os sinos.
Amo os sinos.
Faz um dia belíssimo nessa primavera.
Vamos caminhar ao léu, para nos perdermos.
Antes de ir ao pavilhão da Bienal, começarei pelas exposições paralelas, pequenas .

terça-feira, 16 de maio de 2017

SALA DE LEITURA E VENEZA

Agora estou indo para a festa de comemoração da Sala de Leitura da E.M.Clotilde, em Sampaio Correia, Saquarema. Faz um ano que a Sala foi inaugurada e sob a batuta da Roselea Olimpo, seu sucesso é absoluto. São muitos sócios, muitas atividades. É uma Sala viva, vibrante.
À noite embarco para Veneza. Escreverei apenas no face, pois não vou levar computador e não consigo acessar o blog pelo celular.
Veneza é a cidade do coração do Juan, que a conhece bastante bem, mas mesmo assim nos perdemos sempre. A  graça de Veneza é se perder. Veneza é a cidade mais labiríntica do mundo e a palavra delírio é bastante apropriada para defini-la, se é que Veneza aceita definições.
Volto ao Gugenheim, vou ver a Bienal e andar, andar, andar, até que os pés fiquem gastos. E subir escadarias, atravessar pontes, me debruçar sobre o canal, sentar nos cafés ao ar livre para tomar uma taça de vinho, sentar nas praças para ouvir as conversas alheias.
Amamos a Veneza de dentro, onde poucos turistas se aventuram, amamos a Fondamenta Nuove, que nos traz a inesquecível escrita de Joseph Brodsky.

segunda-feira, 15 de maio de 2017

A CIDADE

Fico pensando que um Prefeito deveria ter seus poderes limitados.
Aqui em Saquarema, por exemplo, a Prefeita anterior começou uma obra na orla em 2015, acabou o mandato e a obra ficou inacabada, cheia de destroços . Foram construídos uns banheiros com inspiração pré histórica, de cimento imitando pedra , imitando caverna, que além de horrendos são na frente do mar . Alguns com as ferragens no teto aparecendo. E nenhum funciona. Espero ansiosa a hora em que serão destruídos.
Como um Prefeito pode fazer uma obra na cidade, que irá interferir na vida da população, sem consultar a população? Claro que deveríamos ter o direito de votar num projeto. O Prefeito ou Prefeita deveria apresentar duas maquetes e a população escolheria. Seria simples, ficariam expostas na Prefeitura e bastaria uma urna ao lado para que os votos fossem depositados.
Essa escolha despertaria nas pessoas um sentido de pertencimento.
Mas ficamos excluídos de toda e qualquer decisão e chegamos ao absurdo de ter uma cidade como Santana de Parnaíba, histórica, onde nada pode funcionar à noite por vontade do Prefeito.
Outra questão gravíssima são os transportes.
Quem não tem carro e mora longe, em Saquarema, está bem mal. Os ônibus são horrorosos e precários.
Numa cidade turística deveriam ser belos, decorados por fora e por dentro, com música e ar condicionado. Afinal, quem anda de ônibus por aqui é quem não pode ter um carro e nada seria mais justo.
Antes de pertencer a um país pertencemos a uma rua, um bairro, uma cidade.

sexta-feira, 12 de maio de 2017

MANHÃ ESPECIAL

Quando o ônibus que trazia as crianças e jovens da E.M.Marcílio Dias, de São Gonçalo, encostou na porta da casa, a Diretora Cristina Brito me disse:
- Quase não pudemos vir. Hoje houve confronto na Comunidade do Salgueiro, com muito tiroteio
Mas a escola faz um trabalho lindo com leitura e acho que este grupo que veio ao meu Café, Pão e Texto está salvo.
Falamos sobre todos os temas. Violência, tráfico de drogas, identificação dos jovens com os bandidos, poder, corrupção, injustiça social, miséria em todos os seus sentidos.
Falamos sobre amor, paz, compaixão, bondade.
Falamos sobre o poder da literatura para nos conhecermos, para fazermos as melhores escolhas.
Amanda ganhou um Concurso de contos pelo Município e eu li o seu conto, belíssimo.
Contei um pouco da minha vida, dos meus caminhos. Das coisas difíceis que tive que enfrentar e como consegui superar.
Tomamos café da manhâ juntos. Fomos à praia ver o mar.
Antes de ir embora, uma jovem belíssima me pediu:
- Diga alguma coisa que eu possa levar para a minha vida.
Eu disse.
Ganhei um beijo e um abraço de cada um.
Agradeço ao Professor José Leonardo ter me dado essa manhã de presente.
Agradeço a luz dos olhos da Cristina e Núbia, por lutarem por essas crianças e jovens com tanto amor.
Recebi um presente lindo. Um cabide decorado , meus poemas copiados pelos alunos, pendurados no cabide, com fitas e laços.
E que eu possa receber belas notícias dessas pessoas tão lindas que vieram aqui. Que elas escapem da armadilha onde estão aprisionadas e possam voar muito alto.


quinta-feira, 11 de maio de 2017

SUSSURROS POÉTICOS


Na Vila de Igatu, me conta Mira Silva, as crianças estão fazendo sussurros com meus poemas!
É assim: cones de papelão e duas pessoas. Um cone no ouvido da outra e pronto, um poema é sussurrado!
Copiem a ideia, professores. Eu amei. E se pode fazer um cardápio de poetas variados.

quarta-feira, 10 de maio de 2017

PERGUNTAS DAS CRIANÇAS

As crianças me perguntam sempre quanto tempo demoro para fazer um livro.
Aproveito para falar do Tempo. E dizer que isso não é importante. Importante é o trabalho sair bom.
Elas me perguntam de qual livro gosto mais.
De alguns gosto mais, claro, mas enquanto estou fazendo e envolvida, gosto igual de todos.
E de onde busco inspiração?
Essa é a melhor pergunta.
Hoje conversava com um amigo que amo. E dizia: tiro alegria até das pedras. Se estou viva o meu olhar é poético. Há poesia em tudo. Tudo me inspira.
E é assim que vivo e escrevo.

sexta-feira, 5 de maio de 2017

EDUCANDÁRIO DO BEM

Hoje vou à inauguração da nova sede do Educandário do Bem, em Saquarema.
É um espaço belíssimo, um Ponto de Cultura, dedicado a oferecer arte para crianças e jovens com poucas perspectivas de futuro.
No contra tempo o Educandário oferece aulas de teatro, leitura, música, reforço escolar, contação de histórias, etc.
Fátima Alves e César Alves são os Capitães deste projeto maravilhoso que sobrevive quase sem ajuda  financeira. Alguns poucos amigos, alguns comerciantes que oferecem ingredientes para o lanche.
O Educandário terá uma sala com o meu nome, uma Oficina de Poesia.
Jorge Vale, que fez muitas peças de teatro com meus livros, com os meninos e meninas do Educandário, deveria estar vivo para estar hoje presente.Mas certamente estará junto.
Quem for de Saquarema e quiser ser colaborador do Educandário, pode entrar em contato com a Fátima pelo facebook.
Um trabalho tão bonito, sem nenhum, nenhum fim lucrativo, muito pelo contrário, cujo objetivo, como o nome do Educandário diz, é apenas fazer um bem.

quinta-feira, 4 de maio de 2017

MEU COTIDIANO

Meu cotidiano é engraçado.
Caminho meia hora todos os dias pelas ruas de dentro quando não tenho pilates ou pela calçada em frente ao mar quando vou para a Vila. É tudo deslumbrante. É como se eu estivesse caminhando num outro mundo. Muita gente me conhece e vai me cumprimentando aqui e ali.
Hoje quando voltei decidi cozinhar no fogão de lenha, porque fazia uma temperatura maravilhosa e o dia estava lindo demais.
Enquanto cozinho faço outras coisas. Respondo a várias pessoas ao mesmo tempo. E releio o livro Os Judeus e as Palavras , do Amós Oz, livro que amo e que fala de muitas das minhas questões.Enquanto o feijão cozinha eu leio e penso.
Fiz os três poemas para o livro do Walmir Ayala que será reeditado. Walmir, lá das estrelas, deve ter gostado dos poemas. Ele foi amigo do meu melhor amigo, Professor Latuf e imagino os dois discutindo poesia e filosofia lá no céu.
A comida fica pronta e a casa rescende a lenha e o mar envolve tudo como se morássemos dentro de uma concha azul.
Vou ao correio depois do almoço enviar alguns livros para o Adriano Cabral que fará alguma coisa maravilhosa com os meus poemas.No correio sou amiga dos atendentes. Vou ao mercado. Gravo um vídeo para os alunos da Professora Kátia. Recebo um pré convite para um encontro na Bahia, e despacho algumas burocracias. Depois que fizer 20 minutos de bicicleta ergométrica, acho que consigo parar e voltar languidamente, deitada no sofá, para o livro do Amós.
Nenhum dia é igual ao outro.

quarta-feira, 3 de maio de 2017

O QUE ME PEDEM

O que me pedem os professores: um vídeo, uma palavra amorosa para os seus alunos.
Isso é lindo e me emociona.
Cada dia algum professor me conta alguma coisa e acho que os professores são o ouro dos alquimistas. Não existe nada mais difícil do que ser professor neste país. E no entanto, quantos fazem o trabalho mais belo do mundo, se desdobram, dão o melhor, sabem que estão trabalhando com gente em formação.
Em suas mãos está a vida e a auto estima de milhares (ou milhões, não sou boa em matemática) de crianças e jovens.
Recebo professores no meu Café, Pão e Texto e tudo o que posso dizer como poeta é isso: _ Vamos combinar, vocês desobedeçam um pouquinho e arrumem espaço para a literatura, para a poesia.
Essa é a minha sugestão. Se recebem uma tonelada de conteúdo e não sobra tempo para nada, é necessário desobedecer um pouco e ler um conto e um poema. Deixar que entre essa lufada de vento pela janela. Essa lufada de palavras mágicas que podem mover conteúdos emocionais, modificar a vida de alguém.

terça-feira, 2 de maio de 2017

PARA FAZER POESIA

O que é preciso para fazer poesia?
Antes de tudo, como dizia o Gullar, sentir o assombro correndo em nossas veias. Somos mortais e cada dia é único. Pode ser o último. Com esse sentimento amarrado em nosso corpo, certamente não deixaremos escapar nada. Nosso espanto é nosso alimento.
Em seguida, já que não posso desperdiçar nada, tenho que afiar o olhar como se afia uma navalha. Meus olhos tampouco podem deixar escapar nada.
E meus outros sentidos. Sendo poeta tenho que usar meu corpo como um bicho. Farejar e sentir. Nada pode ser desperdiçado. Não posso desperdiçar sensações.
Eu vejo as imagens à medida que vou escrevendo o poema. Eu as vejo e tenho que correr para que elas não escapem.
A minha respiração é a música do poema.
Sem música dentro do poema, alguma coisa deixará de funcionar.
E mesmo que o poema seja muito triste, alguma alegria terá que habitá-lo, será, digamos, a sua luz.
Eu busco alegria em tudo. Foi um longo aprendizado. Mesmo na dor. O poeta tem que gostar das palavras, das suas possibilidades. Quanto mais aberto o poema, melhor. Se você entende desse jeito e o outro de outro jeito, que bom. Uma palavra que vai se abrindo em leque, vai levando o leitor para várias direções...
E também dar de comer aos medos. Os medos podem ser grandes aliados, pois temos que domá-los, são nossos lobos. O poema também tem que ser domado. Quantas vezes for preciso, há que recomeçar, refazer, limpar, cortar.
Enfim, fazer poesia é viver em estado de poesia.

quarta-feira, 26 de abril de 2017

RECADOS

Todos os dias recebo algum ou alguns recados maravilhosos. Relacionados com a minha poesia e com leitura, claro. Essa é a minha vida. Tudo gira em torno dos livros
E às vezes, tantos anos depois, alguém me diz: _ Eu era tua leitora quando criança, hoje leio teus poemas para meus alunos. Ou: _ Você nem imagina o quanto teus poemas me ajudaram.
E esses recados tão lindos, tão maravilhosos, são todos os dias o arco-íris do meu dia, as minhas estrelas cadentes.
Tem muita gente por aí que está fazendo muito esforço para me levar para um encontro com alunos, algum pequeno evento,  já que com a falta de recursos às vezes fica muito difícil.
Mas quero dizer que minha casa está sempre aberta para um poema e um café. Se não puder ir, cada leitor será bem recebido.
E que acredito que precisamos sonhar muito, usar toda a nossa delicadeza e amor para fazer a Terra dançar. Em cada pequena coisa que faço eu me jogo inteira. Ás vezes é perigoso, mas Guimarães já disse que viver é muito perigoso. Ás vezes dá errado, mas às vezes dá certo.  

terça-feira, 25 de abril de 2017

A VOLTA

Chego em Saquarema em todos os tons de azul.
Juan me diz que choveu muito, mas quando eu volto trago o sol.
Quando vou para a minha casa da montanha, as pessoas dizem : "Bom descanso", mas não é exatamente isso, embora sim, descanse muito. Mas lá é a minha outra vida, muito diferente da vida que levo aqui.
Chego e já estou no turbilhão das notícias e dos acontecimentos.
Muitas pessoas me pedem muitas coisas. Tento não deixar ninguém sem resposta. Fico muito triste quando escrevo para alguém e não recebo uma resposta de volta.. É algo muito comum em nossa época. Como disse o Manduca numa canção, filho do poeta Thiago de Mello que conheci num passado remoto, grande músico, "Gentileza é pedra rara, não se acha pelo chão..."
Entre as coisas que me pedem, às vezes sou premiada. O que aconteceu hoje, quando li o original de Julio Pires. Amei os seus poemas. Fiquei muito emocionada. Tomara que ele publique e ganhe um prêmio. Merece.
Esta semana recebo 15 professoras para um Café, Pão e Texto. Poucas coisas me deixam mais feliz do que esses encontros.
Espero com uma paciência de capricórnio, embora seja tão impaciente, que duas editoras me respondam. Estão analisando meus originais de poesia infantil. Gostaria muito de ter esses livros novos publicados. Seria uma grande felicidade. Já se foi o tempo em que eu não precisava me preocupar com isso. Mas os tempos mudaram.
A minha vida é inteiramente armada em cima de horizontes. Que mudam de lugar.
Tudo pode acontecer, podem me convidar para ir aqui ou ali e a mala está sempre meio aberta.
Hoje uma professora, Fabíola, me conta que encheu o quadro negro com meus poemas e crianças e adultos estão amando. Uma professora veio dizer que também havia perdido uma maleta cheia de amores...

terça-feira, 11 de abril de 2017

VISCONDE DE MAUÁ

Amanhã subo a montanha bem cedo. Vou ao encontro da família.
É uma longa viagem, mas devagar se vai ao longe.
Enquanto isso outras viagens vão sendo tramadas, trançadas. Nenhuma está fechada ainda, mas tenho vários esboços.Numa delas há uma possibilidade de um encontro com Gloria Kirynus em Curitiba, como já fizemos uma vez na Bienal do Rio. Duas amigas poetas que juntas dão certo.
Mas agora quero mesmo é chegar na entrada do Vale do Pavão, serpentear montanha acima, abrir a porta da minha casinha e respirar toda a saudade acumulada.

segunda-feira, 10 de abril de 2017

NATAL E BIBLIOTECA

Em Natal, na I Jornada Pedagógica Potiguar, tive momentos de muita emoção. Marly Amarilha fez uma das falas mais lindas que já ouvi sobre literatura.
A garra e paixão dos professores era visível, saía pelos poros de cada um.
Meu mais novo editor, Rilder Medeiros, é um construtor de sonhos. Ele faz, concretiza.
Tive depoimentos belíssimos como o de Paula Belmino, que com apenas um livro na mão é capaz de fazer 1001 mágicas no interior do Rio Grande do Norte.
Tive o poeta José de Castro como anfitrião, incansável em seu envolvimento com a literatura e especialmente com a poesia.
E a inauguração da Biblioteca da E.M Sadi Mendes com meu nome. A escola fica num bairro complicado. E a literatura é o rio de águas maravilhosas por onde irão passar os peixes azuis de todos os sonhos.
Meu agradecimento maior do que o mundo a todos os professores que me escolheram e um cheiro especial para Vera Vilela de Mendonça que fez o primeiro contato comigo.
Meu coração agora pulsa nesta biblioteca.
Pulsa aqui em Saquarema na E.M. Clotilde que também tem uma vigorosa Sala de Leitura com meu nome. E em Olaria, com a Sala de Leitura Nos Caminhos de Murray, na E.M.Brasil, em Duque de Caxias com a Sala de Leitura da E.M.Pedro Paulo e no interior do Pará na E.M.Francisco Guillon e em S.Bernardo do Campo ( eu me esqueci o nome da escola).
Um dia irei virar estrela ou poeira cósmica, mas por enquanto sou além de gente, árvore, flor e biblioteca.

quarta-feira, 5 de abril de 2017

NATAL

Faço a mala para Natal. Saio de casa amanhã às 5.35 da manhã.
Por que o Brasil é um país sem trens?
Queria ir pro aeroporto de trem, num vagão restaurante, tomando café e lendo. Haveria uma estação no terminal do Galeão.
Não posso ler no ônibus, pois fico enjoada.
A minha viagem para Natal é um embrulho de presente. Ganho um novo livro, Sete Sonhos e Um Amigo e uma Sala de Leitura com meu nome na E.M.Sadi Mendes.
Adoro fazer a mala para acontecimentos mágicos.

domingo, 2 de abril de 2017

DOMINGO

Aqui em casa, fora de temporada, parece que vivemos numa ilha. Não há nenhum movimento , nenhum barulho, só o silêncio feito com a música do mar, passarinhos, cachorros latindo e às vezes ao longe, um galo.
Aos domingos o isolamento se acentua. E eu me aconchego dentro dessa concha.
Sempre amei o silêncio e preciso de silêncio para conseguir viver e às vezes escrever.
Ao silêncio associo sempre um livro. Um sofá, uma cadeira de balanço, uma poltrona e pronto.
Para mim a felicidade está ao alcance da mão. Basta me perder dentro de um livro. Basta que uma história me apanhe em sua rede e não preciso de mais nada.
Lembro que numa fase muito difícil da minha vida, num daqueles momentos em que não vemos nenhuma saída, o Memorial do Convento veio parar nas minhas mãos.
E posso dizer que Blimunda me salvou. Tirei dela a sua força e então aquela força era minha. Quando conheci Saramago eu lhe disse que Blimunda para mim era um arquétipo.
Posso reler muitas vezes um livro que amo. É como voltar para casa  depois de uma viagem. Um prazer semelhante.Ser leitor nos salva. É uma dádiva. Como alguém pode afirmar que não gosta de ler? Será que não sabe que é um perdedor de mundos?                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                          

terça-feira, 28 de março de 2017

HOMO DEUS

Estou nas cinco últimas páginas do livro HOMO DEUS de Yuval Noah Harari.
Se em Sapiens ele fazia todo o percurso da humanidade das cavernas até hoje, em Homo Deus é o nosso futuro, as suas possibilidades que ele aborda.
Na verdade já estamos vivendo nesse futuro e os caminhos que ele aponta como possibilidades
são apavorantes.
Nossa privacidade já acabou. Nossos dados são coletados e repassados. Google e Facebook já sabem quase tudo sobre nós..
Nossa interação com as maquinas é muito grande.
Passamos muitas horas por dia conectados, vivendo com amigos virtuais que não conhecemos pessoalmente, num mundo virtual. Como sou apreendida nesse mundo? São as minhas imagens que me constroem.
Hoje já temos medicamentos muito variados para mudar nosso  ambiente mental, nossos fluxos de consciência, nossos sentimentos.. Medicamentos para gerar felicidade e drogas para alterar o estado de consciência.
Nossos desejos já são manipulados.
As máquinas já tomam muitas decisões;
E no futuro há a possibilidade de que tomem todas as decisões. De que escolham totalmente os nossos desejos, os que devemos ter. Então liberdade e livre arbítrio já serão palavras sem função.
O que nos restará ? O que restará do humano em nós?
Mas o pior: a medicina genética poderá fabricar um outro homem com uma outra mente. Com uma expansão extraordinária das habilidades e da inteligência. Mas isso será para poucos.
E os que ficarem para trás?


segunda-feira, 27 de março de 2017

SETE SONHOS E UM AMIGO

Recebo um PDF com meu livro Sete Sonhos e Um Amigo. As ilustrações estão belíssimas.
Como descrever o que se sente quando se vê um trabalho finalizado? Difícil descrever.
Um certo frio na região do estômago, onde se acumulam, as emoções.
Quarta-feira entra na gráfica e deve estar pronto para o dia em que vou falar em Natal, dia 7 de abril.
Desde o Colo de Avó em 2015 que não tenho nenhum livro novo entre as mãos.

sexta-feira, 24 de março de 2017

ESCOLA EM BARCELONA

Hoje li uma matéria linda sobre uma escola de vanguarda que está chamando a atenção do mundo, em Barcelona.O Colégio se chama Joaquim Ruyra, está localizado num bairro complicadíssimo de imigrantes e seu IDEB (lá não se chama assim), é altíssimo, tão alto quanto o das melhores e mais caras escolas particulares.
E como conseguiram?
Porque a escola é em tudo diferente.
As classes ficam de portas abertas. Trabalham em grupos por 20 minutos (o que dura cada atividade) As aulas são divididas em atividades.
Tudo funciona como se fosse uma gincana. As matérias são dadas de outra maneira. O professor é parceiro e não aquele que sabe.O professor gosta de ser desafiado.
Cada grupo tem um monitor que não é professor. É alguém da família.
Pode ficar em pé, pular, fazer barulho. O estímulo à criatividade é total. Ninguém fica doido para ir embora ou para o recreio. Ficam doidos é para aprender! Para resolver as questões. Se pudessem dormiriam na escola.
A matéria saiu no jornal El Mundo no dia 18 deste mês.
É uma outra forma de ensinar. A escola, envolvendo as famílias, mudou as famílias. As famílias mudaram o bairro. O bairro se sente responsável pela escola, onde não há brigas entre os alunos, já que são todos parceiros.Um aluno ajuda o outro quando está com dificuldades. O método é interativo, de parcerias.
É uma escola com pouquíssimos recursos financeiros, mas com professores que adoram o desafio. E estão sabendo dos últimos descobrimentos da ciência em relação à aprendizagem.
Algumas coisas eu sempre soube.

Sem afeto, sem amor, não há aprendizagem.
Uma escola sem arte é prisão.
Amigos são o que há de mais importante dentro da escola.
Um ambiente lúdico, agradável é importantíssimo.
A leitura como os mais belos cavalos brancos puxando a carruagem.
Trabalhos em grupo, nada de carteiras arrumadinhas, um aluno atrás do outro.
Um certo caos criativo .
Família participando da escola.

A escola do nosso tempo não pode ser a escola do Século XIX.
E que a mudança venha de escolas públicas de periferia não me surpreende, só fortalece a minha crença de que se não fossem os bilhões roubados teríamos as melhores escolas públicas do mundo. Pois o nosso material humano é o que temos de melhor.
Aqui no Rio de Janeiro a E.M.Brasil é um exemplo. Fica em Olaria, não em Ipanema. Seu IDEB, invejável, é de 6.4
Seus alunos são leitores e pensam.

quinta-feira, 23 de março de 2017

PIO XII

Pio XII foi um Papa polêmico. Dizem que fechou os olhos para a situação dos judeus na era Mussolini, ou fez até mesmo um pacto com a Alemanha.
Mas Pio XII era o meu bairro de Madrid, quando morei lá por seis meses em 1997 com o Juan.
O bairro era lindo por dentro, cheio de casas. E o metrô Pio XII ficava ao lado do Supermercado Al Campo, que tinha os pães mais maravilhosos do mundo e uma menina que servia dizendo:
_ Más cositas, caballero?
Havia uma praça pertinho de casa e era para lá que íamos com o Rex, o setter inglês do Juan, todas as manhãs antes dele sair para trabalhar no jornal.
Nos seis meses que fiquei em Madrid, quase ninguém na praça falou comigo. Apenas um homem, o Felipe, um outsider total, ficou curioso e quis saber de onde eu era.
Ficamos muito amigos. Ele era desempregado e junto com a sua cunhada que havia sofrido um acidente e também estava desempregada, fazíamos um trio e tanto.  Ás vezes ele ia para a nossa casa depois que a cunhada nos encontrava na praça ( ela fazia fisioterapia) e tomávamos um café bem poético. Líamos poemas ou trechos de livros. Ela era francesa e eu amava poder falar em francês. Ou marcávamos um encontro e íamos para algum Museu à tarde ou simplesmente caminhávamos por Madrid. Ele me ensinou a andar olhando para o alto dos prédios.Quantos tesouros arquitetônicos lá no alto!
Eu sabia que não poderia viver na Europa. Isso era muito claro para mim. O povo brasileiro é único. Nós nos tocamos e nos abraçamos. Não posso viver sem isso.
Felipe virou um dos contos do meu livro Pequenos Contos de Leves Assombros , que está na Amazon, à venda como livro digital.E nos perdemos. Não sei seu sobrenome, não posso buscá-lo. Mas eu o vejo, tão bonito, tão sensível, tão desesperado.
                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                

quarta-feira, 22 de março de 2017

GENEALOGIA DE UM LIVRO

Na década de 90 escrevi um conto: Sete Sonhos e um Amigo.
Eu havia conhecido Mauricio Leite e me apaixonado por seu projeto das Malas de Leitura. Ficamos muito amigos, viajamos muitas vezes juntos pelo Proler.
Meu personagem então recebeu o nome de Mauricio.
Li o conto para o Rui de Oliveira. Nesta época éramos bem amigos e eu gostava de ficar no seu ateliê lá no Catete conversando com ele. Rui gostou muito, achou que os sonhos eram de iniciação, ritos de passagem. Ele me disse que gostaria de ilustrar, o grande Rui, sem nenhuma parceria comigo.
Isso não aconteceu. Consegui publicar o conto pela Ed. FTD, com ilustrações do Cárcamo, maravilhoso aquarelista chileno. Eu o conheci uma vez.
O livro não foi feito com cuidado pela editora. O papel era de segunda, a impressão péssima, essas coisas que acontecem na vida de um autor.
Faz algum tempo o livro foi retirado do catálogo.
E agora uma editora de Natal me pediu um texto.
Sempre quis reeditar este conto, mas ao reler, eu achei que ele precisava ser mudado.
Preservei os sete sonhos, mas refiz o resto.
Conservei o nome do Maurício, pois somos muito amigos até hoje e acrescentei a dedicatória. Esse livro dedico a ele.
Mas precisava de um sobrenome para o meu personagem e então busquei um amigo que mistura literatura e psicanálise. Pois os sonhos são a matéria prima com que o psicanalista irá trabalhar, além de tantas outras coisas. Não são muitos os psicanalistas que podem fazer essa mistura. Inclusive tenho indicado o William Amorim para Feiras , para que possa falar com propriedade sobre ficção e psicanálise, sobre poesia e psicanálise. Acho que trata-se de algo inovador.
Meu personagem ficou então com o nome de Maurício Amorim, misturei dois amigos, e está sendo ilustrado. Sairá pela Editora Comunique e estou muito feliz.

segunda-feira, 20 de março de 2017

OUTONO

Amo o outono. Que poeta não ama?
Passei um outono no Canadá em 1972.
Passei dois meses em Toronto.
Meu ex marido fazia um curso.
Eu quase enlouqueci de tanta beleza com os parques no outono. Com os esquilos comendo na mão da gente.
Amei o Canadá de paixão perdida. Teria ficado lá se pudesse. Vi uma Universidade dentro de um parque . Eu tinha 20 anos e sonhei um sonho assim: e se estudasse aqui? Fizesse literatura dentro deste parque?
Tentamos. Chegamos a pedir os papéis, mas a vida deu um nó cego e não pudemos ir.
Quem sabe o que teria acontecido se tivéssemos conseguido? Escreveria meus poemas em inglês? Seria uma poeta lida? Teria me separado e casado com um canadense ao invés de me casar com meu marido espanhol?  Meu segundo filho seria canadense...
O outono é a estação do se... das reticências...dos devaneios..


Chega o outono
com vento e chuva
e pincéis que tudo
apagam
quando as cores
se desmancham
em cinza e neblina.
O outono escreve cartas
ao coração,
estação de onde partem
os trens abarrotados
de poemas e suspiros,
amores abandonados,
folhas de cadernos
com sua caligrafia miúda,
que vieram
de outros tempos.
O outono diz aos poucos
os seus segredos.

sexta-feira, 17 de março de 2017

UMA SALA DE LEITURA EM ITABORAÍ

Ano passado fui "adotada" por Itaboraí, que tem um Projeto de Leitura maravilhoso. Fui lida por mais de 80 escolas, 31.000 crianças.
Hoje Prica Mota, minha amiga e professora em Itaboraí e Cabo Frio, foi tomar um café comigo e me contou que sua escola não tem uma Sala de Leitura. E seu sonho é uma Sala de Leitura. Torço para que a sua escola consiga.
Acho que um espaço de leitura numa escola é um luxo imprescindível. Com tapete, almofada e rede. Para que a criança associe a leitura ao aconchego, ao afago, ao melhor lugar do mundo.
Uma vez , na década de 80 fui trabalhar numa biblioteca numa favela, numa época em que se podia entrar na favela sem pedir permissão.
Fui com uma pessoa que ia contar histórias, mas não me lembro seu nome. Era uma Biblioteca Comunitária e a comunidade cuidava mesmo. Era uma casinha linda, com chão de vermelhão, muitas plantas, muitos paninhos bordados cobrindo as coisas, com cozinha e tudo. E com que orgulho me apresentaram a sua Biblioteca.
Na Biblioteca faziam festas de batizado, casamentos e etc. A Biblioteca era a menina dos olhos de todo mundo. E dava mesmo vontade de ficar ali, aconchegada, lendo.
Numa escola a Sala de Leitura tem que ser refúgio, oceano, horizonte e caverna. Tudo isso junto. E é lá que tem que pulsar o coração da escola.Toda Sala de Leitura deveria ter também um belo acervo para o professor. O que seria da escola sem um professor leitor?

quinta-feira, 16 de março de 2017

CAFÉ,PÃO E TEXTO

Como se forma um leitor?
Hoje tivemos um encontro aqui na Casa Amarela com jovens do nono ano da E.M.Gustavo Campos. Vieram a pé, com a Professora Sa Lima, da Sala de Leitura e o Professor Rafael. Por mim, caminhadas pela cidade deveriam fazer parte da grade. Para fotografar, para olhar e contar depois o que viram.
Dos dezoito alunos cinco se disseram leitores. E frequentadores da Sala de Leitura do Gustavo, que é muito boa.
E os outros treze?
Então algo precisa ser feito com urgência.
Esses jovens ano que vem irão para o Ensino Médio.
Acordei e antes de tomar café fiz um pão. Um jovem ficou emocionado e me contou que seu avô foi padeiro e fazia uma broa de milho maravilhosa.
Falamos sobre tantas coisas. Mas principalmente sobre o quanto temos que melhorar como seres humanos e o quanto e como a literatura pode ajudar.Uma das alunas leitoras contou o seu envolvimento com um romance. Foi muito bom ela ter contado sua própria experiência.
Li poemas. Falamos de identidade e desejos. Foi divertido, agradável, instigante.
Eles amaram o jardim e não queriam ir embora nunca mais!

quarta-feira, 15 de março de 2017

AS FOTOGRAFIAS DE GORIN

Monica Botkay é minha amiga desde 1973. Vivemos muita coisa juntas. Somos testemunhas de uma época.
Monica é em tudo especial. Foi na sua casa que fiquei um mês fazendo a recuperação da cirurgia na coluna em 2015.
Monica, para minha felicidade, tem uma biblioteca em francês. Sentada na sua varanda, numa casa antiquíssima no Rio de Janeiro, fui devorando livro por livro.
Monica é fotógrafa e me apresentou a Monique Malfatto, que foi paixão imediata. Monique faz um trabalho belíssimo em Gorin, Burkina Faso.
Fiz uma campanha no facebook para ajudar na construção de uma escola de educação infantil em Gorin.  Evelyn , minha irmã fez uma placa de cerâmica para a escola.
Agora Monica foi a Gorin e trouxe fotos maravilhosas das crianças mais belas do mundo.
E eu faço uma proposta publicamente para a Monica.
_Monica, quer fazer uma exposição comigo ? Eu faria um poema para cada foto.  

segunda-feira, 13 de março de 2017

FURACÃO

Foram todos embora depois do furacão de amor que varreu a casa. Ou seria um terremoto.
Hospedamos ao mesmo tempo filho, nora, neta e melhores amigos. Para o Clube de Leitura recebemos muita gente. De todas as profissões. Um Clube de Leitura assim com tanta gente diferente misturada é um celeiro maravilhoso de ideias e opiniões.
E já preparo o Café, Pão e Texto da quinta-feira, quando receberei a E.M.Gustavo Campos, a primeira escola onde comecei a colocar em movimento a minha oficina de leitura.
Por um ano trabalhei com alunos da oitava e nona séries, o que foi o começo de muita coisa.
Nesta quinta receberei alunos da nona série.
Quando estou envolvida com todos esses projetos de leitura e viagens para falar do poder da literatura, eu me sinto viva e pulsante. E mais do que tudo, me sinto útil e necessária.

quinta-feira, 9 de março de 2017

NATAL

Já tenho as passagens para Natal. Já tenho o título para a minha fala:
Livros na escola: Para mudar o coração da humanidade.
Já tenho confirmada a inauguração de uma biblioteca numa escola com meu nome.
Talvez consiga ter um livro novo publicado até lá.
E tudo isso ganhei de presente de uma maneira inesperada.
Saiu da caixinha de surpresas que é a vida.
Estarei em Natal dias 7 e 8 de abril.
E a bblioteca fica na E.M Sadi Mendes. Em Parnamirim

quarta-feira, 8 de março de 2017

DIA DA MULHER

Eu me casei em  1968. Com 17 anos.Tive um filho com 18. Eu me perdi de mim e não desejo a nenhuma mulher esse tipo de perdição.
Eu não sabia que caminho trilhar.Não consegui conciliar a minha vida interna com a vida externa.
Não dei conta de mim.
Por muitos anos tive um casamento machista e tradicional. A minha infelicidade era maior do que o mundo.
A poesia me salvou. A literatura me salvou. Ser leitora salvou a minha vida.
Para o Dia da Mulher desejo que toda e qualquer mulher consiga seguir o seu caminho, ouvir a voz do seu dom, que não se deixe humilhar. Que consiga conciliar dentro de si todas as mulheres que a habitam.

terça-feira, 7 de março de 2017

UMA ESTANTE E SUA FELICIDADE

A minha casinha da montanha é bem pequena. Era uma antiga casa de caseiros que foi modificada , mas sem perder seu ar de roça.
Tenho uma sala cozinha, com fogão de lenha, geladeira, tapetes e quadros.Não se parece em nada com uma cozinha.  Uma sala de reunir amigos, toda envidraçada. Chamei de Estação Família. Dois quartos minúsculos. Um banheiro também minúsculo. Solucionei o problema das roupas com uma arara, três prateleiras e uma cômoda na sala.
Mas não encontrava um lugar para uma estante de livros.
Então era uma produção. Cada vez levar livros e trazer de volta.
Eu quebrava a cabeça.
Então meu filho músico achou um lugar.A casa do caseiro foi construída sem lógica nenhuma, isso é uma delícia, eu adoro casas sem lógica, mas havia duas portas de entrada. Sem nenhum sentido. Uma pertinho da outra. Para não ter que fazer uma parede, tirei uma das portas e coloquei um vidro fixo. Ficou maravilhoso, pois trouxe luz para dentro. Ao lado do vidro fixo havia uma reprodução do Monet que ocupava toda a parede. Eu via aquela parede como um jardim.
E quebrava a cabeça.
Meu filho músico olhou para o quadro e disse: _ Mãe, vejo a estante no lugar do quadro.
Arrisquei. Bem rústica, construída ali mesmo, branca com um fundo azul. Ficou maravilhosa.
Agora é só encher de livros! Fico sentindo a felicidade que emana dos livros que ocuparão a estante.
Já separei vários para levar, livros que quero reler.

segunda-feira, 6 de março de 2017

TRABALHOS NOVOS

Volto de Mauá e uma pilha de obrigações burocráticas me esperavam. Vou destrançando essa pilha de papéis, pedidos, pagamentos, etc, como se penteia um cabelo embaraçado.
Mas entre uma coisa e outra escrevo um poema, finalizo um conto e claro, isso me produz sempre uma alegria selvagem.
O que não consigo é aumentar o número de visualizações, isto quer dizer leitores, dos meus e books, que estão gratuitos no meu site.
Como é que a gente conquista e seduz os leitores?
Essa é uma pergunta muito difícil de ser respondida.
Se você que está me lendo é professor ou professora, pode usar meus e books em suas aulas. De nono ano ao ensino médio. Mas também tenho um para crianças.
Eles são lindos. São objetos virtuais.

terça-feira, 14 de fevereiro de 2017

PÉ NA ESTRADA

Quantas vezes já escrevi aqui que parto para a montanha!
Tenho saudades de tudo, Faz um mês que não vou. Saudades de um pouco de frio, de chuva, de cheiro de mato, dos netos, dos filhos, da irmã.
Saudades de percorrer mil vezes o caminho que liga a minha casa ao restaurante do meu filho.
Dessa vez tenho uma novidade: eu e minha irmã faremos aula de conversação em francês com uma francesa. Poucas coisas me deixam mais feliz do que ter com quem falar em francês, tão grande é o meu amor pela língua.
Escreverei quando puder, lá na montanha. ou melhor, quando a internet deixar.

segunda-feira, 13 de fevereiro de 2017

PATRÍCIA

Patricia de Arias, minha nora, ganhou Menção Honrosa no Prêmio de  Bolonha. São apenas duas menções honrosas para livros de todos os países, de todas as línguas.
Seu belíssimo livro O Caminho de Marwan, que traduzi e não foi publicado no Brasil, mas sim por uma editora chilena, fala com extrema delicadeza sobre a tragédia dos deslocados, de um menino que atravessa sozinho terras e desertos...
O livro é muito necessário. Toca o coração de qualquer um .
Patricia escreve divinamente. com música e imagens. Que bom que sou sua fada madrinha!!!        .                                                                                          

sexta-feira, 10 de fevereiro de 2017

MAPA DO TESOURO

Como um mapa do tesouro , assim são meus amigos espalhados pelo Brasil.
Às vezes algum me escreve de tão longe ou me telefona e é como ouvir o som do arco íris.
Hoje meu amigo Cristiano Mota Mendes me escreveu:
"As boas coisas chegam de mansinho, sem alarde. Vagalumes é que acendem a noite. E trazem alegria."
Entendo que as crianças pulem ou gritem de alegria. No minuto em que li isso, ouvi sua voz, eu o vi e ao mesmo tempo me vi em Mauá, na varanda da minha casa na montanha, na noite escura, dentro da mata. Há um concerto de vagalumes, uma sinfonia silenciosa de luzes e a beleza é tão intensa que se poderia parar de respirar.
E sim, algumas coisas boas chegam de mansinho, sem fazer barulho, mas a gente tem que abrir o coração para recebê-las.

quinta-feira, 9 de fevereiro de 2017

TRABALHO NOVO

Começo um novo livro de poemas para criança.
Desde que a Manati fechou com um original pronto para publicar, desde que a Rovelle também com um original em andamento parou de publicar, desde que a Lê, com um original pronto para a gráfica não conseguiu publicar o livro, pela primeira vez desde que comecei a escrever para criança não tive mais vontade de escrever. Fiz o e book Livros e Leitores, um breve relato da minha vida de leitora e poeta, fiz o e book Delírios e já tenho outra coletânea pronta que pode virar um espetáculo de dança e ainda outra série de poemas em andamento. Para adultos.
Então subitamente passou por dentro de mim um desejo agudo de alegria e tive uma linda ideia. Os poemas vão saindo ensolarados e alegres, cheios de esperança, neste momento do mundo em que tudo é incompreensível e a barbárie corre solta.
Os poemas vão saindo como pássaros da cartola rumo ao sol.
É um milagre acontecendo dentro de mim. Um novo livro infantil.
Conseguir uma editora para ele é uma outra história.

segunda-feira, 6 de fevereiro de 2017

RITO DE PASSAGEM

A vida é feita de rituais de passagem. Alguns dias e fatos nos marcam profundamente.
Hoje é o primeiro dia de aula da minha neta Gabi, de três anos, sua primeira escola.
Ela tem uma vida diferente, vive no campo, mora dentro de um restaurante. Filha de pais artistas, nasceu numa família onde todos somos artistas e os valores que recebe diariamente não são os de uma sociedade consumista. Antes de tudo a alegria de se fazer o que se ama, depois a gente vê como paga as contas. Já tive períodos duríssimos, quando me separei sem nenhuma pensão, nenhum ganho fixo e em nenhum momento duvidei de que o meu caminho era esse: ter tempo para ler e escrever. Como diz uma amiga, Teresa Neves, há momentos de manteiga e outros de margarina. Outra amiga, Juliana Sperandeo diz: é o que temos para hoje.
Não há pior castigo do que se fazer o que não se gosta ou escolher um caminho só pensando nos ganhos. E morrer de trabalhar para ganhar, acumular.
A minha poesia me deu tudo o que tenho e sou fiel a ela.  Escrever poemas, como dizia o Manoel de Barros, um inutensílio, é a razão da minha vida.  Para que mesmo serve um poema?
A vida é muito breve. Não dá para desperdiçar nem um minuto sem amor.
E são esses os valores que cada dia a Gabi recebe em doses fartas.
Morar no campo e dentro de um restaurante com os sabores e aromas permeando a casa, é o maior tesouro que poderia ter recebido da vida.
Assim como meu neto Luis mora dentro de uma escola de música e essa já é uma outra belíssima história. Todos os dias caminha sobre sete notas musicais, com um pai músico e mãe poeta tecelã de sonhos.
E a partir de hoje Gabi construirá outros afetos dentro de uma escola rural.

quinta-feira, 2 de fevereiro de 2017

TOLERÂNCIA

Hoje falava de tolerância.Porque cedinho de manhã fui ao mar levar flores para Iemanjá. Não havia ninguém na praia imensa, quilômetros de areia branca, só eu e as flores e o mar. Acontece que sou judia. Meus pais vieram da Polônia e o judaísmo está profundamente enraizado em mim, raízes fortes e profundas, no que para mim o judaísmo tem de melhor: o humanismo (nada a ver, por favor, com o governo de Israel!), os livros, a comida. As festas religiosas na casa da minha avó Faiga eram o ponto alto da minha infância. Mas ofereço flores a Iemanjá e me sinto forte ao fazer isso. Viemos todos da África , o homem ancestral veio de lá. O primeiro casal.
Me sinto também africana. Quando estive em Abidjan me esquecia que era branca.
Quando passo numa Igreja, às vezes entro e me sento e faço um pedido, como faço meditação todos os dias. Entraria sem sustos numa mesquita. Não deixo nunca de ser judia.
Mas quando o judaísmo, o cristianismo e o islamismo se tornam intolerantes, sabemos o que acontece.Quando a sociedade se torna intolerante sabemos o que acontece.
Jesus era  judeu e o Islã nasceu de Ismael, o filho da escrava Agar que se deitou com Abrão.
Mas tolerância não é a palavra conveniente, porque tolerar é aguentar com dificuldade. E não é isso que quero dizer.
O que quero dizer é que é possível aceitar o outro e sua diferença. O outro e suas igrejas, o outro e suas convicções políticas. É nessa aceitação que o diálogo se faz. Desde que não se coloque a morte e o muro no meio.

quarta-feira, 1 de fevereiro de 2017

DISTÂNCIA

Às vezes dá uma saudade. Uma saudade de tudo. De pai, de mãe, tio, tia,de amigos e filhos e netos e irmã, tanta gente que a gente ama vivendo longe . Alguns nas estrelas.  Há uma fronteira para a saudade. A gente se distrai construindo as horas do dia, escrevendo, lendo, cozinhando, pensando e está tudo quieto do lado de dentro, mas de repente algo acontece. Um perfume, uma janela que bate com o vento, o azul de uma flor, uma linha que se lê ou um poema e pronto, sem nem reparar passamos a fronteira e a saudade vem com uma onda e submergimos até sairmos do outro lado.

DISTÂNCIA

A distância
não se mede
no mapa
por compasso,
em linha reta,
mas sim
por voo de pássaro,
abelha,
ou pela quantidade
de chuva ou luz
que inunda o espaço.
A distância se mede
com o número
de nós com que
se amarra a saudade,
se costura a saudade
na pele.

In DELÍRIOS, ebook.

terça-feira, 31 de janeiro de 2017

MAPA

Quando o ano começa, não sei nem faço ideia do mapa das minhas viagens, se é que acontecerão.
Existem algumas promessas, como velas brancas no horizonte, mas nenhum visto ou carimbo em meu passaporte feito de ar.
Talvez eu vá . Talvez eu vá para lá, não sei.
Mas ao mesmo tempo em que não sei, em que viajo a bordo dessa nebulosa , vejo tanto beleza no que pode ou não acontecer.
Como se houvesse uma caixa mágica, abro a caixa e não sei o que sairá de dentro, qual mapa será assinalado.
E é sempre a minha poesia que me leva , é a minha lamparina , é a palavra que abre todos os meus caminhos.
Sei que o caminho é sinuoso, nunca em linha reta.

LINHA RETA

Não busque
a linha reta,
o começo,
meio e fim,
a métrica.
Mas sim a desordem
da floresta,
dos fluxos,
a sede,
a falta.
E assim,
com as mãos molhadas
de vida
(porque são secas
as mãos dos mortos),
mergulhe
na voragem
do tempo.

In MIRAGENS, ebook

 

segunda-feira, 30 de janeiro de 2017

ALGUMAS HORAS

Algumas horas do dia são especialmente mágicas. As primeiras, é maravilhoso ver amanhecer.
As últimas, é maravilhoso ver o dia se apagar.
O verão é duro, altas temperaturas, a cidade cheia, vizinhos que escutam música a toda altura ou queimam lixo junto com plástico esparramando fumaça tóxica por toda a casa.
Mas cedinho de manhã, tudo é perfeito. Como um presente antes de abrir. Ou um buquê de flores que recebemos sem esperar no dia do aniversário.
E ao entardecer quando as últimas luzes formam um belo acorde e as estrelas e o vento roçam a nossa pele.
Entre uma ponta e outra, a vida, o linho do cotidiano,as notícias, o mundo que entra pela janela. Mas por estes dias estou vivendo entre muitos países, Bulgária, Inglaterra, Viena, Zurique, andando pelas ruas da infância e juventude de Elias Canetti, no começo do século XX. Estou tão apaixonada pelo livro A Língua Absolvida, que não queria terminá-lo, mas aliviada descubro que é uma trilogia e não preciso me entristecer quando acabar. Terei mais dois. E sempre poderei ler de novo, pois adoro reler. Enquanto caminho e vivo com Elias a sua infância, consigo suportar o calor, nesse milagre que é poder viver tantas vidas ao mesmo tempo.

sexta-feira, 27 de janeiro de 2017

UMA GATA EM JERUSALÉM

Tenho uma leitora brasileira em Jerusalém, Eliane Magal, que sabendo que gosto de gatos, me contou:
Que nunca havia tido um gato, sempre cachorros. Nem gostava de gatos. Mas um dia, um colega do trabalho (trabalhavam num asilo de velhos) lhe pediu para dar uma carona para uma gatinha abandonada para o trabalho. No asilo havia um quintal e os velhos alimentavam alguns gatos.
No carro a gatinha começou a miar e Eliane começou a conversar com ela, uma fala meio cantada, meio canção de ninar. A gatinha se acalmou completamente e no trabalho começou a buscá-la. Minha leitora conta que se apaixonou perdidamente e instantaneamente. O que os franceses chamam de "coup de foudre". E tomou uma decisão ali na hora.Ligou para casa, falou com seu companheiro que daquele momento em diante teriam uma gata. Ele não gostou da ideia mas ela seguiu em frente.
Colocou Bubi (nesse momento já tinha um nome!) dentro da caixa, avisou que iria embora mais cedo e fez o caminho inverso. Colocou Bubi no banco fora da caixa. A gata começou a subir em seus ombros. Eliane pediu a gata que ficasse quieta. E para sua surpresa Bubi ficou quieta.
E para sua surpresa Bubi obedecia , bastava dizer não uma vez que nunca mais Bubi faria aquilo que não queriam.
Bubi saía para dar uma volta no pátio na frente da casa. E sempre que minha leitora ia ao portão chamá-la,  ela vinha.  Já era uma gata adulta.
Mas não se sabia que uma outra gata se achava a dona do pedaço. E que uma guerra já estava sendo travada entre as duas.
Então, numa tarde, Bubi não voltou. Eliane e seu companheiro a encontraram morta. Sua coleirinha destroçada. A outra gata a matou.
Conta minha leitora, que muitos anos e muitos gatos depois, ainda a vê e ouve seu miado e sente seu cheiro.
Bubi ensinou para a minha leitora o tamanho do amor que pode existir entre um humano e um gato.    

quinta-feira, 26 de janeiro de 2017

ELIAS CANETTI

Depois que minha professora de italiano , Celmar dos Reis, foi embora de Saquarema, não consegui mais ninguém para me dar aula de conversação.Mas vejo a RAI e leio. Não tenho com quem falar.
Já li alguns livros em italiano, alguns muito bons. Mas agora estou lendo um livro maravilhoso do Elias Canetti, La Lingua Salvata, onde conta as suas memórias da infância e juventude.
As histórias são belíssimas e sua escrita é limpa  e mexe com nossas emoções.
Para uma criança decifrar o mundo é tarefa gigantesca e Canetti consegue fazer com maestria, que o leitor sinta isso.
Entra muitas histórias escolho uma.
A família vivia numa pequena cidade na Bulgária. Eram judeus sefarditas, de origem espanhola. Os parentes moravam muito perto uns dos outros.
E de repente todos falavam que o mundo iria acabar por causa da aparição de um cometa, visível dentro de alguns dias. Os adultos tinham um ar consternado, de tristeza profunda. Olhavam para o pequeno Elias com pena e tristeza, coitadinho, tão pequeno e já perderia o mundo e a vida. Como o pequeno poderia entender isso?Sabia apenas que algo muito estranho e perigoso estava acontecendo.
E então chegou o cometa. Imenso, iluminando o céu, de uma beleza fulgurante e todos achavam que cairia na Terra. O pequeno Elias foi para fora, junto com a família. Havia já uma multidão. Ninguém prestava atenção na criança, todos com os olhos grudados no céu. Elias comia uma cereja e seu pescoço doía de tanto olhar para cima, tão extasiado, que sem querer engoliu o caroço da cereja. Para ele, o cometa Halley e o gosto das cerejas estariam para sempre interligados.
E o cometa não caiu na Terra e o mundo não acabou.

quarta-feira, 25 de janeiro de 2017

FELICIDADE E JULGAMENTO

Hoje me deparo com um post publicado no facebook:

" Vivemos em um mundo onde somos julgados por tudo . Até por tentar ser feliz. "

Leio inúmeros artigos sobre as redes. Estamos nos expondo continuamente. Queremos ser lidos e vistos e aplaudidos. Dividimos nossas vidas com desconhecidos. Antes éramos julgados pela família e por um número muito restrito de conhecidos. Hoje a nossa rede se ampliou de uma maneira que nunca poderíamos imaginar . Acontece que em cada tempo estamos imersos em nosso tempo.Não dá para fugir disso. É bom ou ruim vivermos conectados desta maneira a tantos gente que não conhecemos? Não sei dizer. Nem temos distanciamento ainda para saber. É tudo muito novo. Sei que quando publico um poema inédito imediatamente sou lida por 100 pessoas, no mínimo. E sim, sou julgada. Quando escrevo algo que penso, sim, sou lida e julgada.É um risco.
A felicidade é outra questão complexa. Como definir a felicidade? É alegria, sensação de plenitude, desejos realizados? Como ser feliz neste mundo terrível, que parece às vezes um beco sem saída? Tenho direito de ser feliz enquanto milhares de pessoas vagam por aí fugindo de guerras?
Então, o que se faz para que esse julgamento não nos afete? Para que nossa busca prossiga já que a vida dos humanos é tão breve?  E já que faz parte do humano desde sempre buscar a felicidade, buscar o voo?
Penso num livro do meu escritor espanhol predileto Antonio Muñoz Molina, "Ardor Guerrero". Amo de paixão este livro. O autor está servindo o exército. Para sua sorte sabe escrever à máquina, então pode trabalhar num escritório, o que o salva de milhares de humilhações. Mas sobram algumas. Muitas vezes um sargento terrível entra no escritório, espalha papéis e terror, xinga, acaba com a auto estima dos dois. Ridiculariza cada um deles em suas incapacidades.  E seu amigo, o que trabalha junto com ele, que também é um apaixonado por literatura e consequentemente não cabe no exército, não se abala. Molina quase morre , quando o sargento sai ele está tremendo da cabeça aos pés. Então pergunta ao amigo como é que ele faz para não se deixar aniquilar. O amigo responde :
"_ Te cagas".
Assim, com a maior simplicidade. Você pensa: e daí?  que me importa?
Se não estou fazendo mal a ninguém não vou deixar que isso me afete. A minha consciência será sempre o meu juiz.  Em tempos de rede social temos que ter clareza em nossas buscas.